Contos verdadeiros, talvez enfeitados pelo meu amor pela vida. Agradeço a motivação insistente de amigos e amigas, sem a qual eles jamais teriam saído do meu computador (sorriso).
sábado, 31 de março de 2012
O CAMINHO É MAIS IMPORTANTE
Março de 1970. Primeiro dia de aula. No mural do corredor do terceiro andar, o quadro com a carga horária do primeiro ano do Curso de Letras.
Segunda-feira, sete e meia da manhã: Professor Renato – Teoria Literária.
Um homem de olhar decidido entrou na sala logo depois que me sentei. Um homem de óculos e barba. Ou seria um bigode? Não me recordo se tinha barba, mas bigode, com certeza, tinha. Sei disso porque me lembro bem de uma das aulas, Renato recitando o poema das Sete Faces, de Drummond:
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Lembro-me de que, enquanto Renato nos falava a respeito de Drummond, eu divagava comparando a poesia de Drummond à sabedoria daquele professor... ambos escudados pelos óculos e pelo bigode. Lembro-me da sensação que senti, naquele momento: a poesia me reportando aos óculos e ao bigode daquele mestre que, com zelos de pai cuidadoso, mas disciplinador, nos inspirava, ao mesmo tempo, um tremendo respeito e um tremendo carinho.
O que mais me marcou no Renato, no entanto, foi a certeza que ele sentia do que estava fazendo conosco. No primeiro dia, sentado a nossa frente, sua primeira frase foi:
- Estou aqui para fazer vocês entenderem os estilos literários, a base para que possam estudar toda a literatura do curso. Preparem-se, pois não vou refrescar nem um minuto.
E não refrescou mesmo! E aprendemos! Nossa! Quanto!
Renato começou pelo estilo épico. Ele não soube (ou será que soube?), mas a primeira frase que disse, carimbou uma visão de vida fundamental em meu coração. E esta foi apenas uma das lições de vida que tive de Renato, a que destaco para apresentá-lo a você:
- No estilo épico, o caminho é mais importante do que a meta.
Lembro-me de sua voz solene, empunhando um livro que logo descobri qual era:
- Se vocês abrirem a Ilíada, lerão, logo nos primeiros versos: Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta que causou inumeráveis dores aos Aqueus...
Renato era envolvente, compenetrado:
- E logo ali, no começo, Homero já nos conta o motivo da cólera de Aquiles e suas consequências! Nos primeiros versos, já sabemos o final da história!!! Aquiles mata Heitor, príncipe de Troia, por ter este matado Pátroclo, seu melhor amigo! Então, não há suspense na trama. No épico, já sabemos o final logo no começo!
E continuava portentoso:
- Por que ler tudo então? Porque, no épico, o caminho é mais importante do que a meta!
Não sei por que as aulas de Renato eram estrondosas em meu coração. Não era amor pelo mestre, embora também existisse. Era fascínio pelo seu conhecimento. Para mim, suas aulas não eram, muitas vezes, apenas aulas de Teoria Literária. Eu lia entrelinhas do impacto que elas quase sempre me causavam. Naquele dia, especialmente, Renato me dava aulas de filosofia de vida!
O caminho é mais importante do que a meta... não resisti:
- Como a morte, professor, todos sabemos que vamos morrer.
Lembro-me de que Renato parou de súbito, olhou para mim, recém saída da adolescência, e não resistiu:
- Sim, menina, somos heróis épicos.
Naquele segundo, naquele olhar de pai para filha, uma nova visão de mundo se compôs para sempre em meu coração, desde então mais consciente e desperto ao ouvi-lo dizer:
- Vamos morrer, é a única certeza que temos. O importante é o que fazemos entre o “agora” e o “lá”.
Sorriu. Eu sorri. Ele voltou a falar da Ilíada. Mas nós dois sabíamos que, apesar de ter sido uma aluna aplicadíssima na disciplina por todo o resto do ano, o melhor de todos os ensinamentos ele me dava assim.
Muitas, muitas vezes, em momentos singelos ou decisivos de minha vida, aquela frase jogada como semente em meu coração, num segundinho de tempo entre mestre e discípula, despontou forte em minhas decisões: a maior consciência da força do herói épico moldou em mim a guerreira, a mãe, a filha, a mulher, a mestre e uma discípula de vida mais consciente dos próprios passos.
Reencontrei a imagem de Renato muitas vezes, através de minhas leituras, como em Gandhi, por exemplo, quando dizia: “não há um caminho para a paz, a paz é o caminho”...
Hoje, quando vejo pessoas sôfregas por resultados, pulando etapas, engolindo em seco, cortando caminhos de vida, cumprindo “metas”, lembro-me de Renato, lembro-me de Gandhi, lembro-me da menina embevecida pelos ensinamentos do mestre:
- Sim, menina, somos heróis épicos. O caminho é mais importante do que a meta.
Obrigada, Renato. Como gostaria de saber por onde você anda agora...
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sábado, 24 de março de 2012
UM QUATRO MEIA
Estava preenchendo a minha declaração anual de imposto de renda, como boa e comportada contribuinte.
Minha declaração é muito simples, mas resolvi fazer a extensa. Motivo óbvio: se fizer a resumida, pago imposto; se fizer a extensa, declarando todos os infinitos absurdos que pagamos ao plano de saúde e mais as consultas que não pertencem ao plano, recebo um monte de grana de volta! Então, vamos ao extenso!!!
Só que emperrei numa bobagem que qualquer contribuinte um pouquinho experiente saberia. O que fazer?
Ora, muito fácil: temos um número “salvador” da Receita: 146.
Peguei o telefone com a confiança do contribuinte que paga seus impostos em dia, faz tudo no figurino e que, portanto, não tem dúvidas sobre a responsabilidade do ou da atendente que, do outro lado da linha, estará super pronto ou pronta para entender sobre todas aquelas linhas que são infinitas (para nós, reles mortais), mas limitadas linhas que cabem dentro de seu treinamento para o atendimento ao contribuinte. Com certeza, ele ou ela deveria ser tão bom ou boa quanto o é o programa super simples e sofisticado que entra em nosso computador com um rápido e singelo “click”.
Preencher o formulário é mesmo quase um brinquedo! Fiz isso tão rápido e com tanta facilidade que eu mesma me surpreendi. Mas faltava só saber como colocar aquela besteira de informação!...
No número 146, encontrei todas as facilidades e apertei, rápido, a opção “falar com um de nossos atendentes”, confiante, feliz, quase achando que eu já estava com o formulário preenchido. Seria uma questão de minutos!
Levei apenas 40 segundos até que ouvisse a voz da atendente do outro lado da linha:
- Em que posso ajudar?
Expliquei meu caso simples.
Resposta singela:
- Tente colocar lá, no montante do que já foi retido.
-"Tentar" colocar lá, no montante, sem especificação?
- É, veja se dá certo.
- Como "veja se dá certo?" Estou ligando para vocês para obter uma informação específica, séria e consistente. Mesmo que "desse certo" e que esse maravilhosíssimo programa que vocês nos mandam não acusasse erro no item "verificação de pendências", não quero deixar de especificar o que e onde paguei o tal imposto!
- Sinto muito. Estou aqui só para atender a solicitações básicas.
- Mas é básico você me dizer em que linha eu devo declarar uma quantia que não se encaixa no primeiro item!
- Não faz parte do nosso treinamento. A senhora procure um posto de atendimento em sua cidade. Posso ajudar em mais alguma coisa?
- Claro que pode! (e você pode imaginar a indignação que me tomou nesse instante...), claro que pode! Ao menos me diga os endereços dos postos para onde você está me mandando!
- Isso eu não sei não senhora.
- Então procure saber aí, pois eu não vou desligar sem um mínimo de informação possível.
- Um momento, por favor. De que cidade a senhora é?
Dei-lhe a informação e esperei uns minutos (felizmente não muitos). A singela moça veio com os endereços dos postos no Rio de Janeiro. Pedi o protocolo de atendimento.
- Infelizmente, não podemos fornecer o protocolo. O sistema não está disponível no momento.
Pois é... aquele fantástico sistema que nos oferece um programa super hiper sofisticado que faz com que preenchamos com facilidade e total segurança nossas declarações (diga-se de passagem que é um dos programas mais competentes e simples que eu conheço, falando sério!), não estava funcionando para me fornecer o protocolo necessário para eu fazer a maior reclamação que um contribuinte poderia fazer ao sac da Receita Federal(se é que isso existe).
Desliguei o telefone atônita...
Com certeza, era uma coisa simples, mas não queria importunar um amigo ou uma amiga por causa dessa bobagem. Era tão simples que não valia a pena sequer pagar um profissional para obter uma mínima informação sobre uma linha, provavelmente, a mais óbvia possível, que eu não enxergava só por ser uma completa inexperiente...
Escrevi um mail para uma amiga, cheia de embaraços, por estar ocupando o seu tempo.
Realmente, era uma idiotice muito simples. Resolvi o problema e mandei meu formulário pela perfeita, corretíssima, simplérrima receitanet.
Incrível. Não perca tempo ligando para o 146. Você vai-se arrepender. O formulário é mesmo auto-explicativo. Se não for e se sua declaração é tão simples como a minha, confie na boa vontade dos amigos: quem tem um tem tudo... mesmo acima da desilusão com o direito conferido pela cidadania...
domingo, 18 de março de 2012
UNIFORME
Gosto de caminhar. Quilômetros impensados. Nos finais de semana, pelo menos uma vez, quase sempre chego aos 16 quilômetros. Umas duas vezes por semana, faço a praia de Copacabana ida e volta: 8 quilômetros.
Sinto prazer em caminhar e, de quebra, controlo o colesterol, que é alto por herança genética e não por abuso de alimentação.
Caminhar traz muitas alegrias, além de fazer bem à saúde. Nos dá um tempo interior indispensável para pensar ao ar livre, nos deixa mais dispostos para observar a natureza, buscar novas trilhas e rumos, enfeitar a vida... e... descobrir coisas novas do convívio nesta cidade.
Hoje, fiz daquelas caminhadas de 16 quilômetros... caminhava comigo e com a cidade, com as pessoas passando por mim. Foi quando reparei em algo que já acontece há anos e não tinha notado tão conscientemente: há pessoas que a gente cumprimenta, outras não... há lugares em que a gente cumprimenta as pessoas, outros não.
Por exemplo, nas trilhas da floresta da Tijuca, os passantes sempre se cumprimentam... e sorriem! Na trilha da Urca, a da Gago Coutinho, uns cumprimentam, outros não. Passo, digo bom-dia e fico apostando comigo mesma: esse vai cumprimentar, esse não vai... e, quase sempre, acerto. Treino de estudos sociais...
No calçadão, na zona sul, não se cumprimenta. Fazer isso é cantada quase certa. Se for um gato, talvez valha a pena, mas, se for do mesmo sexo, também se corre o risco. Nada contra o homosexualismo, sou simpatizante, mas... como sou hetero, já tive de me desincumbir de situações embaraçosas. Assim, por via das dúvidas, se o objetivo é mesmo caminhar, não se cumprimenta.
Lembro-me pequenina, dando bons-dias para as pessoas e minha mãe me ensinando que não se fala com desconhecidos... acho que não adiantou. Tenho a impressão de que nasci com a alma de cidade do interior. As pessoas, em torno de mim, são pessoas, não bonecos, não “coisas andantes” a quem não se dá atenção...
Mas, nesta grande cidade, descobri que uma coisa é certa: os policiais civis e militares, os bombeiros, os garis, os militares das forças armadas, os seguranças (de qualquer empresa), todos, todos cumprimentam. Qualquer cidadão que esteja uniformizado, em pleno exercício de suas funções, já percebi, responde gentilmente a qualquer cumprimento. E a maioria com um ligeiro sorriso.
E é engraçado. Depois que descobri isso, sempre passo por um, cumprimentando. Faço porque gosto e, também (por que não?), para conferir.
Eu sei que cumprimento a pessoa por trás do uniforme, já sabendo que terei um cumprimento de volta.
Mas fico pensando: quem será que me responde? A pessoa por trás do uniforme ou o uniforme?
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sábado, 10 de março de 2012
SÓ PARA GARANTIR
Tive uma violeta linda. Uma violeta africana, dessas “comuns” mesmo. Pelo menos, eu pensava que ela era “comum”.
A única foto que tenho é uma de quando ela era bebê. Pensei que já era uma violeta adulta, mas não. Ela era grande assim mesmo, só que bebê. Não fiz nada de especial senão coloca-la no lugar de honra da sala: a mesinha de centro. Bem... pelo menos, eu pensei que não estava fazendo nada de especial. Eu a achava linda linda, embora eu nem seja assim tão fã de violetas. A prova é que nunca mais pensei em comprar outra.
Foi um caso atípico de conquista. Ela me envolvendo pouco a pouco, dia a dia. Eu regava, cuidava dela normalmente, sem nenhuma atenção especial e ela lá, desabrochando para mim, sorridente, cúmplice, amiga. Foi um presente de uma aluna. Professores ganham (ou ganhavam?) flores com freqüência e, vez por outra, minha sala estava enfeitada: aniversário, dia dos professores, festa de fim de semestre... enfim, desta vez, o presente estava teimosamente me mostrando que tinha chegado para ficar.
E começou a crescer, crescer, e a dar flores, flores, flores... tão insistentemente que acabou conquistando, de verdade, o meu coração.
As visitas entravam e a olhavam imediatamente perguntando:
- Que planta é essa?
- Uma violeta.
- Desse tamanho? Não pode ser!
Podia. Ela era prova disso.
D. Djanira, esposa do Sr. Aluisio que, com certeza, um dia, terão um conto só para eles, tinha mãos de fada com as plantas. Nordestina, da Paraíba, morando no Rio desde os 17, já estava enturmada com nossos falares, nossos costumes, nossas mandingas, mas tinha lá seus palpites da terra:
- Menina, põe uma figa nessa planta, Deus seja louvado!
Não pus, mas... por via das dúvidas, arranjei um berçário de violetas na área de serviço. Tinha sempre mudinhas crescendo por ali. A visita entrava, punha os olhos na planta, elogiava e eu imediatamente ia ao berçário, pegava uma muda e presenteava a visita. Assim, com uma filha direta só para ela, deixaria a energia da minha em paz. Era o que eu pensava e parecia que dava certo. Superstição ou não, mal não fazia.
Um dia ouvi um barulhinho diferente na sala. Corri para ver. Era a violeta. Tinha crescido tanto que se partira em dois e, tombada, metade uma para cada lado, me deixou estarrecida. Corri para comprar outro vaso, não tinha jeito: para salva-la tinha de replantar. Deixei as duas na mesma mesinha, mas aí ficou meio desajeitado. Esperei uns dias para recuperação e procurei outro canto para a que comecei a chamar de “irmã mais nova”, já que era um pouquinho menor.
Levei-a para o quarto de estudos, contíguo à sala. Não tinha muito onde ficar e a coloquei, meio torta mesmo, na prateleira perto da janela. Estava nítido que ela estava “sobrando” ali, mas não achei um lugar melhor.
Os dias se passaram, talvez umas semanas. E... as duas crescendo, crescendo de novo. De vez em quando, levava a irmã mais nova para visitar a irmã mais velha, deixando-as tão perto que pudessem se tocar. Mas, realmente, não cabiam muito bem ali e, após a visita quase dominical, a mais nova voltava para o quarto.
Com o tempo, a mais nova, já muito encorpada, começou a sentir a falta de espaço. E também o calor maior da janela, pois tinha chegado o verão. Eu não sabia muito o que fazer, pois a área de serviço não tinha claridade suficiente para uma violeta adulta e, fora isso, só o quarto de dormir que também não era lá essas coisas para acolhe-la como deveria.
Enquanto eu estava nessa dúvida, apareceu D. Djanira, de novo. Sentou –se na sala e logo perguntou:
- Você podou sua planta?
Expliquei-lhe o ocorrido e também o meu problema. Foi quando tive a idéia:
- Sabe, a senhora seria a única pessoa a quem eu daria a irmã gêmea dessa, sem preocupações, quer?
- É você tem razão... a outra não é muda desta. Do jeito que foi, são mais para irmãs gêmeas mesmo. Será uma honra leva-la comigo. Já sei até onde coloca-la, num lugar bem parecido com essa sua daqui.
E me descreveu o local de sua casa, que eu conhecia muito bem. Concordei e ela levou toda cuidadosa, a irmã mais nova, depois, evidentemente, de as deixarmos juntas uma boa parte da tarde.
Os dias se passaram. Não sabia explicar o que estava acontecendo, mas minha violeta, pela primeira vez ficou adoentada. Apareceram uns fungos que eu nunca tinha visto e, também, umas folhas pareciam melar. No princípio, não liguei muito, mas, logo depois, comecei a ficar preocupada.
Fiz de tudo: extratos com anti-fungos, água com fortificantes especiais específicos para violetas. De nada adiantou. Um mês depois ela morreu. Peguei as mudas e dei um bom trato nelas. Alguma iria desabrochar com mais força e a colocaria no lugar. Mas, nenhuma se desenvolveu. Viraram violetas normais. Pouco depois, eu não tinha mais violetas em casa.
Liguei para D. Djanira:
- Minha querida, a senhora vai rir... mas preciso de uma muda daquela violeta. Imagine, depois desses anos (acho que eu já a possuía há uns dois anos) ela simplesmente morreu. Ela e suas mudas! O que terá sido?
A voz de minha amiga soou tristonha:
- Não queria lhe dizer porque você me deu aquela com tanto carinho e foi também com todo o carinho que eu cuidei dela, mas... deu fungo, melou e depois de mais ou menos um mês, morreu. Acho que não deveríamos te-las separado. É a única explicação que eu tenho.
Pois é... vai entender...
Passei um tempo muito triste.
A partir daí, mais atenta, passei a ouvir mil e uma histórias de plantas e suas reações. Jamais as coloquei em dúvida.
Hoje tenho uma avenca enorme, no mesmo lugar. Também veio pequenina. Digo que é minha secretária energética, já que dizem que avenca, dentro de casa, só se dá bem em ambientes de paz e harmonia. É uma planta muito sensível. Fico atenta a suas reações. Mas ela está lá, felizmente, muito bem.
Dou-lhe bons-dias, boas-tardes e boas-noites. Não a rego com tanto esmero, todos os dias, como dizem os livros que as avencas precisam, mas a rego com respeito, amor e dedicação. Está lindinha e fofa. E se espalha abusada por toda a mesa, quase como se fosse uma samambaia.
A história se repete. As visitas entram e comentam:
- Que samambaia delicada você conseguiu achar!
- É avenca.
- Desse tamanho? Não pode ser!
Às vezes, fico pensando que aquela mesa de centro da sala tem lá seus poderes...
De qualquer modo, cresça o que crescer, minha avenca vai ficar inteirinha ali, sem separações. E, me lembrando de D. Djanira e sem poder tirar mudas da delicadíssima planta, não pus figa, mas tem lá uma turmalina e uma ametista por perto do vaso... só para garantir.
sábado, 3 de março de 2012
ERA PARA SER UM CONTO
Fiquei olhando para a lista de contos já publicados. Pensei que jamais passaria do vigésimo...
Tenho um arquivo onde guardo todos. Hoje, passo para a casa dos três dígitos: uma centena.
Ué... em que canto da mente e do coração estavam guardadas tantas histórias?
Uma foto antiga, um momento vivido, quanta coisa para se viver no dia-a-dia.
Agradeço à vida pelos altos, médios e baixos. Aliás, por tocar no assunto, isso me chama a atenção: já notou que ninguém fala dos médios? Minto. Ninguém, não. Mas é muito raro.
- Como vai a vida?
- Médio.
O mais comum é mesmo não dar crédito ao “médio” :
- Como vai a vida?
- “Entre” altos e baixos.
Outros, completam:
- “Entre” altos e baixos, vai tudo bem...
O que seria esse “entre”? Seria igual ao momento do “médio”, onde, de forma geral, tudo fica meio que no “vai tudo bem” igual a com cheiro de rotina? Ou seriam os pulos que se dá de um alto para um baixo, ou vice-versa? Acho que tem mais cara desse último...
Me parece ser como se a vida só tivesse vibração nos altos e baixos, como se os médios não importassem, como se não fizessem uma parte saudável também intrínseca de nossas vidas.
Fiquei pensando um pouco sobre isso, quando me sentei para escrever o conto de hoje. Pensava nos altos e baixos de minha vida... foi quando parei para pensar nos... “médios”! Por que não?
Vivi tanto... vida de altos e baixos... e os médios? Mas observei também que, talvez, muitas vezes, eles se escondam nas respostas quase automáticas:
- Como vai a vida?
- “Assim assim”.
Não sei se é resposta tipicamente carioca. Vale também por “mais ou menos”. Mas, na verdade, para mim, esse “assim assim” me soa como “médio” e me parece dar uma impressão de algo que deixa a pessoa “meio sem luz”. Médio. Nem alto, nem baixo. Nada, afinal, que mexa com as emoções de modo ativo e, às vezes, avassalador.
Os ditos populares revelam tudo: “os altos e baixos da vida”...
Não me lembro de um dito popular com "médio”, assim assim” ou “mais ou menos” para definir um estado num momento de vida.
Médio.
Não é quente, nem frio... é o quase insensível, porque talvez pareça estar na “temperatura do corpo” e, por causa disso, vivido como “temperatura rotineira da cabeça e do coração”.
Embora todos digam que anseiam pela tranqüilidade e paz, uma vida amena, esse “médio” soa quase como que “sem graça”!
O médio mexe pouco com a emoção, seja ela qual for. Não estimula os hormônios, não põe o coração para bater apressado, seja de angústia ou de júbilo, de guerra ou de paz. O médio é morno, nem quente, nem frio. Não desperta os sentidos. Médio.
Mas o médio frutifica a vida, se sentido em sua integridade. Não vivemos de altos e baixos. Vivemos do todo, seja ele qual for. E o médio, embora “médio” , pode ser tão intenso quanto qualquer alto ou baixo, pois também nos impõe a criatividade, a ação em busca de... ah... claro... de um alto, naturalmente...
Me faz pensar no I Ching... a linha média - que estabiliza o momento – se prepara para a linha do alto que é quase a transformação para um novo ciclo que, por sua vez começa lá na linha de baixo, de novo...
Médio. O que seria “dos altos e dos baixos” se não fosse o médio? O que seria sentir o coração pulsar mais forte, se não conhecêssemos o seu descanso?
O que seria das luzes e das trevas, não fosse a penumbra?
Nem noite nem dia: justamente o alvorecer e o anoitecer. Momentos mágicos.
É a estabilidade que não permanece, mesmo que você esteja “plantado” nela. A vida dá voltas e voltas e voltas, quer você queira quer não e... passando sempre pelo médio, pela tomada de fôlego.
O médio é como o fiel da balança, o equilíbrio, o que nos coloca no prumo, nos preparando para as vivências mais fortes das linhas extremas: alto e baixo. Amar e vivenciar o “médio” é semear para colher. É preparar-se, equilibrar-se para subir ou descer. É aprender a viver cada vez melhor e mais sabiamente.
I Ching.
Fiquei pensando nisso e meus dedos, no teclado, foram acompanhando meu pensamento...
É... era para ser um conto... o conto “cem”.
Obs.: Foto de Hiroto Yoshioka
Tenho um arquivo onde guardo todos. Hoje, passo para a casa dos três dígitos: uma centena.
Ué... em que canto da mente e do coração estavam guardadas tantas histórias?
Uma foto antiga, um momento vivido, quanta coisa para se viver no dia-a-dia.
Agradeço à vida pelos altos, médios e baixos. Aliás, por tocar no assunto, isso me chama a atenção: já notou que ninguém fala dos médios? Minto. Ninguém, não. Mas é muito raro.
- Como vai a vida?
- Médio.
O mais comum é mesmo não dar crédito ao “médio” :
- Como vai a vida?
- “Entre” altos e baixos.
Outros, completam:
- “Entre” altos e baixos, vai tudo bem...
O que seria esse “entre”? Seria igual ao momento do “médio”, onde, de forma geral, tudo fica meio que no “vai tudo bem” igual a com cheiro de rotina? Ou seriam os pulos que se dá de um alto para um baixo, ou vice-versa? Acho que tem mais cara desse último...
Me parece ser como se a vida só tivesse vibração nos altos e baixos, como se os médios não importassem, como se não fizessem uma parte saudável também intrínseca de nossas vidas.
Fiquei pensando um pouco sobre isso, quando me sentei para escrever o conto de hoje. Pensava nos altos e baixos de minha vida... foi quando parei para pensar nos... “médios”! Por que não?
Vivi tanto... vida de altos e baixos... e os médios? Mas observei também que, talvez, muitas vezes, eles se escondam nas respostas quase automáticas:
- Como vai a vida?
- “Assim assim”.
Não sei se é resposta tipicamente carioca. Vale também por “mais ou menos”. Mas, na verdade, para mim, esse “assim assim” me soa como “médio” e me parece dar uma impressão de algo que deixa a pessoa “meio sem luz”. Médio. Nem alto, nem baixo. Nada, afinal, que mexa com as emoções de modo ativo e, às vezes, avassalador.
Os ditos populares revelam tudo: “os altos e baixos da vida”...
Não me lembro de um dito popular com "médio”, assim assim” ou “mais ou menos” para definir um estado num momento de vida.
Médio.
Não é quente, nem frio... é o quase insensível, porque talvez pareça estar na “temperatura do corpo” e, por causa disso, vivido como “temperatura rotineira da cabeça e do coração”.
Embora todos digam que anseiam pela tranqüilidade e paz, uma vida amena, esse “médio” soa quase como que “sem graça”!
O médio mexe pouco com a emoção, seja ela qual for. Não estimula os hormônios, não põe o coração para bater apressado, seja de angústia ou de júbilo, de guerra ou de paz. O médio é morno, nem quente, nem frio. Não desperta os sentidos. Médio.
Mas o médio frutifica a vida, se sentido em sua integridade. Não vivemos de altos e baixos. Vivemos do todo, seja ele qual for. E o médio, embora “médio” , pode ser tão intenso quanto qualquer alto ou baixo, pois também nos impõe a criatividade, a ação em busca de... ah... claro... de um alto, naturalmente...
Me faz pensar no I Ching... a linha média - que estabiliza o momento – se prepara para a linha do alto que é quase a transformação para um novo ciclo que, por sua vez começa lá na linha de baixo, de novo...
Médio. O que seria “dos altos e dos baixos” se não fosse o médio? O que seria sentir o coração pulsar mais forte, se não conhecêssemos o seu descanso?
O que seria das luzes e das trevas, não fosse a penumbra?
Nem noite nem dia: justamente o alvorecer e o anoitecer. Momentos mágicos.
É a estabilidade que não permanece, mesmo que você esteja “plantado” nela. A vida dá voltas e voltas e voltas, quer você queira quer não e... passando sempre pelo médio, pela tomada de fôlego.
O médio é como o fiel da balança, o equilíbrio, o que nos coloca no prumo, nos preparando para as vivências mais fortes das linhas extremas: alto e baixo. Amar e vivenciar o “médio” é semear para colher. É preparar-se, equilibrar-se para subir ou descer. É aprender a viver cada vez melhor e mais sabiamente.
I Ching.
Fiquei pensando nisso e meus dedos, no teclado, foram acompanhando meu pensamento...
É... era para ser um conto... o conto “cem”.
Obs.: Foto de Hiroto Yoshioka
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sábado, 25 de fevereiro de 2012
O FUSCA
Quem da minha geração não teve um fusca? Eu, claro, também tive o meu. Um fusquinha lindo, azul marinho, de segunda mão. Aprendi a dirigir em 1980, mas ele já estava lá, esperando que eu o dirigisse, desde 78, doido para ser meu dono. Isso mesmo. Meu coração apaixonou-se por ele desde o primeiro beijo.
Esse fusquinha tem mesmo mil histórias, a começar pelo fato de que nunca me deixou na mão. Era velhinho velhinho velhinho... mas nunca me deixou na mão. Quando ele não queria pegar, nunca era comigo. E a única trapaça que ele fez foi furar um pneu e, mesmo assim, na porta de casa. Um companheirão.
Ah, teve outra trapaça e desta, ainda me lembro com o coração apertado: foi na hora de vende-lo. Estava difícil me separar dele e logo descobri que estava difícil para ele também se separar de mim. Isso foi em 84, se não me engano. Ocorre que tínhamos comprado um Gol e tínhamos de levar nosso fusquinha, como entrada, para a loja que, por sinal, ficava em Bento Ribeiro. Para quem conhece o Rio, é longe pra caramba de Copacabana. Eu estava triste na ida e nem sequer quis dirigi-lo.
Descobri que ele também estava à beira do enfarte quando pifou no meio do caminho. Um mecânico de rua foi chamado e viu que tinha rompido a correia do ventilador. Colocou uma novinha e lá fomos nós... mas fomos só por uns quilômetros. Ele pifou de novo! Chamamos outro mecânico. Correia do ventilador novinha rompida. Era óbvio que ele estava tendo um problema sério de ventilação. Uma embolia? Um enfarte? Não sei... algo para combinar com a dona que estava a ponto de desistir de vendê-lo e guardá-lo em um museu.
Não sou do tipo de me apegar a coisas materiais. Por que aquele fusca fazia isso comigo? Tive uma boa meia dúzia de carros depois dele e nenhum me despertou tanta compaixão na hora da venda. Eu sabia que precisávamos de um carro novo, mas meu coração olhava para o fusca como um membro da família. Afinal, fora com ele que eu dera os primeiros passos ao volante. Na verdade, estava desconfiada que ele praticamente tinha me ensinado a dirigir...
Decididamente, aquele fusca tinha história. E tinha mesmo. Muitas. Mas vou escolher apenas uma para este conto.
Ocorre que eu estava fazendo meu curso de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, naquela época, ainda era na Av. Chile, no Centro da cidade, e não na Ilha do Governador, como é hoje. O curso de Letras funcionava em um prédio velho nem me lembro mais em que trecho enfurnado da Av. Chile e o curso de pós, para completar, funcionava no subsolo. E você pode imaginar em que condições...
As instalações do Fundão estavam prometidas, entrava ano, saía ano, mas eu brincava com o meu orientador de tese que não se mudariam antes de eu terminar o curso. Motivo simples: a Av. Chile fica logo ali... já o Fundão, como o próprio nome indica...
O fato é que minha boca funcionou. Fui a última tese defendida, em 1984, na Av. Chile. Dois meses depois, começou a mudança para as magníficas novas instalações da Ilha do Fundão. Até lá, no entanto, mais precisamente até 1984, meu fusquinha me levava de casa para a pós, de casa para a universidade onde eu dava aula e de casa para o sonho. Em síntese, eu já me considerava cabeça, tronco e rodas.
E foi justamente por causa do doutorado que vivi um dos melhores convívios acadêmicos de minha vida, tendo o meu fusquinha como sala de visitas!
É que eu sonhava por conhecer um lingüista chamado Bernard Pottier. Tinha lido toda sua obra e o imaginava portentoso, em sua cátedra da Sorbonne. Quem sabe, um dia, iria a Paris e pediria uma audiência... será que me seria concedida?
Não foi necessário. Ocorre que o dito lingüista era amigo do catedrático de Língua Portuguesa da UFRJ. Quem será que se lembra do olhar taciturno, compenetrado e gramatical do Professor Celso Cunha? Pois é, esse mesmo. E foi um de meus professores, logo no primeiro semestre de doutorado. Foi ele quem trouxe, como convidado, o eminente catedrático da Sorbonne para os subsolos da Avenida Chile. A disciplina intitulava-se Semântica e Sintaxe aplicadas à Língua Portuguesa e eu fui uma das primeiras a me matricular, sem dúvida.
No primeiro dia de aula, com o coração aos pulos e todos os livros relidos durante as férias, lá estava eu embevecida, diante daquele Professor que, desde o primeiro instante, num português impecável, nos falava com uma simplicidade acadêmica inesperada, sobre os meandros de sua disciplina.
De repente, a porta se entreabriu e a cabeça do Professor Celso Cunha apareceu compenetrada:
- Quem está de carro?
Vislumbrei uma emergência, para uma interrupção tão brusca. Eu e meu fusquinha estávamos ali, mas confesso que titubeei diante da possibilidade de ter de abandonar logo a primeira aula no meio. Mas, enfim, o coração falou mais forte:
- Eu estou, professor.
- Então, faça o favor de levar o Pottier para o Hotel, no final da aula, porque houve um imprevisto e eu vou precisar sair.
Assim, de sopetão! Eu, levar o eminente e digníssimo Dr. Bernard Pottier para o hotel, sozinha? O que eu vou conversar com ele? Meu estômago deu duas voltas no ar e eu pensei que nunca mais ele voltaria a se aquietar no lugar! Mas não tinha jeito, a sentença estava lançada. Professor Pottier lançou-me um simpático sorriso francês e me agradeceu. Juro que ele deve ter notado a cor amarela do meu sorriso.
Evidentemente, nenhum colega quis me acompanhar para me ajudar a contornar a delicada situação. Tive mesmo que enfrentar sua magnificência sozinha. Sozinha, não: meu fusca e eu.
O fato é que consegui leva-lo com muita cerimônia e dirigindo com redobrados cuidados até o Hotel Vermont, em Ipanema. Ufa. Entregue. Muito gentil, ele me cumprimentou, na saída, dizendo:
- Espero não te-la desviado muito de seu caminho de casa.
- De modo algum, é meu caminho, foi um imenso prazer!
Prazer tinha sido, embora minha respiração ainda fluísse aos trancos! Mas eu ia dizer que minha casa ficava em Copacabana, justamente entre o centro da cidade e Ipanema, e que eu tinha de dar uma volta incrível em pleno rush para deixa-lo no hotel? Nem por um decreto.
- Bem, já que é seu caminho, você poderia passar por aqui para me buscar e trazer sempre?
Ouvi minha voz responder, automaticamente, já que minha mente e minhas emoções não conseguiam atinar com o que estava acontecendo:
- Claro professor, será uma honra para mim!
Professor Pottier dava um curso intensivo de dois meses para nós, o que significava três aulas por semana, em vez de uma, como ocorria com as outras disciplinas. Isso quis dizer que eu passei a conviver com ele, de Ipanema para o Centro da Cidade, ida e volta, segundas, quarta e sextas por toda essa temporada.
Nas primeiras vezes, certamente percebendo o meu embaraço, ele mesmo se ocupou de falar a maior parte do tempo. Mas, decorridos alguns dias, tendo percebido que eu era a única aluna que realmente conhecia sua obra e estava intensamente envolvida com a disciplina, passei a ter aulas particulares de lingüística atravessando a cidade. Passei, não, passamos: eu e meu fusquinha.
Aos poucos, comecei a me sentir à vontade e, em um mês, descobri que muito mais do que o excelente lingüista que sempre fora, Pottier era um filósofo moderno para ninguém botar defeito, um homem conhecedor da alma humana, uma jóia de ser humano, um homem muito mais do que um estudioso, um experiente cidadão do mundo. Falávamos sobre tudo, mas principalmente sobre a vida, sobre ética, sobre ser professor, sobre ser humano.
Com ele, pela primeira vez, fui apresentada ao Tao. E, de certa forma, fui por ele impulsionada a procurar o Tai Chi Chuan como forma filosófica de viver e não apenas o que o Ocidental supõe ser o Tai Chi.
No último dia em que o levei ao Hotel, conheci sua gentil esposa, finalmente. Uma professora de Literatura Hispânica, tão gentil como o marido e de sorriso suave e doce.
Ao me despedir, disse-lhe, já com saudades;
- Quando vender o meu fusca, acho que vou tirar o assento do carona para guardar para o museu Bernard Pottier, no Brasil.
Ele, sorridente, me respondeu:
- Basta que me guarde e também a nossas conversas em seu coração. Seu fusca foi muito gentil em me receber.
“O fusquinha” , minha única fiel testemunha da realização deste sonho de minha vida.
Foi nele que aprendi a enfrentar o trânsito e ver que os ônibus são ônibus, os táxis são táxis, os carros são carros e não monstros inquietos no trânsito carioca. Foi ele que, tantas vezes, enfrentou inundações na volta do trabalho e nunca se afogou. Foi ele que me viu sorrindo e chorando em seu volante, em minha insegura mocidade, ronronando como um gatinho para que meu coração ouvisse...
domingo, 19 de fevereiro de 2012
FEITIÇO
É carnaval.
Mas, na verdade, no Rio, já é carnaval há muito tempo, tão logo acabou o Reveillon. Os tamborins precisam se aquecer, não precisam? Pois então...
No meu canto sossegado de Copacabana (isso existe? Sim, existe) dou asas ao amor que tenho por essa cidade.
Foi pensando assim que fiz minha caminhada na semana passada e, em duas horas e meia, consegui viver com a diversidade “clássica” de um breve passeio por essa cidade. Duas horas e meia, do Leme ao por-do-sol no Arpoador, uma distância de uns cinco quilômetros e o resumo da multifacetada festa de uma descompromissada tarde num domingo de verão carioca.
Basta ter uma câmera nas mãos - e foi o que fiz – para registrar alguns sons e imagens contrastantes, numa distância não maior do que a de breves passos aqui e ali... logo adiante...
O principal da festa já se anunciava tão logo cheguei à altura da praia de Copacabana. A Agremiação Alegria da Zona Sul já fazia seu público ensaio carnavalesco, dando água na boca aos turistas. Um breve prelúdio do que estaria por vir:
Os primeiros passos da porta-bandeira com seu mestre sala, o passista...
Japoneses aos montes tirando fotos e fazendo filmes. E americanos, franceses, brasileiros de várias regiões em seus sotaques tão distintos do norte ao sul... isso pude ver, num breve momento para registrar fotos para este conto. Pena que não consegui blogar os filmes para que o som pudesse também ser ouvido.
Uns passos adiante, o barulho do mar, o colorido das cangas... a música andina:
Mais dois passos, perto do final da praia, o silencioso apelo da conservação de nossas riquezas naturais.
Ao fundo, amantes da natureza curtiam o mar das mais variadas formas, enquanto barcos aguardavam, com suas redes, os pescadores da madrugada que se aproximava.
E os bicleteiros devolviam as bicicletas alugadas, uma iniciativa maravilhosa que nos permite não ter de guardar mais esse “móvel” dentro de apartamentos.
E enquanto o final de domingo seguia manso pelas ruas vizinhas...
...e a orquídea sustentava sua beleza singela numa árvore perdida,
a praia de Ipanema se preparava para mais um de seus grandiosos visuais do entardecer.
A praia e a pedra do Arpoador enfeitavam-se com a platéia que se acomodava para ver, mais uma vez, o maravilhoso espetáculo do astro-rei...
... que não se fez de rogado e se recolheu majestoso e preguiçoso, abençoando seus filhos daqui e de além, sem distinções, roubando os já tão conhecidos aplausos em seu último suspiro do dia.
Um olhar em volta foi suficiente para registrar a quantidade de expectadores desse encantado momento carioca. Por trás, a lua se mostrava para o raro, mas cotidiano encontro dos dois amantes – lua e sol - que apenas neste rápido momento sempre se vislumbram face a face: “Feitiço de Áquila”.
No mais, a promessa de uma belíssima e fresca noite de verão, sob o testemunho do Pão-de-Açúcar ao fundo.
Tão logo se desce das pedras, ouve-se o músico que vai ali para enfeitar o entardecer de Ipanema. É comum vê-lo principalmente às terças, sextas e finais de semana. Sua música suave e branda, doce e calma, contrasta com a tarde abusiva de bulício. As cores da noite enfeitam o céu e o som de seu doce instrumento enche o ar.
Depois é ir voltando para casa e encontrar, no colorido da noite, a calma do calçadão há duas horas freneticamente carnavalesco.
O pipoqueiro...
...a gari, cuidando da limpeza da praia para os banhistas do dia seguinte...
...quiosques ao som de música popular brasileira...
... artesanato nas calçadas...
... cariocas aproveitando os últimos suspiros do domingo.
Em duas horas e meia, vive-se um dia.
E voltei para casa com a visão multifacetada desse domingo. O coração amante dessa cidade ficou em festa, mais uma vez.
Mas, não sei por que, ao mesmo tempo que uma profunda gratidão pela vida me invadia como uma luz interior, uma imagem do dia se destacou das demais: a da lua e do sol, desejosos de se encontrarem no vislumbrante espetáculo do entardecer.
O sol, sob o olhar do Cristo, a lua, sob o olhar do Pão-de-Açúcar, em distâncias e momentos que não podem vencer, desfazer, eternizar. Ambos, ansiosos e impotentes, como a Paz, tão ardentemente desejada por nós, que não consegue aplacar a angústia das guerras.
Era isso. O desejo de um verdadeiro, definitivo e vitorioso encontro da verdadeira Paz com a guerra. A visão desses dois astros que jamais se encontram e jamais se tocam. Uma paz que buscamos para o cotidiano pessoal, para as nossas relações humanas, para nossas culturas, para nossos povos, para a humanidade.
Segui meus passos, lentamente, guardando, no entanto, a esperança de que, um dia, quem sabe, esse feitiço se desfaça.
Obs.: Feitiço de Áquila - É a história de um casal que é vitima da maldição de um Bispo de Áquila (uma cidade medieval famosa por sua prisão). Eles estão sempre juntos, mas não podem concretizar seu amor porque, durante o dia, ela se transforma em um falcão e, durante a noite, ele se transforma em um lobo. Os únicos momentos em que se vêem, sem conseguirem se tocar é durante poucos instantes no alvorecer ou no crepúsculo.
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sábado, 11 de fevereiro de 2012
TEIAS
Há um fio aqui, ali, em qualquer lugar que prende
pessoas a pessoas, pessoas a coisas, coisas a pessoas...
Teias de aranha.
Se você leu o conto VARIG, deve imaginar a gratidão que guardei da comissária de bordo que nos acompanhou durante o vôo Porto-Rio, dando a meu pai toda a acolhida e atenção necessárias.
Pois é... mas eu estava tão preocupada e voltada para as necessidades do meu pai, que não tive olhos e tempo para agradecer, como gostaria, a esse anjo terrestre que nos atendeu nas nuvens...
Dias depois, ainda que envolvida pelas providências de instalação de meu pai em sua nova vida, lembrava-me constantemente daquele olhar e daquele sorriso que nos acalentou em um momento tão delicado de nossas vidas. Queria agradecer-lhe, mas sequer tinha tempo de parar para me lembrar de ligar para a VARIG e procurar saber o nome todo, providenciar uma carta de elogios à companhia, talvez encontra-la para agradecer-lhe pessoalmente.
O tempo passou atribulado. Nada fiz de concreto. Mas meu coração, volta e meia, voltava-se agradecido para a imagem daquela doce comissária de bordo. Com o tempo, esqueci de seu nome. O tempo passou... mas não a lembrança.
Meu pai faleceu seis meses depois e voltei-me para o cotidiano de vida. Retomada de fôlego. Isso foi num agosto.
No ano seguinte, passei de abril a junho completamente envolvida num concurso acadêmico. Queria fazer parte do corpo docente de uma determinada Universidade Pública, já em meus planos, de longa data. Segundo meus amigos, um suicídio de esforços, pois atestavam que as vagas já estavam marcadas... tentativa inútil.
Não me entreguei. Apenas coloquei na cabeça que os esforços deveriam ser redobrados. Além das 20 horas/aula em uma universidade particular e mais 6 aulas, no ensino médio, que eram compromissos inadiáveis, eu comia, dormia, sonhava e respirava estudo. Estava acostumada a dar aulas de grego, língua portuguesa e cultura clássica e o concurso era para Linguistica. Para encurtar a história, passei. Exaurida, mas passei para os subseqüentes 20 anos acadêmicos mais produtivos de minha vida.
Quis me dar de presente uma viagem de férias e, claro, depois da vitória, tinha de ser para o exterior. Quanto mais longe do estresse, melhor. Assim, nas férias de julho, já investindo na promoção de vida profissional que iria receber, viajamos, meu ex-marido e eu.
Claro que a companhia aérea era a VARIG, que você já sabe ser a companhia de minha total preferência.
Malas e corações a postos, entramos no avião já com espírito de quem estava em plena excursão.
Uma das comissárias de bordo, imediatamente, me chamou a atenção. Sou péssima fisionomista. Aliás, a expressão “péssima” ainda soa como um elogio. Sou pior do que isso. Mas há algo dentro de mim, que pulsa não sei de onde. Dizem que é uma antena intuitiva. Sei lá. Sei que pulsa. Meus olhos pousaram naquele olhar sorridente e acolhedor. Imediatamente a reconheci. Não meus olhos, mas o coração por trás deles. Era ela, sem dúvida.
Sorri e me aproximei. Sabia que ela estava muito ocupada, mas não resisti:
-Você! Que felicidade! Você cuidou de meu pai no ano passado, durante todo o vôo! E nunca pude mostrar-lhe toda a minha gratidão.
Ela sorriu:
- Lembro-me de seu pai. Estavam sentados à esquerda, ele na janela! Como ele está?
Foi aí que arrefeci. Como dizer-lhe, assim, na lata, que ele tinha falecido? Mas não tinha jeito:
- Está nas nuvens, muito melhor do que aqui. Mas sua presença sempre esteve presente em nossas conversas. Ele sempre falava de você. Como sou agradecida!
Seus olhos encheram-se de lágrimas. Difarçou. Eu também. Sorri-lhe e passei para ir em busca de meu lugar.
Quando sentei, havia outra comissária em seu lugar. Onde estaria? Sumiu, por uns cinco minutos. Eu sabia que tinha se retirado. Tinha mesmo ficado emocionada. Mas, daí a pouco, lá estava ela, recepcionando, cuidando dos que continuavam a entrar.
Antes da partida, passou por mim e disse:
- Estou atendendo à primeira classe. Não poderei estar por aqui.
- Vejo que você foi promovida. Muito mais que merecido.
Não a vi mais durante as dez longas horas de viagem. Mas volta e meia sorria para mim mesma, satisfeita com sua promoção. E muito feliz com o encontro.
Na saída, pensei em me atrasar um pouco para um último agradecimento. Mas nem foi preciso. Ela mesma me acenou lá da frente, como quem sabe que esperava me encontrar.
Segui o fluxo e, quando me aproximei, lá estava ela, tendo nas mãos, um vasinho de primeira classe com uma rosa vermelha. Me ofereceu, sem nenhuma palavra. Dei-lhe um breve abraço. Nos olhamos, cúmplices de vida - acolhedora e acolhida, em mútuo afeto de doação e agradecimento.
A vida, com certeza, entre os múltiplos presentes que recebi, não me negou mais este encontro.
Há um fio aqui, ali, em qualquer lugar que prende
pessoas a pessoas, pessoas a coisas, coisas a pessoas...
Teias de aranha.
sábado, 28 de janeiro de 2012
VARIG
Amo a VARIG. Hoje acordei pensando nela.
Me lembrei, também, da história de um famoso político. Diziam que ele tinha uma memória prodigiosa e conseguia se lembrar dos nomes de quase todo mundo que encontrava. Contam que, um dia, ele se encontrou com um eleitor:
- Oi Fulano, como vai? E a Senhora Dona X, sua mãe?
O eleitor muito sério:
- Ora, não se lembra? Eu lhe disse que ela morreu. E já tem mais de um ano!
O tal político não perdeu a pose:
- Morreu para você, filho ingrato. Para mim, estará sempre viva em meu coração!
Pois é. Amo a VARIG, em cada milímetro do meu cérebro e do meu coração. Quem a conheceu e conviveu com ela sabe: a VARIG não era apenas uma empresa aérea... ela estava encarnada em cada funcionário. Estar na VARIG era praticamente, voar em casa. O sorriso da VARIG era diferente, porque vinha de dentro para fora, da alma para o coração, do coração para o gesto.
Acho que ficaria umas semanas só contando histórias sobre a VARIG... e algumas delas pareceriam contos irreais. Mas é que, muitas vezes, a verdade parece fábula mesmo...
Acordei pensando em viajar novamente. Foi aí que me deu aquela saudade da VARIG. É que os comissários de bordo, por exemplo, embora gentis, solícitos e simpáticos não conseguem ter o jogo de cintura tão conhecido da companhia aérea do meu coração.
Lembro-me, por exemplo, de um de meus últimos vôos no ano passado: serviram uma refeição e, como não tenho o hábito de comer carne, não me encaixei na única opção de alimentação: massa com carne. Não tinha nem como separar uma coisa da outra - todo o molho era de carne. Agradeci e apenas perguntei:
- Há alguma opção possível para quem não come carne?
- Lamentamos, não.
Bem, eram algumas boas horas de vôo. Mas ninguém morre se não comer nada, mesmo sendo vôo internacional. Pedi apenas algo para beber e a sobremesa que, diga-se de passagem, não era lá essas coisas. Não encostei no prato e me preparei para uma leitura, melhor maneira de passar o tempo, em vôos diurnos, a meu ver.
Passados uns vinte minutos, uma outra comissária apareceu “do nada” com uma bandejinha improvisada e, sorrindo, me ofereceu:
- Foi o melhor que pude conseguir. Espero que esteja do seu agrado.
O “espero que esteja do seu agrado” era simplesmente um improviso muito bem arranjadinho: um pãozinho com queijo, embrulhadinho, ao centro; um saladinha de frutas, no canto esquerdo, manteiga e geléia, no cantinho direito. Melhor que isso, só se tivesse uma florzinha. Não resisti. Olhei-a bem no fundo dos olhos e sussurrei a pergunta:
- Você foi da VARIG não foi?
Ela sorriu, acenou com a cabeça. Não foi preciso dizer mais nada.
Nas minhas conjecturas, fico imaginando que, do mesmo modo que eu sinto falta do “sabor VARIG de viajar”, os antigos funcionários, quem sabe, também sintam falta do “sabor VARIG de trabalhar”. É claro que, infelizmente, pelo andar da carruagem, essas gentilezas, essa forma cúmplice de mútuo bem estar, se perdeu ou se perderá, diluído no tempo, pela forma objetiva, prática e impessoal que as outras companhias apresentam. Não que não sejam gentis, não que não sejam competentes, agradáveis, prestativos. Quase todas são, com o que se supõe ser o devido treinamento adequado. Mas sinto isso como treinamento, não como uma forma de fazer parte de uma família, o que faz, do trabalho, uma forma boa de viver.
Por que digo isso? Por que fui professora de muitos funcionários da VARIG. Aliás, mais do que eu poderia imaginar. Quantas e quantas vezes, via alunos e alunas entrando em minha sala de aula ainda uniformizados, muitas vezes atrasados:
- Desculpe, professora, acabei de chegar do vôo.
Uniforme, malinha de viagem e livros, tudo num volume humano só. Cansados, mas... felizes. Tive algumas oportunidades de conversar com eles:
- Escolheu Letras por quê? Quer mudar de profissão? A VARIG é um degrau até a sua graduação?
- Não, professora, estou cuidando de meu futuro. Quero subir na empresa. O objetivo final é conseguir as escalas dos vôos internacionais.
- Você gosta tanto assim de viajar?
- Gosto, mas, acima de tudo, trabalhar na VARIG é o que conta. Você não imagina o que é trabalhar lá.
- E como você faz para conseguir estudar com tantos vôos?
- Ué, você mesmo vê. A gente se vira!
Não ouvi isso de um ou dois alunos, mas de vários. E, vezes sem conta, ouvi o quanto eles gostavam da empresa, do que era ser de lá. Fora alunos, tenho duas amigas que foram funcionárias da VARIG. Uma saiu porque se aposentou, outra porque a VARIG acabou.
Deduzi que este amor pela empresa só poderia ter, como conseqüência, esse tratamento tão extraordinário aos clientes. Um funcionário excepcionalmente satisfeito, só poderia nos tratar tão bem quanto visitas em sua própria casa. Mas é que tinha mais: na verdade, eles sentiam como se a empresa fosse deles e não eles da empresa. Faz toda diferença...
Gostaria de contar uma passagem em especial, a da minha volta de Portugal, trazendo meu pai a tiracolo, para morar no Brasil. Se você leu o conto “Golpe de mestre” sabe a que aperto me refiro: meu pai, mal convalescente, precisando enfrentar uma viagem tão longa...
Na verdade, antes mesmo de embarcar para Portugal, eu já havia levantado a hipótese de traze-lo. Assim, desde aqui, já tinha me dirigido à VARIG para perguntar que tipo de apoio poderia ter deles. E já sabia: eles dariam todo o apoio, desde que ele estivesse em condições de viajar e com o aval escrito de um médico responsável.
Assim, uma vez em Portugal e tendo recebido todos os cuidados necessários durante dez dias, o médico disse que ele estaria, sim, pronto para enfrentar a viagem, desde que seguisse todas as recomendações tão logo chegasse aqui. Ok. Ao comprar as passagens e com a declaração do médico nas mãos, pedi a ajuda para o apoio necessário. O que ouvi, foi o seguinte:
- Estamos prontos para prestar toda a ajuda necessária, desde que ele atravesse a Polícia Federal em pé e sozinho, ou seja, sem a nossa ajuda. Não podemos interferir nesta etapa, não com apenas esta documentação.
Em outros termos, para ser considerado um passageiro doente, a burocracia do aeroporto e dos vôos era tamanha, que era mais fácil considera-lo um passageiro comum, isto é, desde que o médico assim achasse conveniente.
Meu pai era, antes de tudo, um osso duro de roer. Desses portugueses de antigamente, que estão doentíssimos agora e, de repente, não se sabe como, estão de pé. Pois é. Na véspera, ainda fui à VARIG. Me encaminharam para uma salinha para que eu explicasse as condições em que eu achava que meu pai se encontrava. Disse-lhes que estava bem, mas que seria custoso, por exemplo, movimentar-se muito, levantar-se, enfim, exigir esforços mais do que o mínimo necessário. Fui encaminhada para outra sala e uma jovem senhora me aconselhou, então, que alguns cuidados fossem tomados: enfaixar as pernas, para evitar que inchassem, se o médico achasse aconselhável. E, por via das dúvidas, quem sabe, que ele usasse fraldas, pois não precisaria levantar-se mais do que desejaria, se fosse o caso. Ainda me perguntou que tipo de alimentação poderia ingerir. Todos esses cuidados jamais seriam pensados por mim. Detalhes desse tipo me foram solicitados. E, diga-se de passagem: não estávamos voando pela primeira classe... era pela econômica mesmo...
Preparei-me, enfim, para a novela “aeroporto”. Pensei com meus botões: a gente passa pela Polícia Federal, eu procuro o balcão da VARIG e, lá na área internacional, a gente vê que tipo de conforto poderemos conseguir até o vôo.
Chegamos ao aeroporto e, no check in, a primeira identificação:
- Sr. Joaquim Pereira Vianna, seja bem-vindo ao nosso vôo. Temos anotado, aqui, um atendimento prioritário. Faremos tudo para que tenha uma boa viagem. Assim que passar pela Polícia Federal, estaremos atentos a suas necessidades.
E qual não foi a minha surpresa: tão logo passamos pela Polícia Federal, quase tropeçamos naquele tão conhecido uniforme, ostentando o crachá da VARIG. O jovem funcionário estava ali, a postos, com uma cadeira de rodas e aquele sorriso acolhedor:
- Daqui por diante, seu conforto está sob nossa responsabilidade.
Estávamos quase na hora do vôo, o que significou pouquíssima espera. Logo meu pai foi levado pelo gentil rapaz para que fosse acomodado antes de todos os outros passageiros, com calma, conforto e segurança e, principalmente, sem atropelos. Logo depois eu fui chamada, pois meu lugar era ao seu lado. Assim, fomos os primeiros a embarcar, meu pai à janela e eu ao seu lado. Antes do embarque dos demais, uma comissária de bordo se apresentou:
- Estarei atenta a este jovem senhor, disse sorridente. Chame-me sempre que achar necessário.
O “jovem senhor” tinha apenas oitenta e dois anos... delicadeza que não se consegue com treinamento. É natural mesmo...
O vôo era diurno e não preciso dizer que meu pai foi servido sempre em primeiro lugar e, volta e meia, a tal comissária sorridente e acolhedora estava ali, com alguma coisa, um pouquinho de água, uma toalhinha úmida para o rosto por causa do ar condicionado:
- Não vamos querer nenhum sinal de desidratação não é mesmo? É melhor beber sempre um pouquinho de cada vez, para o senhor não se sentir desconfortável, afinal como não vai se levantar, mesmo com fralda, vamos bebendo aos pouquinhos...
Enfim, cuidados aos detalhes e de tal forma que, a certa altura, meu pai comentou:
- Eu estou achando que esta moça está interessada em mim...
Enfim, chegamos, depois das longas horas de vôo, que separam o Porto do Rio de Janeiro. Assim que o avião pousou, a mesma comissária se aproximou:
- Vocês tem alguém esperando no aeroporto?
- Sim, meu marido.
Naquela época, eu ainda era casada.
- Ele está motorizado?
- Sim.
- Então, por favor, de-me o passaporte de seu pai, o nome de seu marido e pode desembarcar. Cuide das malas e de sua passagem pela migração. Nós cuidamos do resto.
Agradeci muito e só tinha como resposta, aquele olhar gentil, prestativo, cúmplice:
- Ele foi um amor, não deu trabalho nenhum. Fique tranqüila.
Saí do avião pensando em encontrar meu pai ao lado de meu ex. Mas não. Não sei o que a VARIG fez, mas, quando vi meu pai, ele já estava dentro do carro, sentado no banco do carona, que já estava devidamente forrado com plástico. Um jovem mantinha a porta aberta, ao lado de uma cadeira de rodas e conversava um pouco com ele, como se o estivesse distraindo.
Quando chegamos, ele se dirigiu a nós e disse:
- Bem, está entregue, espero que tenham feito uma boa viagem. A VARIG agradece a preferência!
Preferência? Agradecer a preferência? Eu é que deveria agradecer à VARIG o motivo de minha eterna adoração por ela...
E isso foi só um dos fatos...
A tal da comissária me encontrou quase um ano depois, com meu pai já falecido... e esse encontro vale mesmo outra história, que conto semana que vem.
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sábado, 21 de janeiro de 2012
O ELEVADOR
Uma vez fui salva brilhantemente de ser trucidada por duas mulheres, em pleno recinto público. Até hoje, sou grata a um outro homem de terno, dos muitos que já me apareceram de repente, para me tirarem de um aperto. Deve ser coisa daquele tal anjo que aparece de vez em quando para me salvar.
Este foi um caso de língua solta. É que, às vezes, a língua nos trai antes que possamos ter tempo para pensar. Não sei como acontece, mas parece que ela se adianta ao nosso cérebro!
Muitíssimo raramente isso acontece comigo, mas, naquele dia ou eu estava muito distraída, ou me traí mesmo, sem essa ou mais aquela.
Estava num desses elevadores comerciais em que cabem mil e trocentas pessoas de uma vez só. E estava razoavelmente cheio. Duas quase senhoras de aparência super tradicional traçavam comentários familiares e de repente, uma delas disse:
- É, você sabe, mãe, só tem uma!
Foi aí que a minha língua sobrou na minha boca e, antes que eu me desse conta, sussurei:
- Graças a Deus.
Falei baixinho, para mim mesma, lembrando, certamente, do trabalhão que a minha me dera, principalmente nos últimos anos de vida. Eu não agüentaria passar pelo mesmo aperto mais de uma vez, mesmo sendo mãe. Pensei que tinha falado bem baixinho e, na verdade, quase involuntariamente. Meu subconsciente, com certeza, era o responsável pela traição. Mas... num cubículo como o de um elevador comercial, não foi baixo o suficiente para evitar que todos ouvissem.
As duas mulheres queriam me matar. Felizmente, só com os olhos. Mesmo assim, eu me dei conta da gafe e não sabia o que fazer.
Foi quando ouvi, em alto e bom som, numa voz conciliadora e cúmplice, vinda do homem de terno a meu lado:
- Tem razão, dose dupla, ninguém agüenta.
Todos riram, menos as duas, evidentemente. Mas o constrangimento se desfez.
Não podemos andar com esparadrapo no inconsciente, mas, é claro, coisas desse tipo, tão pessoais, não devem acontecer em público. Mesmo assim, felizmente, tenho esse tal anjo protetor. Ele me salva de cada uma...
sábado, 14 de janeiro de 2012
SENTA, QUE LÁ VEM HISTÓRIA
Facebook. Facebook e aquele meu anjo que atende os meus pedidos aventureiros. Desta vez eu queria que me aparecesse um interlocutor inglês. Estou treinando meu péssimo inglês. Quero coloca-lo num nível de conforto. Assim, me decidi por aulas particulares com meu queridíssimo atual mestre, já que curso para mim não adianta. Patrícia, exímia professora da Cultura Inglesa e, mais tarde, diretora acadêmica da mesma, já tinha me desiludido:
- Curso para você não adianta, amiga. É inglês típico de acadêmico esse que você tem: leitura, certa compreensão e complexo de cdf para falar. Não tem curso para esse tipo de aprendiz aqui no Brasil.
Assim, decidi mesmo pelas aulas particulares. Mas faltava um “sal”. Aquele "sal" que estimula, que empurra, que aguça a curiosidade, o diálogo constante.
Nunca liguei para televisão a cabo. Quase não vejo TV... mas acabei contratando, só para grudar na BBC. Está funcionando, mas... e o “sal?”
Pois é aí que entra o anjo. O anjo e um inglês britânico que me achou não sei como, no Face. Me mandou uma gentil mensagem e começamos a trocar frases e expressões verbais. Sopa no mel.
O homem regulava com a minha idade, era o que me dizia. Só que começou a parecer apaixonado demais para o meu gosto e também para a idade dele. Romântico demais da conta, coisa assim, que não dá muito para acreditar. Mais para o lado do esquisito. Vai daqui, vai dali, ele pede para ouvir a minha voz.
Medo. Medo de dar o número do celular e medo de falar com alguém em inglês, só ouvindo a voz e tendo de me virar. Seria um exercício e tanto! Um desafio. Não tive idéia de comprar um chip só para isso. Hoje em dia é tão barato... Mas aprendi com a experiência. Da próxima vez eu faço isso. Enfim, depois de muito titubear, dei o número.
Ligou. Consegui falar! Consegui entender e responder, ele muito paciente, falando devagar. Depois daí, ele me ligou mais umas vezes. Muito gentil.
Fiquei na dúvida, peguei o número do telefone. Conferi o prefixo: Inglaterra. Mas o prefixo da cidade não conferia. Por via das dúvidas, mandei um mail para uma amiga muito querida que mora lá. Queria saber se aquilo era estranho ou eu é que estava pondo minhocas na cabeça. Ela disse para eu não me preocupar, pelo menos com o número. O número era inglês e os prefixos nem sempre coincidiam com os prefixos das cidades.
Tá.
Mas continuei com o pé atrás. Muito romântico demais. Desculpe o preconceito, mas homem pede, pelo menos, fotos. Quer saber se você tem filhos, quer saber mais da sua vida. Não cai de amores só pelo sorriso da foto do Face. Mas fui levando, afinal, o exercício de inglês estava ótimo... o “sal” pedido ao anjo!
Fim de ano. O gentil inglês pede meu endereço para mandar uma lembrancinha de virada do ano. Pode ser muito gentil, mas meu endereço não dou não. Fui delicada mas direta:
- Não te conheço senão por aqui. Não posso dar meu endereço. Podemos continuar conversando, aceito seus votos de feliz ano novo.
- Faço questão de enviar um presentinho.
Fui ao correio disposta a abrir uma caixa postal paralela. Nem pensar. Todas ocupadas, trinta pessoas na fila de espera. Custei a responder e ele, de lá, insistindo:
- Por favor, querida, estou indo a trabalho para o México, quero postar antes de partir.
Então, tá, vai... sapequei o endereço de minha caixa postal e seja o que o anjo quiser.
Ele agradeceu muitíssimo e a partir daí vivi setenta e duas horas de adrenalina para charlatão nenhum botar defeito. Se você leu meu conto “Golpe de Mestre”, se prepare, que foi parecido. Mas o anjo me põe, o anjo me tira...
A lembrancinha era composta de um pacote com 2 laptops da HP, 2 Iphones, 4 perfumes, um cordão e um anel de ouro, uma rosa e fotos pessoais. Ah, e uma soma de dinheiro escondido dentro de um dos laptops que daria para comprar um bom carrinho. Assim, de um soco só.
Para uma mulher burra, um senhor presente. Mas, desculpe a modéstia, não me encaixo. Ou o cara era totalmente maluco de pedra, o que seria o suficiente para eu cair fora, ou ali tinha... ah... tinha. Até porque nem maluco rasga assim dinheiro de graça. Meu pisca-alerta ligou. De qualquer forma, não era presente para se receber, mesmo que, em última hipótese, ainda houvesse algum maluco no mundo que fizesse isso. Respondi imediatamente:
- Não me mande isso. Pensei que seria um souvenir de Reveillon, alguma coisinha inglesa da virada de ano. Nem pensar.
- Já mandei querida, não se preocupe.
Não me preocupe? Claro que passei a ficar preocupada, na verdade, preocupadíssima. Alarme ligado. Luzes em vermelho.
Perguntei a um amigo o que ele achava. Bem, a vida dele tinha dado uma guinada por uma coisa dessas, inesperadas, e tinha dado certo. Nada mais normal do que ele achar que poderia ser uma aventura a ser vivida.
Mas meu pisca-alerta continuava ligado. Fiquei mesmo muito invocada. Conversei com outro amigo. Ele também achou a coisa esquisita. Bom... “dois” achando esquisito. Só podia caber na minha cabeça que alguém que estivesse tão interessado e tivesse essas supostas condições financeiras, iria preferir mil vezes pegar um avião e vir me conhecer do que mandar um pacote assim. É óbvio! Já havia acontecido isso comigo antes. Se você leu o conto “A ponte”, sabe do espanhol que se despencou de Barcelona para o Rio só para me conhecer. Essas coisas acontecem. Mas um homem não vai mandar um pacote desses para uma mulher com quem ele trocou palavras no Face por 20 dias. Não um homem sério ou, pelo menos, um “homem normal”.
Não deu outra. No dia seguinte, recebi um mail da Malasia. O emissor identificou-se como policia alfandegária, dizendo que o pacote tinha sido barrado lá e, pela descrição do conteúdo, se eu quisesse recebe-lo, teria de depositar imediatamente a “irrisória” soma de 850 dólares, caso contrário, o pacote seria confiscado. Nome da conta, etc, tudo direitinho. O depósito deveria ser feito via Western. Muito chique. E era para ser imediatamente.
-Ah! Era esse o golpe, concluí. E agora? Com que espécie de quadrilha eu estava envolvida? O que fazer?
O anjo me põe, o anjo me tira. O problema era como fazer para me sair. Isso o anjo nunca conta. É a parte onde ele me faz viver a aventura...
Havia algumas saídas:
- Simplesmente não responder e sumir;
- entrar no Face e perguntar se ele me considerava uma idiota. Pergunta desnecessária: é óbvio que ele me considerava uma perfeita idiota;
- bancar a burra, fingir que tinha caído no conto e arranjar uma saída de mulher “burra”. Uma mulher muito muito burra que aceita que um pacote que sai da Inglaterra precisa dar a volta ao mundo, passar pela Malásia, para chegar ao Brasil. Isso, fora todo o absurdo da história em si.
A primeira alternativa parecia mais simples: sumir. Mas não era: ele tinha meu número de celular e, também, o endereço de minha caixa postal. Eu não sabia - e não sei – com que espécie de quadrilha eu estava envolvida, nem suas condições de ataque para me arriscar. Era botar a cabeça para funcionar!!!
Não respondi ao mail, fiquei muda. Alguma coisa iria acontecer e fingi que não tinha lido mail nenhum, nem aberto o Face, naquele dia. Dar tempo para pensar, ver o que fazer.
O segundo amigo, aquele que também estava achando tudo muito esquisito, me deu um bom suporte. Felizmente, ele é bem relacionado e disse que, se eu precisasse, tinha um parente para ir à alfândega comigo, se o pacote chegasse. Tinha feito uma consulta e, quem o instruira, era ligado à polícia federal. Ok, não vai precisar. Pelo tipo de golpe, era só uma isca para eu depositar os tais 850 numa conta da Malasia. Pelo andar da carruagem, não havia pacote algum para chegar. Eu não estava envolvida com contrabandistas. Menos mal... menos mal.
Tracei um plano, o anjo que me ajudasse. Fingi que não tinha recebido o mail, mas já sabia do conteúdo. Horas depois, ligação internacional – não era de prefixo da Inglaterra. Atendi. Era diretamente da “alfândega da Malasia”. Imagine, um serviço alfandegário tão perfeito que liga para o receptor para avisa-lo que tem um pacote preso lá! Quanta gentileza! Fingi não estar entendendo o inglês do homem. Na verdade, não estava mesmo. Só que eu sabia previamente do que se tratava:
- Por favor, ligue para o emissor do pacote, não estou entendendo nada.
Mais uns minutos, liga o gentil inglês, voz parecendo muito aflita!
- Querida, eu recebi um mail da Malasia, você também recebeu?
- Sim, mas não entendi direito. Acho que é para pagar uma taxa ou coisa assim.
- Estou muito preocupado, eu...
Interrompi imediatamente:
- Desculpe, acho que você está nervoso, não estou entendendo nada. Estou em casa. Vamos trocar mensagens pelo Face?
Fazia parte do meu plano ter tudo por escrito. Por via das dúvidas, se desse algum problema, teria provas escritas para mostrar para a polícia daqui, se fosse o caso. Fomos para o Face. Ele fez o “papel de desesperado”. Queria a minha ajuda de qualquer jeito para o depósito, pois havia muitos bens no pacote! Inclusive dinheiro. E muito! Que eu pagasse a taxa e, quando o pacote chegasse ao Brasil, eu poderia resgatar a quantia tirando o dinheiro que estava incluído nele. Ele não estava na Inglaterra, não poderia tomar qualquer providência! Não poderia fazer nada do México. Retruquei:
- Não fique tão preocupado. Já estive no México. Também tem Western aí. Então, é só você ir lá e tudo está resolvido!
- Não posso, a instituição daqui não permite, Já expliquei tudo isso a eles, mas eles não querem me deixar ir. Estou em pleno mar trabalhando, não posso ir à terra, por favor, me ajude, você é minha única esperança.
- Ok, mas por favor, ligue para a Malásia e diga para eles fazerem o pacote voltar para a Inglaterra, pois terá um problema muito maior aqui! Não quero receber esse pacote! Dará mais problemas ainda na alfândega daqui!
Eu era tão “burra” que ainda o estava ajudando a me dar o golpe...
- Ok, querida, então eu deposito em sua conta tão logo eu volte para a Inglaterra, prometo.
- Ok, não se preocupe, a gente vê isso depois. Eu deposito amanhã.
- Você faz isso? Ah, que alívio, que Deus a abençoe.
Pronto. No dia seguinte, de manhã, ele me ligou preocupado:
- Querida, você já depositou?
- Não tenho o dinheiro comigo, pedi emprestado a um amigo e ele disse que vai trazer para mim.
Pronto, além de burra eu não conseguia nem ter 850 dólares.
- Estou muito preocupado. Eu...
- Não estou entendendo você direito, mas escreverei no Face depois. Não estou em casa.
Pouco depois, liga a alfândega da Malasia, muito preocupada com a segurança do meu pacote. Quanta gentileza! Digo para eles ligarem para o emissor.
À tarde, liga de novo o gentil inglês:
- Você depositou?
- Meu amigo ainda não veio com o dinheiro. Escrevo para você no Face, hoje à noite.
Nisso, me encontro com meu amigo de verdade e conto meu plano. Disse-lhe que preferia a versão da mulher burra, por via das dúvidas. Ele teceu considerações comigo, me ajudando na melhor interpretação do papel. O anjo não dá respostas, me deixa dar tratos às bolas para sair dos apertos, mas... sempre me envia aliados... é só eu estar atenta!
Saí e fui viver o resto do meu dia, com meus afazeres. Tinha de deixar o tempo passar. Fazia parte do papel de tentar arranjar o dinheiro. À noite, quando cheguei, escrevi uma mensagem “desesperada”:
- Meu amigo não me deu o dinheiro, disse que não acreditava na sua honestidade e ainda por cima, disse que tem um amigo da polícia federal e que vai contar tudo para ele. Eu estou desesperada, não quero me envolver com a polícia. Na verdade, estou com muito medo de tudo isso. Não posso ajuda-lo. Você é um homem muito esperto e com certeza, encontrará um amigo na Inglaterra ou algum membro de sua família que poderá fazer isso para você. Sinto muito não poder ajuda-lo, estou em pânico.
Na verdade, fora o fato de eu saber mais ou menos com quem eu estava tratando, estar com medo, era pura verdade. Um medo reativo, mas presente da cabeça aos pés.
Poucos minutos depois, a resposta, no Face:
- Oh, meu Deus, como fui acreditar em você! Estou perdido!
Não respondi. Deixei para o dia seguinte, como se tivesse escrito e desligado o computador. Ainda tinha um problema a resolver. É que este meu amigo, o tal que tinha mesmo um conhecido da polícia federal, tinha sido muito assertivo:
- Feche sua caixa postal e mude o número de seu celular.
O problema era esse. Eu não queria fechar minha caixa postal. Tenho a mesma, com várias correspondências do mundo todo, há 20 anos! E o meu celular é o ponto central do meu trabalho como terapeuta! Todos os meus clientes só falam comigo pelo celular. E tenho clientes desde 2001! Eu tinha de bolar um jeito de resolver isso também!
E essa era a minha cartada final, por isso não respondi logo. Precisava deixar o tempo passar, exercitar a minha paciência, saber dar os passos, deixa-lo na expectativa do que eu iria fazer.
Enquanto isso, uma hora depois dessa troca de mensagens, novo mail da Malasia, desta vez ameaçador. Com certeza, passaram a investir nas palavras medo e pânico que eu tinha usado ao dizer que não queria me envolver com a polícia.
O mail era bem explícito: dizia que tinham “escaneado” o pacote e detectado uma soma de dinheiro muito grande ali e que isso era ilegal e se a tal taxa de 850 dólares não fosse depositada imediatamente, as polícias dos dois países, Inglaterra e Brasil, seriam avisadas, para que tomassem as providências necessárias com os dois envolvidos.
Não respondi. Imediatamente, abri meu celular, tirei o chip e liguei do meu fixo para ele para ver o que acontecia. Não toca. Dá direto na mensagem:
- Sua ligação está sendo encaminhada para a caixa postal, deixe sua mensagem após o sinal.
Ok, eles não entendem português. O que eu queria é que não tocasse o sinal de chamada. Entrando direto na mensagem, pode ser qualquer coisa, inclusive dizendo que o número tinha sido desativado. Era a impressão que eu queria dar, o toque final que eu precisava.
Entrei no Face:
- Estou fechando minha caixa postal e também mudando o número de meu celular. Por favor, me esqueça.
Resposta, minutos depois:
- Oh, Deus, não acredito que você esteja fazendo isso comigo!
Não respondi. Abri o Face, no dia seguinte. Nenhuma mensagem. Também nenhum outro mail da Malásia. Ufa, que alívio. Eu era burra, pobre e medrosa demais para eles perderem tempo comigo.
Por via das dúvidas, fiquei três dias com o celular desativado. Quando liguei novamente, havia apenas uma chamada do exterior, com horário próximo ao da minha última postagem no Face. Nunca mais recebi nenhuma ligação internacional.
O anjo põe, o anjo tira. E fiquei sem meu “sal inglês” novamente. Entrei em chats. É uma “chat-ice". A conversa é sempre a mesma: de onde você é, etc... e a linguagem é essa da internet, não é boa para treinar.
Meu bom anjo protetor, obrigada por esta aventura. Mas, desse pão, já chega. Dá para me mandar outro alguém só que bonzinho? Já tive a minha cota de adrenalina para esta vez.
Obs.: o título foi tirado de um antigo programa infantil da Rede Brasil (antiga TVE); a foto da página inicial do Facebook.
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sábado, 7 de janeiro de 2012
LINGUISTA
Nasci lingüista, não teve jeito. Lembro-me que, aos quatro ou cinco anos, já sapecava minhas encucações com as palavras da nossa língua. Sei que tinha essa idade pelas lembranças que guardo das casas em que vivi na infância: até os cindo anos e meio, na Tijuca; daí até os sete, no Meier.
Assim, quando me lembro dos fatos da infância, marco minha idade mais ou menos pelas fotos na mente de onde eles ocorreram. E isso aconteceu na Tijuca, eu em torno da mesa quadrada da sala de jantar. Naquela época, meus irmãos estudavam na sala, em volta da mesa, com um abajurzinho cujo formato e cúpula estão gravados em minha mente até hoje. Eles eram muito mais velhos do que eu - o mais novo contava 8 anos a minha frente. Eu os olhava como três adultos, muito velhos. E respeitáveis, é claro. E fumavam, não me lembro se já todos os três... mas quem fumava, fumava muito. Assim, com a sala toda em neblina e uma concentração para colocar qualquer gênio em estado de completude, não me sobrava espaço senão para pensar... e pensar muito.
Isto porque, quando meus irmãos estavam estudando, a ordem era poder “ouvir uma mosca voar no ar.” E isso valia para todo mundo, mesmo para uma garota de cinco anos como eu. Lembro-me que o menor som que eu pudesse soltar era acompanhado pelo célebre:
- Seus irmãos estão estudando, não faça barulho.
Assim, eu não tinha outra saída a não ser acompanhar o estado de concentração de toda a casa, colocando minha cabeça para funcionar, já que não podia funcionar com o resto. E funcionava muito, diga-se de passagem. Eu não podia imaginar o que era “estudar”... eu nem sabia direito o que era escola! A única coisa que eu sabia é que o que eles estavam fazendo era algo muito muito importante. E fumavam como chaminés.
Um dia, me lembro bem, fiquei cismando com aquela fumaça. Estava sentada no chão, um pouco distante, olhando que desenhos a fumaça densa formava no ar. O abajurzinho, no centro da mesa, dava à fumaça um tom diferente, com sua luz oblíqua engendrando várias formas. Me fixei no abajur.
Não sei por que, comecei a repetir para mim mesma o nome das coisas: mesa, cadeira, teto, chão, janela... abajur? Não combina. Não, definitivamente, abajur não combina com o conjunto.
Todas as minhas dúvidas eram sempre tiradas com meu padrinho de batismo, vale dizer, meu irmão mais velho, para mim o responsável direto pela minha educação. Olhava-o como quem olha para o dono de todas as verdades. Por isso, me aproximei devagar, como quem tem medo de interromper. Mas era sempre assim que eu fazia e parece que ele já estava acostumado. Eu esperava a deixa, até que ele olhasse para mim, perguntando o que eu queria. Isso era mesmo um ritual.
Hoje, fico imaginando como deve ter sido pesado àquele jovem de 16 ou 17 anos, tomar para si o encargo de ser um “verdadeiro padrinho” durante todo o dia, já que meu pai só chegava tarde da noite em casa. Em sua ausência, o comandante era ele.
Ah... e como eu respeitava isso...
Assim, fui chegando, em silêncio, e fiquei na beirada da mesa, olhando para ele. Com certeza, uma hora dessas, ele iria perceber, se virar e perguntar o que eu queria.
- O que foi?
- Por que abajur se chama abajur?
- Ora, porque é esse o nome dele!
- Mas não combina!
- Como não combina? Tem de combinar?
- Tem. Teto combina, mesa combina, chão combina, janela combina... mas abajur não combina!
- É um nome francês. Todo mundo chama assim.
Eu não sabia o que era francês. A única coisa que eu sabia é que esse nome não se encaixava na lógica da minha cabeça.
- Mas não combina!
- Por que teto, mesa, cadeira, chão, janela você aceita e abajur não? Foram todos nomes dados à coisas!
- Pois é... mas esse não combina.
- Em português também chamam de quebra-luz, mas é um nome muito antipático.
- É, mas quebra-luz combina, abajur não combina.
- Então chame de quebra-luz e me deixe estudar.
Saí dali convicta de que o nome daquilo, mesmo feio, tinha de ser quebra-luz, pois isso, sim, combinava com mesa, janela, cadeira, teto e chão.
Eu não podia imaginar que o que estava em jogo era a lógica de construção morfológica dos nomes de nossa língua e, evidentemente, abajur não estava na lista da composição mórfica de uma menina de cinco anos, atenta aos nomes das coisas.
Quem pediu uma lapiseira ao Papai Noel e implicou com o nome “abajur”, só poderia mesmo fazer Letras e virar lingüista um dia...
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