sábado, 25 de fevereiro de 2017

REFLEXÕES DE CARNAVAL



Está esquisito.

Meu cantinho de rua sempre foi calmo, no carnaval. Mas... está tudo meio esquisito.

Tem bloco na rua? Tem.

Tem reportagem dizendo que o carnaval está bombando? Tem.

Como observadora incontestável de minha cidade amada, no entanto, posso dizer de cadeira: está esquisito.

Menos bulício, menos carioquices... menos tudo.

Tiro pelo cotidiano.

Ontem, sexta-feira, fiquei na dúvida se iria ao centro da cidade, mais especificamente, no Saara. Para quem não é carioca, o Saara é o lugar onde quase todo mundo acaba indo, de um jeito ou de outro. Lá tem de a maior variedade de artigos possíveis e... bem mais barato. Você pode comprar de tudo um pouco ou de tudo um “muito”. Queria ir pelos descartáveis para o consultório e por um tapete emborrachado para fazer exercícios em casa. Quase não fui. Me lembrei que era sexta de carnaval e, para piorar, hora do almoço. O Saara fica insuportável, pois os apetrechos de carnaval são comprados assim, às pressas, pelos foliões de última hora e, claro, o Saara é pródigo nesse quesito. Tem mesmo de tudo: desde máscaras, como confetes, serpentinas, colares, fantasias dessas que você faz a folia e pode jogar fora depois. Praticamente não se pode andar por lá, na semana que antecede o carnaval. Na sexta, então, nem se fala.

Vou, não vou... vou! Não tenho outro dia, quero o tapetinho para minha casa, aproveitando os feriados para bombar nos exercícios. Ademais, os copos descartáveis para o consultório acabaram. Vou ter a tarde livre para isso, só preciso estar no consultório às 17 horas. Era meio-dia. Mesmo enfrentando mil filas, daria tempo.

Peguei o metrô. Teria me benzido, se fosse religiosa. Que os deuses me ajudem. E me preparei para enfrentar o trânsito dos pedestres, com mil bolsas transbordando pluminhas, purpurinas e máscaras. 

Desci na estação da Uruguaiana, atravessei a Rua Senhor dos Passos e me enfurnei pela Rua da Alfândega. Espaço para andar. Não havia os pregões de sempre, anunciando que “nesta loja é mais barato!”. Nada. Silêncio. Entrei onde queria, comprei o necessário. Funcionários sobrando, solícitos e sem pressa para atenderem. Rua vazia. Não havia fila no Caixa. Seria mesmo sexta de carnaval? Era.

Aproveitei o tempo ganho e, já que a rua estava vazia, aproveitei para outras compras. Comprei o tapete, os descartáveis, entrei no “Palácio das Ferramentas” e comprei uma tesoura para jardinagem. É que estou cuidando dos jardins do prédio. Pura terapia. Se você quer que alguém faça alguma coisa, peça para quem não tem tempo. Deve ter sido por isso que me pediram para dar uma olhada nas plantas. Estão ficando lindas... sempre há um tempinho para dar uma olhada nelas.

Fiz tudo em menos de uma hora. Peguei o metrô. Não vi bolsas com colares, máscaras ou enfeites. O trem estava cheio, nem tive onde me sentar. Pessoas enfiadas nos seus pensamentos e nos seus celulares. Sexta de carnaval? 

Pensei no que foi minha semana. Nos elevadores, tira-se a temperatura do cotidiano. Carioca adora falar nos elevadores. Não importa se são desconhecidos. Se eles têm ascensorista, então... Mas não me lembro de ninguém falando do carnaval, como era o natural de todos os anos:

- Já comprou a fantasia?

- Vai sair em que Escola este ano?

- Saiu no bloco do pré (pré-carnavalesco), no domingo?

- Vai sair do Rio?

Nada disso. E olha que fico num entra e sai o dia todo. Atendo aos clientes, saio para almoçar, volto, saio para o banco, volto...

Nada.

O povo está triste. Não digo o povo que a mídia apregoa, com seus microfones e entrevistas. Digo o povo cotidiano, com quem me deparo todos os dias. O povo verdadeiro.

E têm menos turistas. Ah... não me enganem: têm menos turistas! No calçadão, posso constatar. Meus olhos acostumados sabem o que estou dizendo. E também pelo número de aptos de temporada alugados no prédio do consultório. Nem a metade de sempre. No supermercado, não ouvi aquela tagarelice multilíngue de todos os anos e nem as filas estavam triplicadas. Ouvi algum inglês e um espanhol aqui e ali, mas foi tudo. Estava acostumada a ouvir, também, os sotaques de vários cantos do país, numa paleta de tons entre o gaúcho e o nordestino. Nada disso. Na volta das compras, na sexta, me surpreendi com uma mesinha na esquina do Hotel entre a Rua Siqueira Campos e a Tonelero: Vendia ingressos para o desfile das Escolas de Samba. Parei para perguntar:

- Ainda têm ingressos?

- Para qual dia a senhora quer comprar? Domingo ou segunda?
 
Na sexta de carnaval? Pois é... eu podia escolher. Incrível. 

Aqui, esse meu cantinho é silencioso. Mas confesso que está silencioso demais.

No fundo, no fundo, por mais que se fale em crise, acho que é mais do que isso.

O povo está mais triste, mesmo sabendo que costuma, sempre, afogar as mágoas e curtir o carnaval. Afinal, aqui no Rio, qualquer calção ou biquíni, com umas purpurinas serve para sair sambando por aí. Põe um apetrecho qualquer na cabeça e pronto. Tudo baratinho. Mas nem vi os camelôs de sempre nas calçadas da Nossa Senhoras de Copacabana, vendendo acessórios para enfeites de ultima hora. A gente nem podia andar direito pela calçada! Sumiram. Vi só uns mirrados, aqui e ali. Este ano está diferente.

Fantasio minha imaginação, visto a máscara de investigadora, mas... acho que nem precisa. O povo está pensando.

Tirada a catástrofe da falta de emprego, da crise, das dívidas, da corrupção e da profunda desilusão que afoga nossos corações brasileiros, mesmo assim, a tragédia não traz apenas um preço. A meu ver, traz certas vantagens também. 

Sou pura esperança. Sempre tem uma luz no final do túnel. E eu acho que esta é uma luz diferente das outras. Talvez seja a luz de uma conscientização mais plena.

Demora. Não se pode ter pressa, não adianta. Somos um país muito jovem. Quinhentos anos é nada, perto da milenar civilização que grassa o continente europeu, por exemplo.

Confesso que fico um pouco atônita quando tentam nos comparar com o continente ancião:

- Na França não é assim, na Inglaterra isso não aconteceria, mirem-se no espelho sueco da civilização, a Alemanha... 

Não que eu não admire o povo europeu. Sou metade europeia, com passaporte e tudo. Adoro a Europa. Ponho os pés lá e me deslumbro a cada passo. Nem precisa enumerar um país ou outro... não, a questão não é essa. É que são maduros. As pessoas se esquecem de que também foram crianças e adolescentes!!! Quantos séculos tem a civilização europeia? Por quantos revezes passou, quantas guerras, quanto sofrimento, quantas perseguições durante séculos, quantas barbáries, roubos entre reis e impérios, até chegar onde chegou? Isso ninguém leva em conta. Não são séculos... são milênios!

Temos apenas quinhentos anos. Acho que estamos entrando na adolescência agora, com ares ainda de crianças que querem agir como adultos e batem o pé porque não estão gostando do jeito com que foram criadas, aprisionadas em princípios que as levaram ao caos.

Não adianta me dizer que nossos irmãos do hemisfério norte também tem quinhentos anos e são donos do mundo. Para mim, não adianta. Primeiro, porque foram criados por “pais” diferentes. Segundo, porque foram criados por pais ricos, desses que ensinam os filhos a serem arrogantes...

Nós crescemos jogando futebol de rua com bolas feitas de meia. Não tínhamos condições de comprar bolas de verdade. Vejo nossos irmãos do norte como aquele menino, cujos pais compram a bola e dizem que eles são os donos da rua. Desses meninos que saem de casa e emprestam a bola para os colegas de rua, mas escolhem em que time querem jogar, em que posição querem ficar e, mesmo que não seja a posição mais adequada, se as outras crianças querem ter o privilégio de tocar em uma bola de verdade, têm de se sujeitar. Caso contrário, eles levam a bola embora e ninguém joga...

Não vejo diferença entre a infantilidade de nossos irmãos do norte, os mais poderosos do mundo, e nós. Poder não significa discernimento, nem maturidade. Não significa bom senso. Podem ter conquistado poder sobre os outros, mas e daí? Fazem guerras fora de casa, impõem condições que apenas lhes dê vantagens, são poderosos, porque seus pais lhes ensinaram a serem “donos da bola”. Isso não é maturidade. E também ponho em dúvida que tipo de poder e sucesso econômico é esse. Tiro pelo que está acontecendo: um chefe de Estado que tem discurso para os trabalhadores, mas funciona como um capitalista. Isso é sucesso?

Prefiro jogar futebol com minha bolinha de meia. Pelo menos, por enquanto. Prefiro não me vender a esse “riquinho dono da bola” e muito menos admirá-lo.

Mas é carnaval. E apenas reflito: o que está acontecendo com nosso povo de apenas quinhentos anos, recém saindo da infância? Que adolescentes estamos nos criando? Que indignações justas nos assolam?

É preciso sofrer para amadurecer? Deixarmos de nos alimentar de pão e circo? Considero como hipótese verdadeira: acho que sim.

Leva tempo, mas, pelo que tenho visto nas ruas, no silêncio dos elevadores, nas faces cansadas, tenho esperanças. Muitas.

Há carnaval? Há.

Há blocos nas ruas? Sim.

Muitos? Talvez, mas... me parece que as pessoas estão outras por dentro.

Por aqui, percebo o silêncio como sinal de vida.

Uma vida nova nascendo, uma criança adolescente que ainda apenas bate o pé, sem saber muito o que fazer. Mas... bate o pé com novos argumentos. Alguns meio doidos, outros transformadores.

Mas... está crescendo. Talvez muitos não estejam vendo, mas eu acho que está. Se tivermos olhos mais observadores e menos críticos, dá para se notar.

Que os deuses nos protejam.


sábado, 16 de janeiro de 2016

AS MEIAS


Ao escrever "O melhor presente", na semana passada, 'as meias' vieram imediatamente a minha mente. E não sosseguei, enquanto não escrevi sobre elas também.

Com certeza, Denise não imaginaria que eu fosse escrever apenas sobre elas. De fato, outro dia, quando me perguntou se eu ainda as tinha, não sabia que já estavam 'escritas e fotografadas' para serem as atrizes principais de meu próximo conto.

Conto como foi:

Em 2002, tive uma intempérie pessoal que fez com que me afastasse das aulas por um mês. Estávamos em agosto, volta das férias, mas, por razões de saúde, não pude voltar imediatamente. 

Décio, meu amigo-irmão de luta, fez questão de tomar minhas aulas da graduação para que nada fosse mexido em minha vida acadêmica. Assim, por um mês, não precisaria pedir licença. Tudo nos conformes, é claro, com a Diretoria do Instituto, na Universidade. Combinei com os colegas que não deixaria de dar as aulas de pós graduação. Como eram poucos alunos e como já tinha o hábito de trazê-los a minha casa, pois os livros que necessitavam para pesquisar não existiam na biblioteca, em princípio, não acharam nada demais.

Mas, ao me verem, com certeza, notaram que eu não estava lá "essas coisas". Não falaram nada, no entanto, e marquei os encontros do mês em minha casa.

Denise, além de aluna, era uma de minhas orientandas, na época. Reservada, aplicada, compenetrada, séria. Na verdade, sempre me chamara uma atenção especial, mas sua quietude não inspirava muita intimidade.

Saiu como os outros, sem nada dizer. Na verdade, pedi que ficasse mais um pouco, pois aproveitaria o dia para uma orientação de sua dissertação, do mestrado em curso. Afinal, como orientadora, não poderia deixar de cumprir também este papel. 

Falei-lhe rapidamente sobre meu estado de saúde, mas garanti-lhe que não se preocupasse. Era coisa de um tempo e tudo estaria bem.

Não notei que ela notara a necessidade de agasalho. Eu sempre fui muito friorenta e, mesmo no inverno carioca, eu sinto muito frio. Mas, naquele dia, estava especialmente agasalhada.

Na semana seguinte, após nosso encontro, Denise pediu para ficar mais um pouco, pois queria falar comigo.

Quando todos foram embora, tirou um pequeno pacotinho de sua bolsa e me entregou. Quando abri, achei um par de meias de lã:

- Eu mesma fiz, nesta semana, para que aqueça seus pés.

Eu tenho esse par até hoje e o uso com parcimônia. Felizmente, o inverno do Rio não é mesmo rigoroso e tenho certeza de que, com o cuidado com que o trato, este par vai durar o resto da minha vida.

Uso sempre com muito carinho e gratidão, pois, afinal, não há como descrever a emoção que senti no momento e nem a que sinto, até hoje, a cada vez que o uso.

Após a brilhante defesa de dissertação, Denise transformou-se em professora universitária, com todos os louros que lhe convieram. 

Mas, o melhor de tudo, é que somos amigas até hoje!

Obrigada, Denise, por ter aquecido de modo tão especial o meu coração.

Ah... já ia me esquecendo:

Por essa, eu sei, você não esperava... mas... poderia ser diferente?

sábado, 9 de janeiro de 2016

O MELHOR PRESENTE



 Presentes. Eu começo a comprar meus presentes de Natal em agosto. É. Em agosto. A razão é simples: as pessoas são muito diferentes e, se são amigas, me esforço por dar um presente que combine com elas. Isso a gente não consegue fazer comprando tudo em dezembro, é claro.

Assim, começo a comprar em agosto. Andando pelo meu cotidiano, quando topo com um que acho que é "a cara daquela pessoa" eu compro. Já cheguei a comprar dois para uma mesma pessoa e só depois me dar conta disso. Mas não tem problema. Guardo para o aniversário. 

Acho que tenho alguns amigos que procuram comprar presentes com a "minha cara" também. E é uma delícia receber presentes com "a cara da gente" não é mesmo?

Lembro-me do dia em que ganhei um porta lápis do Décio. Ele achou que era a "minha cara" e comprou exatamente um que vive ao lado do meu computador. É o tipo do porta lápis que eu teria comprado para mim, sem dúvida. Audrey Hepburn foi uma artista que sempre me chamou a atenção e aquele filme, marcou a minha vida. Ele não sabia. Apenas achou que combinava comigo. E... como combinava!... Ele não me deu de Natal, nem de aniversário, nem de nada. Passou pela rua, um dia, viu e não resistiu. Tinha de jantar comigo só para me dar o tal "presentinho".

Foram muitos os "presentinhos" baratos ou caros que acertaram o alvo, tão acertadinho como esse.

Um passeio de balão, por exemplo, foi um desses. Já postei um conto sobre isso.

E um passeio de helicóptero que recebi quando fiz 60 anos, com um cartão enorme e uma dedicatória linda. Ainda não fui, usei o dinheiro para outra coisa, que precisava, no momento. Mas, queridos amigos, juro que este ano eu vou. E vou postar, aqui, um bando de fotos para vocês verem.

Eu faria uma lista enorme, mas teria sentido só para mim e, claro, para as pessoas que me deram. Mas acho que, no fundo, o conto perderia a essência. Vale o dito.

Adoro dar presentes que digam, realmente, alguma coisa ao presenteado. É evidente, não sei se acerto. Devo errar muitas e muitas vezes. Aliás, tenho certeza disso. Mas eu tento, com todas as forças da minha imaginação. Tomara que tenha acertado muitas vezes!

Este ano tive o privilégio de receber muitos presentinhos com a "minha cara". E nem me refiro ao Natal, pois a situação econômica deste ano não está para presentes. Mas é que a data me fez recordar o que andei ganhando no decorrer do ano. O fato é que agradeço a todos que me deram a alegria de recebê-los e sorrir por dentro.

Assim, agradeço. Não porque ache presentes importante. Meus amigos, por si só, são presentes na minha vida.

Mas... por saber que muitos deles, como eu, passam pelo cotidiano e acham, justamente, o que combina comigo. Não é o preço, não é a obrigação de dar, pois isso, entre nós, sei que não existe. É o simples fato de mostrar que me conhecem mais do que poderia imaginar.

E isso é bom. Muito bom!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

ESPELHO DA ALMA




 Que nossos olhos reflitam nossas determinações mais sublimes e que, com nossas atitudes, o mundo se sinta mais colorido pela retidão de nossas intenções;

Que nossos passos busquem com coragem as luzes e sombras dos novos caminhos, frutos constantes de nosso aprendizado,

e que nossos ombros carreguem com equilíbrio e harmonia os afazeres cotidianos e os desafios deste novo ano;

Que nossos braços saibam acolher em abraços de amor e paz, porque nossos corações pulsam sintonizados com o amor universal;

Que nossos espíritos estejam voltados para a verdadeira luz interior e para o poder do nosso aperfeiçoamento constante.


Assim,

se pesos houver (e a ordem natural das coisas os incluem em nossa existência), que não sejam o peso de nossas consciências;

Se o colorido faltar (e essa falta pode ser semente de aprendizado), que não seja pelo preto e branco de nossas acomodações, pelo apego a padrões jamais revistos, estáticos, falidos,

pois acredito que somos espelhos do que semeamos, únicos responsáveis pelos frutos dessas sementes e cultivadores constantes de nossas almas.

Com essas reflexões, convido 2016 a entrar em nossas vidas, e não a apenas desejar que nossas vidas simplesmente se deixem invadir por ele, sem que estejamos atentos e que saibamos receber as sementes e os frutos que ele tem para nos oferecer!

Assim, que venha o Champagne, acompanhado dos sabores do corpo, da mente, do espírito e de nossas almas, brindados em uma única e inefável essência.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

QUEM TEM PRESSA?




Em plena obra, alma precisando de descanso. Não um descanso, assim, como quem fala e não diz nada. Não. Nada disso. Para uma obra que durou um ano (um ano!), quando se fala em descanso, se fala desesperadamente em descanso... 

Com certeza, foi o que sentiu João, amigo de alma, naquele dia, ao entrar em meu apto, digo, no meu terreiro de obras. 

- Vamos inventar uma coisa qualquer prá fazer. 

Eu nem sabia com que atinar. Sem grana, sem condições de pensar. Eu queria sumir, isso sim! Uma metáfora suave seria pensar num gato dentro de uma caixa que ele ama muito, mas... sem poder se mexer. E eu não tenho nenhuma vocação para me sentir presa. 

Assim, quase ignorei o comentário e, olhando em volta, falei sobre a obra e, entre outras coisas, disse que a luminária da sala estava velhinha, mas vai ficar, pois gosto muito dela. Tinha sido comprada em Mauá, presente de uma amiga. Uma cidade que eu nem conhecia. 

- Vamos lá achar uma nova. Saímos daqui na sexta de manhã. Tenho dias de folga para descontar no trabalho. Tiro a sexta. Voltamos no domingo.

- Eu não posso! Como posso?

- Pode sim, são só dois dias, é barato, a gente anda por lá, dá uma esfriada na cabeça, compra a luminária  que deve ser baratinha e você volta outra. 

Do jeito carinhoso que foi, fiquei meio sem saída. Na verdade, querendo mesmo ficar sem saída.

Fomos. Saímos daqui na sexta, às nove, com reserva em um hotel singelo, cuja recepcionista me pareceu muito simpática ao telefone. 

- A senhora vai gostar, aqui é tão tranquilo...

- Quanto tempo mais ou menos levamos do Rio até aí?

- Vindo com calma, umas três horas, quatro no máximo.

- Ok, pretendemos sair daqui em torno das nove. 

Viajar com João é a coisa mais gostosa do mundo. Já fizemos algumas viagens pela vizinhança - Petrópolis, Teresópolis. Sempre a mesma coisa: não há pressa. Gostamos de conversar, de fotografar, de parar para fazer o que der na telha. Já sabemos para onde vamos, então, a graça começa no curtir cada passo até chegar lá. Afinal, "lá" nem é propriamente a meta. A meta é o simples fato de "ir". Quando chegar, chegou. O compromisso é a falta de compromisso, senão, não tem gosto de festa.

Saímos daqui às nove, como combinamos. Chegamos em Mauá às dezesseis. Trânsito? Não. Problemas na estrada? Também não. Mas aquela flor, no meio do caminho, merecia ser admirada e fotografada. Depois, já que paramos no meio da estrada por que não sentar por ali, conversar, contar "causos", aproveitar a paisagem?

Seguir viagem, depois disso, deixa de ser cansativo. 

- Um cafezinho, vai? 

- Claro que sim. Vamos parar na próxima. E a próxima pode ser até uma simples água de coco, na beira do caminho, tanto faz. João é comedido como eu nessas coisas de comer. Então, fica mais fácil. 

Um caminhoneiro, muito gentil, chegou a nos dar passagem quatro vezes!!! Sempre que parávamos, lá vinha ele, devagar, passando por nós. Na quarta vez, já nos reconhecíamos.



Quando chegamos a Mauá, a recepcionista disse que havia telefonado algumas vezes, pois já estava preocupada. Nem notamos que ela ligou.

Acomodados, fomos dar uma volta e engrenamos na cidade vizinha, Maringá, que é onde tem tudo de comércio. Queríamos arranjar um lugar para jantar. Foi aí que começamos a notar a diferença. O falar calmo, a gentileza de quem está ali para atender de verdade: 

- Os bons restaurantes estão do outro lado da ponte. 

Para resumir, os habitantes do Estado do Rio de Janeiro, nem um pouco incomodados com a concorrência, nos indicavam, eles mesmos (!), os restaurantes mineiros, que ficavam na cidade vizinha, coincidentemente de mesmo nome: Maringá - só que de Minas.

Quando estávamos para atravessar a ponte, João, que gostou dela, resolveu tirar uma foto. Mas as pessoas estavam passando para lá e para cá e, com uma ponte estreitinha como aquela, estava difícil ficar vazia. Mas ficamos ali, de papo, esperando uma deixa. Num determinado momento, ela ficou vazia de todo. Quando João ia aproveitar a chance, um casal se dirigiu para atravessar. Não resisti: 

- Vocês se incomodariam de esperar só um tiquinho para que ele possa fotografar a ponte vazia? 

O sorriso do rapaz disse tudo, mas acrescentou: 

- Claro! Quem tem pressa nessa cidade? 

A partir daquele instante, nós dois, que já somos chegados a curtir cada item da viagem, fizemos dessa frase o bordão do final de semana. Aliás, o "claro, quem tem pressa?" até hoje nos acompanha, mesmo quando só vamos até a esquina comer uma pizza...

Para completar, depois de um jantar magnífico de comida mineira (e olha que eu não ligo nem um tico para esse negócio de comida... assim, um elogio vindo daqui tem valor duplo!...) fomos dar uma volta e encontramos esta belezinha de cartaz:



Com certeza, Mauá foi o melhor lugar terapêutico que o João poderia ter-me levado naquele final de semana. 

No dia seguinte, depois de dormir tudo que eu queria, encontrei João no restaurante, calmamente entretido com um jornal. Eu não o vi se levantar e muito menos fazer aquela cara de quem perdeu tempo me esperando.

Tranquilo (como se eu já não soubesse que seria assim), ele me propôs fazermos apenas um dos inúmeros passeios que Mauá oferece.

Assim, em vez de vermos milhares de coisas de uma tacada só, como um turista que tem de ver tudo, mesmo que não aproveite nada, visitando todas as cachoeiras super badaladas da cidade, elegemos apenas um passeio - As Cachoeiras do Alcantilado - e lá ficamos o dia todo. É uma caminhada em subida de mil e quinhentos metros de altitude, que nos brinda com nove recantos que escondem cachoeiras e poços com direito a banhos naturais. Um passeio de meia hora para quem vai direto ao topo, mas que nos tomou mais de quatro horas, fora a ida e a volta de carro, com paradas para comentarmos livros que estávamos lendo, contemplarmos sutilezas da natureza e usufruirmos do mais perfeito e harmônico "saber estar ali". 

As outras miríades de possibilidades da cidade - cachoeiras, caminhos, recantos - esperarão por outra oportunidade... a calma de poder optar por apenas um passeio e aproveitar profundamente a energia de cada um daqueles recantos, como se nada mais existisse, restaurou meu coração machucado pelo cansaço e pelo desânimo. Respirar fundo, rir muito de tudo e de nada, esquecer o relógio e voltar só quando os mosquitos começaram a perturbar... e ainda reparar que se está achando graça de pensar que apenas isso incomoda, já é a dica para deixar de incomodar. Os olhos da alma aproveitaram cada recanto, dos muitos dessa natureza singela e pura:





  







 
Foi tão bom que quase nos esquecemos do motivo da viagem: comprar uma luminária nova.

Não a encontramos, não fazem mais desse artesanato por lá. Mas, afinal... quem estava mesmo querendo uma luminária nova? No fundo, acho que a minha ainda dura uns bons anos.





Uma alma nova, sim, essa eu encontrei.

No domingo, saímos cedo, depois de uma visitinha proveitosa a uma feira orgânica e uma parada obrigatória na cidade de Penedo para almoçarmos e curtirmos mais um papinho. Haja assunto! Paradas na estrada, é claro, não poderiam faltar. Só chegamos ao Rio no final da tarde.

- É tão pertinho... só umas horinhas... "quem tem pressa?" . Vamos indo, a gente chega ainda a tempo para descansar.

Ademais, não poderíamos fazer vergonha ao nosso modo particular de viajar ou, mais do que isso, resgatar o verdadeiro encanto de saber viver.