O
Rio está dominado pelas tempestades.
Antigamente,
eram tempestades de início de ano, invariavelmente em janeiro. Depois... "as águas de março, fechando o
verão"...
Para
acompanhar o desarranjo do mundo, elas resolveram vir agora, avançadas na
época, mas com o mesmo desastre de sempre...
Na
quinta passada, saí do consultório bem tarde e a chuva me pegou em cheio.
Nessas horas, os taxis somem e, mesmo morando perto, foi um estirão a pé, de
quinze minutos terríveis, com rajadas de vento e água por todos os lados e ruas
inundadas que dispensam descrições. Todos os cariocas sabem como foi. Os não
cariocas... bem... melhor poupá-los da novela. Não vale a pena.
Mas
me lembrei de um aperto pior do que esse, que passei há muitos anos atrás.
Estava recém concursada na universidade pública, onde passei a dar aula, a
partir de 1986. Era março. Haja chuvarada... e... sempre com hora marcada:
Final de noite. O toró vinha forte, muitas vezes interferindo na alimentação
elétrica do campus universitário. Aulas suspensas.Mas nem adiantava tentar sair
dos prédios em direção à casa. A região toda inundava e para quem conhece a
área, a Praça da Bandeira, que vira um rio até hoje, era e é passagem
obrigatória.
Mas
eu era novata e não sabia bem do perigo. Naquele dia, a chuva mal começara,
achei que dava para passar. Peguei o carro e embiquei rumo à zona sul. Mas logo
vi que não tinha embicado... eu tinha mesmo era embarcado.
Não
havia dez minutos de chuva e eu já percebera que não iria dar mais para passar.
Também não dava para voltar. A água subia numa velocidade inacreditável a minha
volta e eu tinha de tomar um atitude imediata. Pela primeira vez, depois de ter
enfrentado muitas chuvas na direção, eu estava totalmente aterrorizada.
Para
quem conhece a área, sabe que há o viaduto que passa para São Cristóvão, aquele
que vai dar na Quinta da Boa Vista.Virei o carro nessa direção e subi o viaduto.
Dei um tapinha no lombo do cavalo... ops... no painel do carro e murmurei:
-
Pronto, aqui estaremos salvos.
Mas
logo vi que não. O fato de eu ser a única pessoa a parar em cima do viaduto
para esperar a chuva passar me deixou desconfiada. Embora parecesse o lugar
mais seguro para se ficar, os dois motoristas que conseguiram também chegar ali,
não pararam no viaduto. Pelo contrário, me fizeram sinal para seguir em frente.
Bem,
quem sou eu para discutir... mas logo percebi: tudo às escuras, numa região de
pouca segurança, ali não era o melhor convite para estacionar. Ficar sozinha em cima do
viaduto, só esperando a chuva passar talvez fosse pedir por um assalto. Naquela
região erma... nunca se sabe. E como eu moro na zona sul da cidade e ali era o
norte, ainda pouco conhecido por mim... bem... melhor seguir o conselho dos
demais.
Desci
o viaduto, dando no outro lado, o tal onde fica a Quinta da Boa Vista. A
situação não era tão aterradora quanto a da Praça da Bandeira, que simplesmente
enche até cobrir os veículos. Mas deixava muito a desejar em termos de
tranquilidade. Tudo alagado e, se o temporal se estendesse, com certeza,
haveria água para encher o carro.
O
pior é que, novata na área, eu não sabia para onde ir e, então, como diz o
senso popular "fui indo, fui
indo", pois não havia outro jeito.
Na
verdade, nem sei se saberia fazer o mesmo percurso novamente. Só sei que, lá
pelas tantas, dei num lugar que me pareceu ter uma calçada um pouco mais alta. Voltei
o volante do carro, melhor dizendo, o "timão do meu "barco"
naquela direção.
É
nessas horas que tenho mesmo certeza de que tenho um anjo aventureiro. Aquele
tal... Se você é um leitor assíduo, deve se lembrar dele em contos como
"Golpe de Mestre", "Senta que lá vem história" e outros
mais.
Pois
então. Foi ele que, no meio desse caos, com a vista turva por um para-brisas
embaçado e coberto de chuva torrencial, soube me fazer enxergar esse cantinho
de terra, essa ilha paradisíaca, preparada pelos deuses.
Subi
com o carro e parei nada mais, nada menos do que na porta da Décima Sétima DP, em
outros termos, a Delegacia de Polícia de São Cristóvão. E eu tinha estacionado no lugar reservado aos
carros policiais.
Seja
o que os deuses quiserem. E... afinal... eu tinha o anjo... que, você já sabe, se
me põe em apuros, dá um jeito de me tirar depois.
Desliguei
o carro, saí e me dirigi para a porta da DP com o melhor dos meus sorrisos.
Esperava encontrar um terror. Afinal, eu estava entrando numa delegacia e meu
imaginário, é claro, pintou os piores quadros possíveis. Mas o caos do
temporal era tamanho que... caos por caos... melhor me apresentar antes que
eles cismem de me tirar dali... e... então, definitivamente, eu não saberia
para onde ir. Eu não tinha a mínima ideia de onde eu estava, dentro do mapa do
Rio de Janeiro! E, naquela escuridão, nem que eu quisesse, saberia como sair
dali, quanto mais buscar os melhores caminhos.
Imaginei
um delegado de bigodes negros e expressão de dar medo a qualquer cidadão. Não
sei por que, sempre imaginei os delegados assim. Talvez porque o de Portugal, que aparece no conto Golpe de Mestre tivesse bigodões. Talvez fosse por isso, mas não me lembro.
Entrei.
Sentado a uma mesa, um único personagem. Um senhor de aparência que poderia ser
até simpática levantou os olhos por cima dos óculos, quando me viu.
Apressei-me:
-
Boa noite. O Sr. Delegado, por favor.
-
Eu mesmo. O que deseja?
Não
era possível. Imaginem, um homem comum! Até quase simpático. Tomei coragem e
arrisquei:
-
Sr. Delegado, preciso que me prenda até que a tempestade passe!
Ele
sorriu e entrou na pilha:
-
Para prendê-la preciso de uma acusação.
-
Eu estacionei em área designada aos carros policiais.
Ele
sorriu novamente. Depois inventou uma cara malvada:
-
Considere-se presa. Você tem direito a apenas um telefonema. Ah... e um café.
Nem
me passou pela cabeça recusar o café, embora imaginasse que um café de
delegacia deveria ser um horror de ruim. Mas eu não me ariscaria a recusar a
gentileza nem por um decreto. Usei o
telefone para ligar para casa. Afinal, eu iria mesmo sumir por um bom tempo,
até conseguir voltar. Naquela época, celulares não existiam nem em filmes de
ficção científica.
Tão
logo acabei de telefonar, fui brindada com um cafezinho quente, feito na
hora... e... estava uma delícia!
A
delegacia estava tranquila naquela noite. Testemunhei apenas uma ocorrência de
um rapaz que entrou algemado, trazido por policiais e acompanhado por um
senhor, provavelmente, o cidadão lesado. Mas fui poupada de assistir os
depoimentos, pois foram levados para uma sala ao lado.
Fora
isso, ficamos de papo, o delegado e eu. Ele me ensinou como enfrentar as
tempestades da região, a partir de então:
-
Sempre que chover forte, espere passar. Conte uma hora e quinze minutos e, só
então, pode sair. Antes disso, a Praça da Bandeira estará intransitável.
A
partir daquele dia, em caso de tempestade, eu já sabia: uma hora e quinze
minutos depois do último pingo de chuva era o comando para poder voltar para
casa. Mas, naquele dia, só mesmo meu anjo para me colocar nas mãos de alguém
que pudesse me ajudar. Provavelmente, o único na área...
É
engraçado como sempre tive sorte nos meus encontros com policiais. Se você leu
"O Detetive" e "O Policial", há de concordar comigo...
A
região ficou transitável apenas em torno das duas da manhã. E como boa cidadã
que fui, totalmente comportada, o delegado me liberou do delito de
estacionamento impróprio, com um sorriso:
-
Da próxima vez, se tentar se arriscar e der com os costados por aqui, vou ser mais
rigoroso... em vez de um café, vou colocar você atrás das grades mesmo!
Depois,
chamou dois policiais e deu instruções para que escoltassem meu carro até o
centro da cidade, mais especificamente, a Av. Presidente Vargas, altura da
Central.
-
Não sei como agradecer. Eu teria dificuldade para encontrar o caminho. Não sei
bem onde estou. Na verdade, nem sei como vim parar aqui.
-
É... os presos sempre dizem que não sabem como vieram parar aqui.
Sorrimos
ambos.
- Mas no meu caso, tenho certeza de que foi um anjo me colocando nas mãos de
outro.
Ele
me olhou com olhos de pai:
-
Tenho uma filha mais ou menos da sua idade...
E
tentou fazer uma cara séria:
-
Não vá se colocar em apuros outra vez!
Saí
dali escoltada, ou melhor, orientada por um carro policial que me deixou
exatamente na altura da Central do Brasil. Dali, era caminho bem conhecido: seguir
em frente, pegar o Aterro do Flamengo, atravessar o túnel para Copacabana e
estar em casa.
Cheguei
já bem esquecida do medaço que me deu, de me ver rodeada e ameaçada pela água, no
início do temporal. Pelo contrário, algo dentro de mim estava em festa, esse
tipo de festa que invade a gente, quando encontramos almas alegres, generosas,
acolhedoras... que nos fazem tanto bem.
Não
conheci mais nenhum delegado de polícia, depois disso. Dizem que tirei a sorte grande naquela
noite. Pode ser. Só sei que não penso mais em delegados com caras ferozes e de
bigodes pretos. Não faço mais ideia de como sejam. Para mim, podem ser como
forem. Na verdade, espero não precisar conhecê-los, sob qualquer circunstância.
Aquele,
no entanto, de rosto compenetrado e gentil, com uma filha da minha idade, que
me serviu um café delicioso e entrou no espírito da brincadeira desde o
primeiro minuto, ficará para sempre na minha lembrança... com meu coração
agradecido.