sábado, 26 de março de 2011

DÁ PARA EXPLICAR?


1996. Eu estava em Salvador, num congresso sobre HIV/AIDS, organizado pelo Ministério da Saúde. Naquela época eu era coordenadora de um dos meus projetos favoritos: atendimento preventivo e de acompanhamento a portadores de HIV e doenças sexualmente transmissíveis para a comunidade de surdos. Como me meti nisso? Ora, porque os surdos não tinham acesso à divulgação comum, sempre auditiva e sempre em Língua Portuguesa. Como eu tinha um projetão voltado para a comunidade de surdos e tudo que pudesse envolver processos de comunicação em Língua de Sinais, acabei me envolvendo com isso também.

O congresso estava sendo um sucesso e nosso trabalho foi brindado com um prêmio especial, dada a especificidade do trabalho: tudo era feito em Língua Brasileira de Sinais, desde a divulgação e propaganda, até o atendimento no hospital universitário. Dava um trabalhão. Mas era simplesmente magnífico ver como as coisas andam, nesse país, quando a gente quer. O povo brasileiro é pródigo, generoso, cuidadoso. O projeto conseguiu espalhar-se por quase todo o Brasil, diga-se, por quase todas as comunidades de surdos do país, com ajuda de custo que aparecia de até onde os deuses duvidam. E o Ministério da Saúde, nesse item, foi simplesmente exemplar. Aliás, o combate ao HIV/AIDS, no Brasil, naquela época, foi tão exemplar que chegou a ser reconhecido mundialmente como um dos principais países de excelência na prevenção e no combate ao HIV. Poucos sabem disso. O brasileiro não costuma ver as suas qualidades, infelizmente.

Bom, eu estava lá, no congresso, em plena capital baiana, já tendo apresentado o projeto, às vésperas de vir embora. Mas estava incluído no pacote o direito à diária do hotel até o dia seguinte, sábado, final da tarde. Estava exausta do trabalho e também da noitada que tinha tido com Silvio, o tal que se transformou em cunhado-irmão, o querido marido de Patrícia, que você conheceu no conto “Silvio”. Acabada a labuta e a festa, em vez de ir embora correndo, como quase sempre fazia por conta de compromissos profissionais, marquei meu vôo para o início da noite e resolvi dormir até mais tarde e dar um pulinho à piscina de manhã para relaxar. Na segunda, muito trabalho me esperava por aqui, mas ainda teria o domingo inteiro para me refazer.

Fui à piscina e fiquei pensando em toda a semana. Meu olhar se espalhava pelo mar cujo azul se via do terração e também pelo jovem casal que se encarregava de fazer a alegria dos turistas no espaço da piscina. Os dois jovens, iam e vinham, com seu jeitinho baiano irresistível, nos fazendo sorrir dessa sedução e graça que só encontramos na Bahia.

No final da manhã, fomos brindados com a possibilidade de uma lembrança. Quem quisesse, levaria um colar de flores, desses que se dá os turistas, mas que não são de flores naturais. Havia de várias cores. Claro, eu quis um. Me aproximei e a moça pegou um, aleatoriamente, para me dar. Mas o moço se adiantou, tirou o colar de suas mãos gentilmente e disse:

- Um colar amarelo, para uma filha de Oxum.

Olhei-o espantada:

- Ué, como você sabe?

Sorridente, colocou o colar em meu pescoço e disse:

- Precisa perguntar?

Eu não sabia quem era Oxum. Sequer sabia por que não precisava perguntar. Para ele, deveria estar na “cara”, se é que é pela cara que se vê essas coisas. Mas agradeci pela gentileza e trouxe meu colar com carinho. Ao chegar em casa, no Rio, fui correndo pesquisar: senhora dos rios, cachoeiras, lagos... a mãe da água doce. Sorri da idéia. Filha de Oxum. Bonito, romântico... mas não me satisfiz.

Na segunda, procurei um querido amigo, no setor dos funcionários de áudio-visual da Universidade. Anos atrás, ele tinha me olhado longamente e me cumprimentado com uma pequena reverência. Perguntei por quê. Olhando para minha mão direita que eu quase perdi numa queimadura terrível da qual prefiro não contar a história e de cujas marcas tenho até hoje, ele disse:

- Meu pai já te marcou, ora vejam só!... Um dia, você também vai trabalhar com cura.

Estávamos em 1992 e eu nem sabia o que era Reiki ou terapias orientais. A última coisa do mundo que me passaria pela cabeça, seria me aposentar antes dos setenta anos, com a compulsória do funcionalismo público. Disse, gentilmente, que amava o que fazia e outra coisa não estava em meus planos. Ele apenas sorriu, repetiu a reverência e ficou por isso mesmo.

Pois é... em 1996 eu estava sendo apresentada ao Reiki, primeiro como cliente, depois como aluna dos cursos e, em 1998, já estava aplicando Reiki em amigos. Em 2003, me aposentei para me dedicar exclusivamente a isso. Inexplicável aos olhos da razão.

Mas voltemos a 1996. Me lembrei das observações antigas desse amigo e foi a ele que recorri, desta vez, mais crente e convicta de que existem essas coisas que não sabemos explicar. Na verdade, esse amigo já vinha se tornando, com o correr dos anos, um grande interlocutor de muitas coisas acadêmicas e da vida. Se ele predissera algo que já estava se delineando, saberia me dizer o que significava o que o jovem baiano me havia revelado.

Ele sorriu quando lhe mostrei o colar e me disse:

- Eu sabia que, um dia, voltaríamos ao assunto.

E me deu uma aula completa sobre quem seria essa entidade que se apresentava como sendo a minha maior proteção. Não havia dúvidas, segundo ele, que tudo em mim transpirava Oxum e nunca tinha se aprofundado na questão por conta de minha resposta pouco receptiva.

Pirei. Ele não tinha dito, em 1992, que eu tinha sido marcada pelo “pai” dele? Que história maluca era essa? Outra aula para leigos sobre quem é quem e quantos podem ser... e, o mais estranho, mas muito convincente, era que tudo que ele descrevia combinava comigo: comida que me fazia mal, gostos, etc.

Que mundo encantado... mas me mantive paralela a ele, pois logo antevi que a coisa era mesmo muito complicada e fiquei muito feliz ao saber que eu poderia ser filha, só filha, sem maiores problemas, rituais ou obrigações.

Uns anos depois, indo à casa de minha faxineira – a mesma do conto do “galo” – para levar mantimentos, fui surpreendida, de novo, com o mesmo cumprimento.

Estava na varanda, tomando um refrigerante, quando se aproximou um amigo dela, me olhou e me cumprimentou:

- Salve, filha de Oxum!

Como é que pode?

Eu nunca tinha comentado nadica de nada com ela, não conhecia o tal moço e, portanto, não teria como ele saber da informação. Fiquei olhando meio surpresa, meio estarrecida para essa sabedoria popular sem tamanho, que só poderia nascer, viver e frutificar aqui, nesse país abençoado em sua cultura miscigenada e pródiga.

Quem dá conta desse misticismo?

sábado, 19 de março de 2011

DIGA-ME COM QUEM ANDAS


Na verdade, não sei com quem ando. Sei que ando. Comecei a andar muito cedo, por volta dos 11 meses, segundo dizia a minha mãe, e acho que não parei até hoje.

Com quem ando... com quem andei... nossa... já andei com tanta gente, dos mais variados tipos e jeitos...

Às vezes, paro para pensar nessas coisas...

Já andei com o Reginaldo, aquele aluno “marginal” da escola na zona rural do Município do Rio, onde comecei a dar aulas, assim que me formei. Não sei se você se lembra... o do conto “Reginaldo” . Um “marginal” que me ensinou que confiança está nos olhos e no coração, longe do preconceito.

Andei por favelas (hoje chamadas comunidades) em minhas pesquisas sobre desenvolvimento cognitivo em crianças carentes... lá fiz amizade sincera com pessoas que nem sabiam escrever, que punham seus filhos no cercado junto aos porcos quando saíam para trabalhar porque não tinham com quem deixar... que comiam com as mãos, pois não tinham talheres. Eu PHD e eles analfabetos, me ensinando tanta coisa sobre a cartilha da vida... entrava e saía com passaporte livre, pois “a professora veio pesquisar” . Eles sequer sabiam o que era “pesquisar”, mas a confiança do olhar e o passaporte da amizade diziam tudo e ninguém mexia comigo...

Andei às avessas, com gente do escalão universitário, muitas vezes lutando por direitos humanos até descobrir que para eles isso era só uma fachada a que pouco davam importância... alguns deles apenas se aproveitando da situação para engendrarem lutas políticas para engrandecimento pessoal...

Andei com cocotas em festas socialite me perguntando “o que eu estou fazendo aqui?”.

Andei por aí, meio sem rumo, com pessoas que pouco conheci... tantas vezes buscando os significados da vida...

Andei com místicos para descobrir que não eram tão místicos...

Andei com céticos para descobrir que não eram tão céticos...

Andei só... andei acompanhada...

Como você definiria o que sou? Com quem será que andei, senão comigo mesma durante todo esse tempo, que possa definir o que sou, sozinha ou acompanhada?...

Engraçado... isso era para ser um conto...

terça-feira, 15 de março de 2011

JÁ!


Pois é... já! Um ano de blog. Nem vi passar. Fui escrevendo aqui e ali e, quando vi, tinha postado 52 contos. Eu que pensei que fecharia o blog lá pelos 20... não teria mais contos a escrever...

Vejo que a vida, no entanto, guarda mais recordações do que imaginamos e a memória vai puxando uma aqui, outra ali e você acaba percebendo que viveu muito, não só em anos, mas em conteúdo. Para o bem e para o mal, fico feliz com isso. É como sentir que posso ter passado por tudo, mas... que não caiu no vazio, pelo contrário.

E descobri que ainda tenho muito a contar. Cada vez que me sento olhando para a telinha, me lembro disso ou daquilo e, algumas vezes, fico na dúvida do que escolher.

Então, enquanto os dedos acharem o que teclar, vou escrevendo. Por mais umas semanas? Uns meses? Não sei. A memória dirá.

Espero que possa divertir os seus olhos como me divirto nessas recordações.

E obrigada pelo estímulo... sem você, eu não estaria tão motivada a reviver, reativar e alimentar raízes que, indubitavelmente, não se perdem apenas nas raízes, mas motivam reconstrução...

Tim-tim!

sábado, 12 de março de 2011

O NOIVO (2)


Como prometi na semana passada, o resto do conto sobre meu amor de infância - a bifurcação do caminho:

Num belo (belo???) dia, soube que iríamos nos mudar da Tijuca para o Méier. Eu não sabia onde era, mas qualquer lugar que fosse maior do que a distância de um muro representava o outro lado de um mundo longínquo e desconhecido. Corri em prantos para ele. Eu seria levada embora! O que iríamos fazer? A dor era intensa; o susto, tamanho; a angústia, fatal. Pensei que não agüentaria a força do medo pulsando dentro de mim. O coração explodia, quase não conseguia respirar. Choramos os dois. Muito. Minhas mãos, coladas às dele, suavam. As dele também. Eu não via saída, só via o fim. E o silêncio dele, vê-lo pela primeira vez sem resposta, inaugurou em mim, o conhecimento das forças irrefutáveis dos rios da vida. Primeira sensação de morte. Eu não estava indo embora, estava sendo arrancada da felicidade.

Seus olhos azuis encontraram os meus, avermelhados pelo baque do abismo que a vida urdia contra nós. Sabia o que se passava em sua cabecinha masculina, impotente para me salvar. Sabia, sabia de cor e salteado, como sempre. Sabia de sua dor, no momento, tão profunda como a minha. Não se tratava de um dentinho a ser retirado. Que tipo de carinho poderia ser mantido, acolhido, que amor protegido e resguardado, diante do sacrilégio daquele momento?

Esta é a última lembrança nítida que tenho das palavras de meu doce companheiro:

- Não chore, não vamos chorar. Estamos com seis anos, um dia, vamos ter dezesseis. E quando tivermos dezesseis, vou achar você e já seremos grandes e vamos nos casar.

Não casamos, não nos encontramos. Mas não namorei ninguém, até os dezesseis anos de idade. Paquerei muito, brinquei muito, mas meu primeiro beijo só foi dado, quando, aos dezesseis, finalmente, consegui perceber que o verdadeiro significado de meu noivado era com esse perfil lindo de figura masculina, preservado, para sempre, graças ao convívio com aquele pequeno e doce príncipe de infância.

Vivi a vida, me casei, me separei, namorei muito. A imagem do masculino que ele perfilou, para mim, buscou moldar a visão de um homem companheiro e um parceiro de caminhada, o perfil que você, neste pequeno relato, pode vislumbrar.

Mas a história não acaba aí. Aos dezoito, a vida me fez encontrar a irmã mais velha dele. Coisas que não dá para explicar. Durante a conversa, nos reconhecemos, não me lembro como. Ela me deu o número do telefone deles. Eu não tinha um. O contato estaria, portanto, em minhas mãos, a não ser que a ele interessasse se mover, através da irmã, que sabia onde me achar, pelo endereço que lhe dei, um papel qualquer, talvez perdido em sua bolsa para sempre. Eu estava namorando. Ele, não sei. Não nos encontramos, não nos falamos. Cheguei a ligar uma vez, ninguém atendeu. Não liguei mais. Anos depois, talvez uns dez ou quinze, já casada, buscamos um dermatologista para resolver um problema de pele de meu ex-marido. Por coincidência da vida, era seu tio! Foi ele quem me reconheceu, perguntou se eu não era a menininha, filha do Sr. Joaquim, que havia morado na Rua Marechal Trompovsky, na Tijuca. Eu mesma. Me deu notícias de meu amiguinho, casado e com dois filhos. Perguntei se estava feliz. Ele disse que sim. Perguntei se era ortodontista, como o avô. Ele disse que sim, e dos bons. Sorri. Pedi que lhe dissesse que mandava um beijo e recomendações a toda a família. O avô tinha falecido, ele e o pai (também dentista) trabalhavam juntos no consultório que fora do avô. Era o fio de informação que seria vital para mim, muitos e muitos anos depois.

A vida passou. Me separei, tive outros relacionamentos. Fiz 50 anos. Me lembrei dele, no dia do meu aniversário. Bodas de ouro. Ele também fizera. Uma imensa gratidão brindou meu coração. Imensa. Imensa. Quis mandar um cartão de aniversário, acompanhado da manifestação dessa gratidão que transbordava pelos meus poros.

Busquei o catálogo telefônico. Achei o sobrenome do avô e o endereço do consultório (o tal fio de informação, dado pelo dermatologista, há mais de vinte anos atrás). Daí a achar o número de telefone atual foi um pulo, pois sabia o nome do novo dentista de cor, claro. Liguei. Ele não estava. Tinha outra clínica, também, em outro lugar. Mas eu só queria conferir o endereço. Não queria entrar em sua vida e, sinceramente, não estava pensando nele entrando na minha. Mas havia uma profunda paz, uma imensa gratidão que urgia em se manifestar. De repente, também quis conferir a sua voz. Liguei para a tal outra clínica. Chamei pelo nome:

- Dr. (...), está?

Mas eu já havia reconhecido a mesma voz pelo alô, só que adulta. Ele confirmou:

- Ele mesmo.

Inventei um nome: Maria de Fátima. Perguntei se atenderia o meu filho. Só queria encompridar o papo, conferir o som, no meu coração. A gentileza era a mesma. No fundo, era ele. Poderia mandar o meu cartão, sem problemas. Disse que ligaria para o outro consultório, pois seria mais perto para mim. Motivo encontrado para não marcar nada, para desligar, para não ter de dar um nome de um filho que eu não tinha.

Fiz o que havia me proposto: um agradecimento pela figura tão linda que tinha povoado a minha infância. Não havia mesmo outra intenção. Aos cinqüenta anos, revivendo os caminhos de minha vida, reconhecia nele, muitas de minhas escolhas. Não disse, mas sabia. Mandei o cartão e fiquei em paz. Não dei pistas, não deixei meu número de telefone, apenas o meu endereço de remetente. Lingüista, escrevi de tal forma que ele se sentisse apenas contemplado pela gratidão, carinhosa e delicadamente. Segui em paz. Para mim, havia completado o ciclo, fechado com chave de ouro, não deixando em aberto uma vivência tão linda e tão importante em minha vida. O personagem coadjuvante tinha o direito de saber o quanto fora importante para a formação do meu feminino. Os dias se passaram. Esqueci o fato.

Sinceramente, não pensei que os homens fossem tão curiosos quanto as mulheres ou, talvez, também tão preciosos em suas memórias. Não sei quanto tempo depois, talvez um mês, recebi um telefonema. Uma secretária:

- Um momento, Dr. (...) vai falar.

Dr. (...)? Eu não fui a médico algum... do outro lado da linha, a minha infância se manifesta:

- Você não tem idéia do trabalho que me deu achar você!

Eu ri, com a mesma cumplicidade de quarenta e cinco anos atrás.

- Foi mesmo?

O riso dele também era o mesmo:

- Claro, não sei nada de você, não sei se está casada, se podia ligar sem problemas, passei pela porta de seu prédio um monte de vezes, seu número não está na lista telefônica, consegui um telefone de um vizinho seu que me deu seu número (coincidência da vida mesmo, pois era o único vizinho, no prédio inteiro, que tinha o meu número de telefone...) e coloquei minha secretária para ligar para você direto, mas só caía na sua secretária eletrônica. Quero te ver.

Tudo isso assim, num fôlego só.

Nos vimos, ainda cheguei a ver seu pai vivo, numa das salas de seu imenso consultório. Velhinho, morreu pouco depois de minha visita, mas me reconheceu:

- Ah, sei, você era aquela amiguinha, vizinha da casa da minha mãe...

Sorriu para mim, me abraçou tão carinhosamente que me surpreendi com a emoção que senti. Naquele momento, me senti abraçando as emoções fiéis do passado, vendo nele, o que se tinha conservado de traços imutáveis. D. Mariazinha, a avó, estava viva, com perto de cem anos! Segundo ele, continuava a mesma... como eu gostaria de tê-la reencontrado!... Mas não cheguei a vê-la, morando fora do Rio. Meu amiguinho teve mais irmãos, depois que nos separamos. São cinco filhos, ao todo, quando eram apenas três naquela época. Cheguei a conhecer sua irmã mais nova. Uma gracinha! Também conheci seu filho mais velho. Um belo rapaz, seguindo os passos do pai.

Meu amigo mudou muito, é um homem de negócios, de vida particular muito conturbada, tem lá os seus problemas. Pelos meandros de nossos caminhos, seus princípios de vida se diferenciaram muito dos meus. Traçamos percursos tão diferentes que não consigo reconhecê-lo com os traços de infância. Tantas coisas devem ter acontecido...

Nos falamos por telefone vez por outra. Talvez tenha ido uma ou duas vezes a seu consultório, atualmente tão perto do meu, para um brevíssimo café. Ele também me visitou algumas vezes. Consigo ou tento reconhecer alguns traços, tão poucos, do que restou de meu querido amiguinho... prefiro imaginar que seja feliz, muito feliz, pois era assim que meu coração gostaria de encontrar quem me fez tanto bem.

Brinco ao dizer-lhe que nem ele mesmo conseguiria tirar de mim o que guardo de nossa infância. Mas a gratidão continua a mesma, tatuada em meu coração.

sábado, 5 de março de 2011

O NOIVO


Poucas mulheres puderam, como eu, ter tido um príncipe ao vivo e a cores, sondando seus passos de infância.

E esse não era um príncipe encantado. Era humano. Não saíra dos contos de fadas. Podia tocá-lo a qualquer instante. Talvez por isso, na minha adolescência, enquanto minhas colegas colecionavam retratos dos Beatles e respondiam àqueles questionários com nomes de artistas de filmes, cantores ou outros ídolos, nas questões que investigavam quem indicar como modelo de homem para elas, eu colecionava paisagens, escrevia poesias para um alguém indeterminado, mas bem delineado em meu coração e respondia àquela pergunta “quem você escolheria para se casar”, apenas dizendo: um homem que possa guardar com carinho meu rosto em suas mãos. Eu havia vivido isso... e com intensidade. Estava marcada, tatuada por uma vivência inesquecível.

Apenas um muro me separava da realidade desse encantamento. Sua avó morava ao lado e, já aos cinco anos, ele sabia muito bem com quem iria se casar quando crescesse. Descobri isso numa tarde despregada de domingo. Aos cinco anos, eu só conseguia identificar os domingos, por ver toda a família dele almoçando na casa da avó. Ah... o feijão de D. Mariazinha, de gosto e leveza inesquecíveis...

Meu príncipe estava encarregado de levar, lá de casa, o famoso pão-de-ló, obra prima de minha mãe, para a sobremesa da família. Unha e carne, como diziam, estávamos colados um ao outro quando ouvi sua voz límpida e firme entregando o doce a avó, na frente de todos que estavam sentados em torno da mesa:

- Aqui, vó, o bolo da sogra.

Estava firmado o noivado, com os pais, irmãos, tios e avós presentes.

Engraçado, num gesto espontâneo, não premeditado, por coincidência (?), ninguém da minha família. Desde cedo, refletiam-se os caminhos de minha identidade com o mundo. Mas isso é outra história... Voltemos aos fatos.

Senti o coração bater com força. Eu não sabia bem o que significava, mas sabia que, naquele momento, era para sempre. Minha alegria interior era tamanha que colei os pés no chão para não cair, sorriso por dentro, encabulamento por fora, diante do riso solto e descontraído que esta frase simples e ingênua roubou de todos, acompanhado da observação do avô:

- Ora veja só... escolheu a moça de olhos mais lindos que já vi e de alma irmã a sua, meu neto.

Ele era apaixonado pelo avô, então, qualquer coisa que dissesse, era lei. Estava, pois, firmado e confirmado o compromisso, perante o avô e o mundo. Mas ele era assim, ouvia as coisas com a maior simplicidade do mundo e, pelo menos por fora, agia como um homenzinho miniatura, gigante aos meus olhos, senhor das situações, sabendo muito bem o que fazia. O encantamento estava sempre espalhado por toda a parte, permeando a naturalidade com que ele encarava todos os nossos interesses comuns. O encabulamento ficou apenas por minha conta...

Não havia segredos entre nós, pois líamos os pensamentos um do outro, num relance de olhar. Às vezes, nem isso. Os adultos diziam que nossos corações deveriam bater no mesmo ritmo, tão evidente tudo se fazia.

Lembro-me que ele era ligeiramente mais baixo do que eu, mas o suficiente para incomodá-lo. E na única foto que guardei de nós dois, lembro-me que, sem combinarmos, ele levantou um tiquinho os calcanhares exatamente no mesmo momento em que me encolhi toda, o mesmo tiquinho... o suficiente para que a diferença não aparecesse tanto. Essa era a sincronia de nossas atitudes. Eu não me incomodava por ser mais alta, ele já era grande aos olhos da minha alma, mas não queria que ele se visse mais baixo na foto...

Ele não sabia andar até a pracinha sem ser de mãos dadas comigo. Se algum garoto tivesse a gracinha de me chamar de vesga (eu era estrábica), não importava a altura ou a idade do tipo, ele avançava, leão em sua pequenez, pronto mesmo para bater, dizendo:

- São os olhos mais lindos mundo e ela é muito bonita também!

Um pouco possessivo, confesso, pois eu só podia brincar com ele. Mas, àquela altura, estava ótimo para mim. Era o melhor amigo de folguedos que eu conhecia e ele cuidava para que tudo fosse seguro e confortável. Eu me sentia mesmo uma princesa, sem o saber.

Lembro-me de nossa inocência, de nossa naturalidade, de nossa cumplicidade. Foi com ele que me deparei, pela primeira vez, com a aparência do sexo oposto, no sentido literal da palavra. Apertado, num dia qualquer, ele encostou-se numa arvore e fez ali mesmo o que mais precisava fazer. Olhei encantada para o que jamais vira e apenas disse:

- Que aparelhinho prático! Quero ter um também!

Ele voltou-se sério:

- Você não pode ter um!

Perguntei por que, como se fosse o maior e mais burro impedimento do mundo. Lembro-me de sua solenidade:

- Se você tivesse um, seria um menino e não poderia se casar comigo, quando crescesse.

Pronto, ali mesmo, fazendo xixi, ele conseguiu, num só ato, resolver suas necessidades práticas e momentâneas, desfazer os complexos que algum adepto de Freud levaria anos para tirar de mim quando eu crescesse, me conceder o conhecimento saudável das diferenças e me dar a alegria inenarrável de tê-lo como parceiro. Ficou tudo certo, no mesmo segundo, e eu jamais iria querer ter aparelhinho prático algum.

Chegamos em casa (a casa da avó) e a primeira coisa que ele fez foi contar a aventura à velha senhora (adultos grisalhos são velhos para crianças de cinco anos ainda mais quando já são avós...), brincando ingenuamente com a minha ignorância. Ela sorriu e, sábia, confirmou as informações daquele menino tão esperto...

Não sei exatamente como aconteceu, mas deve ter sido no mesmo dia: tomamos banho juntos, em sua casa, dentro de uma banheira daquelas antigas, colocadas naqueles banheiros brancos e monstruosos, típicos das casas tijucanas da década de cinqüenta. A água era fria, embora a chuveirada fosse das boas. Mas ele parecia intuir minhas necessidades tão logo surgissem e mal nos ensaboamos e saímos da última chuveirada, a primeira coisa que fez foi saltar da banheira, molhando todo o chão para pegar uma toalha, me enrolar e me esfregar bastante as costas, dizendo a avó:

- Ela tá com frio, vó, arrepiada, vamos secar depressa.

Não me lembro de outro banho, mas a gentileza deste foi suficiente para guardar mais esta pérola em meu coração. Para a sábia e esperta avó, talvez para tirarmos qualquer dúvida sobre a sexualidade infantil; para nós dois, apenas mais uma oportunidade de estarmos juntos e felizes. Tal era a nossa inocência e, talvez, tal a certeza, entre nós, de que, provavelmente, tudo teria o seu tempo.

Eu ficava de castigo com freqüência. Meus crimes se resumiam a apenas um: não queria comer. Ficava, por conta disso, horas a fio (para mim, horas... e... infindáveis), num canto da sala de visitas, de cara para a parede. Mas de nada adiantava. Depois disso, a comida, com mais razão ainda, simplesmente não descia. Nos dias de castigo, meu pequeno amigo se negava a ir brincar na pracinha ou ia apenas para catar umas sementinhas dessas de estalinho que as crianças gostam de pisar (ou gostavam, quando infância nas praças ainda existia). Colocava tudo numa caixinha de fósforos e me esperava sair do castigo. Então, pulava o muro e espalhava pelo chão do meu quintal aquele tapete de sementes para que pudéssemos nos divertir juntos, pisando uma a uma...

Meu estômago era travado por razões advindas da família complicada que povoou a minha infância. Coisas já analisadas, que não puderam ser resolvidas com a mesma simplicidade de quando quis ter um pênis ao ver o de meu noivo, pela primeira vez. Afinal, os terapeutas precisam de nós para consumarem sua vocação... e nós, muitas vezes, precisamos deles para nos olharmos melhor no espelho. Agradeço sinceramente ao meu por isso.

Mas voltemos ao caso: meu estômago era travado. Não era birra nem teimosia. Era travado mesmo, fechado a sete chaves e eu, literalmente, diante de um irmão muito mais velho e prepotente olhando sério para mim dizendo que, naquele dia eu ia comer de qualquer jeito, ficava pensando por que não poderíamos nos alimentar de ar e brisa e não de comida. Minha teimosia era essa... e castigo sempre, o que não adiantava muito, pelo contrário.

Meu noivo, no entanto, era paciente e sempre me esperava sair do suplício. Estava a postos, do outro lado do muro, esperando para me ver. Quantas vezes (inumeráveis!), ao pular o muro e perguntar se já tinha almoçado, diante da minha negativa, dizia que não tinha almoçado também e que estava me esperando. Eu lhe dizia que não iria comer de jeito nenhum, mas, jeitosinho, ele me convidava apenas a ficar olhando, enquanto ele comia. Foi assim que conheci o gosto inesquecível do feijão de D. Mariazinha. Uma garfada para ele e, talvez, dez para mim, tiradas do mesmo prato. Hoje, penso que, talvez, ele já tivesse almoçado todas aquelas vezes e usava esse ardil para me fazer comer... e eu comia tudinho. É bem provável que fosse lá idéia da D. Mariazinha, experiente da vida e das crianças. Fosse o que fosse, ele cumpria seu papel, com a leveza de um pequeno anjo.

Conversávamos sobre tudo... eu não me lembro que tudo era esse, mas ouvia os adultos dizerem que esses dois vivem conversando o dia todo, não sei o que tanto eles têm para assuntar... Tínhamos nosso canto para conversar. Sempre o mesmo na casa da avó e também sempre o mesmo, quando era no meu quintal. Lembro-me, como se fosse em um filme, da avó que olhava da janela da cozinha e, de vez em quando, sorria para nós. Ninguém se aproximava, nossas conversas eram íntimas, por certo, e muito longas e respeitadas por todos. Afinal, éramos noivos. Como eu gostaria de saber, hoje, o que tanto tínhamos para falar, aos cinco ou seis anos de idade...

Aliás, o aniversário de seis anos dele foi inesquecível. Tantas e tantas crianças, correndo de um lado para outro... e, por incrível que pareça, só me lembro de um único e contundente detalhe: meu amigo, perdão, meu noivo, com aquela cara que eu bem conhecia nele, de quem vai aprontar alguma, se aproximou de mim, com dois alfinetes na mão:

- Vamos sair furando as bolas de todo mundo?

Coisas de menino... mas essa menina, aqui, muito séria redargüiu:

- Isso não se faz, é maldade, eles vão ficar tristes e chorar.

Ele não era menino de abrir mão de seus caprichos... mas também não era príncipe de desonrar os desejos de sua princesa. Eu acho mesmo que eu sempre o colocava em maus lençóis consigo mesmo por causa disso, mas só me lembro desse fato, em particular. Sumiu. Mais um pouco, ele voltou, com os dois alfinetes: estava resolvida a história: ele tinha falado com a mãe e conseguido tirar mais um bando de bolas de gás dos enfeites da festa e estava tudo certo: nós furávamos e, logo depois, oferecíamos outra. E assim foi feito para a alegria dele e minha. Danadinho...

No cotidiano, brincávamos de casinha e ele sempre ia fazer as compras, trazendo pedacinhos de folhas e flores para minhas panelinhas de brinquedo. Também nos divertíamos com corridas de carrinho e outras coisas de menino, dos brinquedos fantásticos que ele trazia da casa de sua mãe para nosso devaneio.

Meu homem já sabia o que seria quando crescesse: ortodontista, tão bom quanto o avô. Vivia namorando o boticão, as pinças, a maleta, o jaleco e tudo mais que faz do dentista um médico de grande parte de nossas amarguras da infância e da adultícia. Eu não tinha nenhuma dúvida de que ele seria o melhor dentista do mundo. E foi por isso que, quando meu primeiro dentinho amoleceu, foi para ele que corri. Este foi o único momento, em toda a nossa infância, que me lembro de nos termos enfiado atrás da porta, às escondidas. Ele, com as mãos impecavelmente lavadas, eu e o boticão do avô.

Para mim, foi o único momento em que me senti em risco, mas minha confiança nele era mesmo inabalável. E foi tecnicamente, com perícia inusitada que meu primeiro dente foi arrancado num desses domingos familiares, por esse profissional precoce. Só então - terminada a operação que, diga-se de passagem, não doeu nem um pingo - ele se aproximou do avô, sussurrou-lhe ao ouvido e o trouxe puxado pela mão para a saleta de visitas onde havia me deixado, olhando de longe, mão na boca, pressionando um algodão contra o orifício deixado pelo dente extraído. Mostrou o feito e perguntou se estava tudo bem, apresentando o dente retirado e pedindo que o avô fizesse o exame de minha boca. Extração perfeita, diploma-mirim concedido, diante de toda a família, sob a voz de comando do avô, orgulhoso da traquinagem perfeita de seu neto, incluindo o cuidado profissional da consultoria posterior. Perdi meu primeiro dentinho, mas não perdi a ventura do amor, da dedicação, do cuidado.

As aventuras se perderiam, em linhas incontáveis, mas o que foi posto é mais do que suficiente para mostrar o quanto esse pequeno menino, de grande estatura para mim, contribuiu para a imagem do masculino que trago em meu perfil psicológico. É suficiente, também, para que entenda o que foi nossa despedida, comandada pela tranqüilidade desse meu pequeno grande herói.

Mas está ficando muito longo e o melhor está por vir. Conto o restinho na semana que vem.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

NOTAUSGANG


Alemanha, de novo! Patrícia diz que, um dia, acabo morando lá. Acho pouco provável... mas... nunca se sabe. O importante é que as lembranças são boas, amorosas, delicadas e algumas, como você já pôde constatar, engraçadas.

Lembro-me de minhas visitas às lojas. Sim... eu também visitava as lojas, como qualquer mulher mortal. Não tanto quanto era de se esperar para o natural instinto feminino de consumo, mas visitava. E consumia. Principalmente artigos de papelaria, nos quais a Alemanha é pródiga em mimos e gracinhas. Me dei conta de que não tenho nenhuma foto de lojas alemãs por dentro... incrível. Mas são magníficas. A Ka De We, em Berlim (foto), chegava a ser uma covardia... será que ainda existe? Se existe, provavelmente, depois da queda do muro, deve ter mudado de nome ou virado simplesmente Kaufhof, como nas demais cidades do país (Ka De We era uma sigla carinhosa para "Kaufhof dos Ocidentais").

O problema, muitas vezes, era encontrar a saída. Algumas lojas são tão grandes, que você literalmente se perde por dentro. E olha que eu tenho um bom senso de direção - sei exatamente onde estaciono meu carro na garagem de um shopping imenso. Mas aqueles departamentos sem tamanho são mesmo um desafio a qualquer ser vivente.

Pois então... no começo, algumas (muitas) vezes, senti dificuldade de encontrar a saída. Tinha em minha mente as palavras-chave: eingang (entrada) e ausgang (saída). Para mim, era só procurar alguma referência em placas ou setas, antes de perguntar a qualquer vendedor disponível. E explico por quê: ocorre que os vendedores atendem a uma pessoa de cada vez. Inexoravelmente. São super atenciosos e exclusivos. Não cabe, como aqui, por exemplo, você pedir licença e apenas perguntar: “tem fita adesiva?”. Aqui você pode fazer isso e já tem meio caminho andado: o vendedor aponta onde é o local da sessão e continua tranquilamente a atender o seu cliente. Ninguém se incomoda, não atrapalha ninguém e se não tiver, você não fica esperando à toa. Muito prático.

Lá, não. Ou você procura por conta própria entre as inumeráveis prateleiras ou espera a sua vez. O bom é que, chegada a sua vez, o atendente será exclusivamente seu e... se tiver fita adesiva, ele mostrará quilômetros de prateleiras com os mais diversos tipos, disposto a descrever calmamente as façanhas que cada uma delas é capaz de fazer. E diretamente em inglês, língua que todo atendente diz que não sabe falar, se você perguntar (mania de perfeição), mas, fala muito bem, se você se dirigir a ele diretamente nessa língua. É claro que as sessões são pródigas em setas, placas, avisos informativos. Mas isso tudo está escrito no mais puro alemão, é lógico, e dispensa metade da espera. Mas... para uma viajante latina como eu... hum... como é mesmo fita adesiva em alemão???

Pois é... com esse tipo de cultura, interromper um atendimento, mesmo que seja só para perguntar como se sai da loja estava fora de questão. Era mesmo procurar pelos avisos, setas, placas e cartazes.

Foi aí que me enrolei, pois, com muita freqüência, fugi exatamente do caminho certo, por um vício de linguagem. É que encontrava a placa sinalizadora: “notausgang”.

Ora, se a língua é anglo-germânica e not em inglês é uma palavra negativa, a linguista aqui só poderia concluir que “notausgang” deveria significar, é claro, “não há saída por aqui”. Eu não entendia bem por que os alemães se preocupavam em avisar que não havia saída por ali, mas, como não se discute com a minuciosidade das descrições do temperamento alemão eu estava achando que era apenas uma informação a mais. Imediatamente, mudava o meu rumo em outra direção, em vez de seguir exatamente em frente, que era o que eu deveria fazer.

Levei cerca de uma semana enrolada por essa armadilha até que, um dia, resolvi seguir o “notausgang” para ver no que dava... e dei numa escada de serviço que me colocou bonitinha na calçada, ao lado do prédio.

Só então decidi procurar no dicionário pelo significado. Fiquei pasma e lembro-me que chorei de rir comigo mesma por algum tempo: notausgang – saída de emergência.

Daí por diante, cada vez que via “notausgang”, além de sorrir para mim mesma, passava por ela e continuava alguns passos na mesma direção e, indubitavelmente, encontrava a magnífica e tantas vezes perseguida placa de “ausgang”.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

DESCOMPASSO


Fevereiro com vinte e oito...
E tantos meses com trinta e um...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

CHINA


Imagine um nordestino, desses mesmo que ficam de cócoras para conversar com você. E quieto, de olhar macio e doce. E caprichoso, calmo, cuidadoso, dedicado. Que tem por defeito beber tudo que ganha, no final de semana, mas não chega ao trabalho atrasado (com exceção das segundas-feiras) e nem se sente um cheirinho de pinga sequer durante a semana.

Desses que você olha e gosta dele no mesmo segundo e só não adota porque tem a mesma idade que você. Quase não sabe escrever letras e números, mas sabe contar para você mil alfabetos da vida.

China. Não me lembro do nome dele... ah... é Inácio. Inácio. Só me lembrei porque, depois de trabalhar para nós durante quase um ano na obra da casa do Humaitá - aquela, do conto do galo -, descobri que não tinha carteira de identidade. China, para quem comprei uma camisa nova para tirar o retrato da carteira e que saiu todo prosa para a foto e digitais. China. Que saudade de você. Por onde andará nesse mundão dos meus deuses?...

China, que topou não receber o dinheiro total da semana para que eu o ajudasse a economizar. Queria comprar um terreno lá em Campina Grande, sua terra natal, se não me engano, mas bebia no sábado tudinho que recebia na sexta. China, que aceitou que eu fosse o seu “banco” por meses, até ter os tais 150 que precisava para a tal compra...

- “Pode ficar, D. Lali... senão eu vou beber tudo mesmo...”

A obra da casa do Humaitá foi uma tortura chinesa para mim, sem querer fazer trocadilho com o nome de meu amigo. Mas é que foi mesmo. De um ano, dez meses, vinte e um dias e nove horas que morei lá, acho que tive China como único verdadeiro companheiro de luta e sobrevivência, a maior parte do tempo. É que meu ex escafedia-se em viagens de trabalho por quase todo tempo, aproveitando da casa muito mais os finais de semana e feriados do que qualquer outra coisa. Para mim e para o China sobrava o pesado, a poeira, a atrapalhação e principalmente a minha falta de jeito para resolver os imprevistos.

Um dia – como posso me esquecer? – resolvemos acabar com a inundação do subsolo a cada chuva frouxa que aparecia. Chovia um tiquinho mais e pronto: o subsolo ficava uma graça de lago... e para escoar tudo aquilo, fora o estrago constante das coisas que ficavam lá é bom nem comentar. A obra seria grande, exigindo escavar três metros para baixo do solo em todo o frontal da casa. China dispôs-se a pegar o serviço e eu bem sabia que ele iria levar isso com muita competência. Competência e dedicação. Aconselhou-me a esperar a época da seca, pois uma chuva com todo o frontal da casa escavado até três metros abaixo do solo daria uma tragédia em dobro, com a mínima chuvinha que fosse. Enquanto isso, ele reformava o resto da casa, consertando aqui e ali.

Esperamos a época da seca e começamos o serviço. Não é preciso dizer que naquele ano choveu prá caramba na seca, o que nos deu um trabalho extra e uma obra que durou muito mais do que os 30 dias programados. Na verdade, ficamos 4 meses naquela tortura. De qualquer modo, o trabalho ficou impecável e, fora as inúmeras inundações, enquanto não ficava pronta, tudo saiu bem, com exceção de um dia. E jamais me esquecerei do China, também por causa disso. Minha gratidão para sempre.

Ocorre que, para cavar o corredor frontal da casa, ficaram expostos os canos que vinham de cima e dos vizinhos ao lado. O “de cima” deve ser lido como a casa dos empregados e os canos, diga-se, mais especificamente, referiam-se à saída do esgoto. Era imprescindível, portanto, tomar o maior cuidado para que não se quebrassem, pois seria água para todo lado e... pior... suja! Assim, cuidávamos desses canos expostos como quem cuida de porcelana chinesa, é claro. Num domingo à noite, no entanto, evidentemente que sem querer, meu ex deixou cair um vaso exatamente no cano de esgoto e toda aquela sujeira invadiu o subsolo. Você pode imaginar no que deu. Aliás, não pode. Não mesmo. Mas tente: um esgoto em seu subsolo, com aquelas prendas boiando e tudo. Sem falar no cheiro. Não havia o que fazer, senão solicitar ao síndico que fechasse o registro do esgoto da casa dos empregados, senão, a cada descarga, lá em cima, seríamos brindados com mais uma sujarada aqui embaixo. Isso mesmo. E... vindo do subsolo, o cheiro inundava toda a casa. Não dava para dormir, não dava para respirar...uns três palmos do chão de água infectada em todo o seu esplendor.

No dia seguinte, de manhã bem cedinho, meu ex partiu para Brasília e me deixou com a solução da m... tanto em seu sentido literal quanto metafórico. Que eu não me preocupasse, o China resolveria o problema. E se mandou. Pois é... o China ficou doente exatamente naquela segunda.

Sozinha, tive a brilhante idéia de chamar outra pessoa pelo menos para consertar o cano. Eu não conhecia ninguém que fizesse o serviço e não podia contar com alguém que me ajudasse, pois meu ex tinha mesmo se mandado. Sem experiência no assunto, rodei como barata tonta sem sucesso por ali. Não encontrei ninguém. E ninguém, evidentemente, se prontificou a me ajudar. Cada um com seus problemas e, claro, tive mesmo de esperar até a terça, rezando para o China ter ficado bom. De brinde, os empregados, vez por outra, abriam o registro, me presenteando com mais algumas prendas e cheiros. E precisava dizer que choveu naquele dia para aumentar o volume da tragédia?

Felizmente, eu dava aula na segunda final de tarde e noite. Só cheguei tarde em casa, aliás, de propósito, para evitar ao máximo o convívio com o desastre. Outra noite sem dormir, estourando de dor de cabeça. Não tinha o que fazer. Era mesmo esperar.

Na terça, quando o China chegou, só pela minha cara e pelo cheiro, ele percebeu a tragédia, mesmo antes de baixar os olhos para os canos. Desceu ao subsolo como um bólido e falou um palavrão que eu aprendi naquele momento. Tão logo falou, olhou para mim e me pediu desculpas, pois ele sempre fora muito cuidadoso comigo. Eu apenas lhe disse que, se conhecesse aquele palavrão, teria dito dez mil vezes durante todo o final de semana... que ele ficasse tranqüilo quanto a isso e apenas me socorresse.

- A senhora fique tranqüila. Hoje só saio daqui quando sua casa estiver em condições. Por favor, saia e me deixe aqui. A senhora não precisa ficar aguentando esse cheiro.

- E você? Vai entrar nessa sujeira sem botas, luvas e tudo que for necessário? Nada disso! Me faça uma lista e vou comprar o necessário.


China sorriu. Um sorriso doce, amigo, mas humilde e triste. Eu podia ler sua alma, tenho certeza disso.

- D. Lali, eu estou acostumado a limpar esgotos, faço isso para ganhar um extra. Entro naquelas caixas há anos, assim como estou. Já estou vacinado...

Sorriu e acrescentou:

- A pinga vacina.

Vacina, pensei, claro que vacina... ou melhor... não vacina: anestesia sua alma da dor. Da dor de viver assim, humilde, fazendo a casa dos outros mais bonita, sem você ter a sua, limpando a sujeira dos outros. Naquele momento, disfarçando eu mesma a minha dor de não poder consertar o mundo, pedi-lhe que eu pudesse comprar botas e luvas para aquele e para os serviços futuros. Mas ele respondeu:

- Não dá para usar, não. Nem adianta. As caixas em que eu entro, nem com capa me livraria da sujeira. Já estou mesmo vacinado. E isso aqui não é nada, perto das caixas de esgoto estreitas em que já estou acostumado a entrar.

Disse isso, já entrando naquela sujeira toda e listando os detergentes que eu teria de comprar. Saí dali o mais depressa que pude, pois não conseguia conviver com o que estava presenciando. O China, meu querido “filho” do coração, desvendava sem querer o tipo de vida que levava, muito pior do que eu podia imaginar que pudesse existir, contando tudo com a mesma resignação de tantos peões nordestinos que vieram buscar sustento no sul do país, do mesmo modo acostumado, acomodado, por necessidade de sobrevivência, com o pior que a vida pode oferecer a um trabalhador: falta de condições para seu trabalho, inumeráveis destratos e humilhações, pouco caso, desamor, salário abaixo da crítica.

Eu não sabia o que fazer. Não sabia como reagir. Sequer podia impedi-lo de entrar naquela sujeira, pois ele já tinha entrado, como quem entra em um lugar qualquer! Comprei as coisas às pressas, voltei mais rápido ainda. Não sabia o que dizer. Sumi dali, subi ao andar de cima. Lembro-me que chorei muitas vezes, durante aquele dia. Não pelo China, mas por todos nós: pelos que fazem, pelos que mandam fazer, pelos que não sabem (ou não sabiam, como eu) que isso era feito assim.

Agora mesmo, ao escrever este conto, quantos trabalhadores estarão entrando em caixas de esgoto para limpá-las como fazia o China... e o que fazemos para impedir isso?

Lembro-me até hoje do olhar doce do China que me conquistou como um filho, um filho da vida, posto a meus cuidados. Seus olhos puxados, seu sorriso macio. Quantos de nós temos o privilégio de toparmos com almas assim? A doçura, a dedicação, a lealdade desse amigo jamais deixarão minhas lembranças. Como me lembro, também, até hoje, do perfume de limpeza que ele deixou em minha casa à noite. Um cheiro de lavanda bem suave no lugar do cheiro insuportável da manhã. Ele deveria ter deixado o trabalho às 16 horas, como sempre combinamos, mas naquele dia, fez questão de deixar tudo limpo e arrumado. Não saiu antes das 22 horas, com certeza.

Na quarta, ele consertou o cano e tudo voltou ao normal. Tudo? Não. Algo havia mudado. E muito. Minha gratidão, uma gratidão que não podia ser paga com qualquer dinheiro do mundo. Não pelo fato propriamente dito, embora seja verdade que, por si só, já valeria o reconhecimento. Mas pela dedicação e pelo cuidado com que ele fez questão de realizá-lo.

E senti que, para ele, algo também havia mudado. Ele não se sentia mais tão funcionário, mas cúmplice. Um cúmplice fiel, cuidador, alguém que estava ali para dar conta do recado. Não havia intimidade até então, mas, a partir desse dia, contávamos piadas um ao outro e ele passou a sorrir. Um sorrisinho discreto, mas solto, de quem se sente mais em casa e sabe que tem a responsabilidade de resolver problemas. Algo como se sentir valorizado.

Foi depois disso que aceitou que o ajudasse a tirar a carteira de identidade. E também foi depois disso que aceitou que eu fosse seu banco para comprar a sua terrinha lá no nordeste.

Algo mágico aconteceu naquele dia. Algo que, até hoje, não sei exatamente identificar. Mas sinto que lhe deu dignidade e valor. Uma mágica da vida. Bendito cano arrebentado. Agradeço, hoje, a meu ex, por tê-lo feito, assim como agradeço por ter-me deixado sozinha, na segunda, para resolver o problema... e... agradeço também à vida por nenhum vizinho ter-se importado com o meu infortúnio ou tentado me ajudar a achar alguém que pudesse quebrar um galho momentâneo. Os meandros da vida são incríveis: selou uma amizade para sempre.

China voltou para o nordeste um ano depois disso. Soube que esteve no Rio uma vez ainda e veio me visitar aqui em casa, pois já havia voltado para o meu apto de Copacabana. De brinde, ainda fechou um buraco de ar condicionado que o inquilino tinha deixado. Doce China. Sempre cuidadoso. Não se conformou em deixar aquilo como estava...

China comprou o tal terreno, perto da casa de sua irmã. Liguei para ele, durante muitos anos, ou melhor, para a casa de sua irmã, todos os seus aniversários até que um ano, o número não conferiu e o perdi de vista. Mas quando ligava ele, todo emocionado, voz embargada no outro lado da linha, me dizia:

- Nossa... a senhora não se esqueceu.

Como poderia me esquecer do China, depois das aventuras que passamos juntos na casa do Humaitá? Impossível... China que dizia gostar de mim como gostou da mãe dele. Pobre China... rico China. Por onde andará nesse mundão de meus deuses? Que eles o protejam como tantas vezes ele me protegeu!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O MURO



Berlim Ocidental, lado de cá do muro, década de 80. Andei ao longo dele na véspera da visita ao lado Oriental. Todas as espécies de rabiscos e pichações eram observados por meus olhos atentos e entristecidos. Mensagens de solidariedade, de revolta, de estupefação e mil outras coisas, escritas em várias línguas. Tive vontade de desenhar uma flor, mas não tinha grafite ou tinta. Me chamou a atenção um desenho de rachadura no muro com um rosto entristecido desenhado nesta suposta fenda, como se estivesse olhando para nós, do lado de cá. Perdi o slide, mas me lembro bem do desenho. Lágrimas no muro, lágrimas nos meus olhos.



Caminhei por ali, sozinha, pensativa, quieta. O que haveria do outro lado? Havia muito espaço para a mente e o coração naquela tarde morna e tranqüila... e eu tinha muito tempo para caminhar solta por ali, sem pressa, perdida e achada em meus pensamentos.

Topei com o museu do muro. Nem sabia que existia. Entrei. Visitei as histórias escritas nos murais e uma infindável mostra de fotos e artefatos construídos pelos cidadãos que fugiram para o lado ocidental. Fugas das mais loucas e perigosas, desesperos de causa, busca de liberdade...



Meus olhos rabiscavam as paredes e os objetos do pequeno museu como quem olha para uma fantasia e não para algo palpável. Meu coração, por certo, se preparava para a visita do dia seguinte.



A princípio, não tinha nenhuma curiosidade de atravessar a fronteira para algo que, com certeza, não traria paz ao meu coração. Fui, no entanto, impulsionada pelos museus que esta parte quase inacessível de Berlim guardava como jóias do tesouro oriental: o Altar de Pérgamo



e o Portal de Ishtar, da Babilônia.





Eu estava, por certo, a apenas alguns poucos quilômetros desses dois tesouros. Era suficiente atravessar a fronteira, ir e voltar incólume.

Incólume... doce ilusão.

No dia seguinte, acordei cedo. O visto permitia uma visita de apenas um dia, das nove às dezessete horas. Por via das dúvidas, não queria perder a chance de ver o que queria com calma, quem sabe, subir na torre para ver a cidade de cima e também ver a célebre quadriga do Portal de Brandenburgo de frente



já que, do lado ocidental, só a podíamos admirar de costas, junto ao muro.



Por certo, o dia me traria uma longa caminhada, e muito pouco tempo para ver tudo com calma.

Havia dois únicos acessos ao outro lado da cidade: uma estação específica de ônibus, que deixaria o turista também num ponto específico do lado oriental e uma estação de metrô, nas mesmas condições. Preferi o metrô através da estação de acesso, Friedrichstrasse.



Após tantos anos, tenho vontade de voltar lá só para ter a alegria inominável de usar a mesma estação para atravessar de um lado para outro sem visto e em plena liberdade. Um dia, quem sabe...

Entre a estação de embarque e a de desembarque, havia duas estações pelas quais o metrô passava, devagar, mas sem parar. Estações desativadas, quase totalmente às escuras e... meu primeiro impacto: nas plataformas, soldados com cães pastores alemães. Sensação esquisita de perda... falta de ar.

O desembarque levava os passageiros por um corredor e um conjunto de cabines, como essas de migração. Senti que, realmente, estava entrando em outro “país”. O soldado de plantão virou meu passaporte pelo avesso, conferiu com muita atenção minha foto. Pude perceber que se mostrava insatisfeito. Minha foto me mostrava com cabelos compridos e eu estava com cabelos mais curtos. Enfim, consegui passar. Nova caminhada por um corredor interminável. Senti-me esquisita, caminhando em meio a uma massa de pessoas mais “levadas” do que “caminhantes”. Eu acabava de sair de uma cidade cheia de luzes e cores, alegre, buliçosa, em cuja véspera tinha tido meu inesquecível encontro com o velhinho dos correios, o famoso “Papai Noel” a que já me referi num conto anterior – “Quem diria”.

Aquela sensação não combinava em nada com o que tinha vivenciado até então. O corredor acabava numa porta enorme, de aço, que se abriu em dois e, finalmente, pude respirar o ar da cidade.

A primeira impressão foi a de que eu tinha saído de um filme colorido para um filme em preto e branco. Todos os prédios em cinza, com exceção dos públicos, que sustentavam paredes em vermelho. Os carros antiqüíssimos, uma cidade limpíssima, mas... triste.



Fiquei aborrecida, ao voltar para minha casa, por ter tirado tão poucas fotos. Mas estava tão impressionada com o que via e sentia, que não me arriscava a grandes feitos. Tudo ali transpirava disciplina, constrangimento, sisudez. Fiquei um pouco tonta e perdida por algum tempo, perambulando sem muita direção. Mas logo depois tomei o rumo do Portal de Brandenburgo. Não havia tempo a perder. Pelo caminho, observava a singeleza do povo, as vestes simples, o recato. Era muito fácil discernir entre moradores e turistas.

Passei por um soldado, provavelmente, em hora de descanso. Estava numa pequena ponte, à beira de um rio. Não tive coragem de tirar uma foto dele, mas tirei do rio, para guardar de lembrança.



O jovem me chamou a atenção por sua farda remendada, seu olhar longínquo. Em que estaria pensando? Em seu amor, talvez? Em sua vida? Em suas possibilidades? Como gostaria de saber o que escondia aquele rosto tão triste e sombrio... para mim, no entanto, aquele rosto não era apenas o rosto do soldado. Eu o sentia como o rosto da cidade. Por todos os lados que andei, a impressão era a mesma...

Passei por alguns lugares com lojas e foi aí que senti pena de não ter usado mais minha máquina de fotos: as vitrines ostentavam, faceiras, os livros de Max, coisa que não víamos com facilidade no Brasil, naquela época. Mas o que mais me chamou a atenção foi a falta de variedade de ofertas. Numa sociedade sem concorrência, as câmeras eram daqueles modelos bem antiquados, do tipo caixote, enquanto eu sustentava minha Fujika último tipo. Os carros antiqüíssimos... e muito poucos pelas ruas. Enfim, era mesmo como se eu tivesse retrocedido dezenas de anos, ao ultrapassar aquela porta de aço. Choque cultural profundo.

Cheguei ao Portal de Brandenburgo e foi aí que me surpreendi mais ainda: havia um policiamento ostensivo. Por que seria? Um carrão último tipo, estacionado, me chamou a atenção. Minhas antenas observadoras procuravam seus donos. Como teriam atravessado a fronteira??? Olhei para o Portal de Brandenburgo e em volta. Muitos soldados atentos a nós, turistas! Percebi que a visita ao Portal exigia distanciamento. Havia, no entanto, um pequeno grupo de pessoas que tinha tido o privilégio de atravessar a linha de segurança. Quem seriam? Do grupo se destacavam dois homens fardados impecavelmente, num contraste quase cruel com as vestimentas do triste soldado que eu vira ruas atrás. Olhei novamente para o carro. Bandeira soviética. Meu coração bateu mais forte. Lembrei-me imediatamente da leitura de “A revolução dos bichos”. Era isso. Exatamente a concretização da leitura que eu via se descortinar a minha frente. Eu precisava fotografar. Levei a máquina ao rosto e fui imediatamente interpelada por um soldado que estava perto de mim! Não era permitido fotografar o grupo de visitantes soviéticos! Incrível.

O soldado não falava nenhuma língua que eu pudesse entender. Me parecia russo, pois meus ouvidos não sentiram nenhuma familiaridade com o alemão que eu estava ouvindo por aqueles dias. Fiz que sim, com a cabeça e apontei para o Portal, como quem diz que está apenas interessada na atração turística. Naquela época, as câmeras eram mecânicas e as fotos eram tiradas em rolos. Fosse digital, eu não teria conseguido usar os maravilhosos recursos de abertura de ângulo, sem que ele percebesse ou pudesse pedir, depois, para conferir o que eu tinha fotografado. Assim, o recurso me permitiu tirar essa prenda. Pena que não deu para usar a zoom... daria na pinta demais:


Tirei a foto e, como boa carioca, sorri para o soldado, como quem tinha feito a coisa mais inocente do mundo. Não consegui, no entanto, tirar a foto do carrão. Depois, dei uma disfarçada e esperei para conferir mais de perto. Isso mesmo: chiquérrimos.

Tudo igual. Aqui, lá, em qualquer lugar. Dentro e fora do muro... por caminhos diretos ou tortos, a exploração do homem pelo homem parece justificar-se por si mesma. Lágrimas nos olhos, descrença já previamente concebida. Apenas a constatação pura e simples de que a alma humana caminha segundo suas próprias escolhas, independente de crença, religião, política, cultura. O que é bem, o que é mal... tudo misturado, num balaio de intenções as mais diversas. Tudo isso invadiu meus pensamentos por tempo que não pude perceber no relógio. Nada como visitar um lugar sem pressa, passo a passo, diante do canto e do desencanto. Viver por dentro e por fora, pelos olhos e pelo coração.

Impossível, mais uma vez, sair incólume da experiência.

Mas era preciso viver outras sensações. Dali, segui meus passos buscando o encantamento dos museus: o Altar de Pérgamo me esperava altaneiro e o Portal de Ishtar me fez sonhar com um passado de povos de muitas aventuras. Curti cada minuto, cada mosaico, cada degrau dos inúmeros e maravilhosos monumentos. Parte boa da visita. Privilégio.

A volta me brindou com outro soldado da migração que quase não acreditou que a minha foto combinava com o meu rosto. Enquanto esperava o sisudo companheiro conferir os dados, fiquei pensando que só me faltaria a aventura de quererem me prender por ali. Mas passei.

Não posso dizer que foi uma visita ao inferno, pois os museus enfeitaram minha visita. Mas com certeza, povoei de uma profunda tristeza o meu coração, que saiu muito oprimido com tudo que vi por lá.

No dia seguinte, pelo lado Ocidental, caminhei novamente pensativa, ao longo do muro. Queria saber o que eu me diria por dentro. Num determinado momento, sem que eu me desse conta, de tão rápido foi o impulso, chutei aquele concreto com força, com ímpeto, com raiva, com determinação. Fiquei dois dias com dor no pé, pela força do impacto. Entendi de pronto, por dentro, a indignação dos ocidentais diante daquela infâmia. Parentes separados, ruas cortadas, comunicação impedida, passagens proibidas. Voltei ao museu do muro e todo ele ganhou outro significado para mim.

Destaco para você a foto de uma pixação no muro, a pintura de uma mão que se insinua por uma "fenda", oferecendo uma flor a outra mão, do outro lado, que se estende para pega-la. Exatamente o que simbolizava, naquela época, a busca de retratar a profundidade do sofrimento da separação. Quantos parentes e amigos sofriam desse mal... A foto não está muito nítida, pois o slide é antigo e a própria pintura não era nova. O quadro faz parte do acervo do museu.



Anos depois, quando o muro foi derrubado, infelizmente, eu não pude participar in loco da festa. Mas não perdi nenhum noticiário sobre o acontecimento... e acompanhei de perto, tão perto quanto as notícias permitiam, como a Alemanha teve de se deparar e contornar a diferença cultural que se impôs, depois de tantos anos em que irmãos foram separados por quilômetros de desvario humano.

E me lembrei daquele soldado da ponte... por onde andaria? Estaria sorrindo?

sábado, 29 de janeiro de 2011

MAIS UM TIQUINHO (Alemanha 3)


Não resisto a falar mais um pouquinho da Alemanha. É natural: foi o país que mais visitei na Europa, por conta das já citadas lojas de trens. Assim, os contos da Alemanha são contos de rua, de minhas perambulações por lá e sorrio a cada vez que me lembro de uma passagem...

Lembrei-me outro dia, de mais uma cortesia muniquenha, dessas que contam como a do funcionário do metrô, que me arranjou aquele mapa sem tamanho, a que já me referi no conto "Preconceito". Nesse outro dia, como sempre passeando pela cidade, buscava recantos não visitados, ruas e ruelas por ali, perto do hotel, pois já estava no final do dia. Havia umas lojinhas de souvenirs e, mais adiante, uma vitrine com um belíssimo enfeite. Na verdade, um jogo de xadrez: as pedras brancas com caricaturas de portugueses



e as negras, com caricaturas africanas.



Preconceitos descortinado à parte, tenho de confessar que estava muito engraçado. Coisa bem humorada. Evidente que não me interessava comprar. O motivo, em si, não me atraía, haja vista o preconceito refletido em cada peça, mas... gostaria de fotografar. Tirei uma ou duas fotos e ao levar a máquina ao rosto, novamente, tentando um ângulo melhor, um dos vendedores segurou a minha mão. Assustei-me como uma menina pega em flagrante. Pensei que me repreenderia, com aquela cara séria e compenetrada por não ser permitido fotografar. Mas não. Ele simplesmente abriu a vitrine, me dizendo para fotografar sem o vidro. Havia percebido que o reflexo estava atrapalhando a foto...

Em Colônia vivi uma tarde de encantamento sem tamanho. A peça de resistência da cidade é, evidentemente, a Catedral. Uma catedral tão imensa que não coube em minha máquina fotográfica, ao fitá-la da praça.



Apesar de sua grandiosidade, o que mais me chamou a atenção foi mesmo o clima da cidade. Que delícia! E perambular pelas ruas é que me trouxe a tal aventura sem par, inesquecível. No verão, é comum aos jovens fazerem apresentações nas ruas para arrecadarem o suficiente para poderem viajar de férias. Colocam o chapéu ou estendem um pano na calçada, tocam,



cantam, dançam, fazem mágicas, vale tudo.



As pessoas param e as assistem em silêncio(!!!). Se são bons, batem palmas e pagam pelo espetáculo... teatros ao ar livre. Típico de cidades européias, não apenas na Alemanha.

Pois bem... andando por aqui e ali, ouvi ao longe o ritmo bem nosso conhecido da bossa nova e fui me aproximando... som de violão. Mas o músico era chileno e cantava “Garota de Ipanema” em castelhano, aliás, com uma voz contestável e errando muito a letra. Quando jovem, eu fora do coral do colégio e, diga-se de passagem, tinha voz bem afinadinha. E... adorava cantar. Não resisti. Estava sozinha, felizmente, pois meu “ex” jamais agüentaria presenciar um “mico” desses. Estaria, naturalmente, enfurnado em suas lojas de trens.

Sentei-me ao lado do músico e comecei a cantar. Anonimamente, meu lema era me divertir. Ele calou-se e passou apenas a tocar. E ali estavam dois puríssimos amantes da música brasileira, sem dúvida. Ele tocou muito, eu cantei tudo que sabia de bossa nova, de música popular brasileira. Como se fossemos um par que ensaiara dias seguidos, emendamos várias músicas. Seguíamos o mesmo compasso. Eu estava tão feliz, que sequer me dei conta do público. Cantava a saudade repentina de meu delicioso Brasil. Ele concretizava, em seu violão, sua admiração pelo país irmão. Ficamos embevecidos e não sei quantas músicas apresentamos e por quanto tempo o fizemos. Estávamos mesmo nos divertindo! Quando paramos, fomos aplaudidos e seu chapéu estava abarrotado. Paramos de vez e as pessoas se dispersaram. Ele queria por tudo do mundo, dividir sua arrecadação comigo. Fiz ver que estava ali para me divertir e que ele tinha me dado momentos inesquecíveis para meu diário de vida, meu minuto anônimo de glória! Felicidade pura. Custou a convencer-se, mas acabamos por nos despedir como amigos de infância.

Acho que citaria, sem fim, aventuras por minhas numerosas viagens à Alemanha... uma Alemanha colorida e, como lhe disse em outro conto, tão diferente dos meus filmes de adolescência...

Mas... não vou me subtrair de contar também minha ida a Berlim Oriental. Um dia falo sobre isso, numa visita dos tempos em que o muro ainda existia. Argh!... Mas vale a pena, pela aventura que também vivi por lá...

sábado, 22 de janeiro de 2011

SILVIO


Silvio apareceu no hall do hotel exatamente no horário combinado.

Eu fora a Salvador para apresentar um trabalho em um congresso. Tínhamos, então, combinado um encontro na véspera de meu retorno ao Rio.

Silvio enfeitava meus pensamentos há alguns meses. Mas é preciso explicar, primeiro, quem é Patricia, peça fundamental nessa história.

Ocorre que Patrícia é a irmã que a vida se esqueceu de fazer nascer da mesma mãe. Então, para remendar a falha de execução do projeto, a vida consertou o tecido dessa teia, fazendo com que Patricia aparecesse lindinha e jovem (cinco anos mais nova do que eu), como minha aluna de Letras, na década de 70, se não me engano. Ela, com certeza, me corrigirá se estiver errada. Mas acho que foi nos anos 70 mesmo, pois ela deveria ter em torno de 19 e eu 24, bem no início de minha carreira.

É preciso dizer que Patrícia pertencia a uma das minhas primeiras turmas, na primeira universidade em que dei aula. Por sinal, a mais querida e inesquecível. A tal de Português-Inglês, do conto "O Cresta". Outras turmas vieram, na universidade pública, muitos anos depois, mas, nessa universidade, este grupo de jovens teve, com certeza, um destaque especial.

Como Patricia, muitos de meus alunos se transformaram, com o tempo, em minha família. A vantagem da família social é que ela vai se compondo aos poucos, aos sabores e dissabores da vida. Quando você vê, estão todos ali, com o correr dos anos. São tão amados que seus sangues, com certeza, correm em minhas veias ou, pelo menos, seus corações pulsam no meu.

Patrícia, sem tirar nem por, é a irmã que se fez no decorrer desses últimos trinta e poucos anos, com a graça das flores campesinas, a vitalidade e a fortaleza do carvalho, a flexibilidade e a canção noturna dos bambuzais ao vento. Poesia e prosa visitam nossas conversas sobre a vida nas suas mais variadas facetas. E Patricia, com certeza, longe de ser minha ex-aluna, sabe olhar nos meus olhos e dizer: “amiga...” e descarregar as palavras mais certeiras e eficazes que meus ouvidos e coração precisam ouvir, nos momentos mais desesperados da minha vida. Tudo com a clareza objetiva da mente aguda e perspicaz que povoa essa tão indescritível criatura. Pura lógica, mas, também, puro coração.

Não posso falar sobre Patricia. Ela mesma sabe muito bem falar sobre si mesma, em seus contos e poesias. Gostaria de dizer o que ela é, de descrevê-la, de desfiar as contas de um rosário de luz cristalina e pura. Mas seria apenas pintá-la e você não poderia sentir o sangue que corre em nossos corações. Então, deixemos como está, frisando apenas que por muitos anos vivemos distantes, mas que isso não fez a mínima diferença. Onde quer que ela estivesse, se precisasse de mim, estaria lá. A terra é apenas um sonho. Os países são apenas distâncias transponíveis pelo amor. E nos encontrávamos sempre, pois Patricia não era gente de deixar de vir ao Brasil. Eu, tampouco, deixaria de ir vê-la às pressas, se preciso fosse, ou apenas para curtir sua companhia, como já fiz, sempre que a vida pode me brindar com esse presente.

Mas parece que deixamos Silvio lá, em pé, no hall do hotel, enquanto eu contava essa história toda. Voltemos a ele.

Contar como Silvio e Patricia se conheceram não me cabe. Mas cabe dizer que os dois formam um casal super interessante. Gosto de vê-los juntos, depois de tantos anos de revezes, que os contos de Patricia saberão descrever melhor do que qualquer narrativa da minha parte.

Por hora, cabia-me conhecê-lo, na época morando em Salvador, enquanto Patrícia morava no Rio. Eu queria ver quem era, conferir se a vida tinha pregado uma peça ou se ele valia mesmo a pena. Afinal, como irmã mais velha, eu estava de olho nos pretendentes de Patrícia... não que isso fizesse lá muita diferença e muito menos que eu fosse me meter em qualquer das histórias de minha irmã, a quem amo sem condições. Mas que eu estava atenta e curiosa, lá isso eu estava.

Soube, muito mais tarde, que Silvio fora me buscar cheio de recomendações. Para onde me levar, o que eu comia o que eu não comia, que gostava de dançar, enfim, a receita de ser um anfitrião à altura. Como bom geminiano, no entanto, Silvio parecia muito tranqüilo, ali, em pé, sorridente quando me viu. Parece que adivinhou quem eu era ou decorou o meu retrato para me reconhecer. O fato é que ele se dirigiu a mim, tão logo atravessei o hall em busca de alguém a minha espera. E olha que o hall estava cheio. Como bom engenheiro, no entanto, ele deveria ter calculado que era eu e veio logo me abraçar, salpicando um beijo gostoso no meu rosto. Não vou me esquecer dessa primeira impressão.

Palmilhamos alguns lugares noturnos da cidade, como o Pelourinho, por exemplo, naquela noite de verão suave e brando. Depois, ele resolveu me levar a um lugarzinho, cujo simpático nome me esqueço. Bode Beer ou coisa assim. Sei que não mais existe. Ali, serviam, segundo ele, uma deliciosa carne de bode. Isso mesmo, carne de bode, já ouviu falar? Estávamos em 1996 e eu ainda comia carne, naquela época. Mas, como sempre, enjoadíssima para comer. Eu acho que ele já tinha sido doutrinado para isso e me garantiu que tinha outras coisas lá, como saladas e que eu poderia apenas experimentar, se quisesse, só para saber como era. Até porque o ponto alto do lugarzinho era o fato de podermos dançar o tipo de música que ele sabia que eu gostava. Imagine, o moço era também dançarino. Hum... muito bom.

O fato é que eu comi a tal carne de bode, parece que a coxa, de cujo gosto não me lembro, mas que achei muito boa. Dançamos muito, conversamos sobre tudo. Ele havia me buscado às 20 horas e ficamos por ali até as 4 da manhã. Eu, jeitosamente, abri um inquérito para saber o que ele fazia, como era, como não era. Afinal, tratava-se de um possível futuro cunhado, mas, antes de tudo, de um possível co-responsável pela felicidade de uma irmã. Assunto não faltou e Silvio não deixou a peteca cair em nenhum instante. Decididamente, mesmo diante de minha lupa aguçada, ele parecia servir.

Por certo ele sabia o quanto Patricia e eu éramos próximas, mas suas atitudes demonstravam a segurança de um príncipe. Eu, por meu lado, não deixei barato. Não dava nenhuma dica do que estava achando, embora estivesse encantada. Afinal, era apenas a primeira impressão e eu não sou apressada em julgamentos, quer bons, quer maus. Ele estava ali, tranqüilo, sem mexer uma palha de suspeita de ansiedade. E isso lhe dava uma nota à parte.

Mas... ah, puro engano! Às quatro da manhã, como eu estava só de papo, ele não agüentou:

- Ok, tudo bem. Mas que nota você dá?

Foi aí que percebi o quanto, para ele, minha opinião era importante. Por dentro, sorri, mais seduzida ainda, mas não me fiz de rogada. Olhei para ele, sorri ligeiramente, pensei um pouco e respondi:

- Sete.

Se havia alguma coisa que faltasse em mim para que Silvio me conquistasse, esse pedaço se entregou por inteiro com a sua resposta:

- Ah, não! Peço revisão de prova!

Arrancou-me, com certeza, uma gostosa gargalhada e, então, eu respondi:

- Tá bom, nove.

- O que faltou para o dez? retrucou ele, fazendo uma espécie de bico. Segurei sua mão, encantada, mas me mantive firme, embora sorridente:

- Dez só dou para Patrícia.

- Tá certo, você ganhou. Mas... por enquanto.

Sempre dou nove para Silvio. É quase uma senha de nossa grande amizade, esse cunhado-irmão, essa gracinha de pessoa que Patrícia fez atravessar o meu caminho.

sábado, 15 de janeiro de 2011

ÁGUA DURA EM PEDRA MOLE...


O que dizer que possa fugir ao senso comum... que inaugure palavras que possam ser lidas ou ouvidas com som de esperança? O que dizer daquilo que todos nós já sabemos a respeito de todos os ditos e não-ditos, promessas e dívidas, promessas e dúvidas?

De 1957 a 1958, eu morei no Engenho de Dentro... e todas as vezes que chovia, eu me lembro que a rua já ficava completamente tomada pela lama que vinha do morro ao lado...

Que esperança poderei ter de escrever um conto, um dia, dizendo que fotos como essa, sejam apenas uma lembrança do passado?

O que dizer que possa ser muito mais do que apenas "virar um provérbio pelo avesso"?

Obs.: Foto de Marino Azevedo - Divulgação: notícias.terra.com.br

sábado, 8 de janeiro de 2011

O HOMEM DE TERNO


Eu acho que às vezes, meu anjo da guarda se concretiza. Não pode me ajudar lá do outro lado, então toma a forma humana, vem e me salva. Já contei a você, no conto "O policial", o episódio de Francisco, o policial louro em cujo carro bati, num dia de chuva fina, em frente à Central do Brasil, tarde da noite. Hoje fico pensando se ele era louro ao acaso ou se o anjo é que era louro, como nos quadros das igrejas barrocas e, na pressa de me proteger, se esqueceu de se vestir como um autêntico brasileiro de raça misturada e ginga carioca.

Pois então... toda vez que esse anjo me aparece, nunca se lembra de que estamos no Rio de Janeiro... e, desta vez, veio de terno, imagine, e, de novo, por conta de uma batida de carro. Um taxi me pegou de banda, ele avançando o sinal.

Aqui se faz, aqui se paga. No dia do policial, eu avancei, neste dia fui “avançada”...

Novamente, em torno das 23 horas, eu, outra vez, voltando da universidade e vindo pela Rio Branco, em busca do Aterro. Sempre gostei de voltar pelo Aterro. Não sei por que me sinto mais segura ali do que vindo por dentro, pelas ruas com tantos sinais, curvas e imprevisíveis transeuntes. Nem sei se é por isso ou pelo fato de eu adorar o Aterro, lindo a qualquer hora do dia ou da noite. Quem sabe... talvez os dois. Pois bem, eu estava bonitinha seguindo o sinal verde, em plena Cinelândia e o taxi me pegou desprevenida, de banda. Quando percebi que ele avançava, em vez de frear eu acelerei e foi a sorte. Me pegou de quina, na parte traseira. Mais um pouquinho e eu teria conseguido escapulir da trombada, mas não teve jeito, bateu mesmo.

O pior é que o taxista, erradíssimo, saiu do carro todo prosa, botando banca, dizendo que eu estava errada. Mas não adiantou. Tinha testemunha dizendo que ele tinha avançado. Sem saída, ele foi entrando no carro, afirmando, então, que essas coisas acontecem e que cada um ficasse com o seu prejuízo. Eu reagi, imediatamente (nem sei como!) dizendo que queria perícia. O homem emplumou-se. Avançou dizendo que iria chamar a polícia. Com isso, talvez quisesse me assustar. Redargui dizendo que polícia era mesmo o que eu queria àquela hora da noite. Só poderia me ajudar. As pessoas juntando e, claro, os que não tinham visto o acidente dizendo que mulher na direção dá mesmo problema. Outros diziam que o culpado tinha sido ele mesmo, desta vez. Uma fofocada à parte, de quem não quer ajudar nada, mas fica por ali, ciscando o conflito.

Foi então que ele apareceu. De terno, gravata e tudo, dirigiu-se em voz pausada para o motorista:

- Você disse que iria chamar a polícia? Faça-nos este favor, pois economizamos tempo. Aproveite e chame a perícia também.

- Quem é você?

- Estou com ela.


Colocou a mão no meu ombro:

- Querida, entre no carro, fique tranqüila. Deixe que eu resolvo.

Pensei logo em cantada, mas fiquei bem quieta. Que fosse. O importante é que estava me salvando daquele bando de homens que rodeavam o carro, em plena Cinelândia, que não é o melhor lugar para se arranjar um tumulto desses, ainda mais àquela hora.

Assim posta a coisa, as pessoas começaram a se dispersar e o motorista não teve outro jeito senão o de esperar pela perícia. O cavalheiro conversava comigo na maior intimidade, coisas do cotidiano, como se fôssemos mesmo um par. Vez por outra, me piscava um olho malandro de quem está se divertindo, em vez de só ajudando.

A perícia chegou, melhor, a polícia e logo após a perícia. Só depois de tudo resolvido e com o motorista dispensado é que nos apresentamos: ele estava numa daquelas boates, esticando o happy hour, quando ouviu dizer que uma moça (quanta gentileza!) tinha batido num motorista de taxi e estava sozinha, meio exposta à chacota das pessoas, tentando se defender, no meio da homarada (esqueceu de assinalar que faltava pouco para eu ter um treco de medo!). Saiu para ver e percebeu logo o meu aperto. Viu quem era quem e tomou o meu partido. Daí por diante, eu sabia da história.

Descobri ali mesmo que não era uma cantada. Era pai de dois lindos filhos e tinha uma linda mulher, pelo que vi em seus retratos na carteira. Mostrou-me vaidoso a covinha do filho mais velho, igual à covinha da mãe. As crianças e a mãe estavam de férias, na casa da sogra. Ele, então, curtia a noite e já estava bebendo uma saideira com os amigos, quando tudo aconteceu.

Esticou a mão para mim, despedindo-se gentilmente. Meu agradecimento estava no aperto de minhas mãos, no meu olhar, na minha voz. Ele tinha deixado seus amigos para vir se aborrecer por alguém que ele nunca vira e...

Ele apenas me respondeu:

- Que nada, foi um prazer... eu até me diverti. Lembra da cara que ele fez quando eu cheguei?

Eu não me lembrava. Aliás, sequer conseguia me lembrar da cara do motorista, tal o susto por que passara ao me sentir ali, sozinha, tentando enfrentar a situação. Mas, por delicadeza, concordei e sorri. Agradeci mais uma vez. Ele ainda gracejou comigo dizendo para eu ir para casa direitinho e esperou que entrasse no meu carro e ligasse o motor. Dirigiu-se para a calçada, enquanto eu me afastava desacreditada do que estava acontecendo. Ainda pude ver seu vulto afastando-se, pelo retrovisor.

Meu anjo de terno desapareceu na noite carioca, sem que eu tivesse tido a oportunidade ou a idéia de perguntar o seu nome. Mas jamais desapareceu dos espaços de gratidão que guardo em um lugar bem especial do meu coração.