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sábado, 24 de setembro de 2022

MOSQUITO E CIDADANIA

 

           



    Há coisas que nos perturbam na raiz de nossa essência, no mais inesperado de nossas mentes, nos desavisados passos do cotidiano.

Estava pensando "na morte da bezerra", outro dia, bem distraída, indo a pé para casa. De repente, a intuição: "atravessa!"

Eu não discuto com a intuição. É como não acreditar nas bruxas, sabendo de sobra que elas existem. Atravessei... e mais: entre os carros, imediatamente. Que se dane... “ordens são ordens”.

Já do outro lado é que me virei e olhei o que tinha deixado para trás: três meninos crescidos, que a gente, antigamente, chamava de moleques, sem que isso fosse uma ofensa. Pelo olhar de descrença que eles lançavam em minha direção, percebi: tinha acabado de me safar de um assalto. Estava escurecendo. Entrei numa dessas lojas que só se fecham às 22 horas e fiquei fazendo uma hora lá dentro, mais para pensar na vida do que por medo. Esses iriam buscar outra pessoa. Para eles, tinha perdido a graça da abordagem de surpresa.

Um assalto aqui, muita muita muita fome ali... o descaso e o descalabro andando de mãos dadas nesse mundo de meus deuses. Coisas que viraram pequenas no cotidiano carioca, nessa cidade que não me canso de dizer que é de uma maravilha sem fim.

E enquanto eu passeava olhando as prateleiras da loja, mas com olhos perdidos no nada, pensei na banalização desse caos sem tamanho. Se não dá para não fazer nada, desacreditar tampouco. Não dá para viver sem pensar que há de ter uma saída, olhar só para o próprio umbigo, sem nada fazer.

Acreditar é preciso, mesmo com os olhos cansados de buscar uma luz em um horizonte que se esconde num cinzento de nuvens. Navegar é preciso, mesmo na consciência do caos – ou mesmo por causa disso. Todo tempo é tempo de ser brasileira, de direito e de fato, ser corresponsável pelas graças e desgraças do meu país.

E estarei lá, mesmo um pouco desacreditada de tudo, mas corajosa e cidadã, com meus mais de setenta anos, enrodilhada na rede de meus sossegos e desassossegos. Título na mão. Dedo pronto para a assinatura digital.

Você só se dá conta da grandeza da pequenez quando pensa em um mosquito sozinho com você num quarto escuro...

E, pela primeira vez, sinto o prazer e a empatia de me confundir com esse mosquito.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

VOTO


Apesar do despeito e do descaso,
na desesperada busca de opção,
na perdição da escolha,
rodeada pelo caos...
mesmo assim...

Quero ser brasileira,
de direito e de fato,
no sentido estrito
e no sentido lato.

"Ao som do mar
e à luz do céu profundo",
ser co-responsável
pelas graças e desgraças
de meu país.



Obs.: 
1. Citação do Hino Nacional Brasileiro
2) foto de autoria desconhecida, retirada entre imagens disponíveis na internet. Se o(a) autor(a) a reconhecer, por favor, entre em contato.

sábado, 17 de novembro de 2012

SR TÁURRRIO




Nas minhas andanças acadêmicas, tive oportunidade de viajar para muitos lugares do Brasil, quer por conta de congressos, quer por consultorias ou para dar cursos.

Lembro-me com alegria dos cursos de férias que dei, em verões de Blumenau. Que cidade lindinha! E que professores-alunos aplicados!...

O calor era de rachar, mas como adoro calor, isso não fazia a menor diferença. Pelo contrário...

E tinha a torta do Cafehaus, do Hotel Gloria, que existe até hoje. Eu, que nem sou chegada aos prazeres do estômago, não perdia um dia sequer de cumprir meu ritual: sair do trabalho e ir correndo para lanchar uma daquelas deliciosas, macias e inesquecíveis tortas alemãs. Nem na Alemanha consegui comer tortas tão gostosas. Chegava ao ponto de comer um pedaço e levar outro para meu hotel para comer, em vez de jantar.

O curso era muito puxado para mim - 40 horas de aula em uma semana! – mas valia a pena, pelos profissionais que frequentavam o curso e pela oportunidade de estar numa cidade tão interessante.

Se era puxado para mim, era puxadíssimo para os alunos. Eu dava 4 horas seguidas de aula teórica de manhã, com 10 minutos apenas de intervalo (e lá, 10 minutos eram só 10 minutos mesmo!!!). Depois, deixava uma batelada de exercícios para a parte da tarde. Eles tinham uma hora de almoço, mas eu tinha duas horas e meia, pois os deixava fazendo os exercícios e só voltava às duas e trinta para orientá-los um pouco e depois entrávamos na correção. Então, de meio-dia às duas e vinte, que era a hora pontual em que o motorista me pegava no hotel, eu tinha tempo livre.

Eu poderia dormir, mas não queria perder a oportunidade de zanzar pela cidade, aproveitando cada minuto daquela semana. Era o que eu fazia, mas, como ia todos os anos, lá pela terceira vez, aconteceu essa aventura maravilhosa.

Ocorre que, na rua principal, havia uma imensa loja Hering (que lá era pronunciada bem como caracteriza a cultura alemã da cidade: Rêringui). Se você falasse Hering, como aqui, ninguém sabia o que era. Mas... é claro, estamos falando da década de 80.

Pois então... a Loja "Rêringui" tinha de tudo que você pode imaginar, inclusive uma sessão de cristais magníficos. Lindos! Eu não queria comprar nenhum, mas era lindo de se ver o trabalho artístico que eles ostentavam. Numa dessas, o atendente, um senhor alemão muito simpático, e único vendedor responsável pela sessão, se aproximou de mim e me perguntou se eu gostaria de saber como eram produzidos, como poderia visitar a fábrica e coisas assim.

Para quem estava em  horário de almoço, nada mais atrativo. Encetamos uma conversa tão gostosa que, durante toda aquela semana, eu saia do almoço correndo para conversar com ele. No segundo dia, perguntei o seu nome e ele, com aquele sotaque puxadíssimo, respondeu:

- Taurio (Táurrrrio)

Claro, a linguista sorriu e passamos a semana conversando sobre a cultura alemã no Brasil, hábitos e costumes... e foi quando descobri que lá se falava um alemão diferente do alemão da Alemanha, o Brasildeutsch.

Aprendi que o Brasildeutsch é o alemão familiar daquela região do Brasil, uma língua adaptada à nossa cultura e ao nosso país. Há palavras que não existem no alemão europeu, outras foram preferidas e importadas, muitos verbos que se conjugam tendo raiz uma palavra portuguesa. Por exemplo, “capinar” não era um verbo existente no alemão europeu. Então eles utilizavam a palavra “capim” e a conjugavam como um verbo do alemão. O infinitivo desse verbo, em Brasildeutsch, por exemplo, era “capinier”. As gírias eram importadas da Língua Portuguesa, bem como muitos substantivos, como a palavra “sogra”, por exemplo. Ganhei um disco (naquela época as músicas eram gravadas, ainda, em discos de vinil!) com uma música muito engraçada. Eu não entendia nada, mas o refrão repetia: “.... sogra safada...”

Bem, para uma pessoa curiosa por cultura e uma linguista ainda que em “horário de descanso”, os papos com o Sr. Táurrrio foram a minha sobremesa favorita por toda semana.

Mas um fato, entre todos, me chamou muito a atenção. O Sr. Taurrrio falava um português típico de um alemão aculturado, com conjugações verbais de quem falava pouco o português. Ele dizia “ele fiz” em vez de “ele fez” e o sotaque era de matar, embora muito bonitinho. Eu pensava como ele teria vivido, pois já era um senhor e... brasileiro. Será que não teria ido à escola, teria sido um camponês, antes de morar na cidade? O que teria acontecido a esse brasileiro?

Com muito jeitinho, perguntei se ele tinha mesmo nascido aqui ou vindo para o Brasil com alguma idade.

- Não, eu nasci aqui em Blumenau mesmo!

Nossa! Incrível. Como teria um sotaque tão acentuado e um português tão característico de estrangeiro? Mas contornei minhas próximas perguntas. A sociolinguista entrava em ação:

- E com quantos anos aprendeu português?

Ele sorriu um pouco amargo:

- Eu não aprendi alemão. Não sei falar alemão. O que eu sei falar é apenas esse português que você está ouvindo.

- Como assim?

Inspirei confiança, por certo. Ele abaixou a voz, e quase num sussurro contou o que, para mim, só sabia por alto, em passagens livrescas, quase como se fosse lenda:

- Eu nasci no tempo da segunda guerra. Era proibido falar alemão em público. Mas meu pai era pastor e, naquela época, quando alguém morria, se fazia uma espécie de procissão pelas ruas, com os familiares levando o corpo até o cemitério. O pastor ia à frente, fazendo orações. Numa dessas vezes, o falecido era um amigo de meu pai e ele é que estava encabeçando a procissão. Talvez emocionado, começou a rezar em alemão. Foi agredido pelos que passavam e nossa casa foi apedrejada. Tivemos todos os vidros quebrados e muitas coisas pessoais também foram destruídas. Éramos cinco irmãos e eu estava começando a aprender a falar. Até o final da guerra e até depois disso, por um bom tempo, quase não saímos mais de casa.

Com medo de que algum de nós, sem querer, como ele, voltasse a falar alemão nas ruas, meu pai proibiu toda a família de falar em alemão até dentro de casa. Como eu só saí de casa quando já tinha cinco anos, o único português que eu aprendi foi esse, falado dentro da minha casa. E foi com esse que eu fiquei até hoje. Quando a guerra acabou e começamos a voltar para a escola, no início, não se ensinava nada de alemão. E os descendentes ficaram por muitos anos receosos de falarem alemão, em público, uns com os outros. Eu só fui para a escola com uns oito anos e sempre tive toda a dificuldade do mundo em aprender português. Para mim, matemática era muito mais fácil e sempre passei em português com nota mínima. E como eu não era o único a ter passado por isso, meus amigos também falavam como eu. E não convivíamos com as crianças brasileiras não descendentes, até porque aqui não havia muitas. E as que havia, não brincavam conosco.

E terminou:

- Se você procurar por aqui, nessas lojas ao lado, encontrará muitos brasileiros que falam como eu e não sabem falar alemão...

Você, que já me conhece um pouco, pode imaginar como eu estava emocionada. Aquela gentileza de pessoa, aquele brasileiro com características de alemão, alto, forte, faces rosadas e todo aquele sotaque, carregava a história de nossa história... um pedaço de cultura de nosso país. Um triste pedaço. Triste.

Mas estava ali, sorrindo para mim, dizendo que adorava o que fazia e que gostava de saber de meu interesse por vir dar cursos aos professores de lá, para melhorar a educação de sua cidade. Sua cidade. Sua.

É incrível o que se aprende, quando se anda por aí...

Sr. Taurrrio... um pedaço de lição de vida. Para aprendermos mesmo. E não fazermos de novo.

domingo, 16 de setembro de 2012

A PRINCESA


Outro dia, nas minhas deliciosas caminhadas, descobri o porquê de algo que me chamava atenção há muito tempo: as inúmeras bandeiras da Avenida Princesa Isabel.

Sempre que passava por ali, vendo tantas bandeiras, ficava imaginando o que representavam. Não conseguia reconhecer nenhuma delas como bandeiras de outros países. Pertenceriam aos hotéis? São muitos por ali, mas estariam espalhadas pela avenida e não nas portas dos mesmos?



Naquele dia, o sol estava belíssimo e fui atraída pela imagem da Princesa com a bandeira nacional tremulando como pano de fundo. Meu gosto pela fotografia e, por que não dizer, meu senso patriótico emocionado captou o momento. E... já que estava ali, pela primeira vez, em anos, resolvi ler as placas que cercam a imagem. O que será que escreveram para essa personagem tão interessante em nossa história?

Não havia nada nas placas, além do que nosso senso escolar já conhece, mas, por trás dela, deparei-me com a magnífica resposta a minhas antigas questões: uma placa explicativa das bandeiras! Imagine!

Mistério desvendado: as inúmeras bandeiras da Avenida Princesa Isabel representam todas as bandeiras que nosso país teve, desde o tempo do Império até a nossa bandeira atual!


Iluminadas e norteadas pela Princesa Isabel cuja estátua encabeça a avenida, nada mais apropriado: uma avenida que comemora duas independências: a nossa e a dos escravos.

Saí dali pensando em ambos os percursos. Uma canetada da Princesa, no momento em que a escravidão era muito mais do que uma vergonha social e se delineava como um ato político premente e pontual. Não que se tivesse transformado em mágico momento, pois o ato, em si, apenas permitiu que se começasse a tirar os grilhões de nossos irmãos brasileiros escravizados. Mas era uma constatação de direito e de fato. Embora tenha-se passado mais de uma centena de anos, ainda enfrentamos as consequências do período de escravidão. Mas é óbvio que a canetada deu o aval necessário para que tudo começasse a acontecer.

As eleições se aproximam. Que tenhamos nós, também, uma bela canetada, neste momento tão importante de cidadania! 

As mudanças recorrentes de uma boa canetada podem levar anos, mas acabam se realizando. A pena de ouro da Princesa está em nossas mãos, neste momento.

Não continuemos escravos alimentados pela nossa indiferença.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

DESCOMPASSO


Fevereiro com vinte e oito...
E tantos meses com trinta e um...

sábado, 15 de janeiro de 2011

ÁGUA DURA EM PEDRA MOLE...


O que dizer que possa fugir ao senso comum... que inaugure palavras que possam ser lidas ou ouvidas com som de esperança? O que dizer daquilo que todos nós já sabemos a respeito de todos os ditos e não-ditos, promessas e dívidas, promessas e dúvidas?

De 1957 a 1958, eu morei no Engenho de Dentro... e todas as vezes que chovia, eu me lembro que a rua já ficava completamente tomada pela lama que vinha do morro ao lado...

Que esperança poderei ter de escrever um conto, um dia, dizendo que fotos como essa, sejam apenas uma lembrança do passado?

O que dizer que possa ser muito mais do que apenas "virar um provérbio pelo avesso"?

Obs.: Foto de Marino Azevedo - Divulgação: notícias.terra.com.br

sábado, 20 de novembro de 2010

LUZIA


Dei um pulinho na universidade para pegar documentos antigos, contracheques, etc. Revi amigos e aproveitei para tirar algumas fotos para o blog. Foi aí que me deparei com uma parte da vista do estacionamento. Notei um carro estacionado em frente a uma vaga reservada para cadeirantes. Ver isso da altura do décimo primeiro andar me dava mais a impressão de ser coisa de filme ou de casa de brinquedos do que realidade. Mas era verdade. Em plena universidade, onde sei que há inúmeros projetos extensionistas e um vasto folhetim sobre cotas, direitos sociais e necessidades especiais - que é o que mais caracteriza o lugar em que trabalhei -, a vista disso me parecia coisa fora do lugar. Mas estava lá, o carro azul, em frente à vaga, enfrentando meus princípios.

Para não “entrar nela” desobedecendo ao aviso ostensivo de proibição, ele ou ela simplesmente optou por estacionar em frente! Dava na mesma. Não pude deixar de fotografar. De quebra, fiquei imaginando se os carros estacionados nas vagas reservadas seriam, realmente, de cadeirantes. É certo que os seguranças são logo chamados nesses casos, pois há um número considerável de cadeirantes lá. Não desci para ver. Lembro-me de que fazia isso quando era membro efetivo do Conselho Estadual para Política de Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Naquela época eu tinha mais poder de fogo, me apresentando como membro e mobilizando as autoridades locais. Bons tempos! Ou... maus tempos, como sempre? Para que precisar de carteira, afinal... não deveria ser um direito / dever de cidadania de todos?

O fato é que fiquei com o vicio já meio natural de estar atenta a esses absurdos. Aliás, guardei um arquivo que me mandaram, um dia, pela internet. A piada é boa, embora esconda outro preconceito, que também deveria ser combatido. Falaremos disso, provavelmente, em outro conto. Por ora, lá vai, pela criatividade do autor, para mim, desconhecido:


Outro dia, saindo do carro e andando pelo estacionamento do aeroporto do Galeão, rumo ao elevador, vi um cidadão (cidadão?) estacionando numa vaga dessas. Não resisti, mesmo sabendo que, de vez em quando, a gente se meter numa coisa dessas é furada. Me aproximei e perguntei o mais delicadamente que pude, se ele não tinha visto a placa, já que não via na chapa do carro a marca obrigatória que os cadeirantes tem de ter. Ele simplesmente retrucou:

- Alguém está vendo?

Não agüentei:

- Sua consciência não está?

- Você vai me multar?


- Não, mas deveria, já que sou do Conselho Estadual (já não sou mais, mas dei a cartada). Invisto apenas no seu senso de cidadania. Eu mesma tinha essa vaga à disposição quando passei por aqui, mas estou estacionada há quase cinqüenta metros, bem mais longe dos elevadores. E suas pernas são bem mais jovens que as minhas.

Não quis discutir mais, dei as costas, mas saí dali indignada. Não achei um segurança perto, queria pedir providências. Não vi ninguém.

Fiz o que tinha de fazer no aeroporto e voltei rapidamente. Como era o meu caminho, passei outra vez pela mesma vaga e... estava vazia. Por medo ou por consciência - gostaria mais de acreditar na segunda opção -, o jovem escolhera outro lugar. Resolvi voltar e procurei um segurança que, enfim, colocou um daqueles “cones” de plástico amarelo na vaga. Aquilo não evita a desobediência, mas é mais um empecilho. O problema é que também atrapalha o verdadeiro cadeirante que, vindo sozinho, quer estacionar ali.

Ando muito pela cidade e, volta e meia, me deparo com uma coisa dessas. Nossa educação básica de convívio está mesmo depauperada. Já sabemos disso de sobra. Mas como criticar a violência, se ela começa dentro de nossos corações?

Saí do estacionamento cabisbaixa, pensando nessas coisas, e me parece que aquele era mesmo um dia de me encontrar com a representação de pessoas muito especiais, que já trilharam a minha vida, me ensinando coisas da mente e do coração. Estava chegando em casa quando vi Luzia, uma antiga colega de faculdade. Ocorre que Luzia é cega. Andava devagar, com sua bengala. Me deu vontade de fazer uma meninice, como nos antigos tempos. Me aproximei sem falar uma palavra e lhe dei meu braço. Luzia parou e estranhou. É muito difícil um vidente dar o próprio braço para um cego na rua, para ajudá-lo. Geralmente, pegamos o seu braço, seu ombro, pois não fomos preparados para isso. A maioria das pessoas não sabe, mas essa atitude provoca uma total insegurança, pois a pessoa se sente monitorada e não guiada, como deveria. Se alguém se aproxima e, de saída, sem essa ou mais aquela, oferece o próprio braço, a pessoa cega já desconfia de que há noventa e nove por cento de chance de que o tal sujeito ou sujeita já andou aprendendo isso com cegos por aí.

- Quem é?

Minha meninice, dando o braço e caminhando, conservou silêncio.

- É Rita?

- Não.

- Fala mais um pouco. Você já andou com muitos cegos, não?

- Muitos.
Sorri.

- Ora, Eulalia! Você por aqui!

- Essa não vale Luzia, como você descobriu?


Ela me respondeu, com aquela cara de marota, bem minha conhecida:

-Se você já andou com cego, querida, está marcada para sempre... depois, é só aguçar para as características: pelo riso (e eu que pensei que apenas tinha sorrido!) e, logo depois, pela maneira de andar e pelo braço. Pela voz, fiquei um pouco na dúvida, porque você está um pouco resfriada, isso mascarou pouco, mas eu já tinha quase certeza. Então, chutei.

- Luzia, faz cerca de 30 anos que não nos vemos!

- Ver nunca te vi, mesmo, zombou ela,
lembrando-me de pronto de seu irrefutável bom humor. Mas o jeito, depois de termos convivido tão proximamente durante quatro anos... ah...não dá para esquecer.

Pois é... quem de nós, sem ver outra pessoa e praticamente sem falar com ela – e, ainda por cima, com resfriado -, poderia reconhecer um amigo, na rua, depois de trinta anos? Os cegos, quase sempre, podem.

Perguntei para onde ela queria ir.

- A um ponto de ônibus da Princesa Isabel.

Andamos conversando animadas, ela já habituada com o tipo de guia que eu sou, descendo e subindo as calçadas sem prévio aviso. É tão fácil guiar um cego com segurança... basta dar o braço e se conservar um passo adiante. Ele nota que você vai descer e subir, desviar de buraco... nem precisa falar. É incrível o senso de percepção que eles tem!

Fomos assim conversando rumo à Princesa Isabel. Soube que era seu caminho quase diário. Incrível, ela trabalhava numa escola ao lado do meu edifício, há dez anos, e nunca nos vimos. E justamente agora que nos tínhamos encontrado ela estava sendo transferida. Seguindo, assim, de papo, atravessamos a avenida e, como há vários pontos de ônibus, apenas fui caminhado, pois eu já sabia que ela iria reconhecer quando chegássemos ao dela. Não deu outra: num determinado momento, ela deu aquela “travadinha básica” bem minha conhecida. Era ali. Não resisti:

- Qual é o sinal, Luzia? Estava me referindo a como ela reconhecia o ponto.

- O cheiro da farmácia.


É preciso ressaltar que a farmácia não fica em frente ao tal ponto, fica duas lojas à frente. Significa que não tínhamos passado por ela. Pois é... nós temos um olfato tão aguçado? Uma percepção de contato tão aguçada? O que fazemos com nossos sentidos? Não dá para chamar uma pessoa assim de deficiente... é mesmo mais para pessoa especial...

E, talvez, quem sabe, foi com esse espírito de perceber o quanto são especiais que, muito mais tarde, por caminhos da vida, acabei trabalhando com surdos, aprendendo sua língua, lutando academicamente por uma educação especial melhor.

Só tenho a agradecer, por esses presentes da vida, me preparando, com antecedência programada para vários dos embates de minhas futuras escolhas.

Um dia, quem sabe, eu fale mais de Luzia e de surdos em outro conto. Vale a pena.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

PRETEXTO


Manhã de sábado. Um sol fosco anunciava chuva breve. Meninos jogavam bola no gramado e, nos bancos, as mães jogavam verde. E, enquanto a luz do sol se misturava com as sombras das árvores e dos cochichos, mais uma personagem que aparentava ser uma das imperatrizes das artes de maldizer, chegou com seus olhos novidadeiros. Todas se voltaram. A impressão que tive foi a de me sentir como alguém que nunca sabe se os “investimentos” da velha senhora eram garantidos, mas, à falta de melhor motivação, as mulheres em volta se entregaram às falações da “comadre”.

Nos bancos e no gramado o jogo continuava. O sujo do céu refletia-se nos joelhos infantis e também nos olhos nada ingênuos das que ali teriam ido para dar espaço à inocência.

Eu acabara de caminhar pela praia e de fazer meus exercícios de Tai Chi Chuan. Embora semi-nublada, a manhã estava linda naquela pontinha da praia do Leme e como nas pedras ventava muito, eu tinha declinado do meu hábito de me sentar nelas, para buscar o calçadão, mais especificamente um canto de gramado, fugindo do vento e buscando sossego. Foi nessa hora que o bulício atravessou o meu caminho, sob a forma do quadro descrito acima.

Nada ali combinava com a minha alma refeita pela caminhada no calçadão e pela luz suave e pura da natureza. Falações de novela e da vida alheia. Nada combinava com os lentos e harmoniosos movimentos de Tai Chi. Minto: tudo combinava com a inocência dos jogos infantis à minha volta. Aos poucos, portanto, as vozes das mulheres foram amortecidas pelo vento e meus sentidos apagaram os sons em meus ouvidos e aguçaram o sentido visual: as crianças, em volta, sorrindo, jogando, rindo, pulando, suando, felizes.

Alma seletiva. Voltei lenta para casa e o silêncio interior invadia meus pensamentos de calma e paz. Sentia-me completamente alienada, longe das novelas, dos babados, das fofocas, dos jornais, da internet, dos meus problemas, das doenças de meus clientes, do desespero, das angústias, dos jogos políticos, da vida.

Mas durou pouco. Véspera de eleições. Papéis eleitoreiros estavam espalhados pelo chão. Pisados, sujos... talvez como muitos de seus donos... mas isso já é um juízo pessoal, pensamentos soltos, que passavam pela minha cabeça.

Silenciosa e calma trilhava os passos rumo ao meu ninho. Mas a visão dos papéis turvou meus pensamentos. Pensei na falta de moradia de tantos meninos que eu já conhecia de rostinho pela rua. Pensei nos rostos dos candidatos pisoteados pelo chão. Deputados, senadores, governantes, presidenciáveis, todos ali, juntos, “sem pátria e sem mãe”, no lixo das ruas, como os meninos que se espalham pelo bairro e que fazem parte do meu cotidiano.

Luz e sombra se confundindo. Um conto real de puro abandono. O lixo eleitoreiro e o lixo do descaso. As mulheres absortas nas irrealidades construídas em suas “conversas” sem rumo e sem destino como os meninos de rua, ao lado dos “santinhos” dos candidatos apenas esperando a primeira chuvarada para entupirem nossos esgotos e encharcarem nossas ruas - havia uma competição constante entre eles e os anjos da COMLURB.

Sentimentos de véspera de pleito. Não deveria me incomodar, naquele momento de calma interior, o resultado das urnas. Mas alguma coisa, no meio do lixo, precisava salvar-me do sentimento de cidadão abandonado à própria sorte... e do cidadão-menino que me chamava de tia e para quem eu não tinha solução. Precisava amenizar a dor do meu peito, de minha completa impotência civil, a necessidade de um recreio, um oásis, um alento, uma esperança de vida, de vida real, de conforto social plausível, de patriotismo sem deslizes. Algumas gotas esparsas num oceano de necessidades sociais - era o máximo que eu conseguia fazer e era o máximo que eu, às vezes, conseguia ver.

Papéis sem sentido no chão, com fotos sorridentes. Rostinhos infantis sorridentes a minha volta, esperando um lanchinho da tia. Tudo igual. Não via diferença vital em nenhuma das fotos, de qualquer partido. O mesmo sorriso, as mesmas promessas e o mesmo entardecer que se faria em breve nessa véspera chuvosa. No entanto, uma esperança de que, por alguma razão, apesar de tudo, talvez impulsionado pelo próprio destino, dê certo.

Calma pessoal misturada à angústia da impotência. Novamente, em meu pensamento, voltei a perceber apenas o eco das vozes das mulheres da praça se misturando com o eco das vozes infantis.

Escolhi as vozes infantis: autenticidade, presença, esperança. Tudo por acontecer. Enfiei a chave na porta e vim escrever este conto.

sábado, 17 de julho de 2010

MEU CORAÇÃO CARIOCA


Sou uma carioca nascida em São Paulo. Amo São Paulo. Por ser portentosa, magnífica, imponente e, principalmente, por ser o ninho de amigos de vida. Não vivi em Sampa, não voltei em nenhum momento da vida, a não ser para visitar ou, eventualmente, trabalhar, através de congressos e cursos. Assim, embora haja motivos que me impulsionem com alegria para lá, no fundo, apenas tenho a referência de minha certidão de nascimento e a minha mais pura admiração.

O fato é que a vida me fez carioca: ando como carioca, falo como carioca, transito como carioca, me visto como carioca, trabalho como carioca - e carioca trabalha muito, é folclore pensar o contrário.

O Rio é uma cidade pronta para as mais diversas análises. Mas é difícil falar dela, sem cair no lugar comum. Por isso, talvez, tenha adiado tanto falar sobre a cidade do meu coração.

Acho que ser carioca é ser, antes de tudo, um forte. É ir ao trabalho, todos os dias, tendo à volta tanta beleza e atrativos que até dá dó. Creio que é mais difícil ser um bom trabalhador aqui do que na maioria das cidades do mundo com todas essas tentações de cidade linda e cheia de graça. Mas trabalhamos. E muito. Isso nos dá o direito de sairmos do trabalho correndo para um chopinho ou uma água de coco à beira-mar.

Moro num canto de Copa, a três quadras da praia. Isso é um privilégio: aproveito o silêncio a uma quadra do bulício e convivo com beija-flores vindos da montanha ao lado, para curiosarem em minha janela. Agora mesmo passou um por aqui.

Caminhar para a praia é curtir um pedaço especial dessa cidade amada. O flanelinha da rua é conhecido por todos. Não tem casa, mora por aqui mesmo. Seria na rua, não fosse um dos moradores ceder seu carro para que ele tenha onde dormir e guardar suas poucas roupas no porta-malas. Toma banho todos os dias e se barbeia no banheiro dos empregados do prédio ao lado. Conhece a todos nós por apelidos, tratando-nos com toda a atenção. Quando passo pela rua, logo reconheço sua voz:

- Bom dia, minha princesa...

Tem um apelido diferente para cada um, todos gentis e portentosos. Talvez um sorriso diferente também. Sua gentileza nos acolhe e parece estar bem com a nossa acolhida. Um dia, perguntei-lhe o que achava da vida e ele me respondeu:

- Na verdade, sabe, acho que tenho tudo de que preciso.

Estar no Rio é expor-se ao inusitado.

Quando passo pela farmácia, vez por outra, escuto:

- Bom dia, professora!

O mesmo acontece com a padaria. Até hoje não sei como eles descobriram que eu era professora. Uma cidade grande, muitas vezes, com pinta de cidade pequena. Coisas de bairro, embora Copacabana seja cosmopolita e com ares de estrangeirismos...

As praças por aqui são geralmente sujas, algumas delas não cheiram bem. Muitos falam da falta de higiene dos chamados mendigos, mas poucos lembram que não há banheiros públicos gratuitos, nem chuveiros, nem rios ou lagos onde possam banhar-se. Temos muitos moradores de rua, principalmente na zona sul. É onde eles conseguem sustento, vendendo frutas, balas e trecos ou fazendo malabarismos circenses nos sinais de trânsito. Alguns roubam, mas muitos não farão isso, se você for delicado ou delicada com eles. Tente. Ofereça um lanche. Você sempre terá algum no bolso para ajudá-los a se sentirem gente. Não estou falando de dinheiro, estou falando de convidá-los a tomarem um suco, mesmo que você esteja com alguma pressa. Se você encontrasse um amigo na rua, não pararia por alguns momentos? Pense nisso, pare um pouco, leve seu suposto ladrão para um minuto de convívio. Converse com ele. Provavelmente, se surpreenderá. Faço isso, sempre que posso, enquanto não vejo a ordem pública fazer algo que realmente os ajude e lhes dê o apoio que necessitam para terem uma vida e uma educação decentes. E você nem imagina que lições de vida poderá ter com isso...

O Rio é uma cidade perigosa como outra qualquer, mas a propaganda a faz parecer tremendamente pior. Já cansei de caminhar pelo calçadão de Copacabana, às onze horas da noite, voltando a pé para casa. Chego de carro de madrugada sem as preocupações do que dizem por aí. Não sou invisível, mas nunca me aconteceu nadica de nada. Não me meto em cantos desconhecidos. Os malucos é que fazem isso, pedindo para saírem nos jornais do dia seguinte. Talvez não saibam ser cariocas. Não sei. Acho que isso acontece em qualquer cidade grande. Se você não é carioca não pode ignorar a cultura do lugar ou agir como se estivesse morando em sua própria cidade. Cada uma tem seus costumes e é preciso estar atento a isso. Desmerecer esses cuidados é mancada, na certa, em qualquer lugar do mundo.

Estar no Rio é estar na praia e de repente querer estar no mato. A distância é mínima e você pode fazer isso num passe de mágica. Se desejar, conseguirá trocar os 38 graus da praia pelo fresquinho do Alto da Boa Vista, sem sair de dentro da própria cidade. Em meia hora, talvez, você estará caminhando pelas trilhas da Floresta da Tijuca. Puro luxo.

Ser carioca é chegar à praia ou a muitos dos lugares comuns com a roupa que quiser. Tanto faz ser com a bolsinha da moda a tiracolo e salto alto, quanto com uma bermuda esfarrapada. Ninguém nota, ninguém sequer presta atenção. A regra é cada um fazer como se sente melhor.

Morar no Rio é andar pela zona sul ouvindo mil línguas distintas, muitas não identificáveis, nessa cidade de milhares de turistas de todas as cores e tons. É ir ao subúrbio e encontrar uma cidade que você nunca viu, reconhecer a pobreza, mas também o aconchego de gente humilde e cheia de luz.

Ser carioca é conhecer os caminhos da camaradagem, o sorriso fácil, combinando com manhãs e tardes ensolaradas. É conversar com quem você não conhece, como se convivessem há séculos, no mínimo tempo contido entre o primeiro e o nono andar de um prédio qualquer.

Blusas sem mangas, bermudas, paletós não vestidos pendurados nos ombros, ar condicionado a mil nos bancos e nos taxis. Contraponto.

Ser carioca é não precisar pedir cidadania. É ser muita coisa e, ao mesmo tempo, quase nada. É deixar que o Rio possua você, sem precisar fazer força para isso. É ir ficando e deixar que o milagre se faça por si mesmo.

Foi assim que aconteceu comigo e, quando me dei conta, meu coração já falava com sotaque puxado a ‘ch’.