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sábado, 24 de julho de 2010

BRINDES À CIDADE AMADA

SOB QUALQUER ÂNGULO,


MESMO OS MENOS CONHECIDOS,


O RIO É UMA CIDADE


ONDE O TRABALHO MORA NOS JARDINS,


NO CALOR DA PRAIA,


SOB O AZUL DO CÉU,


OU NAS UNIVERSIDADES,


NOS PRÉDIOS DE ESCRITÓRIOS,


ENFEITADOS PELO ANOITECER,


ESPERANDO A DESCONTRAÇÃO DO FINAL DO DIA.


UMA CIDADE DE DOMINGOS INFESTADOS DE TURISTAS


ONDE QUALQUER BRINCAR


É PERMITIDO,


NA PRAIA,


NO CALÇADÃO,



NA MONTANHA,


POR DENTRO DA FLORESTA,


NO AR,


NOS BARES OU BALADAS NOTURNAS.


UMA CIDADE CHEIA DE SURPRESAS


ONDE A ARTE PODE SER MOLDADA POR UM ARTESÃO


OU PELO VENTO SUAVE NA AREIA.


UMA CIDADE DE RECANTOS COLONIAIS,


QUE AGASALHOU, DESDE ENTÃO, TRABALHADORES DE DIVERSAS ETNIAS,


NAS MAIS DIVERSAS PROFISSÕES.


ONDE ATÉ A SOLIDÃO É BRINDADA


PELO OLHAR DO POETA.


UMA CIDADE DESPIDA DE CUIDADOS,


NOS EXCESSOS DE SUAS BELEZAS NATURAIS.







ESTES SÃO ALGUNS BRINDES DE UM CORAÇÃO CARIOCA. TIM-TIM!!!

FOTOS TIRADAS EM PASSEIOS OU COTIDIANOS DE ENCANTAMENTO: Pão de Açucar(1,2), Aterro do Flamengo(3,4), Copacabana(5,6), UERJ(7), Copacabana(8), Ipanema(9), Copacabana(10 a 15), Pedra da Gávea(16), Floresta da Tijuca(17), Pedra Bonita(18), Confeitaria Colombo,Posto 6(19), Copacabana(20 a 22), Outeiro da Gloria(23), Trabalhadores em horário de almoço(24), Colonia dos pescadores, posto 6(25), Recanto no Aterro do Flamengo(26), Copacabana(27,28), Pão de Açucar e Urca(29), Cristo(30), Floresta da Tijuca(31,32), Copacabana vista do Forte do Leme(33), Urca(34).

sábado, 17 de julho de 2010

MEU CORAÇÃO CARIOCA


Sou uma carioca nascida em São Paulo. Amo São Paulo. Por ser portentosa, magnífica, imponente e, principalmente, por ser o ninho de amigos de vida. Não vivi em Sampa, não voltei em nenhum momento da vida, a não ser para visitar ou, eventualmente, trabalhar, através de congressos e cursos. Assim, embora haja motivos que me impulsionem com alegria para lá, no fundo, apenas tenho a referência de minha certidão de nascimento e a minha mais pura admiração.

O fato é que a vida me fez carioca: ando como carioca, falo como carioca, transito como carioca, me visto como carioca, trabalho como carioca - e carioca trabalha muito, é folclore pensar o contrário.

O Rio é uma cidade pronta para as mais diversas análises. Mas é difícil falar dela, sem cair no lugar comum. Por isso, talvez, tenha adiado tanto falar sobre a cidade do meu coração.

Acho que ser carioca é ser, antes de tudo, um forte. É ir ao trabalho, todos os dias, tendo à volta tanta beleza e atrativos que até dá dó. Creio que é mais difícil ser um bom trabalhador aqui do que na maioria das cidades do mundo com todas essas tentações de cidade linda e cheia de graça. Mas trabalhamos. E muito. Isso nos dá o direito de sairmos do trabalho correndo para um chopinho ou uma água de coco à beira-mar.

Moro num canto de Copa, a três quadras da praia. Isso é um privilégio: aproveito o silêncio a uma quadra do bulício e convivo com beija-flores vindos da montanha ao lado, para curiosarem em minha janela. Agora mesmo passou um por aqui.

Caminhar para a praia é curtir um pedaço especial dessa cidade amada. O flanelinha da rua é conhecido por todos. Não tem casa, mora por aqui mesmo. Seria na rua, não fosse um dos moradores ceder seu carro para que ele tenha onde dormir e guardar suas poucas roupas no porta-malas. Toma banho todos os dias e se barbeia no banheiro dos empregados do prédio ao lado. Conhece a todos nós por apelidos, tratando-nos com toda a atenção. Quando passo pela rua, logo reconheço sua voz:

- Bom dia, minha princesa...

Tem um apelido diferente para cada um, todos gentis e portentosos. Talvez um sorriso diferente também. Sua gentileza nos acolhe e parece estar bem com a nossa acolhida. Um dia, perguntei-lhe o que achava da vida e ele me respondeu:

- Na verdade, sabe, acho que tenho tudo de que preciso.

Estar no Rio é expor-se ao inusitado.

Quando passo pela farmácia, vez por outra, escuto:

- Bom dia, professora!

O mesmo acontece com a padaria. Até hoje não sei como eles descobriram que eu era professora. Uma cidade grande, muitas vezes, com pinta de cidade pequena. Coisas de bairro, embora Copacabana seja cosmopolita e com ares de estrangeirismos...

As praças por aqui são geralmente sujas, algumas delas não cheiram bem. Muitos falam da falta de higiene dos chamados mendigos, mas poucos lembram que não há banheiros públicos gratuitos, nem chuveiros, nem rios ou lagos onde possam banhar-se. Temos muitos moradores de rua, principalmente na zona sul. É onde eles conseguem sustento, vendendo frutas, balas e trecos ou fazendo malabarismos circenses nos sinais de trânsito. Alguns roubam, mas muitos não farão isso, se você for delicado ou delicada com eles. Tente. Ofereça um lanche. Você sempre terá algum no bolso para ajudá-los a se sentirem gente. Não estou falando de dinheiro, estou falando de convidá-los a tomarem um suco, mesmo que você esteja com alguma pressa. Se você encontrasse um amigo na rua, não pararia por alguns momentos? Pense nisso, pare um pouco, leve seu suposto ladrão para um minuto de convívio. Converse com ele. Provavelmente, se surpreenderá. Faço isso, sempre que posso, enquanto não vejo a ordem pública fazer algo que realmente os ajude e lhes dê o apoio que necessitam para terem uma vida e uma educação decentes. E você nem imagina que lições de vida poderá ter com isso...

O Rio é uma cidade perigosa como outra qualquer, mas a propaganda a faz parecer tremendamente pior. Já cansei de caminhar pelo calçadão de Copacabana, às onze horas da noite, voltando a pé para casa. Chego de carro de madrugada sem as preocupações do que dizem por aí. Não sou invisível, mas nunca me aconteceu nadica de nada. Não me meto em cantos desconhecidos. Os malucos é que fazem isso, pedindo para saírem nos jornais do dia seguinte. Talvez não saibam ser cariocas. Não sei. Acho que isso acontece em qualquer cidade grande. Se você não é carioca não pode ignorar a cultura do lugar ou agir como se estivesse morando em sua própria cidade. Cada uma tem seus costumes e é preciso estar atento a isso. Desmerecer esses cuidados é mancada, na certa, em qualquer lugar do mundo.

Estar no Rio é estar na praia e de repente querer estar no mato. A distância é mínima e você pode fazer isso num passe de mágica. Se desejar, conseguirá trocar os 38 graus da praia pelo fresquinho do Alto da Boa Vista, sem sair de dentro da própria cidade. Em meia hora, talvez, você estará caminhando pelas trilhas da Floresta da Tijuca. Puro luxo.

Ser carioca é chegar à praia ou a muitos dos lugares comuns com a roupa que quiser. Tanto faz ser com a bolsinha da moda a tiracolo e salto alto, quanto com uma bermuda esfarrapada. Ninguém nota, ninguém sequer presta atenção. A regra é cada um fazer como se sente melhor.

Morar no Rio é andar pela zona sul ouvindo mil línguas distintas, muitas não identificáveis, nessa cidade de milhares de turistas de todas as cores e tons. É ir ao subúrbio e encontrar uma cidade que você nunca viu, reconhecer a pobreza, mas também o aconchego de gente humilde e cheia de luz.

Ser carioca é conhecer os caminhos da camaradagem, o sorriso fácil, combinando com manhãs e tardes ensolaradas. É conversar com quem você não conhece, como se convivessem há séculos, no mínimo tempo contido entre o primeiro e o nono andar de um prédio qualquer.

Blusas sem mangas, bermudas, paletós não vestidos pendurados nos ombros, ar condicionado a mil nos bancos e nos taxis. Contraponto.

Ser carioca é não precisar pedir cidadania. É ser muita coisa e, ao mesmo tempo, quase nada. É deixar que o Rio possua você, sem precisar fazer força para isso. É ir ficando e deixar que o milagre se faça por si mesmo.

Foi assim que aconteceu comigo e, quando me dei conta, meu coração já falava com sotaque puxado a ‘ch’.

sábado, 3 de julho de 2010

TRÂNSITO CARIOCA


Não conheço um trânsito igual ou parecido com o do Rio. Pode haver pior, melhor, mais engraçado, mais certinho, mais bagunçado, mas o do Rio, para mim, é único.

Prefiro definir a diferença entre o nosso trânsito e os demais que conheço dizendo que, nos outros lugares, sinto que as pessoas se vestem e saem de carro. No Rio, as pessoas vestem o carro e saem. E com esta “pele” de metal, nos sentimos tão em casa como no próprio corpo. Um corpo carioca, cheio de gingas, meneios e mandingas, um doce balanço a caminho do mar de avenidas, ruas, trilhas e estradas que compõem nossa cidade e seus arredores.

Ser motorista carioca, como o próprio povo, é um estado de espírito, não apenas ter uma carteira de motorista aprovada. O exame clínico completo, incluindo a minuciosidade do exame de vista está longe da aprovação concedida pelos golpes de vista, visão consentida pela cidadania carioca. Isso nos liberta, ao mesmo tempo que confunde os menos avisados, denominando-nos, às vezes, de irresponsáveis e inconseqüentes. Digo isso por ter vários amigos de outros Estados me visitando de vez em quando e sendo brindados com passeios para lá e para cá, no meio do bulício citadino.

Andei pensando nisso, vez por outra, pois faço parte da possível tropa de inconsequentes e irresponsáveis, com licença oficial tirada e sempre renovada com o carimbo dos Órgãos Oficiais do Estado. Mas deduzo com segurança que, se fôssemos realmente inconseqüentes e irresponsáveis, nossas ruas estariam atoladas de batidas, trombadas, desastres, atropelamentos. Ando muito de carro e, confesso, é muito raro eu ver acidentes por onde ando. O que vejo é uma dança coordenada de meneios e mesuras, onde se misturam delicadezas e xingamentos, como uma troca de sentimentos que se somam e se completam em nosso transitar cotidiano.

Decididamente, a maioria de nós é do time que veste o carro e sai. E assim como pedestres dão passagem a alguém com quem quase trombam na rua, damos também passagem ao carro do lado que atravessa a nossa frente para pegar a rua do outro lado, como ocorre com os pedestres, em passadas consentidas, no meio da calçada.
Saber entender a linguagem dos motoristas é de vital importância para o bom desempenho desse bailado não ensaiado, mas rigorosamente previsível. Se um taxi (principalmente os taxis) piscam um pouco ao lado e atrás de você pode significar duas coisas: pedir passagem ou dar passagem. Pode contar que, se você está ligeiramente à frente, há espaço e ele está um pouco ao lado, dá uma freadinha quase imperceptível e pisca, o motorista provavelmente estará dizendo:

- Vai, vai.

Se você não for, não faz parte integrante do corpo de motoristas atentos e cotidianos, perdendo a oportunidade de usufruir das delicadezas do ritual. Mas se ele estiver só um pouquinho de nada atrás, mas quase emparelhado com você, não dá a tal quase imperceptível paradinha e pisca, dê passagem, pois ele está realmente com pressa, mesmo que seja psicológica, e será a sua vez de bancar o cavalheiro (dama), correndo o risco, se fizer o contrário, de levar uma fechada mais adiante, acompanhada de um bom xingamento pela falta de delicadeza.

Se um ônibus funga às suas costas, não tenha dúvidas: o motorista, que não pode usufruir do beneplácito da buzina, se sentiu ultrajado por alguma barbeiragem, diga-se, fechada não consentida que você lhe deu lá atrás. É melhor não ficar brigando, pois, já que foi você que errou, é de bom tom resgatar-se da falha deixando que ele passe a sua frente, e, é lógico, se você não é de briga, dê-lhe o direito de devolver a fechada. Se você não tem alma para fazer isso, então, é melhor dar uma boa arrancada e se mandar para bem longe, pois ele vai te perseguir, vai sim. Não se pode ser indelicado com um monstro desses, ora vejam só. E, se você é um carioca de bom coração, pense um pouquinho: esses caras ralam prá caramba, tendo de fazer um monte de idas e vindas por dia, surfando nesse transito entupido o dia inteiro para conseguirem o seu pão. Ganham uma miséria. Sejamos mais condencendentes com eles. Se for verão, então, a maioria deles passa o dia inteiro pingando de suor, para cima, para baixo, num mito de Sísifo sem fim. Há de se levar isso em consideração.

Por falar em ônibus é rigorosamente proibido levar a sério suas setas de sinalização. Sinalização de ônibus não pode ser levada em conta em nossa cidade! Se o pisca-pisca está para a direita, não significa que ele vá manter-se encostado na pista não. Ele pode virar à esquerda a qualquer momento, desde que haja um tráfego esquisito à frente. O pisca-pisca à esquerda, na grande maioria das vezes, também não faz sentido ou ele apenas quer manter os mais medrosos que o seguem nos seus lugares, alimentando, assim, a possibilidade de uma driblada para a esquerda a qualquer momento. É fácil você perceber, no entanto, se esse pisca-pisca está valendo ou não. Embique o carro como quem vai avançar. Se ele mantiver a linha reta, o pisca-pisca está ali só para enfeite. Siga em frente e ultrapasse, mas sempre alerta, claro. Deduz-se que pisca-pisca de ônibus é mesmo uma enganação. Não o considere. Siga mais sua acuidade, sua carioquice e mantenha um pouquinho mais de atenção, ao estar ao lado deles. Um amigo me alertou que pisca-pisca de ônibus serve mais para eles usarem em caso de acidente. Já viu algum ônibus batido sem o pisca-pisca ligado, justamente, na direção da batida, como a dizer que ele tinha avisado e você é que avançou perigosamente? Qualquer perito sabe disso, mas, é claro, malandragem é malandragem. Enfim, com o devido cuidado e sabendo das manobras, esses monstros não são tão perigosos quanto parecem. Pelo contrário, escondem gentilezas inusitadas. Sair de minha rua e pegar a Av. Princesa Isabel é deparar-me com eles, diretamente, na curva da Filipe de Oliveira. Quando o trânsito está para lá de ruim, quase sempre, são eles que dão uma freadinha amiga, numa hora de aperto, permitindo que eu faça uma manobra mais avançadinha. Não são os carros, não são as vans, não são os caminhões. São mesmo os ônibus os donos dessa gentileza. Ah, se isso acontece com você e se você é carioca, com certeza, já sabe: é de mau tom, terrível mau tom não dar uma acenada em agradecimento, mesmo que você esteja com o vidro fechado por causa do ar condicionado. Abri-lo e colocar a mão como polegar para cima é alta etiqueta que não deve ser esquecida jamais por um carioca da gema ou mesmo de coração, como eu.

Ah, motoristas homens e mulheres são assexuados no que se refere a educação e etiquetas. Antigamente, os homens deixavam que nós, mulheres, passássemos à frente, saíssemos das garagens, nos davam prioridade nos estacionamentos. Isso acabou. Todos somos iguais perante nossos automotivos. Mas isso é bom. Só acho que, em compensação, deveríamos ser mais respeitadas, já que somos “iguais”. As mulheres, no entanto, continuam sendo discriminadas no quesito saber dirigir bem. E dirigem! Ainda fico um pouco constrangida quando vou estacionar em vaga pequena e ouço aquele gracejo chato: “não vai dar não”. Ou, então, simplesmente param e ficam contemplando a manobra. Cheguei à conclusão de que o melhor é ignorar, fingir que não ouvi ou vi e fazer a manobra como se nada estivesse acontecendo à volta. Afinal, vaga não se encontra sobrando por aí. Aconselho às cariocas fazerem o mesmo. Não desprezem sua auto-estima. Para mim, no entanto, quando entro numa dessas, estaciono e ouço outro gracejo: “é, mandou bem”, longe de ser um elogio, me chateia um pouco. Com certeza, esses “fofos” não falariam nada se fosse um macho que estivesse na direção... mas nada é perfeito e os cariocas não poderiam fugir á regra, é claro. O melhor é tentar aceitar com bom humor, se puder, e seguir em frente, com cara de parede, como se nada tivesse acontecido. Mas isso acho que não é quesito carioca... esse item já vi em quase todos os Estados que visitei.

Não é muito comum deixar que quem está saindo da garagem tenha a vez. Parar para alguém entrar na rua não é comum e não é considerado como indelicadeza nem por quem está na rua, nem por quem está querendo entrar no trânsito. Muitas vezes, estamos mesmo com pressa, outras, nem percebemos. Isto porque, como o nosso trânsito exige muita concentração para não perder o passo da contradança, quem está na calçada não faz parte do perímetro de nossas atenções. Aliás, é bom que os pedestres saibam disso. Vez por outra, no entanto, essa gentileza ocorre e é rigorosamente de praxe um agradecimento especial por parte do motorista (ou do pedestre) que está ganhando as ruas. Como num passe de samba, ter essa licença equivale a dar a volta na bandeira da Escola e não se faz isso sem a mesura própria de um mestre-sala. Se você é carioca, sorria, meneie com a mão e, principalmente, ganhe a rua com rapidez para não atrasar mais quem lhe fez essa delicadeza.

Colocar a mão para fora do carro, juntar e afastar as pontas dos dedos várias vezes e rapidamente, é um aviso ao carro de trás de que ele manteve os faróis acesos, depois que saiu de um túnel. Essa tem sido uma delicadeza um pouco mais rara atualmente, por causa do ar condicionado. Isso era usual, já que temos tantos túneis. Mas ainda se vê um ou outro motorista abrir o vidro para fazer o sinal de pisca-pisca com as mãos. Tal esforço exige do motorista de trás um piscar de faróis em agradecimento. Não fazê-lo é uma tremenda grosseria. Aliás, muitos pedestres também fazem o mesmo sinal para os motoristas, quando os vêem com os faróis ligados. Essa gentileza é muito importante para nós, pois é comum estacionarmos sem nos darmos conta disso e nos custa uma bateria descarregada com mais freqüência do que você pode imaginar.

Se algum motorista, em algum sinal, buzina “tan taran tan”, provavelmente, encontrará um outro, também de bom humor, que responderá “tan tan”. Não é tão incomum o motorista que respondeu iniciar um outro “tan taran tan”. Se o fizer, é de praxe que o primeiro responda “tan tan”. É uma carioquice e, geralmente, a coisa pára por aí. É apenas um cumprimento de dois desconhecidos que, naquele emaranhado de carros aguardando o sinal, jamais se descobrirão um ao outro. Mas não é isso que importa e, sim, o espírito carioca em si, uma graça, um passo de samba perdido no bulício das ruas. Esse gracejo tem-se tornado mais raro, provavelmente, por causa do sonoro já tão poluído que nos invade. Quanto menos, melhor. Mas, vez por outra, você ainda encontra. Não se irrite. Leve em conta, como resquício do nosso espírito brincalhão.

Xingamentos são permitidos. Com certeza, você infringiu alguma regra da lista de barbeiragens consentidas. O melhor é ouvir com humildade. Faz parte do show. Pode ser, também, que o barbeiro seja o próprio xingador. Nesse caso, ele está tão estressado que o melhor é deixar passar, senão, quem perde o bom humor é você.

Motocicletas são, de modo geral, bem-vindas. Não fuçam, não trombam, não perturbam. Pelo menos, nunca as senti assim. Nasceram com o objetivo de chegarem ao destino antes de nós, nos trânsitos engarrafados. Leve isso em consideração e, se você se sente mesmo irritado ou irritada ao ver o bailado ao lado ou à frente de seu carro, lembre-se de que não estão fazendo concorrência com você. Na verdade, seguem apenas sua própria natureza. Não costumam agredir, pelo contrário, apenas existem. São percebidas principalmente nos sinais fechados. Nestes casos, vem furando ou pedindo passagem. Costumo sorrir quando eu mesma faço ou vejo algum motorista fazer o favorzinho de dar uma chegadinha para o lado ou um avancinho de nada para que elas possam passar e ficarem bem lá na frente, para saírem desabaladas mal abre o sinal. Cordialidade bem carioca. E vejo isso com freqüência.

Algumas avenidas com muitas pistas e maior velocidade permitem finos, furos e ultrapassagem pelos dois lados, não apenas pela esquerda, como manda o figurino. Até agora não entendi como dá tão certo. Acho que é porque nosso trânsito exige uma atenção redobrada, uma espécie de intuição ou instinto sobre o que seu companheiro pretende fazer. Já estamos acostumados a isso. E dá tudo certinho. Ir para a Barra, atravessar a Ponte Rio-Niterói, o Aterro do Flamengo é dar-se uma oportunidade de conferir bons exemplos disso.

Já notei que a pista mais rápida, na maioria das vezes, não é a da esquerda, ao contrário do que reza a lógica que aprendemos nas escolas de direção. Em certas ruas, os que já estão habituados já sabem. Na Pinheiro Machado, por exemplo, é sempre a da direita, pode contar com isso. Passei por ela todos os dias durante quase 15 anos. Até hoje a uso com freqüência e é sempre assim. Pode contar: vá pela pista da direita. Essa mesmo, a dos ônibus. Ainda não entendi por que, mas faz uma diferença perceptível. Na Barata Ribeiro, como são quatro pistas, pegue a segunda da direita. Essa mesmo, a que serve para os ônibus passarem uns pelos outros. Não dá outra. É muito raro não ser assim. Havia um tempo em que não era permitido andar por ali, mas agora já pode, na maioria dos trechos como, por exemplo, na entrada da Figueiredo de Magalhães.

Não há nada demais em estar em um lado da pista e ir pegando o outro lado, furando os carros, cortando um aqui, outro ali. Isso feito com a ginga carioca bem medida, faz parte do balé e é até aprovado pelos motoristas em volta, com piscadinhas aqui, acenos ali. Tudo certo.

Os finos são sempre permitidos, desde que não coloque em risco os espelhinhos retrovisores externos dos outros carros.

Haverá, com certeza, mil outros detalhes que minha observação, embora feminina, não conseguiu captar. Mas, no geral, acho que trânsito carioca é isso, pelo menos, sob o meu olhar embevecido e apaixonado por essa cidade amada, cheia de dengos e detalhes. Uma cidade que vale um conto à parte. Quem sabe, um dia escrevo.