sábado, 29 de agosto de 2026

IDADE

 


A natureza é sábia.

E, se soubermos ser sábios com ela, podemos ler suas medidas e usufruir de seus presentes.

Um bebê não conhece o medo até o momento em que começa a engatinhar. Antes, como não se locomove, não tem noção do perigo. Quando ele tem três meses, por exemplo, temos de tomar muito cuidado ao trocarmos suas fraldas em cima de uma mesa: o risco de ele rolar e cair no chão é evidente. Ele não sabe do perigo. Ainda não o conhece.

Ao engatinhar, ele já muda de atitude: geralmente, titubeia quando chega ao topo de uma escada...

Estudiosa do desenvolvimento linguístico e cognitivo por quase toda a minha vida profissional, este sempre foi um ponto que me chamou a atenção: o conhecimento instintivo de nossas limitações, principalmente, físicas, mas não só essas.

Refiro-me, é claro, ao desenvolvimento que segue suas etapas normalmente. Evidente que há exceções.

Hoje peguei uma escada para alcançar um livro na estante. Quando desci com o livro, me lembrei de que, anos atrás, eu jamais pegaria uma escada. Com meu peso leve, subia da cadeira para a mesa, de lá diretamente para a estante e, dali, galgava agarrando-me diretamente às prateleiras até a altura do livro. Depois, era só descer de volta, como um primata natural. Somos primatas, não somos? Na origem.

Lembro-me de uma vez em que fiz isso para pegar um livro para uma de minhas alunas que veio estudar aqui em casa. E o fiz tão naturalmente quanto o fazia cotidianamente. Ao descer, ao me deparar com o olhar arregalado da aluna, logo percebi que, diante da imagem de "professor" que eu carregava, isso não fazia nenhum sentido. Para ela, me ver galgar uma estante com a mesma facilidade, naturalidade e simplicidade com que outrora tanto eu quanto, provavelmente, ela galgávamos obstáculos nos folguedos da infância era fazer desmoronar a imagem da estaticidade acadêmica. Ri muito por dentro, quando entreguei o livro e fingi naturalidade ao responder ao seu olhar surpreso:

- Ué, sou gente como qualquer um.

- Eu jamais poderia imaginar você fazendo isso! Não combina!

Naquele dia, talvez, eu tenha, finalmente, me tornado um ser humano comum a seus olhos. E, talvez, tenha passado a combinar. Gosto de me lembrar disso...

Hoje não faço mais essas coisas. De modo geral, tenho usado o bom senso do limite da idade. Não que não consiga, pois sei que meu corpo vai. Mas há a cautela da sabedoria do limite. Sei que, embora saudável, não tenho o mesmo equilíbrio e a mesma agilidade dos trinta anos.

A natureza nos conta, passo a passo, como devemos agir ou não. Ela nos aponta, com sabedoria e cheia de cuidados...

E, quando nos excedemos, é como se ela mesma dissesse, nas consequências que sentimos:

- Eu avisei.

Sabiamente ela nos brinda com o saber, no decorrer da vida. E isto é um presente que só percebemos com o correr dos anos.

Tenho, no entanto, muitos clientes que se queixam  de que "a idade está chegando"...

Paro para pensar nessa expressão de linguagem. Insisto, como linguista, que ela não faz sentido algum! Mas eu entendo: é que a palavra "velhice" assusta e tentam subtituí-la com subterfúgios... idade é o remédio genérico para tentar fugir dela... paciência.

Metáforas à parte, a idade nunca chega! Ela nunca chegou. Ela sempre esteve "aí", desde que nascemos, nos acompanhando e nos presenteando com uma mutação permanente e saudável, no decorrer dos anos, desde que nascemos, transformando fragilidade e dependência em força e autonomia, força e autonomia em conhecimento, conhecimento em experiência, experiência em sabedoria.

Nós é que, talvez, não saibamos brindar as vantagens de cada etapa e preferimos ver o que com olhos materiais e superficiais pensamos estar "perdendo"...

Não podemos negar: o que irrita mesmo são as limitações físicas. Não tem como escapar delas e das dores que sentimos em lugares que nem pensávamos que existissem. Na mocidade, nem damos conta de como funcionam. Apenas funcionam... e bem. Só notamos depois e passamos a saber direitinho nomear cada pedacinho do corpo que emperra...

Disso não podemos ou é difícil escapar. A máquina física emperra mesmo. Paciência, resiliência e cuidado é o que nos resta, então.

Mas o ponto máximo de nós é o que nós sempre criamos, cuidamos e nos tornamos a cada momento, a cada etapa da vida. É difícil para muitos entender que esse ponto máximo é sempre onde estamos, não onde estivemos, nem onde estaremos.

Sob outro ponto de vista, poderíamos dizer que é alcançar a paz interior, até que, plenos dela, nada mais nos falte. Não é a idade, portanto, mas o que ela nos traz como brinde.

Poderíamos designar, também, como ponto máximo, a consciência de ter vivido bem. E isso não significa, obrigatoriamente, ter vivido feliz. Significa ter aprendido a viver e, a cada momento, a seu tempo, ter trazido, para dentro de si, saber aproveitar o melhor de cada presente.

Desta forma, a idade torna-se apenas uma referência no tempo e nada mais. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A MENINA E O ESQUILO

 






Outro dia, me lembrando de fotos preferidas, que andei tirando por aí, me deparei com a lembrança da singeleza destas duas que, numa visão despreocupada, me pareceram tão iguais.

Talvez tivesse sido pelo poder de atração que elas exerciam sobre mim - ser humano e animal na mesma posição, com a mesma simplicidade, alegria de viver e, também, atenção.

Tão iguais e profundas que chegaram a doer no meu peito.

Talvez fosse a delicadeza daquela criança que nunca conheci e cujo rosto fiz questão de esconder por razões óbvias de respeito à privacidade...

Talvez fosse a delicadeza daquele esquilo, que nunca conheci cuja distância fiz questão de preservar por razões óbvias de respeito à privacidade...

Mas não era só isso.

As fotos foram tiradas em anos completamente diferentes, em lugares completamente diferentes, em países completamente diferentes... e estavam ali, na minha mente, saltando dentro de mim.

Tão rápido quanto vieram, tão rápido quanto passei a procura-las perdidas no monte de arquivos, das mais variadas épocas e lugares onde estive e conheci.

Por anos, guardei o verdadeiro significado dessa paridade em meu coração.. E quando ativaram minha memória, foi como se sempre estivessem estado ali, coladas, irmãs, neste momento tão delicado de nosso planeta, de nossas vidas, de nossas escolhas...

Uma menina e um esquilo enfocados numa mesma posição, em luzes e sombras parecidas, no meio de duas ondas, de terra e de água, tão iguais, tão “par único”.

Tão singelamente entregues e enquadrados numa natureza única, numa mesma posição simbólica, em luzes e sombras parecidas, no meio de nossas ondas de terra e mar.

Quantas meninas dessa idade, em pleno início de século vinte e um, estariam mais interessadas em jogar seus olhares na beleza das ondas, misturando-se a elas do que preferir entregar-se (integrar-se?) à tela de um celular?

Onde, neste planeta, um esquilo poderia ainda estar despreocupadamente interessado em jogar seu olhar pela relva de um centro urbano (sim, a foto é de um centro urbano), sem temer uma pedra atirada por pura maldade?

Os dois momentos surgiram juntos, em minha memória, provavelmente, em consequência de eu mesma estar cansada do cotidiano de nossas vidas. Foi preciso perceber, sentir o cheiro e esgarçar os olhos na fumaça invasiva, esbarrar no sem gosto dos alimentos e, mais fundo... não poder mais ignorar a presença do que fizemos de nós. Foi preciso que este novo óbvio aparecesse sem pedir licença e se mostrasse tal como é, sem metáforas, inundando de desesperança nossas almas...

Preciso olhar muito para essas duas fotos e acreditar que isso ainda existe, que isso voltará a ser assim, em gerações futuras, através do esforço que devemos e precisamos reconhecer e recriar.

Sim, é preciso não perder o sentido do que é ser um habitante de nossa Mãe Terra, e pedir que esta Mãe Maior resista, apesar de tão despedaçada na alma de suas entranhas, e nos desassossegos de nós, seus filhos predadores.

É preciso acreditar... mas... hoje.. exatamente nesse momento... ao encontrar o verdadeiro sentido que se ocultava nessa lembrança dupla, escondida por tantos anos dentro de meu coração, quase choro, quase me enluto, quase  me derreto, quase...

E não sei como ou por que sei que ainda insisto que é preciso acreditar que é quase.