quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A MENINA E O ESQUILO

 






Outro dia, me lembrando de fotos preferidas, que andei tirando por aí, me deparei com a lembrança da singeleza destas duas que, numa visão despreocupada, me pareceram tão iguais.

Talvez tivesse sido pelo poder de atração que elas exerciam sobre mim - ser humano e animal na mesma posição, com a mesma simplicidade, alegria de viver e, também, atenção.

Tão iguais e profundas que chegaram a doer no meu peito.

Talvez fosse a delicadeza daquela criança que nunca conheci e cujo rosto fiz questão de esconder por razões óbvias de respeito à privacidade...

Talvez fosse a delicadeza daquele esquilo, que nunca conheci cuja distância fiz questão de preservar por razões óbvias de respeito à privacidade...

Mas não era só isso.

As fotos foram tiradas em anos completamente diferentes, em lugares completamente diferentes, em países completamente diferentes... e estavam ali, na minha mente, saltando dentro de mim.

Tão rápido quanto vieram, tão rápido quanto passei a procura-las perdidas no monte de arquivos, das mais variadas épocas e lugares onde estive e conheci.

Por anos, guardei o verdadeiro significado dessa paridade em meu coração.. E quando ativaram minha memória, foi como se sempre estivessem estado ali, coladas, irmãs, neste momento tão delicado de nosso planeta, de nossas vidas, de nossas escolhas...

Uma menina e um esquilo enfocados numa mesma posição, em luzes e sombras parecidas, no meio de duas ondas, de terra e de água, tão iguais, tão “par único”.

Tão singelamente entregues e enquadrados numa natureza única, numa mesma posição simbólica, em luzes e sombras parecidas, no meio de nossas ondas de terra e mar.

Quantas meninas dessa idade, em pleno início de século vinte e um, estariam mais interessadas em jogar seus olhares na beleza das ondas, misturando-se a elas do que preferir entregar-se (integrar-se?) à tela de um celular?

Onde, neste planeta, um esquilo poderia ainda estar despreocupadamente interessado em jogar seu olhar pela relva de um centro urbano (sim, a foto é de um centro urbano), sem temer uma pedra atirada por pura maldade?

Os dois momentos surgiram juntos, em minha memória, provavelmente, em consequência de eu mesma estar cansada do cotidiano de nossas vidas. Foi preciso perceber, sentir o cheiro e esgarçar os olhos na fumaça invasiva, esbarrar no sem gosto dos alimentos e, mais fundo... não poder mais ignorar a presença do que fizemos de nós. Foi preciso que este novo óbvio aparecesse sem pedir licença e se mostrasse tal como é, sem metáforas, inundando de desesperança nossas almas...

Preciso olhar muito para essas duas fotos e acreditar que isso ainda existe, que isso voltará a ser assim, em gerações futuras, através do esforço que devemos e precisamos reconhecer e recriar.

Sim, é preciso não perder o sentido do que é ser um habitante de nossa Mãe Terra, e pedir que esta Mãe Maior resista, apesar de tão despedaçada na alma de suas entranhas, e nos desassossegos de nós, seus filhos predadores.

É preciso acreditar... mas... hoje.. exatamente nesse momento... ao encontrar o verdadeiro sentido que se ocultava nessa lembrança dupla, escondida por tantos anos dentro de meu coração, quase choro, quase me enluto, quase  me derreto, quase...

E não sei como ou por que sei que ainda insisto que é preciso acreditar que é quase.


4 comentários:

Anônimo disse...

Como é interessante, a Humanidade.
A observação de uma menina, voltada para as ondas, contrasta com tantas crianças que hoje se perdem nas telas digitais.
O esquilo, tranquilo em meio ao espaço urbano estadunidense, desafia a brutalidade que tantas vezes ameaça os animais.
Uma celebração da beleza singela e um lamento pelas perdas que a modernidade impõe.
A boa notícia é que termina com um chamado à fé na resistência da Mãe Terra.
A esperança insiste em ser a última a morrer

Lindimais
:-)

Anônimo disse...

Que possamos preservar a menina e o esquilo que há dentro de nós.

Eulalia disse...

Sim, pois é o que nos acolhe! Obrigada pelo comentário

Eulalia disse...

É verdade. Que a caixa de Pandora a preserve. É a nossa "esperança"!