sábado, 29 de agosto de 2026

IDADE

 


A natureza é sábia.

E, se soubermos ser sábios com ela, podemos ler suas medidas e usufruir de seus presentes.

Um bebê não conhece o medo até o momento em que começa a engatinhar. Antes, como não se locomove, não tem noção do perigo. Quando ele tem três meses, por exemplo, temos de tomar muito cuidado ao trocarmos suas fraldas em cima de uma mesa: o risco de ele rolar e cair no chão é evidente. Ele não sabe do perigo. Ainda não o conhece.

Ao engatinhar, ele já muda de atitude: geralmente, titubeia quando chega ao topo de uma escada...

Estudiosa do desenvolvimento linguístico e cognitivo por quase toda a minha vida profissional, este sempre foi um ponto que me chamou a atenção: o conhecimento instintivo de nossas limitações, principalmente, físicas, mas não só essas.

Refiro-me, é claro, ao desenvolvimento que segue suas etapas normalmente. Evidente que há exceções.

Hoje peguei uma escada para alcançar um livro na estante. Quando desci com o livro, me lembrei de que, anos atrás, eu jamais pegaria uma escada. Com meu peso leve, subia da cadeira para a mesa, de lá diretamente para a estante e, dali, galgava agarrando-me diretamente às prateleiras até a altura do livro. Depois, era só descer de volta, como um primata natural. Somos primatas, não somos? Na origem.

Lembro-me de uma vez em que fiz isso para pegar um livro para uma de minhas alunas que veio estudar aqui em casa. E o fiz tão naturalmente quanto o fazia cotidianamente. Ao descer, ao me deparar com o olhar arregalado da aluna, logo percebi que, diante da imagem de "professor" que eu carregava, isso não fazia nenhum sentido. Para ela, me ver galgar uma estante com a mesma facilidade, naturalidade e simplicidade com que outrora tanto eu quanto, provavelmente, ela galgávamos obstáculos nos folguedos da infância era fazer desmoronar a imagem da estaticidade acadêmica. Ri muito por dentro, quando entreguei o livro e fingi naturalidade ao responder ao seu olhar surpreso:

- Ué, sou gente como qualquer um.

- Eu jamais poderia imaginar você fazendo isso! Não combina!

Naquele dia, talvez, eu tenha, finalmente, me tornado um ser humano comum a seus olhos. E, talvez, tenha passado a combinar. Gosto de me lembrar disso...

Hoje não faço mais essas coisas. De modo geral, tenho usado o bom senso do limite da idade. Não que não consiga, pois sei que meu corpo vai. Mas há a cautela da sabedoria do limite. Sei que, embora saudável, não tenho o mesmo equilíbrio e a mesma agilidade dos trinta anos.

A natureza nos conta, passo a passo, como devemos agir ou não. Ela nos aponta, com sabedoria e cheia de cuidados...

E, quando nos excedemos, é como se ela mesma dissesse, nas consequências que sentimos:

- Eu avisei.

Sabiamente ela nos brinda com o saber, no decorrer da vida. E isto é um presente que só percebemos com o correr dos anos.

Tenho, no entanto, muitos clientes que se queixam  de que "a idade está chegando"...

Paro para pensar nessa expressão de linguagem. Insisto, como linguista, que ela não faz sentido algum! Mas eu entendo: é que a palavra "velhice" assusta e tentam subtituí-la com subterfúgios... idade é o remédio genérico para tentar fugir dela... paciência.

Metáforas à parte, a idade nunca chega! Ela nunca chegou. Ela sempre esteve "aí", desde que nascemos, nos acompanhando e nos presenteando com uma mutação permanente e saudável, no decorrer dos anos, desde que nascemos, transformando fragilidade e dependência em força e autonomia, força e autonomia em conhecimento, conhecimento em experiência, experiência em sabedoria.

Nós é que, talvez, não saibamos brindar as vantagens de cada etapa e preferimos ver o que com olhos materiais e superficiais pensamos estar "perdendo"...

Não podemos negar: o que irrita mesmo são as limitações físicas. Não tem como escapar delas e das dores que sentimos em lugares que nem pensávamos que existissem. Na mocidade, nem damos conta de como funcionam. Apenas funcionam... e bem. Só notamos depois e passamos a saber direitinho nomear cada pedacinho do corpo que emperra...

Disso não podemos ou é difícil escapar. A máquina física emperra mesmo. Paciência, resiliência e cuidado é o que nos resta, então.

Mas o ponto máximo de nós é o que nós sempre criamos, cuidamos e nos tornamos a cada momento, a cada etapa da vida. É difícil para muitos entender que esse ponto máximo é sempre onde estamos, não onde estivemos, nem onde estaremos.

Sob outro ponto de vista, poderíamos dizer que o ponto máximo é alcançar a paz interior, até que, plenos dela, nada mais nos falte. Não é a idade, portanto, mas o que ela nos traz como brinde.

Poderíamos designar, também, como ponto máximo, a consciência de ter vivido bem. E isso não significa, obrigatoriamente, ter vivido feliz. Significa ter aprendido a viver e, a cada momento, a seu tempo, ter trazido, para dentro de si, saber aproveitar o melhor de cada presente.

Desta forma, a idade torna-se apenas uma referência no tempo e nada mais.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A MENINA E O ESQUILO

 






Outro dia, me lembrando de fotos preferidas, que andei tirando por aí, me deparei com a lembrança da singeleza destas duas que, numa visão despreocupada, me pareceram tão iguais.

Talvez tivesse sido pelo poder de atração que elas exerciam sobre mim - ser humano e animal na mesma posição, com a mesma simplicidade, alegria de viver e, também, atenção.

Tão iguais e profundas que chegaram a doer no meu peito.

Talvez fosse a delicadeza daquela criança que nunca conheci e cujo rosto fiz questão de esconder por razões óbvias de respeito à privacidade...

Talvez fosse a delicadeza daquele esquilo, que nunca conheci cuja distância fiz questão de preservar por razões óbvias de respeito à privacidade...

Mas não era só isso.

As fotos foram tiradas em anos completamente diferentes, em lugares completamente diferentes, em países completamente diferentes... e estavam ali, na minha mente, saltando dentro de mim.

Tão rápido quanto vieram, tão rápido quanto passei a procura-las perdidas no monte de arquivos, das mais variadas épocas e lugares onde estive e conheci.

Por anos, guardei o verdadeiro significado dessa paridade em meu coração.. E quando ativaram minha memória, foi como se sempre estivessem estado ali, coladas, irmãs, neste momento tão delicado de nosso planeta, de nossas vidas, de nossas escolhas...

Uma menina e um esquilo enfocados numa mesma posição, em luzes e sombras parecidas, no meio de duas ondas, de terra e de água, tão iguais, tão “par único”.

Tão singelamente entregues e enquadrados numa natureza única, numa mesma posição simbólica, em luzes e sombras parecidas, no meio de nossas ondas de terra e mar.

Quantas meninas dessa idade, em pleno início de século vinte e um, estariam mais interessadas em jogar seus olhares na beleza das ondas, misturando-se a elas do que preferir entregar-se (integrar-se?) à tela de um celular?

Onde, neste planeta, um esquilo poderia ainda estar despreocupadamente interessado em jogar seu olhar pela relva de um centro urbano (sim, a foto é de um centro urbano), sem temer uma pedra atirada por pura maldade?

Os dois momentos surgiram juntos, em minha memória, provavelmente, em consequência de eu mesma estar cansada do cotidiano de nossas vidas. Foi preciso perceber, sentir o cheiro e esgarçar os olhos na fumaça invasiva, esbarrar no sem gosto dos alimentos e, mais fundo... não poder mais ignorar a presença do que fizemos de nós. Foi preciso que este novo óbvio aparecesse sem pedir licença e se mostrasse tal como é, sem metáforas, inundando de desesperança nossas almas...

Preciso olhar muito para essas duas fotos e acreditar que isso ainda existe, que isso voltará a ser assim, em gerações futuras, através do esforço que devemos e precisamos reconhecer e recriar.

Sim, é preciso não perder o sentido do que é ser um habitante de nossa Mãe Terra, e pedir que esta Mãe Maior resista, apesar de tão despedaçada na alma de suas entranhas, e nos desassossegos de nós, seus filhos predadores.

É preciso acreditar... mas... hoje.. exatamente nesse momento... ao encontrar o verdadeiro sentido que se ocultava nessa lembrança dupla, escondida por tantos anos dentro de meu coração, quase choro, quase me enluto, quase  me derreto, quase...

E não sei como ou por que sei que ainda insisto que é preciso acreditar que é quase.


sábado, 24 de setembro de 2022

MOSQUITO E CIDADANIA

 

           



    Há coisas que nos perturbam na raiz de nossa essência, no mais inesperado de nossas mentes, nos desavisados passos do cotidiano.

Estava pensando "na morte da bezerra", outro dia, bem distraída, indo a pé para casa. De repente, a intuição: "atravessa!"

Eu não discuto com a intuição. É como não acreditar nas bruxas, sabendo de sobra que elas existem. Atravessei... e mais: entre os carros, imediatamente. Que se dane... “ordens são ordens”.

Já do outro lado é que me virei e olhei o que tinha deixado para trás: três meninos crescidos, que a gente, antigamente, chamava de moleques, sem que isso fosse uma ofensa. Pelo olhar de descrença que eles lançavam em minha direção, percebi: tinha acabado de me safar de um assalto. Estava escurecendo. Entrei numa dessas lojas que só se fecham às 22 horas e fiquei fazendo uma hora lá dentro, mais para pensar na vida do que por medo. Esses iriam buscar outra pessoa. Para eles, tinha perdido a graça da abordagem de surpresa.

Um assalto aqui, muita muita muita fome ali... o descaso e o descalabro andando de mãos dadas nesse mundo de meus deuses. Coisas que viraram pequenas no cotidiano carioca, nessa cidade que não me canso de dizer que é de uma maravilha sem fim.

E enquanto eu passeava olhando as prateleiras da loja, mas com olhos perdidos no nada, pensei na banalização desse caos sem tamanho. Se não dá para não fazer nada, desacreditar tampouco. Não dá para viver sem pensar que há de ter uma saída, olhar só para o próprio umbigo, sem nada fazer.

Acreditar é preciso, mesmo com os olhos cansados de buscar uma luz em um horizonte que se esconde num cinzento de nuvens. Navegar é preciso, mesmo na consciência do caos – ou mesmo por causa disso. Todo tempo é tempo de ser brasileira, de direito e de fato, ser corresponsável pelas graças e desgraças do meu país.

E estarei lá, mesmo um pouco desacreditada de tudo, mas corajosa e cidadã, com meus mais de setenta anos, enrodilhada na rede de meus sossegos e desassossegos. Título na mão. Dedo pronto para a assinatura digital.

Você só se dá conta da grandeza da pequenez quando pensa em um mosquito sozinho com você num quarto escuro...

E, pela primeira vez, sinto o prazer e a empatia de me confundir com esse mosquito.


sábado, 12 de setembro de 2020

AS ÁRVORES FALAM?

 



Caminhando pela Av. Atlântica, como manda o figurino a quem ficou tantos dias bem quietinha em casa, me deparei com essas árvores, quase em posição tombada, praticamente rastejando para o mar.

Será que apenas querem buscar a pureza de suas ondas, ou também tentam deixar para trás as energias avassaladoras da sordidez humana? Não, não posso ser tão cruel. Há milhares e milhares de pessoas de bem nesse planeta. Mas a metáfora povoou minha mente...

Nunca duvidei que as plantas falassem. Tive uma Renda Portuguesa belíssima e frondosa que morreu um mês depois de meu canário, que costumava praticamente morar nela, em todo o tempo em que ficava solto em casa. Eu não tinha o que fazer para agradá-la. Entrou em um luto irreversível e secou em um mês. Talvez hoje, conhecendo melhor as energias, eu conseguisse dissuadi-la de que a vida é bela e perdas não são perdas... mas eu era menos ligada nessas coisas naquela época.

Tive uma avenca enorme, que cobria toda a minha mesinha da sala e ficava zangada comigo se não recebesse um bom dia,  passando minhas mãos por ela, de manhã. Murchava amuada, até que lhe desse atenção. Aceitava que não a regasse todos os dias, mas passar a mão era indispensável. Também não gostava de algumas pessoas que entravam em minha casa. Fazia a mesma coisa até a pessoa ir embora...

Mas minha crença na linguagem das plantas começou bem antes disso.

Nas décadas de oitenta e noventa, fui várias vezes à Alemanha. Aproveitava minha estadia para visitar cidades vizinhas. Ia e voltava no mesmo dia, com o maior conforto e praticidade, organização e desempenho das cidades europeias, em todos os níveis, não só nos transportes. Um dia, seremos assim. Não podemos nos esquecer de que a Europa está séculos a nossa frente e que, na Idade Média, era tão corrupta quanto nosso país é hoje. Não adianta atropelar e dizer que não tem jeito. E cabe-nos agir, quando nos couber a competência. Desde a Idade Média, a Europa teve de amadurecer muito, entre Reis, Estados e Religiões. Já pensaram nisso? Igualzinho! Então, há esperança.

Mas voltemos às árvores. Naquela manhã de 1990, o mapa me atraiu, mesmo sem ter nada de especial na descrição da cidade: Bad Homburg. Eu estava hospedada em Frankfurt, cidade que já conhecia bem, então, ficava num vai e volta, sem pressa.  Seria meia hora de metrô. Por que não? Foi fácil achar em minhas anotações de viagem: 27 de setembro - Tomei um vinho gostosíssimo no almoço da Hertie (uma das grandes lojas alemãs), comi o pedaço da torta de chocolate mais gostoso de toda a minha vida, numa doçaria fundada em 1886. Consigo me lembrar do sabor até hoje, eu, que nem sou assim tão chegada a comer...

Conheci lugares preciosos por toda a Alemanha desse jeitinho mesmo, mas... por que Bad Homburg? Nada me atraia especialmente para lá. Nada da descrição me chamava a atenção especificamente! Mas logo que cheguei, ao visitar um pequeno jardim, descobri, como que por encanto, o motivo de minha ida: aquela árvore!

Um Cedro do Líbano. Foi quando eu descobri que não tinha ido “porque era perto”. Eu tinha ido porque ali estava a árvore da minha vida!

A imagem me hipnotizou logo na entrada. Como usava filmadora, na época, e por praticidade não tinha levado também a câmera (seria muito peso), não tenho sua foto. Mas foi fácil achar pela busca na internet: Bad Homburg – Cedro do Líbano em Schlossgarten.



Eu não sei quanto tempo fiquei ali. Só sei que, a não ser para almoçar e comer aquela torta deliciosa e inesquecível, que ficava na pequena rua principal, não conheci mais nada da cidade. Eu tinha ido ali por causa daquela árvore!

Impossível descrever momentos místicos...

No final da tarde, não havia outro jeito senão ir embora. Fui me aproximando devagar daquela imagem forte e, ao mesmo tempo, tão doce e pura. Não tinha sequer pensado em tocá-la, mas ela me atraiu como um ímã. Não sei se ela me abraçou ou foi o contrário. Um abraço quase sem tocá-la, tão enlevado e envolvente. Mas... na palma de minha mão direita se soltou um pedacinho de seu tronco. Minúsculo. De pura e generosa doação que só as mães podem ter. Eu não sabia como tinha se soltado, eu quase não encostara nela, tão respeitoso fora meu ato.



Mas estava lá, em minha mão. Senti a generosidade da Terra, de seus cuidados curadores com seus filhos. Essa árvore-mãe generosa, dando uma parte de si mesma para sua filha embevecida. Nunca senti vontade de voltar para visita-la, pois sua imagem se fez presente em meu coração para sempre.

E nunca mais fui a mesma pessoa, desde então.

 


Referências: Foto do Cedro do Jardim de Schlosspark – Bad Homburg

https://www.google.com/search?rlz=1C1SQJL_pt-BRBR823BR823&source=univ&tbm=isch&q=Bad+Homburg+Cedro+do+L%C3%ADbano&sa=X&ved=2ahUKEwjwoqec5NbrAhWiB9QKHd2NCxoQ7Al6BAgKEB4&biw=1796&bih=903#imgrc=RoDn8yUIJ82itM

https://www.monumentaltrees.com/es/fotos/72586/


sábado, 22 de agosto de 2020

UMA GOTA


Depois de dois meses, ainda achei uma gota de sangue escondida num canto do meu corredor. Explico: no meio dessa pandemia, arranjei um jeito de levar um tremendo susto. Escorreguei do "nada", dentro de casa, bati com a cabeça e sangrei muito. Muito.

Vou pular o que se seguiu. Transformaria esse conto em novela e não é esse o meu objetivo.

Conto, apenas, que caí, me machuquei bastante e custei a me recuperar. Mas acabou tudo bem, felizmente.

De sequela, apesar de dois meses passados, ainda tenho um edema em andamento de cura e, de vantagem, o carinho sempre pronto de amigos queridos que, mesmo de longe, me deram toda assistência possível nessas circunstâncias, além de suporte e, principalmente, a atenção necessária para passar por esse sufoco.

Mas ficou o trauma, claro, pois ninguém é de ferro. Eu, pelo menos, sou bem de carne e osso, assinado e comprovado pelos resquícios do acidente, como  essa pequena gota de sangue teimosa, assanhada, se expondo, despudorada, no meu corredor. 

Custei a conseguir limpar a casa toda, pois onde quer que eu tenha ido, na hora do acidente, carimbei a casa com o resultado do sangramento. Duas semanas depois, mais restabelecida, fiz uma limpeza do chão, buscando os resquícios do acidente. Mas, até hoje, encontro gotas aqui e ali. 

Ontem, ao achar essa preciosidade histórica no meu corredor, me lembrei de filmes de suspense, de detetives com suas lentes, procurando digitais e, principalmente, resquícios vivos. Pois este está lá, acusando que houve sangue neste apartamento.

Brinquei com a ideia, imaginando quantas coisas deixamos como rastros, em nossas vidas. 

Se mexessem nas minhas gavetas, encontrariam, por certo, uma fonte de muitas investigações: uma caixinha com um anel e uma flor, por exemplo. Mas já escrevi o conto “O anel e a flor”, então, esse seria fácil de desvendar. Passeio, no entanto, minha mente pelas coisas não tão decifráveis e sorrio... Como alguém interessado reconstruiria o romance, o drama e o suspense de minha vida, só pelas pistas deixadas nas estantes e nas gavetas? Do jeito que tenho minhas coisas, um trequinho jogado no canto de minha mesa, com certeza, não está ali por acaso. Não sou do tipo acumulador de coisas, muito pelo contrário. E vivo refazendo limpezas para jogar “excessos” fora, doar, etc. Mas, se você encontrar um trequinho ali, naquele canto, não estará por acaso. Tenha certeza de que, se está ali, está por uma razão. Sorrio novamente... e me lembro das coisas que tenho e o que podem inspirar a quem não conhece a minha história... 

Tento olhar em volta, como se fosse uma desconhecida... abro minha imaginação para a imaginação das pessoas. E invento histórias absurdas para coisas simples. De fato, os interessados teriam muito com que se divertir. 

Volto minha atenção para a pequena gota de sangue do corredor, desafiadora de uma história agora desvendada.

Basta uma gota para um investigador atento. Uma gota. 

Como basta uma mensagem esquecida, um pequeno pedaço de papel rasgado, um número de telefone, uma fatura atirada no fundo de uma gaveta para desvendar tanta corrupção que temos tido oportunidade de testemunhar. Bastaria uma atitude, nem precisam de lupa, tão óbvios são os traços deixados em cada corrupção. Bastaria vontade de limpar o mal feito, limpar o fruto de nossa indignação diante dos fatos que nos ofendem e nos aviltam, como uma desonra a nossa crença de cidadãos. Sempre há uma gota esquecida como rastro de um crime contra esta nossa cidadania devastada. Uma gota de fel, muitas vezes empurrada com a barriga por interesses políticos os mais diversos, em vez de usarem logo um bom pano de chão, para uma limpeza completa. Não fazem isso quando lhes interessa? 

Observo minha gota inocente no canto do corredor, resultado do crime de uma distração de momento, com resultados catastróficos, mas sem causar mal a não ser a mim mesma. 

Apenas uma gota, que cuidadosamente busco limpar com respeito de boa cidadã, no convívio simples das coisas que compõem nosso cotidiano.

 

 


sábado, 8 de agosto de 2020

APRENDI




Nesta pandemia (pandemônio para muitos) tive tempo suficiente para me dar conta de que aprendi muitas coisas.

A alguns meses de completar 70 anos, percebi, sobretudo, que estava vivendo muito pouco para mim mesma e em excesso para o cotidiano que me engolia. Tenho certeza de que o mesmo deve estar acontecendo com muitas pessoas. Não é um privilégio meu. Parece óbvio, mas, se algum item servir para você, quem sabe, também faça você repensar em algumas coisas.

Aprendi que, quieta, no silêncio do isolamento, o aprendizado se torna, muitas vezes, mais perene. Eu tinha me esquecido disso, embora tenha feito, no passado, algumas reclusões espontâneas, mas acho que não foi o suficiente para ter aprendido tanto ou, quem sabe, a sabedoria da idade me fez mais esperta e consciente.

Então, nesta reclusão que também é uma escolha consciente - embora irrefutável pelas circunstância - aprendi melhor, aproveitando as vantagens do isolamento.

Aprendi que certas dores físicas que a velhice nos traz são inevitáveis, mas que temos o direito de evitar ou saber cuidar melhor das dores emocionais.

Aprendi que há, de verdade, pessoas que realmente se preocupam comigo. Muito mais do que eu imaginava! E sou muito grata a elas e à vida por isso. Eu já sabia que tinha amigos de verdade. Isso eu não aprendi, mas aprendi quais, de fato, são meus melhores amigos.

Aprendi que tenho tempo para sorrir para o meu espelho e não apenas para as pessoas. Preciso fazer mais isso. Na minha idade, é uma descoberta de ouro! Com essa descoberta, aprendi que as dores da alma são para serem, primeiro, vividas, depois digeridas e transmutadas para que não apaguem o sorriso interior.

Aprendi a me dar tempo de voltar a ler pelo menos um pouquinho todos os dias, em vez de engolir um livro todo, num final de semana, por falta de tempo. Assim, aprendi que chegou a hora de trabalhar menos e respirar mais.

Aprendi que é melhor, muito melhor comer em casa do que na rua e que cozinhar não dá tanto trabalho quanto parece.

Aprendi a varrer a casa logo de manhã, enquanto a poeira está assentada... e passei a fazer isso também com meus problemas.

Aprendi a voltar a ouvir música, enquanto limpo a casa ou cozinho.

Aprendi a planejar cada dia, logo que acordo, só para ficar mais divertido ter de mudar o roteiro mil vezes, no decorrer das horas.

Aprendi, sobretudo, que me divirto muito comigo mesma e isso é incrível.

Eu sabia que as pessoas não devem ser “consertadas”, mas a novidade é que aprendi que, se eu tenho de “consertar” alguma coisa em mim mesma, é preciso ter meu coração como mestre e não pessoas ou circunstâncias. Eu já sabia disso, mas tinha me esquecido e foi bom me lembrar. De brinde, aprendi que não cabe apenas a mim aceitar as pessoas como elas são: a recíproca também é verdadeira.

De repente, percebi que foram precisos mais de 100 dias para me dar conta de que existe uma fila enorme de coisas que aprendi, mas principalmente, aprendi que a vida é bela justamente porque é para ser vivida por dentro e não em decorrência da pandemia ou do pandemônio de coisas ou de pessoas que nos cercam.

 


sábado, 25 de fevereiro de 2017

REFLEXÕES DE CARNAVAL



Está esquisito.

Meu cantinho de rua sempre foi calmo, no carnaval. Mas... está tudo meio esquisito.

Tem bloco na rua? Tem.

Tem reportagem dizendo que o carnaval está bombando? Tem.

Como observadora incontestável de minha cidade amada, no entanto, posso dizer de cadeira: está esquisito.

Menos bulício, menos carioquices... menos tudo.

Tiro pelo cotidiano.

Ontem, sexta-feira, fiquei na dúvida se iria ao centro da cidade, mais especificamente, no Saara. Para quem não é carioca, o Saara é o lugar onde quase todo mundo acaba indo, de um jeito ou de outro. Lá tem a maior variedade de artigos possíveis e... bem mais barato. Você pode comprar de tudo um pouco ou de tudo um “muito”. Queria ir pelos descartáveis para o consultório e por um tapete emborrachado para fazer exercícios em casa. Quase não fui. Me lembrei que era sexta de carnaval e, para piorar, hora do almoço. O Saara fica insuportável, pois os apetrechos de carnaval são comprados assim, às pressas, pelos foliões de última hora e, claro, o Saara é pródigo nesse quesito. Tem mesmo de tudo: desde máscaras, como confetes, serpentinas, colares, fantasias dessas que você faz a folia e pode jogar fora depois. Praticamente não se pode andar por lá, na semana que antecede o carnaval. Na sexta, então, nem se fala.

Vou, não vou... vou! Não tenho outro dia, quero o tapetinho para minha casa, aproveitando os feriados para bombar nos exercícios. Ademais, os copos descartáveis para o consultório acabaram. Vou ter a tarde livre para isso, só preciso estar no consultório às 17 horas. Era meio-dia. Mesmo enfrentando mil filas, daria tempo.

Peguei o metrô. Teria me benzido, se fosse religiosa. Que os deuses me ajudem. E me preparei para enfrentar o trânsito dos pedestres, com mil bolsas transbordando pluminhas, purpurinas e máscaras. 

Desci na estação da Uruguaiana, atravessei a Rua Senhor dos Passos e me enfurnei pela Rua da Alfândega. Espaço para andar. Não havia os pregões de sempre, anunciando que “nesta loja é mais barato!”. Nada. Silêncio. Entrei onde queria, comprei o necessário. Funcionários sobrando, solícitos e sem pressa para atenderem. Rua vazia. Não havia fila no Caixa. Seria mesmo sexta de carnaval? Era.

Aproveitei o tempo ganho e, já que a rua estava vazia, fiz outras compras. Comprei o tapete, os descartáveis, entrei no “Palácio das Ferramentas” e comprei uma tesoura para jardinagem. É que estou cuidando dos jardins do prédio. Pura terapia. Se você quer que alguém faça alguma coisa, peça para quem não tem tempo. Deve ter sido por isso que me pediram para dar uma olhada nas plantas. Estão ficando lindas... sempre há um tempinho para dar uma olhada nelas.

Fiz tudo em menos de uma hora. Peguei o metrô. Não vi bolsas com colares, máscaras ou enfeites. O trem estava cheio, nem tive onde me sentar. Pessoas enfiadas nos seus pensamentos e nos seus celulares. Sexta de carnaval? 

Pensei no que foi minha semana. Nos elevadores, tira-se a temperatura do cotidiano. Carioca adora falar nos elevadores. Não importa se são desconhecidos. Se eles têm ascensorista, então... Mas não me lembro de ninguém falando do carnaval, como era o natural de todos os anos:

- Já comprou a fantasia?

- Vai sair em que Escola este ano?

- Saiu no bloco do pré (pré-carnavalesco), no domingo?

- Vai sair do Rio?

Nada disso. E olha que fico num entra e sai o dia todo. Atendo aos clientes, saio para almoçar, volto, saio para o banco, volto...

Nada.

O povo está triste. Não digo o povo que a mídia apregoa, com seus microfones e entrevistas. Digo o povo cotidiano, com quem me deparo todos os dias. O povo verdadeiro.

E têm menos turistas. Ah... não me enganem: têm menos turistas! No calçadão, posso constatar. Meus olhos acostumados sabem o que estou dizendo. E também pelo número de aptos de temporada alugados no prédio do consultório. Nem a metade de sempre. No supermercado, não ouvi aquela tagarelice multilíngue de todos os anos e nem as filas estavam triplicadas. Ouvi algum inglês e um espanhol aqui e ali, mas foi tudo. Estava acostumada a ouvir, também, os sotaques de vários cantos do país, numa paleta de tons entre o gaúcho e o nordestino. Nada disso. Na volta das compras, na sexta, me surpreendi com uma mesinha na esquina do Hotel entre a Rua Siqueira Campos e a Tonelero: Vendia ingressos para o desfile das Escolas de Samba. Parei para perguntar:

- Ainda têm ingressos?

- Para qual dia a senhora quer comprar? Domingo ou segunda?
 
Na sexta de carnaval? Pois é... eu podia escolher. Incrível. 

Aqui, esse meu cantinho é silencioso. Mas confesso que está silencioso demais.

No fundo, no fundo, por mais que se fale em crise, acho que é mais do que isso.

O povo está mais triste, mesmo sabendo que costuma, sempre, afogar as mágoas e curtir o carnaval. Afinal, aqui no Rio, qualquer calção ou biquíni, com umas purpurinas serve para sair sambando por aí. Põe um apetrecho qualquer na cabeça e pronto. Tudo baratinho. Mas nem vi os camelôs de sempre nas calçadas da Nossa Senhora de Copacabana, vendendo acessórios para enfeites de ultima hora. A gente nem podia andar direito pela calçada! Sumiram. Vi só uns mirrados, aqui e ali. Este ano está diferente.

Fantasio minha imaginação, visto a máscara de investigadora, mas... acho que nem precisa. O povo está pensando.

Tirada a catástrofe da falta de emprego, da crise, das dívidas, da corrupção e da profunda desilusão que afoga nossos corações brasileiros, mesmo assim, a tragédia não traz apenas um preço. A meu ver, traz certas vantagens também. 

Sou pura esperança. Sempre tem uma luz no final do túnel. E eu acho que esta é uma luz diferente das outras. Talvez seja a luz de uma conscientização mais plena.

Demora. Não se pode ter pressa, não adianta. Somos um país muito jovem. Quinhentos anos é nada, perto da milenar civilização que grassa o continente europeu, por exemplo.

Confesso que fico um pouco atônita quando tentam nos comparar com o continente ancião:

- Na França não é assim, na Inglaterra isso não aconteceria, mirem-se no espelho sueco da civilização, a Alemanha... 

Não que eu não admire o povo europeu. Sou metade europeia, com passaporte e tudo. Adoro a Europa. Ponho os pés lá e me deslumbro a cada passo. Nem precisa enumerar um país ou outro... não, a questão não é essa. É que são maduros. As pessoas se esquecem de que também foram crianças e adolescentes!!! Quantos séculos tem a civilização europeia? Por quantos revezes passou, quantas guerras, quanto sofrimento, quantas perseguições durante séculos, quantas barbáries, roubos entre reis e impérios, até chegar onde chegou? Isso ninguém leva em conta. Não são séculos... são milênios!

Temos apenas quinhentos anos. Acho que estamos entrando na adolescência agora, com ares ainda de crianças que querem agir como adultos e batem o pé porque não estão gostando do jeito com que foram criadas, aprisionadas em princípios que as levaram ao caos.

Não adianta me dizer que nossos irmãos do hemisfério norte também tem quinhentos anos e são donos do mundo. Para mim, não adianta. Primeiro, porque foram criados por “pais” diferentes. Segundo, porque foram criados por pais ricos, desses que ensinam os filhos a serem arrogantes...

Nós crescemos jogando futebol de rua com bolas feitas de meia. Não tínhamos condições de comprar bolas de verdade. Vejo nossos irmãos do norte como aquele menino, cujos pais compram a bola e dizem que eles são os donos da rua. Desses meninos que saem de casa e emprestam a bola para os colegas de rua, mas escolhem em que time querem jogar, em que posição querem ficar e, mesmo que não seja a posição mais adequada, se as outras crianças querem ter o privilégio de tocar em uma bola de verdade, têm de se sujeitar. Caso contrário, eles levam a bola embora e ninguém joga...

Não vejo diferença entre a infantilidade de nossos irmãos do norte, os mais poderosos do mundo, e nós. Poder não significa discernimento, nem maturidade. Não significa bom senso. Podem ter conquistado poder sobre os outros, mas e daí? Fazem guerras fora de casa, impõem condições que apenas lhes dê vantagens, são poderosos, porque seus pais lhes ensinaram a serem “donos da bola”. Isso não é maturidade. E também ponho em dúvida que tipo de poder e sucesso econômico é esse. Tiro pelo que está acontecendo: um chefe de Estado que tem discurso para os trabalhadores, mas funciona como um capitalista. Isso é sucesso?

Prefiro jogar futebol com minha bolinha de meia. Pelo menos, por enquanto. Prefiro não me vender a esse “riquinho dono da bola” e muito menos admirá-lo.

Mas é carnaval. E apenas reflito: o que está acontecendo com nosso povo de apenas quinhentos anos, recém saindo da infância? Que adolescentes estamos nos criando? Que indignações justas nos assolam?

É preciso sofrer para amadurecer? Deixarmos de nos alimentar de pão e circo? Considero como hipótese verdadeira: acho que sim.

Leva tempo, mas, pelo que tenho visto nas ruas, no silêncio dos elevadores, nas faces cansadas, tenho esperanças. Muitas.

Há carnaval? Há.

Há blocos nas ruas? Sim.

Muitos? Talvez, mas... me parece que as pessoas estão outras por dentro.

Por aqui, percebo o silêncio como sinal de vida.

Uma vida nova nascendo, uma criança adolescente que ainda apenas bate o pé, sem saber muito o que fazer. Mas... bate o pé com novos argumentos. Alguns meio doidos, outros transformadores.

Mas... está crescendo. Talvez muitos não estejam vendo, mas eu acho que está. Se tivermos olhos mais observadores e menos críticos, dá para se notar.

Que os deuses nos protejam.