terça-feira, 15 de setembro de 2026

EMPATE

 



Operei meu pé. Seguiram-se aqueles dias intermináveis na cama, antibióticos, anti-inflamatórios e as mil chatices de não poder caminhar como sempre.

Um perrengue para quem é ativa, como eu...

E, quando eu ia dar os primeiros passos fora de casa, pronto! Dias e dias e dias de chuva sem fim. Para mim, depois do castigo de não poder sair por causa do pé, emendar com os cuidados de não expor o pé nessa chuva é provação imerecida. Isso não se faz.

Nem é por causa de falta do que fazer em casa: estudos, mil livros sempre esperando em fila indiana, aos quais dou sempre muita atenção, meus escritos, preparar meus cursos, atender ao cotidiano doméstico...

Olhar pela janela e ver uma chuva caindo por um dia é até romântico, mas dias sem fim, é castigo dos deuses. Sair caminhando de casa para o trabalho, do trabalho por todo o bairro, no céu aberto, é presente cotidiano para o coração. Não poder espalhar os olhos pela areia brilhante de sol, com o mar sempre ali, convidativo e muito azul, é ausência que dói no peito.

Uma coisa, no entanto, posso garantir: não é só para mim. Para os cariocas, chuva não combina. Sem fim, então, é depressão garantida. Os olhos ficam baixos, o sorriso some, o corpo se fecha, aborrecido. O Rio de Janeiro não foi feito para dias chuvosos, nem frios... mais de dez dias, então, é perturbação mental na certa.

Para quem não conhece nossa cidade, mas sabe de nossos hábitos, confere: aos 20 graus, carioca já põe casaco e se encolhe todo. Com chuva, acresce a umidade nos ossos... aí, então, começa o mau humor. E carioca de mau humor, não sabe sorrir, deixa de fazer piadas, de rir das próprias misérias, encobrindo as amarguras cotidianas. Sem piadas, a coisa fica séria... só sobra mesmo a nostalgia. Sinto por mim, alma carioca, e também por todos, nessa arenga que não acaba mais. Os dias se arrastam tristonhos - nos céus, nas ruas, na falta de sorrisos, nos olhos cabisbaixos...

Também sinto pena dos turistas que vieram de longe para curtirem toda essa beleza. O Rio é uma cidade aberta, as maiores atrações são a cidade em si. Com chuva, ela perde metade de seu brilho...

Mas, uma coisa não se perde: carioca sempre puxa conversa no elevador, como se todos se conhecessem e fossem amigos de infância. É interessante: depois que se chega ao andar térreo, cada um segue seu rumo como se nunca tivessem se encontrado. Mas essa gentileza carioca, de quebrar o gelo em ambiente fechado como um elevador, por exemplo, é algo que admiro nessa cidade cheia de luz, mesmo nos dias de chuva, quando o humor está abaixo da crítica.

Ontem, no elevador de um prédio comercial, constatei esse mal estar carioca e até uma certa indignação. Entrou um casal e vendo meu guarda-chuva, comentou um para o outro:

- E essa chuva que não para!

- Ninguém merece...

Entraram mais três pessoas, em outro andar. A senhora que acabava de entrar comenta, olhando para ninguém em especial, incitando um diálogo entre todos:

- Gente, essa chuva vai durar até quando?

Respostas prontas:

- Já deu o que tinha de dar, não sei de onde vem tanta água... chega!

- Uns dias, tudo bem... mas duas semanas seguidas, está dando nos nervos!

- Nem parece Rio de Janeiro...

- É... Quem diria... e com frio, nem se fala...

 Acabei por sair sorrindo para mim mesma, por esses pedacinhos de luz nessa cidade que amo tanto.

E hoje, estou aqui, tentando me divertir em escrever, numa quase autoterapia, pois é o que me resta, nessa tarde sem graça. E isso, com certeza, me distrai muito. Espero que distraia, também, a quem lê.

João, meu amigo distante de presença, mas sempre presente em mensagens, observou: pé operado com chuva versus distrair-se com o blog dá empate.

É... deu empate, João. E essa postagem devo a você. Brigadinha!


Nenhum comentário: