Operei meu pé. Seguiram-se aqueles dias intermináveis na cama, antibióticos, anti-inflamatórios e as mil chatices de não poder caminhar como sempre.
Um perrengue para quem é ativa, como eu...
E, quando eu ia dar os primeiros passos fora de casa,
pronto! Dias e dias e dias de chuva sem fim. Para mim, depois do castigo de não
poder sair por causa do pé, emendar com os cuidados de não expor o pé nessa
chuva é provação imerecida. Isso não se faz.
Nem é por causa de falta do que fazer em casa: estudos,
mil livros sempre esperando em fila indiana, aos quais dou sempre muita
atenção, meus escritos, preparar meus cursos, atender ao cotidiano doméstico...
Olhar pela janela e ver uma chuva caindo por um dia
é até romântico, mas dias sem fim, é castigo dos deuses. Sair caminhando de
casa para o trabalho, do trabalho por todo o bairro, no céu aberto, é presente
cotidiano para o coração. Não poder espalhar os olhos pela areia brilhante de
sol, com o mar sempre ali, convidativo e muito azul, é ausência que dói no
peito.
Uma coisa, no entanto, posso garantir: não é só para
mim. Para os cariocas, chuva não combina. Sem fim, então, é depressão
garantida. Os olhos ficam baixos, o sorriso some, o corpo se fecha, aborrecido.
O Rio de Janeiro não foi feito para dias chuvosos, nem frios... mais de dez
dias, então, é perturbação mental na certa.
Para quem não conhece nossa cidade, mas sabe de
nossos hábitos, confere: aos 20 graus, carioca já põe casaco e se encolhe todo.
Com chuva, acresce a umidade nos ossos... aí, então, começa o mau humor. E carioca
de mau humor, não sabe sorrir, deixa de fazer piadas, de rir das próprias
misérias, encobrindo as amarguras cotidianas. Sem piadas, a coisa fica séria...
só sobra mesmo a nostalgia. Sinto por mim, alma carioca, e também por todos,
nessa arenga que não acaba mais. Os dias se arrastam tristonhos - nos céus, nas
ruas, na falta de sorrisos, nos olhos cabisbaixos...
Também sinto pena dos turistas que vieram de longe para
curtirem toda essa beleza. O Rio é uma cidade aberta, as maiores atrações são a
cidade em si. Com chuva, ela perde metade de seu brilho...
Mas, uma coisa não se perde: carioca sempre puxa
conversa no elevador, como se todos se conhecessem e fossem amigos de infância.
É interessante: depois que se chega ao andar térreo, cada um segue seu rumo
como se nunca tivessem se encontrado. Mas essa gentileza carioca, de quebrar o
gelo em ambiente fechado como um elevador, por exemplo, é algo que admiro nessa
cidade cheia de luz, mesmo nos dias de chuva, quando o humor está abaixo da
crítica.
Ontem, no elevador de um prédio comercial, constatei
esse mal estar carioca e até uma certa indignação. Entrou um casal e vendo meu
guarda-chuva, comentou um para o outro:
-
E essa chuva que não para!
-
Ninguém merece...
Entraram mais três pessoas, em outro andar. A senhora
que acabava de entrar comenta, olhando para ninguém em especial, incitando um
diálogo entre todos:
-
Gente, essa chuva vai durar até quando?
Respostas prontas:
-
Já deu o que tinha de dar, não sei de onde vem tanta água... chega!
-
Uns dias, tudo bem... mas duas semanas seguidas, está dando nos nervos!
-
Nem parece Rio de Janeiro...
-
É... Quem diria... e com frio, nem se fala...
E hoje, estou aqui, tentando me divertir em escrever,
numa quase autoterapia, pois é o que me resta, nessa tarde sem graça. E isso,
com certeza, me distrai muito. Espero que distraia, também, a quem lê.
João, meu amigo distante de presença, mas sempre
presente em mensagens, observou: pé operado com chuva versus distrair-se com o
blog dá empate.
É... deu empate, João. E essa postagem devo a você.
Brigadinha!
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