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sábado, 31 de março de 2012

O CAMINHO É MAIS IMPORTANTE


Março de 1970. Primeiro dia de aula. No mural do corredor do terceiro andar, o quadro com a carga horária do primeiro ano do Curso de Letras.

Segunda-feira, sete e meia da manhã: Professor Renato – Teoria Literária.

Um homem de olhar decidido entrou na sala logo depois que me sentei. Um homem de óculos e barba. Ou seria um bigode? Não me recordo se tinha barba, mas bigode, com certeza, tinha. Sei disso porque me lembro bem de uma das aulas, Renato recitando o poema das Sete Faces, de Drummond:

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.


Lembro-me de que, enquanto Renato nos falava a respeito de Drummond, eu divagava comparando a poesia de Drummond à sabedoria daquele professor... ambos escudados pelos óculos e pelo bigode. Lembro-me da sensação que senti, naquele momento: a poesia me reportando aos óculos e ao bigode daquele mestre que, com zelos de pai cuidadoso, mas disciplinador, nos inspirava, ao mesmo tempo, um tremendo respeito e um tremendo carinho.

O que mais me marcou no Renato, no entanto, foi a certeza que ele sentia do que estava fazendo conosco. No primeiro dia, sentado a nossa frente, sua primeira frase foi:

- Estou aqui para fazer vocês entenderem os estilos literários, a base para que possam estudar toda a literatura do curso. Preparem-se, pois não vou refrescar nem um minuto.

E não refrescou mesmo! E aprendemos! Nossa! Quanto!

Renato começou pelo estilo épico. Ele não soube (ou será que soube?), mas a primeira frase que disse, carimbou uma visão de vida fundamental em meu coração. E esta foi apenas uma das lições de vida que tive de Renato, a que destaco para apresentá-lo a você:

- No estilo épico, o caminho é mais importante do que a meta.

Lembro-me de sua voz solene, empunhando um livro que logo descobri qual era:

- Se vocês abrirem a Ilíada, lerão, logo nos primeiros versos: Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta que causou inumeráveis dores aos Aqueus...

Renato era envolvente, compenetrado:

- E logo ali, no começo, Homero já nos conta o motivo da cólera de Aquiles e suas consequências! Nos primeiros versos, já sabemos o final da história!!! Aquiles mata Heitor, príncipe de Troia, por ter este matado Pátroclo, seu melhor amigo! Então, não há suspense na trama. No épico, já sabemos o final logo no começo!

E continuava portentoso:

- Por que ler tudo então? Porque, no épico, o caminho é mais importante do que a meta!

Não sei por que as aulas de Renato eram estrondosas em meu coração. Não era amor pelo mestre, embora também existisse. Era fascínio pelo seu conhecimento. Para mim, suas aulas não eram, muitas vezes, apenas aulas de Teoria Literária. Eu lia entrelinhas do impacto que elas quase sempre me causavam. Naquele dia, especialmente, Renato me dava aulas de filosofia de vida!

O caminho é mais importante do que a meta... não resisti:

- Como a morte, professor, todos sabemos que vamos morrer.

Lembro-me de que Renato parou de súbito, olhou para mim, recém saída da adolescência, e não resistiu:

- Sim, menina, somos heróis épicos.

Naquele segundo, naquele olhar de pai para filha, uma nova visão de mundo se compôs para sempre em meu coração, desde então mais consciente e desperto ao ouvi-lo dizer:

- Vamos morrer, é a única certeza que temos. O importante é o que fazemos entre o “agora” e o “lá”.

Sorriu. Eu sorri. Ele voltou a falar da Ilíada. Mas nós dois sabíamos que, apesar de ter sido uma aluna aplicadíssima na disciplina por todo o resto do ano, o melhor de todos os ensinamentos ele me dava assim.

Muitas, muitas vezes, em momentos singelos ou decisivos de minha vida, aquela frase jogada como semente em meu coração, num segundinho de tempo entre mestre e discípula, despontou forte em minhas decisões: a maior consciência da força do herói épico moldou em mim a guerreira, a mãe, a filha, a mulher, a mestre e uma discípula de vida mais consciente dos próprios passos.

Reencontrei a imagem de Renato muitas vezes, através de minhas leituras, como em Gandhi, por exemplo, quando dizia: “não há um caminho para a paz, a paz é o caminho”...

Hoje, quando vejo pessoas sôfregas por resultados, pulando etapas, engolindo em seco, cortando caminhos de vida, cumprindo “metas”, lembro-me de Renato, lembro-me de Gandhi, lembro-me da menina embevecida pelos ensinamentos do mestre:

- Sim, menina, somos heróis épicos. O caminho é mais importante do que a meta.

Obrigada, Renato. Como gostaria de saber por onde você anda agora...

sábado, 2 de julho de 2011

OS JOGOS


Justiça seja feita: também trago recordações e ensinamentos do internato, significativos e imprescindíveis para minha vida.

Aprender a jogar respeitando o adversário foi de fundamental importância para a minha formação quando adolescente e imprescindível para minha postura profissional em toda a minha vida, nessa louca sociedade moderna de concorrências e desenganos.

A integridade do ato, em si, me deu a força necessária para estabelecer em minha vida metas de ideais bem norteados, sem esbarrões sobre as atitudes muitas vezes sórdidas do meio. Neste aspecto, agradeço a educação que recebi, pautada na solidariedade e na concorrência não avassaladora do meio. Vencer não era massacrar. Perder não era a morte, mas apenas um passo de experiência e aprendizado, uma ocorrência da vida.

Este presente eu trouxe do colégio, apesar de tantos outros desacertos.

Ah... um pouco dessas freiras nas nossas atuais torcidas de futebol... e, por que não... nas concorrências da vida...

Esses princípios aprendíamos principalmente nos campeonatos de vôlei. Lembro-me de um outro internato, também de freiras e também no Alto da Boa Vista. Funcionava como uma comunidade solidária, um país vizinho, com relações diplomáticas bem delineadas entre nós. Um grupo visitava o outro, quando em vez, em festas de quermesses ou retiros e, principalmente, em treinos de vôlei. O objetivo era o de treinarmos como adversárias, pois treinar com outras táticas aguçava as nossas. Fazíamos vários jogos amistosos, em treinos não só de jogadoras, mas, também, de torcidas. Éramos, na verdade, duas sociedades irmãs e ficávamos torcendo para que nunca tivéssemos de nos confrontar nas preliminares, cruzando os dedos nos sorteios que determinariam em que grupo cada colégio pertenceria. Ficar no mesmo grupo significaria que um colégio acabaria por eliminar o outro e queríamos, ambos, que chegássemos juntos à final. Aí, sim, quem ganhasse ficaria com a taça e, fosse qual fosse, a alegria seria a mesma.

Evidentemente, nos confrontamos oficialmente várias vezes e lutávamos para vencer. Mas era interessante o decorrer de todo o jogo. Quando uma cortada fazia cair a adversária, não era um grito de raiva que surgia da jogadora que tinha sido focada e não conseguira pegar a bola, mas um cumprimento pela estratégia da adversária: “boa bola!”ou “bolão!”. O ponto perdido era arduamente disputado novamente, a luta era para valer, mas não para sobrepujar o outro. Vencer significava outra coisa diferente do que esmagar, tripudiar, desmerecer. Vencer era honrar a arte da batalha, o resultado do esforço.

Era interessante o quanto nos sentíamos “irmãs”. Nas vésperas de nossos jogos com outro algum adversário ouvíamos, no recreio após o jantar (que, coincidentemente era no mesmo horário para ambos os colégios), o “grito de guerra” e de estímulo de nossas colegas do outro lado da mata: Esses cantos ainda ecoam em meus ouvidos, ao me lembrar das coisas da adolescência. Esperávamos que acabassem de cantar, juntávamo-nos nos janelões do terração do recreio noturno e repetíamos o mesmo refrão para as nossas queridas companheiras, para acusar o recebimento da mensagem. O grito guerreiro, atravessando a escuridão e o silêncio da mata da Tijuca, ecoava em nossos corações, no quase um quilômetro que separava os dois prédios.

Lição de vida...

Havia também um encantamento nas partidas com as outras adversárias. Sabíamos que nem todos os colégios tinham os nossos princípios ou a nossa postura que considerávamos “ética”. Mas não respondíamos no mesmo tom. Sequer lamentávamos. Era como se isso não contasse para nós, “princesas” que éramos. Apenas deixávamos que isso acontecesse e seguíamos o nosso curso, tanto jogadoras, quanto torcida, ignorando vaias e respondendo com uma diplomacia um tanto “superior”. Isso nos fora ensinado explicitamente pelas irmãs do colégio e, embora a intenção educacional fosse das melhores, acho que esse “tom” de superioridade custou-me um certo ar de arrogância aos ataques adversários e competitivos, postura que me acompanhou por alguns dos meus primeiros anos de adúlticia, felizmente contornados (ou, pelo menos, amenizados) pelas pauladas da vida.

Boa base, boas escolhas, embora tivesse de ter passado pelo árduo trabalho de aprender a temperar a educação chamada “esmerada” com o bom senso. Neste caso, o bom equilíbrio entre as freiras e as experiências de vida.

De qualquer modo, o que aprendemos na disputa através dos jogos foi fundamental para as alunas que souberam usufruir desse ensinamento.

Agradeço à vida por essa oportunidade, pois deu brilho a minhas vitórias, compreensão e aprendizagem nas minhas derrotas. E sensatez.

sábado, 19 de março de 2011

DIGA-ME COM QUEM ANDAS


Na verdade, não sei com quem ando. Sei que ando. Comecei a andar muito cedo, por volta dos 11 meses, segundo dizia a minha mãe, e acho que não parei até hoje.

Com quem ando... com quem andei... nossa... já andei com tanta gente, dos mais variados tipos e jeitos...

Às vezes, paro para pensar nessas coisas...

Já andei com o Reginaldo, aquele aluno “marginal” da escola na zona rural do Município do Rio, onde comecei a dar aulas, assim que me formei. Não sei se você se lembra... o do conto “Reginaldo” . Um “marginal” que me ensinou que confiança está nos olhos e no coração, longe do preconceito.

Andei por favelas (hoje chamadas comunidades) em minhas pesquisas sobre desenvolvimento cognitivo em crianças carentes... lá fiz amizade sincera com pessoas que nem sabiam escrever, que punham seus filhos no cercado junto aos porcos quando saíam para trabalhar porque não tinham com quem deixar... que comiam com as mãos, pois não tinham talheres. Eu PHD e eles analfabetos, me ensinando tanta coisa sobre a cartilha da vida... entrava e saía com passaporte livre, pois “a professora veio pesquisar” . Eles sequer sabiam o que era “pesquisar”, mas a confiança do olhar e o passaporte da amizade diziam tudo e ninguém mexia comigo...

Andei às avessas, com gente do escalão universitário, muitas vezes lutando por direitos humanos até descobrir que para eles isso era só uma fachada a que pouco davam importância... alguns deles apenas se aproveitando da situação para engendrarem lutas políticas para engrandecimento pessoal...

Andei com cocotas em festas socialite me perguntando “o que eu estou fazendo aqui?”.

Andei por aí, meio sem rumo, com pessoas que pouco conheci... tantas vezes buscando os significados da vida...

Andei com místicos para descobrir que não eram tão místicos...

Andei com céticos para descobrir que não eram tão céticos...

Andei só... andei acompanhada...

Como você definiria o que sou? Com quem será que andei, senão comigo mesma durante todo esse tempo, que possa definir o que sou, sozinha ou acompanhada?...

Engraçado... isso era para ser um conto...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

DESCOMPASSO


Fevereiro com vinte e oito...
E tantos meses com trinta e um...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O MURO



Berlim Ocidental, lado de cá do muro, década de 80. Andei ao longo dele na véspera da visita ao lado Oriental. Todas as espécies de rabiscos e pichações eram observados por meus olhos atentos e entristecidos. Mensagens de solidariedade, de revolta, de estupefação e mil outras coisas, escritas em várias línguas. Tive vontade de desenhar uma flor, mas não tinha grafite ou tinta. Me chamou a atenção um desenho de rachadura no muro com um rosto entristecido desenhado nesta suposta fenda, como se estivesse olhando para nós, do lado de cá. Perdi o slide, mas me lembro bem do desenho. Lágrimas no muro, lágrimas nos meus olhos.



Caminhei por ali, sozinha, pensativa, quieta. O que haveria do outro lado? Havia muito espaço para a mente e o coração naquela tarde morna e tranqüila... e eu tinha muito tempo para caminhar solta por ali, sem pressa, perdida e achada em meus pensamentos.

Topei com o museu do muro. Nem sabia que existia. Entrei. Visitei as histórias escritas nos murais e uma infindável mostra de fotos e artefatos construídos pelos cidadãos que fugiram para o lado ocidental. Fugas das mais loucas e perigosas, desesperos de causa, busca de liberdade...



Meus olhos rabiscavam as paredes e os objetos do pequeno museu como quem olha para uma fantasia e não para algo palpável. Meu coração, por certo, se preparava para a visita do dia seguinte.



A princípio, não tinha nenhuma curiosidade de atravessar a fronteira para algo que, com certeza, não traria paz ao meu coração. Fui, no entanto, impulsionada pelos museus que esta parte quase inacessível de Berlim guardava como jóias do tesouro oriental: o Altar de Pérgamo



e o Portal de Ishtar, da Babilônia.





Eu estava, por certo, a apenas alguns poucos quilômetros desses dois tesouros. Era suficiente atravessar a fronteira, ir e voltar incólume.

Incólume... doce ilusão.

No dia seguinte, acordei cedo. O visto permitia uma visita de apenas um dia, das nove às dezessete horas. Por via das dúvidas, não queria perder a chance de ver o que queria com calma, quem sabe, subir na torre para ver a cidade de cima e também ver a célebre quadriga do Portal de Brandenburgo de frente



já que, do lado ocidental, só a podíamos admirar de costas, junto ao muro.



Por certo, o dia me traria uma longa caminhada, e muito pouco tempo para ver tudo com calma.

Havia dois únicos acessos ao outro lado da cidade: uma estação específica de ônibus, que deixaria o turista também num ponto específico do lado oriental e uma estação de metrô, nas mesmas condições. Preferi o metrô através da estação de acesso, Friedrichstrasse.



Após tantos anos, tenho vontade de voltar lá só para ter a alegria inominável de usar a mesma estação para atravessar de um lado para outro sem visto e em plena liberdade. Um dia, quem sabe...

Entre a estação de embarque e a de desembarque, havia duas estações pelas quais o metrô passava, devagar, mas sem parar. Estações desativadas, quase totalmente às escuras e... meu primeiro impacto: nas plataformas, soldados com cães pastores alemães. Sensação esquisita de perda... falta de ar.

O desembarque levava os passageiros por um corredor e um conjunto de cabines, como essas de migração. Senti que, realmente, estava entrando em outro “país”. O soldado de plantão virou meu passaporte pelo avesso, conferiu com muita atenção minha foto. Pude perceber que se mostrava insatisfeito. Minha foto me mostrava com cabelos compridos e eu estava com cabelos mais curtos. Enfim, consegui passar. Nova caminhada por um corredor interminável. Senti-me esquisita, caminhando em meio a uma massa de pessoas mais “levadas” do que “caminhantes”. Eu acabava de sair de uma cidade cheia de luzes e cores, alegre, buliçosa, em cuja véspera tinha tido meu inesquecível encontro com o velhinho dos correios, o famoso “Papai Noel” a que já me referi num conto anterior – “Quem diria”.

Aquela sensação não combinava em nada com o que tinha vivenciado até então. O corredor acabava numa porta enorme, de aço, que se abriu em dois e, finalmente, pude respirar o ar da cidade.

A primeira impressão foi a de que eu tinha saído de um filme colorido para um filme em preto e branco. Todos os prédios em cinza, com exceção dos públicos, que sustentavam paredes em vermelho. Os carros antiqüíssimos, uma cidade limpíssima, mas... triste.



Fiquei aborrecida, ao voltar para minha casa, por ter tirado tão poucas fotos. Mas estava tão impressionada com o que via e sentia, que não me arriscava a grandes feitos. Tudo ali transpirava disciplina, constrangimento, sisudez. Fiquei um pouco tonta e perdida por algum tempo, perambulando sem muita direção. Mas logo depois tomei o rumo do Portal de Brandenburgo. Não havia tempo a perder. Pelo caminho, observava a singeleza do povo, as vestes simples, o recato. Era muito fácil discernir entre moradores e turistas.

Passei por um soldado, provavelmente, em hora de descanso. Estava numa pequena ponte, à beira de um rio. Não tive coragem de tirar uma foto dele, mas tirei do rio, para guardar de lembrança.



O jovem me chamou a atenção por sua farda remendada, seu olhar longínquo. Em que estaria pensando? Em seu amor, talvez? Em sua vida? Em suas possibilidades? Como gostaria de saber o que escondia aquele rosto tão triste e sombrio... para mim, no entanto, aquele rosto não era apenas o rosto do soldado. Eu o sentia como o rosto da cidade. Por todos os lados que andei, a impressão era a mesma...

Passei por alguns lugares com lojas e foi aí que senti pena de não ter usado mais minha máquina de fotos: as vitrines ostentavam, faceiras, os livros de Max, coisa que não víamos com facilidade no Brasil, naquela época. Mas o que mais me chamou a atenção foi a falta de variedade de ofertas. Numa sociedade sem concorrência, as câmeras eram daqueles modelos bem antiquados, do tipo caixote, enquanto eu sustentava minha Fujika último tipo. Os carros antiqüíssimos... e muito poucos pelas ruas. Enfim, era mesmo como se eu tivesse retrocedido dezenas de anos, ao ultrapassar aquela porta de aço. Choque cultural profundo.

Cheguei ao Portal de Brandenburgo e foi aí que me surpreendi mais ainda: havia um policiamento ostensivo. Por que seria? Um carrão último tipo, estacionado, me chamou a atenção. Minhas antenas observadoras procuravam seus donos. Como teriam atravessado a fronteira??? Olhei para o Portal de Brandenburgo e em volta. Muitos soldados atentos a nós, turistas! Percebi que a visita ao Portal exigia distanciamento. Havia, no entanto, um pequeno grupo de pessoas que tinha tido o privilégio de atravessar a linha de segurança. Quem seriam? Do grupo se destacavam dois homens fardados impecavelmente, num contraste quase cruel com as vestimentas do triste soldado que eu vira ruas atrás. Olhei novamente para o carro. Bandeira soviética. Meu coração bateu mais forte. Lembrei-me imediatamente da leitura de “A revolução dos bichos”. Era isso. Exatamente a concretização da leitura que eu via se descortinar a minha frente. Eu precisava fotografar. Levei a máquina ao rosto e fui imediatamente interpelada por um soldado que estava perto de mim! Não era permitido fotografar o grupo de visitantes soviéticos! Incrível.

O soldado não falava nenhuma língua que eu pudesse entender. Me parecia russo, pois meus ouvidos não sentiram nenhuma familiaridade com o alemão que eu estava ouvindo por aqueles dias. Fiz que sim, com a cabeça e apontei para o Portal, como quem diz que está apenas interessada na atração turística. Naquela época, as câmeras eram mecânicas e as fotos eram tiradas em rolos. Fosse digital, eu não teria conseguido usar os maravilhosos recursos de abertura de ângulo, sem que ele percebesse ou pudesse pedir, depois, para conferir o que eu tinha fotografado. Assim, o recurso me permitiu tirar essa prenda. Pena que não deu para usar a zoom... daria na pinta demais:


Tirei a foto e, como boa carioca, sorri para o soldado, como quem tinha feito a coisa mais inocente do mundo. Não consegui, no entanto, tirar a foto do carrão. Depois, dei uma disfarçada e esperei para conferir mais de perto. Isso mesmo: chiquérrimos.

Tudo igual. Aqui, lá, em qualquer lugar. Dentro e fora do muro... por caminhos diretos ou tortos, a exploração do homem pelo homem parece justificar-se por si mesma. Lágrimas nos olhos, descrença já previamente concebida. Apenas a constatação pura e simples de que a alma humana caminha segundo suas próprias escolhas, independente de crença, religião, política, cultura. O que é bem, o que é mal... tudo misturado, num balaio de intenções as mais diversas. Tudo isso invadiu meus pensamentos por tempo que não pude perceber no relógio. Nada como visitar um lugar sem pressa, passo a passo, diante do canto e do desencanto. Viver por dentro e por fora, pelos olhos e pelo coração.

Impossível, mais uma vez, sair incólume da experiência.

Mas era preciso viver outras sensações. Dali, segui meus passos buscando o encantamento dos museus: o Altar de Pérgamo me esperava altaneiro e o Portal de Ishtar me fez sonhar com um passado de povos de muitas aventuras. Curti cada minuto, cada mosaico, cada degrau dos inúmeros e maravilhosos monumentos. Parte boa da visita. Privilégio.

A volta me brindou com outro soldado da migração que quase não acreditou que a minha foto combinava com o meu rosto. Enquanto esperava o sisudo companheiro conferir os dados, fiquei pensando que só me faltaria a aventura de quererem me prender por ali. Mas passei.

Não posso dizer que foi uma visita ao inferno, pois os museus enfeitaram minha visita. Mas com certeza, povoei de uma profunda tristeza o meu coração, que saiu muito oprimido com tudo que vi por lá.

No dia seguinte, pelo lado Ocidental, caminhei novamente pensativa, ao longo do muro. Queria saber o que eu me diria por dentro. Num determinado momento, sem que eu me desse conta, de tão rápido foi o impulso, chutei aquele concreto com força, com ímpeto, com raiva, com determinação. Fiquei dois dias com dor no pé, pela força do impacto. Entendi de pronto, por dentro, a indignação dos ocidentais diante daquela infâmia. Parentes separados, ruas cortadas, comunicação impedida, passagens proibidas. Voltei ao museu do muro e todo ele ganhou outro significado para mim.

Destaco para você a foto de uma pixação no muro, a pintura de uma mão que se insinua por uma "fenda", oferecendo uma flor a outra mão, do outro lado, que se estende para pega-la. Exatamente o que simbolizava, naquela época, a busca de retratar a profundidade do sofrimento da separação. Quantos parentes e amigos sofriam desse mal... A foto não está muito nítida, pois o slide é antigo e a própria pintura não era nova. O quadro faz parte do acervo do museu.



Anos depois, quando o muro foi derrubado, infelizmente, eu não pude participar in loco da festa. Mas não perdi nenhum noticiário sobre o acontecimento... e acompanhei de perto, tão perto quanto as notícias permitiam, como a Alemanha teve de se deparar e contornar a diferença cultural que se impôs, depois de tantos anos em que irmãos foram separados por quilômetros de desvario humano.

E me lembrei daquele soldado da ponte... por onde andaria? Estaria sorrindo?

sábado, 20 de novembro de 2010

LUZIA


Dei um pulinho na universidade para pegar documentos antigos, contracheques, etc. Revi amigos e aproveitei para tirar algumas fotos para o blog. Foi aí que me deparei com uma parte da vista do estacionamento. Notei um carro estacionado em frente a uma vaga reservada para cadeirantes. Ver isso da altura do décimo primeiro andar me dava mais a impressão de ser coisa de filme ou de casa de brinquedos do que realidade. Mas era verdade. Em plena universidade, onde sei que há inúmeros projetos extensionistas e um vasto folhetim sobre cotas, direitos sociais e necessidades especiais - que é o que mais caracteriza o lugar em que trabalhei -, a vista disso me parecia coisa fora do lugar. Mas estava lá, o carro azul, em frente à vaga, enfrentando meus princípios.

Para não “entrar nela” desobedecendo ao aviso ostensivo de proibição, ele ou ela simplesmente optou por estacionar em frente! Dava na mesma. Não pude deixar de fotografar. De quebra, fiquei imaginando se os carros estacionados nas vagas reservadas seriam, realmente, de cadeirantes. É certo que os seguranças são logo chamados nesses casos, pois há um número considerável de cadeirantes lá. Não desci para ver. Lembro-me de que fazia isso quando era membro efetivo do Conselho Estadual para Política de Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Naquela época eu tinha mais poder de fogo, me apresentando como membro e mobilizando as autoridades locais. Bons tempos! Ou... maus tempos, como sempre? Para que precisar de carteira, afinal... não deveria ser um direito / dever de cidadania de todos?

O fato é que fiquei com o vicio já meio natural de estar atenta a esses absurdos. Aliás, guardei um arquivo que me mandaram, um dia, pela internet. A piada é boa, embora esconda outro preconceito, que também deveria ser combatido. Falaremos disso, provavelmente, em outro conto. Por ora, lá vai, pela criatividade do autor, para mim, desconhecido:


Outro dia, saindo do carro e andando pelo estacionamento do aeroporto do Galeão, rumo ao elevador, vi um cidadão (cidadão?) estacionando numa vaga dessas. Não resisti, mesmo sabendo que, de vez em quando, a gente se meter numa coisa dessas é furada. Me aproximei e perguntei o mais delicadamente que pude, se ele não tinha visto a placa, já que não via na chapa do carro a marca obrigatória que os cadeirantes tem de ter. Ele simplesmente retrucou:

- Alguém está vendo?

Não agüentei:

- Sua consciência não está?

- Você vai me multar?


- Não, mas deveria, já que sou do Conselho Estadual (já não sou mais, mas dei a cartada). Invisto apenas no seu senso de cidadania. Eu mesma tinha essa vaga à disposição quando passei por aqui, mas estou estacionada há quase cinqüenta metros, bem mais longe dos elevadores. E suas pernas são bem mais jovens que as minhas.

Não quis discutir mais, dei as costas, mas saí dali indignada. Não achei um segurança perto, queria pedir providências. Não vi ninguém.

Fiz o que tinha de fazer no aeroporto e voltei rapidamente. Como era o meu caminho, passei outra vez pela mesma vaga e... estava vazia. Por medo ou por consciência - gostaria mais de acreditar na segunda opção -, o jovem escolhera outro lugar. Resolvi voltar e procurei um segurança que, enfim, colocou um daqueles “cones” de plástico amarelo na vaga. Aquilo não evita a desobediência, mas é mais um empecilho. O problema é que também atrapalha o verdadeiro cadeirante que, vindo sozinho, quer estacionar ali.

Ando muito pela cidade e, volta e meia, me deparo com uma coisa dessas. Nossa educação básica de convívio está mesmo depauperada. Já sabemos disso de sobra. Mas como criticar a violência, se ela começa dentro de nossos corações?

Saí do estacionamento cabisbaixa, pensando nessas coisas, e me parece que aquele era mesmo um dia de me encontrar com a representação de pessoas muito especiais, que já trilharam a minha vida, me ensinando coisas da mente e do coração. Estava chegando em casa quando vi Luzia, uma antiga colega de faculdade. Ocorre que Luzia é cega. Andava devagar, com sua bengala. Me deu vontade de fazer uma meninice, como nos antigos tempos. Me aproximei sem falar uma palavra e lhe dei meu braço. Luzia parou e estranhou. É muito difícil um vidente dar o próprio braço para um cego na rua, para ajudá-lo. Geralmente, pegamos o seu braço, seu ombro, pois não fomos preparados para isso. A maioria das pessoas não sabe, mas essa atitude provoca uma total insegurança, pois a pessoa se sente monitorada e não guiada, como deveria. Se alguém se aproxima e, de saída, sem essa ou mais aquela, oferece o próprio braço, a pessoa cega já desconfia de que há noventa e nove por cento de chance de que o tal sujeito ou sujeita já andou aprendendo isso com cegos por aí.

- Quem é?

Minha meninice, dando o braço e caminhando, conservou silêncio.

- É Rita?

- Não.

- Fala mais um pouco. Você já andou com muitos cegos, não?

- Muitos.
Sorri.

- Ora, Eulalia! Você por aqui!

- Essa não vale Luzia, como você descobriu?


Ela me respondeu, com aquela cara de marota, bem minha conhecida:

-Se você já andou com cego, querida, está marcada para sempre... depois, é só aguçar para as características: pelo riso (e eu que pensei que apenas tinha sorrido!) e, logo depois, pela maneira de andar e pelo braço. Pela voz, fiquei um pouco na dúvida, porque você está um pouco resfriada, isso mascarou pouco, mas eu já tinha quase certeza. Então, chutei.

- Luzia, faz cerca de 30 anos que não nos vemos!

- Ver nunca te vi, mesmo, zombou ela,
lembrando-me de pronto de seu irrefutável bom humor. Mas o jeito, depois de termos convivido tão proximamente durante quatro anos... ah...não dá para esquecer.

Pois é... quem de nós, sem ver outra pessoa e praticamente sem falar com ela – e, ainda por cima, com resfriado -, poderia reconhecer um amigo, na rua, depois de trinta anos? Os cegos, quase sempre, podem.

Perguntei para onde ela queria ir.

- A um ponto de ônibus da Princesa Isabel.

Andamos conversando animadas, ela já habituada com o tipo de guia que eu sou, descendo e subindo as calçadas sem prévio aviso. É tão fácil guiar um cego com segurança... basta dar o braço e se conservar um passo adiante. Ele nota que você vai descer e subir, desviar de buraco... nem precisa falar. É incrível o senso de percepção que eles tem!

Fomos assim conversando rumo à Princesa Isabel. Soube que era seu caminho quase diário. Incrível, ela trabalhava numa escola ao lado do meu edifício, há dez anos, e nunca nos vimos. E justamente agora que nos tínhamos encontrado ela estava sendo transferida. Seguindo, assim, de papo, atravessamos a avenida e, como há vários pontos de ônibus, apenas fui caminhado, pois eu já sabia que ela iria reconhecer quando chegássemos ao dela. Não deu outra: num determinado momento, ela deu aquela “travadinha básica” bem minha conhecida. Era ali. Não resisti:

- Qual é o sinal, Luzia? Estava me referindo a como ela reconhecia o ponto.

- O cheiro da farmácia.


É preciso ressaltar que a farmácia não fica em frente ao tal ponto, fica duas lojas à frente. Significa que não tínhamos passado por ela. Pois é... nós temos um olfato tão aguçado? Uma percepção de contato tão aguçada? O que fazemos com nossos sentidos? Não dá para chamar uma pessoa assim de deficiente... é mesmo mais para pessoa especial...

E, talvez, quem sabe, foi com esse espírito de perceber o quanto são especiais que, muito mais tarde, por caminhos da vida, acabei trabalhando com surdos, aprendendo sua língua, lutando academicamente por uma educação especial melhor.

Só tenho a agradecer, por esses presentes da vida, me preparando, com antecedência programada para vários dos embates de minhas futuras escolhas.

Um dia, quem sabe, eu fale mais de Luzia e de surdos em outro conto. Vale a pena.

sábado, 16 de outubro de 2010

O PAPA


Fui a Roma e não vi o papa. Tinha tanta coisa a fazer na Itália, que, realmente, não deu. Em princípio, nada contra o papa. Era mesmo uma questão de tempo ou, quem sabe, um excesso de terços e ladainhas, já estressantemente vivenciados em meus dez anos de internato. Por conta de reza, portanto, com certeza não estaria eu em falta.

Mas fui ao Vaticano. Palmilhei a cidade atrás das artes, da biblioteca, da própria basílica que é estrondosamente interessante, embora eu não a tenha achado a mais bela do mundo. É difícil derrubar a beleza de Notre Dame, o encanto da Saint Chapelle, a monumental Catedral de Colônia, só para citar algumas, já me esquecendo da Catedral de Milão e da indescritível porta do sol do Batistério de Florença... de qualquer forma, me encantei com muitos dos inumeráveis detalhes da catedral mor da cristandade.

Só não agüentei visitar o tesouro do papa. A santa igreja que me desculpe, mas tudo que aprendi no internato a respeito dos votos de caridade e pobreza foi palmo a palmo desmentido no meio de tanta escandalosa riqueza.

Não tenho nada contra riquezas. Nadica. Cada um que tenha a sua com direito de posse e postura que mais desejar. Sejamos ricos ou pobres a nosso gosto ou desgosto, ninguém tem nada a ver com isso. Se você quer dividir o que tem com alguém que tem menos do que você, problema e gosto seu. Qualquer tipo de julgamento a esse respeito, para mim, está destituído de senso de valor.

Não tenho posições políticas a respeito. Não me considero capitalista, nem socialista. E também não jogo na coluna do meio. Sou nada. Que me considerem alienada, não me importo. Mas sei que sou uma pessoa de profundo bom senso. E não cabe no meu bom senso ter aprendido que os religiosos fazem votos de pobreza e cada papa, sob o argumento de conter a representação de um “Estado” ostente tanta riqueza sem tamanho.

Fui constatar isso ali, nos subterrâneos da Basílica de São Pedro. Cada papa, dos inúmeros que o mundo viu, teve seu próprio manto incrustado de riquezas sem fim, entre ouro, pedras preciosas e bordados transcendentais. Cada um teve seu bastão, seu ostensório, seu anel, seus paramentos, enfim, seu riquíssimo enxoval. Nada passou de um para outro. E pior, que eu saiba, não está em pauta a idéia de doação desses bens a necessitados. Tudo faz parte do patrimônio dessa cidade-estado.

Passar por esse museu, uma vez que se entra, não tem volta. Nos primeiros passos, antevi o que veria e quis voltar. Não era permitido. Uma vez no labirinto, tinha de trilhá-lo até o final. Depois de poucos passos, comecei a passar direto. Na verdade, comecei a passar mal. Meu estômago literalmente embrulhou. Queria ar, queria sair dali. Por que não poderia voltar? Não tinha jeito, tinha de seguir em frente, o que fiz o mais rápido que pude. Para completar, o museu desemboca numa lojinha de recordações, com réplicas de relíquias, coisas sagradas à venda, etc.

Repito: não tenho nada contra riquezas. E não teria nada contra as riquezas do Vaticano. Eles podem ser podres de ricos que para mim não faz diferença alguma. Só não agüento ter sido interna aprendendo votos de pobreza por parte dos religiosos. Não faz sentido. Nenhum. Sejam ricos! Sejam felizes! Só não me peçam para abrir os meus bolsos em dízimos, pois sou paupérrima perante o que vocês tem! Fiquei confusa, completamente confusa com esta visita.

Se algum apreço eu ainda guardava dos princípios de caridade e compaixão cristãs por parte da educação religiosa que tivera, estava literalmente “desconvertida”. E revoltada também. E traída. Não houve explicação que me convencesse. Os argumentos são vários a respeito do patrimônio de Estado. Nada feito. Eu não tenho nada contra riquezas, já disse. Podem estar carregados de ouro, já disse. Só não me venham com discursos de caridade!!! Para mim, isso passou a me parecer fazer favor com chapéu dos outros e, no caso, caridade com o meu chapéu!!! Nada disso.

Enquanto eles não entrarem materialmente na concretização da compaixão pelo outro, o assunto está encerrado para mim. Não tem doação em nome de igreja alguma que eles consigam me convencer a fazer. Minhas doações, a partir daí, passaram a ser diretas, do meu bolso ao consumidor, exceção feita aos Médicos sem Fronteiras e a uma creche sustentada por um amigo que você já conheceu, se leu o conto “a ponte”.

A santa madre igreja me desculpe, mas acho que está muito longe de me convencer que aquele tesouro tem razão de ser. E olha que aquilo é apenas uma amostra! Nem todos os pertences estão ali!

Saí do Vaticano com duas lacunas. Essa e o fato de que a biblioteca mostra apenas um pequeno filão do ouro em forma de conhecimento e documentos que os subterrâneos guardam em seus papiros e tudo que seus livros devem conter. Quanta sabedoria escondida continua guardada e trancada a sete chaves... e por quê? Será que um dia virá a luz?

Fora isso, adorei estar lá. A visita à basílica foi amenizada pelas pinturas da Capela Sistina. Ficaria horas esquecida, exercitando meu pescoço em busca de detalhes daquelas pinturas monumentais. Não fossem os dias contados, não teria saído dali tão cedo, meio puxada pela mão de meu ex que tinha um roteiro cheio de atrações, ainda para o mesmo dia.

Enfim, adorei ter ido. Até pela experiência, pelo dissabor, pela vivência. Não vi o papa. Depois da visita às riquezas, acho que ficaria muito triste em vê-lo. Pareceria uma hipocrisia, pelo menos para mim. Não poderia saudá-lo. Não conseguiria.

Paciência. Tenho minhas limitações de entendimento e compreensão. Não engoli a pílula. Quem sabe, um dia, eu consiga entender para que ela serve. Por enquanto, soaria como veneno e me faria muito mal engoli-la ou deixar de comentar sobre o assunto.

Que você me leia com a condescendência de quem é capaz de entender que não posso calar-me diante da pobreza que vejo diariamente a minha volta e de quem compreende que não consigo entender o discurso doce do dízimo. Não esse dízimo. Os deuses que me perdoem.