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sábado, 4 de agosto de 2012

METÁFORAS


Sempre achei que o excesso de brilho empana a vida, ofusca a visão, não dá espaço para a convivência saudável, delimita o prazer franco e puro das experiências.


O brilho, em si, saudável e completo, permite a nitidez da imagem, enfeita os contornos, aguça o contraste harmonioso entre sombra e luz.






Mas, às vezes, muito raramente, o brilho precisa falar por si próprio e, se colocado em seus devidos termos, encanta a paisagem e revigora o espírito.



Levei algum tempo para entender isso, em meus passos pelos caminhos da vida.





sábado, 26 de março de 2011

DÁ PARA EXPLICAR?


1996. Eu estava em Salvador, num congresso sobre HIV/AIDS, organizado pelo Ministério da Saúde. Naquela época eu era coordenadora de um dos meus projetos favoritos: atendimento preventivo e de acompanhamento a portadores de HIV e doenças sexualmente transmissíveis para a comunidade de surdos. Como me meti nisso? Ora, porque os surdos não tinham acesso à divulgação comum, sempre auditiva e sempre em Língua Portuguesa. Como eu tinha um projetão voltado para a comunidade de surdos e tudo que pudesse envolver processos de comunicação em Língua de Sinais, acabei me envolvendo com isso também.

O congresso estava sendo um sucesso e nosso trabalho foi brindado com um prêmio especial, dada a especificidade do trabalho: tudo era feito em Língua Brasileira de Sinais, desde a divulgação e propaganda, até o atendimento no hospital universitário. Dava um trabalhão. Mas era simplesmente magnífico ver como as coisas andam, nesse país, quando a gente quer. O povo brasileiro é pródigo, generoso, cuidadoso. O projeto conseguiu espalhar-se por quase todo o Brasil, diga-se, por quase todas as comunidades de surdos do país, com ajuda de custo que aparecia de até onde os deuses duvidam. E o Ministério da Saúde, nesse item, foi simplesmente exemplar. Aliás, o combate ao HIV/AIDS, no Brasil, naquela época, foi tão exemplar que chegou a ser reconhecido mundialmente como um dos principais países de excelência na prevenção e no combate ao HIV. Poucos sabem disso. O brasileiro não costuma ver as suas qualidades, infelizmente.

Bom, eu estava lá, no congresso, em plena capital baiana, já tendo apresentado o projeto, às vésperas de vir embora. Mas estava incluído no pacote o direito à diária do hotel até o dia seguinte, sábado, final da tarde. Estava exausta do trabalho e também da noitada que tinha tido com Silvio, o tal que se transformou em cunhado-irmão, o querido marido de Patrícia, que você conheceu no conto “Silvio”. Acabada a labuta e a festa, em vez de ir embora correndo, como quase sempre fazia por conta de compromissos profissionais, marquei meu vôo para o início da noite e resolvi dormir até mais tarde e dar um pulinho à piscina de manhã para relaxar. Na segunda, muito trabalho me esperava por aqui, mas ainda teria o domingo inteiro para me refazer.

Fui à piscina e fiquei pensando em toda a semana. Meu olhar se espalhava pelo mar cujo azul se via do terração e também pelo jovem casal que se encarregava de fazer a alegria dos turistas no espaço da piscina. Os dois jovens, iam e vinham, com seu jeitinho baiano irresistível, nos fazendo sorrir dessa sedução e graça que só encontramos na Bahia.

No final da manhã, fomos brindados com a possibilidade de uma lembrança. Quem quisesse, levaria um colar de flores, desses que se dá os turistas, mas que não são de flores naturais. Havia de várias cores. Claro, eu quis um. Me aproximei e a moça pegou um, aleatoriamente, para me dar. Mas o moço se adiantou, tirou o colar de suas mãos gentilmente e disse:

- Um colar amarelo, para uma filha de Oxum.

Olhei-o espantada:

- Ué, como você sabe?

Sorridente, colocou o colar em meu pescoço e disse:

- Precisa perguntar?

Eu não sabia quem era Oxum. Sequer sabia por que não precisava perguntar. Para ele, deveria estar na “cara”, se é que é pela cara que se vê essas coisas. Mas agradeci pela gentileza e trouxe meu colar com carinho. Ao chegar em casa, no Rio, fui correndo pesquisar: senhora dos rios, cachoeiras, lagos... a mãe da água doce. Sorri da idéia. Filha de Oxum. Bonito, romântico... mas não me satisfiz.

Na segunda, procurei um querido amigo, no setor dos funcionários de áudio-visual da Universidade. Anos atrás, ele tinha me olhado longamente e me cumprimentado com uma pequena reverência. Perguntei por quê. Olhando para minha mão direita que eu quase perdi numa queimadura terrível da qual prefiro não contar a história e de cujas marcas tenho até hoje, ele disse:

- Meu pai já te marcou, ora vejam só!... Um dia, você também vai trabalhar com cura.

Estávamos em 1992 e eu nem sabia o que era Reiki ou terapias orientais. A última coisa do mundo que me passaria pela cabeça, seria me aposentar antes dos setenta anos, com a compulsória do funcionalismo público. Disse, gentilmente, que amava o que fazia e outra coisa não estava em meus planos. Ele apenas sorriu, repetiu a reverência e ficou por isso mesmo.

Pois é... em 1996 eu estava sendo apresentada ao Reiki, primeiro como cliente, depois como aluna dos cursos e, em 1998, já estava aplicando Reiki em amigos. Em 2003, me aposentei para me dedicar exclusivamente a isso. Inexplicável aos olhos da razão.

Mas voltemos a 1996. Me lembrei das observações antigas desse amigo e foi a ele que recorri, desta vez, mais crente e convicta de que existem essas coisas que não sabemos explicar. Na verdade, esse amigo já vinha se tornando, com o correr dos anos, um grande interlocutor de muitas coisas acadêmicas e da vida. Se ele predissera algo que já estava se delineando, saberia me dizer o que significava o que o jovem baiano me havia revelado.

Ele sorriu quando lhe mostrei o colar e me disse:

- Eu sabia que, um dia, voltaríamos ao assunto.

E me deu uma aula completa sobre quem seria essa entidade que se apresentava como sendo a minha maior proteção. Não havia dúvidas, segundo ele, que tudo em mim transpirava Oxum e nunca tinha se aprofundado na questão por conta de minha resposta pouco receptiva.

Pirei. Ele não tinha dito, em 1992, que eu tinha sido marcada pelo “pai” dele? Que história maluca era essa? Outra aula para leigos sobre quem é quem e quantos podem ser... e, o mais estranho, mas muito convincente, era que tudo que ele descrevia combinava comigo: comida que me fazia mal, gostos, etc.

Que mundo encantado... mas me mantive paralela a ele, pois logo antevi que a coisa era mesmo muito complicada e fiquei muito feliz ao saber que eu poderia ser filha, só filha, sem maiores problemas, rituais ou obrigações.

Uns anos depois, indo à casa de minha faxineira – a mesma do conto do “galo” – para levar mantimentos, fui surpreendida, de novo, com o mesmo cumprimento.

Estava na varanda, tomando um refrigerante, quando se aproximou um amigo dela, me olhou e me cumprimentou:

- Salve, filha de Oxum!

Como é que pode?

Eu nunca tinha comentado nadica de nada com ela, não conhecia o tal moço e, portanto, não teria como ele saber da informação. Fiquei olhando meio surpresa, meio estarrecida para essa sabedoria popular sem tamanho, que só poderia nascer, viver e frutificar aqui, nesse país abençoado em sua cultura miscigenada e pródiga.

Quem dá conta desse misticismo?

sábado, 19 de março de 2011

DIGA-ME COM QUEM ANDAS


Na verdade, não sei com quem ando. Sei que ando. Comecei a andar muito cedo, por volta dos 11 meses, segundo dizia a minha mãe, e acho que não parei até hoje.

Com quem ando... com quem andei... nossa... já andei com tanta gente, dos mais variados tipos e jeitos...

Às vezes, paro para pensar nessas coisas...

Já andei com o Reginaldo, aquele aluno “marginal” da escola na zona rural do Município do Rio, onde comecei a dar aulas, assim que me formei. Não sei se você se lembra... o do conto “Reginaldo” . Um “marginal” que me ensinou que confiança está nos olhos e no coração, longe do preconceito.

Andei por favelas (hoje chamadas comunidades) em minhas pesquisas sobre desenvolvimento cognitivo em crianças carentes... lá fiz amizade sincera com pessoas que nem sabiam escrever, que punham seus filhos no cercado junto aos porcos quando saíam para trabalhar porque não tinham com quem deixar... que comiam com as mãos, pois não tinham talheres. Eu PHD e eles analfabetos, me ensinando tanta coisa sobre a cartilha da vida... entrava e saía com passaporte livre, pois “a professora veio pesquisar” . Eles sequer sabiam o que era “pesquisar”, mas a confiança do olhar e o passaporte da amizade diziam tudo e ninguém mexia comigo...

Andei às avessas, com gente do escalão universitário, muitas vezes lutando por direitos humanos até descobrir que para eles isso era só uma fachada a que pouco davam importância... alguns deles apenas se aproveitando da situação para engendrarem lutas políticas para engrandecimento pessoal...

Andei com cocotas em festas socialite me perguntando “o que eu estou fazendo aqui?”.

Andei por aí, meio sem rumo, com pessoas que pouco conheci... tantas vezes buscando os significados da vida...

Andei com místicos para descobrir que não eram tão místicos...

Andei com céticos para descobrir que não eram tão céticos...

Andei só... andei acompanhada...

Como você definiria o que sou? Com quem será que andei, senão comigo mesma durante todo esse tempo, que possa definir o que sou, sozinha ou acompanhada?...

Engraçado... isso era para ser um conto...

sábado, 16 de outubro de 2010

O PAPA


Fui a Roma e não vi o papa. Tinha tanta coisa a fazer na Itália, que, realmente, não deu. Em princípio, nada contra o papa. Era mesmo uma questão de tempo ou, quem sabe, um excesso de terços e ladainhas, já estressantemente vivenciados em meus dez anos de internato. Por conta de reza, portanto, com certeza não estaria eu em falta.

Mas fui ao Vaticano. Palmilhei a cidade atrás das artes, da biblioteca, da própria basílica que é estrondosamente interessante, embora eu não a tenha achado a mais bela do mundo. É difícil derrubar a beleza de Notre Dame, o encanto da Saint Chapelle, a monumental Catedral de Colônia, só para citar algumas, já me esquecendo da Catedral de Milão e da indescritível porta do sol do Batistério de Florença... de qualquer forma, me encantei com muitos dos inumeráveis detalhes da catedral mor da cristandade.

Só não agüentei visitar o tesouro do papa. A santa igreja que me desculpe, mas tudo que aprendi no internato a respeito dos votos de caridade e pobreza foi palmo a palmo desmentido no meio de tanta escandalosa riqueza.

Não tenho nada contra riquezas. Nadica. Cada um que tenha a sua com direito de posse e postura que mais desejar. Sejamos ricos ou pobres a nosso gosto ou desgosto, ninguém tem nada a ver com isso. Se você quer dividir o que tem com alguém que tem menos do que você, problema e gosto seu. Qualquer tipo de julgamento a esse respeito, para mim, está destituído de senso de valor.

Não tenho posições políticas a respeito. Não me considero capitalista, nem socialista. E também não jogo na coluna do meio. Sou nada. Que me considerem alienada, não me importo. Mas sei que sou uma pessoa de profundo bom senso. E não cabe no meu bom senso ter aprendido que os religiosos fazem votos de pobreza e cada papa, sob o argumento de conter a representação de um “Estado” ostente tanta riqueza sem tamanho.

Fui constatar isso ali, nos subterrâneos da Basílica de São Pedro. Cada papa, dos inúmeros que o mundo viu, teve seu próprio manto incrustado de riquezas sem fim, entre ouro, pedras preciosas e bordados transcendentais. Cada um teve seu bastão, seu ostensório, seu anel, seus paramentos, enfim, seu riquíssimo enxoval. Nada passou de um para outro. E pior, que eu saiba, não está em pauta a idéia de doação desses bens a necessitados. Tudo faz parte do patrimônio dessa cidade-estado.

Passar por esse museu, uma vez que se entra, não tem volta. Nos primeiros passos, antevi o que veria e quis voltar. Não era permitido. Uma vez no labirinto, tinha de trilhá-lo até o final. Depois de poucos passos, comecei a passar direto. Na verdade, comecei a passar mal. Meu estômago literalmente embrulhou. Queria ar, queria sair dali. Por que não poderia voltar? Não tinha jeito, tinha de seguir em frente, o que fiz o mais rápido que pude. Para completar, o museu desemboca numa lojinha de recordações, com réplicas de relíquias, coisas sagradas à venda, etc.

Repito: não tenho nada contra riquezas. E não teria nada contra as riquezas do Vaticano. Eles podem ser podres de ricos que para mim não faz diferença alguma. Só não agüento ter sido interna aprendendo votos de pobreza por parte dos religiosos. Não faz sentido. Nenhum. Sejam ricos! Sejam felizes! Só não me peçam para abrir os meus bolsos em dízimos, pois sou paupérrima perante o que vocês tem! Fiquei confusa, completamente confusa com esta visita.

Se algum apreço eu ainda guardava dos princípios de caridade e compaixão cristãs por parte da educação religiosa que tivera, estava literalmente “desconvertida”. E revoltada também. E traída. Não houve explicação que me convencesse. Os argumentos são vários a respeito do patrimônio de Estado. Nada feito. Eu não tenho nada contra riquezas, já disse. Podem estar carregados de ouro, já disse. Só não me venham com discursos de caridade!!! Para mim, isso passou a me parecer fazer favor com chapéu dos outros e, no caso, caridade com o meu chapéu!!! Nada disso.

Enquanto eles não entrarem materialmente na concretização da compaixão pelo outro, o assunto está encerrado para mim. Não tem doação em nome de igreja alguma que eles consigam me convencer a fazer. Minhas doações, a partir daí, passaram a ser diretas, do meu bolso ao consumidor, exceção feita aos Médicos sem Fronteiras e a uma creche sustentada por um amigo que você já conheceu, se leu o conto “a ponte”.

A santa madre igreja me desculpe, mas acho que está muito longe de me convencer que aquele tesouro tem razão de ser. E olha que aquilo é apenas uma amostra! Nem todos os pertences estão ali!

Saí do Vaticano com duas lacunas. Essa e o fato de que a biblioteca mostra apenas um pequeno filão do ouro em forma de conhecimento e documentos que os subterrâneos guardam em seus papiros e tudo que seus livros devem conter. Quanta sabedoria escondida continua guardada e trancada a sete chaves... e por quê? Será que um dia virá a luz?

Fora isso, adorei estar lá. A visita à basílica foi amenizada pelas pinturas da Capela Sistina. Ficaria horas esquecida, exercitando meu pescoço em busca de detalhes daquelas pinturas monumentais. Não fossem os dias contados, não teria saído dali tão cedo, meio puxada pela mão de meu ex que tinha um roteiro cheio de atrações, ainda para o mesmo dia.

Enfim, adorei ter ido. Até pela experiência, pelo dissabor, pela vivência. Não vi o papa. Depois da visita às riquezas, acho que ficaria muito triste em vê-lo. Pareceria uma hipocrisia, pelo menos para mim. Não poderia saudá-lo. Não conseguiria.

Paciência. Tenho minhas limitações de entendimento e compreensão. Não engoli a pílula. Quem sabe, um dia, eu consiga entender para que ela serve. Por enquanto, soaria como veneno e me faria muito mal engoli-la ou deixar de comentar sobre o assunto.

Que você me leia com a condescendência de quem é capaz de entender que não posso calar-me diante da pobreza que vejo diariamente a minha volta e de quem compreende que não consigo entender o discurso doce do dízimo. Não esse dízimo. Os deuses que me perdoem.

sábado, 28 de agosto de 2010

O GALO



Você já foi à Bahia? Não? Então vá.

De preferência, buscando ajuda no Senhor do Bonfim. Guardo a experiência como se tivesse acontecido hoje. Foram quinze dias particularmente interessantes em minha vida, no que se refere ao contato com energias desconhecidas.

Tudo porque eu precisava vender uma casa que havia comprado, no Humaitá, por sonho de meu ex-marido, em conseqüência de uma herança do meu pai. Uma casa em condomínio, na qual vivi por um ano, dez meses, vinte e um dias e nove horas. Pelo contar do tempo, você pode imaginar a alegria intensa que senti ao voltar para meu querido apartamento de Copacabana. É que o condomínio era do tipo “ame-o ou deixe-o”. E eu deixaria meu ex-marido na época, se dependesse disso para sair de lá. Sério.

Para quem conhece o IBAM, no Humaitá, o condomínio fica por trás, trepado morro acima, cinco casas por andar, umas grudadas nas outras. Sem nenhuma privacidade. Nenhuma!!! Eu ouvia tocar a campainha do telefone do meu vizinho e, naturalmente, todo o barulho e o som escandalosamente alto dos aparelhos de som de seus filhos adolescentes, mesmo no decorrer da noite. É preciso acrescentar que tinha de dar exatamente para o meu quarto de dormir. A varanda deles dava para este mesmo quarto, suportando as festas de todos os sábados, até as altas da madrugada, ou melhor, por que não dizer... manhã? E reclamar era completamente inócuo. Não fazia efeito algum. O jeito seria esperar que crescessem, mas pela idade deles, na época, levaria séculos de minha felicidade e ânsia por sossego. Não tinha como me concentrar para estudar, base de minha vida acadêmica. Mas isso nem era o pior! Tinha aquele cheiro de churrasco e cerveja invadindo minhas narinas todos os domingos... e um elevador, em plano inclinado, que funcionava vez por outra. E eu morava no último andar e como as casas tinham dois andares, décimo primeiro andar significava o dobro para quem sobe pelas escadas. Havia quem adorasse. Não eu, com certeza, pois não tinha a opção de ficar em casa: eu trabalhava e tinha de enfrentar as escadas, quer chovesse, quer fizesse sol...

Também não havia muita intimidade. Os vizinhos me visitavam, melhor, me invadiam, por mais reservada que eu “tentasse” ser - lá isso não funcionava, a não ser que eu resolvesse ser, literalmente, grosseira, o que não faz parte do meu temperamento. Não conseguiam se perguntar se eram bem-vindos, ao simples cheiro de um café gostoso que, modéstia à parte, sei fazer muito bem.

Meu ex-marido adorava o lugar. Como viajava muito, curtia os poucos dias que esta casa de suposto veraneio poderia lhe proporcionar. Eu, que ficava ali direto e só saía para trabalhar, fiquei com a parte pesada: a obra da casa, que durou um ano e quase meio e o resto do convívio. Não consegui acabar de escrever um dos meus livros acadêmicos, embora faltasse apenas o último capítulo e a conclusão. Não tinha como, no meio de um bulício e uma agitação constante, da invasão de minha privacidade, nas horas mais impróprias, e, principalmente, do barulho infernal dos vizinhos de baixo.

Também não conseguia ver meus amigos, em minha casa, com a mesma privacidade de sempre. Minhas visitas, desnecessário dizer, combinam com o meu perfil e não achavam muita graça em virem me visitar e não poderem usufruir da minha companhia, senão com o compartilhamento desnecessário de convivas que não eram convidados por mim. Apenas passavam pelo jardim e entravam, convidando-se eles mesmos a serem apresentados e a participarem de conversas que deixavam de ser privadas, naturalmente. Com isso, deixei de receber minhas visitas queridas, como acontecia no meu apto de Copacabana. Pediam desculpas, eram sinceros ao dizerem os motivos de seu afastamento e, simplesmente, desapareciam. Não os condeno. Eu teria feito o mesmo. Caramba, onde fora atracar o meu belo e tranquilo barco...

De veraneio, aquela casa só tinha a aparência para mim. E também não podia chover. O subsolo inundava por uma infiltração vinda direta do morro, por dentro do solo, o que dava a impressão de que a casa poderia despencar morro abaixo, a qualquer instante, problema que só resolvi com uma obra monumental nos oito últimos meses.

Comprar um jornal era uma excursão. Descer pelo plano inclinado (como chamavam aquela “espécie de elevador”), andar três quadras em busca da primeira banca. A padaria? Que padaria? Naquela época, por ali, nenhuma. Farmácia idem. Supermercado, só de carro. Sem contar com subir com as sacolas, em dia de greve de elevador. Mais comentários?

Havia as orquídeas enfeitando o quintal, que eram cultivadas com muito carinho. Tinham vindo do apto de Copacabana onde a coleção chegara a vinte vasos, com floradas todos os anos. Adoraram o quintal ensolarado. Essa era a parte boa. Também havia os pássaros, com seu canto sonoro e sempre primaveril, fosse qual fosse a estação do ano. Eu podia tomar sol como num campo naturalista, quando conseguia fazer minha presença despercebida de meus vizinhos, o que exigia uma estratégia particular ardilosamente arquitetada, é claro. Também resolvi um problema de dor no joelho direito, conseqüência dos tempos em que jogava vôlei no time do colégio. De tanto subir aquelas escadas de inumeráveis degraus, consegui musculatura suficiente para mantê-lo saudável. Gostava de respirar o ar da montanha que ficava logo atrás de mim. A vista das árvores lembrariam repouso, não fosse o constante barulho dos já citados vizinhos de baixo...

Desfiadas as principais razões, voltei radiante para o apartamento de Copacabana, que felizmente não tinha vendido. As orquídeas vieram também e acho que também muito contentes, diante das alegrias de sua dona. Morara naquela rua desde 1973 e é onde estou até hoje, fora esse intervalo de pesadelos. A vida em Copacabana só me inspira boas lembranças. O apartamento é uma graça, com sol pela manhã, lua à noite, sossego de rua meio afastada, com beija-flores na janela (imagine!!!) e tudo à mão, bastando andar uma quadra: farmácia 24 horas, padarias e mercados à disposição.

Dizem que quem compra um barco tem duas alegrias: uma quando compra e outra quando vende. Era o mesmo, com aquela casa. Só que eu não conseguia vendê-la de jeito nenhum!

Mas tudo tem seu tempo e agradeço por isso! Ficou empacada, dando despesas de impostos e manutenção de 1989 a 1993.

Em 1993 precisávamos vendê-la de qualquer jeito, pois o divórcio veio à tona e tínhamos de dividir os bens. Aí é que dou graças à vida. Se não tivesse ficado empacada, talvez o dinheiro tivesse ido embora e eu não teria, então, como negociar os bens. Como disse, tudo tem seu tempo. Só que... continuava lá, grudada, sem sair do meu pé... sem compradores.

Foi então que uma amiga me recomendou ir ao Bonfim. Olhei-a meio crédula, meio incrédula, mas o desespero me convenceu. Segui à risca a receita dada: saia do Rio direto para Salvador, numa sexta-feira, passe pelo mercado modelo, compre flores brancas, vá direto ao Bonfim, acenda uma vela, procure uma das senhoras que cuidam da igreja, peça um vaso, arrume as flores, peça que ela as coloque no altar. Vá a um dos bancos, faça seu pedido e volte direto para o Rio. Nada de passear.

Saí daqui bem cedo na manhã de uma sexta, como mandava o figurino, cheguei ao aeroporto de Salvador, peguei um taxi que me esperou comprar as flores e fui direto para a igreja. Acendi as velas, e busquei uma das tais senhoras. Encontrei imediatamente uma e fiz o meu pedido. Ela gentilmente me trouxe um vaso, no qual arrumei as flores e, como dizia a receita, pedi que ela o colocasse no altar.

É aí que começa a história do galo. A senhora me olhou com um sorriso acolhedor e me perguntou se eu mesma não gostaria de colocar as flores no altar.

- Claro, se me for permitido.

Ela me conduziu ao altar, indicou o lugar onde deveria colocar o vaso e me perguntou:

- Gostaria de ver o sacrário por dentro?

Eu não tinha nenhum interesse em ver sacrário algum por dentro, mas, para retribuir tanta delicadeza, não pude recusar. Ele me instruiu a esperar ali no altar mesmo, enquanto iria buscar a chave. Demorou um pouco e voltou com uma daquelas chaves antiqüíssimas, do tempo do império, enrolada numa corrente meio fina. Entregou-me a chave enrolada e disse:

- Enquanto desenrola a chave, faça o seu pedido.

Será que a mulher lia pensamentos? Pois não é que era justamente da chave de uma casa que eu queria me livrar? Não discuti. Sem fazer nenhum comentário, desenrolei a chave devagar, contrita em meus pensamentos. Finalmente, entreguei a chave à senhora que, sorrindo, me disse.

- Bem, já que estamos aqui, vamos ver o sacrário.


Com esta frase, ficou claro para mim que a visita ao sacrário era apenas uma formalidade. O importante ela já tinha feito, que era me oferecer a oportunidade de “desenrolar a chave”!

Vimos o sacrário e depois de agradecer-lhe, estava pronta para me despedir. Foi quando ela, sempre muito simpática e acolhedora, me disse:

- Uma parte foi feita. Mas é preciso completá-la. Há alguém que trabalha com você que sabe o que deve ser feito a seguir. Pergunte a ela e terá a orientação necessária. Ela também poderá ajudá-la a completar o que falta.

Pelos deuses! Eu não havia dito nada àquela mulher! Como saberia de meus desesperos? Olhei aquele sorriso franco, acolhedor e, sobretudo, sábio. Agradeci sinceramente e voltei direto para o Rio, como mandava a receita. Alguém que trabalha comigo? Que alguém? Onde? Caramba, como achá-la? Na Universidade onde dava aula? Passaram-se os dias. Numa sexta (numa sexta de novo!) dia de minha faxineira, me lembrei que ela era chegada a esses cultos. Resolvi, ainda que discretamente, comentar sobre o assunto. Ela sorriu como quem sabia o que estava acontecendo (ou teria sido só impressão?) e me disse que perguntaria a seu conselheiro espiritual. Na outra sexta, veio com a resposta: ele disse que sabia, sim, o que deveria ser feito e já tinha trazido uma lista com as coisas para comprar: uma casa de cera em miniatura, chave idem e mais um monte de coisas como velas e outros apetrechos dos quais tenho pouca lembrança, mas que me pareceram bem cerimoniais.

- Ok, e o que faremos com isso?

- Vamos fazer uma oferenda num lugar que indicarei à senhora. Já que a senhora mora na zona sul e o lugar tem de ser tranqüilo, podemos ir à Barra da Tijuca. Chegando lá, saberei achar o lugar.


Não sei por que, minha intuição perguntou:

- E, depois de vendida a casa, o que terei de fazer?

Mostrou-me outra lista, para agradecimento, incluindo um galo vivo. Intui que seria sacrificado. Nada feito. Matar bichos não. Definitivamente, agradecia muito, mas dava o caso por encerrado. Pedi que agradecesse sincera e fervorosamente ao seu consultor espiritual, mas que não poderia fazê-lo. Ela disse que voltaria a falar com ele. Uma semana depois, voltou com o recado:

- Ele disse que não tem importância. O galo não precisa morrer, podemos entregá-lo vivo.

- Tem certeza?

- Pode confiar.

- Então tá. Já que estou no barco e não tem bicho morto, vamos em frente.


Comprei a lista inicial e, na outra semana embicamos para a Barra. Em 1993, não tão povoada quanto hoje. Achar uma rua tranqüila, vulgo encruzilhada, foi fácil. Ali ela depositou as oferendas, tomando o cuidado de colocar tudo num arranjo bem interessante, inclusive as comidas. Minha função era apenas estar presente. Eu não precisava pedir nada, segundo ela. “Ele” já sabia de tudo.

Estava eu, ali, peça do sincretismo brasileiro. Respeitosa, disciplinada, confesso que um pouco perplexa, mas contrita.

Desnecessário dizer que vendi a casa em torno de quinze dias. Sem problemas, à vista, pelo preço pedido, sem pechinchas. Num relâmpago. A família mora lá até hoje e simplesmente adora o lugar. Incrível.

Hora de agradecer e comprei toda a lista necessária. Menos o galo. Tinha de ser um galo especial que só minha faxineira sabia onde vendia. Trouxe na véspera do dia da oferenda para que ficasse aqui em casa. Que animal. Lindo! Porte de rei, empinado, garboso. Se eu fosse galinha...

Servi sua majestade com grãos que vieram junto e ele ficou em minha área de serviço até o dia seguinte, sem dar trabalho algum. Também não precisei dar muitas explicações ao meu então marido, pois sua mãe também era chegada a essas coisas (nunca me aprofundei muito em até que ponto) e ele não comentou nada.

Manhã cedo, acomodei as oferendas e o galo, este cuidadosamente embrulhado em jornal para não se debater no carro e seguimos em direção à Barra da Tijuca.

- Ok, perguntei, para onde vamos?

- Para o mesmo lugar, disse a faxineira.

- Mesmo lugar? Como assim? Você não disse que teria de ser o mesmo lugar!!! Eu não sei voltar lá!!!

- Ah, patroa... tem de ser no mesmo lugar!


E agora??? Desespero interno, meu coração aos pulos. Não sei por que sussurrei:

- Só se o galo nos ensinar, ora essa...

Do banco de trás, o galo, que estivera mudíssimo até então soltou um “coc”. Achei estranho e segui em frente. Vou tentar lembrar mais ou menos onde foi e o resto é contar com a memória, nem que a gente fique aqui o dia todo, pensei. Dei a volta por baixo de uma ponte (disso eu me lembrava) e peguei uma das pequenas ruas vicinais. Quando me aproximei de uma esquina, o galo, de novo: “coc”. Um só, como o primeiro. Instintivamente, virei. Dirigi passando por um ou duas quadras e, de novo: “coc”. Virei. Para resumir, os “cocs” me guiaram exatamente ao ponto das oferendas da primeira vez. Sozinha, tenho certeza, eu não o teria encontrado com tanta facilidade, enfiado que era, no meio daquele fim de mundo dos meus deuses! Minha faxineira achando tudo natural. Eu, divina e silenciosamente perplexa!

Descemos, peguei o galo com carinho. Suas penas (plumas?), suaves ao toque, enfeitavam a sua altivez. Deveria segurá-lo, enquanto ela preparava as oferendas, muito ou mais bonitas do que da primeira vez. E o galo? Seria o último. Finalmente, com tudo pronto, deveria depositar o galo ali. E, como mandava o ritual (tinha sido assim, também da primeira vez), sairmos sem olhar para trás, pegarmos o carro e irmos embora. Minha faxineira o fez, sem a menor hesitação. Eu, no entanto, à medida que me afastava, tinha ímpetos de olhar para trás, como a mulher de Ló, no episódio bíblico de Sodoma e Gomorra. Mas não o fiz. Obedeci à ordem do misterioso e do místico. Afastei-me do local deixando para trás o farfalhar forte, garboso e incessante das asas de sua majestade.

Sem saber como, envolvida que fui desde minha ida ao Bonfim, vivi a certeza de que mistérios como esses existem... e desafiam a nossa razão.

sábado, 14 de agosto de 2010

O MARIDO QUE NÃO ERA


Pouco depois de divorciada, em 1996, tive um namorado sociólogo e antropólogo. Conversa vai, beijinhos vêm, acabou sabendo das minhas aventuras de internato. Acredito que ficou curioso por conhecer o testemunho de tantas aventuras, assuntar sobre o ambiente, curtir as sensações. Não sei ao certo as motivações. O fato é que gostaria de conhecer o colégio por dentro, depois de eu contar que era um prédio magnífico, digno de ser conhecido por sua altivez, espaço, acolhimento. Talvez sua formação acadêmica tivesse aguçado sua curiosidade. Acabei providenciando a visita, num lindo domingo ensolarado.

Era preciso telefonar, cumprir a receita protocolar: marcar dia, hora, enfim, todos os requisitos já tão meus conhecidos, mesmo trinta anos depois de ter passado por lá. Tudo na mesma: “quem quer visitar, porque, quem vem, quem não vem”. Tempos e mentes supostamente congelados ou era só preconceito meu? Marcados dia e hora, lá fomos nós. Adverti-o dos possíveis desconfortos: não sabia se, depois de tantos anos, haveria alguma freira que me reconhecesse e, se assim fosse, que não se incomodasse com o preconceito, já que elas teriam conhecido meu ex-marido e poderiam olhá-lo meio de viés. Além disso, havia o fato de ele ser quinze anos mais novo do que eu o que, por si só, mesmo na possibilidade remota de acharem que eu ficara viúva, já chamaria a atenção. Alertado cuidadosamente para isso, tocamos a campainha. O mesmo som, de há tantos anos passados.

Uma freira veio à janela e me apresentei, como sendo a tal ex-aluna visitante. Aguardamos na portaria, à espera de alguma outra religiosa que nos acompanhasse durante a visita. Muito esquisito para mim, que andara por aqueles corredores como quem anda por sua própria casa. Se você leu “o segredo”, logo verá que a superiora mudou. Em 2010 andei sozinha por todos os cantos, a fim de tirar fotos para o blog. A superiora mudou e, provavelmente, os tempos também. Mas, naquela tarde de 1996, tive de esperar que viesse uma religiosa que me tratasse como visita e não como a ex-aluna de tantos anos. Coisas da vida. Para minha surpresa, veio uma freira conhecida, a irmã da enfermaria. Quantas e quantas vezes eu inventara uma dorzinha de barriga só para subir ao quinto andar, refrescando um pouco a cabeça da sala do estudo da tarde. Não me reconheceu, mas, boa anfitriã, honrou a educação que eu mesma recebera, delicadamente nos levando por todos os cantos do prédio, o enorme colégio que precisa mesmo de um guia turístico para traçar todos os seus aposentos e corredores.

Não havia mais internato, o que modificou toda a estrutura dos antigos dormitórios. As salas de estudo, no entanto, continuavam as mesmas, chão impecavelmente lustroso e limpo, ambiente de quietude e discreto luxo. Mesmo cheiro, mesmos recantos que me contavam mil histórias. Meu companheiro era tratado com o maior cuidado e respeito, um tal de senhor para cá, senhor para lá. Ele me olhava com olhares de quem queria desdizer tantas de minhas recomendações anteriores. Nenhum preconceito. De minha parte, nenhuma saudade. Encontrei uma ou outra freira, na verdade, apenas duas, do meu tempo de escola: a professora de matemática (inesquecível) e a professora de pintura em porcelana, doce criatura. Todas bem, como se tivessem tomado formol importado por todos aqueles anos. Soube que muitas de minhas antigas mestras já haviam falecido, outras estavam aposentadas em casas da irmandade, em outros Estados, em algumas das muitas filiais dessas religiosas, espalhadas por todo nosso país.

Para meu companheiro, a visita foi de puro encantamento. O prédio, magnífico por fora e por dentro, recendia a aventura, bom gosto e, por que não dizer, nobreza. Na hora do lanche, fomos brindados com os quitutes da casa. Não resisti e perguntei se tinha “sapo”. O nome foi reconhecido pela irmã da enfermaria. Sorriu. Talvez eu tivesse tocado em algum momento feliz de seu passado. Olhou-me buscando em sua memória o que ou quem eu poderia ter sido. Mas, trinta e poucos anos não passam assim à toa, mesmo eu tendo sido quase filha da casa. Ademais, minha aparência tinha mudado muito, agora com mais de quarenta anos de idade e sem nenhum resquício da disciplinada aluna que eu fora. Senti que não ela conseguia alçar-me em sua memória, mas o “sapo” tinha sido um código de passagem, uma senha de um passado, talvez nostálgico, irrecuperável. Os tempos, com certeza, tinham mudado e, com ele, a juventude não só minha, mas da velha anfitriã. Disse-me que a sobremesa não era mais reconhecida por aquele nome e que, infelizmente, naquele dia não havia nenhum para servir-me. Mas tinha o bolinho de milho, que fazia questão de nos oferecer. Santos deuses, o bolinho de milho que eu tanto detestava... O que dizer, no entanto, diante de tão boa vontade? Rumamos para o refeitório, para meu sacrifício. O cheiro do chá, meu conhecido, mostrava que deveriam ser por volta das 15 horas, horário que reunia a comunidade para o lanche da tarde. Tínhamos chegado um pouco depois e o refeitório já estava vazio. O chá nos foi servido, com os tais bolinhos de milho. Fingi comer um deles, esperando um deslize da freira para passá-lo para o prato de meu companheiro. Boa boca, ele já estava se deliciando com o segundo deles. A freira foi buscar qualquer coisa e me aproveitei da oportunidade para passar-lhe o meu. Quando voltou, vendo meu prato vazio, me ofereceu generosamente mais um. Tentei recusar, dizendo-me satisfeita. Meu companheiro prendia o riso diante de meu constrangimento. Mas, diante da insistência, impossível negar. Ainda mais porque o bolinho era considerado sobremesa e sobremesa, para elas, significava prêmio. Acabei por comer um, com muito sacrifício, em nome dos passeios pelos corredores que esta freira, há trinta anos atrás, em seu antigo ofício, me proporcionara, deixando-me tomar um comprimidinho qualquer antes de voltar vagarosamente para minha sala de estudos, não sem antes passear um pouco pelo terraço.

A tarde, enfim, terminara e fomos gentilmente, levados até os portões do magnífico edifício incrustado no esplendor da Floresta da Tijuca. Na volta, ouvi comentários sociais e antropológicos a respeito de meu preconceito quanto à intolerância das freiras que, ao contrário do que eu preconizara, tinham acompanhado o desenvolvimento de nossa sociedade, tal a generosa forma com que ele fora tratado. Os tempos tinham mudado e eu, no entanto, é quem continuara com uma visão retrógrada em relação àquelas gentis e avançadas religiosas. Engoli o sermão bem quietinha e também perplexa por tão inesperada acolhida.

A vida é muito interessante. Eu nunca tinha me encontrado com aquelas religiosas na rua, durante tantos e tantos anos. Um mês depois, no entanto, passando pela Rua da Assembléia em pleno centro carioca, por incrível que pareça, eis que me deparo nem mais nem menos, com a mesma irmã anfitriã, devidamente acompanhada de uma outra da comunidade. Tinham vindo ao oculista, se não me engano. É preciso esclarecer que, por princípios religiosos, elas nunca saem sozinhas. Estão sempre em dupla ou em tripla. Abordei-a por causa da coincidência, achando interessante nos encontrarmos novamente, um mês depois, após tantos anos sem nunca ter visto nenhuma delas pelas ruas. Ela sorriu e me perguntou:

- E o marido, como está?

- Marido?


Caiu a ficha. Em ambas. Eu, por recuperar, de pronto, toda a minha ciência sobre um preconceito supostamente não existente; ela por sentir-se enganada, traída em sua confiança. Afinal, tratara tão bem a quem?

- Aquele senhor não era seu marido?

- Não, eu me separei há mais de um ano...


A freira que a acompanhava arregalou os olhos:

- Você se separou, minha filha? Por quê? Ele batia em você?

Olhei-a, incrédula! Juro pelos deuses que foi o que ouvi. Apesar de ter sido educada por elas, a pergunta não conseguia fazer sentido para mim!

- Não, ele não me batia.

- Então, por que se separou?

- Ué, não deu certo.

- Minha filha, você está vivendo em pecado diante de deus nosso senhor! Os casamentos são para sempre, até que a morte os separe!

- Irmã, não me sinto vivendo em pecado. Pecado seria submeter-me à infelicidade!

- Mas você está vivendo em duplo pecado agora,
disse a irmã anfitriã, lembrando-me de meu acompanhante.

- Irmã, Deus sabe de minhas intenções.

- Como você consegue dormir à noite? Isso é inconcebível diante das leis de deus!


Não quis lembrá-la do antigo testamento e do monte de “poligamias lícitas” nele contidos. Não valia a pena. Apenas respondi:

- Durmo com meu travesseiro e na santa paz do senhor, que tudo sabe. Poupei-a de acrescentar “e com o meu namorado”. Seria demais.

A outra irmã indagou, como que querendo salvar-me de um naufrágio iminente:

- Você teve filhos?

- Não.

- Ah, minha filha, então ainda há salvação: peça anulação do casamento.

- Anulação do casamento? Depois de 22 anos de casada e divorciada?

- Sim,isso é possível, pois o casamento não foi abençoado! Você pode entrar com um processo no Vaticano.

- Para quê?

- Para redimir-se diante de deus.

- E preciso de um papel dos homens para redimir-me diante de Deus?

- É a única forma de salvar a sua alma. Só então poderá casar-se novamente e viver em paz na fé da santa amada igreja.

- E quem disse que eu quero me casar com o meu namorado?


Foi o suficiente. Quase me arrependi de ter dito isso. As freiras estavam horrorizadas. Pensei que poderiam ter um ataque ali mesmo. Tentei consertar:

- Irmãs, fiquem tranqüilas. Eu me sinto em paz com Deus. Ele sabe de todas as coisas e também da minha retidão.

As freiras pareciam petrificadas. Tive pena, mas não havia mais jeito. Elas estavam perplexas e eu condenada às chamas do inferno para sempre! Destino selado, depois de tantos anos de uma educação religiosa perfeita. Eu tinha posto tudo a perder. Elas pareciam inconsoláveis. A irmã anfitriã baixou os olhos, senti seus dedos buscarem o rosário que eu sei que elas sempre trazem no bolso, um pouco à mostra. Queria assegurar-se de que deus estaria por perto. A outra segurou o crucifixo que trazia ao peito. Foi um momento de constrangimento entre o céu e a terra. Não havia como sossegá-las. Talvez, quem sabe, só na próxima encadernação. Nesta, já estavam mesmo comprometidas demais com seus dogmas. Paciência. Ensaiei uma despedida cortês, logo recebida por elas. Afastaram-se às pressas, querendo distância do convívio com as tentações terrenas e com as infestações desta alma perdida para a fé da igreja para sempre.

Cheguei em casa ávida para contar as novidades ao meu companheiro. Ele apenas sussurrou:

- Quem diria... e eu estava tão crente... Sorriu. Eu me senti em casa. Aconcheguei-me a ele e por minha mente passaram muitas e muitas recordações de hábitos e costumes, felizmente não arraigados em meu coração.

Ficamos, assim, em silêncio, ele tendo percebido meu recolhimento, minha satisfação interna de não estar impregnada por repressões sem sentido. E, como prêmio, condescendente, enlaçou carinhosamente sua ilustre pecadora.

domingo, 2 de maio de 2010

DOGMAS E CRENÇAS


Muita informação para uma menina que acabava de entrar num internato. Minha prática religiosa se resumia a eventuais missas dominicais, levada pela minha mãe e uma prece noturna automatizada e não explicada a um anjo da guarda com quem deito e levanto, com a graça de deus e o divino espírito santo. Sabia também rezar a ave maria e o pai-nosso, não me lembro se completos.

Virgem assim dos conceitos religiosos, fui logo encaminhada para a classe especial de preparação para a primeira comunhão, pois já estava com sete anos, caminhando rápida para os oito, tão logo entrara no colégio.

Ah, a psicologia humana!!! Logo na primeira aula, a freira cismou de dizer que, se fossemos boazinhas, quando morrêssemos, iríamos direto para o céu, onde passaríamos a eternidade na santa contemplação divina.

Eu não queria ir para o céu, ficar sentada pelo resto da minha vida ali, quieta, olhando pra Deus. Ao confessar isso, não sabia do desastre que estaria causando e de todos os sustos que se seguiram. Fui retirada imediatamente da sala, a caminho do gabinete da senhora superiora (assim era chamada a irmã diretora do colégio), como alguém que deveria ser afastada do santo retiro monasterial imediatamente.

- Essa menina não pode conviver conosco, colocando em risco a fé de suas colegas, as verdades divinas, os sacrossantos dogmas que salvam nosso espírito das chamas infernais.

Eu nem sabia o que estava significando aquilo tudo, mas percebia que, pelo visto, eu estava me transformando numa ameaça social. E das graves. Os olhares das freiras, no entanto, não poderiam estar tão assustados quanto os meus, pelo tanto que me lembro da situação, no meio daquelas desconhecidas, mal entrara no colégio, sem entender o que estava acontecendo. Eu não sabia que crime cometera. Eu disse o que me parecia decente e óbvio. Será que elas gostariam de ficar sentadas sem fazer nada, pelo resto da eternidade, olhando para aquele olho dentro de um triângulo, que eu vira no livro de catecismo? Se é que eu sabia o que era a eternidade...

O capelão do colégio, o monge beneditino que acompanhou oito, dos meus dez anos de internato, foi chamado às pressas e, depois do susto inicial, conseguiu resolver a situação, não sem muito trabalho. Lembro-me de seu sorriso condescendente, de sua voz calma, grave, suave, dizendo que eu era apenas uma criança.

Segundo a catequista, no entanto, eu era uma criança que, a seguir por aquele caminho, seria uma ameaça para os dogmas da Igreja. Lembro-me bem dessa freira, olhos sempre amedrontados andando pelos corredores do colégio, incapaz de nos olhar de frente, como se o mundo conspirasse para lhe armar algum ardil. Pobre criatura. E ela tinha sido designada para cuidar de minha formação religiosa, antes que eu pudesse acompanhar as classes normais, com as demais da minha turma. Explico melhor: eu estava no segundo ano escolar e, portanto, um ano atrasada no que se referia aos ensinamentos divinos. Ademais, estava tendo essas aulas com meninas um ano mais novas do que eu e, portanto, exercendo uma péssima influência de irmã mais velha na formação das mentes desses anjinhos infantis.

Estava claro que ela não me considerava anjo algum. O que será, então, que eu seria? Não tinha coragem de perguntar.

Depois de muita contestação, fui acatada novamente, sem precisar da chamada de meus pais ao colégio. Para que você entenda o que isso significa, chamar os pais ao colégio por alguma causa provocada por comportamento era gravíssimo e só ocorria em última instância. Não me lembro de pais que fossem chamados ao colégio com muita freqüência, em meus dez anos de internato. Talvez, quem sabe, umas duas ou três vezes, no máximo, em relação a colegas que tinham enfrentado códigos de ética gravíssimos. Para nós, humanos comuns, esses códigos eram baseados, muitas vezes, em imbecilidades inexplicáveis, mas gravíssimos na sede religiosa da perfeição. Como exemplo, beijar o namorado na quermesse. Lembro-me, até hoje, da aluna em questão, expulsa no mesmo dia: Beth 109.

Quando havia mais de uma aluna com o mesmo nome em uma turma, agregávamos ao nome, o número de internato. Na época, na nossa turma, tínhamos a Beth 5, a Beth 6 e... a Beth 109. Linda menina, lindo namorado. Espero que tenham se casado e sido muito felizes, pois, pelo que me lembro, amavam-se como dois pombinhos.

Mas ainda estou com sete anos, beirando os oito e com um problema religioso a ser enfrentado. Continuaria no colégio, mas... o que fazer com a minha língua? Ficou ali mesmo decidido que eu estaria para sempre proibida de abrir a boca nas aulas de religião. A senhora superiora da época, de olhar não raro amedrontador, foi bem explícita:

- Você não poderá falar nada nas aulas de religião desde hoje até sair do colégio. Limite-se a apenas responder, quando lhe for perguntado.

Assinado o “edital”, com o lacre de fogo da voz da senhora superiora, o padre sorriu, a catequista olhou-me com olhar revoltado e eu fui encaminhada de volta a minha turma, com a primeira lei do meu código de ética registrada em meu cérebro: ”silêncio nas aulas de religião”. Sempre fui disciplinada, para não dizer obediente, em ordens desse tipo. Para mim, eu tinha violado princípios. Não tinha muita idéia do que eram, mas tinha consciência da gravidade da infração.

O que elas não sabiam é que tinham inaugurado, em mim, o maior e melhor princípio filosófico que levei pelo resto de minha vida: um espírito crítico rigoroso sobre dogmas, fossem religiosos ou não. Eu não podia falar, mas esta proibição aguçou meu espírito e meu senso crítico. Se eu não podia falar, talvez eu fosse capaz de fazer perguntas embaraçosas e, se eu era capaz de fazer perguntas embaraçosas, talvez os dogmas fossem coisas que ameaçavam as crenças. E, se ameaçavam as crenças, talvez não fossem tão fortes e consistentes. Se não eram tão fortes e consistentes... bem, é evidente que isto não estava assim tão claro em minha cabeça infantil, mas a semente do mal (no caso, o bem), estava instalada no meu coração e este primeiro confronto com o pensamento dogmático influenciou profundamente a minha formação individual dali por diante.

O que elas não sabiam e nunca passaram a saber, pois com o tempo, naturalmente, se esqueceram do castigo, é que fui fiel ao compromisso assumido: jamais, até os dezoito anos, abri a boca nas aulas de religião, mesmo quando a mestra de classe nos perguntava se tínhamos alguma dúvida. Silenciava, então, não mais por uma obrigação, mas porque estava cada vez mais convencida de que não teria as respostas que buscava. Eu entendera que não era para ter dúvidas sobre dogmas religiosos. Só não conseguiram me convencer de que era obrigada a acreditar neles. Como não falava, nem disso elas desconfiavam. E via-me livre para pensar, sobre tudo aquilo que ouvia, conversando comigo mesma. Na verdade, no fundo, não havia revolta em mim no que eu ouvia. Apenas uma análise silenciosa.

Pobre freira catequista. Agradeço-lhe de todo coração a maior lição religiosa que eu poderia ter tido, mal atravessara os sacrossantos portais da santa fé. Não fosse você, cara irmã, talvez eu não tivesse despertado tão cedo. Espero que, onde quer que esteja, passadas tantas e tantas décadas, um lugar de luz lhe tenha sido reservado por essa magnífica contribuição a minha formação espiritual. Agradecimento sincero, que espero poder fazer, quem sabe, diretamente, em algum plano espiritual, algum dia.

Isto posto, gostaria de saltar uns anos, mais precisamente, seis. Eu estava com treze e minha visão de fé continuava contestadora. Não que eu fosse rebelde. Isso não. Passara pela primeira comunhão, pela crisma, tinha sido cruzada eucarística, filha do sagrado coração de jesus, enfim, todos os quesitos sendo cumpridos, como deve acontecer num colégio religioso. Isso não me incomodava, não mexia com minhas convicções. Não gostava muito dos rituais, mas não me perturbava ser isso ou aquilo. Assistir à missa todos os dias fazia parte do meu cotidiano, como assistir às aulas, tomar banho, me alimentar, estudar, bordar, ter recreio. Tudo isso estava incorporado à rotina e rezava o terço e as ladainhas às 17:30, pensando em mil outras coisas, como acontece com crianças e adolescentes, lábios automatizados na prece.

Mas achava lindo o canto gregoriano, afinadíssimo e melodioso. Até fazia parte do coral da capela, para as missas cantadas dos domingos, que duravam duas longas horas, para deleite do padre capelão. Fazer parte do coral era uma distração, não só porque tínhamos licença para ensaiar uma vez por semana durante um dos estudos da tarde, o que já era uma concessão e desvio da monotonia diária, como também uma forma de fazer alguma coisa ativa, e ainda por cima bonita, durante a missa, no coro da capela, em vez de ficar no banco lá embaixo, assistindo à missa e tomando conta das meninas menores, que cochilavam esperançosas de que as infindáveis preces terminassem e de que a hora do café da manhã chegasse logo. Eu tinha uma bela voz e gostava de cantar. Isso não tinha nada a ver com acreditar num deus sentado lá em cima, cofiando as barbas brancas (por que não seriam ruivas, se ele é eterno?) e olhos perscrutadores, em busca de nossos pecados. Não. Tinha a ver com o encantamento do canto afinado, do conjunto das vozes que acompanhavam o melodioso órgão da capela, pela irmã responsável por nossas aulas de piano e canto. Doce irmã. Disso eu gostava.

Assim transcorreram minhas funções religiosas até os treze anos. Eu era uma menina saudável, ativa, compenetrada, estudiosa, esportista e, segundo as freiras, exemplar. Claro. Minha formação de princesa começara aos sete anos e eu servia de modelo para minhas colegas.

Só não tinham percebido que eu continuava muda nas aulas de religião.

Àquela altura, a irmã catequista não estava mais no colégio, fora transferida para outra casa, em outro estado do país. Havia rodízio sempre, principalmente, quando duas irmãs ficavam muito próximas. Nada podia ser muito pessoal. Quanto preconceito. Mas eu continuava ali, firme, quieta. Não por imposição, como lhe disse, mas porque não me interessava a interlocução.

Naquele ano, em especial, além das costumeiras críticas em meus monólogos interiores, acrescente-se que eu estava em plena adolescência. E adolescente, quando cisma com alguém, não tem jeito. Eu não gostava de minha mestre de classe daquele ano. Os santos não casavam. Contarei uma aventura por conta disso, em outra oportunidade. Por ora, digo que cabia à mestra de classe o ensino religioso da turma. E, infelizmente, para ela, numa das aulas, ela me deu, de bandeja e de presente, uma oportunidade de rebeldia religiosa incontestável. Num dos arroubos entusiásticos de fé, ela nos disse que o santo sacramento da comunhão nos transformava em sacrários vivos de Deus. Que linda metáfora, mas eu não podia deixar passar essa. Não uma adolescente! Quieta, esperei a próxima missa para dar o meu golpe. Comunguei, como todas as moças e esperei o final da missa. A saída da capela para o refeitório seguia um ritual de disciplina minucioso. As alunas eram chamadas por turma, saíam ao mesmo tempo dos bancos, aguardavam o sinal (toque suave de uma castanhola), faziam genuflexão juntas, levantavam-se, viravam-se e saíam, automaticamente, em fila. Organização impecável. Levantei-me com minhas companheiras, saí do banco e me mantive de pé. Todas fizeram genuflexão, eu não, esperei e me virei para sair. Na porta da capela, a mão da irmã coordenadora geral já esperava pelo meu braço e sua voz sussurrou baixinho.

- Você não fez a genuflexão.

Óbvio de ser percebido e eu sabia. Se todos se ajoelham e você fica de pé, é facilmente reconhecida. Sussurrei de volta:

- Não posso.

A freira retrucou:

- Machucou o joelho no treino?

Referia-se ao treino de vôlei, pois eu era do time titular do colégio, com treino oficial às terças e quintas, depois do almoço.

- Não senhora.

Olhou-me interrogativa, mas severa:

- Então, o que houve?

Ela tinha consciência de que falava com uma aluna exemplar.

- Sou um sacrário vivo, porque comunguei. Não posso fazer genuflexão para um sacrário morto.

Meu coração queria sair pela boca, mas eu me sentia uma heroína, como se estivesse fazendo cair em minha armadilha, o resumo do absurdo das convicções religiosas de anos.

- Dirija-se ao gabinete da Superiora e espere lá.

Não dei tempo para que me obrigasse a fazer a genuflexão, abaixei a cabeça e saí rápido, rumo ao meu dia de enfrentamento. Mas estava radiante por dentro, pois eu queria colocar minha mestra em cheque e, pelos deuses, tinha certeza de que conseguiria. Haveria muita confusão antes de resolver esta questão, eu estava certa disso, como toda adolescente que se preza. Até porque eu já tinha feito meu nome no colégio e elas não iriam simplesmente dizer que eu estava ali em nome do absurdo, como acontecera há seis anos atrás. A Superiora era a mesma, o capelão era o mesmo, mas eu estava certa de que o episódio de infância tinha sido esquecido e sobrara a irrepreensível aluna, modelo reconhecido por todos.

Cheguei ao gabinete da superiora, bati, não havia ninguém. A ordem era de que eu entrasse e assim fiz. Estava vazio. Não tínhamos ordem de sentar antes que alguém mais graduado nos desse permissão, ou seja, uma freira, uma professora leiga ou o padre, que eram as pessoas com quem convivíamos. Não havia ninguém do escalão, então, eu deveria ficar em pé. Isto era, tipicamente, a disciplina de um regime de internato da época. Ninguém apareceu por muito tempo. Evidentemente, todos foram tomar o café da manhã, depois da missa. Estar ali, em pé, em jejum, sozinha, era estratégia premeditada, eu sabia disso, uma forma de me fazer refletir no que havia feito, amaciar minha rebeldia para que elas entrassem na minha fragilidade. Não adiantou. Quando entraram, o fizeram em grupo, algo assim como acontece nos filmes que arremedam a Inquisição: a senhora superiora, a vice, a coordenadora geral (a tal que havia me segurado pelo braço na capela) e minha mestre de classe (a tal com quem meu santo não cruzava e que nos dava as aulas de religião naquele ano). A superiora perguntou a razão de minha atitude. Eu, com aquela cara de inocência forçada que só uma adolescente sabe fazer, expus os meus motivos: tinha aprendido na aula de religião que, ao comungarmos, nos transformávamos em sacrários vivos de Deus. Não havia razão para prestar as honras da genuflexão a um sacrário de mármore, que guardava hóstias, mesmo que consagradas. Se eu tinha uma delas dentro de mim, eu valia mais do que um pedaço de mármore.

Olharam-se. Senti que o argumento era forte. A mestra de classe ensaiou uma explicação de que se tratava de uma metáfora. Metáfora ou não, eu tinha comungado e a situação era concreta: não se justificava uma genuflexão. A superiora achou que seria interessante a presença do capelão. Será que ele ainda estaria no colégio ou já teria se retirado para o Convento Beneditino, cuja sede do Alto da Boa Vista abrigava o ancião e mais um grupo de monges que serviam à comunidade local? Claro que estava. Ele jamais desprezaria o café da manhã todo especial que as irmãs lhe preparavam e, bom glutão, o fazia sem pressa, homenageando as atenções que lhe eram consagradas. Demorou a chegar, enquanto nos acomodávamos a um silencio constrangedor. Eu estava firme, meio tonta do jejum, mas firme. O monge entrou, sentou-se e me mandou sentar. Sorriu. Mas nada me quebraria, desta vez. Sentei e ele perguntou diretamente a mim do que se tratava. É claro que ele já sabia. Teria sido contado pela freira que o havia ido buscar, com certeza. Expliquei. Encontrei, novamente, o mesmo sorriso que tinha visto há seis anos. Ele não se lembrava (ou será que se lembrava?), mas eu me lembrava. Procurou contemporizar, explicando o simbolismo do ato, que nada teria a ver com o meu argumento de sacrário vivo ou coisa do gênero. Ataquei frontalmente:

- Então, a irmã ensinou errado?

Ela, ali, à minha frente.

- Não, não ensinou errado, é uma metáfora verdadeira.

- Então, não há motivo para eu fazer a genuflexão.


Olhava para ele firme, convicta, nos olhos. Ele percebia o meu jogo, mas não tinha como desmascará-lo. O argumento era perfeito. Tentou convencer-me pelo exemplo que eu deveria dar a minhas colegas. Supondo que quem comungasse não precisasse fazer genuflexão, como saber quem comungou para ser dispensado do ato? Ademais, era um hábito da santa igreja, como um ritual consagrado, como modificá-lo? Eu firme, na minha teimosia adolescente:

- Devemos falar com o papa, com o bispo ou com alguém que fizesse ver ao Vaticano o absurdo da questão.

Não havia como me convencer e os diálogos eram interrompidos por silêncios reflexivos de todos.

Um monge, a senhora superiora, a vice, a coordenadora geral das alunas, minha mestre de classe, todos ali, sem conseguirem me dobrar. Eu já me sentia vencedora, fosse qual fosse o resultado. Não era digna de castigo, pois estava me pautando em princípios religiosos e não estava desrespeitando ninguém. Era uma discussão de fé, não uma teimosia. Lutava com as armas que eles mesmos me ofereciam. Eu era um sacrário vivo e queria defender isso pela fé à santa madre igreja e seus dogmas. De vez em quando, meu interlocutor masculino encetava algum argumento, mas nada me convencia. E todos retornavam ao silêncio. Eu percebi que eles não me concederiam a razão por nada do mundo. Estavam esperando que eu arrefecesse. Eu não sabia o que fazer. O jejum pesava na minha resistência, o tempo passava. Mas pensei que preferiria desmaiar de fraqueza e estava pronta para isso em vez de ceder. Alguma coisa teria de acontecer. Mas nada acontecia.

O barulho animado do primeiro recreio da manhã me avisou que eram nove e cinqüenta. Eu estava ali desde as sete horas e tinha me levantado às seis. Provavelmente, teria esperado em pé sozinha por cerca de uma hora até que as freiras entrassem, mais o tempo de esperar o padre chegar, as conversas e os silêncios. Eu não estava agüentando mais, até que, talvez o tal anjo do senhor com quem deito e levanto na graça de deus e do espírito santo deve ter-me inspirado.

- Já sei, retruquei.

Todos me olharam.

- Não comungo mais, assim, posso fazer a genuflexão, servir de modelo a minhas colegas, como os senhores querem e não me sentirei mal.

O monge olhou-me com a testa franzida:

- Minha filha, você não pode privar-se de um sacramento tão valioso para a alma.

Eu tinha arranjado uma saída honrosa para a situação, não poderia deixar escapar:

- Não faz mal, Deus sabe de minhas intenções e, sempre que sair do colégio (tínhamos saídas para visitar os pais, nos finais de semana), vou à missa e comungo. Lá ninguém notará que não faço genuflexão.

Acho que o monge também não quis perder a oportunidade de livrar-se da situação melindrosa. Aliás, ninguém ali queria. Então, ficou acertado que eu me deixaria guiar por minha consciência, diante de deus nosso senhor e que o que fizesse fosse feito numa ação fervorosa e cheia de fé. Acedi. Foi-me concedida licença, então, para sair, passar pelo refeitório para pegar uma fruta e seguir para a sala de aula.

Daquele dia em diante, até os dezoito anos de idade, nunca mais comunguei no colégio e nunca mais fui importunada por isso. E como a comunhão estava atrelada à confissão, me livrei de uma só vez, da “obrigatoriedade velada” que existia sobre nós em relação a esses dois sacramentos.