Contos verdadeiros, talvez enfeitados pelo meu amor pela vida. Agradeço a motivação insistente de amigos e amigas, sem a qual eles jamais teriam saído do meu computador.
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sábado, 21 de julho de 2012
QUATRO
Dei uma volta pelo meu passado profissional e fiquei pensando em minha trajetória universitária.
Trabalhei 13 anos um uma universidade particular, como professora de Língua Grega, Cultura Clássica e Língua Portuguesa (haja diversidade...). Desses anos, passei o primeiro também em uma escola do Município do Rio, como professora de português – Comunicação Oral e Escrita, como se denominava, na época. Nos dois últimos, dividi o tempo acadêmico com um conhecido colégio particular, dando aula de Cultura Clássica. Isso mesmo, Cultura Clássica no último ano do ensino fundamental. Só conheço um colégio que se prestou a esse requinte, investindo tão a fundo nas mentes de nossa juventude!
Adorei fazer tudo isso, embora me sentisse dispersa. Fizera doutorado em Linguística e estava doida para aquietar minha mente não horizontalmente, com essa diversidade toda, mas verticalmente em estudos de Psicolinguistica. Precisava de um concurso, pois só uma Universidade Pública me daria essa chance, com a profundidade desejada.
A oportunidade surgiu em 1986, mas, naquela época (seria tão diferente, hoje, em certas universidades?), meus amigos me diziam para não perder tempo com isso:
- As vagas estão marcadas, você está se desgastando à toa. Já sabemos até o nome dos dois que vão entrar.
- Vou fazer, não tenho nada a perder. O máximo que pode acontecer é eu ficar onde já estou.
E fiz. Lembro-me que de março a junho, fora comer, trabalhar e dormir o mínimo possível, minha mente, meus esforços, minha vida se resumiu aos livros. Engoli aquele programa de dez temas, contidos no edital, de todas as formas que eu conhecia. Tinha livros pela mesa, pelo chão, vivia no meio de anotações, leituras as mais diversas, tentando resumir em centímetros cerebrais toda a minha existência como pesquisadora.
Eu dava cerca de 30 horas de aula por semana, o que já era um bocado, entendendo-se que me dividia entre o ensino universitário e aqueles espertíssimos e irrequietos adolescentes do tal colégio particular. Sinceramente, não sei como sobrevivi.
O concurso seria em junho. Lembro-me que, em torno do meu aniversário, em meados de maio, houve um dia em que eu duvidei sobre minha saúde para chegar lá.
O tal colégio era (e ainda é) uma Instituição que pertence a um Mosteiro. Eu ia de carro e, ao subir a rampa de acesso ao setor do colégio, tinha de dar a volta, passando em frente à eminente igreja, magnificamente construída, de fachada portentosa dentro do monastério. Um dia, estacionei o carro, e resolvi descer e entrar. Gosto de lugares de oração, sejam eles quais forem. Não importa a religião, pois não me encaixo em uma ou outra exatamente. Mas casa de oração é casa de oração e meu coração, nas horas mais desavisadas, gosta de visitar uma, sem compromisso. Não precisa ser para pedir ou porque eu necessite. Pode ser simplesmente para entrar, ficar um pouco, sentir o ambiente de recolhimento e sair. Às vezes, entro apenas para agradecer. Não exatamente por uma coisa específica, mas para agradecer em geral. Somos, todos nós, de uma forma ou de outra, pessoas abençoadas, sob um ponto de vista qualquer.
Mas, naquele dia, eu queria pedir. Queria pedir forças para conseguir chegar lá. Não queria pedir para “passar no concurso”. Queria pedir forças para ter condições de lutar. Que o mérito fosse dado a quem fosse, mas queria estar em condições de conseguir lutar como uma boa guerreira.
A nave da igreja estava completamente vazia. Pelo restinho de cheiro de incenso, provavelmente teria havido alguma cerimônia há algum tempo atrás. Eram duas horas da tarde, minhas aulas começariam em torno de duas e meia. Teria sido uma missa ao meio-dia? Talvez... ou alguma cerimônia específica, pelo cheiro de incenso que pairava no ar. Havia, ainda, muitas luzes acesas e isso só me chamou a atenção por causa de um jovem monge que recolhia paramentos e começava a apaga-las.
Não sei por que, pedi por um sinal. Eu nem sabia que tipo de sinal eu queria. Mas é que me dá umas coisas dessas, de vez em quando. Queria um sinal que me orientasse. Orientasse o quê? Não importava muito o quê ou como, mas que me direcionasse para frente.
O monge foi apagando as luzes, quase todas, e retirou-se. A igreja, em penumbra, continuava portentosa.
Contei as luzes acesas: quatro. Olhei em torno de toda a nave. Apenas quatro luzes restavam acesas. Me veio à mente o número quatro. Da lista de dez temas do edital, o que constaria no número quatro? Levantei-me um pouco intrigada e fui dar minhas aulas que se estendiam até o final do dia.
Cheguei em casa e fui aviar as coisas cotidianas indispensáveis a uma dona de casa sem auxiliares. Estava casada, na época. Após o jantar, livros novamente. Faltava apenas um mês para o concurso. Depois, como eu dizia, recomeçaria a viver uma vida de mortal novamente.
Debrucei-me sobre a lista de pontos. Quatro - Gramática Transformacional: princípios e métodos.
Nem pensar! Cruz credo. Dos dez, poderiam cair sete dos quais eu saberia me safar com tranquilidade. Mas os três restantes - Gramática Transformacional, Fonética e Fonologia ou Linguística e Poética - não! Pelos deuses, não! Mas... afinal... eram só luzes dentro de uma igreja, num momento de cansaço e desalento. Que eu não me impressionasse...
De qualquer modo, prestei mais atenção ao ponto quatro naquela semana. Recolhi um material sobressalente, andei pesquisando mais um pouco, sobre um assunto que passara bem longe de minha academia. Nenhum dos cursos que fizera na graduação abordara a gramática transformacional. Idem no mestrado e doutorado. O que eu sabia era fruto de leitura isolada e como o tema nunca me atraíra, ficara com uma visão geral e apenas horizontal do tema, por si só um universo de estudos e pesquisas linguisticas. Ah, sim, também fizera um estágio, após o doutorado, com Miriam Lemle, da UFRJ, a pessoa que mais entendia do assunto no Brasil. Mas nada que me desse uma noção suficiente para enfrentar um concurso. Em outros termos, era um mar de conhecimento do qual eu dominava apenas um palmo em sua profundidade. Mas olhei melhor o tema, naquela semana, embora o fizesse com certa cautela, desconfiança e, por que não dizer... descrédito. Afinal, eu estava muito vulnerável e... eram apenas quatro luzes deixadas acesas a esmo por um monge ao cuidar de uma igreja.
O tempo passou e esqueci o evento. Saía para meu trabalho rememorando, pelos caminhos, o que estudara, buscando detalhes do que poderia cair sobre um assunto ou outro. Se apenas sorteassem o tema e nos deixassem fazer a prova, seria ótimo. Mas eu sabia que eram apenas temas e que, uma vez sorteado um deles, a banca apontaria uma ou várias questões sobre o assunto. E teríamos uma hora de consulta e três para fazermos a prova escrita.
Vencida esta etapa, viria a prova didática (prova de aula) e, finalmente, a prova de títulos. Por tudo que eu já tinha passado, lutado, conquistado, publicado, a prova de títulos era a única na qual eu nem pensava. Nota garantida. As outras duas é que eram as pedras do caminho, sendo que a escrita era a mais temida de todas.
Chegou o dia da prova. Lembro-me nitidamente que, ao sentar-me na cadeira esperando que a banca entrasse e sorteasse o ponto, a visão da igreja e das quatro luzes, de repente, concretizou-se em minha mente. Meu coração deu um salto. Não, não pode ser.
Enfim, a mão de um dos concorrentes tirou da caixa o número. Um: Fonética e Fonologia. Os professores da banca leram a questão que haviam preparado - Fonética e Fonologia: visão sincrônica e visão diacrônica.
Dois pensamentos vieram juntos a minha mente de uma só vez: “não foi o ponto quatro, viu? Que besteira!!!” E, logo após: “Fonética e Fonologia! E agora?” Um arrepio de frio me subiu pela espinha e, imediatamente, congelou meu cérebro. Depois, esquentou na mesma proporção. Adrenalina pura. O coração disparou: “Estou ferrada”. Olhei em torno. Todos os olhos esbugalhados como os meus. Eu não era a única apavorada. No meio do desespero, quando se está no mesmo barco, as pessoas se juntam. Todos sorriram amarelado juntos. Seis concorrentes levantaram-se e entregaram a prova em branco. De fato, o tema era muito específico e de pouco conhecimento na área. Era difícil achar alguém especializado no assunto. Talvez, quem sabe, alguém da banca... apenas! Poderíamos apontar a dedo os profissionais que entendiam de Fonética e Fonologia no Brasil... e acho que não encheríamos os dedos de uma das mãos. Daí a estupefação de todos. Mas era área de Linguistica. Não havia como embargar.
Esquecida do número quatro, pensei: “Bem, eu e todo mundo estamos apavorados. É colocar a cabeça para funcionar.” Tirei meus apontamentos. Felizmente, tentara estudar com mais afinco exatamente os pontos em que me sentia mais frágil, mas é que não havia mesmo muito o que se estudar do tema. O fato é que me lembrei, como uma luz vinda do céu, de um eminente professor que tivera no mestrado: Silvio Elia, de História da Linguistica. Eu simplesmente adorava aquela aula. O homem era um linguista filósofo. Ou seria um filósofo linguista? Aparentemente, sua aula era monótona. Mas só aparentemente. Logo nas primeiras semanas eu descobrira o segredo: era só fazer uma pergunta que o homem se levantava, se esquecia daquele caderninho (ele dava aula lendo um tal caderninho e filosofando sobre as frases que lia), ia para o quadro (quadro-negro na época) e dava um show. E eu me transformara em sua aluna favorita, tenho plena consciência disso, pois quando eu entrava em sala, às vezes, um pouco atrasada por conta dos compromissos profissionais, ele sorria com os olhos. Eu pedia desculpas, me sentava, na primeira fila, enquanto muitos de meus colegas, em seus cantos, disfarçadamente corrigiam provas ou liam outras coisas (que desperdício!). Eu abria meu caderno de anotações e ficava esperando a primeira chance de lhe fazer uma pergunta. E... descortinava-se a festa.
De modo geral, as pessoas não gostavam de História da Linguistica, então, ele praticamente ficava a minha disposição.
Pois então... naquele instante de pavor linguístico, em plena prova, me lembrei do caderno com as anotações de aula do Professor Silvio Elia. Claro, estava entre os livros que eu tinha levado para consulta, caso alguma coisa de história da Linguistica caísse na prova. Mal sabia que serviria para muito mais! Estava tudo ali, desde os Vedas, passando pelos primeiros eventos de Fonética na Gramática Comparativa, até os últimos disparos do Transformacionalismo. Na primeira hora, a hora de consulta, fiz um rapidíssimo esquema, com os autores principais que atravessavam os séculos e fixei os pontos principais. . Acho que desceu um santo. Não desceu o próprio Silvio Elia porque ele ainda estava vivo. Dos aspectos históricos ficou mais fácil puxar as teorias sincrônicas e diacrônicas e a redação começou a tomar forma. Silvio Eli serviu como a espinha dorsal da linha dos meus pensamentos.
Escrevi dez páginas de papel almaço (lembram do papel almaço?) e entreguei a prova no último minuto. Nem eu poderia acreditar. Tirei dois dez e um nove, dos três membros da banca (um deles não dava dez para ninguém).
Ufa. Primeira etapa vencida.
No dia seguinte, fui mais tranquila para o sorteio da prova didática. Teríamos 24 horas para preparar uma aula, então, mesmo que o ponto fosse ruim, eu teria tempo para me preparar.
Só de uma coisa eu não sabia. Pensei que seria o mesmo ponto para todos, o que nos deixaria mais ou menos nas mesmas condições de comparação para a nota. Claro que uns seriam, por sorte, beneficiados por saberem mais sobre o tema. Mesmo assim, seria um método melhor de comparação, segundo minha visão. Mas não foi assim. A banca resolveu ir sorteando a esmo para cada pessoa e disse que não faria uma questão sobre cada assunto. Poderíamos simplesmente sortear o ponto e prepararmos a aula em cima de uma parte do tema ou todo ele, como preferíssemos.
Quando fui retirar meu ponto, minha mão tremeu. “Seja o que os deuses quiserem”. Entreguei o papelzinho para os membros da banca. Ponto quatro. Senti uma ligeira exclamação por parte dos colegas (uns de alívio outros de solidariedade). O ponto seria péssimo para qualquer um. Quem, nesse mundo dos meus deuses entendia de Gramática Transformacional? Só mesmo a tal Miriam Lemle, da UFRJ, provavelmente. Todos nós outros apenas a olhavam com cara de que “tem doido para tudo, até para entender de Gramática Transformacional!”
Ai, meus deuses! E caiu para mim! Bem que eu tinha sido avisada... A banca sorriu. Eu não sabia se de pena ou por deixar em vantagem aqueles tais dois concorrentes que todos diziam serem os donos das vagas. Não importa. Guerreira é guerreira. Sorri de volta. Eles não me conheciam. Não lhes daria pistas sobre minhas competências ou incompetências...
Agradeci aos deuses e à vida por um estágio que havia feito com a Miriam Lemle após o meu doutorado. Eu não tinha aprendido o que era a Gramática Transformacional, mas, com certeza, pelo menos, pegara o “jeito” de como falar sobre ela.
Voltei para casa, agradecida às luzes, mesmo que não tenha dado tanta importância a elas quanto acho que deveria, quando as vi. Pelo menos, tinha-me detido mais no tema, por uma semana, por pura “superstição”.
E foi o que me salvou. Dei a aula, tirei oito e passei na vaga do concurso. Fui professora dessa universidade pelos dezoito anos seguintes e lá me realizei profissionalmente de modo pleno e entregue aos mais belos estudos de Psicolinguistica que poderia ter feito apenas lá. Sonho realizado.
Nunca mais desprezei “sinais” desde que pudesse me dar conta deles.
Na semana passada, uma amiga de São Paulo veio passar férias no Rio. Se você leu o conto “Cris”, sabe de quem se trata. Entre os pontos turísticos, é claro que estava esta magnífica igreja, visitada por quase todos os visitantes da cidade, por sua beleza interior, folheada a ouro e, também, por seus rituais gregorianos. Minha amiga é católica e, portanto, essa visita não poderia passar batido.
Foi então que, entrando novamente na nave, depois de tantos e tantos anos (vinte e seis para ser mais precisa), me lembrei daquela mocinha exaurida que ali entrara duas vezes: uma para pedir forças e outra para agradecer.
Nesta terceira vez, apenas agradeci. Agradeci pela vida, por estar ali, por coisas que sei e também por muitas que ainda não sei.
E, claro, para tirar uma foto e agradecer, mais uma vez, àquele momento místico.
Não apenas quatro, mas várias luzes estavam acesas, como que comemorando um belo instante de vida!
sábado, 28 de agosto de 2010
O GALO

Você já foi à Bahia? Não? Então vá.
De preferência, buscando ajuda no Senhor do Bonfim. Guardo a experiência como se tivesse acontecido hoje. Foram quinze dias particularmente interessantes em minha vida, no que se refere ao contato com energias desconhecidas.
Tudo porque eu precisava vender uma casa que havia comprado, no Humaitá, por sonho de meu ex-marido, em conseqüência de uma herança do meu pai. Uma casa em condomínio, na qual vivi por um ano, dez meses, vinte e um dias e nove horas. Pelo contar do tempo, você pode imaginar a alegria intensa que senti ao voltar para meu querido apartamento de Copacabana. É que o condomínio era do tipo “ame-o ou deixe-o”. E eu deixaria meu ex-marido na época, se dependesse disso para sair de lá. Sério.
Para quem conhece o IBAM, no Humaitá, o condomínio fica por trás, trepado morro acima, cinco casas por andar, umas grudadas nas outras. Sem nenhuma privacidade. Nenhuma!!! Eu ouvia tocar a campainha do telefone do meu vizinho e, naturalmente, todo o barulho e o som escandalosamente alto dos aparelhos de som de seus filhos adolescentes, mesmo no decorrer da noite. É preciso acrescentar que tinha de dar exatamente para o meu quarto de dormir. A varanda deles dava para este mesmo quarto, suportando as festas de todos os sábados, até as altas da madrugada, ou melhor, por que não dizer... manhã? E reclamar era completamente inócuo. Não fazia efeito algum. O jeito seria esperar que crescessem, mas pela idade deles, na época, levaria séculos de minha felicidade e ânsia por sossego. Não tinha como me concentrar para estudar, base de minha vida acadêmica. Mas isso nem era o pior! Tinha aquele cheiro de churrasco e cerveja invadindo minhas narinas todos os domingos... e um elevador, em plano inclinado, que funcionava vez por outra. E eu morava no último andar e como as casas tinham dois andares, décimo primeiro andar significava o dobro para quem sobe pelas escadas. Havia quem adorasse. Não eu, com certeza, pois não tinha a opção de ficar em casa: eu trabalhava e tinha de enfrentar as escadas, quer chovesse, quer fizesse sol...
Também não havia muita intimidade. Os vizinhos me visitavam, melhor, me invadiam, por mais reservada que eu “tentasse” ser - lá isso não funcionava, a não ser que eu resolvesse ser, literalmente, grosseira, o que não faz parte do meu temperamento. Não conseguiam se perguntar se eram bem-vindos, ao simples cheiro de um café gostoso que, modéstia à parte, sei fazer muito bem.
Meu ex-marido adorava o lugar. Como viajava muito, curtia os poucos dias que esta casa de suposto veraneio poderia lhe proporcionar. Eu, que ficava ali direto e só saía para trabalhar, fiquei com a parte pesada: a obra da casa, que durou um ano e quase meio e o resto do convívio. Não consegui acabar de escrever um dos meus livros acadêmicos, embora faltasse apenas o último capítulo e a conclusão. Não tinha como, no meio de um bulício e uma agitação constante, da invasão de minha privacidade, nas horas mais impróprias, e, principalmente, do barulho infernal dos vizinhos de baixo.
Também não conseguia ver meus amigos, em minha casa, com a mesma privacidade de sempre. Minhas visitas, desnecessário dizer, combinam com o meu perfil e não achavam muita graça em virem me visitar e não poderem usufruir da minha companhia, senão com o compartilhamento desnecessário de convivas que não eram convidados por mim. Apenas passavam pelo jardim e entravam, convidando-se eles mesmos a serem apresentados e a participarem de conversas que deixavam de ser privadas, naturalmente. Com isso, deixei de receber minhas visitas queridas, como acontecia no meu apto de Copacabana. Pediam desculpas, eram sinceros ao dizerem os motivos de seu afastamento e, simplesmente, desapareciam. Não os condeno. Eu teria feito o mesmo. Caramba, onde fora atracar o meu belo e tranquilo barco...
De veraneio, aquela casa só tinha a aparência para mim. E também não podia chover. O subsolo inundava por uma infiltração vinda direta do morro, por dentro do solo, o que dava a impressão de que a casa poderia despencar morro abaixo, a qualquer instante, problema que só resolvi com uma obra monumental nos oito últimos meses.
Comprar um jornal era uma excursão. Descer pelo plano inclinado (como chamavam aquela “espécie de elevador”), andar três quadras em busca da primeira banca. A padaria? Que padaria? Naquela época, por ali, nenhuma. Farmácia idem. Supermercado, só de carro. Sem contar com subir com as sacolas, em dia de greve de elevador. Mais comentários?
Havia as orquídeas enfeitando o quintal, que eram cultivadas com muito carinho. Tinham vindo do apto de Copacabana onde a coleção chegara a vinte vasos, com floradas todos os anos. Adoraram o quintal ensolarado. Essa era a parte boa. Também havia os pássaros, com seu canto sonoro e sempre primaveril, fosse qual fosse a estação do ano. Eu podia tomar sol como num campo naturalista, quando conseguia fazer minha presença despercebida de meus vizinhos, o que exigia uma estratégia particular ardilosamente arquitetada, é claro. Também resolvi um problema de dor no joelho direito, conseqüência dos tempos em que jogava vôlei no time do colégio. De tanto subir aquelas escadas de inumeráveis degraus, consegui musculatura suficiente para mantê-lo saudável. Gostava de respirar o ar da montanha que ficava logo atrás de mim. A vista das árvores lembrariam repouso, não fosse o constante barulho dos já citados vizinhos de baixo...
Desfiadas as principais razões, voltei radiante para o apartamento de Copacabana, que felizmente não tinha vendido. As orquídeas vieram também e acho que também muito contentes, diante das alegrias de sua dona. Morara naquela rua desde 1973 e é onde estou até hoje, fora esse intervalo de pesadelos. A vida em Copacabana só me inspira boas lembranças. O apartamento é uma graça, com sol pela manhã, lua à noite, sossego de rua meio afastada, com beija-flores na janela (imagine!!!) e tudo à mão, bastando andar uma quadra: farmácia 24 horas, padarias e mercados à disposição.
Dizem que quem compra um barco tem duas alegrias: uma quando compra e outra quando vende. Era o mesmo, com aquela casa. Só que eu não conseguia vendê-la de jeito nenhum!
Mas tudo tem seu tempo e agradeço por isso! Ficou empacada, dando despesas de impostos e manutenção de 1989 a 1993.
Em 1993 precisávamos vendê-la de qualquer jeito, pois o divórcio veio à tona e tínhamos de dividir os bens. Aí é que dou graças à vida. Se não tivesse ficado empacada, talvez o dinheiro tivesse ido embora e eu não teria, então, como negociar os bens. Como disse, tudo tem seu tempo. Só que... continuava lá, grudada, sem sair do meu pé... sem compradores.
Foi então que uma amiga me recomendou ir ao Bonfim. Olhei-a meio crédula, meio incrédula, mas o desespero me convenceu. Segui à risca a receita dada: saia do Rio direto para Salvador, numa sexta-feira, passe pelo mercado modelo, compre flores brancas, vá direto ao Bonfim, acenda uma vela, procure uma das senhoras que cuidam da igreja, peça um vaso, arrume as flores, peça que ela as coloque no altar. Vá a um dos bancos, faça seu pedido e volte direto para o Rio. Nada de passear.
Saí daqui bem cedo na manhã de uma sexta, como mandava o figurino, cheguei ao aeroporto de Salvador, peguei um taxi que me esperou comprar as flores e fui direto para a igreja. Acendi as velas, e busquei uma das tais senhoras. Encontrei imediatamente uma e fiz o meu pedido. Ela gentilmente me trouxe um vaso, no qual arrumei as flores e, como dizia a receita, pedi que ela o colocasse no altar.
É aí que começa a história do galo. A senhora me olhou com um sorriso acolhedor e me perguntou se eu mesma não gostaria de colocar as flores no altar.
- Claro, se me for permitido.
Ela me conduziu ao altar, indicou o lugar onde deveria colocar o vaso e me perguntou:
- Gostaria de ver o sacrário por dentro?
Eu não tinha nenhum interesse em ver sacrário algum por dentro, mas, para retribuir tanta delicadeza, não pude recusar. Ele me instruiu a esperar ali no altar mesmo, enquanto iria buscar a chave. Demorou um pouco e voltou com uma daquelas chaves antiqüíssimas, do tempo do império, enrolada numa corrente meio fina. Entregou-me a chave enrolada e disse:
- Enquanto desenrola a chave, faça o seu pedido.
Será que a mulher lia pensamentos? Pois não é que era justamente da chave de uma casa que eu queria me livrar? Não discuti. Sem fazer nenhum comentário, desenrolei a chave devagar, contrita em meus pensamentos. Finalmente, entreguei a chave à senhora que, sorrindo, me disse.
- Bem, já que estamos aqui, vamos ver o sacrário.
Com esta frase, ficou claro para mim que a visita ao sacrário era apenas uma formalidade. O importante ela já tinha feito, que era me oferecer a oportunidade de “desenrolar a chave”!
Vimos o sacrário e depois de agradecer-lhe, estava pronta para me despedir. Foi quando ela, sempre muito simpática e acolhedora, me disse:
- Uma parte foi feita. Mas é preciso completá-la. Há alguém que trabalha com você que sabe o que deve ser feito a seguir. Pergunte a ela e terá a orientação necessária. Ela também poderá ajudá-la a completar o que falta.
Pelos deuses! Eu não havia dito nada àquela mulher! Como saberia de meus desesperos? Olhei aquele sorriso franco, acolhedor e, sobretudo, sábio. Agradeci sinceramente e voltei direto para o Rio, como mandava a receita. Alguém que trabalha comigo? Que alguém? Onde? Caramba, como achá-la? Na Universidade onde dava aula? Passaram-se os dias. Numa sexta (numa sexta de novo!) dia de minha faxineira, me lembrei que ela era chegada a esses cultos. Resolvi, ainda que discretamente, comentar sobre o assunto. Ela sorriu como quem sabia o que estava acontecendo (ou teria sido só impressão?) e me disse que perguntaria a seu conselheiro espiritual. Na outra sexta, veio com a resposta: ele disse que sabia, sim, o que deveria ser feito e já tinha trazido uma lista com as coisas para comprar: uma casa de cera em miniatura, chave idem e mais um monte de coisas como velas e outros apetrechos dos quais tenho pouca lembrança, mas que me pareceram bem cerimoniais.
- Ok, e o que faremos com isso?
- Vamos fazer uma oferenda num lugar que indicarei à senhora. Já que a senhora mora na zona sul e o lugar tem de ser tranqüilo, podemos ir à Barra da Tijuca. Chegando lá, saberei achar o lugar.
Não sei por que, minha intuição perguntou:
- E, depois de vendida a casa, o que terei de fazer?
Mostrou-me outra lista, para agradecimento, incluindo um galo vivo. Intui que seria sacrificado. Nada feito. Matar bichos não. Definitivamente, agradecia muito, mas dava o caso por encerrado. Pedi que agradecesse sincera e fervorosamente ao seu consultor espiritual, mas que não poderia fazê-lo. Ela disse que voltaria a falar com ele. Uma semana depois, voltou com o recado:
- Ele disse que não tem importância. O galo não precisa morrer, podemos entregá-lo vivo.
- Tem certeza?
- Pode confiar.
- Então tá. Já que estou no barco e não tem bicho morto, vamos em frente.
Comprei a lista inicial e, na outra semana embicamos para a Barra. Em 1993, não tão povoada quanto hoje. Achar uma rua tranqüila, vulgo encruzilhada, foi fácil. Ali ela depositou as oferendas, tomando o cuidado de colocar tudo num arranjo bem interessante, inclusive as comidas. Minha função era apenas estar presente. Eu não precisava pedir nada, segundo ela. “Ele” já sabia de tudo.
Estava eu, ali, peça do sincretismo brasileiro. Respeitosa, disciplinada, confesso que um pouco perplexa, mas contrita.
Desnecessário dizer que vendi a casa em torno de quinze dias. Sem problemas, à vista, pelo preço pedido, sem pechinchas. Num relâmpago. A família mora lá até hoje e simplesmente adora o lugar. Incrível.
Hora de agradecer e comprei toda a lista necessária. Menos o galo. Tinha de ser um galo especial que só minha faxineira sabia onde vendia. Trouxe na véspera do dia da oferenda para que ficasse aqui em casa. Que animal. Lindo! Porte de rei, empinado, garboso. Se eu fosse galinha...
Servi sua majestade com grãos que vieram junto e ele ficou em minha área de serviço até o dia seguinte, sem dar trabalho algum. Também não precisei dar muitas explicações ao meu então marido, pois sua mãe também era chegada a essas coisas (nunca me aprofundei muito em até que ponto) e ele não comentou nada.
Manhã cedo, acomodei as oferendas e o galo, este cuidadosamente embrulhado em jornal para não se debater no carro e seguimos em direção à Barra da Tijuca.
- Ok, perguntei, para onde vamos?
- Para o mesmo lugar, disse a faxineira.
- Mesmo lugar? Como assim? Você não disse que teria de ser o mesmo lugar!!! Eu não sei voltar lá!!!
- Ah, patroa... tem de ser no mesmo lugar!
E agora??? Desespero interno, meu coração aos pulos. Não sei por que sussurrei:
- Só se o galo nos ensinar, ora essa...
Do banco de trás, o galo, que estivera mudíssimo até então soltou um “coc”. Achei estranho e segui em frente. Vou tentar lembrar mais ou menos onde foi e o resto é contar com a memória, nem que a gente fique aqui o dia todo, pensei. Dei a volta por baixo de uma ponte (disso eu me lembrava) e peguei uma das pequenas ruas vicinais. Quando me aproximei de uma esquina, o galo, de novo: “coc”. Um só, como o primeiro. Instintivamente, virei. Dirigi passando por um ou duas quadras e, de novo: “coc”. Virei. Para resumir, os “cocs” me guiaram exatamente ao ponto das oferendas da primeira vez. Sozinha, tenho certeza, eu não o teria encontrado com tanta facilidade, enfiado que era, no meio daquele fim de mundo dos meus deuses! Minha faxineira achando tudo natural. Eu, divina e silenciosamente perplexa!
Descemos, peguei o galo com carinho. Suas penas (plumas?), suaves ao toque, enfeitavam a sua altivez. Deveria segurá-lo, enquanto ela preparava as oferendas, muito ou mais bonitas do que da primeira vez. E o galo? Seria o último. Finalmente, com tudo pronto, deveria depositar o galo ali. E, como mandava o ritual (tinha sido assim, também da primeira vez), sairmos sem olhar para trás, pegarmos o carro e irmos embora. Minha faxineira o fez, sem a menor hesitação. Eu, no entanto, à medida que me afastava, tinha ímpetos de olhar para trás, como a mulher de Ló, no episódio bíblico de Sodoma e Gomorra. Mas não o fiz. Obedeci à ordem do misterioso e do místico. Afastei-me do local deixando para trás o farfalhar forte, garboso e incessante das asas de sua majestade.
Sem saber como, envolvida que fui desde minha ida ao Bonfim, vivi a certeza de que mistérios como esses existem... e desafiam a nossa razão.
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domingo, 23 de maio de 2010
ÉSQUILO

Se você já leu o conto “Madre”, entenderá sua influência em minha formação em cultura clássica na universidade onde fiquei por muitos anos.
Entre os autores gregos, Ésquilo era seu favorito. Sabia suas peças de cor, com sua memória prodigiosa, mesmo aos oitenta anos. Memória? Na verdade eu não sei como denominar o seu cérebro nesse sentido. Ela não fazia a chamada na turma. Após a aula, abria o diário de classe e ia recitando os nomes: Ana veio, Ana Lucia não veio porque o marido está doente, Angela está com gripe, Angelina veio... 45 alunos em cada turma!
Assim, saber sobre Ésquilo e citá-lo era uma façanha das menores... e como gostava muito do autor, suas peças tinham privilégio na programação do curso, que tinha de ser seguida religiosamente por mim.
Ah, Ésquilo, de quem ela falava como se estivesse falando de um primo da família... e, claro, isso me influenciou bastante nas minhas aulas de juventude. Mas o fato esdrúxulo e fantástico aconteceu em uma manhã de quarta-feira, na aula de cultura clássica, e merece ser descrito, tanto pelo fantástico da situação, quanto pela reação da turma.
Amo os trágicos, sem exceção. Mas me parecia que Ésquilo tinha o dom da invocação aos deuses, por ser, talvez, o que mais fez reflexões filosóficas a respeito deles. E embora possa dizer o mesmo de meus igualmente amados Eurípides e Sófocles, jamais os invoquei com tanta convicção como o fazia com ele. Acredite você ou não, embora eu não tenha religião, tenho meus deuses e heróis protetores pedindo sempre que olhem por esta alma panteísta em suas excursões dentro ou fora do Olimpo. Que assim seja.
Libações feitas, vamos aos fatos:
Um dia, entrei em aula com a programação de uma tragédia clássica. Lembro-me até hoje do mapa dessa sala: retangular, no segundo andar, sala 201. A porta dando diretamente para um corredor comprido, aberta pela lateral, próxima à mesa do professor. Uma das poucas que ainda guardavam as características da academia clássica – tinha um estrado alto de madeira, com a mesa no centro dele e o quadro negro atrás. Portentoso. Agora, quase trinta anos depois, tudo deve ter mudado bastante. Mas quem teve aula comigo, naquela época, com certeza, se lembra disso.
Entrei, deixei as pastas e livros sobre a mesa, me virei para o quadro, escrevi o nome de Ésquilo e da tragédia que seria dada naquele dia. Aula típica dos anos 70. Mas eu sempre gostei de brincar com os alunos, em sala, pois, afinal, uma aula inteira sem uma piadinha ou outra é difícil de agüentar. Assim, antes de começar a falar sobre o autor, soltei a frase:
- Hoje vamos falar de uma das peças mais importantes da Literatura Grega. Que Ésquilo nos proteja.
Coincidentemente, talvez levada pelo vento, a porta entreabriu-se. Deixei-a como estava e não perdi a oportunidade:
- Que seja bem-vindo! E que eu faça jus a seu nome.
Desci do estrado, dando ao grande dramaturgo clássico o lugar de honra da sala. Para levar adiante o clima da peça, pedi permissão ao mestre e que ele me protegesse em minha aula e passei a falar sobre o autor e o texto em questão. Também para manter o clima alimentado pela presença dos deuses na peça, no final da aula, voltei-me novamente para a mesa em cima do estrado, eu abaixo dele e disse:
- Obrigada por sua presença, grande mestre. Espero te-lo apresentado à altura. Seja sempre bem-vindo!
O vento provavelmente resolveu colaborar mais uma vez e a porta que se mantivera entreaberta até então, fechou-se novamente.
Não é preciso dizer: cerca de cinco alunos trancaram a inscrição na disciplina.
Nunca mais invoquei deuses ou heróis clássicos em minhas aulas. Pelo menos, não em voz alta...
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