Contos verdadeiros, talvez enfeitados pelo meu amor pela vida. Agradeço a motivação insistente de amigos e amigas, sem a qual eles jamais teriam saído do meu computador.
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sábado, 26 de março de 2011
DÁ PARA EXPLICAR?
1996. Eu estava em Salvador, num congresso sobre HIV/AIDS, organizado pelo Ministério da Saúde. Naquela época eu era coordenadora de um dos meus projetos favoritos: atendimento preventivo e de acompanhamento a portadores de HIV e doenças sexualmente transmissíveis para a comunidade de surdos. Como me meti nisso? Ora, porque os surdos não tinham acesso à divulgação comum, sempre auditiva e sempre em Língua Portuguesa. Como eu tinha um projetão voltado para a comunidade de surdos e tudo que pudesse envolver processos de comunicação em Língua de Sinais, acabei me envolvendo com isso também.
O congresso estava sendo um sucesso e nosso trabalho foi brindado com um prêmio especial, dada a especificidade do trabalho: tudo era feito em Língua Brasileira de Sinais, desde a divulgação e propaganda, até o atendimento no hospital universitário. Dava um trabalhão. Mas era simplesmente magnífico ver como as coisas andam, nesse país, quando a gente quer. O povo brasileiro é pródigo, generoso, cuidadoso. O projeto conseguiu espalhar-se por quase todo o Brasil, diga-se, por quase todas as comunidades de surdos do país, com ajuda de custo que aparecia de até onde os deuses duvidam. E o Ministério da Saúde, nesse item, foi simplesmente exemplar. Aliás, o combate ao HIV/AIDS, no Brasil, naquela época, foi tão exemplar que chegou a ser reconhecido mundialmente como um dos principais países de excelência na prevenção e no combate ao HIV. Poucos sabem disso. O brasileiro não costuma ver as suas qualidades, infelizmente.
Bom, eu estava lá, no congresso, em plena capital baiana, já tendo apresentado o projeto, às vésperas de vir embora. Mas estava incluído no pacote o direito à diária do hotel até o dia seguinte, sábado, final da tarde. Estava exausta do trabalho e também da noitada que tinha tido com Silvio, o tal que se transformou em cunhado-irmão, o querido marido de Patrícia, que você conheceu no conto “Silvio”. Acabada a labuta e a festa, em vez de ir embora correndo, como quase sempre fazia por conta de compromissos profissionais, marquei meu vôo para o início da noite e resolvi dormir até mais tarde e dar um pulinho à piscina de manhã para relaxar. Na segunda, muito trabalho me esperava por aqui, mas ainda teria o domingo inteiro para me refazer.
Fui à piscina e fiquei pensando em toda a semana. Meu olhar se espalhava pelo mar cujo azul se via do terração e também pelo jovem casal que se encarregava de fazer a alegria dos turistas no espaço da piscina. Os dois jovens, iam e vinham, com seu jeitinho baiano irresistível, nos fazendo sorrir dessa sedução e graça que só encontramos na Bahia.
No final da manhã, fomos brindados com a possibilidade de uma lembrança. Quem quisesse, levaria um colar de flores, desses que se dá os turistas, mas que não são de flores naturais. Havia de várias cores. Claro, eu quis um. Me aproximei e a moça pegou um, aleatoriamente, para me dar. Mas o moço se adiantou, tirou o colar de suas mãos gentilmente e disse:
- Um colar amarelo, para uma filha de Oxum.
Olhei-o espantada:
- Ué, como você sabe?
Sorridente, colocou o colar em meu pescoço e disse:
- Precisa perguntar?
Eu não sabia quem era Oxum. Sequer sabia por que não precisava perguntar. Para ele, deveria estar na “cara”, se é que é pela cara que se vê essas coisas. Mas agradeci pela gentileza e trouxe meu colar com carinho. Ao chegar em casa, no Rio, fui correndo pesquisar: senhora dos rios, cachoeiras, lagos... a mãe da água doce. Sorri da idéia. Filha de Oxum. Bonito, romântico... mas não me satisfiz.
Na segunda, procurei um querido amigo, no setor dos funcionários de áudio-visual da Universidade. Anos atrás, ele tinha me olhado longamente e me cumprimentado com uma pequena reverência. Perguntei por quê. Olhando para minha mão direita que eu quase perdi numa queimadura terrível da qual prefiro não contar a história e de cujas marcas tenho até hoje, ele disse:
- Meu pai já te marcou, ora vejam só!... Um dia, você também vai trabalhar com cura.
Estávamos em 1992 e eu nem sabia o que era Reiki ou terapias orientais. A última coisa do mundo que me passaria pela cabeça, seria me aposentar antes dos setenta anos, com a compulsória do funcionalismo público. Disse, gentilmente, que amava o que fazia e outra coisa não estava em meus planos. Ele apenas sorriu, repetiu a reverência e ficou por isso mesmo.
Pois é... em 1996 eu estava sendo apresentada ao Reiki, primeiro como cliente, depois como aluna dos cursos e, em 1998, já estava aplicando Reiki em amigos. Em 2003, me aposentei para me dedicar exclusivamente a isso. Inexplicável aos olhos da razão.
Mas voltemos a 1996. Me lembrei das observações antigas desse amigo e foi a ele que recorri, desta vez, mais crente e convicta de que existem essas coisas que não sabemos explicar. Na verdade, esse amigo já vinha se tornando, com o correr dos anos, um grande interlocutor de muitas coisas acadêmicas e da vida. Se ele predissera algo que já estava se delineando, saberia me dizer o que significava o que o jovem baiano me havia revelado.
Ele sorriu quando lhe mostrei o colar e me disse:
- Eu sabia que, um dia, voltaríamos ao assunto.
E me deu uma aula completa sobre quem seria essa entidade que se apresentava como sendo a minha maior proteção. Não havia dúvidas, segundo ele, que tudo em mim transpirava Oxum e nunca tinha se aprofundado na questão por conta de minha resposta pouco receptiva.
Pirei. Ele não tinha dito, em 1992, que eu tinha sido marcada pelo “pai” dele? Que história maluca era essa? Outra aula para leigos sobre quem é quem e quantos podem ser... e, o mais estranho, mas muito convincente, era que tudo que ele descrevia combinava comigo: comida que me fazia mal, gostos, etc.
Que mundo encantado... mas me mantive paralela a ele, pois logo antevi que a coisa era mesmo muito complicada e fiquei muito feliz ao saber que eu poderia ser filha, só filha, sem maiores problemas, rituais ou obrigações.
Uns anos depois, indo à casa de minha faxineira – a mesma do conto do “galo” – para levar mantimentos, fui surpreendida, de novo, com o mesmo cumprimento.
Estava na varanda, tomando um refrigerante, quando se aproximou um amigo dela, me olhou e me cumprimentou:
- Salve, filha de Oxum!
Como é que pode?
Eu nunca tinha comentado nadica de nada com ela, não conhecia o tal moço e, portanto, não teria como ele saber da informação. Fiquei olhando meio surpresa, meio estarrecida para essa sabedoria popular sem tamanho, que só poderia nascer, viver e frutificar aqui, nesse país abençoado em sua cultura miscigenada e pródiga.
Quem dá conta desse misticismo?
sábado, 22 de janeiro de 2011
SILVIO

Silvio apareceu no hall do hotel exatamente no horário combinado.
Eu fora a Salvador para apresentar um trabalho em um congresso. Tínhamos, então, combinado um encontro na véspera de meu retorno ao Rio.
Silvio enfeitava meus pensamentos há alguns meses. Mas é preciso explicar, primeiro, quem é Patricia, peça fundamental nessa história.
Ocorre que Patrícia é a irmã que a vida se esqueceu de fazer nascer da mesma mãe. Então, para remendar a falha de execução do projeto, a vida consertou o tecido dessa teia, fazendo com que Patricia aparecesse lindinha e jovem (cinco anos mais nova do que eu), como minha aluna de Letras, na década de 70, se não me engano. Ela, com certeza, me corrigirá se estiver errada. Mas acho que foi nos anos 70 mesmo, pois ela deveria ter em torno de 19 e eu 24, bem no início de minha carreira.
É preciso dizer que Patrícia pertencia a uma das minhas primeiras turmas, na primeira universidade em que dei aula. Por sinal, a mais querida e inesquecível. A tal de Português-Inglês, do conto "O Cresta". Outras turmas vieram, na universidade pública, muitos anos depois, mas, nessa universidade, este grupo de jovens teve, com certeza, um destaque especial.
Como Patricia, muitos de meus alunos se transformaram, com o tempo, em minha família. A vantagem da família social é que ela vai se compondo aos poucos, aos sabores e dissabores da vida. Quando você vê, estão todos ali, com o correr dos anos. São tão amados que seus sangues, com certeza, correm em minhas veias ou, pelo menos, seus corações pulsam no meu.
Patrícia, sem tirar nem por, é a irmã que se fez no decorrer desses últimos trinta e poucos anos, com a graça das flores campesinas, a vitalidade e a fortaleza do carvalho, a flexibilidade e a canção noturna dos bambuzais ao vento. Poesia e prosa visitam nossas conversas sobre a vida nas suas mais variadas facetas. E Patricia, com certeza, longe de ser minha ex-aluna, sabe olhar nos meus olhos e dizer: “amiga...” e descarregar as palavras mais certeiras e eficazes que meus ouvidos e coração precisam ouvir, nos momentos mais desesperados da minha vida. Tudo com a clareza objetiva da mente aguda e perspicaz que povoa essa tão indescritível criatura. Pura lógica, mas, também, puro coração.
Não posso falar sobre Patricia. Ela mesma sabe muito bem falar sobre si mesma, em seus contos e poesias. Gostaria de dizer o que ela é, de descrevê-la, de desfiar as contas de um rosário de luz cristalina e pura. Mas seria apenas pintá-la e você não poderia sentir o sangue que corre em nossos corações. Então, deixemos como está, frisando apenas que por muitos anos vivemos distantes, mas que isso não fez a mínima diferença. Onde quer que ela estivesse, se precisasse de mim, estaria lá. A terra é apenas um sonho. Os países são apenas distâncias transponíveis pelo amor. E nos encontrávamos sempre, pois Patricia não era gente de deixar de vir ao Brasil. Eu, tampouco, deixaria de ir vê-la às pressas, se preciso fosse, ou apenas para curtir sua companhia, como já fiz, sempre que a vida pode me brindar com esse presente.
Mas parece que deixamos Silvio lá, em pé, no hall do hotel, enquanto eu contava essa história toda. Voltemos a ele.
Contar como Silvio e Patricia se conheceram não me cabe. Mas cabe dizer que os dois formam um casal super interessante. Gosto de vê-los juntos, depois de tantos anos de revezes, que os contos de Patricia saberão descrever melhor do que qualquer narrativa da minha parte.
Por hora, cabia-me conhecê-lo, na época morando em Salvador, enquanto Patrícia morava no Rio. Eu queria ver quem era, conferir se a vida tinha pregado uma peça ou se ele valia mesmo a pena. Afinal, como irmã mais velha, eu estava de olho nos pretendentes de Patrícia... não que isso fizesse lá muita diferença e muito menos que eu fosse me meter em qualquer das histórias de minha irmã, a quem amo sem condições. Mas que eu estava atenta e curiosa, lá isso eu estava.
Soube, muito mais tarde, que Silvio fora me buscar cheio de recomendações. Para onde me levar, o que eu comia o que eu não comia, que gostava de dançar, enfim, a receita de ser um anfitrião à altura. Como bom geminiano, no entanto, Silvio parecia muito tranqüilo, ali, em pé, sorridente quando me viu. Parece que adivinhou quem eu era ou decorou o meu retrato para me reconhecer. O fato é que ele se dirigiu a mim, tão logo atravessei o hall em busca de alguém a minha espera. E olha que o hall estava cheio. Como bom engenheiro, no entanto, ele deveria ter calculado que era eu e veio logo me abraçar, salpicando um beijo gostoso no meu rosto. Não vou me esquecer dessa primeira impressão.
Palmilhamos alguns lugares noturnos da cidade, como o Pelourinho, por exemplo, naquela noite de verão suave e brando. Depois, ele resolveu me levar a um lugarzinho, cujo simpático nome me esqueço. Bode Beer ou coisa assim. Sei que não mais existe. Ali, serviam, segundo ele, uma deliciosa carne de bode. Isso mesmo, carne de bode, já ouviu falar? Estávamos em 1996 e eu ainda comia carne, naquela época. Mas, como sempre, enjoadíssima para comer. Eu acho que ele já tinha sido doutrinado para isso e me garantiu que tinha outras coisas lá, como saladas e que eu poderia apenas experimentar, se quisesse, só para saber como era. Até porque o ponto alto do lugarzinho era o fato de podermos dançar o tipo de música que ele sabia que eu gostava. Imagine, o moço era também dançarino. Hum... muito bom.
O fato é que eu comi a tal carne de bode, parece que a coxa, de cujo gosto não me lembro, mas que achei muito boa. Dançamos muito, conversamos sobre tudo. Ele havia me buscado às 20 horas e ficamos por ali até as 4 da manhã. Eu, jeitosamente, abri um inquérito para saber o que ele fazia, como era, como não era. Afinal, tratava-se de um possível futuro cunhado, mas, antes de tudo, de um possível co-responsável pela felicidade de uma irmã. Assunto não faltou e Silvio não deixou a peteca cair em nenhum instante. Decididamente, mesmo diante de minha lupa aguçada, ele parecia servir.
Por certo ele sabia o quanto Patricia e eu éramos próximas, mas suas atitudes demonstravam a segurança de um príncipe. Eu, por meu lado, não deixei barato. Não dava nenhuma dica do que estava achando, embora estivesse encantada. Afinal, era apenas a primeira impressão e eu não sou apressada em julgamentos, quer bons, quer maus. Ele estava ali, tranqüilo, sem mexer uma palha de suspeita de ansiedade. E isso lhe dava uma nota à parte.
Mas... ah, puro engano! Às quatro da manhã, como eu estava só de papo, ele não agüentou:
- Ok, tudo bem. Mas que nota você dá?
Foi aí que percebi o quanto, para ele, minha opinião era importante. Por dentro, sorri, mais seduzida ainda, mas não me fiz de rogada. Olhei para ele, sorri ligeiramente, pensei um pouco e respondi:
- Sete.
Se havia alguma coisa que faltasse em mim para que Silvio me conquistasse, esse pedaço se entregou por inteiro com a sua resposta:
- Ah, não! Peço revisão de prova!
Arrancou-me, com certeza, uma gostosa gargalhada e, então, eu respondi:
- Tá bom, nove.
- O que faltou para o dez? retrucou ele, fazendo uma espécie de bico. Segurei sua mão, encantada, mas me mantive firme, embora sorridente:
- Dez só dou para Patrícia.
- Tá certo, você ganhou. Mas... por enquanto.
Sempre dou nove para Silvio. É quase uma senha de nossa grande amizade, esse cunhado-irmão, essa gracinha de pessoa que Patrícia fez atravessar o meu caminho.
sábado, 28 de agosto de 2010
O GALO

Você já foi à Bahia? Não? Então vá.
De preferência, buscando ajuda no Senhor do Bonfim. Guardo a experiência como se tivesse acontecido hoje. Foram quinze dias particularmente interessantes em minha vida, no que se refere ao contato com energias desconhecidas.
Tudo porque eu precisava vender uma casa que havia comprado, no Humaitá, por sonho de meu ex-marido, em conseqüência de uma herança do meu pai. Uma casa em condomínio, na qual vivi por um ano, dez meses, vinte e um dias e nove horas. Pelo contar do tempo, você pode imaginar a alegria intensa que senti ao voltar para meu querido apartamento de Copacabana. É que o condomínio era do tipo “ame-o ou deixe-o”. E eu deixaria meu ex-marido na época, se dependesse disso para sair de lá. Sério.
Para quem conhece o IBAM, no Humaitá, o condomínio fica por trás, trepado morro acima, cinco casas por andar, umas grudadas nas outras. Sem nenhuma privacidade. Nenhuma!!! Eu ouvia tocar a campainha do telefone do meu vizinho e, naturalmente, todo o barulho e o som escandalosamente alto dos aparelhos de som de seus filhos adolescentes, mesmo no decorrer da noite. É preciso acrescentar que tinha de dar exatamente para o meu quarto de dormir. A varanda deles dava para este mesmo quarto, suportando as festas de todos os sábados, até as altas da madrugada, ou melhor, por que não dizer... manhã? E reclamar era completamente inócuo. Não fazia efeito algum. O jeito seria esperar que crescessem, mas pela idade deles, na época, levaria séculos de minha felicidade e ânsia por sossego. Não tinha como me concentrar para estudar, base de minha vida acadêmica. Mas isso nem era o pior! Tinha aquele cheiro de churrasco e cerveja invadindo minhas narinas todos os domingos... e um elevador, em plano inclinado, que funcionava vez por outra. E eu morava no último andar e como as casas tinham dois andares, décimo primeiro andar significava o dobro para quem sobe pelas escadas. Havia quem adorasse. Não eu, com certeza, pois não tinha a opção de ficar em casa: eu trabalhava e tinha de enfrentar as escadas, quer chovesse, quer fizesse sol...
Também não havia muita intimidade. Os vizinhos me visitavam, melhor, me invadiam, por mais reservada que eu “tentasse” ser - lá isso não funcionava, a não ser que eu resolvesse ser, literalmente, grosseira, o que não faz parte do meu temperamento. Não conseguiam se perguntar se eram bem-vindos, ao simples cheiro de um café gostoso que, modéstia à parte, sei fazer muito bem.
Meu ex-marido adorava o lugar. Como viajava muito, curtia os poucos dias que esta casa de suposto veraneio poderia lhe proporcionar. Eu, que ficava ali direto e só saía para trabalhar, fiquei com a parte pesada: a obra da casa, que durou um ano e quase meio e o resto do convívio. Não consegui acabar de escrever um dos meus livros acadêmicos, embora faltasse apenas o último capítulo e a conclusão. Não tinha como, no meio de um bulício e uma agitação constante, da invasão de minha privacidade, nas horas mais impróprias, e, principalmente, do barulho infernal dos vizinhos de baixo.
Também não conseguia ver meus amigos, em minha casa, com a mesma privacidade de sempre. Minhas visitas, desnecessário dizer, combinam com o meu perfil e não achavam muita graça em virem me visitar e não poderem usufruir da minha companhia, senão com o compartilhamento desnecessário de convivas que não eram convidados por mim. Apenas passavam pelo jardim e entravam, convidando-se eles mesmos a serem apresentados e a participarem de conversas que deixavam de ser privadas, naturalmente. Com isso, deixei de receber minhas visitas queridas, como acontecia no meu apto de Copacabana. Pediam desculpas, eram sinceros ao dizerem os motivos de seu afastamento e, simplesmente, desapareciam. Não os condeno. Eu teria feito o mesmo. Caramba, onde fora atracar o meu belo e tranquilo barco...
De veraneio, aquela casa só tinha a aparência para mim. E também não podia chover. O subsolo inundava por uma infiltração vinda direta do morro, por dentro do solo, o que dava a impressão de que a casa poderia despencar morro abaixo, a qualquer instante, problema que só resolvi com uma obra monumental nos oito últimos meses.
Comprar um jornal era uma excursão. Descer pelo plano inclinado (como chamavam aquela “espécie de elevador”), andar três quadras em busca da primeira banca. A padaria? Que padaria? Naquela época, por ali, nenhuma. Farmácia idem. Supermercado, só de carro. Sem contar com subir com as sacolas, em dia de greve de elevador. Mais comentários?
Havia as orquídeas enfeitando o quintal, que eram cultivadas com muito carinho. Tinham vindo do apto de Copacabana onde a coleção chegara a vinte vasos, com floradas todos os anos. Adoraram o quintal ensolarado. Essa era a parte boa. Também havia os pássaros, com seu canto sonoro e sempre primaveril, fosse qual fosse a estação do ano. Eu podia tomar sol como num campo naturalista, quando conseguia fazer minha presença despercebida de meus vizinhos, o que exigia uma estratégia particular ardilosamente arquitetada, é claro. Também resolvi um problema de dor no joelho direito, conseqüência dos tempos em que jogava vôlei no time do colégio. De tanto subir aquelas escadas de inumeráveis degraus, consegui musculatura suficiente para mantê-lo saudável. Gostava de respirar o ar da montanha que ficava logo atrás de mim. A vista das árvores lembrariam repouso, não fosse o constante barulho dos já citados vizinhos de baixo...
Desfiadas as principais razões, voltei radiante para o apartamento de Copacabana, que felizmente não tinha vendido. As orquídeas vieram também e acho que também muito contentes, diante das alegrias de sua dona. Morara naquela rua desde 1973 e é onde estou até hoje, fora esse intervalo de pesadelos. A vida em Copacabana só me inspira boas lembranças. O apartamento é uma graça, com sol pela manhã, lua à noite, sossego de rua meio afastada, com beija-flores na janela (imagine!!!) e tudo à mão, bastando andar uma quadra: farmácia 24 horas, padarias e mercados à disposição.
Dizem que quem compra um barco tem duas alegrias: uma quando compra e outra quando vende. Era o mesmo, com aquela casa. Só que eu não conseguia vendê-la de jeito nenhum!
Mas tudo tem seu tempo e agradeço por isso! Ficou empacada, dando despesas de impostos e manutenção de 1989 a 1993.
Em 1993 precisávamos vendê-la de qualquer jeito, pois o divórcio veio à tona e tínhamos de dividir os bens. Aí é que dou graças à vida. Se não tivesse ficado empacada, talvez o dinheiro tivesse ido embora e eu não teria, então, como negociar os bens. Como disse, tudo tem seu tempo. Só que... continuava lá, grudada, sem sair do meu pé... sem compradores.
Foi então que uma amiga me recomendou ir ao Bonfim. Olhei-a meio crédula, meio incrédula, mas o desespero me convenceu. Segui à risca a receita dada: saia do Rio direto para Salvador, numa sexta-feira, passe pelo mercado modelo, compre flores brancas, vá direto ao Bonfim, acenda uma vela, procure uma das senhoras que cuidam da igreja, peça um vaso, arrume as flores, peça que ela as coloque no altar. Vá a um dos bancos, faça seu pedido e volte direto para o Rio. Nada de passear.
Saí daqui bem cedo na manhã de uma sexta, como mandava o figurino, cheguei ao aeroporto de Salvador, peguei um taxi que me esperou comprar as flores e fui direto para a igreja. Acendi as velas, e busquei uma das tais senhoras. Encontrei imediatamente uma e fiz o meu pedido. Ela gentilmente me trouxe um vaso, no qual arrumei as flores e, como dizia a receita, pedi que ela o colocasse no altar.
É aí que começa a história do galo. A senhora me olhou com um sorriso acolhedor e me perguntou se eu mesma não gostaria de colocar as flores no altar.
- Claro, se me for permitido.
Ela me conduziu ao altar, indicou o lugar onde deveria colocar o vaso e me perguntou:
- Gostaria de ver o sacrário por dentro?
Eu não tinha nenhum interesse em ver sacrário algum por dentro, mas, para retribuir tanta delicadeza, não pude recusar. Ele me instruiu a esperar ali no altar mesmo, enquanto iria buscar a chave. Demorou um pouco e voltou com uma daquelas chaves antiqüíssimas, do tempo do império, enrolada numa corrente meio fina. Entregou-me a chave enrolada e disse:
- Enquanto desenrola a chave, faça o seu pedido.
Será que a mulher lia pensamentos? Pois não é que era justamente da chave de uma casa que eu queria me livrar? Não discuti. Sem fazer nenhum comentário, desenrolei a chave devagar, contrita em meus pensamentos. Finalmente, entreguei a chave à senhora que, sorrindo, me disse.
- Bem, já que estamos aqui, vamos ver o sacrário.
Com esta frase, ficou claro para mim que a visita ao sacrário era apenas uma formalidade. O importante ela já tinha feito, que era me oferecer a oportunidade de “desenrolar a chave”!
Vimos o sacrário e depois de agradecer-lhe, estava pronta para me despedir. Foi quando ela, sempre muito simpática e acolhedora, me disse:
- Uma parte foi feita. Mas é preciso completá-la. Há alguém que trabalha com você que sabe o que deve ser feito a seguir. Pergunte a ela e terá a orientação necessária. Ela também poderá ajudá-la a completar o que falta.
Pelos deuses! Eu não havia dito nada àquela mulher! Como saberia de meus desesperos? Olhei aquele sorriso franco, acolhedor e, sobretudo, sábio. Agradeci sinceramente e voltei direto para o Rio, como mandava a receita. Alguém que trabalha comigo? Que alguém? Onde? Caramba, como achá-la? Na Universidade onde dava aula? Passaram-se os dias. Numa sexta (numa sexta de novo!) dia de minha faxineira, me lembrei que ela era chegada a esses cultos. Resolvi, ainda que discretamente, comentar sobre o assunto. Ela sorriu como quem sabia o que estava acontecendo (ou teria sido só impressão?) e me disse que perguntaria a seu conselheiro espiritual. Na outra sexta, veio com a resposta: ele disse que sabia, sim, o que deveria ser feito e já tinha trazido uma lista com as coisas para comprar: uma casa de cera em miniatura, chave idem e mais um monte de coisas como velas e outros apetrechos dos quais tenho pouca lembrança, mas que me pareceram bem cerimoniais.
- Ok, e o que faremos com isso?
- Vamos fazer uma oferenda num lugar que indicarei à senhora. Já que a senhora mora na zona sul e o lugar tem de ser tranqüilo, podemos ir à Barra da Tijuca. Chegando lá, saberei achar o lugar.
Não sei por que, minha intuição perguntou:
- E, depois de vendida a casa, o que terei de fazer?
Mostrou-me outra lista, para agradecimento, incluindo um galo vivo. Intui que seria sacrificado. Nada feito. Matar bichos não. Definitivamente, agradecia muito, mas dava o caso por encerrado. Pedi que agradecesse sincera e fervorosamente ao seu consultor espiritual, mas que não poderia fazê-lo. Ela disse que voltaria a falar com ele. Uma semana depois, voltou com o recado:
- Ele disse que não tem importância. O galo não precisa morrer, podemos entregá-lo vivo.
- Tem certeza?
- Pode confiar.
- Então tá. Já que estou no barco e não tem bicho morto, vamos em frente.
Comprei a lista inicial e, na outra semana embicamos para a Barra. Em 1993, não tão povoada quanto hoje. Achar uma rua tranqüila, vulgo encruzilhada, foi fácil. Ali ela depositou as oferendas, tomando o cuidado de colocar tudo num arranjo bem interessante, inclusive as comidas. Minha função era apenas estar presente. Eu não precisava pedir nada, segundo ela. “Ele” já sabia de tudo.
Estava eu, ali, peça do sincretismo brasileiro. Respeitosa, disciplinada, confesso que um pouco perplexa, mas contrita.
Desnecessário dizer que vendi a casa em torno de quinze dias. Sem problemas, à vista, pelo preço pedido, sem pechinchas. Num relâmpago. A família mora lá até hoje e simplesmente adora o lugar. Incrível.
Hora de agradecer e comprei toda a lista necessária. Menos o galo. Tinha de ser um galo especial que só minha faxineira sabia onde vendia. Trouxe na véspera do dia da oferenda para que ficasse aqui em casa. Que animal. Lindo! Porte de rei, empinado, garboso. Se eu fosse galinha...
Servi sua majestade com grãos que vieram junto e ele ficou em minha área de serviço até o dia seguinte, sem dar trabalho algum. Também não precisei dar muitas explicações ao meu então marido, pois sua mãe também era chegada a essas coisas (nunca me aprofundei muito em até que ponto) e ele não comentou nada.
Manhã cedo, acomodei as oferendas e o galo, este cuidadosamente embrulhado em jornal para não se debater no carro e seguimos em direção à Barra da Tijuca.
- Ok, perguntei, para onde vamos?
- Para o mesmo lugar, disse a faxineira.
- Mesmo lugar? Como assim? Você não disse que teria de ser o mesmo lugar!!! Eu não sei voltar lá!!!
- Ah, patroa... tem de ser no mesmo lugar!
E agora??? Desespero interno, meu coração aos pulos. Não sei por que sussurrei:
- Só se o galo nos ensinar, ora essa...
Do banco de trás, o galo, que estivera mudíssimo até então soltou um “coc”. Achei estranho e segui em frente. Vou tentar lembrar mais ou menos onde foi e o resto é contar com a memória, nem que a gente fique aqui o dia todo, pensei. Dei a volta por baixo de uma ponte (disso eu me lembrava) e peguei uma das pequenas ruas vicinais. Quando me aproximei de uma esquina, o galo, de novo: “coc”. Um só, como o primeiro. Instintivamente, virei. Dirigi passando por um ou duas quadras e, de novo: “coc”. Virei. Para resumir, os “cocs” me guiaram exatamente ao ponto das oferendas da primeira vez. Sozinha, tenho certeza, eu não o teria encontrado com tanta facilidade, enfiado que era, no meio daquele fim de mundo dos meus deuses! Minha faxineira achando tudo natural. Eu, divina e silenciosamente perplexa!
Descemos, peguei o galo com carinho. Suas penas (plumas?), suaves ao toque, enfeitavam a sua altivez. Deveria segurá-lo, enquanto ela preparava as oferendas, muito ou mais bonitas do que da primeira vez. E o galo? Seria o último. Finalmente, com tudo pronto, deveria depositar o galo ali. E, como mandava o ritual (tinha sido assim, também da primeira vez), sairmos sem olhar para trás, pegarmos o carro e irmos embora. Minha faxineira o fez, sem a menor hesitação. Eu, no entanto, à medida que me afastava, tinha ímpetos de olhar para trás, como a mulher de Ló, no episódio bíblico de Sodoma e Gomorra. Mas não o fiz. Obedeci à ordem do misterioso e do místico. Afastei-me do local deixando para trás o farfalhar forte, garboso e incessante das asas de sua majestade.
Sem saber como, envolvida que fui desde minha ida ao Bonfim, vivi a certeza de que mistérios como esses existem... e desafiam a nossa razão.
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