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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

AS VOLTAS QUE A VIDA DÁ


Já faz algum tempo, tem ocupado a minha mente um casal que gostaria de rever, saber notícias, enfim, achar nesse mundão de meus deuses...

Carlos e Glória. Por certo que você ouviu falar deles, quando contava as histórias de meu pai. Moravam com ele. Carlos, protético, queria ser dentista. Glória era uma espécie de governanta da casa. De brinde, deram a meu pai a companhia de dois galantes menininhos lindos, saudáveis, alegres e graciosos, que chamavam meu pai de avô.

Mas o tempo passou e, como tudo que passa, eles foram viver a vida deles, numa casa lá para as bandas da Quinta de Dume, justamente a Quinta de meu pai. Cheguei a visitá-los uma vez, em 1983, a penúltima vez que fui ver meu pai em Portugal. Na última, nem deu para nada, pois estava preocupada em trazê-lo de lá e a salvar o Manuel. Você que leu o conto "Golpe de Mestre" sabe bem a que me refiro.

E foi assim que os perdi de vista. Não sabia o seu endereço. Sabia apenas ir lá, mas não trouxera o endereço. Que ingenuidade a minha! Mas algumas vezes me lembrava deles, embora a vida agitada e com muita pressa não me desse muito tempo para "pensar nisso de verdade".

Então por esses últimos tempos, "andei a pensar muito neles", como diriam os portugueses.

A vida dá voltas... e a gente deixa pessoas como essas escorregarem por entre os dedos do destino e... as perde. Pensava neles. Penso neles. Como estarão? Os pequeninos devem estar casados e com filhos grandes... passaram-se trinta anos! Carlos deve ter mais ou menos a minha idade...

É nessas horas que eu digo que temos de ter cuidado com o que pensamos...

Pois não é que... do nada (do nada mesmo!) recebo uma carta de um primo de Portugal do qual não fazia a mínima ideia de quem seria? Isso mesmo. Um primo, dizendo-se amigo do Manuel e que guardara o meu endereço, pois me conhecera quando eu lá estivera. Ele era muito pequeno, na época, mas guardara a minha lembrança e  queria resgatar essa prima perdida do Brasil.

Respondi à carta com um mail e, de lá para cá, é assim que nos correspondemos há mais ou menos um mês, com mil fotos e histórias antigas que nos fazem achar muita graça ou apenas servem para aproximar parentes distantes. Quase não nos conhecemos, mas a camaradagem é  delicada, com ele me contando quem é quem e "o que estão a fazer pelas bandas de Portugal". Raízes. E... temos, em comum, um profundo respeito, saudade e amor por Manuel.

Conversa vai, conversa vem, me lembrei de perguntar por Carlos e Gloria. Ele lembrou-se deles, de quando, ainda garoto, visitava a casa de meu pai, seu padrinho. Mas era só.

Mas quando uma pessoa tem bom coração, não deixa a coisa por isso.

Assim, por esses dias, recebi um mail desse primo com todos os indicativos de que são quem estou procurando. Meu primo buscou-os num dos arquivos da cidade e desencavou o que eu, singelamente, tinha perguntado por mail, sem saber senão o primeiro nome dos dois.

Mas ele achou um Carlos, dentista, casado com Gloria e que moram em Dume. Só podem ser eles. É muita coincidência. Minha primeira reação foi de satisfação: Carlos tornara-se dentista, como sonhara! 

Como se não fosse suficiente, meu primo ainda se ofereceu para ir pessoalmente conferir. Não precisa! Já lhe dei trabalho mais do que suficiente. Vou escrever e conferir, mas já quase certa de que sei de quem se trata e resgatar uma história que ficou inacabada, um carinho perdido no mundo.

É... a gente deve ter muito cuidado com aquilo que deixa povoar nossa mente... vai que a vida faz acontecer?

De brinde, ganhei um primo correspondente bem fofinho, com uma família que parece fofa idem, pois, quem é tão gentil só pode viver cercado de amor.

Um brinde a isso também!

sábado, 6 de abril de 2013

APERTOS


Outro dia, aguardando um exame de rotina, numa clínica - aliás, casa belíssima, muito bem preservada, estilo bem antigo - vi uma moça entrar e sair do banheiro, com cara de quem está em apuros. Logo percebi: não achava o interruptor de luz. Um estalo de lembrança, como uma flecha, passou pelo meu cérebro e explodiu em minha boca:

- Aí, do lado de fora!

Imediatamente ela virou-se, acendeu a luz pelo interruptor externo e entrou como uma flecha quase tão rápida como meu pensamento. Imaginei o aperto. Sorri. Não do fato, mas da lembrança.

1975. Se você acompanha meus contos, sabe que fui visitar meu pai, pela primeira vez, em Portugal, depois de cerca de doze anos sem vê-lo. Os contos “Saia justa” e “Moço mesa” contam alguns detalhes dessa visita. Mas, naquele instante, a flecha dirigiu-se para um canto engraçado da memória: o canto dos “apertos desesperados”.

Depois de tantos anos sem ver meu pai, confesso que o encontro, no começo, me deixou pisando em ovos. No dia seguinte, a sensação já tinha ido embora, mas, na chegada, me senti toda cerimoniosa, como uma visita. E, claro, ele tinha mil anos para me contar em poucas horas. Nem se deu conta que eu acabava de chegar de viagem. 

Chegamos no final da tarde, meu ex e eu, e, enquanto esperávamos pelo jantar, nos sentamos na sala de visitas. Até ali, tudo bem, meu organismo estava, digamos, numa “zona de conforto”. 

Ao nos levantarmos para o jantar, ele me indicou um lavabo e eu esperava, então, usá-lo por completo... mas, ali, era mesmo só um lavabo no sentido literal do termo: pia para lavar as mãos. Eu, ainda na “zona de conforto”, não pedi nada mais “completo”. Jantamos e pensei que ele iria nos indicar o quarto, mas nada. Emendou numa conversa longa de quem ficara anos à espera. 

Sentada, ainda me sentia na “zona de conforto” e engrenei no papo sem outras preocupações. As horas passaram e, quando nos demos conta, eram quatro da manhã. Finalmente, nos levantamos para ir dormir. Foi quando senti a urgência do aperto. Ir ao banheiro imediatamente era a palavra de ordem.

Subimos as escadas e ele, gentilmente, nos disse:

- Vou usar o banheiro rapidamente para deixa-los à vontade.

Quase morri, num sorriso de aparente agradecimento. Mas soube, pelo menos, onde era o banheiro. Para quem já tinha esperado tanto tempo, uns minutinhos a mais não fariam diferença. 

- Está livre, disse ele ao bater à porta de nosso quarto e se fechando no dele. 

Finalmente, caminho livre. “Agora, ninguém me segura”. Atravessei o hall superior e me atirei no banheiro às escuras. Achar o interruptor era uma questão de segundos. Só poderia estar perto da porta.

Ocorre que segundos podem durar séculos numa hora dessas e eu não sabia mais para que lado me virar. Tudo breu, pois ele também apagara a luz do hall. Esqueci-me da luz, e procurei me achar no escuro. O banheiro era enorme, desses de casa centenária, com mil coisas e armários, como pude ver só depois. Foi mesmo um sufoco achar o vaso e me lembro até hoje que foi o maior aperto "desse tipo" que já passei na vida. 

Caso resolvido, desses que tiram lágrimas dos olhos, parece que a cabeça começa a funcionar com mais clareza. E foi só então que, com calma, tateando aqui e ali, acabei por descobrir que o interruptor acendia pelo lado de fora, junto com a luz do hall.

Aprendizado feito, desde então, quando entro numa casa antiga e preciso do banheiro, pode contar que, se não acho o ponto de luz imediatamente, abro a porta e já passo a mão pelo lado de fora.

Enquanto pensava nesse aperto que passei, rindo à toa comigo mesma, na sala de espera da tal clínica, a moça saiu do banheiro, aproximou-se e se sentou ao meu lado:

- Desculpe, nem agradeci. Mas é que eu estava tão apertada... nunca tinha vindo aqui.

- Eu também não. Percebi o que era, pois passei por um aperto desses na casa de meu pai, em Portugal, quando fui lá pela primeira vez.

- Seu pai é português?

- Era.

- O meu também.

E, claro, engrenamos num papo à lusitana, com detalhes de coisas portuguesas, no Brasil. E, como boas cariocas que somos, nos despedimos como “velhas amigas de infância”...
 
O que ficou, no entanto, foi o gosto do passado e, por um desvio de memória, que nunca sabemos explicar como acontece, avivaram-se as visitas que recebi dos parentes que vieram ver meu pai para conhecerem “a prima” do Brasil. 

Lembrei-me dos presentes que me traziam de suas Quintas: jamais vinho, por respeito ao vinho do meu pai... e lhes sobrava trazerem couves e compotas, azeites e coelhos... coelhos que depois eu soltava na Quinta, pois jamais teria coragem de comer umas coisinhas tão graciosas que afagara com as mãos... 

E me veio, de repente, mais do que tudo, a sensação forte do vinho verde português, que nos era servido no almoço e no jantar, vindo diretamente de Dume, a Quinta do meu pai.

E passei a lembrar-me de coisas da mocidade, dos sabores que eu costumava buscar... de meus antigos hábitos e meu amor pelo vinho tinto e do Porto, que saboreio até hoje. Vinho verde... não mais... era só o de São Martinho de Dume, Braga, Portugal.

E sorri dos meus sabores... e... acabei por sorrir dos sabores da vida.

Tudo por causa do olhar aflito de uma moça e dos interruptores “externos” que ainda povoam casas antigas.

sábado, 26 de janeiro de 2013

G P S





Outro dia me lembrei de quanto um bom GPS é importante... se você leu o conto “Serial Killer”, sabe de minhas desastrosas experiências com esse bichinho maluco. Mas, na verdade, dou a mão à palmatória...

Estava em São Paulo, no carro da Cris, sobre quem também já escrevi um conto. No banco de trás, vinha sua filha mais velha, na época, com uns dezoitos anos, se não me engano.

O problema é que Cris estava enrolada para chegar a um determinado lugar. Em São Paulo, de carro, isso é coisa séria... e... complicada.

H... (a filha), no entanto, não se apertou:

- Peraí, vou consultar o GPS. Pegou o celular e ligou para casa.

- Pai, estamos em (...) e queremos chegar em (...), mamãe, não sabe... como fazemos?

Do outro lado da linha, as instruções.

Fiquei imaginando o pai, consultando o GPS em casa e dando instruções através da filha. Achei impressionante a força da tecnologia: um celular que acessa o pai, que acessa o computador, que acessa o GPS e... nos coloca exatamente onde queremos. Mesmo assim, achei estranho a filha não acessar o GPS direto de seu celular... mas apenas comentei com a Cris:

- Que sorte ele estar em casa!...

Quem conhece a Cris, sabe do timbre e jeito de sua gargalhada. E foi o que ouvi, em alto, gostoso e bom som. Depois me explicou:

- É que temos um GPS especial, que podemos acessar onde quer que ele esteja!

- Como assim?

Cris se vira para a filha e diz:

- Filha, traduz para Lali o que significa nosso GPS.

E a filha despretensiosa (escondendo seu orgulho filial):

- Ora... Garanto que Papai Sabe.

Com uma família dessas, é claro que ainda é possível acreditar em filhos que tenham seus pais como referência...

Muitas coisas, nesse mundo, ainda fazem toda diferença...

sábado, 19 de janeiro de 2013

MOÇO MESA




Braga, Minho – Portugal, 1975.

Fiquei sem ver meu pai dos 11 aos 24 anos de idade e esta mesa foi a primeira que vi posta, em sua casa, no dia em que cheguei.

Ele havia subido para o seu quarto para refrescar-se do que chamava o verão de Braga (para mim, um verão gostoso e cheio de vida), enquanto a jovem governanta, prestimosa, fazia as honras da casa. Colocou sua sopa no prato e, enquanto sua auxiliar se preparava para servir os outros pratos, ela fez menção de chamá-lo para o jantar.

Foi nesse instante que, não sei por quê, tomei a dianteira, pus-me ao “pé da escada”, como eles diriam, e gritei lá para cima:

- Papai, moço mesa!

Um eco do passado, muito, muito distante... Era assim que o chamava, em São Paulo, quando tinha pouco menos de dois anos de idade, toda vez que minha mãe me mandava avisar “que o almoço estava na mesa”. Eu só sabia disso porque, ainda pequena, ele sempre comentava o fato comigo. E, na despedida, quando me disse que voltaria para Portugal, ainda havia me lembrado:

- Você era tão pequena, falou tão cedo... Me chamava para o almoço ou para o jantar se debruçando “ao pé” da escada que dava para o meu laboratório e gritava: “Papai, moço mesa”. E... agora... já está tão crescida...

Talvez por ter sido essa a última lembrança que tivera, de tantos anos atrás, que tentei, assim, resgatar não sei o quê de anos passados, perdidos no tempo.

Só hoje, já avó e, por isso  mesmo, sentindo o que uma criança é capaz de fazer aos nossos anos já tão vividos, é que posso entender sua silhueta a olhar-me lá de cima, a descer devagar e a tentar reconhecer, naquela jovem de 24 anos de idade, a menina tão pequena, mas já não tão inocente.

Lembro-me como em um retrato, do homem duro e inflexível, embora curvado pelos seus setenta anos, sorrindo e descendo os degraus devagar, escondendo a voz meio embargada pela lembrança dos anos:

- Já vou... já vou...

Ser avó, é viver ou reviver profundamente. 

E mesmo que a vida tenha mostrado muitos dissabores... lembrar... e sorrir!