Mostrando postagens com marcador lembranças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador lembranças. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de abril de 2014

TÚNEL DO TEMPO



Dispensada da vistoria do carro, pois estou de carro novo, fui pegar os documentos de renovação de licenciamento anual direto num dos postos do Detran.

Diziam que eu levaria 10 minutinhos para fazer toda a operação, depois de agendar pelo site. Diziam, mas, por via das dúvidas, reservei toda a parte da manhã. Para quem está acostumada com burocracias... vai que emperra?

Foi assim que desci na estação do metrô da General Osório em Ipanema, em busca do posto que fica na Barão da Torre, 50. Entrei distraída pela Jangadeiros e a memória da rua há tanto tempo esquecida, visitou meus pensamentos. À direita, um pouco antes do posto, o número 42. Lembrei-me imediatamente do número do apto, no primeiro andar. Lancei meus olhos nesta direção. Cortinas brancas enfeitaram meus olhos. As janelas ficaram lindas, vestidas de branco. Quem seriam os atuais moradores?

Passei boa parte da minha juventude frequentando aquele prédio, subindo as escadas rumo ao primeiro andar. Imediatamente o cheiro do bife à milanesa de minha ex-sogra invadiu minhas lembranças. O bife à milanesa mais gostoso que já comi, só superado pelo do restaurante de Milão, perto da praça da Catedral. Mas aí também é covardia: não dá para competir com os donos da receita...

Bife à milanesa com purê de batatas. Senti o gosto e a leveza quase imbatível, principalmente se dito por mim, que nem sou lá chegada a comilanças. Lembrei-me de domingos de almoços e tardes preguiçosas. 

Alcei os olhos para o penúltimo andar, onde morava o médico da família, um dos maiores e inesquecíveis amores de minha vida.

Andei mais uns passos e as lembranças me fizeram reviver o barulho desastrado dos engradados das garrafas de cerveja do depósito que ficava quase em frente ao prédio.  Um barulho seguido dos gritos enfadonhos dos carregadores. O depósito não está mais lá. A rua está calma e, na esquina, esconde-se um supermercado bem comportado e limpo.

A saída da favela, hoje chamada comunidade, não aparece mais ao lado do prédio, onde também existia um posto da CONLURB, que também não está mais lá. Agora, a entrada para a pobreza se esconde num vão muito bem disfarçado ao lado do magnífico prédio onde se instala a moderna entrada do metrô que sustenta um edifício com salas administrativas da prefeitura, espaçosamente bem distribuídas. Se não se presta muita atenção, passa bem despercebido o vão que esconde uma ruela, que leva à antiga favela. Mas a entrada  está lá e um olhar observador pode notar que, por traz de tanta ostentação, nada mudou.

Lembro-me, até hoje, do susto que levei, adolescente de 16 anos, entrando sozinha pela Teixeira de Melo e sofrendo uma ameaça de assalto. Na época, era bem perigoso andar por ali... Olhei ao longo da rua e me lembrei do encontro com o rapaz um pouco mais alto do que eu, canivete em punho, ordenando que lhe passasse tudo. Sem refletir muito, quase que instintivamente, apenas disse:

- Mas eu moro ali, no 42!

- Então passa, passa...

Sorri. Sempre há uma "ética" natural onde quer que você vá. Os marginais do pedaço não assaltavam os moradores daquele trecho... nunca mais me esqueci.

Entrei no prédio rumo ao segundo andar, onde se instala um novo Detran e... dez minutos depois (!) estava com a nova carteira na mão! Tinha dispensado uma manhã inteira por não acreditar na eficiência de nossos serviços. Tenho de confessar: muitos deles estão ficando ótimos, apesar de tudo...

Com o tempo ganho, em vez de pegar o metrô ali mesmo, pois havia passagem direta do Detran para a estação, preferi voltar para a General Osório e ver como estava o que ficara perdido num passado distante.

A Rua Teixeira de Melo continua igual. Com exceção do tal supermercado bem comportado, a aparência da rua continua praticamente a mesma. A loja de ferragens, a de material esportivo... como pode não ter mudado quase nada depois de décadas?!

Na esquina com a rua principal, Visconde de Pirajá, o supermercadinho antigo continua o mesmo. Lembro-me que Vinícius (o tal médico) o chamava de "pé sujo". Olhei de fora, não tive vontade de entrar. Continua o mesmo "pé sujo". Tentou dar um jeito, nota-se uma reforma, mas a alma continua a mesma. Nada atraente. Em plena Ipanema, é de se lamentar.

A praça me entristeceu. Cercada por um gradil em toda a volta, aprisionou igualmente o meu coração. Perdeu o charme, virou praça comum. Na minha época, era toda aberta, agasalhando a Feira Hippie aos domingos. Soube, depois que trocou de nome e agora se chama Feira de Artesanato. Mas é certo que as pessoas da minha geração ainda devem continuar chamando de Feira Hippie. Não quis atravessar a praça. As grades me incomodaram.

Era terça-feira. Sorri reconhecendo a feira ao ar livre, que marca a sua presença semanal, como há tantos anos atrás.

Do outro lado da praça acabei por visitar o novo e conhecido "supermercadão". Quer dizer... novo para mim... ele já é falado há anos, por sua pizza impecável.

Eu gosto de pizza. Quem me conhece, sabe que gosto. Aliás, sou bem exigente em pizzas. Não poderia deixar de provar essa. Afinal, tão falada...

Que decepção! Continuo achando que, apesar de carioca confessa, pizza tem de ser mesmo a paulista.

Retornei contornando a praça, em busca da estação do metrô. Já havia feito a minha tournée.

Ao subir a escadaria da estação, me virei para uma boa olhada panorâmica pelos arredores... pelas lembranças... e tirei uma foto descontraída, sem pensar que acabaria escrevendo um conto.

Saudades? Nenhumas. Apenas recordações.

Me enfiei escada abaixo em busca do Túnel do Tempo.

Em quinze minutos estava no presente, com a documentação renovada, caminhando pelo meu calçadão de Copacabana.

O sol, batendo em meu rosto, me mostrava como é bom visitar o passado e me sentir renovada no presente.

sábado, 13 de abril de 2013

O VIZINHO



Senhor Arturino. Lembro-me de seu sotaque italiano suave e discreto. Muitos anos no Brasil.

Moro neste apto desde 1978. Senhor Arturino, meu vizinho de porta, mudou-se no mesmo mês. Arrumamos juntos o hall do elevador do nosso andar. Cedi muito ao bom senhor que, com delicadezas de gentleman me dizia de suas preferências na escolha do papel de parede, da luminária...

Ficamos bons vizinhos desde então, ele já idoso, dizendo que se sentia seguro com jovens ao lado, caso precisasse de alguma coisa. Fez-nos, vez por outra, sua pizza inesquecível, que nos servia com uma sangria que ele preparava, comprando cada fruta com cuidados de "gourmet".

Tinha sido ourives e estava aposentado. Caminhava todos os dias, jogava bocha (era apaixonado por bocha...), não fumava, cuidava-se muito para se manter em forma.

E tinha um carinho desprendido e apegado por mim, dizendo que queria ter tido uma filha assim.

Passou-se o tempo. Estávamos em uma manhã de 1979, quando meu pai veio ao Brasil para passar uns tempos conosco. Estávamos ambos de saída, não sei bem para onde e conversávamos no hall do elevador, quando o Senhor Arturino abriu a porta para sair em busca de seu passeio matinal.

Deu-me bom dia... olhou para meu pai:

- Senhor Vianna! O que o senhor anda fazendo aqui?

- Arturino! Ora, esta é minha filha. 

Senhor Arturino olhou-me estupefato. Aproximou-se mais, com lágrimas nos olhos, e sussurrou-me com voz embargada:

- Carreguei você no colo tantas e tantas vezes... minha oficina era no mesmo andar do escritório de seu pai!

Fiquei sem fala. Ele continuou:

- Como poderia imaginar que seria você, se não tem mais o sobrenome de seu pai?

De fato, quando me casei, tirei meu nome de solteira e permaneci apenas com o Fernandes, que uso até hoje. 

Olhei-o emocionada e não sabia o que dizer. Uma vez, realmente, ele havia dito que conhecera apenas mais uma Eulalia, uma menininha, filha de um grande amigo. Mas ficara por isso mesmo.

Amigos reencontrados, passados revividos, algumas noites passamos todos juntos, os dois senhores a contarem ou recontarem, um ao outro, piadas e histórias de "antanhos", como diziam.

O reencontro fez bem aos dois, fez bem a mim, fez bem a uma amizade que já era doce e suave.

Em 1987, nos mudamos daqui para uma casa no Humaitá. Era dezembro e, quando ele soube, embora dissesse que queria que eu me sentisse feliz, na véspera deixou escapar:

- Vou me sentir muito só... e inseguro por aqui.

- Virei vê-lo, o senhor sabe!

- Sim, eu sei, mas não é a mesma coisa do que tê-la ao lado, para qualquer eventualidade.

Senhor Arturino, apesar de bem idoso, era um homem forte e saudável. Não me preocupei... mas... fui embora com um aperto forte no coração, até porque eu não estava achando mil maravilhas sair desse apto que tanto amo. Prova disso é que um ano, dez meses, vinte e um dias e nove horas depois, estava por aqui, de novo, disposta a nunca mais sair. Você que acompanha os meus textos, se leu o conto "O galo", sabe do que estou falando. Minha ida para aquela casa foi mesmo um pedacinho de provação de vida para mim, aliás, bem duro... mas consertado, felizmente.

Mas voltemos ao Senhor Arturino. 

Em janeiro, menos de um mês depois de minha saída, teve um infarto. Só  soube dias depois e não consegui localizá-lo. Logo depois, soube que tinha sido levado pela família de volta a Italia, onde ficou até sua morte. Não tivemos mais contato e não soube como tudo ocorreu. Também não tinha o endereço e como pedir notícias. Não sei, sequer, se ele teria condições de escrever-me ou coisa assim.

Dois anos depois, já de volta para casa, ops... para este apto, uma senhora, um dia, tocou a campainha. 

Era uma das irmãs do meu querido vizinho, querendo dar-me a notícia de que ele tinha falecido. Acrescentou que falava muito em mim, motivo que a fizera procurar-me.

Viera para acertar as questões de herança e não queria deixar de me ver para me conhecer e dar-me algumas fotos dele, para guardar de recordação.

Passei alguns dias com o coração... com a alma apertada. Pensei no quanto teria sido importante eu estar aqui, na hora em que, realmente, precisou de mim. 

Não se pode prever tudo na vida. E eu não poderia imaginar que, naquela última manhã em que nos vimos, ele supusera (ou previra?) ter sido nossa delicada despedida, nosso verdadeiro adeus.

Guardo a lembrança de seu sotaque e de sua gentileza em meu coração. Guardo sua voz e seu sorriso de amigo mais velho, com cuidados de pai. Guardo seu abraço de "reencontro", naquele dia, no hall do elevador. E de nossa surpresa por constatarmos ser este um mundo pequeno, onde corações marcam, sem que saibamos, reencontros não esperados.

Gostaria de ter estado aqui, quando precisou de mim. Mas, ao mesmo tempo, fico feliz por saber que, na Itália, fui uma constante em suas alegres recordações do Brasil.

Tenho um grupinho "lá em cima", de que gosto muito. Quem sabe, a estas horas, Senhor Arturino não estará às voltas com meu primo Manuel, por vezes, falando desta "menina" que, muitas vezes, carregaram no colo...

Eu, "daqui", com certeza, os carrego juntinhos em meu coração.

sábado, 6 de abril de 2013

APERTOS


Outro dia, aguardando um exame de rotina, numa clínica - aliás, casa belíssima, muito bem preservada, estilo bem antigo - vi uma moça entrar e sair do banheiro, com cara de quem está em apuros. Logo percebi: não achava o interruptor de luz. Um estalo de lembrança, como uma flecha, passou pelo meu cérebro e explodiu em minha boca:

- Aí, do lado de fora!

Imediatamente ela virou-se, acendeu a luz pelo interruptor externo e entrou como uma flecha quase tão rápida como meu pensamento. Imaginei o aperto. Sorri. Não do fato, mas da lembrança.

1975. Se você acompanha meus contos, sabe que fui visitar meu pai, pela primeira vez, em Portugal, depois de cerca de doze anos sem vê-lo. Os contos “Saia justa” e “Moço mesa” contam alguns detalhes dessa visita. Mas, naquele instante, a flecha dirigiu-se para um canto engraçado da memória: o canto dos “apertos desesperados”.

Depois de tantos anos sem ver meu pai, confesso que o encontro, no começo, me deixou pisando em ovos. No dia seguinte, a sensação já tinha ido embora, mas, na chegada, me senti toda cerimoniosa, como uma visita. E, claro, ele tinha mil anos para me contar em poucas horas. Nem se deu conta que eu acabava de chegar de viagem. 

Chegamos no final da tarde, meu ex e eu, e, enquanto esperávamos pelo jantar, nos sentamos na sala de visitas. Até ali, tudo bem, meu organismo estava, digamos, numa “zona de conforto”. 

Ao nos levantarmos para o jantar, ele me indicou um lavabo e eu esperava, então, usá-lo por completo... mas, ali, era mesmo só um lavabo no sentido literal do termo: pia para lavar as mãos. Eu, ainda na “zona de conforto”, não pedi nada mais “completo”. Jantamos e pensei que ele iria nos indicar o quarto, mas nada. Emendou numa conversa longa de quem ficara anos à espera. 

Sentada, ainda me sentia na “zona de conforto” e engrenei no papo sem outras preocupações. As horas passaram e, quando nos demos conta, eram quatro da manhã. Finalmente, nos levantamos para ir dormir. Foi quando senti a urgência do aperto. Ir ao banheiro imediatamente era a palavra de ordem.

Subimos as escadas e ele, gentilmente, nos disse:

- Vou usar o banheiro rapidamente para deixa-los à vontade.

Quase morri, num sorriso de aparente agradecimento. Mas soube, pelo menos, onde era o banheiro. Para quem já tinha esperado tanto tempo, uns minutinhos a mais não fariam diferença. 

- Está livre, disse ele ao bater à porta de nosso quarto e se fechando no dele. 

Finalmente, caminho livre. “Agora, ninguém me segura”. Atravessei o hall superior e me atirei no banheiro às escuras. Achar o interruptor era uma questão de segundos. Só poderia estar perto da porta.

Ocorre que segundos podem durar séculos numa hora dessas e eu não sabia mais para que lado me virar. Tudo breu, pois ele também apagara a luz do hall. Esqueci-me da luz, e procurei me achar no escuro. O banheiro era enorme, desses de casa centenária, com mil coisas e armários, como pude ver só depois. Foi mesmo um sufoco achar o vaso e me lembro até hoje que foi o maior aperto "desse tipo" que já passei na vida. 

Caso resolvido, desses que tiram lágrimas dos olhos, parece que a cabeça começa a funcionar com mais clareza. E foi só então que, com calma, tateando aqui e ali, acabei por descobrir que o interruptor acendia pelo lado de fora, junto com a luz do hall.

Aprendizado feito, desde então, quando entro numa casa antiga e preciso do banheiro, pode contar que, se não acho o ponto de luz imediatamente, abro a porta e já passo a mão pelo lado de fora.

Enquanto pensava nesse aperto que passei, rindo à toa comigo mesma, na sala de espera da tal clínica, a moça saiu do banheiro, aproximou-se e se sentou ao meu lado:

- Desculpe, nem agradeci. Mas é que eu estava tão apertada... nunca tinha vindo aqui.

- Eu também não. Percebi o que era, pois passei por um aperto desses na casa de meu pai, em Portugal, quando fui lá pela primeira vez.

- Seu pai é português?

- Era.

- O meu também.

E, claro, engrenamos num papo à lusitana, com detalhes de coisas portuguesas, no Brasil. E, como boas cariocas que somos, nos despedimos como “velhas amigas de infância”...
 
O que ficou, no entanto, foi o gosto do passado e, por um desvio de memória, que nunca sabemos explicar como acontece, avivaram-se as visitas que recebi dos parentes que vieram ver meu pai para conhecerem “a prima” do Brasil. 

Lembrei-me dos presentes que me traziam de suas Quintas: jamais vinho, por respeito ao vinho do meu pai... e lhes sobrava trazerem couves e compotas, azeites e coelhos... coelhos que depois eu soltava na Quinta, pois jamais teria coragem de comer umas coisinhas tão graciosas que afagara com as mãos... 

E me veio, de repente, mais do que tudo, a sensação forte do vinho verde português, que nos era servido no almoço e no jantar, vindo diretamente de Dume, a Quinta do meu pai.

E passei a lembrar-me de coisas da mocidade, dos sabores que eu costumava buscar... de meus antigos hábitos e meu amor pelo vinho tinto e do Porto, que saboreio até hoje. Vinho verde... não mais... era só o de São Martinho de Dume, Braga, Portugal.

E sorri dos meus sabores... e... acabei por sorrir dos sabores da vida.

Tudo por causa do olhar aflito de uma moça e dos interruptores “externos” que ainda povoam casas antigas.

sábado, 19 de janeiro de 2013

MOÇO MESA




Braga, Minho – Portugal, 1975.

Fiquei sem ver meu pai dos 11 aos 24 anos de idade e esta mesa foi a primeira que vi posta, em sua casa, no dia em que cheguei.

Ele havia subido para o seu quarto para refrescar-se do que chamava o verão de Braga (para mim, um verão gostoso e cheio de vida), enquanto a jovem governanta, prestimosa, fazia as honras da casa. Colocou sua sopa no prato e, enquanto sua auxiliar se preparava para servir os outros pratos, ela fez menção de chamá-lo para o jantar.

Foi nesse instante que, não sei por quê, tomei a dianteira, pus-me ao “pé da escada”, como eles diriam, e gritei lá para cima:

- Papai, moço mesa!

Um eco do passado, muito, muito distante... Era assim que o chamava, em São Paulo, quando tinha pouco menos de dois anos de idade, toda vez que minha mãe me mandava avisar “que o almoço estava na mesa”. Eu só sabia disso porque, ainda pequena, ele sempre comentava o fato comigo. E, na despedida, quando me disse que voltaria para Portugal, ainda havia me lembrado:

- Você era tão pequena, falou tão cedo... Me chamava para o almoço ou para o jantar se debruçando “ao pé” da escada que dava para o meu laboratório e gritava: “Papai, moço mesa”. E... agora... já está tão crescida...

Talvez por ter sido essa a última lembrança que tivera, de tantos anos atrás, que tentei, assim, resgatar não sei o quê de anos passados, perdidos no tempo.

Só hoje, já avó e, por isso  mesmo, sentindo o que uma criança é capaz de fazer aos nossos anos já tão vividos, é que posso entender sua silhueta a olhar-me lá de cima, a descer devagar e a tentar reconhecer, naquela jovem de 24 anos de idade, a menina tão pequena, mas já não tão inocente.

Lembro-me como em um retrato, do homem duro e inflexível, embora curvado pelos seus setenta anos, sorrindo e descendo os degraus devagar, escondendo a voz meio embargada pela lembrança dos anos:

- Já vou... já vou...

Ser avó, é viver ou reviver profundamente. 

E mesmo que a vida tenha mostrado muitos dissabores... lembrar... e sorrir!