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sábado, 7 de dezembro de 2013

É TÃO BOM!


Quarta-feira. Tirei o dia para me encontrar com amigos.

O almoço foi simplesmente uma delícia. Rever Claudia e Eugênia reinaugurou, mais uma vez, a festa que se faz dentro de mim. É incrível como este trio consegue conversar de tudo com o mesmo viço e alegria com que o fazíamos nos tempo de nosso trabalho conjunto na Universidade.

Qualquer assunto se torna interessante, desde os acadêmicos, até as histórias de vida, as fofocas e mesmo a cor de esmalte das unhas. Em quatro horas, que passaram num segundo, revivi o mesmo brilho de olhar, que encontro só nos meus amigos mais queridos...

Emendei o dia com um jantar com Dani, de assunto completamente diverso, mas de mesmo frescor... e... para coroar a noite, um encontro com Katia, para uma sobremesa de tons delicados.

Fiquei pensando numa metáfora plausível para traduzir o sentimento perfumado com que voltei para casa à noite.

Perfumado... sim, como se eu visitasse meu jardim particular de amigos, um jardim onde você não colhe as flores para escravizá-las em sua sala de visitas, pois murcharão depressa, alimentadas apenas pela água singela de um vaso qualquer.

Não, nada disso.

Desfruto o saboroso prazer de visitar meu jardim, sentir o perfume diferenciado de cada flor, em seu belíssimo resplandecer ao sol. Flores que posso revisitar em lembranças de dias seguintes, sorrindo de suas presenças em meu coração. Saber que estão lá, bastando abrir minha porta para encontrá-las nesse meu jardim, à distância de um mail, um telefonema, um "oi" qualquer. 

Saber, simplesmente, que existem!...

Não me lembro, mas é bem provável que, em um ano já perdido no tempo, eu tenha pedido bons amigos a Papai Noel. E como acredito piamente nesse bom velhinho, ele foi especialmente condescendente comigo, brindando-me com os melhores.

Talvez seja por isso que dezembro seja, para mim, um mês especialmente abençoado.

Desde os primeiros dias, é o mês escolhido para que eu possa revisitar de bem pertinho, pessoalmente, meus queridos e insubstituíveis amigos. Separo em minha agenda almoços, lanches e jantares... ou apenas encontros em um lugar qualquer, para que eu possa saborear, sentir e reviver o perfume desse lindo e inominável buquê de minha vida.

E volto para casa, a cada vez, inebriada com o suave e saboroso prazer de revê-los, ouvi-los e tocá-los, esquecida da desarticulada e enlouquecida vida que nos incute este cotidiano maluco de cidade grande.

Dezembro está começando e, apressada, já o iniciei sentindo meus primeiros perfumes.

Olho minha agenda e antevejo que magníficos encontros já marcados me aguardam. Este maravilhoso e multifacetado buquê com que me brindo, vaidosa, compondo o melhor dos presentes que dou, a mim mesma, a cada ano.

Um buquê composto dos mais variados tons - do singelo ao sofisticado, do despretencioso ao requintado -, dependendo das nuances de cada flor, mas... sempre marcado por tons e perfumes suaves e amenos... um buquê pleno em sua essência.

Tão bom... tão bom!!!

sábado, 20 de outubro de 2012

DÉCIO


  
Foi mesmo assim. E quando é muito intenso, é difícil de contar. Talvez por isso não tenha conseguido escrever até hoje sobre este encontro. Mas foi único, em sua essência. E é assim, até hoje. Um irmão de vida.

Décio apareceu aos meus olhos, pela primeira vez, descendo por uma das rampas da Universidade, recém concursado. Eu já havia feito parte da banca de três concursos anteriores, para nosso Departamento. Hora de descansar. Assim, naquele ano, declinei do convite. Aliás, nem sei se foi bem isso. Acho que foi mesmo negar a participação.

É que ser de banca não é fácil.

Julgar o melhor caminho que uma formiga pode fazer no seu percurso já é tão difícil!... Digo isso porque, quando pequena, ficava observando as formigas em seus caminhos e ficava imaginando porque não tiravam uma linha reta entre o alimento e o formigueiro. A vida me ensinou, muito aos poucos, que julgar é perigoso, difícil, escorregando para o terrivelmente parcial. Depende tanto de nossa maneira particular de ver o mundo!... Agora eu vejo que é impossível compreender o mundo das formigas, conhecer seus melhores caminhos pelo solo, os pedregulhos da estrada. Nem sempre a linha reta é o melhor percurso para alcançar uma meta. Aprende-se muito, mesmo com as formigas...

Voltemos ao concurso. Eu me sentia em saia justa comigo mesma a cada vez que participava de uma banca, fosse para que fosse. Ser justo é muito enganador, embora você queira ser “justo ao máximo”. Não me arrependo de nenhuma das bancas das quais participei. Isso não quer dizer que eu tenha sido justa, embora tivesse sempre saído com essa impressão... o que conta, para essa história é que sempre que pude, declinei da oportunidade. E, desta vez, especialmente, foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Não por ter me livrado de julgá-lo, mas porque foi muito melhor conhecer Décio, como conheci.

Mas, com essas considerações, acabei deixando Décio descendo pela rampa em minha direção, acompanhado de um de nossos colegas. Voltemos aos fatos:

Meus olhos se depararam com seus olhos inquietos e sorridentes. Passo firme e apressado. Como os meus. Algo dentro de mim bateu mais forte e não era apenas o coração. Algo que me instigava dizer:

- Que bom te ver de novo, que saudades!

Dizer isso e abraçá-lo, não sei bem por quê. Mas, é claro, minha capa de postura acadêmica apenas sorriu e lhe disse:

- Seja benvindo ao Departamento.

Muitos anos depois, conversando descontraídos sobre nossa amizade impecável, numa das mesas do bar do décimo primeiro andar - onde nos encontrávamos, vez por outra, entre horários de atividades acadêmicas -, trocávamos impressões sobre nossa tremenda e mútua empatia. Foi quando tive coragem de contar a ele essa minha primeira impressão. Ele sorriu, lembrou-se do encontro e disse maroto, com aquela expressão que lhe é tão peculiar:

- Pois é, minha amiga, quem sabe apenas nos reencontramos.

Décio não é lá chegado a essas convicções. Sei que foi só uma brincadeira. Mas eu, embora sem convicções religiosas, acredito piamente que não foi a primeira vez. É afinidade demais para dar tão certo desde o primeiro olhar.

Não há explicações acadêmicas, sociais ou cartesianas para o que nos uniu de forma tão instantânea, fraterna e sincera desde o primeiro instante.

Fomos parceiros de luta, ou melhor, de lutas. Fomos parceiros de cafés, de decisões, de postos funcionais, de conteúdos acadêmicos, de confidências pessoais...

Mais tarde, fora da universidade, continuamos a ser parceiros de vida, em vários momentos fáceis e difíceis daqui e de lá. Comemoramos cada um de nossos encontros, agora mais raros, por conta de duas vidas agitadas, cada uma a seu modo: ele ainda acadêmico e eu no meu consultório e nos meus cursos. Mas as almas, com certeza, uma vez irmãs, serão sempre irmãs.

É difícil falar de Décio, mas é fácil representar esse sentimento. É só perceber, enquanto escrevo estas linhas, meus olhos embaçados pelas lágrimas agradecidas à vida por tê-lo conhecido.

Tenho amigos assim. E quanto mais próximos, mais difícil transformá-los em palavras...

Tim-tim!

 Obs.: imagem - Facebook

sábado, 9 de junho de 2012

BEL


Como um sol enviado d’além mar às costas brasileiras, Bel apareceu, um dia, no meu blog de contos, enviando-me um raio de luz em palavras sonoras e iluminadas. Sorriu-me do Minho (Portugal), sem saber que tocava o coração de uma carioca também lusa por parte de pai.

De lá para cá desde não sei quando - pois essas amizades gentis não contam data -, recebo, vez por outra, mails encantadores, em versos de prosa belíssima e colorida. Seu texto é sempre delicioso e belo, mas não há o que faça convencê-la a publicá-los num blog apropriado e à altura de tanto encantamento: tesouro escondido...

Mas Bel é assim, simples, na singeleza de seus traços, com sua tez minhota, de cidade que visitei com os olhos, em minha ida a Valença, sem saber que Bel existia, ainda bem criança. Quem diria...

Agora nos trocamos sentimentos e carinhos, amigas no mundo, unidas por esta maravilhosa máquina moderna.

Alguns meses atrás, enquanto recostava-se ao lume e calor da lareira, eu me derretia no tórrido verão carioca.

Por estes dias, com certeza, ri-se do meu inverno de 20 graus...

Nossas almas caminham juntas, muitas vezes. Tomamos chá com alguma frequência, geralmente, nos jardins de sua aldeia campesina. Aqui, quase não. Ambas preferimos, para nossos encontros, o cantar dos pássaros, longe da fumaça das ruas e ruídos da cidade grande, embora o Rio tenha, também, recantos favoritos de rara beleza. Mas gosto de passear com ela por sítios que vislumbrei quando mais moça, aproveitando o ar minhoto quanto possa, através de seus convites encantadores.

Trocamos receitas como comadres, ela descrevendo as minúcias dos pratos do norte português, tão caseiros aos meus ouvidos dos tempos em que lá estive. Dou-lhe minhas singelas receitas, como a do biscoito de maisena, por saber não ser tão boa cozinheira quanto ela. Qualquer dia desses, mando-lhe a do vinagre aromático (confiada a mim, dos segredos de minha avó). Por certo, gostará.

Ouço, daqui, o ranger de seu portão, quando sai a trabalhar. Acho que ela sente os cheiros de meu pipoqueiro da esquina...

Jogamos conversa fora, trocamos segredos ingênuos.

Um dia, passo lá, de verdade, para tomar um chá... quem sabe... nunca é tão impossível, nesse tão grande mundo pequeno.

Somos assim, de lá e d’aquém mar.

Com carinhos de irmã mais velha, ouço-lhe o coração e, ela, com certeza, toca o meu com seus cuidados.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

TEIAS


Há um fio aqui, ali, em qualquer lugar que prende
pessoas a pessoas, pessoas a coisas, coisas a pessoas...
Teias de aranha.

Se você leu o conto VARIG, deve imaginar a gratidão que guardei da comissária de bordo que nos acompanhou durante o vôo Porto-Rio, dando a meu pai toda a acolhida e atenção necessárias.

Pois é... mas eu estava tão preocupada e voltada para as necessidades do meu pai, que não tive olhos e tempo para agradecer, como gostaria, a esse anjo terrestre que nos atendeu nas nuvens...

Dias depois, ainda que envolvida pelas providências de instalação de meu pai em sua nova vida, lembrava-me constantemente daquele olhar e daquele sorriso que nos acalentou em um momento tão delicado de nossas vidas. Queria agradecer-lhe, mas sequer tinha tempo de parar para me lembrar de ligar para a VARIG e procurar saber o nome todo, providenciar uma carta de elogios à companhia, talvez encontra-la para agradecer-lhe pessoalmente.

O tempo passou atribulado. Nada fiz de concreto. Mas meu coração, volta e meia, voltava-se agradecido para a imagem daquela doce comissária de bordo. Com o tempo, esqueci de seu nome. O tempo passou... mas não a lembrança.

Meu pai faleceu seis meses depois e voltei-me para o cotidiano de vida. Retomada de fôlego. Isso foi num agosto.

No ano seguinte, passei de abril a junho completamente envolvida num concurso acadêmico. Queria fazer parte do corpo docente de uma determinada Universidade Pública, já em meus planos, de longa data. Segundo meus amigos, um suicídio de esforços, pois atestavam que as vagas já estavam marcadas... tentativa inútil.

Não me entreguei. Apenas coloquei na cabeça que os esforços deveriam ser redobrados. Além das 20 horas/aula em uma universidade particular e mais 6 aulas, no ensino médio, que eram compromissos inadiáveis, eu comia, dormia, sonhava e respirava estudo. Estava acostumada a dar aulas de grego, língua portuguesa e cultura clássica e o concurso era para Linguistica. Para encurtar a história, passei. Exaurida, mas passei para os subseqüentes 20 anos acadêmicos mais produtivos de minha vida.

Quis me dar de presente uma viagem de férias e, claro, depois da vitória, tinha de ser para o exterior. Quanto mais longe do estresse, melhor. Assim, nas férias de julho, já investindo na promoção de vida profissional que iria receber, viajamos, meu ex-marido e eu.

Claro que a companhia aérea era a VARIG, que você já sabe ser a companhia de minha total preferência.

Malas e corações a postos, entramos no avião já com espírito de quem estava em plena excursão.

Uma das comissárias de bordo, imediatamente, me chamou a atenção. Sou péssima fisionomista. Aliás, a expressão “péssima” ainda soa como um elogio. Sou pior do que isso. Mas há algo dentro de mim, que pulsa não sei de onde. Dizem que é uma antena intuitiva. Sei lá. Sei que pulsa. Meus olhos pousaram naquele olhar sorridente e acolhedor. Imediatamente a reconheci. Não meus olhos, mas o coração por trás deles. Era ela, sem dúvida.

Sorri e me aproximei. Sabia que ela estava muito ocupada, mas não resisti:

-Você! Que felicidade! Você cuidou de meu pai no ano passado, durante todo o vôo! E nunca pude mostrar-lhe toda a minha gratidão.

Ela sorriu:

- Lembro-me de seu pai. Estavam sentados à esquerda, ele na janela! Como ele está?

Foi aí que arrefeci. Como dizer-lhe, assim, na lata, que ele tinha falecido? Mas não tinha jeito:

- Está nas nuvens, muito melhor do que aqui. Mas sua presença sempre esteve presente em nossas conversas. Ele sempre falava de você. Como sou agradecida!

Seus olhos encheram-se de lágrimas. Difarçou. Eu também. Sorri-lhe e passei para ir em busca de meu lugar.

Quando sentei, havia outra comissária em seu lugar. Onde estaria? Sumiu, por uns cinco minutos. Eu sabia que tinha se retirado. Tinha mesmo ficado emocionada. Mas, daí a pouco, lá estava ela, recepcionando, cuidando dos que continuavam a entrar.

Antes da partida, passou por mim e disse:

- Estou atendendo à primeira classe. Não poderei estar por aqui.

- Vejo que você foi promovida. Muito mais que merecido.


Não a vi mais durante as dez longas horas de viagem. Mas volta e meia sorria para mim mesma, satisfeita com sua promoção. E muito feliz com o encontro.

Na saída, pensei em me atrasar um pouco para um último agradecimento. Mas nem foi preciso. Ela mesma me acenou lá da frente, como quem sabe que esperava me encontrar.

Segui o fluxo e, quando me aproximei, lá estava ela, tendo nas mãos, um vasinho de primeira classe com uma rosa vermelha. Me ofereceu, sem nenhuma palavra. Dei-lhe um breve abraço. Nos olhamos, cúmplices de vida - acolhedora e acolhida, em mútuo afeto de doação e agradecimento.

A vida, com certeza, entre os múltiplos presentes que recebi, não me negou mais este encontro.

Há um fio aqui, ali, em qualquer lugar que prende
pessoas a pessoas, pessoas a coisas, coisas a pessoas...
Teias de aranha.

sábado, 17 de dezembro de 2011

CRIS


Cristina apareceu na minha vida num momento delicado. Tínhamos nos esbarrado em congressos, mas eu sou mesmo um desastre no que se refere a guardar fisionomias. Para você ter idéia, já passei algumas vezes direto por conhecidos bem conhecidos, até por vizinhos. Parece descaso, mas não é mesmo. Já avisava aos meus alunos, no primeiro dia de aula. "Se eu passar sem cumprimentar, não se aborreçam, por favor. Sou cegueta de fisionomia". Além de muito distraída quando ando na rua, sou mesmo uma negação nesse item.

Colegas profissionais de congresso, jamais fizeram exceção. E foi assim que topei com Cris, em plena cidade do Porto, num congresso internacional de Linguistica. Passei direto por ela, claro, e se ela não me travasse o passo, ficaria por isso mesmo. Felizmente, isso não aconteceu, pois foi o início de nossa estreita amizade, que permanece até hoje.

Cris mora em São Paulo e eu no Rio. Mas o milagre da internet faz com que saibamos mais uma da vida da outra do que a maioria de nossos outros amigos que convivem conosco, em nossas cidades. É que nos escrevemos quase todos os dias!

Mas nossa amizade, na verdade, começou meio atropelada. É que coincidiu com meu encontro com um dos casos amorosos mais gostosos da minha vida, que você já conhece, se leu o conto “o gabonês”. Pois então: estar no congresso era ficar ali apenas para as palestras que interessavam. Fora isso, dávamos um jeito de sumirmos, os dois, para curtirmos o tempo livre juntos.

De vez em quando, esbarrava em Cris, que me convidava para almoçar, sairmos juntas. Evidentemente, não tinha com ela a mesma intimidade que tenho hoje e não me sentia à vontade de apenas dizer que meu tempo já estava todo ocupado com uma pessoa muito especial. Assim, resumi nosso contato ao mínimo, educada e formalmente, mas, na verdade, o que eu estava fazendo era fugir de encontra-la.

Não me lembro muito bem como (Cris, com certeza, com sua memória de elefante, saberia descrever passo a passo!), a vida fez com que nos encontrássemos, no Brasil, em outros congressos e nosso contato foi sempre muito ameno e cordial. Passei também a reconhece-la mais e, conseguia - embora raramente, confesso - falar com ela, antes que ela falasse comigo. Ela não sabia, mas reconhece-la, no meio de tanta gente, para mim, já era um fato de destaque para meu apreço pessoal, já que minha memória fisionômica é mesmo um desastre.

O fato é que, um dia, resolvemos almoçar juntas. Tínhamos, então, mais intimidade. Nossa forma de pensar sobre aspectos lingüísticos e educacionais é muito parecida e essa companheirice começou a fazer-se cada vez mais evidente nos encontros, simpósios e congresso. Nesse almoço, estávamos falando exatamente sobre isso, quando ela me sapecou uma pergunta bem em cheio. E Cris é Cris! E esta é uma das razões por que gosto dela, para citar apenas essa, é claro. Nesse almoço, ela foi direta e simples:

- Você se lembra de nosso encontro no Porto?

- Não muito bem.

- Tive a impressão de que você não ia com a minha cara. Me evitou o tempo todo. Tentava marcar uma coisa com você, mas você estava sempre desconversando. É engraçado como agora estamos sempre juntas.


Não pude me conter. Dei uma boa risada.

- Cris, você não vai acreditar. Mas é que eu estava de caso com um congressista francês, do Gabão. Fugia de tudo para conseguir ficar só com ele!

- Ora bolas, por que você não me disse logo? E eu achando que você não queria conversa comigo!

- Não queria mesmo, mas era por isso!


Um ano depois, mais ou menos, nos encontramos em Lisboa, para outro congresso. Desta vez, no entanto, sabíamos que nos encontraríamos lá. Mas, logo ao ver-me, Cris perguntou:

- Você está de caso com alguém?

Soltei outra bela risada.

- Não querida, acabei de chegar. Mas dessa vez, juro, se acontecer, você será a primeira a saber.

- Ok, assim eu sei por que você some.


Não conheci ninguém. Aliás, nunca estou deliberadamente a procura de alguém quando viajo. É que, às vezes, acontece...

O fato é que nós duas nos divertimos a valer. Cris tem um faro especial para descobrir lugares interessantes, restaurantes especiais que servem ao nosso delicado paladar. É também dessas companheiras de histórias infindáveis. Se não nos dermos conta, atravessamos a noite. Mas é que queremos aproveitar bem o dia seguinte e ficamos nos vigiando, para dormirmos razoavelmente cedo.

Aliás, o conto dessa semana é uma homenagem a Cris. Veio de São Paulo para passar quatro dias comigo aqui no Rio. Que delícia! Enquanto ela se prepara para dormir, meus dedos inquietos vieram escrever esse conto, para postar amanhã. Uma surpresa, para que ela leia, ainda aqui, ao acordar. Já que ela não perde nenhum dos meus contos, este a surpreenderá.

Haverá outras oportunidades, em que poderei contar algumas de nossas façanhas conjuntas. Por ora, queria apenas fazer-lhe este mimo, uma homenagem a sua visita, coisa rara, mas querida.

sábado, 26 de novembro de 2011

RADAR


Radar era um cão fila que mais parecia um filhote de leão sem juba. Feroz. Tão feroz que seus donos tiveram de aumentar a altura dos muros de sua casa para que ele não se incomodasse tanto com os transeuntes. Uma casa suntuosa que se espalhava, em seus jardins e seus dois andares, numa esquina despreocupada de Pendotiba.

Eu conhecera Radar bem filhote e já era bem grandinho para que eu conseguisse coloca-lo em meu colo. Depois de crescido, soube, por acaso, que apenas quatro pessoas conseguiam colocar as mãos nele despreocupadamente: os donos, o veterinário e eu. Não conseguia ter medo dele. Era mesmo uma amizade sem cuidados. Confiança mútua, eu diria. Os familiares o temiam e eu não conseguia entender por quê. Quando eu chegava, era uma festa só! Remexia-se todo de contentamento e não saia de perto de mim o tempo todo da visita. Aliás, só ele chegava perto de mim, pois rosnava para todos que se aproximavam. Eu não conseguia fazer festa nem na fêmea, uma fila linda, delicada e gentil. Ele se interpunha entre mim e ela e não tinha jeito de eu conseguir afaga-la sequer.

Às vezes, eu ficava pensando se não seria exagero das pessoas pinta-lo de forma tão feroz: diziam que o entregador de pizza já mostrava certo receio quando anotava o endereço: é da casa do Radar? Ele sequer vira o cão, mas só os latidos o faziam tremer. Posso imaginar o que diriam do carteiro...

Embora Radar não tivesse acesso aos transeuntes, pois até o portão de entrada era indevassável, diziam que seu instinto fazia com que viesse latindo furioso batendo-se contra o portão ao primeiro estalar da campainha. Eu nunca presenciara esses desacatos e para mim, Radar era um amigo querido e sempre bem acolhido.

Veio o divórcio e todas as conseqüências que isso traz à vida da gente. Até que tudo se estabilize, você fica mesmo um pouco distante de muitas coisas, mesmo das que gosta. O meu, especialmente, com tantas dívidas advindas depois, me fez ficar imersa em trabalhos e compromissos por longo tempo.

Quando a vida começou a estabilizar-se, comecei a freqüentar meus amigos novamente. A casa de Radar era distante e ir lá exigia uma disponibilidade que eu não tivera até então. Estava com saudades de todos, mas, confesso, Radar tomou meus pensamentos a maior parte do trajeto entre minha casa e Pendotiba.

Toquei a campainha. Seria uma bela oportunidade de testar a fúria de meu amigo, pois, afinal, já havia uns dois anos que eu não ia lá... um pouco pensativa, temia, na verdade, que já tivesse se esquecido de mim. Ao ouvir os latidos furiosos que vieram de longe, dos fundos da casa em direção ao portão, tão logo toquei a campainha, lembrei-me do entregador de pizzas e sorri. Naquele instante, passei a acreditar em todas as histórias. Nenhum entregador poderia se esquecer daquele rugido que de cão pouco parecia... mas usufruí desse episódio por muito pouco tempo: no meio do caminho, os latidos pararam abruptamente. Radar ganiu, baixinho a princípio, depois mais alto e desapareceu. Soube depois que fora como uma flecha buscar meus amigos, agoniado, acompanhando-os, empurrando-os para o portão. Ele havia sentido a minha presença.

Quando entrei nem pude cumprimenta-los. Meu olhar estarrecido, contemplou aquele animal enorme, indócil, nervoso, me empurrando contra a parede com o focinho. Ele não se esquecera! Pelo contrário, mostrava a falta que eu tinha feito durante todo aquele tempo. O ritual completava-se como antigamente: ele sabia que eu não poderia conter seu peso e nunca pulou sobre mim, quando eu chegava. Pelo contrário, empurrava-me para a parede e, como parte da brincadeira, eu sempre me fazia de difícil, até que ele conseguia me encurralar com o focinho. Uma vez encostada contra um muro ou parede da casa, ele levantava suas patas dianteiras e as colocava uma em cada lado do meu corpo. Significava que elas ficavam mais ou menos acima da minha cabeça, de modo que, ali presa, eu não tivesse outra opção senão coçar o seu peito, como carinho. Radar era muito inquieto e não permitia que ninguém o abraçasse, nem seus donos. Mas fazer carinho, coçar suas costas, cabeça ou peito, era tudo de bom. E o peito era a parte em que ele mais gostava de receber minhas coçadinhas. Ficava assim por um tempo e não havia meios de alguém o arredar de seu ensejo. Rosnava até para os donos, se fosse necessário. Confesso que me sentia uma princesa, ali, dona da situação. A fera domada pelo suave toque de minha mão.

Este ritual sempre impressionara muito as outras visitas da casa:

- Você não tem medo?

- Como posso ter medo diante de tanto carinho?


Eles não percebiam o cuidado de Radar de me empurrar para a parede por saber que eu não agüentaria que ele se apoiasse em meu ombro. Sequer percebiam o movimento de levantar a cabeça para que eu pudesse acariciar o seu peito. Eles só viam os dentes, não o pelo, as garras, não a atitude... coisas que só o amor pode compreender. E amor era o que ocorria ali. Um amor bem possessivo, mas que eu sabia contornar, embora, muitas vezes, um pouco exagerado. Radar não permitia que ninguém chegasse muito perto.

Lembro-me de uma vez em que fui com um namorado. Discretamente, ele logo entendeu que era mais conveniente se sentar um pouco mais distante de mim, melhor dizendo, do outro lado da mesa do jardim. Menos do que isso, não foi permitido pelo meu ilustre cão companheiro.

Eu tenho a impressão de que para Radar eu não era propriamente uma amiga, era uma posse. Ele era o meu dono, um dono sem espaço para meio termo. Ao me sentar, deitava-se ao meu lado o tempo quase todo. Sua cabeça repousava tranqüila em um dos meus pés. Quando não era a cabeça, era uma das patas. Não era para ter dúvidas: eu pertencia a ele, desde a hora da entrada, até a despedida. Leva-lo para o canil, quando eu estava lá, era quase uma injúria e ele reclamava disso a altos brados, quero dizer, a altos latidos e muitos ganidos. Melhor deixa-lo solto e ao meu lado. Aliás, no fundo, eu adorava o escândalo ele que fazia e solicitava “condescendente” (na verdade, suplicante), que ele ficasse por ali. Era mais confortável para todos e melhor para nós dois. Confesso que me agradava muito ter ao meu lado, como se fosse um gatinho, um “filhote de leão”.

Essas visitas, embora não freqüentes, povoam até hoje, com alegria, minhas lembranças. Até mesmo a última vez em que vi Radar foi gratificante, embora extremamente comovente.

Aconteceu que ele ficou gravemente doente. Câncer ósseo, sem cura. Cuidado com carinho e desvelo por seus donos, foi tratado para usufruir do melhor conforto durante a doença. Não me disseram nada, até bem perto do fim. Mas este, um dia, chegou, pois o veterinário aconselhou um término para a dor. Ele estava muito mal.

Eu estava sem ir lá há uns três meses e não sabia o que estava acontecendo, até que eles me ligaram e contaram, de uma vez só, toda a história. Senti uma facada no peito:

- Acho melhor você vir para se despedir, pois ele não consegue mais sequer se levantar e achamos que devemos dar um fim a esse sofrimento.

Fui no dia seguinte, não deixei para depois. Ao tocar a campainha, não fui saldada com os latidos de sempre. Ele deveria estar lá nos fundos. Ao abrir a porta me disseram que seria melhor eu me preparar, pois ele estava deitado e quieto, que eu me aproximasse devagar a falasse com ele.

Ao entrar na parte interna do jardim, vislumbrei seu vulto ao fundo. Sua cabeça levantou-se, ele, a custo, levantou-se e caminhou meio rastejante em minha direção. A cena, em si comovente, surpreendeu os donos e a mim. Corri para evitar que ele fizesse mais esforço. Meu ímpeto foi o de abraça-lo. Com certeza, não teria forças para reagir e evitar o movimento. Mas me contive. Quis respeitar seus princípios. Apenas afaguei-o e ele, imponente, empertigou-se. Magro, fraco, abatido, mas altaneiro. Foi assim que tiramos nossas fotos. Ele se sustentando em pé o mais que podia. E foi a última vez que se pôs em pé.


Enfim, deitou-se, colocou como sempre sua cabeça em um dos meus pés e não mais se levantou, mesmo na minha saída.

Ficamos ali, por muito tempo e conversamos muito. Eu lhe falei de todos os momentos incríveis que ele me proporcionou e ele me respondia, vez ou outra, com pequenos ganidos baixinhos, quase suspiros - doces, embora doloridos suspiros. Nós dois sabíamos que seria a última vez. Mas também sabíamos que seria eterno.

Lembro-me que se queixou quando me levantei para ir embora. Apoiou com mais força sua cabeça, tentando me reter ali. Ao mesmo tempo, sabíamos, ambos, que era esforço demasiado. E foi por isso que me despedi.

Afaguei-o com todo o carinho de uma vida a dois. Sua testa enorme na palma da minha mão. Seus olhos fechados internalizando o momento. Eu sabia. Ele sabia. Minhas lágrimas pingavam em sua face. Nós sabíamos.

Radar, meu querido, doce e meigo amigo, aquela estrela lá no céu, eu bem sei, te pertence. Sei reconhece-la onde quer que eu esteja...

sábado, 24 de setembro de 2011

COSME E DAMIÃO


1969. Virgínia apareceu na minha vida por conveniência. Estávamos, ambas, noivas de colegas de universidade e, por isso, fomos apresentadas numa dessas saídas de casais de namorados. O objetivo, no entanto, estava traçado. Eu estava em pleno vestibular para o curso de Letras, ela idem. Eu queria muito passar e fazer o curso, ela nem tanto. O pai e o noivo queriam vê-la formada em qualquer curso que intitulavam “decente”. O que ela queria fazer mesmo era Belas Artes, mas o pai não deixou: era considerado, por ele, curso de menos valia, que não faz o futuro de ninguém.

Assim, Virgínia parecia acomodar-se a qualquer curso e Português-Inglês pareceu ser uma boa opção. Já que não poderia fazer o que queria, qualquer coisa serviria. Mal sabia ela em que arapuca estava se metendo. Ocorre que o noivo me apresentou Virgínia, já sabendo de minha fama de cdf. Assim, quem sabe, garantindo a amizade, conseguiria prender sua namorada, digo, noiva ao curso, nem que fosse para me fazer companhia.

No primeiro encontro eu disse que não tinha a mínima vontade de fazer português-inglês. O que eu queria era literatura, cultura clássica. Ela queria a mesma universidade do noivo, eu queria outra instituição. Mas sua vontade era mesmo frouxa. Ali mesmo, tomando sorvete, ela decidiu mudar de curso e de universidade, desde que estudássemos para o vestibular juntas. Aceitei. Não sei por que, até hoje, mas aceitei. Prefiro estudar sozinha, rendo mais, mas... aceitei.

No fundo, pressentia que Virgínia mais me parecia estar querendo encontrar uma amiga para folguedos. O fato é que esse pequeno, mas fundamental deslize de ambos os lados, ela por mudar de curso e de universidade e eu, por aceitar estudarmos juntas, nos rendeu uma amizade que persiste até hoje.

Para você ter uma idéia, ambas nos casamos no mesmo ano e por pouco, não nos separamos no mesmo ano. Pura coincidência, mas aconteceu. Somos madrinhas uma da outra.



Nossos ex nunca mais se viram, eles que foram os responsáveis por nosso encontro. Nós, no entanto, continuamos amigas até hoje.

Eu passei no vestibular entre as primeiras, Virgínia, sorridente e sem muito esforço, também passou. Para ela, era coisa só de passar. Para mim, tinha de estar entre as primeiras, pois custaria uma bolsa de estudos, conquistada a ferro e fogo.

A foto é um flagrante em plena prova de vestibular, tirada por Anita, uma colega: Virgínia em pé, pronta para entregar a prova de inglês, enquanto eu, no centro da foto, ao fundo, cheia de livros, lutando por uma boa classificação. Naquela época, as provas eram descritivas e a prova de língua instrumental exigia uma tradução.


Fomos ficando juntas, apesar de nossas incríveis diferenças. Mas, talvez, justamente pelas diferenças, nos ajustávamos. Eu muito séria, ela muito brincalhona.

Chegávamos juntas. Ela passava pela minha casa para me buscar, eu sonolenta por ter estudado até altas horas da madrugada, após um trabalho estressante do dia anterior, muitas vezes chegando em casa às 22 horas, sem sequer ter jantado. Quantas vezes ela me tirou da cama, com piadas e brincadeiras, faltando apenas 15 minutos para o início da primeira aula! Me ajudava a colocar a roupa e eu acabava de acordar percorrendo a única quadra que, felizmente, nos separava da universidade.

- Você viu os olhos daquele moço, que lindos?

- Que moço
?

Eu estava zonza, ela espertíssima, sempre!

Saíamos juntas. Ela para casa, eu para dar minhas aulas particulares, que, felizmente, eram muitas: meu sustento. Uma vez por semana, eu ia para sua casa, almoçávamos e fazíamos nossos trabalhos em grupo: Virgínia, Luzia e eu. Nesses dias, eu saboreava a deliciosíssima comida da vovó Laura. Doce criatura, que me dizia sempre:

- Faça essa menina estudar... só quero ver essa menina formada!

Como se precisasse. Para Virgínia, a universidade, a meu ver, já passara a ser um divertimento. Fazer sem obrigação e fazer sem gosto era visto por ela como um passatempo. Eu ralando, ela rindo, esperando o curso acabar para se casar.

Andávamos coladas para cima e para baixo, nas escadarias, na cantina, na sala, pelos corredores. Onde estava a corda, estava a caçamba. Bem depressa nos puseram os apelidos de Cosme e Damião. Nasceu assim, espontaneamente, por conta dos colegas que nos imaginavam, talvez, amigas de infância.

Virgínia colava como ninguém. Sentávamos juntas. Ela lia minhas respostas, fazia algumas observações e críticas, depois inventava lá o seu texto, com uma classe e estilo que jamais pareceria tirada de outra prova, mas de livros eruditos. Inteligentíssima. Risonha. Engraçada. Feliz. Nossas notas sempre emparelhadas. Eu gostava da idéia, pois Virgínia dava conta das pesquisas que eu não tinha tempo de fazer, por conta do excesso de trabalho.

Não posso me esquecer de Virgínia assistindo às aulas. Atenta, pois não queria estudar depois, não perdia uma anotação. Lembro-me, especialmente, das aulas de fonética, do professor Dinamérico. Sentávamos na primeira fileira e Virgínia prestava atenção redobrada. Conteúdo difícil. Por muitas vezes, minha companheira, sem cerimônia, interrompia:

- Desculpe, professor, não entendi.

Aliás, ela e toda a turma, pois ele era excelente professor, mas quando ficava enrolado, não havia quem desenrolasse. O professor repetia a explicação e Virgínia o interrompia, sempre, de novo, sem a menor cerimônia:

- Desculpe, professor, mas... sabe... meu problema não é de surdez. Se o senhor repetir do mesmo jeito, vou continuar não entendendo. Eu preciso que o senhor explique de outro jeito, de um jeito que eu entenda.

Isso, dito assim, com a simplicidade de uma anja. Não havia quem conseguisse se aborrecer com seus comentários. Nem o professor Dinamérico. E lá ia ele, mais paciente, repetindo a explicação de um jeito diferente para que ela, e, na verdade, todos nós pudéssemos entender.

Luzia era a terceira desse grupo. Chamara a atenção de Virgínia desde o primeiro dia. Era a única cega da turma e Virginia, com seu coração generoso, logo percebeu que precisaria de ajuda para as anotações e infra-estrutura do convívio universitário. Luzia foi assim, incorporada aos nossos trabalhos formando um dos grupos de estudos da turma. Você se lembrará dela, se leu o conto
"Luzia".

Para desespero de Marco, único varão da turma, Virgínia tratava Luzia com requintes de “igualdade”. Puxava-a de um lado para outro, subindo as escadas depressa:

- Vamos, Luzia, a aula já vai começar!

E Luzia lá, acompanhando o ritmo aos tropeços, no começo... mas... com a bengala dobrável já enfiada na bolsa e confiando totalmente nas chamadas loucuras de Virgínia, apenas se apoiando em seu braço e andando rápida para lá e para cá. Nunca vi uma mudança de comportamento tão rápida em uma pessoa com necessidades especiais.

Lembro-me, de modo especial, de um dia. Luzia entrou na sala rindo:

- Meninas, vocês não sabem o que me aconteceu hoje! O guarda de trânsito que fica aqui em frente me parou e me disse para eu tomar mais cuidado com quem eu ando, pois tem uma moça que atravessa a rua comigo que nem uma doida! Só pode ser a Virgínia...

- O que você respondeu, menina,
arguí logo.

- Ah, eu disse para ele não ligar não que ela é meio doida, mas sabe o que faz.

De fato, Luzia estava mais desenvolta, mais feliz, mais confiante. Ninguém poderia ter feito algo melhor e mais adequado à inclusão dela na turma do que Virgínia, estou bem certa disso.

Assim era e é Virgínia até hoje, embora os embates da vida tenham traçado os veios de suas faces com marcas variadas entre os sabores e os dissabores da vida.

Lembro-me particularmente do dia de nossa formatura. Cerimônia simples, mas cheia de carinho e amizade pela turma especial que fomos na universidade. Tão logo acabou a cerimônia, Virgínia que, evidentemente, se sentava a meu lado, se levantou para receber de mim, seu primeiro abraço, como combinamos. Lembro-me de sua voz sussurrando em meu ouvido:

- Até que enfim. Acabo de me aposentar.

De fato... Virgínia aposentou-se do Curso de Letras tão logo recebeu o diploma. Hoje é artista plástica, como sempre quis, desde adolescente. Isso é que é ter conquistado um sonho do coração...

Apesar de tudo, se não fizesse o curso de Letras, talvez eu tivesse perdido a oportunidade de conhecer uma das pessoas mais interessantes da minha vida.

E, de quebra, uma amiga prá ninguém botar defeito!!!

sábado, 23 de julho de 2011

O CASAL


Lembra do China? Pois então. Fiquei sem o China e, por muitos anos, bati com a cabeça por aí a cada vez que precisava de algum conserto, alguma pintura, alguma emergência em minha casa.

Um dia, Gildo apareceu, como você viu, se leu o conto “A dívida”. Gildo entrou na minha vida, através de uma amiga comum, ex-aluna e decoradora de interiores. Por conta de reformar a minha casa e dar uma cara mais minha, depois do divórcio, tive dela algumas sugestões muito pontuais e interessantes. E minha casa ficou mesmo a minha cara. Mas quem faria a pintura e os pequenos ajustes necessários? Foi aí que o Gildo apareceu na história da minha vida, para nunca mais sair, lá vão uns... quinze anos, talvez.

Na reforma da sala, então, suas sugestões e detalhes deram ao ambiente o jeito que ele sabe ser meu. O banheiro, por exemplo, ficou assim graças a suas idéias. Uma vez, um aluno foi lavar as mãos e não resistiu. Soltou essa:

-“Vocês já viram o banheiro? Vale uma visita”!

Até o apoio para os pés para as pessoas mais baixinhas foram bolados por ele de um jeito que, quando não estão em uso, se transformam em uma pequena estante. Esse é o Gildo, de fala mansa, educação requintada e de uma simplicidade que faz gosto. Uma vez, fui trabalhar em Vitória, dando palestras e ele ficou morando em minha casa, fazendo uma reforma. Fui no domingo e só me lembrei de ligar para ele na quarta. Ele me inquiriu:

- Puxa, vida, você nem ligou para saber se estava tudo bem, se as coisas estavam indo do seu jeito!

- E precisa?Nem me lembrei que você estava morando aí, então, não ligava à noite. E durante o dia estou trabalhando... só me lembrei hoje.


Quando voltei, estava tudo certo. E mais: uma das coisas que estava por fazer não tinha sido feita porque, apesar de termos combinado, ele experimentou num pedacinho e achou que eu não iria gostar e me esperou para resolver. E, para variar, como me conhece bem, eu não gostei mesmo e fizemos de outro jeito.

Pare a cena. Guarde o Gildo. Desenrole um pouco para trás o carretel da minha vida e você encontrará... Jane!

Eu já disse que tenho um anjo que me aparece nas horas mais desacertadas. Pois eu estava numa hora desacertada mesmo, sem saber quem escolher para cuidar da minha casa com o mesmo capricho e cuidado com que sempre cuidei. Conheci Jane quando ela tinha cerca de quinze anos, filha de uma secretária que me servia às sextas-feiras. Mas era hora de ela tomar outro rumo, por circunstâncias da vida. Vez por outra, no entanto, Jane vinha dar um reforço à mãe e deixava minha casa um “primor”.

Mas Jane merece uma apresentação à parte: esforçada, desde cedo, cursara até o segundo grau e tinha, até, um curso técnico de saúde, algo como assistente de enfermagem, se não me engano. Menina prendada e estudiosa. Não seguiu carreira, também por circunstâncias da vida. Dali fez várias coisas antes de se casar, chegando a posar como gerente de uma importante loja de seu bairro. Mas casou, virou dona de casa e mãe de um filhote lindo que hoje tem vinte e um anos. Uma prenda de menino, em curso de engenharia, estagiando e com emprego acertado.

Mas pulei uma parte: Jane separou-se quando ele era ainda muito pequeno. Foi mais ou menos nessa época que, por falta de melhor opção, acabou substituindo a mãe, às sextas, na minha casa. De quebra, também é excelente manicure, o que fez de mim, uma abençoada, pois às sextas, a faxina passou a ser mesmo completa: casa, pés e mãos.

No começo, pensei em ser coisa provisória. Eu mesma torcia por uma boa colocação para essa moça tão esforçada. Mas qualquer coisa não chegava ao nível do que ela necessitava e nem nas condições. Afinal, o filho era bem pequeno e ela não abria mão de cuidar dele. Trabalhar em expediente integral largando o filho “a própria sorte”, como dizia, estava fora de questão. Então, pegou a minha casa e mais uma, se não me engano, e com isso deixou o filho crescer bem crescido e cuidado como todo mundo que o conhece pode constatar hoje.

O fato é que foi ficando aqui em casa e, um dia... apareceu com diabetes. Aí... dei uma prensa, mas acho que nem precisava. Passou a cuidar-se direitinho. Nessa época, eu já era reikiana, coisa que ela respeitava, mas via com muita reserva. Mas o Tai Chi Chuan que eu também fazia foi bem recebido e ela topou logo participar das aulas que a prefeitura de seu bairro oferecia (e ainda oferece!), duas vezes por semana. Tomou gosto e também jeito para a coisa e foi por aí que acabou se interessando pela terapia holística. Como sempre, santo de casa não faz milagre e não era por mim que ela iria entrar nessa. As energias da vida são assim mesmo. Eu, bem quieta no meu canto, sorria por dentro com a sua empolgação: temos uma hora sagrada para papos, todas as sextas, no horário de fazer as minhas unhas!

Mexe aqui, revira ali... Jane acabou se matriculando num curso, com um dos professores de Tai Chi Chuan, mas para fazer a formação holística. Encurtando a história, Jane é hoje uma instrutora de Tai Chi Chuan e quase terapeuta holística. Falta pouco. E como já vi sua performance em Tai Chi, posso garantir que merece o título que tem. Já ganhou medalhas em competição e tudo!

Aos poucos, Jane acabou por conhecer florais e Reiki e já fala sobre isso como gente grande. Só estou esperando que ela faça os cursos, que estão à disposição, quando quiser.

Fico descansada com isso. Não estarei aqui para sempre e gostando dela como a uma filhota, é claro que quero ve-la bem encaminhada.

Contada a história de cada um desses personagens, pare a cena novamente. Volte a fita.

Estamos em torno do ano 2000. Jane, com o filho em torno de 10 anos, separada. Gildo em fase de separação. Eu, amando os dois como filhos, tramando um encontro de meus dois amores. Que fazer?

A verdade é que meu apto estava mesmo precisando de uma ajeitada. Pintura, consertos... aproveitei a oportunidade e engrenei uma obra. Mas só poderia ser feita às quartas e sextas. Tudo ardil: pedi a Jane que viesse mais uma vez por semana, às quartas, claro, por conta da sujeira que se faria. Aceitou. Nem seria preciso, pois o Gildo, quando sai, a cada dia, deixa tudo um brinco. Mas tinha o almoço. Então, além de ajudar na sujeira, o almoço estaria resolvido.

Não foi preciso fazer mais nada. Quando dois amores de pessoas como eles se encontram, a vida faz o resto. Eu, discreta, só na torcida, sempre apressada para fazer minhas coisas em outro lugar, atolada com a Universidade, pois ainda não tinha me aposentado. O casal se fez naturalmente.

Hoje, os dois estão juntos. Gildo adora o filhote de Jane, que o conheceu com 10 anos e neste ano fez 21. Gildo continua sendo meu braço direito para toda e qualquer reforma, pintura, acerto, pia pingando. Jane é o primor de moça que já contei. Posso dizer que sou brindada, às sextas, com uma instrutora de Tai Chi Chuan, super energizada, cuidando de minha casa como eu cuidaria. Com certeza melhor, pois não tenho mais idade para isso. Sem contar com os pudins e doces de banana que me faz de vez em quando, as unhas, os papos, a amizade, o carinho cultivado entre nós.

Um dia, não estarei mais aqui. Mas de onde estiver, vou vê-la cuidando da terceira idade, como hoje cuida nos projetos de seu bairro, dando aula de Tai Chi Chuan, alongamentos, cuidando, incentivando os idosos e, também, garantindo seu futuro. Estarei descansada por isso. As pessoas esforçadas merecem ser recompensadas pela vida.

Enquanto isso não acontece, fico aqui, também cuidando da minha e tendo, às sextas, um encontro marcado por uma trama do passado bem urdida. Fico feliz por ter feito parte disso.

Se precisarem de uma professora de Tai Chi Chuan e, em breve, terapeuta holística, pois seu curso está acabando, ou de alguém que reforme a sua casa como se sua fosse, com os cuidados de um profissional de primeira classe, já sabem a quem recorrer. Dou os cartõezinhos.

Tim-tim para vocês, meus queridos. Vocês merecem!

sábado, 28 de maio de 2011

EU SABIA


Eu sabia que, nas horas mais desprevenidas, te encontraria assim... assim limpo, assim puro, assim pleno. Vida vai, vida vem... mas sempre tendo algo mais poderoso que nos une, enfeitando minha vida, meus olhos e meus sonhos...

Quantas e quantas vezes, acordei, bem cedo, em solteira, para te ver ao amanhecer... O cubículo onde vivi meus últimos anos de solteirice tinha como prêmio uma janela de sonhos, pela qual você enfeitava a minha vida árdua de luta pela sobrevivência dia a dia, passo a passo...

Tinha você, enfeitiçando e colorindo meu coração.

Algo nos une de uma forma singela e simbólica. Rocha perfeita e pura, forte e suave. Repouso para o coração.

Ao contrário da maioria dos cariocas, volta e meia te visito de perto, abraçando-te com meus passos em teu solo. Quantas e quantas vezes subi de bondinho por puro prazer da visita, da vista e de te sentir bem pertinho, te sentir em mim...

E agora, imagina, posso acordar, de novo, e te olhar da janela, como antes, ou melhor, da varanda, bastando visitar ou dormir na casa nova de Patrícia. E posso ver-te como então, namorar-te ao alvorecer, como há quarenta anos atrás.

Eu mais vivida, mais feliz, mais plena.

Você sempre igual, sempre moço, sempre imponente e brando e lindo e puro!

Eu sabia... mesmo tendo ido embora daquela janela, tristonha da saudade que levava desta paisagem, eu sabia... eu sabia que estarias sempre ao meu alcance... só não podia supor que, um dia, te daria bom dia por uma janela quase igual, mas muito melhor, pois enfeitada pelos anos mais que vividos, podendo te contar de tudo que passei...

E poder sorrir-te feliz, meu amigo e companheiro de juventude. Contar-te que vivi, que vivi muito e intensamente, sem desperdiçar um segundo... só para encontrar-te num mesmo ângulo, numa mesma altura e contar-te... como, um dia, te prometi.