Mostrando postagens com marcador gratidão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gratidão. Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de dezembro de 2013

QUANDO O SOL...


Quando o sol do primeiro dia do ano iluminar sua face, lembre que você nasceu para ser feliz;

 
Quando o sol esquentar seu corpo, no frio do inverno, lembre que ele foi feito para te trazer vida e conforto;
 Quando o sol exagerar sua força, no alto verão, lembre que haverá sempre pessoas que o preferem à neve ou ao frio, e seja paciente. Ele passará;

 
Quando o sol se ausentar de sua alma, congelando seu coração, lembre que ele voltará;
 Quando o sol esquentar mais do que o necessário, secando sua vida, lembre que, às vezes, é preciso atravessar desertos para encontrar paradisíacos oásis;

 
Quando o sol se esconder por trás das nuvens, deixando sua vida sem esperanças, lembre que ele ainda continua a brilhar longe de seus olhos, mas sempre perto de seu coração.

 
E agradeça, a cada dia, pelos presentes iluminados que recebemos da vida, muitas vezes, de forma desapercebida.

domingo, 29 de setembro de 2013

MAKTUB




24 de setembro. O dia amanheceu com cheirinho de festa. Na verdade, com cheirinho de aniversário. Há 39 anos atrás, eu defendia minha tese de doutorado.

Embora eu esteja aposentada, sempre me lembro desta data com uma especial alegria interior. Não pelo sucesso da conquista. É mais do que isso. A tese definiu minha carreira profissional, uma carreira que atropelou meu caminho, literalmente. Coisas da vida.

Eu era professora de Cultura Clássica e Linguística e, como tudo que fiz profissionalmente, adorava o que fazia. Resolvi cursar o doutorado, por conta de conseguir uma promoção para professor adjunto e, depois, a ascensão natural para titular, na universidade particular, onde eu trabalhava.

Uma vez no doutorado, busquei disciplinas que me aproximassem da área médica, estudos que sempre me chamaram a atenção. Escolhi, entre a lista complexa de disciplinas - para quem está entrando, tudo parece muito complexo, depois, simplifica... - uma que parecia muito especial: "Linguística e Patologias da Fala", ministrada pelo  professor Jürgen Heye, um alemão recém domiciliado no Brasil, falando ainda com um pouco de sotaque e, às vezes, confundindo "ele fez" com "ele fiz". Mas a disciplina era boa e me convenci de que começava o doutorado com o pé direito.

Todas as disciplinas exigiam uma monografia final, que deveria ser entregue em um mês. Estávamos no final do ano e como eu era amiga de uma fonoaudióloga que tinha feito o curso de Letras comigo, foi a ela que recorri, para conseguir fazer meu levantamento de dados.

- Cacilda, você teria algum paciente com alguma patologia que eu pudesse pesquisar, assistindo a algumas sessões de atendimento?

- Claro que tenho. Um afásico. É um caso muito interessante! Podemos combinar.

- Ótimo! Caiu como uma luva, adorei estudar afasia. Quando posso ir? Só tenho um mês para dar conta de duas monografias! Preciso assistir a três sessões pelo menos!

- Semana que vem. Você vem, assiste, sem problemas. Vou ligar para a mãe dele e dou retorno.

Enquanto esperava resposta, passei dois dias enfiada em livros sobre afasias. Mas o retorno foi desalentador:

- Eulalia, a mãe do jovem vai entrar de férias e vai viajar com ele. Sem chance.

- O que eu faço? O que você tem como alternativa?

- Estive pensando... por que você não faz sobre surdez?

- Mas surdez não é patologia!

- Não tenho outra sugestão. Fale com seu orientador.

Me despenquei para a Universidade. Começo de dezembro, Heye já tinha viajado para visitar a família na Alemanha. Falar com ele, só em março!

Entrei em parafuso. Eu tinha de encontrar uma patologia para estudar e um profissional que me permitisse assistir a atendimentos, o que é algo muito fora do comum. Acho que "vou de surdo" mesmo e seja o que os deuses quiserem.

A proposta era visitar uma escola de surdos em Niterói, onde havia uma professora que Cacilda conhecia.

E foi assim, observando o atendimento dado na escola que, felizmente, só entraria em férias no meio de dezembro, que fiz meu primeiro trabalho sobre educação de surdos. Estávamos em 1979. Estes estudos eram completamente desconhecidos do meio acadêmico, ou melhor, dos profissionais de estudos linguísticos, nas universidades do Estado do Rio de Janeiro.

Entreguei o trabalho na universidade, com o coração meio apertado, pois eu sabia muito bem que, embora tivesse o peso de uma originalidade e a descoberta sobre uma inumerável lista de falhas educacionais que poderiam servir de base para muitos estudos, o trabalho não tinha nada  a ver com o título da disciplina. Eu era a única caloura da turma e, como agravante,  todos  os outros, já veteranos, tinham lá os seus contatos e entregaram objetos de estudos já conhecidos. A desvantagem era evidente. Seja o que os deuses quiserem.

Eles quiseram.

Em março, quando fui olhar minhas notas no quadro de avisos, fiquei aliviada com o conceito A da outra disciplina, mas... não havia nota à frente do meu nome em "Patologias Verbais". Apenas uma anotação: "procurar o professor da disciplina".

Pronto, estava ferrada. Ele não aceitou meu trabalho!

Procurei o Heye. Estava, como sempre, calmamente sentado em sua sala, rodeado de livros, fumando tranquilamente seu cachimbo.

Entrei com o coração aos pulos. Ele me olhou por cima dos óculos:

- Senta aqui, não se preocupe, quero falar com você.

Sentei-me em cócegas. O que havia de errado no meu trabalho? No fundo, eu sabia: não era um trabalho sobre patologias! Mas eu tinha de defender minha nota até o fim. Afinal, eu não estava estudando com bolsa, pois continuava a trabalhar na universidade e cada disciplina era cursada com um sacrifício inexplicável. Dar aulas, trabalhar e ser dona de casa era uma tarefa tripla difícil de cumprir. E, se eu parasse de trabalhar para ter direito à bolsa de estudos, com certeza, uma universidade particular não iria guardar minha vaga por quatro anos... não tinha jeito. Era levar assim, sem chance de dizer que "não dá". E dispensar uma tarde para uma disciplina, estudar prá caramba e perder o crédito era algo fora das minhas cogitações.

Foi com esse pensamento que eu dava tratos às bolas para defender meus créditos. Talvez estivesse um pouco pálida, não sei. Nervosa, era óbvio de se notar.

Mas o Heye sorriu. Abriu uma gaveta, puxou meu trabalho e o dirigiu a mim:

- Estou no Brasil há pouco tempo, mas conheço sua língua o suficiente para entender o jogo de palavras que você vai ouvir: "Isto dá um tesão". Vá para casa, releia com calma e depois venha conversar comigo.

Fiquei olhando para aquele homem grande, meio louro, meio viking, com pouco sotaque, sorrindo para mim. Me senti completamente afogada em um monte de argumentos desnecessários e evidentemente, sem palavras. Estava bem claro que eu tinha tirado conceito A, que fora aprovada... e que ainda estava com uma proposta de tese nas mãos!

Dali, após uma leitura atenta do que eu tinha feito, me convenci de que era um bom tema para minha tese: original, inédito, tudo por fazer. Mas não achei, em todo o Rio de Janeiro, alguém que pudesse me orientar. Ninguém, dentre os professores daqui tinha sequer lido qualquer coisa sobre surdez! Voltei ao Heye:

- Pois é... você me cutucou e agora não acho orientador. Tem de ser você!

- Mas eu não sei nada sobre surdez! Sequer vi um surdo em toda a minha vida!

Nessas idas e vindas, já nos tínhamos encontrado várias vezes e tínhamos desenvolvido uma relação mais próxima. Heye não era apenas um professor atento... era um ser humano incrível. Eu vinha percebendo isso em cada encontro, o suficiente para poder brincar:

- É... quem mandou  plantar a semente? Agora, rega!

Do jeito que pôde, ele regou. Só me ajudou com a metodologia da pesquisa, como combinamos. O resto, ficou por minha conta.

O fato é que, o que seria apenas para me dar um certificado que me garantisse uma promoção acadêmica na tal universidade onde eu trabalhava, transformou-se em um projeto de vida. 

Acabei desprezando o título de titular da cadeira, que consegui, após dois anos. Minha cabeça já estava em outro mundo e me impulsionou a fazer um concurso para uma universidade pública, em busca de melhores condições de trabalho para desenvolver meu novo projeto de vida acadêmica: saí da tal universidade, entrei para uma universidade pública e pude construir um programa de projetos e pesquisas e de atendimento à comunidade Surda que se estendeu a nível nacional - o "Programa Surdez: Educação, Saúde e Trabalho".

Passei os 20 anos seguintes de minha vida acadêmica, complementando os estudos que vinha fazendo, desde 1979. Desenvolvi projetos com especial atenção à alfabetização de crianças surdas, a convênios de atendimento da comunidade no hospital universitário e dedicação à inserção de surdos no mercado de trabalho. 

Entre as principais atividades, juntei meus esforços à luta de vários segmentos da sociedade no sentido de conseguir que a Língua de Sinais fosse uma língua reconhecida em âmbito nacional. Este último projeto foi um dos mais árduos e marcou minha carreira de modo especial, por escrever o parecer técnico que serviu de respaldo para a aprovação da Lei 10.436, de 24 de abril de 2002, com o reconhecimento da Línguas de Sinais como a Língua Oficial da Pessoa Surda, no Brasil.

Feito isso, me aposentei, em 2003, completamente recompensada por uma vida acadêmica cheia de muito trabalho, lutas, esforços, realizações em artigos, livros e trabalhos compensadores. Não foi fácil, mas foi muito bom!

É por isso que cada dia 24 de setembro, soa como aniversário para mim.E me lembro com muita gratidão e carinho, um carinho muito especial mesmo, de Jürgen Heye, que já está tomando seus vinhos com os deuses (que Baco o contemple com os melhores!).

Tudo porque a mãe de um jovem afásico, resolveu suspender as sessões de fonoaudiologia para viajar de férias para o norte do país...

sábado, 20 de abril de 2013

O MÉDICO


Doutor Paulo atende seus pacientes na Penha, um bairro do subúrbio carioca. De carro, leva-se cerca de 50 minutos para chegar lá, se o trânsito estiver bom. É preciso atravessar uma das avenidas mais atravancadas do Rio, a que serve de saída para quase todo o subúrbio e também para outros Estados do Brasil.

Ele apareceu na minha vida em 1992, quando tive um gravíssimo acidente com minha mão direita: queimei-a por completo com óleo fervente. 

A situação é indescritível e vou privar você dos detalhes. Não valem a pena em qualquer hipótese, muito menos em um conto de gratidão à vida. Mas queimei a mão de tal forma que o que sobrou de queimaduras pelo resto do corpo me passaram despercebidas, por causa dessa dor.

Após ser atendida numa emergência, só deveria tirar as ataduras, segundo me informaram, em próxima consulta. Mas, menos de dois dias depois, começou a doer até o cotovelo. Foi quando um colega de trabalho do meu ex, que também já havia queimado sua mão em um passado distante, sugeriu que eu fosse ao tal do Doutor Paulo, seu cunhado, que tinha cuidado dele na ocasião.

O tal médico nem era especialista, mas clínico geral. Não sei por que, não discuti. Quis o Dr. Paulo e não outro médico qualquer super hiper especialista em queimaduras. 

Tem coisas que a gente não sabe explicar. Cisma e pronto. E não adiantava argumentar que era muito longe de casa, mesmo numa situação grave como essa. Eu queria ir no Doutor Paulo e com a gravidade e a dor do momento, não cabia discussão.

O consultório era bem simples, como são a maioria dos consultórios de médicos do subúrbio carioca. Entrei sem muitas explicações, pois o motivo era óbvio. Lembro-me de que, quando ele tirou as ataduras, não resistiu a fazer uma cara meio esquisita. Eu traduzi como nojo e só soube o que realmente representou um ano depois. Mas deixo para contar, mais adiante, o verdadeiro significado.

O médico fez  um curativo sem descrições literárias. Este não é um conto de terror. Em seguida, me receitou antibióticos e anti-inflamatórios fortíssimos.

Tenho uma aversão natural e física a anti-inflamatórios. Meu estômago não aguenta tomá-los e a impressão é de que vou morrer envenenada a qualquer momento. Antibióticos tudo bem... mas anti-inflamatórios são o meu desespero. Mas ele não arredou pé. 

O que mais me chamou a atenção nele foi a  seriedade e até uma certa rudeza. Homem bem mais moço do que eu, mas firme, seguro, seriíssimo... para não dizer carrancudo. Embora estivesse com muita dor e, nesses casos, geralmente não conseguimos dar atenção a detalhes, não me escapou a impressão de que aquele homem nunca deveria ter sorrido na vida. E pensei que poderia estar exagerando nos procedimentos, embora minha mão estivesse mesmo muito feia. Uma de minhas cunhadas, ao insistir para vê-la (pois eu a escondia sempre), não resistiu e soltou esta prenda:

- Nossa, parece mão de filme de terror.

E o pior é que parecia mesmo.

Mesmo assim, uma semana depois, pedi arrego:

- Doutor, por favor, quando posso suspender o anti-inflamatório? A dor da queimadura é tanta que não enlouqueço porque não consigo mas... com esse estômago conturbado, revolucionando-se a todo instante estou chegando além dos meus limites. 

Certamente, eu deveria estar meio verde de tão pálida e de tanto passar mal. Mesmo assim, ele só suspendeu o anti-inflamatório passados sete dias, mantendo apenas o antibiótico. E foi aí que aconteceu: dois dias depois, eu continuava com uma dor indescritível, mas, pelo menos, o meu estômago estava em paz. Quando entrei no consultório, fui recebida com essa observação:

- Hoje você está com outra cara! 

Não resisti:

- A minha cara é essa. A outra é que era outra. Agora estou com dor, mas consigo sobreviver.

O homem não resistiu e, pela primeira vez, sorriu. Olhei para ele, me lembro muito bem, com lágrimas nos olhos:

- Ah, doutor, como me fazia falta um sorriso nessa dor.

Acho que ele se deu conta. E parece que foi um estalo de vida. Daí por diante, nossa relação mudou completamente e ele passou a me receber sorrindo. Foi quando vi o quanto ele sabia ser acolhedor.
Hoje, como terapeuta, conheço por dentro o valor do sorriso. E não importa o que eu esteja sentindo nas entranhas. Aprendi. Meus clientes sempre são recebidos com um sorriso sincero e acolhedor. Faz toda a diferença...

Mas voltemos aos fatos.

Estive nesse trajeto Copacabana-Penha por duas semanas seguidas, de dois em dois dias. Quando passei a ir duas vezes por semana, um mês depois, já estava dirigindo. Com muita dificuldade, mas estava. A partir daí, as visitas foram se espaçando até 1996. Esses detalhes são importantes para você saber como o relacionamento médico-paciente foi-se estreitando. Passamos a ser amigos e uma parte do sucesso do tratamento, com certeza, se deu por conta dessa imensa cumplicidade que estabelecemos.

Com o tempo, passei a ter minhas intimidades. Quando entrava na sala da consulta, punha minha mão para trás, como uma criança que quer fazer suspense. Algumas vezes, eu amarrava, no pulso, um laço de fitas desses de embrulhar presentes. Sentávamos à mesa e observávamos a evolução da recuperação. Falávamos da mão, como se ela fosse uma terceira pessoa, sendo examinada por dois observadores:

- Agora podemos passar para a fase de infiltrações, vamos ver como podemos melhorar esta outra parte...

Um dia, confessei:


- Cheguei a pensar que iria perder esse dedo aqui.


- E eu estava o tempo todo tentando salvar a sua mão...

Fiquei completamente impactada:

- Como assim? Por que não me disse?


- Não tive coragem... você me perguntava todas as vezes, quanto tempo levaria para você escrever de novo!

Foi, então, que entendi e como já tinha mais intimidade, não escondi:

- No primeiro dia, quando você olhou para minha mão, tive a impressão de que sentiu nojo.


- Não, não era nojo... quando a olhei, tive a impressão de que tinha batalhas a vencer para salvá-la. E acessei meus colegas para ver se passaria você para eles.

Foi só então que soube que Doutor Paulo era professor universitário e, por todo o tempo, foi assessorado por vários colegas para levar adiante meu tratamento. E soube que, nos primeiros meses, eu tive uma equipe por trás dele, pronta para entrar em ação, se fosse necessário. 

Em sua simplicidade e para me poupar de desesperos, ele levou toda a história sem nada me dizer, para manter-me psicologicamente calma o suficiente no meu restabelecimento. E resolveu assumir a responsabilidade de não me dizer. Percebi o tamanho do  risco que assumiu como profissional.

Algo na minha intuição o escolheu e algo, na intuição dele, assumiu este risco para me ajudar a enfrentar uma das grandes dificuldades de minha vida.

Nesse dia, lembro-me bem, eu chorei de gratidão. E, se já havia uma cumplicidade, passou a existir uma amizade consagrada. Nesse período, ele acabou por me contar que estava pensando em fazer uma pós-graduação, mas estava com dificuldades quanto à formulação do projeto. Como professora universitária, passei a dar-lhe dicas de metodologia científica e nossas consultas, além de consultas, passaram a ser encontro de amigos.

E foram assim durante os quatro anos seguintes. Até que recebi alta completa.

Elegi 2006 como ano da gratidão. É que me dei conta de que vamos passando a vida e não percebemos o quanto de pessoas e situações especiais nos ajudaram a viver e a enfrentar terríveis dificuldades. E, é claro, Doutor Paulo era um dos nomes de topo de lista.

Foi muito difícil encontrá-lo, pois havia mudado de lugar de atendimento. Ainda era na Penha, mas, agora, ele não tem mais um consultório e, sim, uma clínica. Nunca vi um sucesso tão bem merecido!

Marquei a consulta, sem me comunicar com ele. A secretária era outra. Perguntou se eu tinha ficha. Disse-lhe que não sabia, pois fazia dez anos que não ia lá. Não achou. Deveria estar guardada com fichas antigas, não imediatamente accessíveis. Em 1992 não se usava computador! As fichas ainda eram feitas à mão! Eu disse que , provavelmente, ele nem se lembraria de mim, não fazia diferença. 

A sala de espera estava repleta. Eu, provavelmente, esperaria muito. Mas, ali, nada disso importava. Pelo contrário, fiquei muito feliz por vê-lo repleto de pacientes.

-D. Eulalia, por favor, sua vez. 

Entrei na pequena, simples, mas aconchegante sala de consultas. Ele não mudara nada... apenas os anos tinham-lhe dado uns abundantes quilinhos a mais. Ao me ver, ele levantou-se imediatamente:

- Como vai a dona da mão mais linda do mundo?


- Você se lembrou!


- Claro! Essa história é inesquecível!!!

Instintivamente, repeti a brincadeira e coloquei minha mão para trás. Nos abraçamos, minha gratidão transbordando pelos poros.

- O que traz você aqui?


- Isso! 

Coloquei minha mão sobre a mesa, na mesma postura em que a examinávamos antigamente. Ele pegou minha mão, examinou-a e perguntou:

- Ela está ótima, a recuperação foi fantástica!


- Isso foi fruto do que seu trabalho, de sua dedicação e é por isso que estou aqui.


- Como assim?

Expliquei-lhe sobre meu ano da gratidão e ele, com certeza, estava no topo da lista. Era um dos primeiros que recebia minha visita.

É claro que, para um médico acadêmico, sério e objetivo como ele, estava sendo difícil de entender. Eu tinha saído da minha casa, distante, só para agradecer? Muito esquisito.

- Paulo. Esta mão, hoje, aplica Reiki. Ela continua sendo a base do meu trabalho. Não serve apenas para o que servia antes, mas para muito mais. Como poderia deixar passar em branco tanta gratidão?

Falamos de tudo, de amenidades, de sua nova clínica, de nosso trabalho. Da vida. E... tenho certeza... especialmente... da gratidão.

Voltei para casa feliz. E, tenho certeza, deixei uma flor linda no coração daquele anjo.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

AMOR DE PAI





Apesar de todas as intempéries, fui especialmente brindada por certos amores. Refiro-me a todas as espécies de amores. Mas, hoje, de forma pontual e agradecida, brindo a vida pelo amor de meu querido primo Manuel.

            Se você leu o conto “Golpe de Mestre” sabe a que me refiro. Se não leu e quiser conhecer melhor essa estrela de minha vida, vale a pena fazer uma visitinha ao texto, escrito em 03 de abril de 2010 (http://blogdaeulalia.blogspot.com.br/2010/04/tudo-comecou-quando-vi-o-filme-golpe-de.html).

            Primo Manuel teria feito aniversário no último dia 20, quarta-feira. Para mim, sempre fará aniversário neste dia, pois está vivo, vivíssimo em meu coração.

            Estive para escrever sobre ele desde o ano passado, quando soube de seu falecimento. Uma gracinha de neta me deu a notícia, numa carta tão amorosa quanto as que dele recebia. Tentei escrever sobre ele várias vezes, sem sucesso. Manuel é muito maior que as palavras e, por mais que tentasse, meus dedos ficavam imóveis no teclado.

            Guardo Manuel não como um primo, mas como um verdadeiro pai que tive, durante uma vida muitas vezes bastante atribulada. Morando em Portugal e eu aqui, não havia mês que eu não recebesse uma carta (a não ser quando ele ficava doente...), como pai zeloso e carinhoso que busca notícias da “filhota” distante. Assim, de 1985 para cá, quando nos reencontramos mais efetivamente, consegui juntar mais de uma centena de cartas. Todas foram, naturalmente, respondidas com o mesmo amor caloroso e filial.

            Tenho-as em uma caixinha, especialmente guardada para este fim. Não sinto vontade de ler nenhuma, pois me parece totalmente dispensável. O sentimento que ele fez florescer já é combustível bastante para o resto da vida., sem necessitar de suporte material. Guardo-as por respeito, por amor, por dedicação singela.

Não sinto dores, acho que ele nem “permitiria”. Sinto a saudade de sempre. A saudade da distância, daquele abraço gostoso e cheio de vida. A melhor maneira de reproduzi-lo seria repetir o que escrevi naquele conto:

“Dali para o abraço, não houve tempo ou espaço. Não importava o mundo, importava o encontro... e nós dois sabíamos o que habitava ao fundo, sem palavras. Num relance, ainda na entrada, ao vislumbrá-lo, confirmei apenas que nunca teria havido qualquer dúvida em meu coração.

Nos sentamos frente a frente, silenciosos, cúmplices, atores do drama, peças principais. Meu pai se tornou pequeno, motivo, instrumento, jargão. O mundo se tornou ínfimo diante da grandiosidade daquele homem, trinta anos mais velho do que eu... poderia ter sido meu pai. Sua alma sempre quis ser meu pai. E esse era o olhar que se desprendia dele para o meu rosto, conferindo a cria, que carregara no colo. Suavidade e doçura de aldeão, semi-analfabeto nas letras, PHD em tudo mais. Eu teria ficado assim, embevecida diante da grandiosidade daquele homem horas a fio. Eu não me mexeria, se ele não se mexesse. Acho que ficamos assim, esperando um ao outro, por algum tempo.”

Manuel me dizia que morou no Brasil quando eu tinha cerca de 2 ou 3 anos de idade. Quase trinta anos mais velho do que eu, seus olhos marejavam de lágrimas, quando me dizia que tinha me carregado no colo muitas e muitas vezes e que me via adulta, com orgulhos de pai.

E foi ele que me pediu, na década de noventa, que lhe enviasse um retrato recente. Para me fazer uma surpresa, sua carta seguinte me brindou com a foto que você vê encimando este conto. Ele era assim: singelo, doce, verdadeiro, amoroso, gentil.

Por mim, estaria desde já acertado: “Na próxima, topa ser meu pai de verdade? Assim, a gente não corre o risco de ter de viver tão um longe do outro...”

Da estrela onde mora hoje, sei que olha pelos seus... e sei que olha também, com o mesmo olhar meigo que sempre conheci, por esta “filhota” brasileira.

Parabéns priminho querido! Pela vida, por sua alma valorosa e gentil, pelo brilho interior...

E... mil vezes obrigada pelo amor verdadeiro que conheci através de você!!!