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sábado, 20 de abril de 2013

O MÉDICO


Doutor Paulo atende seus pacientes na Penha, um bairro do subúrbio carioca. De carro, leva-se cerca de 50 minutos para chegar lá, se o trânsito estiver bom. É preciso atravessar uma das avenidas mais atravancadas do Rio, a que serve de saída para quase todo o subúrbio e também para outros Estados do Brasil.

Ele apareceu na minha vida em 1992, quando tive um gravíssimo acidente com minha mão direita: queimei-a por completo com óleo fervente. 

A situação é indescritível e vou privar você dos detalhes. Não valem a pena em qualquer hipótese, muito menos em um conto de gratidão à vida. Mas queimei a mão de tal forma que o que sobrou de queimaduras pelo resto do corpo me passaram despercebidas, por causa dessa dor.

Após ser atendida numa emergência, só deveria tirar as ataduras, segundo me informaram, em próxima consulta. Mas, menos de dois dias depois, começou a doer até o cotovelo. Foi quando um colega de trabalho do meu ex, que também já havia queimado sua mão em um passado distante, sugeriu que eu fosse ao tal do Doutor Paulo, seu cunhado, que tinha cuidado dele na ocasião.

O tal médico nem era especialista, mas clínico geral. Não sei por que, não discuti. Quis o Dr. Paulo e não outro médico qualquer super hiper especialista em queimaduras. 

Tem coisas que a gente não sabe explicar. Cisma e pronto. E não adiantava argumentar que era muito longe de casa, mesmo numa situação grave como essa. Eu queria ir no Doutor Paulo e com a gravidade e a dor do momento, não cabia discussão.

O consultório era bem simples, como são a maioria dos consultórios de médicos do subúrbio carioca. Entrei sem muitas explicações, pois o motivo era óbvio. Lembro-me de que, quando ele tirou as ataduras, não resistiu a fazer uma cara meio esquisita. Eu traduzi como nojo e só soube o que realmente representou um ano depois. Mas deixo para contar, mais adiante, o verdadeiro significado.

O médico fez  um curativo sem descrições literárias. Este não é um conto de terror. Em seguida, me receitou antibióticos e anti-inflamatórios fortíssimos.

Tenho uma aversão natural e física a anti-inflamatórios. Meu estômago não aguenta tomá-los e a impressão é de que vou morrer envenenada a qualquer momento. Antibióticos tudo bem... mas anti-inflamatórios são o meu desespero. Mas ele não arredou pé. 

O que mais me chamou a atenção nele foi a  seriedade e até uma certa rudeza. Homem bem mais moço do que eu, mas firme, seguro, seriíssimo... para não dizer carrancudo. Embora estivesse com muita dor e, nesses casos, geralmente não conseguimos dar atenção a detalhes, não me escapou a impressão de que aquele homem nunca deveria ter sorrido na vida. E pensei que poderia estar exagerando nos procedimentos, embora minha mão estivesse mesmo muito feia. Uma de minhas cunhadas, ao insistir para vê-la (pois eu a escondia sempre), não resistiu e soltou esta prenda:

- Nossa, parece mão de filme de terror.

E o pior é que parecia mesmo.

Mesmo assim, uma semana depois, pedi arrego:

- Doutor, por favor, quando posso suspender o anti-inflamatório? A dor da queimadura é tanta que não enlouqueço porque não consigo mas... com esse estômago conturbado, revolucionando-se a todo instante estou chegando além dos meus limites. 

Certamente, eu deveria estar meio verde de tão pálida e de tanto passar mal. Mesmo assim, ele só suspendeu o anti-inflamatório passados sete dias, mantendo apenas o antibiótico. E foi aí que aconteceu: dois dias depois, eu continuava com uma dor indescritível, mas, pelo menos, o meu estômago estava em paz. Quando entrei no consultório, fui recebida com essa observação:

- Hoje você está com outra cara! 

Não resisti:

- A minha cara é essa. A outra é que era outra. Agora estou com dor, mas consigo sobreviver.

O homem não resistiu e, pela primeira vez, sorriu. Olhei para ele, me lembro muito bem, com lágrimas nos olhos:

- Ah, doutor, como me fazia falta um sorriso nessa dor.

Acho que ele se deu conta. E parece que foi um estalo de vida. Daí por diante, nossa relação mudou completamente e ele passou a me receber sorrindo. Foi quando vi o quanto ele sabia ser acolhedor.
Hoje, como terapeuta, conheço por dentro o valor do sorriso. E não importa o que eu esteja sentindo nas entranhas. Aprendi. Meus clientes sempre são recebidos com um sorriso sincero e acolhedor. Faz toda a diferença...

Mas voltemos aos fatos.

Estive nesse trajeto Copacabana-Penha por duas semanas seguidas, de dois em dois dias. Quando passei a ir duas vezes por semana, um mês depois, já estava dirigindo. Com muita dificuldade, mas estava. A partir daí, as visitas foram se espaçando até 1996. Esses detalhes são importantes para você saber como o relacionamento médico-paciente foi-se estreitando. Passamos a ser amigos e uma parte do sucesso do tratamento, com certeza, se deu por conta dessa imensa cumplicidade que estabelecemos.

Com o tempo, passei a ter minhas intimidades. Quando entrava na sala da consulta, punha minha mão para trás, como uma criança que quer fazer suspense. Algumas vezes, eu amarrava, no pulso, um laço de fitas desses de embrulhar presentes. Sentávamos à mesa e observávamos a evolução da recuperação. Falávamos da mão, como se ela fosse uma terceira pessoa, sendo examinada por dois observadores:

- Agora podemos passar para a fase de infiltrações, vamos ver como podemos melhorar esta outra parte...

Um dia, confessei:


- Cheguei a pensar que iria perder esse dedo aqui.


- E eu estava o tempo todo tentando salvar a sua mão...

Fiquei completamente impactada:

- Como assim? Por que não me disse?


- Não tive coragem... você me perguntava todas as vezes, quanto tempo levaria para você escrever de novo!

Foi, então, que entendi e como já tinha mais intimidade, não escondi:

- No primeiro dia, quando você olhou para minha mão, tive a impressão de que sentiu nojo.


- Não, não era nojo... quando a olhei, tive a impressão de que tinha batalhas a vencer para salvá-la. E acessei meus colegas para ver se passaria você para eles.

Foi só então que soube que Doutor Paulo era professor universitário e, por todo o tempo, foi assessorado por vários colegas para levar adiante meu tratamento. E soube que, nos primeiros meses, eu tive uma equipe por trás dele, pronta para entrar em ação, se fosse necessário. 

Em sua simplicidade e para me poupar de desesperos, ele levou toda a história sem nada me dizer, para manter-me psicologicamente calma o suficiente no meu restabelecimento. E resolveu assumir a responsabilidade de não me dizer. Percebi o tamanho do  risco que assumiu como profissional.

Algo na minha intuição o escolheu e algo, na intuição dele, assumiu este risco para me ajudar a enfrentar uma das grandes dificuldades de minha vida.

Nesse dia, lembro-me bem, eu chorei de gratidão. E, se já havia uma cumplicidade, passou a existir uma amizade consagrada. Nesse período, ele acabou por me contar que estava pensando em fazer uma pós-graduação, mas estava com dificuldades quanto à formulação do projeto. Como professora universitária, passei a dar-lhe dicas de metodologia científica e nossas consultas, além de consultas, passaram a ser encontro de amigos.

E foram assim durante os quatro anos seguintes. Até que recebi alta completa.

Elegi 2006 como ano da gratidão. É que me dei conta de que vamos passando a vida e não percebemos o quanto de pessoas e situações especiais nos ajudaram a viver e a enfrentar terríveis dificuldades. E, é claro, Doutor Paulo era um dos nomes de topo de lista.

Foi muito difícil encontrá-lo, pois havia mudado de lugar de atendimento. Ainda era na Penha, mas, agora, ele não tem mais um consultório e, sim, uma clínica. Nunca vi um sucesso tão bem merecido!

Marquei a consulta, sem me comunicar com ele. A secretária era outra. Perguntou se eu tinha ficha. Disse-lhe que não sabia, pois fazia dez anos que não ia lá. Não achou. Deveria estar guardada com fichas antigas, não imediatamente accessíveis. Em 1992 não se usava computador! As fichas ainda eram feitas à mão! Eu disse que , provavelmente, ele nem se lembraria de mim, não fazia diferença. 

A sala de espera estava repleta. Eu, provavelmente, esperaria muito. Mas, ali, nada disso importava. Pelo contrário, fiquei muito feliz por vê-lo repleto de pacientes.

-D. Eulalia, por favor, sua vez. 

Entrei na pequena, simples, mas aconchegante sala de consultas. Ele não mudara nada... apenas os anos tinham-lhe dado uns abundantes quilinhos a mais. Ao me ver, ele levantou-se imediatamente:

- Como vai a dona da mão mais linda do mundo?


- Você se lembrou!


- Claro! Essa história é inesquecível!!!

Instintivamente, repeti a brincadeira e coloquei minha mão para trás. Nos abraçamos, minha gratidão transbordando pelos poros.

- O que traz você aqui?


- Isso! 

Coloquei minha mão sobre a mesa, na mesma postura em que a examinávamos antigamente. Ele pegou minha mão, examinou-a e perguntou:

- Ela está ótima, a recuperação foi fantástica!


- Isso foi fruto do que seu trabalho, de sua dedicação e é por isso que estou aqui.


- Como assim?

Expliquei-lhe sobre meu ano da gratidão e ele, com certeza, estava no topo da lista. Era um dos primeiros que recebia minha visita.

É claro que, para um médico acadêmico, sério e objetivo como ele, estava sendo difícil de entender. Eu tinha saído da minha casa, distante, só para agradecer? Muito esquisito.

- Paulo. Esta mão, hoje, aplica Reiki. Ela continua sendo a base do meu trabalho. Não serve apenas para o que servia antes, mas para muito mais. Como poderia deixar passar em branco tanta gratidão?

Falamos de tudo, de amenidades, de sua nova clínica, de nosso trabalho. Da vida. E... tenho certeza... especialmente... da gratidão.

Voltei para casa feliz. E, tenho certeza, deixei uma flor linda no coração daquele anjo.

sábado, 10 de dezembro de 2011

TORTURA CHINESA



Decididamente, temos de tomar um cuidado redobrado com a escolha de médicos.

Foi-se o tempo, chi... foi-se há muito o tempo, o delicioso e insubstituível tempo do médico da família. Aquele que conhecia a todos e era chamado de tio pelas crianças da casa. Mas não dá para saudosismos... a saída é buscar e buscar, até achar a tal agulha no palheiro, o profissional cuidadoso e competente que entenda o nosso organismo. O problema é que de bons clínicos gerais estamos meio falidos... e, como a bola da vez é a “especialidade clínica”, o jeito é buscar essas agulhas nas tais especialidades.

Por falar em “agulhas”, gosto muito de acupuntura. Como terapeuta complementar, a observação parece óbvia. Mas é que essas agulhas, colocadas nos lugares certos, realmente nos colocam no prumo e, invisivelmente, nos deixam saudáveis a maior parte da vida. A questão é achar o profissional certo.

Se o nariz é bom, a gente acaba acertando, mas, antes disso, estamos expostos a cada armadilha!...

Por razões da vida, eu tinha perdido o meu e comecei a procurar outro, do jeito que todos conhecemos: por indicação e... por tentativa e erro.

Entre os que busquei, destaco um chinês legítimo. Médico e, segundo me disseram, muito conceituado. Quando cheguei lá, constatei que o homem quase não falava português, mas... se fosse dos bons, meus dotes lingüísticos acabariam por contornar a situação.

A anamnese foi rápida, acho até que pela dificuldade de comunicação. Na verdade, um bom acupunturista descobre o que você é pelo tato, pela leitura da energia nos pulsos. Acostumada a isso, já os tinha em cima da mesa. Disse-lhe que não tinha nenhuma queixa específica, mas que buscara a acupuntura como suporte para amenizar minha pressão alta dos olhos, aliás, um problema hereditário: meu pai tinha glaucoma.

Minha pressão era alta, mas não exigia maiores cuidados, apenas atenção. Ainda estava no limite de não precisar medicação. Mas a idade avançava e como já estava na minha década de 40, a tendência a subir começava a se fazer sentir. Vez por outra, o oculista me pegava com ela ligeiramente mais alta. Já estava passando do limite e ele já apontava para a possibilidade de entrar no colírio. Disse ao chinês, portanto, que, por causa dos efeitos colaterais da medicação, estava procurando um jeito de baixar a pressão, se fosse possível.

O médico tinha aquela aparência firme de quem sabe o que está fazendo e de quem não gosta de dar muitas explicações. Aliás, de não ouvir também muitas perguntas. Isso, por si só já me desagradou um pouco, mas, como ele era chinês...

Desde a primeira sessão, percebi o desastre: ele impôs um ar condicionado às alturas – melhor dizendo, às baixuras - e ao lhe pedir que aumentasse a temperatura ou me desse um abrigo, ele apenas retrucou que era indispensável deixar como estava e, sobretudo, manter os pés descobertos. Colocou um finíssimo lençol por cima de mim (com os pés descobertos!), sapecou minhas orelhas com um monte de agulhas e escafedeu-se. Eu literalmente congelei. Minhas orelhas doíam horrores! Eu nunca tinha tido uma sessão de acupuntura com tanta dor. Se resolvesse o problema dos olhos, com certeza, sairia com dor de garganta. Mas ele era chinês, da terra onde nasceu a acupuntura. Agüentei firme. Firme até o pré-congelamento, mas agüentei.

Meia hora depois, ele entrou na sala, eu provavelmente azul de frio e tremendo dos pés à cabeça. Disse-lhe isso e ouvi como única resposta que ele sabia o que estava fazendo e que, provavelmente, com o tratamento, dentro de um mês, mais ou menos, eu estaria com pressão 12 por 12, super normalizada, pois ele já tratara muitas pessoas assim, com excelentes resultados.

Voltei para casa com esta última frase gravada em minha mente e decidi ficar por um mês para ver se teria resultado. Valeria a pena suportar o que comecei a intitular de tortura chinesa, que era, literalmente, o que acontecia.

Um mês depois, corri para o oftalmologista e qual não foi a minha surpresa: a pressão que sempre estivera no limite de 20, tinha subido abruptamente para 25!

Saí com a receita do colírio e uma raiva incontida! Voltei ao chinês para lhe dar a notícia e apenas ouvi, numa voz de poucos amigos:

- É, acho que, no seu caso, será preciso usar colírio.

- Mas eu não precisava usar, até que cheguei aqui!


Ele apenas respondeu:

- É, se não precisava, passou a precisar.

Eu não tinha nem como retrucar, pois como e onde teria argumentos suficientes para processá-lo? Também não dava para avançar no seu pescoço: ele era bem mais alto e mais forte do que eu...

Foi assim que me meti com um colírio e seus efeitos colaterais. Passei assim muitos anos, até achar as pessoas certas, tanto em acupuntura, como em oftalmologia. Hoje, finalmente, tenho os dois, bons profissionais: um médico acupunturista, que aquece a sala, nos dias de inverno e me cobre com um cobertorzinho maneiro, para que eu me sinta num estado pré-celestial. Achei, também, uma oftalmologista que, de brinde, é médica homeopata das boas, que junta ao tratamento uns dois ou três tabletinhos, que tomo diariamente.

E tem o Reiki, florais e outras coisas que a maioria das pessoas chamaria de “místicas”. Na verdade, eu as considero terapias complementares.

O fato é que minha pressão baixou, depois de quase dez anos de escravidão: agora sustento 16 por 16, muito menos do que tinha, quando era jovem.

O que aprendi com tudo isso e o que me fez escrever este conto, foi, na verdade, o convívio com essa experiência e, também, com as incontáveis histórias de maus atendimentos clínicos que, muitas vezes, tenho ouvido, diariamente, de meus clientes de Reiki e florais. Só nesta semana, por exemplo, recebi dois casos exacerbados como este meu.

Não dispenso o atendimento clínico em quaisquer dos casos, pois sei que as terapias complementares (Reiki, etc.), como o próprio nome diz, são “complementares”. Mas as pessoas não precisam passar por torturas chinesas, por causa disso. E muito menos serem mal atendidas, como eu fui. Menos ainda, saírem pior do que entraram.

Aprendi que, ao primeiro sinal de descontentamento bem fundamentado, devemos mudar. Aprendi a desconfiar da frase “sei o que estou fazendo”, quando eu não sei se tenho certeza disso. Principalmente, aprendi que quem tem de saber o que está fazendo somos nós, não eles.

A tortura chinesa fez um mal quase irrecuperável aos meus olhos físicos, mas aguçou meu olhar interior. Passei a enxergar melhor, a buscar melhor, a escolher melhor.

Quem sabe, minha experiência possa inspirar você também...

sábado, 30 de julho de 2011

O OTORRINO


Aliás... “os otorrinos”...

Meu ex-marido sofria de uma otite crônica avassaladora. Avassaladora. Uma crise por mês, no mínimo, e procuramos o que eu poderia chamar de “o primeiro otorrino”.

Pois é... quando a gente tem algo avassalador procura logo um bam-bam-bam, esperando que a graça dos céus nos encaminhe, através desse “doutor” para o término de nosso desespero.

O tal bam-bam-bam diagnosticou um tímpano perfurado e optou por uma escariação, um tal de método que ele disse recompor o tímpano, depois de alguns meses. Para isso, seria preciso consultas constantes e freqüentes (e caras!), que foram feitas, rigorosamente, não por meses, mas por uns dois anos seguidos.

Depois desse período, ele finalmente declarou o tímpano fechado. Mas as otites continuaram... virou mesmo um tratamento crônico. Ele tinha a crise, ia lá, fazia o tratamento local, tomava um bando de remédios e ficava temperando até a próxima crise.

De brinde, o tal “doutor” passou a cuidar de minha faringite, também crônica, e acabei operando as amígdalas com ele, pela segunda vez em minha vida, já que a primeira cirurgia, aos 9 anos de idade, segundo ele, não tinha surtido efeito. Assim, fui contemplada com uma outra cirurgia, aos 32 anos de idade. Mas também não resolveu e passei a ser mais uma paciente crônica de sua lista. Volta e meia, virava o tempo e lá estava eu, também, na consulta, para pincelar a garganta e tomar alguns antibióticos.

Um belo (sim, belo!) dia, o tal otorrino viajou para um congresso no exterior e deixou com os pacientes o cartão de seu irmão, também otorrino, para o caso de alguma emergência. Emergência, diga-se de passagem, era o que mais ocorria aqui em casa, pois esse ouvido não dava tréguas. E não deu outra: meu ex entrou em crise e lá fomos nós, consultar o “segundo” otorrino.

Chegamos lá e, logo de saída, ao examinar o canal auditivo do paciente, ele me solta esta prenda:

- Mas o senhor tem aí um tímpano perfurado e muito bem perfurado! Só pode mesmo ter otites graves como esta!

Meu ex, que não deixava passar barato, respondeu de pronto:

- Estou cuidando dela há mais de três anos e seu irmão declarou que tinha fechado o meu tímpano. Aliás, já paguei uma fortuna a ele por conta disso e o senhor diz que ele mentiu para mim o tempo todo?

Se eu não sabia onde colocar a minha cara, imagine você o tal doutor que tinha a expressão mais honesta do mundo. Ele não podia imaginar o que tinha acontecido, mas, é claro, manteve a palavra.

- Bem, pode ter havido algum engano. Mas o senhor tem mesmo uma perfuração considerável em seu tímpano e eu o aconselho a pensar numa cirurgia de timpanoplastia com certa urgência, caso contrário, estará mesmo comprometendo sua audição que já deve ser mais baixa que o normal.

Isso assim, dito na maior delicadeza e com a cara mais sem graça do mundo. Você pode imaginar por quê...

Lamentamos não termos encontrado este irmão e não o outro, em primeiro lugar. Meu ex perguntou se ele faria a cirurgia. Eticamente, ele respondeu que não, pois não era seu cliente. Aconselhou-o a esperar o irmão voltar e que me ex conversasse com ele. Agradecemos e saímos. Fora de questão voltar ao primeiro otorrino!

Meu ex acho que soltaria fumaça pelas ventas, se pudesse. Não lhe tirei a razão, embora eu não seja explosiva. Ouvi, sem poder e nem querer retrucar o quanto teríamos comprado de combustível para o iate do “tal”, sem resultado. Esperei passar a crise, não tinha jeito. Era deixar desabafar. Depois disso, sugeri procurarmos um “terceiro” otorrino. Mas, dessa vez, algum que, comprovadamente já tivesse feito curas suficientes para nossa confiança e não um que, obrigatoriamente, portasse um belo nome em sua porta.

Por meu lado, eu também precisava de um novo otorrino. Estava tomando antibióticos há 4 meses seguidos, sem resultado. Você pode imaginar como estava o meu organismo, todo chumbado de remédios, sem conseguir o resultado desejado, com a garganta constantemente inflamada.

Foi aí que ele apareceu, na lista de convênio da empresa do meu ex, a antiga TELERJ. Fomos lá, ambos precisados de ajuda e cura.

Um japonês simpático, mas sério e compenetrado, nos atendeu. Para mim, retirou de pronto os antibióticos e começou um tratamento à base de aumentar a resistência imunológica. Disse que levaria muito tempo para restabelecer o equilíbrio e por muitos anos eu teria recaídas, mas que as crises iriam se espaçando, aos poucos, se eu fosse bem fiel ao tratamento. Senti firmeza, aceitei na hora.

O caso de meu ex era mais complicado. Exigia mesmo cirurgia. O japonês tinha cara de quem dava conta do recado. E foi com admiração que o ouvi o que se segue:

- Sim, eu posso fazer isso e o farei.

- Pelo convênio?

- Claro, o senhor não é do convênio? De que outro modo eu faria? Só que vou chamar meu professor para acompanhar a cirurgia, pois o senhor já tem 40 anos e é uma cirurgia que pode não ter o sucesso esperado. Mas meu professor é mesmo um expert neste procedimento e pedirei sua presença, por via das dúvidas. Estou certo de que sairá tudo bem se o senhor seguir à risca as recomendações. As chances de insucesso existem, mas são mínimas, se todos os cuidados forem tomados.

- Ele é do convênio?

- Não, mas não se preocupe. É de minha responsabilidade chamá-lo, o senhor não terá despesas extras por causa disso. Ele virá porque vou pedir. A única coisa que lhe peço é pagar uma consulta a ele, 15 dias depois do procedimento, para ele dar o sinal verde para que eu proceda o resto do tratamento. O senhor se incomodaria de fazer isso?


Fiquei boquiaberta! Isso existe! Claro que não nos “incomodaríamos”! Teríamos um expert de graça na sala de cirurgia, sem uma despesa a mais e ele ainda perguntava se nos incomodaríamos de conhecer um figurão e pagarmos por isso apenas uma consulta para ele dar aval a um tratamento tão complexo quanto esse!

Pois então... tudo foi feito, conheci o tal figurão. Na verdade, uma figurinha de outro japonês bem sério, mais para carrancudo, mas também simpático, bem com pinta de professor. Foi o quarto otorrino desta história, mas que apareceu só para brilhar no momento certo e nunca mais vi. Um mês depois da cirurgia, ouvi meu ex comentar.

- Puxa vida, estou “ouvindo em modo estéreo” outra vez

Em suma: sucesso total! A partir de então, passamos ambos a nos tratar com o “terceiro otorrino”. Meu ex ficou bom em cerca de um ano. Depois disso, não me lembro de ele ter tido outra dor de ouvido até o nosso divórcio, que se deu só uns cinco anos depois.

Eu, caso mais complicado, como ele mesmo disse, fui rareando nas crises, mas elas sempre apareciam.

Pois é... mas aí veio o divórcio. E com ele, é claro, o meu desligamento do plano de saúde da TELERJ. As consultas, eu sabia, custavam um preço que eu não podia pagar. Ainda mais porque eu arquei com as despesas do divórcio e outras coisas afins, que vem junto com uma radical mudança de vida.

Não tinha saída. Era dizer, com muito jeitinho, que eu abandonaria o tratamento. Fui à consulta escolhendo as palavras. Aquele anjo protetor merecia os melhores agradecimentos, o mais profundo respeito e toda minha admiração. Ele precisava saber, sem sombra de dúvida, que minha retirada nada tinha a ver com qualquer coisa a seu respeito, mas, única e exclusivamente com minha mudança de vida.

Acho que escolhi uma forma singela e fácil. Disse-lhe que estava me divorciando e, como saía do plano de saúde da empresa, estava apenas suspendendo o tratamento por uns tempos, mas que voltaria. Ficou implícito, de modo delicado, eu acho, a causa real, mas também ficou explícito que seria temporário. Tentei fazer do modo a que ele percebesse que não estava ali para me queixar e, sim, apenas, para me equilibrar. Eu voltaria. Que ele me esperasse, pois eu sabia que, finalmente, estava em boas mãos e aproveitei para lhe agradecer toda a cura que já havia conquistado.

Na verdade, eu não sabia se voltaria. As dívidas que me ficavam eram tantas que eu via um distante horizonte para meu equilíbrio novamente. Mas era o que eu tinha a dizer.

Mas ele não deixou por menos:

- E você acha que eu aceitaria a suspensão de seu tratamento depois de mais de cinco anos de sucesso nessa luta? De jeito nenhum! Se você não aparecer aqui na primeira próxima crise estará colocando o meu tratamento e todo o meu investimento em você no lixo. Nem pense nisso! Depois de tantos anos, somos amigos! Se você não vier, considerarei uma ofensa. E grave!

Me lembro, até hoje, que olhei para aquele homem com lágrimas nos olhos. Isso existe!

Continuei o tratamento. Hoje, muitas vezes, passo em seu consultório só para um abraço. É raro, mas também corro a ele por uma dorzinha ou outra, longe, muito longe das crises de antes. Agora, são alergias de uma pessoa normal!

No mais, é tão raro eu ter dor de garganta que seria uma ingratidão não passar lá de vez em quando, bem rapidinho, só para pedir que as bênçãos dos deuses caiam sobre seus dias.

É engraçado... quase tudo que me acontece tem o “três” a minha volta. É um número que me acompanha, desde pequenininha. Mas esse “terceiro” otorrino é mais do que um bom médico. É um anjo que os deuses colocaram perdido (ou bem achado) no meio dos homens. Seu modo sério de atender, sua ética incontestável, seu sorriso franco e amigo estarão sempre presentes em meu coração.

Espero poder visitá-lo por muitos e muitos anos, vendo-o saudável, feliz com sua amada e forte de espírito como sempre foi.

Que os deuses do Olimpo o abençoem e sua vida seja sempre muito iluminada!