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sábado, 23 de fevereiro de 2013

AMOR DE PAI





Apesar de todas as intempéries, fui especialmente brindada por certos amores. Refiro-me a todas as espécies de amores. Mas, hoje, de forma pontual e agradecida, brindo a vida pelo amor de meu querido primo Manuel.

            Se você leu o conto “Golpe de Mestre” sabe a que me refiro. Se não leu e quiser conhecer melhor essa estrela de minha vida, vale a pena fazer uma visitinha ao texto, escrito em 03 de abril de 2010 (http://blogdaeulalia.blogspot.com.br/2010/04/tudo-comecou-quando-vi-o-filme-golpe-de.html).

            Primo Manuel teria feito aniversário no último dia 20, quarta-feira. Para mim, sempre fará aniversário neste dia, pois está vivo, vivíssimo em meu coração.

            Estive para escrever sobre ele desde o ano passado, quando soube de seu falecimento. Uma gracinha de neta me deu a notícia, numa carta tão amorosa quanto as que dele recebia. Tentei escrever sobre ele várias vezes, sem sucesso. Manuel é muito maior que as palavras e, por mais que tentasse, meus dedos ficavam imóveis no teclado.

            Guardo Manuel não como um primo, mas como um verdadeiro pai que tive, durante uma vida muitas vezes bastante atribulada. Morando em Portugal e eu aqui, não havia mês que eu não recebesse uma carta (a não ser quando ele ficava doente...), como pai zeloso e carinhoso que busca notícias da “filhota” distante. Assim, de 1985 para cá, quando nos reencontramos mais efetivamente, consegui juntar mais de uma centena de cartas. Todas foram, naturalmente, respondidas com o mesmo amor caloroso e filial.

            Tenho-as em uma caixinha, especialmente guardada para este fim. Não sinto vontade de ler nenhuma, pois me parece totalmente dispensável. O sentimento que ele fez florescer já é combustível bastante para o resto da vida., sem necessitar de suporte material. Guardo-as por respeito, por amor, por dedicação singela.

Não sinto dores, acho que ele nem “permitiria”. Sinto a saudade de sempre. A saudade da distância, daquele abraço gostoso e cheio de vida. A melhor maneira de reproduzi-lo seria repetir o que escrevi naquele conto:

“Dali para o abraço, não houve tempo ou espaço. Não importava o mundo, importava o encontro... e nós dois sabíamos o que habitava ao fundo, sem palavras. Num relance, ainda na entrada, ao vislumbrá-lo, confirmei apenas que nunca teria havido qualquer dúvida em meu coração.

Nos sentamos frente a frente, silenciosos, cúmplices, atores do drama, peças principais. Meu pai se tornou pequeno, motivo, instrumento, jargão. O mundo se tornou ínfimo diante da grandiosidade daquele homem, trinta anos mais velho do que eu... poderia ter sido meu pai. Sua alma sempre quis ser meu pai. E esse era o olhar que se desprendia dele para o meu rosto, conferindo a cria, que carregara no colo. Suavidade e doçura de aldeão, semi-analfabeto nas letras, PHD em tudo mais. Eu teria ficado assim, embevecida diante da grandiosidade daquele homem horas a fio. Eu não me mexeria, se ele não se mexesse. Acho que ficamos assim, esperando um ao outro, por algum tempo.”

Manuel me dizia que morou no Brasil quando eu tinha cerca de 2 ou 3 anos de idade. Quase trinta anos mais velho do que eu, seus olhos marejavam de lágrimas, quando me dizia que tinha me carregado no colo muitas e muitas vezes e que me via adulta, com orgulhos de pai.

E foi ele que me pediu, na década de noventa, que lhe enviasse um retrato recente. Para me fazer uma surpresa, sua carta seguinte me brindou com a foto que você vê encimando este conto. Ele era assim: singelo, doce, verdadeiro, amoroso, gentil.

Por mim, estaria desde já acertado: “Na próxima, topa ser meu pai de verdade? Assim, a gente não corre o risco de ter de viver tão um longe do outro...”

Da estrela onde mora hoje, sei que olha pelos seus... e sei que olha também, com o mesmo olhar meigo que sempre conheci, por esta “filhota” brasileira.

Parabéns priminho querido! Pela vida, por sua alma valorosa e gentil, pelo brilho interior...

E... mil vezes obrigada pelo amor verdadeiro que conheci através de você!!!

sábado, 28 de janeiro de 2012

VARIG


Amo a VARIG. Hoje acordei pensando nela.

Me lembrei, também, da história de um famoso político. Diziam que ele tinha uma memória prodigiosa e conseguia se lembrar dos nomes de quase todo mundo que encontrava. Contam que, um dia, ele se encontrou com um eleitor:
- Oi Fulano, como vai? E a Senhora Dona X, sua mãe?
O eleitor muito sério:
- Ora, não se lembra? Eu lhe disse que ela morreu. E já tem mais de um ano!
O tal político não perdeu a pose:
- Morreu para você, filho ingrato. Para mim, estará sempre viva em meu coração!


Pois é. Amo a VARIG, em cada milímetro do meu cérebro e do meu coração. Quem a conheceu e conviveu com ela sabe: a VARIG não era apenas uma empresa aérea... ela estava encarnada em cada funcionário. Estar na VARIG era praticamente, voar em casa. O sorriso da VARIG era diferente, porque vinha de dentro para fora, da alma para o coração, do coração para o gesto.

Acho que ficaria umas semanas só contando histórias sobre a VARIG... e algumas delas pareceriam contos irreais. Mas é que, muitas vezes, a verdade parece fábula mesmo...

Acordei pensando em viajar novamente. Foi aí que me deu aquela saudade da VARIG. É que os comissários de bordo, por exemplo, embora gentis, solícitos e simpáticos não conseguem ter o jogo de cintura tão conhecido da companhia aérea do meu coração.

Lembro-me, por exemplo, de um de meus últimos vôos no ano passado: serviram uma refeição e, como não tenho o hábito de comer carne, não me encaixei na única opção de alimentação: massa com carne. Não tinha nem como separar uma coisa da outra - todo o molho era de carne. Agradeci e apenas perguntei:

- Há alguma opção possível para quem não come carne?

- Lamentamos, não.


Bem, eram algumas boas horas de vôo. Mas ninguém morre se não comer nada, mesmo sendo vôo internacional. Pedi apenas algo para beber e a sobremesa que, diga-se de passagem, não era lá essas coisas. Não encostei no prato e me preparei para uma leitura, melhor maneira de passar o tempo, em vôos diurnos, a meu ver.

Passados uns vinte minutos, uma outra comissária apareceu “do nada” com uma bandejinha improvisada e, sorrindo, me ofereceu:

- Foi o melhor que pude conseguir. Espero que esteja do seu agrado.

O “espero que esteja do seu agrado” era simplesmente um improviso muito bem arranjadinho: um pãozinho com queijo, embrulhadinho, ao centro; um saladinha de frutas, no canto esquerdo, manteiga e geléia, no cantinho direito. Melhor que isso, só se tivesse uma florzinha. Não resisti. Olhei-a bem no fundo dos olhos e sussurrei a pergunta:

- Você foi da VARIG não foi?

Ela sorriu, acenou com a cabeça. Não foi preciso dizer mais nada.

Nas minhas conjecturas, fico imaginando que, do mesmo modo que eu sinto falta do “sabor VARIG de viajar”, os antigos funcionários, quem sabe, também sintam falta do “sabor VARIG de trabalhar”. É claro que, infelizmente, pelo andar da carruagem, essas gentilezas, essa forma cúmplice de mútuo bem estar, se perdeu ou se perderá, diluído no tempo, pela forma objetiva, prática e impessoal que as outras companhias apresentam. Não que não sejam gentis, não que não sejam competentes, agradáveis, prestativos. Quase todas são, com o que se supõe ser o devido treinamento adequado. Mas sinto isso como treinamento, não como uma forma de fazer parte de uma família, o que faz, do trabalho, uma forma boa de viver.

Por que digo isso? Por que fui professora de muitos funcionários da VARIG. Aliás, mais do que eu poderia imaginar. Quantas e quantas vezes, via alunos e alunas entrando em minha sala de aula ainda uniformizados, muitas vezes atrasados:

- Desculpe, professora, acabei de chegar do vôo.

Uniforme, malinha de viagem e livros, tudo num volume humano só. Cansados, mas... felizes. Tive algumas oportunidades de conversar com eles:

- Escolheu Letras por quê? Quer mudar de profissão? A VARIG é um degrau até a sua graduação?

- Não, professora, estou cuidando de meu futuro. Quero subir na empresa. O objetivo final é conseguir as escalas dos vôos internacionais.

- Você gosta tanto assim de viajar?

- Gosto, mas, acima de tudo, trabalhar na VARIG é o que conta. Você não imagina o que é trabalhar lá.

- E como você faz para conseguir estudar com tantos vôos?

- Ué, você mesmo vê. A gente se vira!


Não ouvi isso de um ou dois alunos, mas de vários. E, vezes sem conta, ouvi o quanto eles gostavam da empresa, do que era ser de lá. Fora alunos, tenho duas amigas que foram funcionárias da VARIG. Uma saiu porque se aposentou, outra porque a VARIG acabou.

Deduzi que este amor pela empresa só poderia ter, como conseqüência, esse tratamento tão extraordinário aos clientes. Um funcionário excepcionalmente satisfeito, só poderia nos tratar tão bem quanto visitas em sua própria casa. Mas é que tinha mais: na verdade, eles sentiam como se a empresa fosse deles e não eles da empresa. Faz toda diferença...

Gostaria de contar uma passagem em especial, a da minha volta de Portugal, trazendo meu pai a tiracolo, para morar no Brasil. Se você leu o conto “Golpe de mestre” sabe a que aperto me refiro: meu pai, mal convalescente, precisando enfrentar uma viagem tão longa...

Na verdade, antes mesmo de embarcar para Portugal, eu já havia levantado a hipótese de traze-lo. Assim, desde aqui, já tinha me dirigido à VARIG para perguntar que tipo de apoio poderia ter deles. E já sabia: eles dariam todo o apoio, desde que ele estivesse em condições de viajar e com o aval escrito de um médico responsável.

Assim, uma vez em Portugal e tendo recebido todos os cuidados necessários durante dez dias, o médico disse que ele estaria, sim, pronto para enfrentar a viagem, desde que seguisse todas as recomendações tão logo chegasse aqui. Ok. Ao comprar as passagens e com a declaração do médico nas mãos, pedi a ajuda para o apoio necessário. O que ouvi, foi o seguinte:

- Estamos prontos para prestar toda a ajuda necessária, desde que ele atravesse a Polícia Federal em pé e sozinho, ou seja, sem a nossa ajuda. Não podemos interferir nesta etapa, não com apenas esta documentação.

Em outros termos, para ser considerado um passageiro doente, a burocracia do aeroporto e dos vôos era tamanha, que era mais fácil considera-lo um passageiro comum, isto é, desde que o médico assim achasse conveniente.

Meu pai era, antes de tudo, um osso duro de roer. Desses portugueses de antigamente, que estão doentíssimos agora e, de repente, não se sabe como, estão de pé. Pois é. Na véspera, ainda fui à VARIG. Me encaminharam para uma salinha para que eu explicasse as condições em que eu achava que meu pai se encontrava. Disse-lhes que estava bem, mas que seria custoso, por exemplo, movimentar-se muito, levantar-se, enfim, exigir esforços mais do que o mínimo necessário. Fui encaminhada para outra sala e uma jovem senhora me aconselhou, então, que alguns cuidados fossem tomados: enfaixar as pernas, para evitar que inchassem, se o médico achasse aconselhável. E, por via das dúvidas, quem sabe, que ele usasse fraldas, pois não precisaria levantar-se mais do que desejaria, se fosse o caso. Ainda me perguntou que tipo de alimentação poderia ingerir. Todos esses cuidados jamais seriam pensados por mim. Detalhes desse tipo me foram solicitados. E, diga-se de passagem: não estávamos voando pela primeira classe... era pela econômica mesmo...

Preparei-me, enfim, para a novela “aeroporto”. Pensei com meus botões: a gente passa pela Polícia Federal, eu procuro o balcão da VARIG e, lá na área internacional, a gente vê que tipo de conforto poderemos conseguir até o vôo.

Chegamos ao aeroporto e, no check in, a primeira identificação:

- Sr. Joaquim Pereira Vianna, seja bem-vindo ao nosso vôo. Temos anotado, aqui, um atendimento prioritário. Faremos tudo para que tenha uma boa viagem. Assim que passar pela Polícia Federal, estaremos atentos a suas necessidades.

E qual não foi a minha surpresa: tão logo passamos pela Polícia Federal, quase tropeçamos naquele tão conhecido uniforme, ostentando o crachá da VARIG. O jovem funcionário estava ali, a postos, com uma cadeira de rodas e aquele sorriso acolhedor:

- Daqui por diante, seu conforto está sob nossa responsabilidade.

Estávamos quase na hora do vôo, o que significou pouquíssima espera. Logo meu pai foi levado pelo gentil rapaz para que fosse acomodado antes de todos os outros passageiros, com calma, conforto e segurança e, principalmente, sem atropelos. Logo depois eu fui chamada, pois meu lugar era ao seu lado. Assim, fomos os primeiros a embarcar, meu pai à janela e eu ao seu lado. Antes do embarque dos demais, uma comissária de bordo se apresentou:

- Estarei atenta a este jovem senhor, disse sorridente. Chame-me sempre que achar necessário.

O “jovem senhor” tinha apenas oitenta e dois anos... delicadeza que não se consegue com treinamento. É natural mesmo...

O vôo era diurno e não preciso dizer que meu pai foi servido sempre em primeiro lugar e, volta e meia, a tal comissária sorridente e acolhedora estava ali, com alguma coisa, um pouquinho de água, uma toalhinha úmida para o rosto por causa do ar condicionado:

- Não vamos querer nenhum sinal de desidratação não é mesmo? É melhor beber sempre um pouquinho de cada vez, para o senhor não se sentir desconfortável, afinal como não vai se levantar, mesmo com fralda, vamos bebendo aos pouquinhos...

Enfim, cuidados aos detalhes e de tal forma que, a certa altura, meu pai comentou:

- Eu estou achando que esta moça está interessada em mim...

Enfim, chegamos, depois das longas horas de vôo, que separam o Porto do Rio de Janeiro. Assim que o avião pousou, a mesma comissária se aproximou:

- Vocês tem alguém esperando no aeroporto?

- Sim, meu marido.


Naquela época, eu ainda era casada.

- Ele está motorizado?

- Sim.

- Então, por favor, de-me o passaporte de seu pai, o nome de seu marido e pode desembarcar. Cuide das malas e de sua passagem pela migração. Nós cuidamos do resto.


Agradeci muito e só tinha como resposta, aquele olhar gentil, prestativo, cúmplice:

- Ele foi um amor, não deu trabalho nenhum. Fique tranqüila.

Saí do avião pensando em encontrar meu pai ao lado de meu ex. Mas não. Não sei o que a VARIG fez, mas, quando vi meu pai, ele já estava dentro do carro, sentado no banco do carona, que já estava devidamente forrado com plástico. Um jovem mantinha a porta aberta, ao lado de uma cadeira de rodas e conversava um pouco com ele, como se o estivesse distraindo.

Quando chegamos, ele se dirigiu a nós e disse:

- Bem, está entregue, espero que tenham feito uma boa viagem. A VARIG agradece a preferência!

Preferência? Agradecer a preferência? Eu é que deveria agradecer à VARIG o motivo de minha eterna adoração por ela...

E isso foi só um dos fatos...

A tal da comissária me encontrou quase um ano depois, com meu pai já falecido... e esse encontro vale mesmo outra história, que conto semana que vem.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

CHINA


Imagine um nordestino, desses mesmo que ficam de cócoras para conversar com você. E quieto, de olhar macio e doce. E caprichoso, calmo, cuidadoso, dedicado. Que tem por defeito beber tudo que ganha, no final de semana, mas não chega ao trabalho atrasado (com exceção das segundas-feiras) e nem se sente um cheirinho de pinga sequer durante a semana.

Desses que você olha e gosta dele no mesmo segundo e só não adota porque tem a mesma idade que você. Quase não sabe escrever letras e números, mas sabe contar para você mil alfabetos da vida.

China. Não me lembro do nome dele... ah... é Inácio. Inácio. Só me lembrei porque, depois de trabalhar para nós durante quase um ano na obra da casa do Humaitá - aquela, do conto do galo -, descobri que não tinha carteira de identidade. China, para quem comprei uma camisa nova para tirar o retrato da carteira e que saiu todo prosa para a foto e digitais. China. Que saudade de você. Por onde andará nesse mundão dos meus deuses?...

China, que topou não receber o dinheiro total da semana para que eu o ajudasse a economizar. Queria comprar um terreno lá em Campina Grande, sua terra natal, se não me engano, mas bebia no sábado tudinho que recebia na sexta. China, que aceitou que eu fosse o seu “banco” por meses, até ter os tais 150 que precisava para a tal compra...

- “Pode ficar, D. Lali... senão eu vou beber tudo mesmo...”

A obra da casa do Humaitá foi uma tortura chinesa para mim, sem querer fazer trocadilho com o nome de meu amigo. Mas é que foi mesmo. De um ano, dez meses, vinte e um dias e nove horas que morei lá, acho que tive China como único verdadeiro companheiro de luta e sobrevivência, a maior parte do tempo. É que meu ex escafedia-se em viagens de trabalho por quase todo tempo, aproveitando da casa muito mais os finais de semana e feriados do que qualquer outra coisa. Para mim e para o China sobrava o pesado, a poeira, a atrapalhação e principalmente a minha falta de jeito para resolver os imprevistos.

Um dia – como posso me esquecer? – resolvemos acabar com a inundação do subsolo a cada chuva frouxa que aparecia. Chovia um tiquinho mais e pronto: o subsolo ficava uma graça de lago... e para escoar tudo aquilo, fora o estrago constante das coisas que ficavam lá é bom nem comentar. A obra seria grande, exigindo escavar três metros para baixo do solo em todo o frontal da casa. China dispôs-se a pegar o serviço e eu bem sabia que ele iria levar isso com muita competência. Competência e dedicação. Aconselhou-me a esperar a época da seca, pois uma chuva com todo o frontal da casa escavado até três metros abaixo do solo daria uma tragédia em dobro, com a mínima chuvinha que fosse. Enquanto isso, ele reformava o resto da casa, consertando aqui e ali.

Esperamos a época da seca e começamos o serviço. Não é preciso dizer que naquele ano choveu prá caramba na seca, o que nos deu um trabalho extra e uma obra que durou muito mais do que os 30 dias programados. Na verdade, ficamos 4 meses naquela tortura. De qualquer modo, o trabalho ficou impecável e, fora as inúmeras inundações, enquanto não ficava pronta, tudo saiu bem, com exceção de um dia. E jamais me esquecerei do China, também por causa disso. Minha gratidão para sempre.

Ocorre que, para cavar o corredor frontal da casa, ficaram expostos os canos que vinham de cima e dos vizinhos ao lado. O “de cima” deve ser lido como a casa dos empregados e os canos, diga-se, mais especificamente, referiam-se à saída do esgoto. Era imprescindível, portanto, tomar o maior cuidado para que não se quebrassem, pois seria água para todo lado e... pior... suja! Assim, cuidávamos desses canos expostos como quem cuida de porcelana chinesa, é claro. Num domingo à noite, no entanto, evidentemente que sem querer, meu ex deixou cair um vaso exatamente no cano de esgoto e toda aquela sujeira invadiu o subsolo. Você pode imaginar no que deu. Aliás, não pode. Não mesmo. Mas tente: um esgoto em seu subsolo, com aquelas prendas boiando e tudo. Sem falar no cheiro. Não havia o que fazer, senão solicitar ao síndico que fechasse o registro do esgoto da casa dos empregados, senão, a cada descarga, lá em cima, seríamos brindados com mais uma sujarada aqui embaixo. Isso mesmo. E... vindo do subsolo, o cheiro inundava toda a casa. Não dava para dormir, não dava para respirar...uns três palmos do chão de água infectada em todo o seu esplendor.

No dia seguinte, de manhã bem cedinho, meu ex partiu para Brasília e me deixou com a solução da m... tanto em seu sentido literal quanto metafórico. Que eu não me preocupasse, o China resolveria o problema. E se mandou. Pois é... o China ficou doente exatamente naquela segunda.

Sozinha, tive a brilhante idéia de chamar outra pessoa pelo menos para consertar o cano. Eu não conhecia ninguém que fizesse o serviço e não podia contar com alguém que me ajudasse, pois meu ex tinha mesmo se mandado. Sem experiência no assunto, rodei como barata tonta sem sucesso por ali. Não encontrei ninguém. E ninguém, evidentemente, se prontificou a me ajudar. Cada um com seus problemas e, claro, tive mesmo de esperar até a terça, rezando para o China ter ficado bom. De brinde, os empregados, vez por outra, abriam o registro, me presenteando com mais algumas prendas e cheiros. E precisava dizer que choveu naquele dia para aumentar o volume da tragédia?

Felizmente, eu dava aula na segunda final de tarde e noite. Só cheguei tarde em casa, aliás, de propósito, para evitar ao máximo o convívio com o desastre. Outra noite sem dormir, estourando de dor de cabeça. Não tinha o que fazer. Era mesmo esperar.

Na terça, quando o China chegou, só pela minha cara e pelo cheiro, ele percebeu a tragédia, mesmo antes de baixar os olhos para os canos. Desceu ao subsolo como um bólido e falou um palavrão que eu aprendi naquele momento. Tão logo falou, olhou para mim e me pediu desculpas, pois ele sempre fora muito cuidadoso comigo. Eu apenas lhe disse que, se conhecesse aquele palavrão, teria dito dez mil vezes durante todo o final de semana... que ele ficasse tranqüilo quanto a isso e apenas me socorresse.

- A senhora fique tranqüila. Hoje só saio daqui quando sua casa estiver em condições. Por favor, saia e me deixe aqui. A senhora não precisa ficar aguentando esse cheiro.

- E você? Vai entrar nessa sujeira sem botas, luvas e tudo que for necessário? Nada disso! Me faça uma lista e vou comprar o necessário.


China sorriu. Um sorriso doce, amigo, mas humilde e triste. Eu podia ler sua alma, tenho certeza disso.

- D. Lali, eu estou acostumado a limpar esgotos, faço isso para ganhar um extra. Entro naquelas caixas há anos, assim como estou. Já estou vacinado...

Sorriu e acrescentou:

- A pinga vacina.

Vacina, pensei, claro que vacina... ou melhor... não vacina: anestesia sua alma da dor. Da dor de viver assim, humilde, fazendo a casa dos outros mais bonita, sem você ter a sua, limpando a sujeira dos outros. Naquele momento, disfarçando eu mesma a minha dor de não poder consertar o mundo, pedi-lhe que eu pudesse comprar botas e luvas para aquele e para os serviços futuros. Mas ele respondeu:

- Não dá para usar, não. Nem adianta. As caixas em que eu entro, nem com capa me livraria da sujeira. Já estou mesmo vacinado. E isso aqui não é nada, perto das caixas de esgoto estreitas em que já estou acostumado a entrar.

Disse isso, já entrando naquela sujeira toda e listando os detergentes que eu teria de comprar. Saí dali o mais depressa que pude, pois não conseguia conviver com o que estava presenciando. O China, meu querido “filho” do coração, desvendava sem querer o tipo de vida que levava, muito pior do que eu podia imaginar que pudesse existir, contando tudo com a mesma resignação de tantos peões nordestinos que vieram buscar sustento no sul do país, do mesmo modo acostumado, acomodado, por necessidade de sobrevivência, com o pior que a vida pode oferecer a um trabalhador: falta de condições para seu trabalho, inumeráveis destratos e humilhações, pouco caso, desamor, salário abaixo da crítica.

Eu não sabia o que fazer. Não sabia como reagir. Sequer podia impedi-lo de entrar naquela sujeira, pois ele já tinha entrado, como quem entra em um lugar qualquer! Comprei as coisas às pressas, voltei mais rápido ainda. Não sabia o que dizer. Sumi dali, subi ao andar de cima. Lembro-me que chorei muitas vezes, durante aquele dia. Não pelo China, mas por todos nós: pelos que fazem, pelos que mandam fazer, pelos que não sabem (ou não sabiam, como eu) que isso era feito assim.

Agora mesmo, ao escrever este conto, quantos trabalhadores estarão entrando em caixas de esgoto para limpá-las como fazia o China... e o que fazemos para impedir isso?

Lembro-me até hoje do olhar doce do China que me conquistou como um filho, um filho da vida, posto a meus cuidados. Seus olhos puxados, seu sorriso macio. Quantos de nós temos o privilégio de toparmos com almas assim? A doçura, a dedicação, a lealdade desse amigo jamais deixarão minhas lembranças. Como me lembro, também, até hoje, do perfume de limpeza que ele deixou em minha casa à noite. Um cheiro de lavanda bem suave no lugar do cheiro insuportável da manhã. Ele deveria ter deixado o trabalho às 16 horas, como sempre combinamos, mas naquele dia, fez questão de deixar tudo limpo e arrumado. Não saiu antes das 22 horas, com certeza.

Na quarta, ele consertou o cano e tudo voltou ao normal. Tudo? Não. Algo havia mudado. E muito. Minha gratidão, uma gratidão que não podia ser paga com qualquer dinheiro do mundo. Não pelo fato propriamente dito, embora seja verdade que, por si só, já valeria o reconhecimento. Mas pela dedicação e pelo cuidado com que ele fez questão de realizá-lo.

E senti que, para ele, algo também havia mudado. Ele não se sentia mais tão funcionário, mas cúmplice. Um cúmplice fiel, cuidador, alguém que estava ali para dar conta do recado. Não havia intimidade até então, mas, a partir desse dia, contávamos piadas um ao outro e ele passou a sorrir. Um sorrisinho discreto, mas solto, de quem se sente mais em casa e sabe que tem a responsabilidade de resolver problemas. Algo como se sentir valorizado.

Foi depois disso que aceitou que o ajudasse a tirar a carteira de identidade. E também foi depois disso que aceitou que eu fosse seu banco para comprar a sua terrinha lá no nordeste.

Algo mágico aconteceu naquele dia. Algo que, até hoje, não sei exatamente identificar. Mas sinto que lhe deu dignidade e valor. Uma mágica da vida. Bendito cano arrebentado. Agradeço, hoje, a meu ex, por tê-lo feito, assim como agradeço por ter-me deixado sozinha, na segunda, para resolver o problema... e... agradeço também à vida por nenhum vizinho ter-se importado com o meu infortúnio ou tentado me ajudar a achar alguém que pudesse quebrar um galho momentâneo. Os meandros da vida são incríveis: selou uma amizade para sempre.

China voltou para o nordeste um ano depois disso. Soube que esteve no Rio uma vez ainda e veio me visitar aqui em casa, pois já havia voltado para o meu apto de Copacabana. De brinde, ainda fechou um buraco de ar condicionado que o inquilino tinha deixado. Doce China. Sempre cuidadoso. Não se conformou em deixar aquilo como estava...

China comprou o tal terreno, perto da casa de sua irmã. Liguei para ele, durante muitos anos, ou melhor, para a casa de sua irmã, todos os seus aniversários até que um ano, o número não conferiu e o perdi de vista. Mas quando ligava ele, todo emocionado, voz embargada no outro lado da linha, me dizia:

- Nossa... a senhora não se esqueceu.

Como poderia me esquecer do China, depois das aventuras que passamos juntos na casa do Humaitá? Impossível... China que dizia gostar de mim como gostou da mãe dele. Pobre China... rico China. Por onde andará nesse mundão de meus deuses? Que eles o protejam como tantas vezes ele me protegeu!

sábado, 12 de junho de 2010

NEGUINHA



Neguinha fez parte intensa de minha vida. Talvez uma de minhas melhores amigas dos anos 90. Irrepreensível em suas atitudes. Meiga, suave, forte, fiel, colaboradora, vivaz, malandra, brincalhona, sutil, abusada. Tudo isso. Guardo até hoje seu jeito doce de se acomodar no meu colo. Uma filha sem escrúpulos, confiante, garbosa. E... dengosa. Ai de mim, se não lhe desse atenção nessas horas de aconchego! Morou conosco por uns três ou quatro anos e enfeitava a minha vida todos os dias. Todos!

Se não falasse com ela, em primeiro lugar, logo que chegasse em casa, era uma tragédia. E, claro, isso acontecia com freqüência. Neguinha se empertigava toda, emburrada. Se é que bico emburra, pois é preciso esclarecer que era uma canária. Ficava toda “gorda”, com as penas ouriçadas e, quando eu punha minha mão na gaiola, me bicava para valer, como querendo me castigar. Ao contrário, se eu chegava e ia direto conversar com ela, punha comidinha entre meus dedos, como quem dá comidinha aos filhotes.

Geralmente, as pessoas não acreditam muito quando falamos assim de animais de estimação. E eu mesma custo a acreditar no que digo e, vez por outra, revejo os filmes que tenho como lembrança, dignos de publicação! Isso mesmo: uma canária esparramada no meu colo, adormecendo com um cafuné. Momentos de aconchego. Outras vezes, brincava de lutar comigo, duelo de dedo com bico. Ensinava seus filhotes a pousarem em minha cabeça e eu ficava frequentemente enfeitada com esses bichinhos coloridos. É preciso dizer que nunca me sujaram, nem a minhas roupas. Não sei como explicar, mas nunca fizeram suas necessidades em mim, nos muitos anos de convívio.

Levar Neguinha ao veterinário era uma festa. Fechávamos portas e janelas e abríamos a gaiola. Ela voava, primeiro, para minha cabeça para se assenhorar do ambiente. Depois, voava para lá a para cá até pousar perto de um dos funcionários ou mesmo em sua cabeça. Com isso estava querendo dizer que poderia ser pega por este, pois, se outro tentava pegá-la, alçava vôo direto para mim. Se fosse o escolhido, no entanto, ela deixava. Pode um bichinho desses? Pois era assim mesmo.

Incrível contar como Neguinha chegara a minhas mãos. Antes dela, tinha tido um canário que escolhera o meu apto para morar. Provavelmente, fugira de alguma gaiola e, perdido, entrara em nosso apto. Isso se deu em 1986. Entrou, ficou, ganhou gaiola, nome e sobrenome. Eu não podia pensar em um bichinho preso dentro de casa, motivo pelo qual nunca tinha tido nenhum animal de estimação. Mas ele escolhera o recanto e eu me senti sem saída. Então, enquanto estava em casa, levava a gaiola para a sala, fechava portas e janelas e o soltava. Ele voava direto para minha renda portuguesa, o lugar mais alto da sala. Ali, cantava até se desmanchar. Um canto alegre, forte, gentil, inebriante. Eu tentava estudar, mas passava muito tempo contemplando aquele precioso presente da natureza. Planta e pássaro num quadro perfeito. Resolvi chamá-lo de Zugspitze, o monte mais alto da Alemanha, que eu tivera o privilégio de conhecer. Lugar onde vi neve pela primeira vez, em pleno verão. Me entalei de frio, mas valeu a pena, já que três horas depois, usufruía novamente do calor exuberante ao pé da montanha. Zugspitze me impressionara pela neve, pela beleza e pela sensação de ter tocado o cume da Alemanha. Ao fitar aquele canário no topo de minha sala, só pude pensar nesse portentoso nome. Estava batizado. Meu canário se chamaria Zugspitze. Um nome desses, no entanto, merecia um primeiro nome familiar... então, para mim, ele era “Pitico”.

Pitico Zugspitze viveu conosco durante dez dias. Dez dias de encantamento.

Sentada à mesa da sala, às vezes, eu o chamava:

- Pitico, vem cá, vem!

E ele, incrivelmente, saía do topo da "montanha", sobrevoava a minha cabeça, tirando um fino (!) e voltava para seu lugar favorito, entre os verdes ramos da renda portuguesa. Não gostava de ser tocado, mas quase me tocava em seus vôos. No final do passeio, voltava sozinho para a gaiola.

Um acidente, que prefiro não descrever, levou esse incrível bichinho de nosso convívio. Um mês depois, minha belíssima e frondosa renda portuguesa de anos, estava completamente seca. Enlutara como eu ou meu luto a enlutou. O fato é que não resistiu ao convivio com a saudade.

Uma parte de mim morreu, com certeza. Jurei a mim mesma nunca mais ter bichinho algum. Sentia-me responsável pelo acidente. Hoje sei que foi uma responsabilidade que não me pertenceu. Mas não poder evitar, foi cruel. Enfim, melhor não ter mais ninguém. Minha faxineira, no entanto, pensando me consolar, apareceu com outro canário, um mês depois. Esse antecedeu Neguinha. Não tive como recusar a gentileza e acabei ficando com ele. Só que não cantava de jeito nenhum... como não cantava, passei a chamá-lo simplesmente por Piú. Piú só fazia “piú” mesmo... e era tremendamente tímido. Não gostava lá muito de sair da gaiola... era preciso enxotá-lo sempre para que voasse um pouco e exercitasse as asas. Se você não sabe, fazer os pássaros voarem é o melhor preventivo para que não fiquem doentes. Canários, de modo geral, morrem de complicações pulmonares. Pássaros foram feitos para voarem, não para ficarem presos em gaiolas. Então, Piú era enxotado para exercícios diários, mas logo voltava para casa. Era preciso respeitar sua timidez e reserva e fora os exercícios de praxe, eu aceitava esse novo serzinho do jeito que ele era: tímido e sem canto. Um belo dia, no entanto, olhei para Piú e ele tremia mais do que vara verde. Peguei-o com cuidado e ele não parava de tremer. Achei estranho ficar em minha mão, pois ele era muito arisco. E tremia tremia tremia. Apavorada, liguei para André, nosso veterinário, ex-veterinário dos pássaros do Jardim Zoológico e, naquela época, dono de uma clínica de animais. Entendia horrores de pássaros naturalmente e, com certeza, me salvaria.

- Pelo amor aos deuses, André, eu não sei o que está acontecendo! Piú não pára de tremer!!!

Ele começou uma série de perguntas sem fim, mas eu só queria levá-lo lá! De repente, eu disse:

- Não precisa mais, André! Está resolvido!

Breve silêncio do outro lado da linha (provavelmente, ele havia pensando no pior).

- O que houve? perguntou enfim.

Eu estava espantadíssima:

- André, o Piú acaba de botar um ovo... esse bicho é fêmea!

Daí por diante, Piú virou Piúa e, claro, dispensada do canto harmonioso dos machos...

Piúa viveu conosco por quase um ano. Morreu uns quatro meses depois que nos mudamos para a casa do Humaitá. Como a dona, detestou aquela moradia e, se no apto pouco saía da gaiola, lá se negou peremptoriamente. Decididamente, aquela casa fez muito mal às fêmeas da família...

Falecida Piúa, levando mais uma parte de meu coração, mais um motivo para não querer mais ter bicho algum.

E assim foi, por um ou dois anos.

Um dia, por pura e mera curiosidade e por amor à admiração pelas belezas da natureza, ao passar por uma praça, num recanto da Tijuca, vi uma feira de pássaros. Parei o carro e desci. Resolvi passear por ali, encantada com a plumagem e canto de canários de gaiola... acho que era uma feira de expositores. Estava tão distraída que não reparei em um senhor que se aproximou de mim, segurando uma gaiolinha minúscula, dessas que se usa apenas para portar o passarinho de um canto para outro. Pois bem, o senhor se aproximou de mim e perguntou:

- Você gostaria de comprar minha canária?

Fiz questão de não olhar para a gaiola e respondi categórica:

- Não senhor.

O homem insistiu:

-Mas eu preciso vendê-la.

Respondi enfática:

- Sou contra ter animais de estimação. Não quero ter um bicho em casa, mesmo que seja um canário.

O homem não se deu por vencido:

Ela precisa de um bom dono e sei que você cuidaria bem dela. Eu e minha esposa estamos mudando de Estado, não podemos levá-la e tomei como responsabilidade arranjar alguém que sei que cuidará dela como nós cuidamos.

Olhei-o incrédula:

– Como o senhor sabe que eu cuidaria bem dela?

- Meu coração diz isso. Por favor, fique com ela, eu a dou para você!

– Não, obrigada. Eu lhe agradeço a gentileza, mas não quero.

– Mas você não gostaria sequer de ver como ela é?


Eu tinha me recusado a baixar os olhos para vê-la, embora a gaiola fosse comum e deixasse o pássaro à mostra. Ele notara isso, levantou um pouco a gaiola e a aproximou de mim. Tentei desviar o olhar e afastei a gaiola delicadamente com a mão. Senti algo tocar o meu dedo e olhei, instintivamente. Era o bichinho, me dando uma leve bicadinha. Uma canária linda. Linda! Irresistível. O senhor notou meu encantamento a aproveitou a deixa:

- Ela gostou de você!

Acabei comprando a canária, a contragosto, mas amando por dentro. Tínhamos feito um pacto de amizade desde o primeiro segundo. O senhor, sedento por encontrar um novo e confiável dono, no caso, dona, e talvez receoso que eu desistisse da responsabilidade ou, quem sabe, disfarçando a custo a dor da separação, deixou a gaiolinha em minhas mãos e sumiu. Afastou-se apressadamente e desapareceu entre as pessoas. Não me deu tempo sequer de perguntar-lhe o nome do bichinho!!! Olhei-a e, de pronto, sempre soube que se chamava “Neguinha”. Sorri e coloquei o dedo entre as grades. Ela, dengosa, colocou uma das patas sobre ele. Estava feito o pacto. Seríamos inseparáveis até a morte.

Mas a história é mesmo longa... conto o resto na semana que vem!

domingo, 9 de maio de 2010

A MADRE



Tinha acabado de me formar, quando fui chamada pela titular da cadeira de Língua Grega e Cultura Clássica da Universidade. Queria que eu a assessorasse na disciplina, pelo período de um ano, já que estava preparando duas alunas, há quase quatro, para serem suas futuras assistentes.

De saída, disse que não. Aula de grego? Nem pensar! Como iria ensinar grego com meus míseros dois anos de estudo da língua em meu currículo de Português e Literatura? A titular, no entanto, não era pessoa de receber um não. Ah, isso não era não... e me armadilhou com a promessa de que a primeira vaga em língua portuguesa, seria minha, se eu aceitasse. E ela tinha influência suficiente para conseguir isso. Depois, sem me deixar muito tempo para responder, mandou meus 22 anos de juventude para casa, para pensar por uma semana. Garantiu-me que me prepararia o suficiente para pegar o primeiro período, em março, após um árduo treinamento de três meses.

Saí entontecida. Sabia que diria não. Comentei com Virgínia, minha grande companheira de turma, minha amiga do coração. Éramos tão inseparáveis que a turma nos chamava de Cosme e Damião. Pois bem, Virgínia é uma peça. Uma peça rara em todos os sentidos. Diz a coisa mais séria do mundo no meio de uma estrondosa gargalhada:

- Ué, quem sabe grego aqui? Só você e a titular mesmo. Aceita. Os alunos não vão nem notar.


Essa era a Virgínia, fazendo pouco dos meus desesperos, sabendo o quanto de cdf eu tinha para aprender grego em três meses, se fosse necessário. Ainda mais com uma titular daquelas!

Precisava trabalhar, mas não me venderia por uma promessa de um futuro, mesmo que promissor. Não aceitaria.

Uma semana depois, como tinha sido estabelecido, no lugar e hora determinados pela mestra, lá estava eu, com a resposta ensaiada, agradecendo o privilégio, mas recusando. Entrei na sala contrita, mas trêmula. Dizer não a ela exigiria um artesanato mental. Era a única freira que dava aula no Curso de Letras e, diga-se de passagem, uma das fundadoras da Ordem no Brasil, ou melhor, uma das fundadoras do ensino universitário da Ordem, no Brasil. Sotaque francês carregadíssimo, um tigre andando pelos corredores, bem à moda do início do século. Desnecessário dizer que nascera em 1899 e estávamos em 1973, mas ela mantinha a classe do início do século, chamando a todos os alunos de senhor e senhora, pura formalidade do século XIX. Precisa dizer mais? Pois então, era para ela que eu iria dizer não.

E não disse. Ela não me deu tempo. Parece que adivinhava a minha resposta e já me esperava sentada à mesa, com livros e gramáticas de grego (escritos por ela mesma e reconhecidos internacionalmente). O que ela queria comigo, afinal? Sempre fora boa aluna, tinha tirado 10 em todas as avaliações de grego, é certo, adorava a língua e a cultura clássica, mas... sequer fora sua aluna, já que quando fizera a disciplina ela estava na Grécia! Por que seus faróis apontaram na minha direção? Por que não dava a disciplina a quem tinha sido meu professor? Só os deuses me explicarão um dia. Mal entrei na sala e antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela disse:

- Temos muito o que fazer, teremos aulas de grego todas as manhãs, das 8 às 12 horas, durante esses três meses. À tarde, a senhora estudará em casa e me mostrará o resultado de seus exercícios na manhã seguinte. Pararemos aos domingos, para o descanso sagrado. Trouxe um caderno? Vejo que não. Poderá providenciar para a aula de amanhã.

Assim, de uma tacada só, ela falou apontando a cadeira a seu lado e eu, com a respiração em suspenso, me senti aquela menininha do colégio de freiras diante daquela beldade, respeitada e homenageada pelo governo grego, tendo recebido as chaves de Athenas, do próprio prefeito da cidade, em uma de suas visitas ao país sagrado. Tá bom ou quer mais? Aquilo tudo, ali, na minha frente, sem que eu conseguisse reagir. Só me restava eu mesma me convencer de que aquela era uma das grandes oportunidades da minha vida. E foi. Desnecessário dizer que suas alunas assistentes, por caminhos diversos que a vida traça, não puderam assumir a cadeira no ano seguinte. Uma delas acompanhou o marido em viagens profissionais e só voltaria dois anos depois, outra casou e não trabalhou. Sobrava para mim, com certeza. Mas ela mesma já havia se encarregado de que não me dispensaria de todo, pois, ao longo do ano, as relações tanto profissionais como de confiança mútua estavam se fortalecendo. Sem contar que eu já estava completamente apaixonada pelo grego...

Aos poucos percebi que o tigre era um tigre de fachada, ou melhor, um tigre de papel. Sua formalidade escondia um carinho imenso, um carinho disfarçado, mas suave e brando. E ela conservava uma criança interior incrível, escondida por trás de sua disciplinada forma de ser publicamente. Com o correr dos anos, nos transformamos em grandes amigas, para espanto de todos, que a tratavam com o respeito que se dá a uma rainha. Mal sabiam... Quantas vezes eu a pegava de carro e fugíamos Rio afora. Ela adorava ir à Barra da Tijuca, num posto de sorvete, na época intitulado “Sem nome”. Ali, não havia dia que repetisse o mesmo sabor de sorvete. Eu sempre pedia o de creme ou de ameixa, mas ela já teria provado quase todos. Dali, íamos ver os surfistas para que ela se deliciasse com as ondas, sentada na areia, com seus mais de 70 anos de idade, uma corcunda considerável que dificultava muito seu caminhar, mas que, incrivelmente, apenas lhe dava um toque a mais. Era ali que ela descansava sua saudade das praias bretãs.

Num desses dias, estávamos tomando sorvete e um grupo de surfistas, meninos e meninas, todos adolescentes, se aproximaram. As pranchas de surf a atraíram imediatamente e, em menos de cinco minutos, estávamos eu e o vendedor no balcão, enquanto ela, com um sorvete (provavelmente de manga misturado com alguma outra fruta exótica), já se misturara com os meninos, pedindo licença para passar as mãos nas pranchas, coletando mil informações. Aquela freira de hábito longo, no meio de meninas com biquínis minúsculos e meninos de sungas apertadas merecia um quadro modernista. Mas eu estava sem a máquina e, mesmo que tirasse a foto, talvez ninguém na Universidade acreditasse que era a mesma pessoa. Nesse dia, ela saiu com um monte de papeizinhos, com telefones que garantiriam também sua entrada na Pedra Bonita para ver de perto as asas delta, que estavam começando a fazer sucesso na época. Imagine! Era também uma de suas paixões ir à praia do Pepino para ver essas asas de Ícaro pousarem. No início, eu ficava surpresa com essas empreitadas, mas, com o tempo, fui me acostumando e, não raro, fugíamos literalmente para Grumari, Prainha ou Floresta da Tijuca, em passeios incansáveis, de papos amenos e muitas lições de vida.

Ela era mesmo incrível e nosso carinho mútuo, maternal-filial, não pode ser descrito. Tento, apenas, evocar o sentido. Um exemplo da suavidade e feminilidade de seu coração pode ser contado em um dia em que estava adoecida. Fui visitá-la e, geralmente, não se pode ver uma religiosa acamada. Ela não estava mesmo nada bem e eu queria apenas que ela soubesse que eu tinha ido lá, levando-lhe algumas frutas. Era como meu carinho poderia alcançá-la. Qual não foi a minha surpresa, quando a religiosa voltou me dizendo que a seguisse! Fui vê-la, em seu pequeno quarto, deitada com sua camisola, bastante pálida, mas me dizendo tranquilamente que não ficasse preocupada, pois estaria bem dentro de dias. Minha juventude perguntou o que ela queria que eu fizesse, que pedisse qualquer coisa!

- Qualquer coisa?

- Sim!

- Qualquer mesmo?


Minha juventude a postos:

- Sim, qualquer coisa.

Ela sorriu e disse:

- Todas as noites, aqui deitada, vejo a lua através da janela e a acho tão linda... você a traria para mim?

Sorri. Era assim que ela me ensinava as coisas sobre a vida...

Anos mais tarde, quando resolveu se aposentar, retirando-se para a casa de repouso da congregação, em Salvador, contava os 80 anos de idade e fez questão de se despedir de mim, por último, no aeroporto. Enquanto se despedia me convidando a visitá-la sempre que quisesse, pela primeira vez, explicitou diretamente seu carinho por mim. Não que eu não soubesse, mas jamais tinha ouvido:

- Deus lhe deu uma vida difícil, minha filha, mas... em compensação... presenteou-a com o carinho de uma segunda mãe.

Não respondi. Não conseguiria! Apenas abracei-a esforçando-me ao máximo para atender a seu desejo de véspera:

- Por favor, não chore amanhã. Também vou sentir saudades, mas aos 80 anos, preciso me retirar do Rio. Há muitas traduções de peças gregas e um dicionário etimológico que também quero escrever.

Aos oitenta anos, ela se retirava do trabalho de dar aulas, para poder trabalhar mais. Pode? Pode. Deixou a cadeira de língua grega em minhas mãos, atividade que levei até 1986, quando me retirei dessa Universidade. Visitei-a muitas vezes, até sua morte, dez anos depois. Saudades sempre. Até hoje. Mas agora se traduz como uma lembrança suave, amiga e gentil.

O fato é que este imenso amor à arte grega, que já estava entranhado em mim, desde minha infância, foi devidamente alimentado por tão espetacular criatura.

E passei a assumir a cadeira de grego, mais especificamente, língua grega, a partir de então, já que também dava aula de língua portuguesa, como ela havia prometido, desde o início. As aulas de literatura passaram para uma daquelas antigas alunas, que voltara do exterior com o marido.

Visitei-a, muitas vezes, para estarmos juntas por uma tarde, tomarmos um chá e para fazer-lhe companhia para rezar duas aves-marias, uma em francês e outra em grego, pois era a única pessoa disponível com quem ela podia contar para compartilhar a oração que mais amava recitar, nas suas duas línguas prediletas. Eu nem me considerava uma pessoa religiosa, mas, naquele momento isso não tinha a menor importância. Lembro-me que, em sua missa de sétimo dia, fui apanhada, de surpresa, com o celebrante me tirando da platéia para dizer algumas palavras sobre ela, já que eu era a pessoa mais chegada que todos conheciam. Não conseguia dizer palavra, mas tenho certeza de que foi ela que veio em meu socorro, ainda desta vez, e eu apenas disse:

- Não consigo dizer nada sobre ela hoje. Mas sei que podemos fazer algo de que ela gostaria muito. Rezemos a Ave-Maria, sua prece favorita.

Essa foi minha segunda mãe. Quando íamos ao consulado juntas, como as vestes de todos os convivas eram dos mais variados tipos, seu hábito não era interpretado como religioso e, como ambas tínhamos olhos claros, por muitas vezes perguntavam ao se aproximarem dela, após ela ser apresentada como a autoridade na área no Brasil:

- E esta é sua filha?

Ela sorria e apenas respondia:

- Posso dizer que sim.

- Seguindo os passos da mãe?

- Com certeza, sim.


Lembro-me de seu sotaque carregado, de um francês-bretão puríssimo. Lembro-me de suas peças traduzidas, linha a linha, pois eu fui revisora de todas, já que ela, sendo francesa, confiava em mim para a arte final. Tenho, até hoje, a tradução de sua última peça, cuja cópia tirei e cujos originais entreguei à Ordem Religiosa a que pertencia para que fosse devidamente publicada. Nunca aconteceu, pois isso jamais foi prioridade lá. Quando ela era viva, sua própria autoridade na Ordem lhe dava acesso direto à gráfica e às providências necessárias. Desta peça, eu fui a única privilegiada na leitura e sinto tê-la de guardar apenas comigo, pois os direitos autorais dependem da Ordem. Nada posso fazer.

Seu dicionário etimológico, segundo o que tinha me informado, em minha penúltima visita, já tinha chegado à letra R e estava esperando terminá-lo para colocar a revisão em minhas mãos. Adoeceu e faleceu em breve espaço de tempo. Quando a vi pela última vez, estava semi-consciente e dela apenas pude ouvir, a muito custo, que nosso próximo encontro seria na eternidade. Assim, nada pude fazer, pois não tive acesso a esses tesouros. Avisei à Ordem sobre a preciosidade que estava guardada entre seus pertences e que estava pronta a fazer as revisões necessárias. O original, no entanto, nunca chegou a minhas mãos. Eu já não trabalhava mais na Universidade, mas estava pronta a fazer o trabalho, sem custos, pelo tanto que ganharíamos, tendo esta preciosidade publicada. Seu dicionário não veio a público. E nunca mais soube de seus escritos.

Guardo com carinho as cópias dos originais de sua ultima peça traduzida, cuja tradução, aliás, não existe em português, até hoje. Sua letrinha tremida, fazendo comentários nas margens, segundo minha revisão.

Seu falecimento deu-se em 1990, justamente no seu aniversário de 90 anos. Dizem que é um privilégio morrer em seu próprio aniversário. Foi o que aconteceu.

Entre todas as memórias, guardo, sobretudo, a imagem fantástica daquela figura entre jovens com biquinis minúsculos e sungas justíssimas, ela, com quase oitenta anos, no final da década de 70, alisando as pranchas de surfe, chamando os jovens de senhores e senhoras e voltando com os olhos brilhantes, a mão cheia de pedacinhos de papel rasgados com vários números de telefones e me perguntando:

- Quando vamos à Pedra Bonita vê-los saírem em seus vôos?

Vez por outra, vou à Pedra Bonita, olhar a magnífica paisagem, dar asas a minha imaginação, descansar meus sonhos, carregar meus pulmões com o ar do Alto da Boa Vista e curtir esse pedaço de céu, em pleno Rio de Janeiro.

Entre meus pensamentos, ela sempre aparece e posso dizer com intensa felicidade interior:

- Agora você já pode voar de onde e para onde quiser, à vontade, com suas asas deltas naturais, entre a paisagem e os deuses.
Se tiver um tempinho, olhe um pouco por mim!