Mostrando postagens com marcador animais de estimação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador animais de estimação. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de julho de 2014

JOTA


Eu não me lembro muito bem quando e como o conheci. Sei que era um cachorro de rua e que adotou meus amigos Dani e André como donos. Isso mesmo. Pelo que sei, foi ele que os adotou. Conquistou-os aos poucos, cercando a casa... ops... um apto tranquilo e simpático em um andar térreo de um bairro afastado do centro.

Fui visitá-los algumas vezes, mas não me lembro muito bem do Jota lá. Só sei que ele já existia como membro da família pois, quando eles estavam procurando um apto por aqui, umas das preocupações era, exatamente, onde o Jota ficaria, se seria um lugar confortável, etc.

Muitas coisas aconteceram entre mim e Jota. Mas o que me chamava muita atenção é que ele me entendia. Conto como descobri.

Quando Dani e André se mudaram para perto, a principal preocupação era privar Jota do estresse da mudança. Ofereci-me super feliz para ficar com ele o dia todo, se quisessem. O problema era ele não se estressar e o casal poder cuidar da bagunça que é sair de um lugar e arrumar tudo em outro, num dia só. André trouxe Jota bem cedo, me deu um monte de pacotes e tigelas com ração, água, biscoitos para cachorro, ossos e brinquedos. Disse-me para não me preocupar com a angústia do bichinho, quando ele saísse, pois era natural. Aliás, não tinha mesmo outro jeito.

André saiu e foi um sofrimento só. Aliás, um sofrimento a dois. Jota não queria osso, não queria biscoitos, não queria nada. Só queria arranhar a porta de serviço, desesperado, pois fora por ali que André se fora. Para sempre?

Tentei me colocar no lugar dele. Para um cão de rua abandonado, dois abandonos, seria demais. Por mais carinhosa que eu fosse, seus "pais" não estavam ali! Tentei de tudo.Nada funcionou. Então, sentei-me no chão da área de serviço, bem perto dele e fiquei bem quietinha. Deixei-o ganir bastante, pois não tinha mesmo o que fazer. A caixa de biscoitos à mão e também a dos ossos não chamavam sua atenção. Sequer sua bolinha favorita. Ficamos assim por uma meia hora, até que ele se desse conta de minha presença e expectativa. Lembrei-me de Tim, o cachorro de minha família, em minha infância, que tivera sempre tanta paciência comigo. Mentalmente, não sei por que, pedi sua ajuda e fiquei ali, exercitando minha espera.

Valeu a pena. Aos poucos, Jota se cansou. Aquietou-se e eu resolvi fazer o que ele mais gostava: pegar sua coleira para darmos um passeio. E foi se distraindo com as novidades de uma nova rua, pois não conhecia Copacabana, que Jota se animou um pouquinho. Afinal, ele era cão de rua, não era?

Mas as horas passam muito lentas, quando a gente deseja que alguém não sofra. E sei que Jota estava estressado com a ausência do casal. Inventei um banho numa loja de animais. Jota ficou lindo e cheiroso, pronto para entrar na casa nova. Mas acho que não ajudou muito no seu estresse. Ver mais pessoas desconhecidas o assustou. Resolvi voltar para casa e, finalmente, depois de minutos que passavam como horas, chegamos ao final do dia. Jota andava pelo apto de lá para cá, completamente angustiado.

Não queria comer, não queria brincar. Só encontrei uma saída. Sentei-me a seu lado e falei de igual para igual, alguma coisa parecida com isso:

 - Jota, meu querido, eu sei. Você está triste. Mas André já vem te buscar. Não podemos fazer nada. O jeito é esperar.

Não sei se foram as palavras, mas... com certeza, foi a emoção, a entoação, o carinho, o amor. Ele olhou para mim com  aquele olhar que só os cães tem. Deitou-se, choramingou um pouquinho. Eu me levantei, peguei um livro e vim me sentar a seu lado. Ficamos assim, quietinhos, por mais ou menos meia hora, comigo coçando ligeiramente suas costas. Eu tinha certeza de que ele tinha entendido.

De repente, levantou-se de ímpeto, se jogou contra a porta. Alguns minutos depois, ouvi a porta do elevador se abrindo, a campainha tocou. Era André. Como bom cão, ele pressentira a chegada do dono.

De  qualquer forma, sei que alguma coisa em Jota o ligou a mim, naquela meia hora. Eu senti. Foi um tênue, mas significativo elo de confiança. Dali por diante, quando eu ia visitá-los, era uma festa só.

Mas minha amizade com Jota só se concretizou, verdadeiramente, pelo inominável privilégio de tomar conta dele, quando o casal viajava. Minha função era visitá-lo todos os dias, encher o pote de ração, trocar a água e fazer uma festinha. Mas a festinha acabava sempre sendo uma volta pelo bairro, o que ambos fazíamos com muita alegria e aventura.

Lembro-me especialmente de um dia em que Jota achou um osso de frango na rua. Foi uma briga de foice, pois eu tinha ouvido falar que osso de galinha pode ser muito perigoso para cães, por conta de suas pontiagudas farpas que podem ferir o aparelho digestivo. Agarrei-me ao osso em sua boca e ficamos ambos, ali, imóveis. Ele não largava sua presa e eu, tampouco... não largava o osso.

Felizmente, aqui no Rio, você pode sair de roxo com bolinhas amarelas que ninguém olha para você. Assim, os passantes não ligavam a mínima para essa contenda entre humano e cachorro. Na verdade, bem que eu queria, pois ficamos empacados ali, sem ajuda e sem que eu soubesse como me livrar da situação. Apenas uma coisa eu sabia: eu não ia largar aquele osso nem por um decreto. Acho que Jota estava convencido do mesmo princípio. Era ver quem se cansava primeiro e, enquanto isso, eu pensava em uma saída. Finalmente, resolvi fazer cócegas nele e, por um instante, ele reagiu. Tempo necessário para eu conquistar o osso.

Jota não avançou, não me mordeu. Apenas ficou muito frustrado e voltou todo emburrado para casa, sem olhar para mim.

Felizmente, cachorros são acessíveis ou, pelo menos, Jota é. E quando chegamos à casa e eu comecei a brincar com os ossinhos que ele podia comer, a birra acabou.

Mas estava faltando alguma coisa para pactuar de verdade nossa amizade. Eu não sabia o quê. Percebia isso porque, como todo cão de rua, Jota mostrava que não confiava plenamente em mim. Nos donos, sim, mas esta fã de carteirinha não conseguia chegar ao mais íntimo de seu coração.

Eu não sabia que não precisava senão de tempo para que isso ocorresse. E foi em um dia, sem mais nem menos, que aconteceu.

É que Jota, como todo bom cão de rua, é previdente. Se você põe comida para ele e ele se sente inseguro, não tem jeito, ele não come tudo. Deixa sempre um pouco para o dia seguinte. Era assim que, prevendo isso, eu colocava mais ração do que o necessário, para que ele comesse, pelo menos, o que lhe cabia por dia. E era tiro e queda: no dia seguinte, quando eu chegava, quase metade da ração ainda estava lá e o pote da água pela metade, por mais quente que estivesse o dia. Tão logo eu entrava, ele vinha me receber, em festa, mas logo após corria para beber água. Sinal de que estava com sede.

Acostumei-o a esperar-me sempre mais ou menos à mesma hora. Mas não adiantava, era sempre a mesma coisa: ração pela metade e água suficiente para pelo menos mais o dia seguinte,  até que... um dia... ao entrar, ele não correu para o pote, apenas me fez festa. Achei um pouco estranho e fui direto para o lugar de sua alimentação. O pote da ração estava vazio, havia pouca água na tigela da água.

Senti, naquele momento que Jota, enfim, me incorporava à família. Lembro-me que meus olhos se encheram d´água pelo alívio que senti. Talvez Jota também se sentisse aliviado com minha presença, enfim!

Somos grandes amigos até hoje. Ele, bem mais velho, um senhor idoso digamos, mas sempre amoroso e de bom coração. Seu olhar é sempre o mesmo e sempre me recebe com muita alegria.

Jota não entrou em minha vida. Desta vez, eu sei, fui eu quem entrou na vida de alguém...

Não sei de seu passado. Ninguém sabe. E não tem como saber. Mas o cão de rua que ele foi, soube preservar algo, dentro dele, que é digno, estável, solidário e gentil, o que fez de Jota um dos cinco amores caninos de minha vida!

Obs.: Se quiser conhecer as histórias dos outros quatro cães do meu coração, leia "Sheik", "Radar" e "Tim - dois cachorros inesquecíveis" .

sexta-feira, 27 de junho de 2014

TIM - DOIS CACHORROS INESQUECÍVEIS


O primeiro foi um cachorro que não tive. Aliás, o segundo, oficialmente, também não.

O fato é que os dois marcaram uma presença muito especial em minha vida, cada um a seu jeito.

Do primeiro Tim, muita coisa eu só sei do que me contaram. Mas tenho marcas indeléveis que trago de minha infância; o segundo, foi um Tim desses que, tanto eu quanto ele, tivemos um tipo de amor à primeira vista.

Os dois, cheios de histórias... vamos a algumas delas.

Tim, o primeiro, era um cachorro da família. Não sei como ele apareceu lá em casa, pois eu ainda nem era nascida. O que me contaram é que ele era um excelente pai, um cachorro desses cheio de responsabilidades. Um vira-latas de filme. Na verdade, um cavalheiro exemplar.

Soube de histórias que me fazem sorrir. Uma delas é que tinha uma cadelinha em casa que intitularam Peteca, se não me engano. É que a danada adorava dar umas voltas pela rua, paquerando todos os cães da vizinhança. E ficou grávida... e teve muitos filhotes. Oficialmente, pelo menos, Tim era o pai e vestiu o papel de progenitor até as últimas consequências. Peteca, ao contrário, era dessas que não queria mesmo nem saber dos filhotes. Tim tomava conta deles e ia buscar Peteca à força pelas vizinhanças, na hora da mamada. Na verdade, essa era a história que mais me impressionava em Tim. Peteca, não conheci, mas o Tim era um amor de cachorro, embora já fosse bem velhinho, quando eu já tinha uma certa noção do que era a vida e podia admirá-lo.

Não sei por que eu me encantava em observar o Tim. Pacato, tinha muita paciência comigo. Lembro-me de uma vez que voltei do cabeleireiro, onde minha mãe mandara cortar meu cabelo bem curtinho. Chegando à casa, olhei para ele e pensei: "Ué... ninguém corta o cabelo do Tim". Peguei uma tesourinha e praticamente tosei o solitário cãozinho. Lembro-me de sua paciência ao me ver cortar todo seu pelo daquele jeito desengonçado que uma criança de uns cindo anos sabe fazer. O seu pelo já era quase rente e ficou todo muito esquisito, com o rosa da pele aparecendo. Mas ele aguentou tudo quietinho, paciente que só ele. Levei uma bronca daquelas e fiquei de castigo. Mas me lembro que ele veio ficar ao meu lado, no canto da sala, acompanhando meu castigo naquele dia, como se dissesse:

- Liga não... eu não me incomodei nadinha...

Eu também cismava de catar pulgas no Tim... e ele ficava quietinho, quietinho, embora eu lhe desse uns bons beliscões involuntários. Ele tremia um pouco, levantava o focinho, mas ficava quietinho outra vez. Uma paciência de Jó.

As pessoas da casa diziam que, quando eu nasci, ele não deixava ninguém estranho entrar no quarto, pois rosnava e era preciso afastá-lo para que algum visitante pudesse me ver. Se eu saía de casa para o médico, por exemplo, minha mãe colocava uma peça de roupa com o meu cheiro para que ele pudesse sentar em cima e se acalmar até que eu voltasse.

Tim morreu comigo muito nova. Não tinha seis anos completos. Mas acho que tínhamos algo em comum, uma solitária solidariedade que poucos por ali conseguiriam identificar. Eu não sei se o Tim fez tanta falta para os outros como fez para mim, quando morreu. Sei que o olhei com olhos de quem não iria nunca mais se esquecer dele. E não me esqueci.

O outro Tim apareceu quando eu já era adulta. Eu não me lembro muito de qual era a raça, mas era um cão forte, porte médio, caramelo e muito bonito. Era o cão de um de meus irmãos.

Desde a primeira vez que me viu, abanou o rabo e ficamos muito íntimos. Quando eu chegava, era uma festa.

Lembro-me que não era desses cães muito dóceis. Na verdade, já mordera as crianças da casa. Diziam, no entanto, que era só não irritá-lo e tudo estaria bem.

Mas parece que isso não valia para nós dois, ou eu não conseguia irritá-lo, pois, de pronto, criamos uma cumplicidade intrínseca.

O quadro mais nítido que tenho de sua presença em minha vida é o de um dia em que visitei meu irmão e me sentei na rede de sua casa para descansar. Queria me balançar e procurava algo em que segurar para me puxar. Tim se aproximou, virou de costas e levantou o rabo. Não me fiz de rogada. Peguei o seu rabo e puxei. Ele ficou ali, como quem está se divertindo muito e eu conversando com ele. Achei aquilo a coisa mais incrível do mundo. Estávamos assim, felizes da vida, quando um de meus sobrinhos chegou assustado dizendo:

- Não toca no rabo dele, não toca no rabo dele, pois é assim que ele morde!

- Ué, mas foi ele que apontou o rabo para eu fazer assim!

- Não acredito!

- Então, fica aí e observa.

Dali  para diante, era coisa certa. Eu não podia sentar na rede que lá vinha o Tim apontar o rabo para eu balançar. Mas isso era privilégio só meu, o que, de certa forma, me deixava até um pouco constrangida...

Sempre que me levantava para ir embora, ele tinha um ardil para mostrar seu protesto: vinha por trás de mim, enfiava sua grande cabeça entre minhas pernas e levantava o focinho. Desta forma, impedia meu passo e eu não podia avançar. Tinha, literalmente, que desmontar dele para conseguir andar. Ele fazia a mesma coisa outra vez e outra vez, até eu alcançar a porta. Eu sempre ia com o coração na mão, pois sentia que ele queria mesmo que eu ficasse.

Tim foi dado de repente, pois mordeu meu irmão. Com isso, ele assinou o término de seu contrato com a família e foi dado a uma outra pessoa, que o levou para um sítio.

Eu não soube do fato e, quando fui visitá-lo, ele não estava mais lá. Nem pude me despedir...

Tim nunca me mordeu. Para mim, como o outro, foi sempre um verdadeiro cavalheiro e um amigo inesquecível.

Eu acho que tenho uma certa cumplicidade com os animais. Entre cachorros, gatos e canários não saberia qual escolher... e também fico na dúvida se quero ter bichinhos presos, mesmo que muito amados. Assim, não tenho nenhum deles por perto.

Quem sabe, um dia eu mude de ideia. Até lá, no entanto, sei que tenho lindas e gostosas recordações de todos que já enfeitaram minha vida.

E tem o Jota... mas sobre ele eu conto outro dia.

sábado, 26 de novembro de 2011

RADAR


Radar era um cão fila que mais parecia um filhote de leão sem juba. Feroz. Tão feroz que seus donos tiveram de aumentar a altura dos muros de sua casa para que ele não se incomodasse tanto com os transeuntes. Uma casa suntuosa que se espalhava, em seus jardins e seus dois andares, numa esquina despreocupada de Pendotiba.

Eu conhecera Radar bem filhote e já era bem grandinho para que eu conseguisse coloca-lo em meu colo. Depois de crescido, soube, por acaso, que apenas quatro pessoas conseguiam colocar as mãos nele despreocupadamente: os donos, o veterinário e eu. Não conseguia ter medo dele. Era mesmo uma amizade sem cuidados. Confiança mútua, eu diria. Os familiares o temiam e eu não conseguia entender por quê. Quando eu chegava, era uma festa só! Remexia-se todo de contentamento e não saia de perto de mim o tempo todo da visita. Aliás, só ele chegava perto de mim, pois rosnava para todos que se aproximavam. Eu não conseguia fazer festa nem na fêmea, uma fila linda, delicada e gentil. Ele se interpunha entre mim e ela e não tinha jeito de eu conseguir afaga-la sequer.

Às vezes, eu ficava pensando se não seria exagero das pessoas pinta-lo de forma tão feroz: diziam que o entregador de pizza já mostrava certo receio quando anotava o endereço: é da casa do Radar? Ele sequer vira o cão, mas só os latidos o faziam tremer. Posso imaginar o que diriam do carteiro...

Embora Radar não tivesse acesso aos transeuntes, pois até o portão de entrada era indevassável, diziam que seu instinto fazia com que viesse latindo furioso batendo-se contra o portão ao primeiro estalar da campainha. Eu nunca presenciara esses desacatos e para mim, Radar era um amigo querido e sempre bem acolhido.

Veio o divórcio e todas as conseqüências que isso traz à vida da gente. Até que tudo se estabilize, você fica mesmo um pouco distante de muitas coisas, mesmo das que gosta. O meu, especialmente, com tantas dívidas advindas depois, me fez ficar imersa em trabalhos e compromissos por longo tempo.

Quando a vida começou a estabilizar-se, comecei a freqüentar meus amigos novamente. A casa de Radar era distante e ir lá exigia uma disponibilidade que eu não tivera até então. Estava com saudades de todos, mas, confesso, Radar tomou meus pensamentos a maior parte do trajeto entre minha casa e Pendotiba.

Toquei a campainha. Seria uma bela oportunidade de testar a fúria de meu amigo, pois, afinal, já havia uns dois anos que eu não ia lá... um pouco pensativa, temia, na verdade, que já tivesse se esquecido de mim. Ao ouvir os latidos furiosos que vieram de longe, dos fundos da casa em direção ao portão, tão logo toquei a campainha, lembrei-me do entregador de pizzas e sorri. Naquele instante, passei a acreditar em todas as histórias. Nenhum entregador poderia se esquecer daquele rugido que de cão pouco parecia... mas usufruí desse episódio por muito pouco tempo: no meio do caminho, os latidos pararam abruptamente. Radar ganiu, baixinho a princípio, depois mais alto e desapareceu. Soube depois que fora como uma flecha buscar meus amigos, agoniado, acompanhando-os, empurrando-os para o portão. Ele havia sentido a minha presença.

Quando entrei nem pude cumprimenta-los. Meu olhar estarrecido, contemplou aquele animal enorme, indócil, nervoso, me empurrando contra a parede com o focinho. Ele não se esquecera! Pelo contrário, mostrava a falta que eu tinha feito durante todo aquele tempo. O ritual completava-se como antigamente: ele sabia que eu não poderia conter seu peso e nunca pulou sobre mim, quando eu chegava. Pelo contrário, empurrava-me para a parede e, como parte da brincadeira, eu sempre me fazia de difícil, até que ele conseguia me encurralar com o focinho. Uma vez encostada contra um muro ou parede da casa, ele levantava suas patas dianteiras e as colocava uma em cada lado do meu corpo. Significava que elas ficavam mais ou menos acima da minha cabeça, de modo que, ali presa, eu não tivesse outra opção senão coçar o seu peito, como carinho. Radar era muito inquieto e não permitia que ninguém o abraçasse, nem seus donos. Mas fazer carinho, coçar suas costas, cabeça ou peito, era tudo de bom. E o peito era a parte em que ele mais gostava de receber minhas coçadinhas. Ficava assim por um tempo e não havia meios de alguém o arredar de seu ensejo. Rosnava até para os donos, se fosse necessário. Confesso que me sentia uma princesa, ali, dona da situação. A fera domada pelo suave toque de minha mão.

Este ritual sempre impressionara muito as outras visitas da casa:

- Você não tem medo?

- Como posso ter medo diante de tanto carinho?


Eles não percebiam o cuidado de Radar de me empurrar para a parede por saber que eu não agüentaria que ele se apoiasse em meu ombro. Sequer percebiam o movimento de levantar a cabeça para que eu pudesse acariciar o seu peito. Eles só viam os dentes, não o pelo, as garras, não a atitude... coisas que só o amor pode compreender. E amor era o que ocorria ali. Um amor bem possessivo, mas que eu sabia contornar, embora, muitas vezes, um pouco exagerado. Radar não permitia que ninguém chegasse muito perto.

Lembro-me de uma vez em que fui com um namorado. Discretamente, ele logo entendeu que era mais conveniente se sentar um pouco mais distante de mim, melhor dizendo, do outro lado da mesa do jardim. Menos do que isso, não foi permitido pelo meu ilustre cão companheiro.

Eu tenho a impressão de que para Radar eu não era propriamente uma amiga, era uma posse. Ele era o meu dono, um dono sem espaço para meio termo. Ao me sentar, deitava-se ao meu lado o tempo quase todo. Sua cabeça repousava tranqüila em um dos meus pés. Quando não era a cabeça, era uma das patas. Não era para ter dúvidas: eu pertencia a ele, desde a hora da entrada, até a despedida. Leva-lo para o canil, quando eu estava lá, era quase uma injúria e ele reclamava disso a altos brados, quero dizer, a altos latidos e muitos ganidos. Melhor deixa-lo solto e ao meu lado. Aliás, no fundo, eu adorava o escândalo ele que fazia e solicitava “condescendente” (na verdade, suplicante), que ele ficasse por ali. Era mais confortável para todos e melhor para nós dois. Confesso que me agradava muito ter ao meu lado, como se fosse um gatinho, um “filhote de leão”.

Essas visitas, embora não freqüentes, povoam até hoje, com alegria, minhas lembranças. Até mesmo a última vez em que vi Radar foi gratificante, embora extremamente comovente.

Aconteceu que ele ficou gravemente doente. Câncer ósseo, sem cura. Cuidado com carinho e desvelo por seus donos, foi tratado para usufruir do melhor conforto durante a doença. Não me disseram nada, até bem perto do fim. Mas este, um dia, chegou, pois o veterinário aconselhou um término para a dor. Ele estava muito mal.

Eu estava sem ir lá há uns três meses e não sabia o que estava acontecendo, até que eles me ligaram e contaram, de uma vez só, toda a história. Senti uma facada no peito:

- Acho melhor você vir para se despedir, pois ele não consegue mais sequer se levantar e achamos que devemos dar um fim a esse sofrimento.

Fui no dia seguinte, não deixei para depois. Ao tocar a campainha, não fui saldada com os latidos de sempre. Ele deveria estar lá nos fundos. Ao abrir a porta me disseram que seria melhor eu me preparar, pois ele estava deitado e quieto, que eu me aproximasse devagar a falasse com ele.

Ao entrar na parte interna do jardim, vislumbrei seu vulto ao fundo. Sua cabeça levantou-se, ele, a custo, levantou-se e caminhou meio rastejante em minha direção. A cena, em si comovente, surpreendeu os donos e a mim. Corri para evitar que ele fizesse mais esforço. Meu ímpeto foi o de abraça-lo. Com certeza, não teria forças para reagir e evitar o movimento. Mas me contive. Quis respeitar seus princípios. Apenas afaguei-o e ele, imponente, empertigou-se. Magro, fraco, abatido, mas altaneiro. Foi assim que tiramos nossas fotos. Ele se sustentando em pé o mais que podia. E foi a última vez que se pôs em pé.


Enfim, deitou-se, colocou como sempre sua cabeça em um dos meus pés e não mais se levantou, mesmo na minha saída.

Ficamos ali, por muito tempo e conversamos muito. Eu lhe falei de todos os momentos incríveis que ele me proporcionou e ele me respondia, vez ou outra, com pequenos ganidos baixinhos, quase suspiros - doces, embora doloridos suspiros. Nós dois sabíamos que seria a última vez. Mas também sabíamos que seria eterno.

Lembro-me que se queixou quando me levantei para ir embora. Apoiou com mais força sua cabeça, tentando me reter ali. Ao mesmo tempo, sabíamos, ambos, que era esforço demasiado. E foi por isso que me despedi.

Afaguei-o com todo o carinho de uma vida a dois. Sua testa enorme na palma da minha mão. Seus olhos fechados internalizando o momento. Eu sabia. Ele sabia. Minhas lágrimas pingavam em sua face. Nós sabíamos.

Radar, meu querido, doce e meigo amigo, aquela estrela lá no céu, eu bem sei, te pertence. Sei reconhece-la onde quer que eu esteja...

sábado, 12 de junho de 2010

NEGUINHA



Neguinha fez parte intensa de minha vida. Talvez uma de minhas melhores amigas dos anos 90. Irrepreensível em suas atitudes. Meiga, suave, forte, fiel, colaboradora, vivaz, malandra, brincalhona, sutil, abusada. Tudo isso. Guardo até hoje seu jeito doce de se acomodar no meu colo. Uma filha sem escrúpulos, confiante, garbosa. E... dengosa. Ai de mim, se não lhe desse atenção nessas horas de aconchego! Morou conosco por uns três ou quatro anos e enfeitava a minha vida todos os dias. Todos!

Se não falasse com ela, em primeiro lugar, logo que chegasse em casa, era uma tragédia. E, claro, isso acontecia com freqüência. Neguinha se empertigava toda, emburrada. Se é que bico emburra, pois é preciso esclarecer que era uma canária. Ficava toda “gorda”, com as penas ouriçadas e, quando eu punha minha mão na gaiola, me bicava para valer, como querendo me castigar. Ao contrário, se eu chegava e ia direto conversar com ela, punha comidinha entre meus dedos, como quem dá comidinha aos filhotes.

Geralmente, as pessoas não acreditam muito quando falamos assim de animais de estimação. E eu mesma custo a acreditar no que digo e, vez por outra, revejo os filmes que tenho como lembrança, dignos de publicação! Isso mesmo: uma canária esparramada no meu colo, adormecendo com um cafuné. Momentos de aconchego. Outras vezes, brincava de lutar comigo, duelo de dedo com bico. Ensinava seus filhotes a pousarem em minha cabeça e eu ficava frequentemente enfeitada com esses bichinhos coloridos. É preciso dizer que nunca me sujaram, nem a minhas roupas. Não sei como explicar, mas nunca fizeram suas necessidades em mim, nos muitos anos de convívio.

Levar Neguinha ao veterinário era uma festa. Fechávamos portas e janelas e abríamos a gaiola. Ela voava, primeiro, para minha cabeça para se assenhorar do ambiente. Depois, voava para lá a para cá até pousar perto de um dos funcionários ou mesmo em sua cabeça. Com isso estava querendo dizer que poderia ser pega por este, pois, se outro tentava pegá-la, alçava vôo direto para mim. Se fosse o escolhido, no entanto, ela deixava. Pode um bichinho desses? Pois era assim mesmo.

Incrível contar como Neguinha chegara a minhas mãos. Antes dela, tinha tido um canário que escolhera o meu apto para morar. Provavelmente, fugira de alguma gaiola e, perdido, entrara em nosso apto. Isso se deu em 1986. Entrou, ficou, ganhou gaiola, nome e sobrenome. Eu não podia pensar em um bichinho preso dentro de casa, motivo pelo qual nunca tinha tido nenhum animal de estimação. Mas ele escolhera o recanto e eu me senti sem saída. Então, enquanto estava em casa, levava a gaiola para a sala, fechava portas e janelas e o soltava. Ele voava direto para minha renda portuguesa, o lugar mais alto da sala. Ali, cantava até se desmanchar. Um canto alegre, forte, gentil, inebriante. Eu tentava estudar, mas passava muito tempo contemplando aquele precioso presente da natureza. Planta e pássaro num quadro perfeito. Resolvi chamá-lo de Zugspitze, o monte mais alto da Alemanha, que eu tivera o privilégio de conhecer. Lugar onde vi neve pela primeira vez, em pleno verão. Me entalei de frio, mas valeu a pena, já que três horas depois, usufruía novamente do calor exuberante ao pé da montanha. Zugspitze me impressionara pela neve, pela beleza e pela sensação de ter tocado o cume da Alemanha. Ao fitar aquele canário no topo de minha sala, só pude pensar nesse portentoso nome. Estava batizado. Meu canário se chamaria Zugspitze. Um nome desses, no entanto, merecia um primeiro nome familiar... então, para mim, ele era “Pitico”.

Pitico Zugspitze viveu conosco durante dez dias. Dez dias de encantamento.

Sentada à mesa da sala, às vezes, eu o chamava:

- Pitico, vem cá, vem!

E ele, incrivelmente, saía do topo da "montanha", sobrevoava a minha cabeça, tirando um fino (!) e voltava para seu lugar favorito, entre os verdes ramos da renda portuguesa. Não gostava de ser tocado, mas quase me tocava em seus vôos. No final do passeio, voltava sozinho para a gaiola.

Um acidente, que prefiro não descrever, levou esse incrível bichinho de nosso convívio. Um mês depois, minha belíssima e frondosa renda portuguesa de anos, estava completamente seca. Enlutara como eu ou meu luto a enlutou. O fato é que não resistiu ao convivio com a saudade.

Uma parte de mim morreu, com certeza. Jurei a mim mesma nunca mais ter bichinho algum. Sentia-me responsável pelo acidente. Hoje sei que foi uma responsabilidade que não me pertenceu. Mas não poder evitar, foi cruel. Enfim, melhor não ter mais ninguém. Minha faxineira, no entanto, pensando me consolar, apareceu com outro canário, um mês depois. Esse antecedeu Neguinha. Não tive como recusar a gentileza e acabei ficando com ele. Só que não cantava de jeito nenhum... como não cantava, passei a chamá-lo simplesmente por Piú. Piú só fazia “piú” mesmo... e era tremendamente tímido. Não gostava lá muito de sair da gaiola... era preciso enxotá-lo sempre para que voasse um pouco e exercitasse as asas. Se você não sabe, fazer os pássaros voarem é o melhor preventivo para que não fiquem doentes. Canários, de modo geral, morrem de complicações pulmonares. Pássaros foram feitos para voarem, não para ficarem presos em gaiolas. Então, Piú era enxotado para exercícios diários, mas logo voltava para casa. Era preciso respeitar sua timidez e reserva e fora os exercícios de praxe, eu aceitava esse novo serzinho do jeito que ele era: tímido e sem canto. Um belo dia, no entanto, olhei para Piú e ele tremia mais do que vara verde. Peguei-o com cuidado e ele não parava de tremer. Achei estranho ficar em minha mão, pois ele era muito arisco. E tremia tremia tremia. Apavorada, liguei para André, nosso veterinário, ex-veterinário dos pássaros do Jardim Zoológico e, naquela época, dono de uma clínica de animais. Entendia horrores de pássaros naturalmente e, com certeza, me salvaria.

- Pelo amor aos deuses, André, eu não sei o que está acontecendo! Piú não pára de tremer!!!

Ele começou uma série de perguntas sem fim, mas eu só queria levá-lo lá! De repente, eu disse:

- Não precisa mais, André! Está resolvido!

Breve silêncio do outro lado da linha (provavelmente, ele havia pensando no pior).

- O que houve? perguntou enfim.

Eu estava espantadíssima:

- André, o Piú acaba de botar um ovo... esse bicho é fêmea!

Daí por diante, Piú virou Piúa e, claro, dispensada do canto harmonioso dos machos...

Piúa viveu conosco por quase um ano. Morreu uns quatro meses depois que nos mudamos para a casa do Humaitá. Como a dona, detestou aquela moradia e, se no apto pouco saía da gaiola, lá se negou peremptoriamente. Decididamente, aquela casa fez muito mal às fêmeas da família...

Falecida Piúa, levando mais uma parte de meu coração, mais um motivo para não querer mais ter bicho algum.

E assim foi, por um ou dois anos.

Um dia, por pura e mera curiosidade e por amor à admiração pelas belezas da natureza, ao passar por uma praça, num recanto da Tijuca, vi uma feira de pássaros. Parei o carro e desci. Resolvi passear por ali, encantada com a plumagem e canto de canários de gaiola... acho que era uma feira de expositores. Estava tão distraída que não reparei em um senhor que se aproximou de mim, segurando uma gaiolinha minúscula, dessas que se usa apenas para portar o passarinho de um canto para outro. Pois bem, o senhor se aproximou de mim e perguntou:

- Você gostaria de comprar minha canária?

Fiz questão de não olhar para a gaiola e respondi categórica:

- Não senhor.

O homem insistiu:

-Mas eu preciso vendê-la.

Respondi enfática:

- Sou contra ter animais de estimação. Não quero ter um bicho em casa, mesmo que seja um canário.

O homem não se deu por vencido:

Ela precisa de um bom dono e sei que você cuidaria bem dela. Eu e minha esposa estamos mudando de Estado, não podemos levá-la e tomei como responsabilidade arranjar alguém que sei que cuidará dela como nós cuidamos.

Olhei-o incrédula:

– Como o senhor sabe que eu cuidaria bem dela?

- Meu coração diz isso. Por favor, fique com ela, eu a dou para você!

– Não, obrigada. Eu lhe agradeço a gentileza, mas não quero.

– Mas você não gostaria sequer de ver como ela é?


Eu tinha me recusado a baixar os olhos para vê-la, embora a gaiola fosse comum e deixasse o pássaro à mostra. Ele notara isso, levantou um pouco a gaiola e a aproximou de mim. Tentei desviar o olhar e afastei a gaiola delicadamente com a mão. Senti algo tocar o meu dedo e olhei, instintivamente. Era o bichinho, me dando uma leve bicadinha. Uma canária linda. Linda! Irresistível. O senhor notou meu encantamento a aproveitou a deixa:

- Ela gostou de você!

Acabei comprando a canária, a contragosto, mas amando por dentro. Tínhamos feito um pacto de amizade desde o primeiro segundo. O senhor, sedento por encontrar um novo e confiável dono, no caso, dona, e talvez receoso que eu desistisse da responsabilidade ou, quem sabe, disfarçando a custo a dor da separação, deixou a gaiolinha em minhas mãos e sumiu. Afastou-se apressadamente e desapareceu entre as pessoas. Não me deu tempo sequer de perguntar-lhe o nome do bichinho!!! Olhei-a e, de pronto, sempre soube que se chamava “Neguinha”. Sorri e coloquei o dedo entre as grades. Ela, dengosa, colocou uma das patas sobre ele. Estava feito o pacto. Seríamos inseparáveis até a morte.

Mas a história é mesmo longa... conto o resto na semana que vem!