Contos verdadeiros, talvez enfeitados pelo meu amor pela vida. Agradeço a motivação insistente de amigos e amigas, sem a qual eles jamais teriam saído do meu computador.
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sábado, 11 de fevereiro de 2012
TEIAS
Há um fio aqui, ali, em qualquer lugar que prende
pessoas a pessoas, pessoas a coisas, coisas a pessoas...
Teias de aranha.
Se você leu o conto VARIG, deve imaginar a gratidão que guardei da comissária de bordo que nos acompanhou durante o vôo Porto-Rio, dando a meu pai toda a acolhida e atenção necessárias.
Pois é... mas eu estava tão preocupada e voltada para as necessidades do meu pai, que não tive olhos e tempo para agradecer, como gostaria, a esse anjo terrestre que nos atendeu nas nuvens...
Dias depois, ainda que envolvida pelas providências de instalação de meu pai em sua nova vida, lembrava-me constantemente daquele olhar e daquele sorriso que nos acalentou em um momento tão delicado de nossas vidas. Queria agradecer-lhe, mas sequer tinha tempo de parar para me lembrar de ligar para a VARIG e procurar saber o nome todo, providenciar uma carta de elogios à companhia, talvez encontra-la para agradecer-lhe pessoalmente.
O tempo passou atribulado. Nada fiz de concreto. Mas meu coração, volta e meia, voltava-se agradecido para a imagem daquela doce comissária de bordo. Com o tempo, esqueci de seu nome. O tempo passou... mas não a lembrança.
Meu pai faleceu seis meses depois e voltei-me para o cotidiano de vida. Retomada de fôlego. Isso foi num agosto.
No ano seguinte, passei de abril a junho completamente envolvida num concurso acadêmico. Queria fazer parte do corpo docente de uma determinada Universidade Pública, já em meus planos, de longa data. Segundo meus amigos, um suicídio de esforços, pois atestavam que as vagas já estavam marcadas... tentativa inútil.
Não me entreguei. Apenas coloquei na cabeça que os esforços deveriam ser redobrados. Além das 20 horas/aula em uma universidade particular e mais 6 aulas, no ensino médio, que eram compromissos inadiáveis, eu comia, dormia, sonhava e respirava estudo. Estava acostumada a dar aulas de grego, língua portuguesa e cultura clássica e o concurso era para Linguistica. Para encurtar a história, passei. Exaurida, mas passei para os subseqüentes 20 anos acadêmicos mais produtivos de minha vida.
Quis me dar de presente uma viagem de férias e, claro, depois da vitória, tinha de ser para o exterior. Quanto mais longe do estresse, melhor. Assim, nas férias de julho, já investindo na promoção de vida profissional que iria receber, viajamos, meu ex-marido e eu.
Claro que a companhia aérea era a VARIG, que você já sabe ser a companhia de minha total preferência.
Malas e corações a postos, entramos no avião já com espírito de quem estava em plena excursão.
Uma das comissárias de bordo, imediatamente, me chamou a atenção. Sou péssima fisionomista. Aliás, a expressão “péssima” ainda soa como um elogio. Sou pior do que isso. Mas há algo dentro de mim, que pulsa não sei de onde. Dizem que é uma antena intuitiva. Sei lá. Sei que pulsa. Meus olhos pousaram naquele olhar sorridente e acolhedor. Imediatamente a reconheci. Não meus olhos, mas o coração por trás deles. Era ela, sem dúvida.
Sorri e me aproximei. Sabia que ela estava muito ocupada, mas não resisti:
-Você! Que felicidade! Você cuidou de meu pai no ano passado, durante todo o vôo! E nunca pude mostrar-lhe toda a minha gratidão.
Ela sorriu:
- Lembro-me de seu pai. Estavam sentados à esquerda, ele na janela! Como ele está?
Foi aí que arrefeci. Como dizer-lhe, assim, na lata, que ele tinha falecido? Mas não tinha jeito:
- Está nas nuvens, muito melhor do que aqui. Mas sua presença sempre esteve presente em nossas conversas. Ele sempre falava de você. Como sou agradecida!
Seus olhos encheram-se de lágrimas. Difarçou. Eu também. Sorri-lhe e passei para ir em busca de meu lugar.
Quando sentei, havia outra comissária em seu lugar. Onde estaria? Sumiu, por uns cinco minutos. Eu sabia que tinha se retirado. Tinha mesmo ficado emocionada. Mas, daí a pouco, lá estava ela, recepcionando, cuidando dos que continuavam a entrar.
Antes da partida, passou por mim e disse:
- Estou atendendo à primeira classe. Não poderei estar por aqui.
- Vejo que você foi promovida. Muito mais que merecido.
Não a vi mais durante as dez longas horas de viagem. Mas volta e meia sorria para mim mesma, satisfeita com sua promoção. E muito feliz com o encontro.
Na saída, pensei em me atrasar um pouco para um último agradecimento. Mas nem foi preciso. Ela mesma me acenou lá da frente, como quem sabe que esperava me encontrar.
Segui o fluxo e, quando me aproximei, lá estava ela, tendo nas mãos, um vasinho de primeira classe com uma rosa vermelha. Me ofereceu, sem nenhuma palavra. Dei-lhe um breve abraço. Nos olhamos, cúmplices de vida - acolhedora e acolhida, em mútuo afeto de doação e agradecimento.
A vida, com certeza, entre os múltiplos presentes que recebi, não me negou mais este encontro.
Há um fio aqui, ali, em qualquer lugar que prende
pessoas a pessoas, pessoas a coisas, coisas a pessoas...
Teias de aranha.
sábado, 28 de janeiro de 2012
VARIG
Amo a VARIG. Hoje acordei pensando nela.
Me lembrei, também, da história de um famoso político. Diziam que ele tinha uma memória prodigiosa e conseguia se lembrar dos nomes de quase todo mundo que encontrava. Contam que, um dia, ele se encontrou com um eleitor:
- Oi Fulano, como vai? E a Senhora Dona X, sua mãe?
O eleitor muito sério:
- Ora, não se lembra? Eu lhe disse que ela morreu. E já tem mais de um ano!
O tal político não perdeu a pose:
- Morreu para você, filho ingrato. Para mim, estará sempre viva em meu coração!
Pois é. Amo a VARIG, em cada milímetro do meu cérebro e do meu coração. Quem a conheceu e conviveu com ela sabe: a VARIG não era apenas uma empresa aérea... ela estava encarnada em cada funcionário. Estar na VARIG era praticamente, voar em casa. O sorriso da VARIG era diferente, porque vinha de dentro para fora, da alma para o coração, do coração para o gesto.
Acho que ficaria umas semanas só contando histórias sobre a VARIG... e algumas delas pareceriam contos irreais. Mas é que, muitas vezes, a verdade parece fábula mesmo...
Acordei pensando em viajar novamente. Foi aí que me deu aquela saudade da VARIG. É que os comissários de bordo, por exemplo, embora gentis, solícitos e simpáticos não conseguem ter o jogo de cintura tão conhecido da companhia aérea do meu coração.
Lembro-me, por exemplo, de um de meus últimos vôos no ano passado: serviram uma refeição e, como não tenho o hábito de comer carne, não me encaixei na única opção de alimentação: massa com carne. Não tinha nem como separar uma coisa da outra - todo o molho era de carne. Agradeci e apenas perguntei:
- Há alguma opção possível para quem não come carne?
- Lamentamos, não.
Bem, eram algumas boas horas de vôo. Mas ninguém morre se não comer nada, mesmo sendo vôo internacional. Pedi apenas algo para beber e a sobremesa que, diga-se de passagem, não era lá essas coisas. Não encostei no prato e me preparei para uma leitura, melhor maneira de passar o tempo, em vôos diurnos, a meu ver.
Passados uns vinte minutos, uma outra comissária apareceu “do nada” com uma bandejinha improvisada e, sorrindo, me ofereceu:
- Foi o melhor que pude conseguir. Espero que esteja do seu agrado.
O “espero que esteja do seu agrado” era simplesmente um improviso muito bem arranjadinho: um pãozinho com queijo, embrulhadinho, ao centro; um saladinha de frutas, no canto esquerdo, manteiga e geléia, no cantinho direito. Melhor que isso, só se tivesse uma florzinha. Não resisti. Olhei-a bem no fundo dos olhos e sussurrei a pergunta:
- Você foi da VARIG não foi?
Ela sorriu, acenou com a cabeça. Não foi preciso dizer mais nada.
Nas minhas conjecturas, fico imaginando que, do mesmo modo que eu sinto falta do “sabor VARIG de viajar”, os antigos funcionários, quem sabe, também sintam falta do “sabor VARIG de trabalhar”. É claro que, infelizmente, pelo andar da carruagem, essas gentilezas, essa forma cúmplice de mútuo bem estar, se perdeu ou se perderá, diluído no tempo, pela forma objetiva, prática e impessoal que as outras companhias apresentam. Não que não sejam gentis, não que não sejam competentes, agradáveis, prestativos. Quase todas são, com o que se supõe ser o devido treinamento adequado. Mas sinto isso como treinamento, não como uma forma de fazer parte de uma família, o que faz, do trabalho, uma forma boa de viver.
Por que digo isso? Por que fui professora de muitos funcionários da VARIG. Aliás, mais do que eu poderia imaginar. Quantas e quantas vezes, via alunos e alunas entrando em minha sala de aula ainda uniformizados, muitas vezes atrasados:
- Desculpe, professora, acabei de chegar do vôo.
Uniforme, malinha de viagem e livros, tudo num volume humano só. Cansados, mas... felizes. Tive algumas oportunidades de conversar com eles:
- Escolheu Letras por quê? Quer mudar de profissão? A VARIG é um degrau até a sua graduação?
- Não, professora, estou cuidando de meu futuro. Quero subir na empresa. O objetivo final é conseguir as escalas dos vôos internacionais.
- Você gosta tanto assim de viajar?
- Gosto, mas, acima de tudo, trabalhar na VARIG é o que conta. Você não imagina o que é trabalhar lá.
- E como você faz para conseguir estudar com tantos vôos?
- Ué, você mesmo vê. A gente se vira!
Não ouvi isso de um ou dois alunos, mas de vários. E, vezes sem conta, ouvi o quanto eles gostavam da empresa, do que era ser de lá. Fora alunos, tenho duas amigas que foram funcionárias da VARIG. Uma saiu porque se aposentou, outra porque a VARIG acabou.
Deduzi que este amor pela empresa só poderia ter, como conseqüência, esse tratamento tão extraordinário aos clientes. Um funcionário excepcionalmente satisfeito, só poderia nos tratar tão bem quanto visitas em sua própria casa. Mas é que tinha mais: na verdade, eles sentiam como se a empresa fosse deles e não eles da empresa. Faz toda diferença...
Gostaria de contar uma passagem em especial, a da minha volta de Portugal, trazendo meu pai a tiracolo, para morar no Brasil. Se você leu o conto “Golpe de mestre” sabe a que aperto me refiro: meu pai, mal convalescente, precisando enfrentar uma viagem tão longa...
Na verdade, antes mesmo de embarcar para Portugal, eu já havia levantado a hipótese de traze-lo. Assim, desde aqui, já tinha me dirigido à VARIG para perguntar que tipo de apoio poderia ter deles. E já sabia: eles dariam todo o apoio, desde que ele estivesse em condições de viajar e com o aval escrito de um médico responsável.
Assim, uma vez em Portugal e tendo recebido todos os cuidados necessários durante dez dias, o médico disse que ele estaria, sim, pronto para enfrentar a viagem, desde que seguisse todas as recomendações tão logo chegasse aqui. Ok. Ao comprar as passagens e com a declaração do médico nas mãos, pedi a ajuda para o apoio necessário. O que ouvi, foi o seguinte:
- Estamos prontos para prestar toda a ajuda necessária, desde que ele atravesse a Polícia Federal em pé e sozinho, ou seja, sem a nossa ajuda. Não podemos interferir nesta etapa, não com apenas esta documentação.
Em outros termos, para ser considerado um passageiro doente, a burocracia do aeroporto e dos vôos era tamanha, que era mais fácil considera-lo um passageiro comum, isto é, desde que o médico assim achasse conveniente.
Meu pai era, antes de tudo, um osso duro de roer. Desses portugueses de antigamente, que estão doentíssimos agora e, de repente, não se sabe como, estão de pé. Pois é. Na véspera, ainda fui à VARIG. Me encaminharam para uma salinha para que eu explicasse as condições em que eu achava que meu pai se encontrava. Disse-lhes que estava bem, mas que seria custoso, por exemplo, movimentar-se muito, levantar-se, enfim, exigir esforços mais do que o mínimo necessário. Fui encaminhada para outra sala e uma jovem senhora me aconselhou, então, que alguns cuidados fossem tomados: enfaixar as pernas, para evitar que inchassem, se o médico achasse aconselhável. E, por via das dúvidas, quem sabe, que ele usasse fraldas, pois não precisaria levantar-se mais do que desejaria, se fosse o caso. Ainda me perguntou que tipo de alimentação poderia ingerir. Todos esses cuidados jamais seriam pensados por mim. Detalhes desse tipo me foram solicitados. E, diga-se de passagem: não estávamos voando pela primeira classe... era pela econômica mesmo...
Preparei-me, enfim, para a novela “aeroporto”. Pensei com meus botões: a gente passa pela Polícia Federal, eu procuro o balcão da VARIG e, lá na área internacional, a gente vê que tipo de conforto poderemos conseguir até o vôo.
Chegamos ao aeroporto e, no check in, a primeira identificação:
- Sr. Joaquim Pereira Vianna, seja bem-vindo ao nosso vôo. Temos anotado, aqui, um atendimento prioritário. Faremos tudo para que tenha uma boa viagem. Assim que passar pela Polícia Federal, estaremos atentos a suas necessidades.
E qual não foi a minha surpresa: tão logo passamos pela Polícia Federal, quase tropeçamos naquele tão conhecido uniforme, ostentando o crachá da VARIG. O jovem funcionário estava ali, a postos, com uma cadeira de rodas e aquele sorriso acolhedor:
- Daqui por diante, seu conforto está sob nossa responsabilidade.
Estávamos quase na hora do vôo, o que significou pouquíssima espera. Logo meu pai foi levado pelo gentil rapaz para que fosse acomodado antes de todos os outros passageiros, com calma, conforto e segurança e, principalmente, sem atropelos. Logo depois eu fui chamada, pois meu lugar era ao seu lado. Assim, fomos os primeiros a embarcar, meu pai à janela e eu ao seu lado. Antes do embarque dos demais, uma comissária de bordo se apresentou:
- Estarei atenta a este jovem senhor, disse sorridente. Chame-me sempre que achar necessário.
O “jovem senhor” tinha apenas oitenta e dois anos... delicadeza que não se consegue com treinamento. É natural mesmo...
O vôo era diurno e não preciso dizer que meu pai foi servido sempre em primeiro lugar e, volta e meia, a tal comissária sorridente e acolhedora estava ali, com alguma coisa, um pouquinho de água, uma toalhinha úmida para o rosto por causa do ar condicionado:
- Não vamos querer nenhum sinal de desidratação não é mesmo? É melhor beber sempre um pouquinho de cada vez, para o senhor não se sentir desconfortável, afinal como não vai se levantar, mesmo com fralda, vamos bebendo aos pouquinhos...
Enfim, cuidados aos detalhes e de tal forma que, a certa altura, meu pai comentou:
- Eu estou achando que esta moça está interessada em mim...
Enfim, chegamos, depois das longas horas de vôo, que separam o Porto do Rio de Janeiro. Assim que o avião pousou, a mesma comissária se aproximou:
- Vocês tem alguém esperando no aeroporto?
- Sim, meu marido.
Naquela época, eu ainda era casada.
- Ele está motorizado?
- Sim.
- Então, por favor, de-me o passaporte de seu pai, o nome de seu marido e pode desembarcar. Cuide das malas e de sua passagem pela migração. Nós cuidamos do resto.
Agradeci muito e só tinha como resposta, aquele olhar gentil, prestativo, cúmplice:
- Ele foi um amor, não deu trabalho nenhum. Fique tranqüila.
Saí do avião pensando em encontrar meu pai ao lado de meu ex. Mas não. Não sei o que a VARIG fez, mas, quando vi meu pai, ele já estava dentro do carro, sentado no banco do carona, que já estava devidamente forrado com plástico. Um jovem mantinha a porta aberta, ao lado de uma cadeira de rodas e conversava um pouco com ele, como se o estivesse distraindo.
Quando chegamos, ele se dirigiu a nós e disse:
- Bem, está entregue, espero que tenham feito uma boa viagem. A VARIG agradece a preferência!
Preferência? Agradecer a preferência? Eu é que deveria agradecer à VARIG o motivo de minha eterna adoração por ela...
E isso foi só um dos fatos...
A tal da comissária me encontrou quase um ano depois, com meu pai já falecido... e esse encontro vale mesmo outra história, que conto semana que vem.
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sábado, 24 de abril de 2010
O VOO

Voltei em um voo da VARIG de um congresso em Portugal, no ano, dia e hora do jogo final da Copa do Mundo, Brasil versus França, aquele jogo, jamais esquecido em nossa história. Um avião daquele tamanho com menos de um terço de passageiros. Talvez todos portugueses, quem sabe. Brasileiro, mesmo não fanático por futebol, geralmente não perde os jogos da Copa, principalmente a final. Eu faço parte da exceção, para confirmar a regra, e, desta vez, para viver o vôo mais emocionante da minha vida e uma aventura amorosa digna de nota.
Acomodados todos, aeronave nos céus, eu com assentos à vontade para refestelar-me, preparava-me para aproveitar a tranquilidade de um clássico vôo internacional.
Alcançadas as alturas, ouvimos a simpaticíssima e atraente voz do comandante:
- Caros passageiros, aqui fala o comandante X... bem-vindos...
E seguiram-se os indicativos de praxe aos quais já nos acostumamos como passageiros: altitude e demais informações. Logo após, no entanto, veio o convite:
- Como temos poucos passageiros, nesse dia tão especial para o Brasil, convido os interessados a visitarem a cabine e para isso, peçam orientação junto a nossos comissários de bordo.
Eu nunca tinha visto um painel, muito menos uma cabine e não tinha um programa especial para fazer, a não ser ler meu livro. Daria tempo de sobra para um belo e diferente recreio. Fui logo encaminhada à cabine. Ao entrar, a visão do painel foi imediatamente obscurecida pela imagem sedutora daquele homem. Interesse redobrado, perguntei sobre todos os detalhes, que foram imediatamente descritos, com a mesma atenção das perguntas. O co-piloto, uma gracinha de rapaz, estagiário de voo internacional há seis meses, mexia nos equipamentos, atento aos comandos do instrutor-comandante. Eu não sabia o que era mais sedutor: a voz, os olhos, o sorriso, os movimentos ou o saber-se sedutor com a simplicidade de um gentleman. Aproveitei o que pude e me aprontei para sair e deixar que outro visitante tomasse o meu lugar. Ele insistiu para que eu ficasse. Sorri. Vontade não faltou, mas, discreta, aproveitei a deixa para escapulir.
Voltei sorrindo comigo mesma, pela pequena aventura. O “Nome da Rosa” me esperava, largado displicentemente na poltrona. Voo longo, leitura longa. Tinha tido um bom começo, o dia parecia promissor. Deitei-me ao longo de três poltronas vazias, como quem se deita no conforto de uma rede, livro em punho, e comecei a ler o primeiro parágrafo. Confesso que custei a engrenar na leitura, pois aquela voz maravilhosa ainda ressoava em meus ouvidos. Passei uns segundos para perceber, no entanto, que a voz não ressoava, soava:
- Eu já expliquei a você que um avião como esse praticamente voa sozinho, mas o resto dos passageiros não sabe disso. Quando eles virem o comandante em pé aqui no corredor, pensarão que deixei a aeronave à deriva e podem entrar em pânico. Você não acha mais conveniente evitar tudo isso e voltar comigo para a cabine?
Levantei os olhos, embaraçada. Ele, ali, de pé, um metro e oitenta de sorriso branco e puro. Claro, ninguém iria querer colocar os passageiros em pânico, nem a aeronave em risco e segui as ordens do comandante, acompanhando-o obediente e compenetrada ao que seria minha deliciosa prisão, nas próximas 10 horas.
Foi um vôo de sonhos. De quebra, o co-piloto ouvia o jogo por um comunicador sei lá de que e, delicadamente, não dava ouvidos a nosso papo. Falamos de tudo, como acontece com quem não quer deixar a peteca cair. Aliás, seria difícil deixar uma peteca cair diante daquele homem. Cheguei a me perguntar se aquela voz precisava ter conteúdo. Não precisava. Mas tinha, o que tornava tudo bem mais interessante. A cabine, convenhamos, é desconfortável, assento atrás do co-piloto. Mas quem liga, numa hora dessas? Ele também não estava lá muito bem, pois tinha de se sentar de lado para conversar com sua prisioneira, que, pelo que tudo indicava, também lhe parecia bem interessante. Lanchamos ali mesmo, almoçamos conversando, bandejas ao colo. A cabine é estreita, pois não foi feita para passageiros. Não havia privacidade, mas havia encanto. Por enquanto, era suficiente. Escala em Recife. Preparei-me para sair, quando vi a aeronave fazer os primeiros ensaios de descida. Imediatamente ele me perguntou se eu queria perder a parte mais interessante da viagem: aterrissar ali, em pé, entre os assentos do piloto e do co-piloto, vendo o bico do avião na pista. Perguntei se podia. Podia. O soberano da aeronave é seu comandante, por que não? Meu coração saltou. Senti-me a primeira dama. Levantei-me, vi a pista lá embaixo naquele final da tarde, sol começando a cair no horizonte. Muda, emocionada, hipnotizada, enquanto o co-piloto se preparava para realizar o pouso, como tarefa de seu estágio, sob o olhar agudo de seu instrutor.
Aeronave embicada, ouvi o comandante perguntar ao co-piloto:
- Como vai indo o jogo?
O rapaz respondeu:
- Não sei, retirei o fone.
E continuou compenetrado levando o avião rumo à pista. O comandante olhou para ele e sorriu. Dei-me conta da competência, do cuidado, da agudeza de professor, da segurança, do treino, do cuidado com a avaliação constante de seu discípulo. Engrandecido a meus olhos, mais uma vez.
Pouso sereno, parabéns dados ao discípulo.
Sentamos na primeira classe, completamente vazia. Apenas ali, volta e meia, nossos corpos se tocavam, com suavidade propositada. Ali mesmo me senti completamente pronta para uma noite amorosa, sem preliminares, ou melhor, com todas as preliminares já meticulosamente consumadas, em céus internacionais. A cabeça não pensava nada, mas a mulher desejava que o vôo terminasse no Rio de Janeiro, mais especificamente, em minha casa. E eu ainda não sabia das emoções que ainda me aguardavam...
Hora da partida e eu já me via ali, entre as duas poltronas para ver o avião alçar seu vôo sem limites. Desta feita, o próprio comandante levou o aeronave aos céus, explicando que levantar é muito mais difícil do que descer e que o co-piloto só faria sua primeira tentativa depois de mais não sei quantas horas de estágio, dos seis meses que já possuía. E eu que pensava que descer era mais difícil...
A noite se fazia plena e pura. À esquerda, a lua em quarto crescente, linda! Voo estabilizado, o grande presente:
- Agora você vai ver uma das coisas mais maravilhosas, que fazem a vida de um piloto valer a pena.
Dito isso, levantou-se e me convidou a sentar-me em sua poltrona. Nossos corpos se tocaram como nunca, nessa troca na cabine não tão apertada, mas cúmplice. Sentei-me, o comandante ordenou ao co-piloto que todas as luzes da cabine se apagassem e me disse para ficar ali, sem pressa.
De repente, me esqueci de tudo. Colei-me ao vidro, a lua parecia estar ao meu lado. O céu intenso em suas estrelas, a vida explodindo dentro do meu corpo, da minha alma, do meu espírito. Dentro da cabine, silencio total, respeitoso, cúmplice. A luz interior vívida, pura, completa. Deus e eu. E nada. E tudo. Naquele momento, ele não era o homem, era o anjo que me levara ao encontro com o divino. Fiquei ali, muito tempo, eu acho, perdida, achada, inteira, perplexa, maravilhada, surpresa, extasiada, feliz.
Foi a melhor e mais linda cantada que recebi em minha vida. Aquele homem queria o encanto. E o teria, se quisesse.
Custei a voltar a mim, a me levantar devagar, a trocar de lugar novamente. Corpos se tocando, desta vez, em êxtase. Ficamos em silêncio, os três, por mais algum tempo. Eu estava muito emocionada e eles sabiam. Toquei seu ombro por trás, em agradecimento. Lembro-me do toque de sua mão sobre a minha, seu rosto voltando-se para trás, sorrindo suavemente e percebendo a necessidade do silêncio contemplativo.
A conversa foi voltando aos poucos, suave a princípio, alegre, gentil, bem humorada depois. O tempo passou transformando horas em segundos e eu já estava em pé, vendo a ponte Rio-Niterói, os pontos magníficos de nossa cidade amada. Mas apenas eu desceria no Rio... ele seria transportado para um vôo doméstico, como passageiro, depois de tão árdua viagem, para pousar em São Paulo, destino traçado em sua escala. Que pena. Mas ali mesmo pediu o meu cartão, dizendo que me telefonaria tão logo chegasse ao Rio, na semana seguinte. Acompanhou-me até a saída da aeronave, eu, primeira passageira a sair, com minha mala de mão já cuidadosamente a minha espera, trazida por um dos comissários. Mínimos detalhes.
Nos despedimos ali, sem um beijo, sem um toque senão o do olhar.
Uma semana depois, ao chegar em casa, sua voz alegre me esperava na secretária eletrônica. Estava no Rio e esperava ansiosamente, frisou, pelo meu retorno à ligação, pois só poderia ficar durante um dia.
Único deslize, mas fundamental, em toda a história: esqueceu-se de deixar o número para que eu desse retorno...
E homem tem dessas coisas: acha que, se não retornamos, foi porque já esquecemos ou não demos tanta importância. Pode ter sido isso, pode ter sido a fluidez do momento, podem ter sido outras aventuras. Não ligou mais.
Ficou-me a sensação do sonho jamais esquecido, e, vez por outra, vivido e resgatado em momentos preciosos pelo meu coração. Um terno e gracioso brinde à vida, à delicadeza e ao prazer do corpo e do espírito.
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