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domingo, 26 de maio de 2013

CONTO DE AMOR



Às vezes, histórias reais parecem saídas de contos de fadas.

Acho que é o caso de amor que existiu entre Aluisio e Djanira.

Você já ouviu falar deles, se leu os contos "A empada", no qual conto uma ida a Guarapari e também o conto "Só para garantir" em que falo sobre as aventuras de minha violeta e já insinuo que, um dia, contaria uma história só deles.

Então... lá vai:

Vamos nos colocar na época da década de 40. Djanira era filha de um desses coronéis do Nordeste, não me lembro bem de que cidade... talvez Juazeiro, se não me engano. Para completar, era a filha preferida do pai, que tinha vários filhos. Mas era ela que se sentava à esquerda da cabeceira da mesa, tenho sua mãe em frente e os irmãos ao longo da grande mesa da sala. Sob os olhos agudos do pai, lembrava-se de que não conseguia sequer levantar o rosto para fita-lo. E... era a preferida!... 

Aluisio era um moço comum, segundo os parâmetros da época. Não era um Zé Ninguém, mas, para a categoria do coronel, estaria no nível, digamos... de um peão, embora não fosse seu empregado.
O encontro dos dois estava longe de ser uma paquera, um flerte e muito menos algo que permitisse uma aproximação. 

Viam-se, de relance, apenas por uns momentos, uma vez por semana, na saída da Igreja, depois da missa dos domingos, onde Aluisio ia só para admirar sua princesa. 

Djanira não podia virar o rosto para olhar ninguém. Ao lado do pai, podia, quando muito, olhar para o padre e para a frente.

Mas Aluisio era insistente e se colocava à saída da Igreja bem no ângulo, a sua frente, para que, no momento em que ela saísse, não pudesse deixar de vê-lo.

E passaram meses assim, numa troca de olhares, sem sequer se falarem. 

A família vivia na cidade e, embora o coronel fosse com frequência à fazenda, a vigilância era sempre rigorosíssima e eles nunca tiveram condições de passarem dessa rápida troca de olhares dominical. 

O olhar da moça, no entanto, incentivou o rapaz e, mesmo que seus amigos dissessem que o coronel poderia tirar-lhe o couro ou mesmo mandar matá-lo, um dia, colocou seu terno e se apresentou à casa do coronel.

Pelo que o casal me contava, em nossas tardes deliciosas de amizade, Aluisio teve a impressão de que o coronel achou que ele fora lá para pedir-lhe emprego na fazenda. Mas o moço era petulante e foi direto ao ponto:

- Não coronel, não quero emprego. Vim aqui para pedir a mão de sua filha Djanira em casamento.


- O quê? Como se atreve? A moça tem dezesseis anos incompletos e você, afinal, quem é na vida?Ela não vai querer sequer olhar para você!

- Desculpe, coronel, mas o senhor, pelo menos, poderia perguntar se a moça aceitaria...

Foi aí que a coisa se deu. O coronel, confiante de sua prepotência, mandou chamar a filha:

- Djanira, você aceita se casar com esse moço?

- Aceito meu pai.

Quando eles me contavam essa história, que aliás, por ser tão linda, eu pedia que me repetissem de vez em quando, lembro-me de que ela ria muito nessa parte da narrativa:

- Eu não sei o que me deu. Eu nem sabia o nome dele!!!

Djanira lembra-se da voz raivosa do pai:

- Já para o seu quarto! 

E enxotou Aluisio de casa, com ameaças de morte, caso aparecesse por ali novamente. Chamou a mulher, mandou que ela trancasse Djanira no quarto, sem sair para nada e que arrumasse as malas naquela mesma tarde, pois partiria, no dia seguinte, para outra cidade, sob sigilo, para morar uns tempos com uma tia, até que ele resolvesse a situação.

Djanira me contava que foi para o quarto em prantos. E, enquanto arrumava suas coisas, sozinha, não sabia o que iria ser de sua vida.

A janela de seu quarto era bem alta e não podia enxergar a rua direito, mas olhando por ela, num instante, percebeu um chapéu andando para lá e para cá. Sem saber direito por que, puxou uma cadeira e foi espiar. Era Aluisio que não tinha coragem de se arriscar de chamá-la, pois não sabia onde era seu quarto e tinha medo de ser descoberto. Ao vê-la, no entanto, foi direto:

- Djanira, você foge comigo?


- Fujo sim senhor, mas tem de ser hoje, porque amanhã vou para a casa de uma tia, não sei em que lugar e não nos veremos nunca mais.


- Então se apronte, vou falar com padre e volto à noitinha. Casamos e fugimos, pois não poderei ficar ao alcance de seu pai. Você não vai mais poder ver sua família. Você aceita?

- Aceito, sim senhor.


- Então, está combinado. Venho, te ajudo a pular a janela e vamos embora.

E sumiu.

Djanira me contava que não soube como foram as horas que se seguiram. Seu coração não parava de bater como um louco e ela teve medo de morrer antes de conseguir fugir. Mas continuou arrumando suas coisas, do melhor jeito que podia, tentando disfarçar. Sua mãe achava que ela estava assim porque teria de ir embora e ela concordava, para não levantar suspeitas.

À noitinha, quando o chapéu de Aluisio começou a andar de lá para cá, ao longo de sua janela, novamente, Djanira pensou que perderia as forças e não iria conseguir mais respirar. Mesmo assim, colocou a cadeira perto da janela, subiu e sem dizer uma palavra, pois estava completamente aterrorizada, debruçou-se para que ele a puxasse.

Tão logo se viu na rua, pela primeira vez desacompanhada do pai e tendo como companhia apenas um homem que conhecia apenas de vista, viu que seu destino estava traçado, não tinha como recuar. Para completar, crianças que brincavam pela rua e viram o acontecido, começaram a gritar:

- Corre chamar o coronel, Djanira está fugindo mais Aluisio!

E, não teve jeito, perna para que te quero. Os dois saíram de mãos dadas - e Djanira sempre fazia questão de ressaltar esse detalhe - destrambelhados, correndo o mais que podiam, rua afora, em busca de abrigo.

E foi na Igreja que se esconderam, se casaram na mesma noite, e fugiram da cidade, no meio da madrugada, batendo os costados por aquele sertão afora, até darem com os pés no Rio de Janeiro, de onde nunca mais saíram.

Aqui, Aluisio se estabeleceu, acabou tendo uma frota de ônibus escolares que o fizeram crescer profissional e financeiramente e se dar muito bem na vida.

Tinham um apto enorme no Flamengo, na Rua Marques de Abrantes, em frente à padaria Benamor, que existe até hoje.

Por falar em pão, Djanira sempre foi uma prestimosíssima dona de casa e cozinheira de mão cheia. E o melhor: adorava o que fazia. Lembro-me, até hoje, de seu pãozinho de uvas, e a carne de sol, receitas do nordeste, pedidos insistentemente pelos filhos, e que tive oportunidade de saborear várias vezes.

O casal teve três filhos: duas meninas e um menino. Depois, adotaram um outro menino, pois, onde se esbanja amor, sempre há espaço para mais um.

Lembro-me com carinho das inúmeras tardes que passei com eles, naquele apartamento fresco e cheio de luz, iluminado ainda mais por esse casal tão dedicado e carinhoso. Lembro-me com alegria dos dias em que me levavam para passar em sua casa de praia em Guarapari, eu ainda adolescente e eles já adiantados dos anos.

Lembro-me, sobretudo, do aconchego, do amor sempre puro e sincero que via nos dois, um cuidando do outro, com delicadezas e cumplicidades, que só um venturoso e incrível amor como esse pode sustentar.

Vejo-me pensando na irrepreensível coragem dessa menina-mulher, atirando-se nas aventuras do mundo, sem olhar para trás. E deste homem, que soube ler no olhar de sua amada, a felicidade prometida, como uma terra de além-mar, acima de todo querer.

Mas, o melhor dessa história ainda está por vir.

Conto mais na semana que vem.

sábado, 9 de abril de 2011

O GABONÊS



Cidade do Porto, norte de Portugal, junho, final da década de 90. A fila para pegar o material do Congresso e o crachá estava bem organizada e eu tinha chegado cedo, como sempre. Chegar antes para pegar as coisas com calma faz parte de mim. Atropelos de última hora são dispensáveis a não ser que tragam boas surpresas. Para um congresso, no entanto, ainda mais sendo meu dia de apresentação, imprevistos seriam dispensáveis.

Sentia-me ligeiramente desconfortável em meu vestido sem cinto. Só notei na hora de usá-lo e resolvi ir assim mesmo. Ficava bonito, mas a delicadeza do acessório me fazia falta. Mal sabia que isso seria um detalhe essencial a essa história...

Material nas mãos, crachá no peito, dei umas voltas pelas salas de exposição e voltei para o hotel. Minha apresentação seria à tarde. É ótimo apresentar o trabalho no primeiro dia. Tirada a tensão natural, fico mais livre para curtir melhor o resto da festa. E sendo um congresso internacional de Psicolinguistica, tudo prometia ser muito bom.

Troquei de roupa disposta a não usar mais aquele vestido. O cinto fazia falta. Voltei ao congresso.

Fiz minha apresentação e logo após me dirigi para a sala de trabalhos que apresentava estudos sobre desenvolvimento de processos cognitivos. E foi aí que tudo começou.

Sentei-me na primeira fila, atenta especialmente a uma das comunicações que prometia ser das melhores. E seria a primeira. Foi quando ele entrou, acompanhado de sua orientadora. Um gabonês de alto porte, com um sotaque francês lindo que só um africano em sua origem consegue ter: manso e baixo, de ritmo pausado e doce. Mas me concentrei no perfil acadêmico. De saída, no entanto, nosso palestrante cometeu o crime de desculpar-se por falar em francês e não em inglês. Não entendi. As duas línguas eram oficiais no congresso, além do português. No intervalo, quem sabe, seria uma boa deixa para iniciar uma aproximação amistosa e brincalhona, se seu trabalho me interessasse. Interessou. E muito. O que ele tinha a apresentar era mesmo algo de grande valor. Fiquei embevecida com os argumentos, com a segurança, com a singeleza, com a agudeza dos detalhes, com a inteligência, com as idéias apresentadas. Altíssimo nível. Eu precisava ver isso mais de perto. Assisti aos outros trabalhos da sessão e ele também. Sem dúvida a dele se destacou.

No intervalo, ele saiu às pressas, com sua orientadora, talvez, ambos, em busca de outros trabalhos. Eu me mantive na sala, acompanhando as outras apresentações, atenta aos meus interesses profissionais.

Terminada a sessão, saí em busca de um lanche. No fundo do corredor a porta do elevador aberta, ameaçava fechar-se. Corri e seus ocupantes, apenas dois passageiros, fizeram a gentileza de segurar a porta para mim. Entrei e agradeci. Fui surpreendida pela sorte: eram, justamente, ele e sua orientadora. Muita coincidência. Não sei por que, num impulso, sorri, talvez mais para mim mesma. Mas ele sorriu em troca. Não resisti. Soltei o chiste, no melhor francês que pude arranjar. Mesmo sendo minha segunda língua...

- Gostei muito de sua apresentação, mas teria uma crítica a fazer.

Senti que, imediatamente, seu olhar negro e profundo se embaçou. Por sentir-se desmerecido ou por estar ao lado de sua orientadora? Nunca saberei. Mas ele agüentou firme:

- Sim?

Sorri novamente:

- Como você pode pedir desculpas por falar a segunda língua mais linda do mundo? A minha é a primeira naturalmente...

O sorriso de ambos me acolheu. Aproveitei a deixa e perguntei se ele se incomodaria de tirar algumas dúvidas ou acrescentar algumas informações sobre sua pesquisa, em algum momento do congresso. Sua orientadora adiantou-se e disse que teriam imenso prazer e, se eu quisesse, poderia ser naquele momento mesmo. Descemos os três e procuramos uma sala. Desfiei meu rosário de questões, feliz da vida, por poder entrar num mundo de interesses comuns. Pouco depois, sua orientadora pediu para retirar-se pois estava atrasada para um compromisso. Ficamos sós e muito mais que apenas amigos ali mesmo. Durante todo o resto do congresso ficamos juntos, curtindo todos os sabores que um congresso e uma cidade pequena como o Porto pode oferecer, isto é, até as 22 horas da noite, pois, depois disso, tudo fechava. Então, nos escondíamos no único bar-restaurante numa ruela do centro da cidade, que nos garantia um jantar à portuguesa e um bom papo até a meia-noite, prazo em que a cidade, literalmente, virava abóbora.

Estávamos enlevados, sem dúvida, e só notei que ele também se sentia completamente envolvido, na despedida, no último dia. Estávamos abraçados, quietinhos, aconchegados e, naturalmente, já saudosos. Vi suas lágrimas escorrerem por sua face negra. E me lembro que muitas poucas vezes me senti tão enternecida por alguém quanto naquele momento. Foi quando ele se levantou e tirou, de uma pequena bolsa que costumava carregar, um embrulho com papel de presente. Uma lembrança para que eu não o esquecesse. Abri. Era um lindo, delicado e precioso cinto dourado. Ele me olhou e disse:

- Para combinar com aquele vestido que você usou no primeiro dia, na fila de inscrição.

Foi com essas palavras que ele revelou seu interesse por mim, muito antes de eu ter notado sua presença no congresso. Detalhes sutis e inesquecíveis nos passos de minha vida.

Eu não iria morar no Gabão e ele, tampouco, viveria no Brasil, mas foi com essa singela e delicada percepção que ele marcou sua presença em meu coração.

sábado, 2 de outubro de 2010

A PONTE


Final da década de 90, não me lembro muito bem em que ano. Naquele tempo, o “msn” da moda era o “icq”. Quem é da época, lembra. Eu vivia com ele aberto, pois mantinha contatos profissionais e com amigos por ali, deixando bilhetinhos, recados, horários de orientação acadêmica, etc. Fácil e rápido. E aberto a eventuais visitantes, como é o msn hoje.

Um dia, uma telinha se abriu com o recado de “feliz dia de santa eulalia”. Eu sabia que existia uma tal de santa eulalia, mas daí a saber o dia da santa era outra história. No mais puro espanhol, o bilhetinho piscava em minha tela. Agradeci e, não resistindo, perguntei de onde ele era. Barcelona! Entramos num papo e, para encurtar essa parte da história, passamos a conversar um pouquinho todos os dias. Eu chegava da universidade, às vezes tarde da noite, e lá estava o espanhol, me esperando na telinha, ressaltando o fato de que, levando em consideração o fuso horário, isso era para ele completamente esdrúxulo, correspondendo a altas horas da madrugada, em Espanha. Mas o papo era ótimo e nos acostumamos um ao outro. Conversa vai, conversa vem (literalmente!), passaram-se os dias e meses e nos falávamos quase diariamente.

Depois de algum tempo, ele pediu para me telefonar. Ficamos de papo, um pouquinho e voltamos a teclar. Foi quando ele me convidou para conhecer Barcelona. Bem, aí era papo demais. Eu não iria me despencar do Brasil, em pleno ano letivo, para conhecer Barcelona, me encontrar “sei lá com quem”. Não. A distância era a mesma, eu disse, e... ficou por isso mesmo. Passaram-se uns dias e estávamos, enfim, no final do mês de abril, quando, ele, muito gentilmente, me perguntou o que eu iria fazer no dia 14 de maio às 17.30. Pensei logo que, vendo a descrição do meu perfil, desejava entrar on line, delicadamente antes do horário normal de festejos, para me desejar feliz aniversário. Com a mesma delicadeza, disse-lhe que, muito provavelmente, estaria livre.

- Comprei a passagem, dá para me buscar no aeroporto?

Fiquei olhando para a tela, estarrecida, por algum tempo. Como assim? Não sabia o que responder. Da tela para o aeroporto, do virtual para a realidade. Meu coração deu um nó. O que iria responder?! O homem vinha mesmo, com passagem comprada e tudo! Ele notou o silêncio da tela e se adiantou:

- Se for inconveniente, me diga.

Eu nem sabia se era conveniente ou não. Estava sem “fala”! Ele adiantou-se e escreveu que tinha vontade de me conhecer, conhecer o Brasil, passando uns dez dias por aqui. Não tinha saída. Respondi que, sim, que teria prazer em ir buscá-lo.

Daquele dia em diante, as horas se atropelaram. Para completar, minha universidade entrou e greve no dia 10 de maio, o que significava que coincidentemente, eu estaria completamente livre para recebê-lo no dia 14 e seguintes!

Três dias antes de sua chegada, o correio me trouxe um pacote: um gato de pelúcia, vindo da Espanha, acompanhado de um gentil cartão, antecedendo sua chegada. Muito simpático. Confesso que aumentou minha expectativa.

Finalmente, dia 14. O dia passou lento, com diversos telefonemas de amigos, como sempre. Todos bem recebidos, mas você deve concordar que minha mente, meus olhos relojoeiros e meus sentidos, estavam no aeroporto desde a véspera, ou melhor, há uma semana, no mínimo.

O avião chegou absolutamente no horário. E o espanhol foi um dos primeiros a sair, com uma rosa não natural nas mãos, no formato de um delicado brochinho, me pedindo desculpas antecipadas por não ter podido trazer uma de verdade. Ali estava ele, afinal. Uma gracinha, mas... não “bateu a tal química” se é que você entende o que quero dizer. Os sentidos e o coração são donos de nossa vontade, não tem jeito. Talvez, infelizmente. Vi, de saída e pelo beijo de chegada que este espanhol jamais seria mais do que uma pequena e simpática aventura. Mas como dizer isso a um homem que se dispusera a atravessar um mar para me conhecer? Eu não podia. Então, fiz dos 10 dias seguintes, dias de aventura e de turismo. Namoramos, brindamos a esta cidade maravilhosa, curtimos a realidade de termos transformado as teclas em olhares, sorrisos, piadas, passeios, papos, brincadeiras e namoro. Foram dez dias tranqüilos e buliçosos ao mesmo tempo. E passaram tão depressa como quaisquer outros dias de férias.

Volta para Barcelona e, muito diplomaticamente, encetei um distanciamento que se fez aos poucos. Meus horários começaram a ficar um pouco complicados, etc. Mas a minha gentileza sempre esteve presente, em respeito a essa aventura louca de alguém que se atira em busca de outro continente como uma flecha sagitariana, pois era justamente o que ele era.

Um ano depois, o espanhol cismou de embicar para o Brasil, novamente, desta vez para fazer um curso esotérico perto de Belo Horizonte. Decididamente, ele se apaixonara por essa terra magnífica. O curso duraria um mês e queria vir ao Rio para me encontrar de novo. Eu estava envolvida com outros cursos, e respondi que, infelizmente, estaria no sul do Brasil. Tudo divinamente arquitetado pelos meandros da vida, graças aos deuses olímpicos, para meu alívio e sorte dele, como você verá logo a seguir.

Pois então... o homem se encontra, no curso, com uma paulista e acaba se envolvendo com ela. Num mail, me conta a história e eu, rapidamente, dou a maior força, incentivando-o a ir adiante. Para resumir a história, os dois acabaram ficando juntos. Na volta à Espanha, ele lamentava não poder vê-la mais e todo aquele drama que incomoda a duas pessoas que, finalmente, encontraram o seu grande parceiro e sua grande parceira, mas não sabem como resolver a distância. Isso durou uns dois ou três meses, no máximo, pois a paulista resolveu se despencar para a Espanha, até que ele pudesse se aposentar e vir morar no Brasil.

Hoje são casados e vivem perto de Belo Horizonte, realizando um grande sonho comum: são coordenadores de uma instituição não governamental que cuida de crianças que receberam maus tratos ou foram abandonadas e aguardam serem adotadas. Um espaço de amor e paz, de carinho e dedicação que a vida oferece a essas crianças, cuidadas por esses pais prestimosos que se encontraram para concretizarem um sonho em comum.

Com a maior freqüência que posso, envio contribuições financeiras, já que sei das dificuldades que essas instituições enfrentam com a falta ou atraso em liberação de verbas. Sei, de sobra, onde são aplicadas as minhas ajudas de custo, e, também, com que dedicação e carinho isto ocorre.

A vida já fez tantas coisas comigo que só posso ser mesmo muito grata a ela. Imagine, você, desta vez, por conta de uma tal de santa eulalia, acabei servindo de ponte para uma das coisas mais lindas que a nossa sociedade pode presenciar: o amor verdadeiro entre duas pessoas, regado pelo amor maior, espontâneo e incondicional, que este casal sente por crianças abandonadas.

De Barcelona para o Brasil, indiretamente, apenas servi de ponte, instigando meu querido amigo a se apaixonar por nosso país, fazê-lo voltar para encontrar a felicidade real, concretizada no verdadeiro encontro de corações e de vida.
Um brinde especial a isso: Tim-tim!

domingo, 27 de junho de 2010

O ANEL E A FLOR


É difícil encontrar alguém que possa dizer que viveu uma paixão avassaladora. Vivi. No México, em agosto de 1984. Estava indo a um congresso, apresentar um trabalho acadêmico, o que se deu logo no primeiro dia. Quem apresenta trabalhos em congressos sabe do privilégio que é livrar-se do encargo logo no primeiro dia. Significa que a tensão vai logo embora. Ademais, não vamos a uma cidade, principalmente fora do país, só para ficar o dia todo no congresso. Por mais cdf que seja uma pessoa, como eu era, não se faz isso. Passeia-se também. E, diga-se com ênfase: o México é pródigo para o devaneio turístico e cultural. Cidade lindíssima, sítios arqueológicos impecáveis, pirâmides, berço de civilizações antigas. Cultura por toda parte e um povo super interessante.

Logo no primeiro passeio, conheci Manuel. Era o guia turístico, encarregado de me buscar no hotel. Detesto excursões, mas entrei nessa. Também evito sair em grupo com o pessoal do congresso, dificilmente ligado em conhecer a cidade tal como ela é, preferindo os lugares comuns, as compras, as fotos. Eu queria a vida local, as pirâmides, um bom guia turístico. Consegui esta indicação no próprio hotel e uma camionete veio buscar os passageiros, que eram sete ao todo, com este guia turístico muito muito muito interessante. Tão logo reuniu o grupo, cuidou de nos acomodar de modo que eu ficasse no banco da frente, exatamente ao seu lado. Não tinha saída. Aliás, adorei a iniciativa. E não precisamos de muita apresentação. Parece que já tínhamos marcado aquele encontro. O dia foi maravilhoso, com passeios por Teotihuacan, Quetzacoatl, nomes que, com cuidado de lingüista, aprendi a pronunciar com perfeição, para impressioná-lo. A subida à Pirâmide do Sol foi indescritível, naquela tarde magnífica de verão mexicano. Em segundos, aprendi todas as lendas e histórias, pormenores citados e explicados por tão interessante personagem.

Havia um encantamento que não poderia terminar no final daquela tarde, mas eu ainda não sabia como encompridá-la. Gosto de ser seduzida, prefiro não tomar a iniciativa. Isto faz parte do encanto para mim. Mas ele mesmo se encarregou disso, levando cada turista a seu hotel, passando pela frente do meu por duas vezes. Tornou-se óbvio: eu teria uma boa esticada de dia. Todos entregues, ele fez questão de me mostrar “um México que os turistas não conhecem”. Fomos a um café. O café mexicano é simplesmente péssimo. É um chafé, de xícara inteira, insuportável, ridículo, imbebível. Mas eu estava achando tudo ótimo. Passeamos por sítios arqueológicos não muito conhecidos, fomos a recantos inusitados, conheci a cidade por dentro, em conversas gostosas, muito riso, insinuações deliciosas.

O congresso virou acessório, embora eu o frequentasse. No dia seguinte, ele iria levar turistas a um passeio de meio turno e estaríamos novamente juntos pelo resto do dia. Redobradas caminhadas por aquela maravilhosa cidade, que se fazia como pano de fundo para aquela figura esguia, masculina, única, que me conduzia como em sonho. Não foi direto à sedução explícita. Sentia que ele queria certificar-se de que, quando pedisse um beijo, não caberia um não. Eu fazia o jogo que a maioria das mulheres sabem fazer bem: um pouco provável não, um certo talvez, um possível sim. Juntava-se a sedução ao saboroso clima daquela cidade encantadora e cheia de inenarrável luz mística. O Museu Antropológico foi um dos museus mais fantásticos que já visitei, embora conheça vários outros europeus e americanos. Sem contar com a vantagem de um guia fenomenal, especialista contumaz das culturas asteca e maia. Eu estava vivendo ou levitando?

Mas uma semana passa muito depressa, ainda mais nessas condições. E eu não podia ficar mais. Estávamos em agosto e teria de estar no Rio, mais especificamente dando aula na minha universidade, dentro de dois dias. Naquela noite, fomos à Zona Rosa bairro de turistas e restaurantes noturnos, pequenos bares aconchegantes. Foi para lá que meu gentil cavalheiro me levou. Entramos numa espécie de bar noturno, a meia luz, para um papo mais íntimo. Um barzinho interessante, típico, pouco espaçoso, muito bem decorado, em cujas mesas sentavam-se casais isolados. Parecia um lugar para receber pares, não mais do que isso e... com uma característica especial, da qual logo me dei conta: de vez em quando, um dos acompanhantes se levantava, ia ao microfone e cantava para sua dama. Perguntei a ele o que era aquilo e ele me explicou que era exatamente o que eu estava vendo. Os casais iam ali, ficavam conversando e, volta e meia, o cavalheiro se levantava para cantar para sua amada. Era um costume e ele queria que eu conhecesse. Nada de bater palmas, nada parecido com caraoquê. Nada disso. O ambiente era de puro romantismo. Fiquei encantada. Agradeci-lhe a gentileza por ter me levado a um lugar tão interessante. Ele sorriu, levantou-se, dirigiu-se ao microfone, falou alguma coisas aos músicos e, então, cantou para mim: “El dia que me quieras...” que voz...

Acredite: eu estava ali. Neste e no dia seguinte, apenas interrompemos nossos encontros pelo trabalho dele e pelo encerramento do congresso, felizmente muito curto. Eu queria ficar ali para sempre. No fundo, sabia que era uma paixão, não tinha certeza se poderia se transformar em algo mais e, ademais, tinha um compromisso conjugal me esperando no meu país de origem que, embora praticamente falido, estava em lento processo de ser resolvido.

Não sabíamos o que dizer um ao outro, na despedida. Eu pensei que fosse morrer, pois tinha um nó na garganta tão apertado que mal podia respirar. Ele não falava nada, apenas me olhava ternamente, sentados, ambos, em seu carro, em frente ao meu hotel. Eu voltaria no dia seguinte. Ele apenas disse que esperava firmemente que a vida nos desse a chance de nos reencontrarmos. Tirou seu anel de formatura e o colocou em meu dedo anular, como um compromisso. Até hoje eu não sei por que desci do carro. Na verdade, não me lembro de como fiz isso.

Marcamos de nos encontrarmos no dia seguinte antes de minha partida, mas isso não aconteceu. Ele não pode livrar-se do trabalho e me telefonou, se despedindo. Acho, no fundo, que ele não quis enfrentar outra despedida.

A viagem do México ao Rio custou-me uma dor concreta e íntima. Tinha a impressão de que estava dividida em pedaços que jamais encontrariam seus lugares novamente.

Uma semana depois, recebi uma carta dizendo o quanto ele sentia a minha falta. Respondi, dizendo que queria vê-lo novamente e que guardava o anel comigo. Não obtive mais resposta. Alguma coisa que eu não sabia o que era, aturdia o meu coração. Nada combinava com os dias e com a carta que ele me mandara uma semana depois de minha partida. O tempo passava e, coincidentemente, houve aquele avassalador terremoto na Cidade do México. Escrevi perguntando como ele estava, tanto para o endereço do trabalho, como de sua residência. Nenhuma resposta.

Comecei a sentir-me profundamente triste. Os dias pareciam cinzentos, tinha sonhos estranhos, sentia-me deprimida. O peito apertava-se, não conseguia respirar direito. Não conseguia concentrar-me no trabalho, no cotidiano, nas coisas mais banais da vida. Manuel ocupava todo o meu pensamento, todo o meu coração, os meus passos, minhas preocupações. O que teria acontecido?

Um dia, em outubro, sentada no chão de minha sala, junto à janela, com um livro de estudo nas mãos, procurava me concentrar na leitura. Não conseguia. Elevei meus olhos para o céu, através da janela e fixei meu pensamento nele. Pedi-lhe fervorosamente por um sinal, por um aconchego, por uma notícia. Fiquei assim, por algum tempo, olhos perdidos no espaço. Aos poucos, no entanto, vi algo diferente vindo do céu, como uma folha, talvez, voando em minha direção. Seria de algum andar de cima? Eu moro no oitavo andar, não poderia ser da rua. Fixei a vista. Era uma pequena florzinha, caída de alguma árvore, talvez do morro ao lado, ou vinda pelo vento, não sei como. Voava em minha direção. Pensei que passaria por minha janela, rumo ao térreo. Mas não. Entrou por minha janela e pousou no chão, perto de mim. Fiquei olhando estarrecida. Segurei a delicadíssima flor, de cor rosada, em minhas mãos, desacreditada do que estava acontecendo. Mas era verdade. A florzinha intacta, linda, gentil, estava ali. Eu não podia supor o que significava, mas parecia estar respondendo ao meu apelo. O que seria? O que estaria acontecendo? Por que o silêncio de notícias e por que a florzinha em minhas mãos, diante de meu desesperado apelo?

Nunca tive a resposta. Guardei a flor junto com o anel e é como estão, até hoje.

Dali, a vida passou a ter pouco sentido. Até setembro, conseguira, ainda, me distrair com a defesa de tese de doutoramento, que se deu, no dia 24. Depois disso, tomou-me o tremendo vazio do coração até o evento da flor, que me prostrou definitivamente. Em novembro, fiquei gravemente doente. Não tinha nada fisicamente, todos os exames nada acusavam, mas eu perdia as forças, a vontade de viver. Não havia médico que desse conta de minha fraqueza. Desmaiei durante uma de minhas aulas na universidade e tive de ser levada para casa. Felizmente, era final de novembro e as aulas terminavam. Eu não agüentaria continuar indo à Universidade por muito tempo. Passei dias de cama. Para mim, o tempo passava e não passava. Tanto fazia. Não se sabia o que fazer comigo. Eu sabia. Queria morrer. Não agüentava mais tanto aperto em meu peito, nessa profunda dor silenciosamente guardada em meu coração.

Fui levada a um médico acupunturista milagroso, segundo diziam. Ele diagnosticou falta de energia vital. Tivemos uma longa conversa e ele me perguntou diretamente o que me fazia não querer reagir. Olhei para ele, sem resposta. Não podia, não havia nada a dizer. Ele me olhou e disse que lhe cabia me ajudar. Eu estava com 33 anos, segundo ele, uma vida pela frente. Fosse o que fosse, havia um motivo para eu estar aqui e não poderia entregar-me à inércia. Entendi o recado, precisava viver. Pedi ajuda, sem dizer a causa de minha angústia. Tive várias sessões de energização dos meus centros vitais. A custo, comecei a comer, novamente, aos poucos sopas leves até a normalização alimentar, o que levou alguns meses. Olhei para o meu futuro, precisava arrancar de mim uma razão para prosseguir. Sim, havia um próspero futuro profissional, sem dúvida. Enfiei-me em pesquisas, voltei à tona aos poucos. Fiz da vida acadêmica o centro de minhas atenções e a vida começou a colorir-se novamente.

Nunca mais soube de Manuel, do que aconteceu, porque não tive mais notícias. Ainda escrevi mais uma vez, busquei-o pela internet, muitos anos depois. Aliás, seu nome não consta, numa varredura pelo Google. Nada. A paixão passou, mas nunca a lembrança.

“El dia que me quieras...”. Eu quis. Nunca neguei viver tudo o que me foi oferecido.

Agradeço à vida por ter acontecido. Agradeço àquele médico por ter me resgatado. Agradeço a mim, por ter preservado com tanto carinho essa lembrança doce e forte em meu coração.

O anel e a flor continuam guardados, na mesma pequena caixinha, prova irrefutável de que uma verdadeira paixão povoou meu coração.

sábado, 24 de abril de 2010

O VOO


Voltei em um voo da VARIG de um congresso em Portugal, no ano, dia e hora do jogo final da Copa do Mundo, Brasil versus França, aquele jogo, jamais esquecido em nossa história. Um avião daquele tamanho com menos de um terço de passageiros. Talvez todos portugueses, quem sabe. Brasileiro, mesmo não fanático por futebol, geralmente não perde os jogos da Copa, principalmente a final. Eu faço parte da exceção, para confirmar a regra, e, desta vez, para viver o vôo mais emocionante da minha vida e uma aventura amorosa digna de nota.

Acomodados todos, aeronave nos céus, eu com assentos à vontade para refestelar-me, preparava-me para aproveitar a tranquilidade de um clássico vôo internacional.

Alcançadas as alturas, ouvimos a simpaticíssima e atraente voz do comandante:

- Caros passageiros, aqui fala o comandante X... bem-vindos...

E seguiram-se os indicativos de praxe aos quais já nos acostumamos como passageiros: altitude e demais informações. Logo após, no entanto, veio o convite:

- Como temos poucos passageiros, nesse dia tão especial para o Brasil, convido os interessados a visitarem a cabine e para isso, peçam orientação junto a nossos comissários de bordo.

Eu nunca tinha visto um painel, muito menos uma cabine e não tinha um programa especial para fazer, a não ser ler meu livro. Daria tempo de sobra para um belo e diferente recreio. Fui logo encaminhada à cabine. Ao entrar, a visão do painel foi imediatamente obscurecida pela imagem sedutora daquele homem. Interesse redobrado, perguntei sobre todos os detalhes, que foram imediatamente descritos, com a mesma atenção das perguntas. O co-piloto, uma gracinha de rapaz, estagiário de voo internacional há seis meses, mexia nos equipamentos, atento aos comandos do instrutor-comandante. Eu não sabia o que era mais sedutor: a voz, os olhos, o sorriso, os movimentos ou o saber-se sedutor com a simplicidade de um gentleman. Aproveitei o que pude e me aprontei para sair e deixar que outro visitante tomasse o meu lugar. Ele insistiu para que eu ficasse. Sorri. Vontade não faltou, mas, discreta, aproveitei a deixa para escapulir.

Voltei sorrindo comigo mesma, pela pequena aventura. O “Nome da Rosa” me esperava, largado displicentemente na poltrona. Voo longo, leitura longa. Tinha tido um bom começo, o dia parecia promissor. Deitei-me ao longo de três poltronas vazias, como quem se deita no conforto de uma rede, livro em punho, e comecei a ler o primeiro parágrafo. Confesso que custei a engrenar na leitura, pois aquela voz maravilhosa ainda ressoava em meus ouvidos. Passei uns segundos para perceber, no entanto, que a voz não ressoava, soava:

- Eu já expliquei a você que um avião como esse praticamente voa sozinho, mas o resto dos passageiros não sabe disso. Quando eles virem o comandante em pé aqui no corredor, pensarão que deixei a aeronave à deriva e podem entrar em pânico. Você não acha mais conveniente evitar tudo isso e voltar comigo para a cabine?

Levantei os olhos, embaraçada. Ele, ali, de pé, um metro e oitenta de sorriso branco e puro. Claro, ninguém iria querer colocar os passageiros em pânico, nem a aeronave em risco e segui as ordens do comandante, acompanhando-o obediente e compenetrada ao que seria minha deliciosa prisão, nas próximas 10 horas.

Foi um vôo de sonhos. De quebra, o co-piloto ouvia o jogo por um comunicador sei lá de que e, delicadamente, não dava ouvidos a nosso papo. Falamos de tudo, como acontece com quem não quer deixar a peteca cair. Aliás, seria difícil deixar uma peteca cair diante daquele homem. Cheguei a me perguntar se aquela voz precisava ter conteúdo. Não precisava. Mas tinha, o que tornava tudo bem mais interessante. A cabine, convenhamos, é desconfortável, assento atrás do co-piloto. Mas quem liga, numa hora dessas? Ele também não estava lá muito bem, pois tinha de se sentar de lado para conversar com sua prisioneira, que, pelo que tudo indicava, também lhe parecia bem interessante. Lanchamos ali mesmo, almoçamos conversando, bandejas ao colo. A cabine é estreita, pois não foi feita para passageiros. Não havia privacidade, mas havia encanto. Por enquanto, era suficiente. Escala em Recife. Preparei-me para sair, quando vi a aeronave fazer os primeiros ensaios de descida. Imediatamente ele me perguntou se eu queria perder a parte mais interessante da viagem: aterrissar ali, em pé, entre os assentos do piloto e do co-piloto, vendo o bico do avião na pista. Perguntei se podia. Podia. O soberano da aeronave é seu comandante, por que não? Meu coração saltou. Senti-me a primeira dama. Levantei-me, vi a pista lá embaixo naquele final da tarde, sol começando a cair no horizonte. Muda, emocionada, hipnotizada, enquanto o co-piloto se preparava para realizar o pouso, como tarefa de seu estágio, sob o olhar agudo de seu instrutor.

Aeronave embicada, ouvi o comandante perguntar ao co-piloto:

- Como vai indo o jogo?

O rapaz respondeu:

- Não sei, retirei o fone.

E continuou compenetrado levando o avião rumo à pista. O comandante olhou para ele e sorriu. Dei-me conta da competência, do cuidado, da agudeza de professor, da segurança, do treino, do cuidado com a avaliação constante de seu discípulo. Engrandecido a meus olhos, mais uma vez.

Pouso sereno, parabéns dados ao discípulo.

Sentamos na primeira classe, completamente vazia. Apenas ali, volta e meia, nossos corpos se tocavam, com suavidade propositada. Ali mesmo me senti completamente pronta para uma noite amorosa, sem preliminares, ou melhor, com todas as preliminares já meticulosamente consumadas, em céus internacionais. A cabeça não pensava nada, mas a mulher desejava que o vôo terminasse no Rio de Janeiro, mais especificamente, em minha casa. E eu ainda não sabia das emoções que ainda me aguardavam...

Hora da partida e eu já me via ali, entre as duas poltronas para ver o avião alçar seu vôo sem limites. Desta feita, o próprio comandante levou o aeronave aos céus, explicando que levantar é muito mais difícil do que descer e que o co-piloto só faria sua primeira tentativa depois de mais não sei quantas horas de estágio, dos seis meses que já possuía. E eu que pensava que descer era mais difícil...

A noite se fazia plena e pura. À esquerda, a lua em quarto crescente, linda! Voo estabilizado, o grande presente:

- Agora você vai ver uma das coisas mais maravilhosas, que fazem a vida de um piloto valer a pena.


Dito isso, levantou-se e me convidou a sentar-me em sua poltrona. Nossos corpos se tocaram como nunca, nessa troca na cabine não tão apertada, mas cúmplice. Sentei-me, o comandante ordenou ao co-piloto que todas as luzes da cabine se apagassem e me disse para ficar ali, sem pressa.

De repente, me esqueci de tudo. Colei-me ao vidro, a lua parecia estar ao meu lado. O céu intenso em suas estrelas, a vida explodindo dentro do meu corpo, da minha alma, do meu espírito. Dentro da cabine, silencio total, respeitoso, cúmplice. A luz interior vívida, pura, completa. Deus e eu. E nada. E tudo. Naquele momento, ele não era o homem, era o anjo que me levara ao encontro com o divino. Fiquei ali, muito tempo, eu acho, perdida, achada, inteira, perplexa, maravilhada, surpresa, extasiada, feliz.

Foi a melhor e mais linda cantada que recebi em minha vida. Aquele homem queria o encanto. E o teria, se quisesse.

Custei a voltar a mim, a me levantar devagar, a trocar de lugar novamente. Corpos se tocando, desta vez, em êxtase. Ficamos em silêncio, os três, por mais algum tempo. Eu estava muito emocionada e eles sabiam. Toquei seu ombro por trás, em agradecimento. Lembro-me do toque de sua mão sobre a minha, seu rosto voltando-se para trás, sorrindo suavemente e percebendo a necessidade do silêncio contemplativo.

A conversa foi voltando aos poucos, suave a princípio, alegre, gentil, bem humorada depois. O tempo passou transformando horas em segundos e eu já estava em pé, vendo a ponte Rio-Niterói, os pontos magníficos de nossa cidade amada. Mas apenas eu desceria no Rio... ele seria transportado para um vôo doméstico, como passageiro, depois de tão árdua viagem, para pousar em São Paulo, destino traçado em sua escala. Que pena. Mas ali mesmo pediu o meu cartão, dizendo que me telefonaria tão logo chegasse ao Rio, na semana seguinte. Acompanhou-me até a saída da aeronave, eu, primeira passageira a sair, com minha mala de mão já cuidadosamente a minha espera, trazida por um dos comissários. Mínimos detalhes.

Nos despedimos ali, sem um beijo, sem um toque senão o do olhar.

Uma semana depois, ao chegar em casa, sua voz alegre me esperava na secretária eletrônica. Estava no Rio e esperava ansiosamente, frisou, pelo meu retorno à ligação, pois só poderia ficar durante um dia.
Único deslize, mas fundamental, em toda a história: esqueceu-se de deixar o número para que eu desse retorno...

E homem tem dessas coisas: acha que, se não retornamos, foi porque já esquecemos ou não demos tanta importância. Pode ter sido isso, pode ter sido a fluidez do momento, podem ter sido outras aventuras. Não ligou mais.

Ficou-me a sensação do sonho jamais esquecido, e, vez por outra, vivido e resgatado em momentos preciosos pelo meu coração. Um terno e gracioso brinde à vida, à delicadeza e ao prazer do corpo e do espírito.