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sexta-feira, 14 de junho de 2013

NEM TE CONTO


Foi com essa expressão bem brasileira que cheguei ao Hotel que me aguardava, em Campinas, para um curso de final de semana.

“Nem te conto”, por si só, soa a cumplicidade. Para um estrangeiro, provavelmente, é de pirar a cabeça, como tantas outras que temos em nossa lista de expressões idiomáticas, como o “pois sim”, que significa “não” e o “pois não” que significa “sim”(e é um dos “sins” mais simpáticos, delicados e gentis que nossa língua conhece...).

Pois então. Enumero esse “nem te conto” na minha lista dos favoritos. E acho que não é apenas pela cumplicidade que evoca, mas porque, dependendo de como o colocamos no contexto, aguça a integridade da atenção do interlocutor que, imediatamente, o que mais quer é que a gente conte, não apenas pelo contar em si, mas tim-tim por tim-tim, como uma novela do cotidiano. “Nem te conto” atrai de uma maneira singela e cheia de graça:

- Professora, esperávamos pela senhora em torno das 14 horas!

- Ah... nem te conto...

- Ficamos sem teto outra vez!

- Adivinhão, sorri. E contei os detalhes agudamente esperados pelo meu já conhecido recepcionista.

- Logo desta vez que a senhora resolveu vir de véspera...

- Pois é, respondi pronta para pegar a chave de meu apto de fundos, mais silencioso e tranquilo, desse aconchegante hotel, ao qual já me habituei a vir, sempre às pressas, para um curso de final de semana.

Só que desta vez, planejava vir com mais calma, desfrutando, desde sexta, toda a tarde e noite e não chegando aos sábados, direto para o curso, com volta ao domingo, em minutos contados para chegar ao aeroporto. O plano, na verdade, envolvia poder ver um grande e queridíssimo amigo, que não vejo há muito. Mas existe alguma coisa além do que podemos conceber e a semana passou, sem que eu pudesse contata-lo. Jamais chego de surpresa. Faz parte indiscutível da minha natureza perguntar sobre a disponibilidade de quem vai me receber. Mas a semana passou e já na quinta à noite me dei conta de que não conseguira o contato. Não faz mal, fica para outra vez. Chego ao hotel, descanso mais dessa semana atribulada, escrevo meu conto de sábado, já arquitetado em minha cabeça e deixo as alegrias do encontro para a próxima vez. O curso é longo, vou voltar várias vezes. Tem tempo.

O que eu não podia imaginar, mas talvez uma premoniçãozinha tivesse dado conta do recado, é que eu não iria poder vê-lo, mesmo que combinado, e a expectativa só nos deixaria, a ambos, em suspenso durante todo o dia.

E o “nem te conto” que saiu despretensioso na portaria do hotel, emendou-se nesse dedilhado frenético de quem conta um conto, mas, jura, “sem aumentar um ponto”. Assim, o outro  conto, antes arquitetato, fica para outra vez.

Saí de casa no final da manhã. Para resumir a ópera, cheguei ao hotel quase à noite. Para um voo que leva uns 50 minutos...

Não, não será apenas mais um texto de protesto contra os maus serviços de nossos aeroportos. Desta vez, foi o mau tempo mesmo. O aeroporto de Campinas e os de outras cidades do país, com frequência, fecham nesta época do ano por causa de neblina. Isso é causa de caos, mas não há o que fazer a não ser esperar. E quando tudo volta a funcionar, até se obedecer a ordem dos voos em fila, pode-se levar o dia todo para se chegar ao destino.

Pelo andar da carruagem, vir de ônibus teria me tomado menos tempo, pois é uma viagem de 5 horas apenas. Mas... não se tem essa vista escandalosamente linda, de quem sai do Rio pelo Aeroporto Santos Dummont para qualquer lugar desse imenso país.  Felizmente, não é permitido embutir a paisagem no preço da passagem. Se fosse, com certeza, seria exorbitante e eu não poderia pagar nunquinha. Felizmente, ela está ali, despudorada e linda, fulgurante e faceira, bastando que você pegue o lado direito do avião e que o dia azul te ajude a usufruir desse encantamento. Para uma carioca de carteirinha como eu, passo a semana torcendo para o dia nascer bonito.

E foi ao olhar essa paisagem tão intensamente maravilhosa que meu coração cheio de luz, ao mesmo tempo que vigorosamente cidadão... chorou.

Até agora não sei se chorou pelo prazer de contemplar toda essa escandalosa beleza transparente e pura ou pela dor de saber das tristezas de sobrevivência que esta “paisagem sem lupa” esconde em seus enveredados caminhos; se  pela indignação contida dos protestos de melhores condições de vida de nosso povo ou pela inefável alegria de ser brasileira (apesar de tudo); se pela sensação de impotência diante das injustiças que nossos olhos e notícias da mídia nos contam ou  pela paz que essa cidade iluminada evoca. Talvez por tudo ao mesmo tempo, nesse céu agora sem nuvens, depois de horas de espera por um tempo bom.

E por ser ardorosamente uma pessoa que espera, esperar que se espelhe, na história de meu país, um brilhante futuro, depois desse nublado presente.

Quanto ao meu amigo, que sempre lê os meus contos... ao saber que estive em sua terra... ai... nem te conto a bronca que vou levar...

sábado, 11 de maio de 2013

O RELÓGIO



Sou do tempo em que existiam os" médicos de família". Desses que cuidavam de seus clientes desde sempre, conheciam as mazelas de cada um e atendiam ao telefone com voz atenciosa, doce e suave. Na verdade, o meu médico de família não era bem da minha família, mas da família do meu ex. 

O doutor morava no mesmo prédio e nos atendia a qualquer hora, com dedicação, amizade e gentileza. Sem falar na competência. Fosse a hora que fosse, ele estava pronto para receitar aquelas pilulinhas salvadoras, as gotas amarguinhas que salvavam qualquer estômago do desastre iminente ou fazer as indicações certeiras para as dores mais esquisitas que assolam nosso corpo, nas horas mais desavisadas.

De quebra, era um bom papo e, muitas vezes, ficávamos lá, conversando, sem vermos a hora passar. Com frequência, ele tinha jovens ao seu redor e falávamos da vida, da espiritualidade, da existência.

Como seu filho era amigo de infância do meu ex, fazia questão de não cobrar por sua pronta dedicação em cada atendimento. Não sabíamos como compensá-lo e ele fazia questão absoluta de nos tratar como filhos. Até que, um dia, sem querer ele soltou essa:

- Relógios bons são os suiços. Nunca tive um Longines... esse era o tipo de relógio que valeria a pena andar no pulso. Mas é difícil encontrar relógios analógicos por aqui... ainda mais um Longines...

Já estávamos na época do relógio de quartzo, é claro, mas a palavra "Longines" e "analógico"saíam de sua boca com voz doce e aveludada.

Viramos a cidade, meu ex e eu, em busca de um" Longines analógico" novo, evidentemente, que fizesse honras a tal pedido. Não achamos. Nem no Rio, nem em São Paulo. Queríamos fazer uma surpresa. Seria ótimo ver aqueles olhos azuis, já tão vividos, brilharem de forma diferente diante do novo brinquedo. Mas nada... até que, em 1977, fomos a Londres, já esquecidos do caso.

Geralmente, em viagem, usávamos roupas bem batidas. Calças jeans prontas para o descarte, tênis velhinhos, camisetas... 

E era assim que estávamos quando um Longines, numa vitrine chiquérrima nos pegou desprevenidos. Claro, nos dispusemos a concretizar, ali mesmo, o sonho de nosso amigo e benfeitor. 

Logo à entrada nos deparamos com um porteiro impecavelmente vestido, com luvas brancas, que nos abriu as portas como quem abre as portas para a família real. Por dentro, a loja imensa ostentava um tapete de veludo vermelho que levava a uma escadaria pomposíssima e linda. Meu espírito feminino rapidamente se deu conta de que não estávamos vestidos de acordo com tanta ostentação. Mas o que mais me chamou a atenção foi que isso não parecia fazer a mínima diferença para os atendentes. Nos cumprimentavam como se fôssemos um par real.

Perguntamos pela sessão dos Longines. Era no segundo andar. Subir por aquela escadaria de filme, por si só, foi uma aventura. No topo da escada, um jovem de mais ou menos trinta anos nos atendeu. Explicamos nossa demanda e fomos por ele encaminhados a uma vitrine brilhantemente limpa, onde pude descortinar uma linha de Longines dos mais variados tipos. 

O jovem atendente, diante de nossas explicações, desdobrou-se em cuidados e passamos ali, perto de uma hora, olhando um e outro, duvidosos deste por causa dos ponteiros, daquele por causa dos números ou por conta da caixa que era muito delicada ou rústica demais para o pretenso dono.  Depois de muito tempo e muita conversa, finalmente, o atendente mostrou-nos uma prenda que seria impossível deixar de comprar. Era bem caro, mas esse não era o problema, diante de tantos anos de dedicação  e amizade desinteressada que se escondia por trás do pretendente ao presente. E tínhamos, felizmente, condições de pagar. 

O problema, no entanto, empacou no tipo de pulseira. Aquela, com certeza, não combinava com o que imaginávamos no pulso de nosso amigo. O rapaz nos disse que, se quiséssemos, poderia providenciar a pulseira desejada, mas... só na parte da tarde. Se pudéssemos passar por lá...

Sim, claro, poderíamos. Combinamos um horário e nos despedimos, garantindo voltar. 

Saímos encantados com o atendimento e felizes com a descoberta do presente tão almejado. Eu já previa a expressão de alegria e espanto de nosso amigo que nos esperava na volta. Lembro-me de que cheguei a comentar, também, do luxo da loja e de como eles pouco se importaram com nossa maneira de vestir. Provavelmente, imaginariam que não poderíamos comprar aquele presente e, mesmo assim, nos atenderam como príncipes.

Na hora estipulada, voltamos. Ao subirmos a escada, no entanto, notei um certo ar de espanto no atendente, como se não nos esperasse ali. Mas foi apenas por um breve momento. Teria sido apenas uma impressão?

O atendente pediu-nos um momento, retirou o relógio da vitrine, puxou uma outra vitrine, retirou uma pulseira que combinava com a descrição que tínhamos feito e ali mesmo providenciou o encaixe. 

Foi então que entendi tudo! Ele poderia ter feito a troca de manhã mesmo, no momento em que estávamos escolhendo o relógio, pois era isso que ele estava fazendo naquela hora! Por que não fez, então? A dedução veio rápida e simples: diante de nossa aparência e com  tantas exigências de detalhes, provavelmente, concluiu que não queríamos comprar relógio algum e que estivéramos, o tempo todo, procurando um pretexto apenas para entrar naquela loja tão bonita e vermos como era por dentro.

Olhei-o com uma cara de marota, de quem tinha entendido a situação. Não resisti:

- Você pensou que não iríamos voltar?

Mas o inglês não se rendeu.

- De jeito nenhum! Peço-lhe muitas desculpas! É que do momento em que saíram, até agora, estive muito ocupado. 

Uma desculpa muito esfarrapada de quem havia afirmado, de manhã, não ter a pulseira na loja à disposição, mas que poderia mandar buscá-la para a parte da tarde. Apenas sorri de volta.

Ao acabarmos de ser atendidos, elogiei a forma tão especial com que fomos contemplados e lhe pedi um cartão.

Ele me estendeu um finíssimo cartão com um logo dourado ostentando, nem mais nem menos, um nome com o sobrenome da loja! Era o filho!

Podem imaginar a minha surpresa! O filho do dono de uma das mais elegantes lojas de jóias e relógios de Londres, na época, atendente do setor de relógios Longines. E mais: ele próprio trocando pulseiras e atendendo a um casal que, segundo ele, estivera ali de manhã só para tomar-lhe o tempo...

Saí dali entendendo as raízes da tradição inglesa e o que me pareceu  significar a expressão "passar de pai para filho", no mais profundo do seu termo: com os justos valores de saber o quanto vale um trabalho sem que a fortuna lhe caia nas mãos sem esforço algum. E fazer direito!

Muito depois descobri que a loja em que entramos era a mesma onde a família real se servia... Imagine! um Longines que poderia ter sido comprado pela rainha! 

É... mas esse veio para o Rio e, por muito tempo, enfeitou um pulso que ficou muito feliz da vida de ostentá-lo. 

Para mim, é claro, além do presente, valeu (e, talvez muito mais...) a aventura!

sábado, 22 de dezembro de 2012

A EMPADA




Ontem, passando pela rua, a caminho de casa, havia uma moça vendendo empadas na esquina.

Com esse calor... hum... passei direto.

Mas a imagem fez-me lembrar de algo muito engraçado que me aconteceu quando eu tinha dezesseis anos.

Um casal que gostava de mim como filha me levou e ao meu namorado para passar uns dias em sua casa em Guarapari. Fomos de ônibus, então, os cinco: o casal, eu, meu namorado e a empregada deles.

Pode imaginar como eram as paradas dos ônibus naquela época. Não havia os restaurantes e toda a infraestrutura que há hoje. Pois bem, numa dessas paradas de uma viagem de dez horas, o que havia à disposição era um bar metido a restaurante bem comportado. Pedimos sanduiches, igualmente comportados e um refrigerante, mas a empregada pediu uma empada “daquelas” e uma coca-cola.

Nada contra o refrigerante, mas aquela empada... comentei com meu namorado:

- Isso não vai dar certo...

Mas, como eu não tinha nada a ver com o estômago da tal senhora, fiquei na minha. Não deu outra. Meia hora depois, em plena estrada, a senhora começou a passar mal.

Caí na besteira de comentar:

- Foi a empada.

A senhora retrucou imediatamente:

- Não! Foi a coca-cola...

Hoje, repensando o assunto, vejo quantas pessoas fazem com seus problemas exatamente a mesma coisa...


(Obs.: foto de clickgratis.com.br )

domingo, 6 de maio de 2012

LOGO ALI



Dizem que "quem corre por gosto não cansa". Cansa. E muito! Talvez até canse mais porque a gente se dedica muito. E, como se dedica, não se dá conta de que precisa parar, até que o alarme toca.

O meu tem tocado desde o começo do ano incessantemente e, então, na primeira brechinha, fugi. Tinha de ser pouco, por enquanto, para um lugar “logo ali”, mas que eu gostasse muito.

Buenos Aires! Minha bússola apontou para lá quase sem que eu percebesse, para onde já fui quatro vezes, sempre em busca de cursos e pouco passeio. Lá conheci meu atual mestre de Reiki, Arjava Sensei, em 2004 e voltei, em 2005, por sua causa. A terceira foi para um curso abortado, que larguei pela metade, com outro mestre de Reiki que prefiro não nomear. Mas voltei no ano passado, outra vez, por Arjava Sensei. Curso tão bom que não deu nem para respirar um pouquinho da cidade. Fiquei devendo.

Então, meu “logo ali” foi para Buenos Aires, essa cidade encantadora para meus olhos e meus sentidos. O ar da cidade, a música, os espaços... a luz... o tango! Ah... o tango... que aguça o meu amor pela dança. Desta vez ainda não deu, mas volto para umas aulas, ah, volto.

Escondi-me lá, por cinco dias, caminhando pelo jardim japonês,



pelo Rosedal (Jardim das Rosas), florido em qualquer época do ano,





pelo Café Tortoni, tradicionalíssimo na cidade,


pelos museus,



pelas livrarias,




pela cidade.














Foi só um “logo ali”. Mas volto, querida cidade, para reverte-te em teus delicados meandros, a gentileza portenha tão contestada por alguns, mas ratificada por mim a cada contato, a cada cavalheirice encontrada em cada passo. Os homens, sabe, ainda estão acostumados a dar passagem às mulheres (!), dão-lhe o lugar, sorriem gentis... as pessoas, não só as que te atendem por turismo, mas os portenhos comuns mesmo, muitas vezes dão bons dias, em vez do habitual buenos dias (ou “buenas”), por pura gentileza de anfitrionato e não porque estejam nas lojas, que, aliás, como você sabe, frequento pouco.

Sentar-se sem pressa em um café, bem à moda europeia, para estender o olhar e esquecer-se da vida, sem que o garçom venha apressado lhe cobrar a mesa...

Caminhar pelas avenidas espaçosas, com seus monumentos portentosos, a cidade limpíssima, bem cuidada, com um metrô (o “Subte”) super competente e viável mesmo na hora do rush... 

Espaços livres para o sonho, o descanso, a contemplação.

Ah, Buenos Aires!

Si... te quiero, te quiero mucho.   Gracias!

sábado, 3 de dezembro de 2011

O QUEIJO


Passei anos de minha vida esperando ir a Paris. Na verdade, acho que começou no dia em que me dei conta de que Paris existia. Sem saber explicar racionalmente por que, algo indescritível fala francês dentro de mim desde que me conheço por gente.

Em 1975 realizei meu sonho pela primeira vez. Digo primeira vez, pois o sonho se renova a cada vez que ponho os pés lá. A última foi em 2001 e, se demorar muito mais, quem sabe eu tenha um treco.

Mas voltemos a 1975. Quatro dias apenas, mas quatro dias vividos com quase volúpia. Respirava cada detalhe por dentro e por fora, meus olhos encharcados de luz e sonho.


A cidade, a todo momento, registrava o descompassado ritmo do meu coração. Paris, afinal, fala por si mesma. Não há como descrevê-la. Não há como dizer qual lugar é mais intenso do que outro. Tenho pensado nela por esses dias... quem sabe, hora de fazer uma loucura... uma saudável loucura... vou começar a tramar melhor isso.

Mas hoje vim para casa com um queijo tipo Camemberg nas mãos. Me deu saudades do gosto e, por extensão, da lembrança de queijos e vinhos... por associação... Torre Eiffel. A memória é fantástica e nos enreda por cheiros ou gostos já vividos. É como um raio de luz que abre um espaço em recordações escondidas. Mas desta vez, voltei para casa inquieta e só consegui me sentir acomodada quando meus dedos começaram a digitar essa lembrança.

Torre Eiffel, depois de uma manhã inteira de muita caminhada. Um percurso de muitos quilômetros de encantamento e as pernas pediam repouso. Uma fila imensa aguardava os visitantes. Entrei nela e inventei de esquecer que minhas pernas existiam. Por um bom tempo, meu corpo resumiu-se aos meus olhos que filmavam, centímetro por centímetro, aquela harmoniosa ferragem engendrada em forma de Torre.



Quantas e quantas vezes eu a tinha visto apenas corporificada pelo papel de fotos e postais. Mas estava ali, a minha frente, mais um precioso tesouro para os olhos do meu coração.

Subir ao seu topo significaria para mim conquistar a cidade, fincar minha bandeira no cume e dizer: “Paris, no teu topo, aqui estou eu!” E faria isso. Poucos passos me separavam dessa conquista.

Foi quando percebi que o avançado da hora exigia cuidados alimentares. Claro, não abri mão de almoçar lá em cima. A subida deu-se harmoniosa só no que tocava ao bondinho, que ganhava as alturas suave e firme.


Meu coração é que subia aos trancos, em trilhos internos desencontrados, talvez um pouco enferrujados por tantos anos de espera. Meus olhos precisavam de lubrificantes, pois negavam-se a piscar. Até hoje, sinto as sensações físicas esquisitas do momento, contrastando com minha alma em festa.

Chegamos ao segundo, dos três andares que compõem a estrutura. A vista maravilhosa era, para mim, o ponto central da festa, mas meu ex-marido me puxava impaciente para o restaurante. Entramos. Meu delicadíssimo estômago pediu o prato mais simples que existia. Meu ex, ao contrário, boa boca, pediu o que encontrou de mais sofisticado. Muito justo: em terra de franceses, seja francês.

Colesterol à parte, adoro queijo! Ao final da refeição, portanto, me animei a participar com ele do ritual do prato de queijos. O garçon, como todo francês que se preza, trouxe, vaidoso, o que havia de melhor em Paris. Cuidadosa, pedi o queijo mais simples que encontrei. Ele, ao contrário, para honrar a festa, solicitou que o garçon apontasse o que seria recomendado. Não me lembro que queijo era, mas a aparência era das mais “sofisticadas”, para não dizer, por puro respeito, das “mais esquisitas”. Mas foi esse mesmo que ele escolheu e eu tratei de fixar minha atenção apenas para a simplicidade atraente do meu prato.

O queijo era tão magnífico que me esqueci do que estava à volta. Por isso levei algum tempo para me dar conta do que acontecia ao meu companheiro de jornada. Quando o fiz, notei que ele estava congelado, como se fosse uma estátua. Apenas olhava para mim, sem mexer um músculo. Sua expressão era, no mínimo, muito engraçada. Notei que seu prato havia sido tocado, mas eu não podia imaginar o que ele sentia. Estava adorando o que tinha em sua boca ou detestando? Ele não se mexia.

- O que foi?

Ele, mudo, olhos fitos em mim, sem mexer um músculo.

- Bom demais?

Ele quieto.

- Ruim demais?

Ele acenou muito ligeiramente com a cabeça.

- Engole de uma vez!

Ele quieto, olhando para mim.

- Não pode ser tão ruim assim.

Ele acenava que sim.

- Vai ao banheiro e joga fora.

Ele não se movia. Olhei-o, incrédula:

- Não é possível.

Disse isso e, discretamente, avancei com meu garfo e peguei um tiquinho de nada do queijo dele, pois não queria me arriscar. Experimentei. Imediatamente senti o mesmo congelamento que percebera ao fitar meu companheiro. Não era ruim. Era tão insuportavelmente intragável que me senti a última das francesas. Os músculos de minha boca reagiram imediatamente, a possibilidade de engolir não existia. Minha garganta trancou. A agudeza do sabor agredia o meu íntimo. O impulso era o de descarta-lo imediatamente. Não consegui engolir, mas, no meu caso, não me apertei. Me levantei e fui ao toalete, joguei o tal tiquinho fora e lavei bem minha boca. E o pior: uma crise de riso me invadia. Explodia em mim, a cada segundo que me lembrava da expressão inusitada do semblante de meu comparsa. Queria sentir pena, mas não conseguia!

Mas precisava voltar. Afinal, eu tinha um queijo maravilhoso em meu prato para honrar a minha prudente covardia na escolha, uma escolha talvez considerada desastrosa para um gosto francês mais apurado. Para mim, no entanto, era o queijo mais simples e, ao mesmo tempo, o mais delicioso que jamais provara.

Ao voltar, para minha surpresa, não havia mais queijo nenhum no prato de meu ex.

- Você comeu?

- Não.


Ele conseguira colocar o queijo num pedaço de papel que tinha no bolso para descarta-lo quando saíssemos. É óbvio que sentiu uma vergonha inusitada de deixa-lo no prato, depois de ter sido tão elogiado pelo garçon, por sua escolha.

A parte ruim é que dividi meu maravilhoso queijo com ele. Mas, tudo bem... ninguém conseguiria sair com aquele gosto horrível na boca. Só um francês, talvez, desses que comem daqueles queijos desde pequenininho...

Depois dessa experiência, a tarde voltou-se para o puro encantamento de fazer com que minha alma alçasse vôo rumo ao terceiro andar e vislumbrasse a bela, magnífica, indescritível Paris.


Os dias seguintes também me brindaram à altura de todo o sonho esperado por tantos anos. Lembro-me, vez ou outra, a troco de tudo ou de nada, de tantos recantos, aventuras e deslumbramentos.

Mas toda vez que compro um queijo francês não posso deixar de me lembrar do restaurante da Torre.


Preciso voltar lá. Mas, com certeza, na hora do prato de queijos, meu pedido se repetirá certo, simples e fagueiro, sem cair na conversa de nenhum glamoroso garçon!...

domingo, 20 de novembro de 2011

FERNANDO DE NORONHA (2)


Como prometi, na semana passada, continuação do meu encantamento por Fernando de Noronha.

Entre os passeios que fiz, destaco o de barco. Este, fiz em excursão, pois seria a única forma de dar uma volta pela ilha pelo mar, com direito e um mergulhinho para ver peixes por ali. O barco tinha dois andares e o dono deixou bem claro que, em cima, só caberiam seis pessoas de cada vez e que poderíamos revezar. Éramos cerca de quinze pessoas e a vista, no segundo andar, era das melhores. Esperei que as pessoas resolvessem quem gostaria de ir, mas notei que todas, sem exceção, se esparramaram pelo piso de baixo, sem nenhuma intenção de subir. Conversavam, entre elas, animadamente, sobre suas aventuras de férias, sobre assuntos gerais e até sobre capítulos de novela, em alto e bom som. Notei que, na verdade, não estavam dando muita atenção à maravilhosa vista que se estendia por todos os lados. Não entendi nadinha o que eles estavam fazendo ali, mas não me fiz de rogada: me encarapitei no segundo piso e fiquei soberana da vista o tempo todo, desfrutando sozinha alguns dos recantos marítimos mais bonitos de nosso país.




Estava assim, embevecida com o lugar, quando o dono do barco, um marinheiro simpático, veio me fazer companhia. Brinquei com ele sobre minha soberania local e, ele, sorridente, disse que eu era uma exceção.


Geralmente, os turistas só pegavam o barco por causa do mergulho e para verem se tinham sorte de filmarem alguns golfinhos. Mas como ele notara que eu estava mesmo interessada pelo passeio, resolvera subir para me dar “umas lições sobre a ilha”.


Assim, de mão beijada, fui orientada a buscar os melhores recantos, onde ver o melhor por-do-sol e também a buscar um nativo para o tal passeio pelo mar, que já contei na semana passada.

Aproveitei e perguntei se valia a pena pegar a excursão para ver a entrada dos golfinhos na chamada enseada dos golfinhos, cuja propaganda, aliás, muito badalada, eu vira na portaria da pensão. A excursão saía às 4 horas da manhã e se dirigia para a enseada dos golfinhos, a 70 metros de altura sobre o mar, para esperar o cardume que deveria chegar às 5 horas. Não era permitido ir sem excursão, pois é zona protegida pelo IBAMA e cada dia conta com um número determinado de visitantes. A empresa responsável nos pegava nas pensões, já com o aval do IBAMA estabelecido para o dia e, depois, nos trazia de volta, às 7 da manhã. Os turistas tinham permissão para permanecerem no local das 5 às 6 horas. Após esse horário, o mirante era fechado para dar espaço aos pesquisadores. O preço era bem salgado e eu queria estar certa de que valeria a pena. Perguntei-lhe, portanto, se a 70 metros acima do mar, no mirante, poderíamos ter uma boa vista dos animais.

Nosso ilustre marinheiro, em sua simplicidade, apenas respondeu:

- Valer vale, se os golfinhos resolverem aparecer. Os pesquisadores dizem que eles entram entre cinco e seis da manhã, mas... a senhora sabe... os golfinhos não usam relógio nem para chegar, nem para ir embora...

Resolvi trocar, ali mesmo, meus planos de excursão ao mirante dos golfinhos pelo passeio pelo mar com um nativo, segundo as prescrições desse simpático marinheiro e não me arrependi, é claro... até porque uma grande e maravilhosa surpresa me esperava naquela tarde mesmo. Continuamos a conversar e perguntei se ele achava que este passeio nos brindaria com a vista de golfinhos. Ele disse que seria pouco provável, segundo os biólogos, pois já eram quase duas horas da tarde e eles dizem que os golfinhos voltavam para o mar alto lá pelas 13 horas... mas ele disse isso com um sorriso matreiro, logo acompanhado por mim.

E não deu outra... assim que o barco deu meia volta, meu novo amigo me alertou:

- Prepare sua máquina, vamos ter um belo espetáculo! Apontou para o horizonte. Eu, naturalmente, nada vi. Mas os olhos acostumados do pescador me sorriram e ele disse;

- Lá vem os golfinhos! Estão saindo agora.


Em seguida, alertou os demais turistas para que ficassem quietos. Seria a melhor maneira de manter os animais mais próximos do barco por mais tempo. O que se seguiu foi puro encantamento. Como ninguém subiu, continuei sozinha com o dono do barco que sussurrando em meu ouvido e apontando os lugares mais exatos com sua experiência, me permitiu antever onde os animais iriam aparecer e, portanto, tirar as melhores fotos. Cheguei a ter tempo de filmá-los, além das fotos e também de abandonar os apetrechos fotográficos para apenas admirar suas acrobacias. De brinde, como estava acima da linha direta do mar, pude ver, mais um pouco afastadas do barco, movimentos de tartarugas, aqui e ali, sempre sob a supervisão de tão gentil cavalheiro. Que presente!!!



Depois da visita de tão brilhantes e graciosas personagens marinhas, o barco parou e pudemos nos fartar com mergulhos com snorkel em pleno mar. Que coisa magnífica! Um mundo de encantamento e sedução. Eu já tinha visto, no dia anterior, um barco parado no mar com turistas nadando em volta. Mal sabia eu que seria uma dessas privilegiadas no dia seguinte.


Voltar desses passeios era garantir deliciosas visões em sonhos noturnos e o despertar visualizando peixes soltos no mar, como se fossem em um aquário gigantesco no interior da mente. Que maravilha! Depois de voltar ao Rio, acordei várias vezes com essa sensação pelo menos por uns 10 dias.




O sol tórrido era a única preocupação, mesmo para mim que adora o calor. Em dezembro é simplesmente escaldante e você não consegue transitar pela ilha sem muita proteção solar e tendo o corpo coberto por uma canga. Foi o que fiz, todo o tempo. Mesmo assim, voltei bem queimada, aliás, com uma cor belíssima.


Sair desse paraíso só mesmo com promessa de volta. E voltarei, estou bem certa, pois as sensações de descanso e paz nos marcam para sempre. Quem foi, sabe disso.

Ali, acompanhada de meu cicerone do mar, vi um belíssimo por-de-sol, de um recanto pouco conhecido pelos turistas, uma pedra a qual você chega, se embrenhando com cuidado pelas ruínas do forte. É preciso conhecer o caminho para chegar lá e ficar colada ao paredão para ver no ângulo certo.


Finalmente, na véspera de voltar, recebi meu último presente da natureza: estávamos em lua cheia. Eu queria ver a lua de uma das praias, já que a ilha não é iluminada a não ser em alguns pontos bem específicos, como o Bar do Cachorro, por exemplo. O pescador nativo prontificou-se a me levar e combinamos estar a postos logo depois da “escola”.

Assim que saí do centro cultural, lá estava ele a minha espera. Tomamos uma das vans e descemos no centro da cidade. De lá, fomos a pé. Achei estranho sermos os únicos. Pensei que seria óbvio que os visitantes quisessem ver a lua em praias, nos espaços magníficos da ilha, junto ao som natural do mar. Mas não: ou vão para o Bar do Cachorro ou talvez para a cama. O fato é que me vi completamente sozinha, na praia mais próxima do centro e, portanto, a mais accessível àquela hora da noite. Perguntei ao meu guia se as pessoas costumavam escolher outra praia. Ele apenas respondeu que não era hábito os turistas fazerem esse tipo de pedido. Ele mesmo não se lembrava de ter levado ninguém para esse tipo de passeio. Mas que eu ficasse tranqüila, a ilha era segura e ele estava comigo. Confesso que fiquei estarrecida. Como as pessoas, numa ilha paradisíaca como aquela, iriam preferir o Bar do Cachorro a curtir uma lua quase cheia enorme, refletida sobre a água, numa praia imensa, ao som do mar, sem luzes da cidade? Pois é... ninguém.

O guia postou-se no início da praia e me disse que eu poderia ficar quanto tempo quisesse. Ele estaria ali, a minha espera. Eu poderia caminhar sem susto pela areia, curtindo a lua como bem entendesse. Assim fiz e não me lembro de outro lugar ou outro momento em minha vida em que tivesse podido ficar entre o mar e a montanha, com o som das ondas calmas em meus ouvidos e a companhia daquela lua enorme, cheia de luz e de paz... esta foi a minha despedida dessa ilha colocada no meio do nada, nesse mundão dos meus deuses... uma ilha que fala por si mesma, por seu povo, por seu porte, por seu encantamento e aconchego.

Parti da ilha no dia seguinte. Na saída, ainda uma última delicadeza: ao acertar as contas com a dona da pensão, perguntei pela taxa extra por ter usado a cozinha do filho, incluindo o gás utilizado. A prestativa senhora apenas respondeu:

- Imagine, foi um prazer para nós. Eu nem sei como iria lhe cobrar isso! Que bobagem!

Não adiantou insistir. Notei que seria uma ofensa a sua hospitalidade. Agradeci, prometendo voltar. E, claro, como boa moça, não vou poder morrer sem cumprir a promessa...