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sábado, 2 de novembro de 2013

TODO MUNDO LÊ (Paris 4)



Uma das coisas que mais me impressionaram, nas primeiras vezes que fui à Europa, foi observar a quantidade de gente que lê. Nos metrôs, nas praças, nos jardins, independente de idade, sexo, local ou ocasião, independente de ser dia de semana, sábado ou domingo.

Aliás, notei isso, também, em Buenos Aires. Já trilhei uma de suas ruas do centro, em pleno domingo, e contei mais de oito livrarias abertas... e... todas cheias, fossem lojas de livros novos ou usados. Incrível mesmo...

Mas voltemos às minhas últimas férias em Paris. 

Esperando encontrar toda a tecnologia de primeiro mundo respirando pelas ruas, fui daqui imaginando ver só tablets, lap tops ou coisas afins. Mas não... encontrei livros mesmo, aos montes, nas mãos de crianças, jovens e adultos, por toda parte.

Claro que não paguei mico de ficar fotografando todo mundo, mas uma delas, não pude deixar passar.

Você pode ser tudo, mesmo pedinte... um livro não pode deixar de estar à mão...



Neste caso especial, juro que contive minha curiosidade. O que será que ele estava lendo? Fui para casa imaginando mil coisas... poderia ser até... Sartre... quem sabe?...

Tiradas todas as considerações cabíveis sobre crises sociais, políticas ou econômicas, fosse o que fosse, mesmo assim, para mim, valeu como um colírio para os olhos.

sábado, 19 de maio de 2012

É BOM



Outro dia li um texto que citava Nelson Mandela: Não há nada como regressar para um lugar que está igual para descobrir o quanto a gente mudou.

Fiquei perambulando com essas palavras na cabeça, quando estava passeando pelo Jardim Japonês nessa breve viagem de descanso a Buenos Aires.

Eu estivera ali, pela primeira vez, em finalzinho de 2004, atrás de um mestre de Reiki que conhecera através de leitura de livros - Frank Arjava Petter, Arjava Sensei - que, aliás, foi o que escolhi para me orientar em minha atual vida profissional, depois de conhecer vários outros mestres.

Passeava pelo jardim e a frase passeava comigo. Ali estava, agora, no início de 2012, depois de pouco mais de 7 anos. O Jardim era o mesmo: bem tratado, silencioso, aconchegante. Tudo igual. Um belíssimo igual.

Senti-me sorrindo em meu passeio, parando aqui e ali, pelas mesmas veredas, tirando fotos parecidas... mas... em ângulos diferentes. O olhar é diferente. A forma de respirar o ar de translucidez e aconchego é diferente. A luz que brilha de fora para dentro, entra diferente.

Quantas pessoas dizem que já aprenderam tudo que tinham de aprender na vida, já viram tudo que tinham de ver e que já sabem de tudo que precisavam saber...

Ali, me senti gostosamente aprendiz. Sessenta e um anos e... aprendiz. Mudei muito nesses sete anos. E espero mudar mais.

Sentei-me na ponte, imitando o mesma posição de há sete anos atrás. Uma “mesma gentileza” fez com que houvesse “outro anjo” para tirar a “mesma foto”.



Mas eu sabia que aquele “invólucro físico” havia mudado muito por dentro. Penso que para melhor.

Por isso, a foto continua revelando um  sorriso "igual", só que, para mim, ao mesmo tempo, secreto e revelador.

Não há nada como regressar para um lugar que está igual para descobrir o quanto a gente mudou.

domingo, 6 de maio de 2012

LOGO ALI



Dizem que "quem corre por gosto não cansa". Cansa. E muito! Talvez até canse mais porque a gente se dedica muito. E, como se dedica, não se dá conta de que precisa parar, até que o alarme toca.

O meu tem tocado desde o começo do ano incessantemente e, então, na primeira brechinha, fugi. Tinha de ser pouco, por enquanto, para um lugar “logo ali”, mas que eu gostasse muito.

Buenos Aires! Minha bússola apontou para lá quase sem que eu percebesse, para onde já fui quatro vezes, sempre em busca de cursos e pouco passeio. Lá conheci meu atual mestre de Reiki, Arjava Sensei, em 2004 e voltei, em 2005, por sua causa. A terceira foi para um curso abortado, que larguei pela metade, com outro mestre de Reiki que prefiro não nomear. Mas voltei no ano passado, outra vez, por Arjava Sensei. Curso tão bom que não deu nem para respirar um pouquinho da cidade. Fiquei devendo.

Então, meu “logo ali” foi para Buenos Aires, essa cidade encantadora para meus olhos e meus sentidos. O ar da cidade, a música, os espaços... a luz... o tango! Ah... o tango... que aguça o meu amor pela dança. Desta vez ainda não deu, mas volto para umas aulas, ah, volto.

Escondi-me lá, por cinco dias, caminhando pelo jardim japonês,



pelo Rosedal (Jardim das Rosas), florido em qualquer época do ano,





pelo Café Tortoni, tradicionalíssimo na cidade,


pelos museus,



pelas livrarias,




pela cidade.














Foi só um “logo ali”. Mas volto, querida cidade, para reverte-te em teus delicados meandros, a gentileza portenha tão contestada por alguns, mas ratificada por mim a cada contato, a cada cavalheirice encontrada em cada passo. Os homens, sabe, ainda estão acostumados a dar passagem às mulheres (!), dão-lhe o lugar, sorriem gentis... as pessoas, não só as que te atendem por turismo, mas os portenhos comuns mesmo, muitas vezes dão bons dias, em vez do habitual buenos dias (ou “buenas”), por pura gentileza de anfitrionato e não porque estejam nas lojas, que, aliás, como você sabe, frequento pouco.

Sentar-se sem pressa em um café, bem à moda europeia, para estender o olhar e esquecer-se da vida, sem que o garçom venha apressado lhe cobrar a mesa...

Caminhar pelas avenidas espaçosas, com seus monumentos portentosos, a cidade limpíssima, bem cuidada, com um metrô (o “Subte”) super competente e viável mesmo na hora do rush... 

Espaços livres para o sonho, o descanso, a contemplação.

Ah, Buenos Aires!

Si... te quiero, te quiero mucho.   Gracias!

domingo, 18 de setembro de 2011

A LAREIRA


Voltar desses cursos de Reiki é como voltar de um país longínquo, de outra cultura, de outras linguagens. Não, não é “como voltar de um país longínquo”... é mesmo “voltar de um país longínquo”, em todos os sentidos: encontrar-me com meus mestres e com seus ensinamentos traz um monte de duplos sentidos...

Os ensinamentos são baseados em uma cultura oriental, com mitos e costumes que desconhecemos. A forma de encarar processos de cura são diferentes dos nossos. A filosofia é outra. A língua de aprendizado é outra. Um banho de cultura para a alma e para o coração, para a mente e para as raízes da intuição, da percepção, do convívio com o humano, com nosso interior.

Voltar de três semanas como essas, uma em Buenos Aires e duas no Brasil é como voltar de um país distante. Três semanas que valeram por três meses. Uma semana com Arjava Sensei e duas com ele e Tadao Senseis, pela primeira vez no Brasil. Muitas línguas juntas, em tão pouco tempo. Ainda meio anestesiada, impossível transformar a experiência em conto.

É como se o mundo “paralelo” se transformasse em realidade e o cotidiano é que se transformasse em “mundo paralelo”. Difícil pescar um “peixe-conto”. Era o que eu pensava, numa das gélidas noites de Buenos Aires, sentada ao lado da lareira do hotel, com o mais recente livro de Arjava Sensei nas mãos.

A gentilíssima gerente do hotel passou por mim e comentou:

- Não acha que você está muito perto da lareira? Vai assar!

Resposta sorridente dessa carioca acostumada aos 40 graus:

- A intenção é essa!

Um frio do cão! De resto, Buenos Aires e Reiki são duas expressões que se casam para mim. Lá conheci meu atual mestre de Reiki, em 2004. Para lá voltei mais três vezes para estudar Reiki novamente e, claro, para desfrutar daquele paraíso de cidade, que também agasalha um casal de afilhados muito queridos.

Desta vez, no entanto, amedrontada pelo frio, fiz apenas um breve, digo, brevíssimo passeio às margens do Tigre aproveitando o horário mais quente do dia da chegada. Pelo resto da estadia guardei todo o calor interno possível apenas para ir da pousada ao curso e vice-versa.

Os dias estavam lindíssimos, mas traiçoeiros: era só colocar os pés na rua que o vento do Tigre tomava conta dos meus ossos, da minha alma. Para mim, acostumada com os trinta graus do Rio, nem pensar. Volto no verão.

Mas Buenos Aires, para mim, é puro encantamento e, só de pisar lá, me lembro de histórias sem fim. Lareira é lugar para o romance, o sonho, a recordação. E eu estava assim, ao lado da lareira, “assando”, lendo o livro e, volta e meia, descansando meu olhar nas chamas mágicas, divagando sobre as lembranças gentis que esta cidade me trazia.

Os que insistem em dizer que os argentinos são grosseiros e antipáticos precisam me mostrar onde e como. Você se senta num café, se acomoda e se esquecem de você. Uma vez, fiquei em um, na Rigoleta - um dos bairros impossíveis de não se visitar. Tinha andado tanto que as cadeiras me atraíram como ímãs. Entrar para um breve café para descansar as pernas era tudo o que eu queria. O garçom serviu o tal cafezinho como se estivesse servindo uma refeição e fiquei ali, esquecida do tempo, saboreando um café antecedido da tradicional água gelada e um biscoitinho delicioso de brinde. Faz parte da cultura você tomar um cafezinho de quarenta minutos ou mais quase pelo mesmo preço de nosso café em pé. O mesmo que nos cafés europeus...

As chamas do fogo buscavam por outras recordações...

Uma vez, comprei um casaco de couro num modelito diferenciado. Quando voltei para casa onde estava hospedada, minha afilhada me olhou admirada:

- Que lindo! Onde você achou?

- Não achei. A vendedora era tão simpática que desceu as prateleiras para me servir. Quando eu já estava até sem graça e lhe pedi mil desculpas por não ter achado o que queria e ter dado tanto trabalho, ela sorriu, pensou um pouco e me disse:

- "Tenho uma coisa lá em cima que acho que vai lhe agradar." Pedi-lhe que não trouxesse, pois se eu não gostasse, teria dado mais esse trabalho. Mas ela disse que esta era a sua função e ela a realizava com o maior prazer. Daí desceu com esta pérola. Olhei em torno, envergonhada pelos dez ou mais casacos que tinha experimentado, mas ela se adiantou:

- É uma questão de minutos colocar tudo no lugar, não se preocupe.


Essa foi a antipatia argentina que conheci. Não fosse outra língua, pensaria que estava no Rio...

Em outra vez, tomei um taxi para me levar do centro da cidade ao local do curso, San Isidro, bem distante. Naquela época não havia GPS e o taxista deu tratos às bolas para descobrir o local do curso. Não tivéssemos acertado o preço antes, acharia que era embromação. Mas fomos conversando como dois bons cariocas, ops... argentino e carioca, povos irmãos, inimigos só no futebol, como me dizia o sorridente taxista.

Volta e meia, no entanto, ele se remexia no banco. Acabei por perguntar-lhe se estava sentindo alguma dor. Disse que sim, sofria muito de dor nas costas. Chegamos cedo ao local e como era rua sem movimento, o encontro acabou com uma belíssima sessão de Reiki de 20 minutos, em suas costas, no próprio carro. Ele saiu dali já com um cartãozinho de uma colega reikiana argentina. Espero que tenha ficado cliente, pois saiu dali renovado.

Antipatia argentina? Pode ser, não duvido, mas, se for, sempre topei com as exceções... para confirmar a regra.

Meus olhos titubeavam entre as chamas que me traziam recordações e o livro aberto em minhas mãos. Sentia-me aquecida e confortável. Preguiça boa.

Notei que dois hóspedes que jantavam numa mesa um pouco mais distante (quem agüenta fritar ao lado da lareira?), de vez em quando, paravam de conversar e me olhavam. Falavam um alemão um pouco esquisito para meus ouvidos de linguista. Será que era alemão mesmo?

Continuei a leitura até que eles levantaram. Distraidamente, levantei os meus olhos. Um deles me olhou e me perguntou, num espanhol estranho, de onde eu era.

- Do Brasil, respondi.

Ambos sorriram e ele me respondeu num português com um sotaque muito meu conhecido:

- Somos de Blumenau!

Imediatamente identifiquei o alemão esquisito como o dialeto falado pela colônia alemã que vive no Brasil, língua materna de grande parte da população daquela região: Brasildeutsch. Sorri.

Um deles se aproximou disposto e tirar um dedo de prosa. Queria saber o que tanto eu lia, com tantas palavras japonesas. Sorri de novo. Ele se referia aos kanjis e outros símbolos de Reiki, abundantes no livro que eu tinha nas mãos. Falei um pouco sobre Reiki, e emendamos num papo sobre minhas aventuras por Blumenau. Que saudades! Ele me contou que estava trabalhando numa empresa alemã, e rodava o mundo. No momento, morava naquele hotel em Buenos Aires e, provavelmente, ficaria por mais um tempo. Conseguira o emprego graças ao alemão, sua língua materna.

Soube das novidades de Blumenau. O Hotel Garden fechou (nossa!!!), mas o Gloria Hauss continua fazendo as mesmas tortas deliciosas. Falamos de tudo e de nada, enquanto a noite seguia rápida em suas horas.

Lareira é um lugar para o romance, o sonho, a recordação... e ficamos assim, dois brasileiros, aconchegados pelo fogo da lareira, em uma pousada perdida na região do Tigre, neste final de inverno, nos falando sobre coisas do Brasil, da vida, de nós mesmos...

Voltar ao Brasil e emendar no curso daqui apenas prolongou o encantamento. Volto, aos poucos, das viagens marcadas pelas chamas do fogo da lareira e do meu coração.

Outro dia conto mais.