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sábado, 22 de novembro de 2014

KANSHA SHITE

Às vezes, a vida se inquieta a tal ponto que não há como suportar.

Então, por um viés de porta, se abre, como em um sonho, um oásis... 

Nunca por acaso, mas um encontro de almas, marcado com a presteza e o gracioso cuidado de um anjo: Marita.

Isto é Reiki.




Obs.: Recordação de dias especiais, em casa de Marita, nossa anfitriã sem deslizes, para o curso de Reiki, Com Arjava Sensei. Tigre - Argentina.

Kansha shite = Seja grato.

sexta-feira, 7 de março de 2014

QUANDO TEM DE SER...



Aposentada em 2003, finalmente poderia me aprofundar em minha nova profissão como terapeuta complementar, com especialidade em Reiki.

Fizera o meu primeiro "mestrado" em Reiki, em 1998, mas como ainda trabalhava na Universidade, tinha muito pouco tempo para dedicar-me a esses estudos.

A partir de 2003, no entanto, estava disposta a fazer com o Reiki tudo que fizera com Linguística: estudar e me dedicar profundamente. Comecei fazendo vários cursos e iluminando as prateleiras de minha sala de estudos com os mais diversos livros sobre o assunto.

Foi quando me deparei com os livros de Frank Arjava Petter, mestre alemão. Apaixonei-me imediatamente pelo estilo, seriedade e conhecimento com que tratava o assunto, como ocorre quando um alemão resolve se dedicar a qualquer tipo de estudo. 

Pela minha mente passou, com a leveza do desejo sincero, mas sem maiores expectativas, a vontade de conhecê-lo e fazer cursos com ele. Mas era só um sonho, que se acalenta uma vez, num minutinho perdido da vida. Ele dava cursos na Europa, em alemão e em inglês. Alemão, nem pensar, língua belíssima, mas da qual não consigo ler nem capa de revista. E não tenho inglês suficiente para fazer um curso em profundidade contando só com essa língua. Que pena. Foi apenas o desejo de um segundo. 

Mas dizem que, quando a gente diz ou pensa algo e existe uma força interior intensa, se calha de um anjo do céu dizer "amém", a coisa acontece. Eu ouvia isso, quando pequena, lá no colégio das freiras, ameaçando-nos em nossos desejos e pensamentos. 

Eu nunca acreditei e, por isso mesmo, apesar dos "avisos ameaçadores", não me lembro de ter ficado vigiando pensamento algum. 

Mas... se esse anjo existe, quando pensei no Petter como meu mestre, o tal anjo disse "amém". 

Conto como foi:

Em maio de 2004, recebi um mail e até hoje fico me perguntando de quem, pois não sei como caiu na minha caixa postal. Era uma chamada para um curso de "mestrado" de  Reiki, com Arjava Petter, em Buenos Aires, 22 vagas. Detalhe: tradução consecutiva para espanhol. Que maravilha, um presente dos deuses! Eu estaria exposta às duas línguas e como a tradução era consecutiva, poderia ouvir diretamente em inglês e "conferir" com o espanhol. Melhor do que isso, só se fosse verdade.

Escrevi imediatamente para a organizadora do curso. Infelizmente, vagas preenchidas. Perguntei se eu poderia ficar na fila. Sim, poderia, mas as chances eram mínimas. Havia muitos com o mesmo intuito. 

Quis ficar mesmo assim. Estávamos em maio e o curso era em novembro. Afinal, o mail caíra na minha caixa postal... não era para se desperdiçar. Por via das dúvidas, disse a ela que, se ele voltasse  a Buenos Aires, em outra ocasião, independente de mês ou ano, eu já estaria me inscrevendo. E passei a escrever-lhe todos os domingos, só para que não se esquecesse de meu interesse.

Num desses domingos, após ler os mails, desliguei o computador, vesti minha roupa de praia para ir à minha "missa carioca" e, quando já estava de saída, me lembrei:

- Chi... não escrevi para a Marita... não faz mal, escrevo na volta.

Saí, tranquei a porta, mas um pensamento rebelde me cutucava: 

- Vai lá, escreve logo, depois você sai.

Ai... estou perdendo o meu sol... mas acabei cedendo, abri a porta, liguei novamente o computador e escrevi o mesmo mail de sempre:

- Olá, Marita, como está? Estou escrevendo para saber se já consegui andar mais um pouquinho na fila de espera.

Por coincidência, ela estava on line e me respondeu imediatamente:

- Tem de ser você. Pode se inscrever.

Parecia um chat. Respondi imediatamente:

- Por quê? Chegou a minha vez?

Achei muito estranho, pois, no domingo anterior, havia muitos na minha frente. Mas veio, igualmente, uma resposta pronta:

- Eu não discuto com evidências. Acaba de haver uma desistência e, na linha seguinte da minha caixa postal, entrou o seu mail. A vaga é sua.

Fiquei olhando para a tela estatelada. As esperanças eram tão poucas que eu nem estava preparada financeiramente. Mas não poderia perder a oportunidade que caía nas minhas mãos! 

- Você pode esperar por 24 horas para eu conseguir a passagem e te responder?

- Sim.

Saí dali aos trancos, peguei meus direitos de milhas aéreas e me mandei para a VARIG, uma agência que existia bem perto de casa. Esperei ansiosa com minha senha nas mãos.

- Quero trocar minhas milhas por uma passagem de ida e volta a Buenos Aires, em novembro. 

O atendente verificou o sistema. Para os portadores de milhas, eles ainda tinham vaga para um dia antes de começar o curso e volta dois dias depois.

- Quero, respondi ao mesmo tempo aflita e aliviada.

Voltei para casa voando:

- Marita, consegui a  passagem, mas ainda não tenho o dinheiro para pagar o curso. Quanto tempo você me dá?

Estávamos em agosto e ela estava recebendo meus mails dominicais desde maio.

- Depois disso tudo, pode me pagar quando chegar aqui. Em dólares. 

Eu nem acreditei. Ela nem me conhecia!!! Eu não podia imaginar que esse era o primeiro momento de uma grande amizade que marcava seu ponto ali.

De agosto a novembro, tinha de arranjar dinheiro suficiente para fazer o curso, pagar estadia e me alimentar.

Tudo bem. Deixei chegar o final de outubro, vendi o carro e fui.

Encontrei um grande mestre, depois de tantos outros pelos quais eu já havia passado, num número de cursos sem conta que já fizera até ali. 

Arjava Sensei é meu mestre de Reiki, até hoje. De lá para cá, voltei várias vezes a Buenos Aires por causa dele. Consegui, no entanto, convencê-lo a vir ao Brasil e arranjei um organizador de cursos. Ele veio de 2006 a 2011. 

Assim, de 2004 até 2011, vi-o todos os anos, bebendo de sua sabedoria. 

Em 2010, vi-o duas vezes: uma vez na Colômbia - desta vez, não precisei vender outro carro - e outra no Brasil.

Na Colômbia, em maio, tive o privilégio de fazer o curso com ele e Tadao Sensei, seu mestre (!).

Foi também o ano em que me tornei Shihan, pelas mãos de Arjava Sensei, aqui no Brasil, em setembro. 

Os encontros só foram interrompidos em 2011, porque ele não veio à América do Sul e em 2012, porque sua vinda ao Brasil foi suspensa na última hora e não deu tempo de alcançá-lo em Buenos Aires. Mas... deste ano, não passo. Sei que irá a Buenos Aires. Se não vier ao Brasil, já estou com minha bússola voltada para lá.

Se, naquele domingo, eu não tivesse voltado para escrever o mail, provavelmente não teria feito o curso... e minha vida, talvez, tivesse sido completamente diferente de lá para cá!

Quando tem de ser...


Obs.: Em Reiki, Shihan é o termo que designa o instrutor com licença de dar cursos para formação completa de terapeutas. Neste caso, representantes do Instituto de Jikiden Reiki, do Japão.
  

sábado, 15 de dezembro de 2012

TEM CADA UMA...




Adoro trabalhar com Reiki, tendo os florais como complemento. Nesses 14 anos de trabalho com terapia holística, tenho visto resultados que só os deuses acreditam... e eu também, é claro.

O cliente conta seus problemas, conversamos um pouco, muitas vezes tirando poeira e tralhas de baús do passado, que enferrujam as juntas do corpo e apertam o coração. Cuidamos com Reiki, com florais e vamos acompanhando. As conversas se estendem e as tralhas vão saindo. Frequentemente aparecem coisas do arco da velha, já enterradas no passado... desenterramos, cuidamos e, muitas delas vão embora, trazendo saúde de volta!...

É muito bom ver o sorriso dos clientes, aliviados de suas dores físicas e emocionais. É um trabalho, em dupla, muito bom.

Estou atendendo um novo cliente. Uma gracinha de pessoa, com mais de setenta anos. Não importa, aqui, saber dos motivos, mas os há, e muitos, alguns de passado distante, cujas emoções podem, perfeitamente, ser cuidadas com a ajuda de florais.

Nesta semana, no entanto, recebi o telefonema da mulher:

- (nome do marido) está confirmando a consulta de hoje. Mas eu quero que você só faça Reiki. Os florais estão fazendo mal a ele. Anda muito agitado, não dorme direito. Depois dos setenta anos, a pessoa está aqui para ser feliz, não para ficar desencavando problemas. O que ele precisa é ficar calminho e bem relaxado. Parou de tomar os florais. O que queremos é que ele vá aí, faça Reiki e relaxe.

A primeira coisa que me veio à cabeça é que uma pessoa não precisa esperar os setenta anos para ser feliz. Isso já vem embutido no kit do momento da concepção. Mas não iria filosofar com uma “generala” desse calibre. É evidente que não iria discutir, muito menos pelo telefone.

- Vamos ver o que ele diz quando chegar aqui, ok? Veremos o que está acontecendo.

- O que está acontecendo é que ele está agitado, atribulado e em vez de ter o resultado esperado, está pior. Não quero que esses florais tragam à tona problemas do  passado. Eu já recebi Reiki e Reiki não deixa assim. Ele tem de estar tranquilo e feliz agora.

- Ok, vamos esperar a consulta para ver o que ele diz, assim poderemos resolver do melhor jeito possível. A consulta é daqui a pouco, ele poderá me contar o que está acontecendo.

A “generala” com certeza, viu que não iria mandar na minha consulta. Poderia mandar no marido, mas com a terapeuta não tinha chance. O máximo que poderia acontecer seria eu perder o cliente. Sentiria muito com isso, pois sabia que ele estava precisando de muita ajuda. Do outro lado da linha, percebi uma voz indignada despedindo-se:

- Estou aqui para ajuda-lo, não para vê-lo piorar.

- Então, somos duas, querida, pois esta é a característica do meu trabalho. Não faço outra coisa.

- Tá bom, mas ele vai dizer que não quer.

- Ok, aguardo a consulta.

Preparei-me para levar um “bolo” e não vê-lo nunca mais. Mas ele foi!

- Parei de tomar os florais. Estou muito agitado, não estou dormindo bem, foi uma semana ruim. Estou aqui para conversar com você sobre isso. Você acha que poderiam ser os florais?

- Acho muito difícil, pois o que você relata não combina com as características do uso de florais, mas se você não quer tomar florais, podemos parar, o que você acha?

- Eu fui à internet e investiguei tudo sobre os florais que você me passou e vi que são justamente os que tenho de tomar. Também procurei sobre reações adversas e não encontrei.

- Seria difícil você encontrar, pois não há notícia de os Florais de Bach causarem todo esse atropelo que sua esposa me descreveu.

- Minha esposa? Ela falou com você?

- Sim, telefonou-me para confirmar a consulta e para dizer que eu devia suspender os seus florais, pois estavam fazendo mal a você.

- Mas eu não pedi para ela fazer isso. Pedi apenas que confirmasse a consulta, como combinamos.

Menos mal, pensei com meus deuses protetores... a tirania não era direta. Às vezes, é até pior ser uma tirania oculta, mas, pelo menos, ele não estava deliberadamente se escondendo atrás dos comandos conjugais. Notei até uma certa indignação por parte dele o que, para mim, foi um excelente sinal. Acrescentei:

- Pois é. Embora eu tenha ouvido com toda a atenção o que ela disse, quero deixar bem claro que meu tratamento se pauta no que o cliente me diz. Até porque você é bem grandinho. Fiz alusão à frase que mais me chamou a atenção: ela sustentou que, depois dos setenta, a pessoa tem de fazer coisas que só tragam relaxamento e felicidade. Mas você sabe que, se não mexermos no “baú” você não tem como se sentir mais leve. É como querer andar com firmeza num chão instável...

Ele me responde com essa prenda:

- Não há idade para buscar a felicidade, não precisa ser depois dos setenta. A gente tem o direito de buscar a felicidade sempre! Até porque vir aqui e poder falar do que guardamos no fundo do baú... só de falar parece que já alivia um pouco... e tratamento é assim mesmo...

O comentário foi brilhante, mostrando a saúde embutida naquela maneira de pensar. Vi que poderia ir mais fundo:

- Bem, então vamos ao trabalho. O que aconteceu de diferente no seu cotidiano, durante a semana?

Para resumir, ele me contou que sua mãe (de mais de noventa anos) tinha sido internada com batimentos cardíacos beirando os cento e quarenta. Felizmente, estava em casa e melhor. De brinde, sua filha única e idolatrada, que não mora no Rio, filha do primeiro casamento, tinha sido hospitalizada sem diagnóstico por dois dias, até descobrirem um vírus. O marido que estava viajando teve de voltar às pressas para cuidar da esposa. Desde o dia anterior, felizmente, ela estava melhor e tinha voltado para casa.

- Mais alguma coisa ou você acha que, para uma semana, já foi de bom tamanho? Imagino o quanto isso deve ter abalado você!

- Puxa... foi uma semana angustiante. Não caberia mais nada aqui!

Peguei pesado:

- Então “toda essa agitação e falta de sono foram por causa dos florais”...

Ele abaixou a cabeça e sorriu:

- Você tem razão. Nem me dei conta...


Fizemos a consulta com aplicação de Reiki e ele saiu aliviado, levando seu vidrinho com florais. Não sei o que aconteceu em casa, mas a esposa me mandou um torpedo com os seguintes dizeres:


- A sessão foi ótima, ele está bem mais tranquilo. Bom Natal para você.

Respondi no mesmo tom, delicadamente.

Me aparece cada uma...

domingo, 18 de setembro de 2011

A LAREIRA


Voltar desses cursos de Reiki é como voltar de um país longínquo, de outra cultura, de outras linguagens. Não, não é “como voltar de um país longínquo”... é mesmo “voltar de um país longínquo”, em todos os sentidos: encontrar-me com meus mestres e com seus ensinamentos traz um monte de duplos sentidos...

Os ensinamentos são baseados em uma cultura oriental, com mitos e costumes que desconhecemos. A forma de encarar processos de cura são diferentes dos nossos. A filosofia é outra. A língua de aprendizado é outra. Um banho de cultura para a alma e para o coração, para a mente e para as raízes da intuição, da percepção, do convívio com o humano, com nosso interior.

Voltar de três semanas como essas, uma em Buenos Aires e duas no Brasil é como voltar de um país distante. Três semanas que valeram por três meses. Uma semana com Arjava Sensei e duas com ele e Tadao Senseis, pela primeira vez no Brasil. Muitas línguas juntas, em tão pouco tempo. Ainda meio anestesiada, impossível transformar a experiência em conto.

É como se o mundo “paralelo” se transformasse em realidade e o cotidiano é que se transformasse em “mundo paralelo”. Difícil pescar um “peixe-conto”. Era o que eu pensava, numa das gélidas noites de Buenos Aires, sentada ao lado da lareira do hotel, com o mais recente livro de Arjava Sensei nas mãos.

A gentilíssima gerente do hotel passou por mim e comentou:

- Não acha que você está muito perto da lareira? Vai assar!

Resposta sorridente dessa carioca acostumada aos 40 graus:

- A intenção é essa!

Um frio do cão! De resto, Buenos Aires e Reiki são duas expressões que se casam para mim. Lá conheci meu atual mestre de Reiki, em 2004. Para lá voltei mais três vezes para estudar Reiki novamente e, claro, para desfrutar daquele paraíso de cidade, que também agasalha um casal de afilhados muito queridos.

Desta vez, no entanto, amedrontada pelo frio, fiz apenas um breve, digo, brevíssimo passeio às margens do Tigre aproveitando o horário mais quente do dia da chegada. Pelo resto da estadia guardei todo o calor interno possível apenas para ir da pousada ao curso e vice-versa.

Os dias estavam lindíssimos, mas traiçoeiros: era só colocar os pés na rua que o vento do Tigre tomava conta dos meus ossos, da minha alma. Para mim, acostumada com os trinta graus do Rio, nem pensar. Volto no verão.

Mas Buenos Aires, para mim, é puro encantamento e, só de pisar lá, me lembro de histórias sem fim. Lareira é lugar para o romance, o sonho, a recordação. E eu estava assim, ao lado da lareira, “assando”, lendo o livro e, volta e meia, descansando meu olhar nas chamas mágicas, divagando sobre as lembranças gentis que esta cidade me trazia.

Os que insistem em dizer que os argentinos são grosseiros e antipáticos precisam me mostrar onde e como. Você se senta num café, se acomoda e se esquecem de você. Uma vez, fiquei em um, na Rigoleta - um dos bairros impossíveis de não se visitar. Tinha andado tanto que as cadeiras me atraíram como ímãs. Entrar para um breve café para descansar as pernas era tudo o que eu queria. O garçom serviu o tal cafezinho como se estivesse servindo uma refeição e fiquei ali, esquecida do tempo, saboreando um café antecedido da tradicional água gelada e um biscoitinho delicioso de brinde. Faz parte da cultura você tomar um cafezinho de quarenta minutos ou mais quase pelo mesmo preço de nosso café em pé. O mesmo que nos cafés europeus...

As chamas do fogo buscavam por outras recordações...

Uma vez, comprei um casaco de couro num modelito diferenciado. Quando voltei para casa onde estava hospedada, minha afilhada me olhou admirada:

- Que lindo! Onde você achou?

- Não achei. A vendedora era tão simpática que desceu as prateleiras para me servir. Quando eu já estava até sem graça e lhe pedi mil desculpas por não ter achado o que queria e ter dado tanto trabalho, ela sorriu, pensou um pouco e me disse:

- "Tenho uma coisa lá em cima que acho que vai lhe agradar." Pedi-lhe que não trouxesse, pois se eu não gostasse, teria dado mais esse trabalho. Mas ela disse que esta era a sua função e ela a realizava com o maior prazer. Daí desceu com esta pérola. Olhei em torno, envergonhada pelos dez ou mais casacos que tinha experimentado, mas ela se adiantou:

- É uma questão de minutos colocar tudo no lugar, não se preocupe.


Essa foi a antipatia argentina que conheci. Não fosse outra língua, pensaria que estava no Rio...

Em outra vez, tomei um taxi para me levar do centro da cidade ao local do curso, San Isidro, bem distante. Naquela época não havia GPS e o taxista deu tratos às bolas para descobrir o local do curso. Não tivéssemos acertado o preço antes, acharia que era embromação. Mas fomos conversando como dois bons cariocas, ops... argentino e carioca, povos irmãos, inimigos só no futebol, como me dizia o sorridente taxista.

Volta e meia, no entanto, ele se remexia no banco. Acabei por perguntar-lhe se estava sentindo alguma dor. Disse que sim, sofria muito de dor nas costas. Chegamos cedo ao local e como era rua sem movimento, o encontro acabou com uma belíssima sessão de Reiki de 20 minutos, em suas costas, no próprio carro. Ele saiu dali já com um cartãozinho de uma colega reikiana argentina. Espero que tenha ficado cliente, pois saiu dali renovado.

Antipatia argentina? Pode ser, não duvido, mas, se for, sempre topei com as exceções... para confirmar a regra.

Meus olhos titubeavam entre as chamas que me traziam recordações e o livro aberto em minhas mãos. Sentia-me aquecida e confortável. Preguiça boa.

Notei que dois hóspedes que jantavam numa mesa um pouco mais distante (quem agüenta fritar ao lado da lareira?), de vez em quando, paravam de conversar e me olhavam. Falavam um alemão um pouco esquisito para meus ouvidos de linguista. Será que era alemão mesmo?

Continuei a leitura até que eles levantaram. Distraidamente, levantei os meus olhos. Um deles me olhou e me perguntou, num espanhol estranho, de onde eu era.

- Do Brasil, respondi.

Ambos sorriram e ele me respondeu num português com um sotaque muito meu conhecido:

- Somos de Blumenau!

Imediatamente identifiquei o alemão esquisito como o dialeto falado pela colônia alemã que vive no Brasil, língua materna de grande parte da população daquela região: Brasildeutsch. Sorri.

Um deles se aproximou disposto e tirar um dedo de prosa. Queria saber o que tanto eu lia, com tantas palavras japonesas. Sorri de novo. Ele se referia aos kanjis e outros símbolos de Reiki, abundantes no livro que eu tinha nas mãos. Falei um pouco sobre Reiki, e emendamos num papo sobre minhas aventuras por Blumenau. Que saudades! Ele me contou que estava trabalhando numa empresa alemã, e rodava o mundo. No momento, morava naquele hotel em Buenos Aires e, provavelmente, ficaria por mais um tempo. Conseguira o emprego graças ao alemão, sua língua materna.

Soube das novidades de Blumenau. O Hotel Garden fechou (nossa!!!), mas o Gloria Hauss continua fazendo as mesmas tortas deliciosas. Falamos de tudo e de nada, enquanto a noite seguia rápida em suas horas.

Lareira é um lugar para o romance, o sonho, a recordação... e ficamos assim, dois brasileiros, aconchegados pelo fogo da lareira, em uma pousada perdida na região do Tigre, neste final de inverno, nos falando sobre coisas do Brasil, da vida, de nós mesmos...

Voltar ao Brasil e emendar no curso daqui apenas prolongou o encantamento. Volto, aos poucos, das viagens marcadas pelas chamas do fogo da lareira e do meu coração.

Outro dia conto mais.