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sábado, 14 de dezembro de 2013

TEMPESTADES



O Rio está dominado pelas tempestades. 

Antigamente, eram tempestades de início de ano, invariavelmente em janeiro. Depois... "as águas de março, fechando o verão"...

Para acompanhar o desarranjo do mundo, elas resolveram vir agora, avançadas na época, mas com o mesmo desastre de sempre...

Na quinta passada, saí do consultório bem tarde e a chuva me pegou em cheio. Nessas horas, os taxis somem e, mesmo morando perto, foi um estirão a pé, de quinze minutos terríveis, com rajadas de vento e água por todos os lados e ruas inundadas que dispensam descrições. Todos os cariocas sabem como foi. Os não cariocas... bem... melhor poupá-los da novela. Não vale a pena.

Mas me lembrei de um aperto pior do que esse, que passei há muitos anos atrás. Estava recém concursada na universidade pública, onde passei a dar aula, a partir de 1986. Era março. Haja chuvarada... e... sempre com hora marcada: Final de noite. O toró vinha forte, muitas vezes interferindo na alimentação elétrica do campus universitário. Aulas suspensas.Mas nem adiantava tentar sair dos prédios em direção à casa. A região toda inundava e para quem conhece a área, a Praça da Bandeira, que vira um rio até hoje, era e é passagem obrigatória. 

Mas eu era novata e não sabia bem do perigo. Naquele dia, a chuva mal começara, achei que dava para passar. Peguei o carro e embiquei rumo à zona sul. Mas logo vi que não tinha embicado... eu tinha mesmo era embarcado. 

Não havia dez minutos de chuva e eu já percebera que não iria dar mais para passar. Também não dava para voltar. A água subia numa velocidade inacreditável a minha volta e eu tinha de tomar um atitude imediata. Pela primeira vez, depois de ter enfrentado muitas chuvas na direção, eu estava totalmente aterrorizada.

Para quem conhece a área, sabe que há o viaduto que passa para São Cristóvão, aquele que vai dar na Quinta da Boa Vista.Virei o carro nessa direção e subi o viaduto. Dei um tapinha no lombo do cavalo... ops... no painel do carro e murmurei:

- Pronto, aqui estaremos salvos.

Mas logo vi que não. O fato de eu ser a única pessoa a parar em cima do viaduto para esperar a chuva passar me deixou desconfiada. Embora parecesse o lugar mais seguro para se ficar, os dois motoristas que conseguiram também chegar ali, não pararam no viaduto. Pelo contrário, me fizeram sinal para seguir em frente.

Bem, quem sou eu para discutir... mas logo percebi: tudo às escuras, numa região de pouca segurança, ali não era o melhor convite para estacionar. Ficar sozinha em cima do viaduto, só esperando a chuva passar talvez fosse pedir por um assalto. Naquela região erma... nunca se sabe. E como eu moro na zona sul da cidade e ali era o norte, ainda pouco conhecido por mim... bem... melhor seguir o conselho dos demais.

Desci o viaduto, dando no outro lado, o tal onde fica a Quinta da Boa Vista. A situação não era tão aterradora quanto a da Praça da Bandeira, que simplesmente enche até cobrir os veículos. Mas deixava muito a desejar em termos de tranquilidade. Tudo alagado e, se o temporal se estendesse, com certeza, haveria água para encher o carro. 

O pior é que, novata na área, eu não sabia para onde ir e, então, como diz o senso popular "fui indo, fui indo", pois não havia outro jeito. 

Na verdade, nem sei se saberia fazer o mesmo percurso novamente. Só sei que, lá pelas tantas, dei num lugar que me pareceu ter uma calçada um pouco mais alta. Voltei o volante do carro, melhor dizendo, o "timão do meu "barco" naquela direção.

É nessas horas que tenho mesmo certeza de que tenho um anjo aventureiro. Aquele tal... Se você é um leitor assíduo, deve se lembrar dele em contos como "Golpe de Mestre", "Senta que lá vem história" e outros mais.

Pois então. Foi ele que, no meio desse caos, com a vista turva por um para-brisas embaçado e coberto de chuva torrencial, soube me fazer enxergar esse cantinho de terra, essa ilha paradisíaca, preparada pelos deuses. 

Subi com o carro e parei nada mais, nada menos do que na porta da Décima Sétima DP, em outros termos, a Delegacia de Polícia de São Cristóvão.  E eu tinha estacionado no lugar reservado aos carros policiais.

Seja o que os deuses quiserem. E... afinal... eu tinha o anjo... que, você já sabe, se me põe em apuros, dá um jeito de me tirar depois.

Desliguei o carro, saí e me dirigi para a porta da DP com o melhor dos meus sorrisos. Esperava encontrar um terror. Afinal, eu estava entrando numa delegacia e meu imaginário, é claro, pintou os piores quadros possíveis. Mas o caos do temporal era tamanho que... caos por caos... melhor me apresentar antes que eles cismem de me tirar dali... e... então, definitivamente, eu não saberia para onde ir. Eu não tinha a mínima ideia de onde eu estava, dentro do mapa do Rio de Janeiro! E, naquela escuridão, nem que eu quisesse, saberia como sair dali, quanto mais buscar os melhores caminhos. 

Imaginei um delegado de bigodes negros e expressão de dar medo a qualquer cidadão. Não sei por que, sempre imaginei os delegados assim. Talvez porque o de Portugal, que aparece no conto Golpe de Mestre tivesse bigodões. Talvez fosse por isso, mas não me lembro.

Entrei. Sentado a uma mesa, um único personagem. Um senhor de aparência que poderia ser até simpática levantou os olhos por cima dos óculos, quando me viu. Apressei-me:

- Boa noite. O Sr. Delegado, por favor.

- Eu mesmo. O que deseja?

Não era possível. Imaginem, um homem comum! Até quase simpático. Tomei coragem e arrisquei: 

- Sr. Delegado, preciso que me prenda até que a tempestade passe! 

Ele sorriu e entrou na pilha: 

- Para prendê-la preciso de uma acusação.

- Eu estacionei em área designada aos carros policiais. 

Ele sorriu novamente. Depois inventou uma cara malvada: 

- Considere-se presa. Você tem direito a apenas um telefonema. Ah... e um café. 

Nem me passou pela cabeça recusar o café, embora imaginasse que um café de delegacia deveria ser um horror de ruim. Mas eu não me ariscaria a recusar a gentileza nem por um decreto.  Usei o telefone para ligar para casa. Afinal, eu iria mesmo sumir por um bom tempo, até conseguir voltar. Naquela época, celulares não existiam nem em filmes de ficção científica.

Tão logo acabei de telefonar, fui brindada com um cafezinho quente, feito na hora... e... estava uma delícia!

A delegacia estava tranquila naquela noite. Testemunhei apenas uma ocorrência de um rapaz que entrou algemado, trazido por policiais e acompanhado por um senhor, provavelmente, o cidadão lesado. Mas fui poupada de assistir os depoimentos, pois foram levados para uma sala ao lado.
 
Fora isso, ficamos de papo, o delegado e eu. Ele me ensinou como enfrentar as tempestades da região, a partir de então: 

- Sempre que chover forte, espere passar. Conte uma hora e quinze minutos e, só então, pode sair. Antes disso, a Praça da Bandeira estará intransitável. 

A partir daquele dia, em caso de tempestade, eu já sabia: uma hora e quinze minutos depois do último pingo de chuva era o comando para poder voltar para casa. Mas, naquele dia, só mesmo meu anjo para me colocar nas mãos de alguém que pudesse me ajudar. Provavelmente, o único na área...

É engraçado como sempre tive sorte nos meus encontros com policiais. Se você leu "O Detetive" e "O Policial", há de concordar comigo...

A região ficou transitável apenas em torno das duas da manhã. E como boa cidadã que fui, totalmente comportada, o delegado me liberou do delito de estacionamento impróprio, com um sorriso: 

- Da próxima vez, se tentar se arriscar e der com os costados por aqui, vou ser mais rigoroso... em vez de um café, vou colocar você atrás das grades mesmo! 

Depois, chamou dois policiais e deu instruções para que escoltassem meu carro até o centro da cidade, mais especificamente, a Av. Presidente Vargas, altura da Central. 

- Não sei como agradecer. Eu teria dificuldade para encontrar o caminho. Não sei bem onde estou. Na verdade, nem sei como vim parar aqui.

- É... os presos sempre dizem que não sabem como vieram parar aqui.

Sorrimos ambos. 

- Mas no meu caso, tenho certeza de que foi um anjo me colocando nas mãos de outro. 

Ele me olhou com olhos de pai: 

- Tenho uma filha mais ou menos da sua idade... 

E tentou fazer uma cara séria: 

- Não vá se colocar em apuros outra vez! 

Saí dali escoltada, ou melhor, orientada por um carro policial que me deixou exatamente na altura da Central do Brasil. Dali, era caminho bem conhecido: seguir em frente, pegar o Aterro do Flamengo, atravessar o túnel para Copacabana e estar em casa.

Cheguei já bem esquecida do medaço que me deu, de me ver rodeada e ameaçada pela água, no início do temporal. Pelo contrário, algo dentro de mim estava em festa, esse tipo de festa que invade a gente, quando encontramos almas alegres, generosas, acolhedoras... que nos fazem tanto bem.

Não conheci mais nenhum delegado de polícia, depois disso. Dizem que tirei a sorte grande naquela noite. Pode ser. Só sei que não penso mais em delegados com caras ferozes e de bigodes pretos. Não faço mais ideia de como sejam. Para mim, podem ser como forem. Na verdade, espero não precisar conhecê-los, sob qualquer circunstância.

Aquele, no entanto, de rosto compenetrado e gentil, com uma filha da minha idade, que me serviu um café delicioso e entrou no espírito da brincadeira desde o primeiro minuto, ficará para sempre na minha lembrança... com meu coração agradecido. 

sábado, 14 de janeiro de 2012

SENTA, QUE LÁ VEM HISTÓRIA


Facebook. Facebook e aquele meu anjo que atende os meus pedidos aventureiros. Desta vez eu queria que me aparecesse um interlocutor inglês. Estou treinando meu péssimo inglês. Quero coloca-lo num nível de conforto. Assim, me decidi por aulas particulares com meu queridíssimo atual mestre, já que curso para mim não adianta. Patrícia, exímia professora da Cultura Inglesa e, mais tarde, diretora acadêmica da mesma, já tinha me desiludido:

- Curso para você não adianta, amiga. É inglês típico de acadêmico esse que você tem: leitura, certa compreensão e complexo de cdf para falar. Não tem curso para esse tipo de aprendiz aqui no Brasil.

Assim, decidi mesmo pelas aulas particulares. Mas faltava um “sal”. Aquele "sal" que estimula, que empurra, que aguça a curiosidade, o diálogo constante.

Nunca liguei para televisão a cabo. Quase não vejo TV... mas acabei contratando, só para grudar na BBC. Está funcionando, mas... e o “sal?”

Pois é aí que entra o anjo. O anjo e um inglês britânico que me achou não sei como, no Face. Me mandou uma gentil mensagem e começamos a trocar frases e expressões verbais. Sopa no mel.

O homem regulava com a minha idade, era o que me dizia. Só que começou a parecer apaixonado demais para o meu gosto e também para a idade dele. Romântico demais da conta, coisa assim, que não dá muito para acreditar. Mais para o lado do esquisito. Vai daqui, vai dali, ele pede para ouvir a minha voz.

Medo. Medo de dar o número do celular e medo de falar com alguém em inglês, só ouvindo a voz e tendo de me virar. Seria um exercício e tanto! Um desafio. Não tive idéia de comprar um chip só para isso. Hoje em dia é tão barato... Mas aprendi com a experiência. Da próxima vez eu faço isso. Enfim, depois de muito titubear, dei o número.

Ligou. Consegui falar! Consegui entender e responder, ele muito paciente, falando devagar. Depois daí, ele me ligou mais umas vezes. Muito gentil.

Fiquei na dúvida, peguei o número do telefone. Conferi o prefixo: Inglaterra. Mas o prefixo da cidade não conferia. Por via das dúvidas, mandei um mail para uma amiga muito querida que mora lá. Queria saber se aquilo era estranho ou eu é que estava pondo minhocas na cabeça. Ela disse para eu não me preocupar, pelo menos com o número. O número era inglês e os prefixos nem sempre coincidiam com os prefixos das cidades.

Tá.

Mas continuei com o pé atrás. Muito romântico demais. Desculpe o preconceito, mas homem pede, pelo menos, fotos. Quer saber se você tem filhos, quer saber mais da sua vida. Não cai de amores só pelo sorriso da foto do Face. Mas fui levando, afinal, o exercício de inglês estava ótimo... o “sal” pedido ao anjo!

Fim de ano. O gentil inglês pede meu endereço para mandar uma lembrancinha de virada do ano. Pode ser muito gentil, mas meu endereço não dou não. Fui delicada mas direta:

- Não te conheço senão por aqui. Não posso dar meu endereço. Podemos continuar conversando, aceito seus votos de feliz ano novo.

- Faço questão de enviar um presentinho.


Fui ao correio disposta a abrir uma caixa postal paralela. Nem pensar. Todas ocupadas, trinta pessoas na fila de espera. Custei a responder e ele, de lá, insistindo:

- Por favor, querida, estou indo a trabalho para o México, quero postar antes de partir.

Então, tá, vai... sapequei o endereço de minha caixa postal e seja o que o anjo quiser.

Ele agradeceu muitíssimo e a partir daí vivi setenta e duas horas de adrenalina para charlatão nenhum botar defeito. Se você leu meu conto “Golpe de Mestre”, se prepare, que foi parecido. Mas o anjo me põe, o anjo me tira...

A lembrancinha era composta de um pacote com 2 laptops da HP, 2 Iphones, 4 perfumes, um cordão e um anel de ouro, uma rosa e fotos pessoais. Ah, e uma soma de dinheiro escondido dentro de um dos laptops que daria para comprar um bom carrinho. Assim, de um soco só.

Para uma mulher burra, um senhor presente. Mas, desculpe a modéstia, não me encaixo. Ou o cara era totalmente maluco de pedra, o que seria o suficiente para eu cair fora, ou ali tinha... ah... tinha. Até porque nem maluco rasga assim dinheiro de graça. Meu pisca-alerta ligou. De qualquer forma, não era presente para se receber, mesmo que, em última hipótese, ainda houvesse algum maluco no mundo que fizesse isso. Respondi imediatamente:

- Não me mande isso. Pensei que seria um souvenir de Reveillon, alguma coisinha inglesa da virada de ano. Nem pensar.

- Já mandei querida, não se preocupe.


Não me preocupe? Claro que passei a ficar preocupada, na verdade, preocupadíssima. Alarme ligado. Luzes em vermelho.

Perguntei a um amigo o que ele achava. Bem, a vida dele tinha dado uma guinada por uma coisa dessas, inesperadas, e tinha dado certo. Nada mais normal do que ele achar que poderia ser uma aventura a ser vivida.

Mas meu pisca-alerta continuava ligado. Fiquei mesmo muito invocada. Conversei com outro amigo. Ele também achou a coisa esquisita. Bom... “dois” achando esquisito. Só podia caber na minha cabeça que alguém que estivesse tão interessado e tivesse essas supostas condições financeiras, iria preferir mil vezes pegar um avião e vir me conhecer do que mandar um pacote assim. É óbvio! Já havia acontecido isso comigo antes. Se você leu o conto “A ponte”, sabe do espanhol que se despencou de Barcelona para o Rio só para me conhecer. Essas coisas acontecem. Mas um homem não vai mandar um pacote desses para uma mulher com quem ele trocou palavras no Face por 20 dias. Não um homem sério ou, pelo menos, um “homem normal”.

Não deu outra. No dia seguinte, recebi um mail da Malasia. O emissor identificou-se como policia alfandegária, dizendo que o pacote tinha sido barrado lá e, pela descrição do conteúdo, se eu quisesse recebe-lo, teria de depositar imediatamente a “irrisória” soma de 850 dólares, caso contrário, o pacote seria confiscado. Nome da conta, etc, tudo direitinho. O depósito deveria ser feito via Western. Muito chique. E era para ser imediatamente.

-Ah! Era esse o golpe, concluí. E agora? Com que espécie de quadrilha eu estava envolvida? O que fazer?

O anjo me põe, o anjo me tira. O problema era como fazer para me sair. Isso o anjo nunca conta. É a parte onde ele me faz viver a aventura...

Havia algumas saídas:

- Simplesmente não responder e sumir;

- entrar no Face e perguntar se ele me considerava uma idiota. Pergunta desnecessária: é óbvio que ele me considerava uma perfeita idiota;

- bancar a burra, fingir que tinha caído no conto e arranjar uma saída de mulher “burra”. Uma mulher muito muito burra que aceita que um pacote que sai da Inglaterra precisa dar a volta ao mundo, passar pela Malásia, para chegar ao Brasil. Isso, fora todo o absurdo da história em si.

A primeira alternativa parecia mais simples: sumir. Mas não era: ele tinha meu número de celular e, também, o endereço de minha caixa postal. Eu não sabia - e não sei – com que espécie de quadrilha eu estava envolvida, nem suas condições de ataque para me arriscar. Era botar a cabeça para funcionar!!!

Não respondi ao mail, fiquei muda. Alguma coisa iria acontecer e fingi que não tinha lido mail nenhum, nem aberto o Face, naquele dia. Dar tempo para pensar, ver o que fazer.

O segundo amigo, aquele que também estava achando tudo muito esquisito, me deu um bom suporte. Felizmente, ele é bem relacionado e disse que, se eu precisasse, tinha um parente para ir à alfândega comigo, se o pacote chegasse. Tinha feito uma consulta e, quem o instruira, era ligado à polícia federal. Ok, não vai precisar. Pelo tipo de golpe, era só uma isca para eu depositar os tais 850 numa conta da Malasia. Pelo andar da carruagem, não havia pacote algum para chegar. Eu não estava envolvida com contrabandistas. Menos mal... menos mal.

Tracei um plano, o anjo que me ajudasse. Fingi que não tinha recebido o mail, mas já sabia do conteúdo. Horas depois, ligação internacional – não era de prefixo da Inglaterra. Atendi. Era diretamente da “alfândega da Malasia”. Imagine, um serviço alfandegário tão perfeito que liga para o receptor para avisa-lo que tem um pacote preso lá! Quanta gentileza! Fingi não estar entendendo o inglês do homem. Na verdade, não estava mesmo. Só que eu sabia previamente do que se tratava:

- Por favor, ligue para o emissor do pacote, não estou entendendo nada.

Mais uns minutos, liga o gentil inglês, voz parecendo muito aflita!

- Querida, eu recebi um mail da Malasia, você também recebeu?

- Sim, mas não entendi direito. Acho que é para pagar uma taxa ou coisa assim.

- Estou muito preocupado, eu...


Interrompi imediatamente:

- Desculpe, acho que você está nervoso, não estou entendendo nada. Estou em casa. Vamos trocar mensagens pelo Face?

Fazia parte do meu plano ter tudo por escrito. Por via das dúvidas, se desse algum problema, teria provas escritas para mostrar para a polícia daqui, se fosse o caso. Fomos para o Face. Ele fez o “papel de desesperado”. Queria a minha ajuda de qualquer jeito para o depósito, pois havia muitos bens no pacote! Inclusive dinheiro. E muito! Que eu pagasse a taxa e, quando o pacote chegasse ao Brasil, eu poderia resgatar a quantia tirando o dinheiro que estava incluído nele. Ele não estava na Inglaterra, não poderia tomar qualquer providência! Não poderia fazer nada do México. Retruquei:

- Não fique tão preocupado. Já estive no México. Também tem Western aí. Então, é só você ir lá e tudo está resolvido!

- Não posso, a instituição daqui não permite, Já expliquei tudo isso a eles, mas eles não querem me deixar ir. Estou em pleno mar trabalhando, não posso ir à terra, por favor, me ajude, você é minha única esperança.

- Ok, mas por favor, ligue para a Malásia e diga para eles fazerem o pacote voltar para a Inglaterra, pois terá um problema muito maior aqui! Não quero receber esse pacote! Dará mais problemas ainda na alfândega daqui!


Eu era tão “burra” que ainda o estava ajudando a me dar o golpe...

- Ok, querida, então eu deposito em sua conta tão logo eu volte para a Inglaterra, prometo.

- Ok, não se preocupe, a gente vê isso depois. Eu deposito amanhã.

- Você faz isso? Ah, que alívio, que Deus a abençoe.


Pronto. No dia seguinte, de manhã, ele me ligou preocupado:

- Querida, você já depositou?

- Não tenho o dinheiro comigo, pedi emprestado a um amigo e ele disse que vai trazer para mim.


Pronto, além de burra eu não conseguia nem ter 850 dólares.

- Estou muito preocupado. Eu...

- Não estou entendendo você direito, mas escreverei no Face depois. Não estou em casa.


Pouco depois, liga a alfândega da Malasia, muito preocupada com a segurança do meu pacote. Quanta gentileza! Digo para eles ligarem para o emissor.

À tarde, liga de novo o gentil inglês:

- Você depositou?

- Meu amigo ainda não veio com o dinheiro. Escrevo para você no Face, hoje à noite.


Nisso, me encontro com meu amigo de verdade e conto meu plano. Disse-lhe que preferia a versão da mulher burra, por via das dúvidas. Ele teceu considerações comigo, me ajudando na melhor interpretação do papel. O anjo não dá respostas, me deixa dar tratos às bolas para sair dos apertos, mas... sempre me envia aliados... é só eu estar atenta!

Saí e fui viver o resto do meu dia, com meus afazeres. Tinha de deixar o tempo passar. Fazia parte do papel de tentar arranjar o dinheiro. À noite, quando cheguei, escrevi uma mensagem “desesperada”:

- Meu amigo não me deu o dinheiro, disse que não acreditava na sua honestidade e ainda por cima, disse que tem um amigo da polícia federal e que vai contar tudo para ele. Eu estou desesperada, não quero me envolver com a polícia. Na verdade, estou com muito medo de tudo isso. Não posso ajuda-lo. Você é um homem muito esperto e com certeza, encontrará um amigo na Inglaterra ou algum membro de sua família que poderá fazer isso para você. Sinto muito não poder ajuda-lo, estou em pânico.

Na verdade, fora o fato de eu saber mais ou menos com quem eu estava tratando, estar com medo, era pura verdade. Um medo reativo, mas presente da cabeça aos pés.

Poucos minutos depois, a resposta, no Face:

- Oh, meu Deus, como fui acreditar em você! Estou perdido!

Não respondi. Deixei para o dia seguinte, como se tivesse escrito e desligado o computador. Ainda tinha um problema a resolver. É que este meu amigo, o tal que tinha mesmo um conhecido da polícia federal, tinha sido muito assertivo:

- Feche sua caixa postal e mude o número de seu celular.

O problema era esse. Eu não queria fechar minha caixa postal. Tenho a mesma, com várias correspondências do mundo todo, há 20 anos! E o meu celular é o ponto central do meu trabalho como terapeuta! Todos os meus clientes só falam comigo pelo celular. E tenho clientes desde 2001! Eu tinha de bolar um jeito de resolver isso também!

E essa era a minha cartada final, por isso não respondi logo. Precisava deixar o tempo passar, exercitar a minha paciência, saber dar os passos, deixa-lo na expectativa do que eu iria fazer.

Enquanto isso, uma hora depois dessa troca de mensagens, novo mail da Malasia, desta vez ameaçador. Com certeza, passaram a investir nas palavras medo e pânico que eu tinha usado ao dizer que não queria me envolver com a polícia.

O mail era bem explícito: dizia que tinham “escaneado” o pacote e detectado uma soma de dinheiro muito grande ali e que isso era ilegal e se a tal taxa de 850 dólares não fosse depositada imediatamente, as polícias dos dois países, Inglaterra e Brasil, seriam avisadas, para que tomassem as providências necessárias com os dois envolvidos.

Não respondi. Imediatamente, abri meu celular, tirei o chip e liguei do meu fixo para ele para ver o que acontecia. Não toca. Dá direto na mensagem:

- Sua ligação está sendo encaminhada para a caixa postal, deixe sua mensagem após o sinal.

Ok, eles não entendem português. O que eu queria é que não tocasse o sinal de chamada. Entrando direto na mensagem, pode ser qualquer coisa, inclusive dizendo que o número tinha sido desativado. Era a impressão que eu queria dar, o toque final que eu precisava.

Entrei no Face:

- Estou fechando minha caixa postal e também mudando o número de meu celular. Por favor, me esqueça.

Resposta, minutos depois:

- Oh, Deus, não acredito que você esteja fazendo isso comigo!

Não respondi. Abri o Face, no dia seguinte. Nenhuma mensagem. Também nenhum outro mail da Malásia. Ufa, que alívio. Eu era burra, pobre e medrosa demais para eles perderem tempo comigo.

Por via das dúvidas, fiquei três dias com o celular desativado. Quando liguei novamente, havia apenas uma chamada do exterior, com horário próximo ao da minha última postagem no Face. Nunca mais recebi nenhuma ligação internacional.

O anjo põe, o anjo tira. E fiquei sem meu “sal inglês” novamente. Entrei em chats. É uma “chat-ice". A conversa é sempre a mesma: de onde você é, etc... e a linguagem é essa da internet, não é boa para treinar.

Meu bom anjo protetor, obrigada por esta aventura. Mas, desse pão, já chega. Dá para me mandar outro alguém só que bonzinho? Já tive a minha cota de adrenalina para esta vez.

Obs.: o título foi tirado de um antigo programa infantil da Rede Brasil (antiga TVE); a foto da página inicial do Facebook.

sábado, 18 de junho de 2011

IRMÃ CRUZ CREDO


Irmã “Cruz Credo” foi a única freira que, realmente, conseguiu angariar minha antipatia no colégio. Por uma questão de delicadeza, prefiro usar o apelido que tinha entre um pequeno grupo de alunas, felizmente jamais descoberto por outras alunas ou irmãs do colégio.

Era a mestra do terceiro ginasial (atual sétima série do ensino fundamental). Era dessas pessoas cheias de preconceitos, que gostava de fazer uma preleção por dia para a turma, olhando para cada um, como que pedindo aprovação de suas palavras.

Não gostava dela. Decididamente, não. Por várias razões: antipatia gratuita (isso acontece até nas mais nobres famílias) e por seu comportamento diante dos próprios preceitos que pregava a nós, suas alunas. Como lhe disse,em contos anteriores, ao escrever sobre o colégio, a cada ano, tínhamos uma mestra de classe diferente. Isso porque as freiras que eram as responsáveis pelas turmas ficavam sempre no mesmo nível. Nós é que passávamos de ano. Assim, Irmã “Cruz Credo” era a mestra daquele ano. Eu tinha treze para quatorze anos, estava em plena adolescência, acostumada há seis com o regime de internato. Quem ficava internada tanto tempo? Ninguém. Conhecia aqueles corredores como as palmas de minhas mãos. Era capaz de caminhar à noite, às escuras, ou melhor, no breu, sem topar nas portas ou móveis. E olha que breu no Alto da Boa Vista, dentro da mata, é breu mesmo. Assim como conhecia a concretude do edifício, conhecia a concretude dos santos ofícios, o regimento interno e tudo mais que alguém que é quase patrimônio do colégio poderia conhecer.

Pois bem, ninguém discutiria comigo as leis do colégio. Nem uma freira, ainda mais se tivesse entrado depois de mim, transferida de algum lugar. Digo isso para você ter uma idéia de como eu estava incorporada àquela vida e àquele cotidiano.

Irmã “Cruz Credo” vomitava as leis do colégio todos os dias, justamente na preleção, antes das aulas do dia. Já sabíamos: as aulas começavam às oito e dez. As internas chegavam à sala às sete e quarenta, esperando por suas colegas externas, que iam chegando pouco a pouco. A espera, todos os dias, era contemplada com os “sermões” de Irmã “Cruz Credo” Até hoje fico pensando onde ela arranjava tanto assunto. Uma chatice: como ser uma boa moça, como se sentar no refeitório, como manter o silêncio... tudo coisas que sabíamos de cor e salteado, melhor que as aulas de etiqueta, postura, culinária, bordado e tudo mais que faz o exemplar comportamento de uma moça prendada. Mas estávamos lá, pensando em ontem, enquanto a voz de fundo (nem a voz dela era agradável) daquela freira enchia o ar de nostálgico mal estar. Provavelmente ela própria necessitava de falar sem parar. Isso me irritava completamente. Eu queria ler, rever os assuntos das aulas daquele dia e aquela voz perturbadora atravessava o meu sossego.

Eu tinha de dar um jeito nisso para não pirar, até que um dia tive a idéia de prestar atenção, tim-tim por tim-tim. O plano passou a ser “pegá-la no pulo”. Quem sabe, assim, eu conseguiria fechar aquela matraca. Pois foi assim mesmo que consegui. Comecei a anotar os dias e assuntos pautados. Logo no começo, ela me chamou a atenção: estava escrevendo, enquanto ela falava e isso era desrespeitoso. Fiz ver a ela que estava anotando suas recomendações. Não havia como forçar-me, portanto, a ficar olhando para ela que nem peixe morto, como obrigava a todas as demais. Era uma bela justificativa e eu anotava assiduamente. Com que objetivo? Não esquecer, certamente. Era um argumento esquisito, mas irrefutável. Quando tive material suficiente, comecei minhas investidas.

Não era permitido falar no refeitório, durante as refeições, exceção feita a pedir para uma colega passar a cesta de pão ou a tigela de arroz, por exemplo. Apenas durante a sobremesa o silêncio era suspenso, até a hora das preces de ação de graças. Ocorre que Irmã “Cruz Credo”, não conseguia ficar quieta. Era mesmo uma matraca viciada. Falava baixinho com a aluna que sentava a seu lado (sempre uma puxa-saco, com certeza). Cabe explicar que, no refeitório, as alunas sentavam-se em mesas longas: dez alunas em cada mesa, encabeçada pela mestra de classe. Como cada turma de internas era grande o suficiente para ocupar duas mesas, a outra mesa era encabeçada pela assistente daquela mestra de classe. Assim, todas as mesas tinham uma freira à cabeceira e as mesas eram divididas por níveis escolares, o que, também, aguça o sentido de divisão por classes, o que nos lembra uma discriminação social. Não se misturam as classes...

Mas voltemos aos fatos: eu tinha meu assento à mesa da mestra, no caso, Irmã “Cruz Credo”, embora sentasse na outra ponta, para ficar o mais distante possível do meu desafeto. Quando percebi que ela não conseguia ficar quieta por tanto tempo, anotei a data de um de seus sermões sobre o silêncio e, na primeira oportunidade, sapequei minha lição. Olhei para ela como ela costumava nos olhar (olhos recriminadores) e levei o dedo indicador aos lábios, sussurrando: é hora de silêncio. A mulher quase morreu. Suas faces enrubesceram e não era de vergonha, era mesmo de raiva reprimida. Uma aluna a repreendia e, pior, com razão. Ela sequer poderia dizer que era falta de respeito, já que seus sermões eram todos pautados no respeito às regras. E assim foi: fui sapecando cada um de seus deslizes, que não eram poucos. E... como eu era considerada uma aluna exemplar, desde os anos anteriores, sempre apontada como modelo e todas aquelas baboseiras de cdfs que você deve conhecer, ficava mais difícil ainda.

Me transformei no pesadelo de Irmã “Cruz Credo” . Era visivelmente desagradável a minha presença. Mas eu não dava qualquer motivo para recriminação. Pelo contrário, cuidava cada vez mais de ser a perfeição personificada. Tenho certeza de que eu chegava a ser irritante, como consegue ser uma adolescente que resolve emperrar com alguém. As colegas me admiravam, pois eu passei a ser a representação da “moral”, diante da moralista. Pode imaginar um bando de adolescentes torcendo por mim, claro, já que ela era tão chata... Até eu me achava chata, mas não dei trégua.

Foi com essa freira que se passou o episódio do sacrário vivo, que já lhe contei e que deu panos para mangas entre as colegas de internato. Se você leu o conto ”dogmas e crenças”, talvez se lembre do episódio. E, naturalmente, foi com ela que armamos o único castigo já impetrado pelas alunas a uma freira...

Na verdade, eu estava mesmo esperando uma chance, mas não poderia ser de graça, é claro. E veio. Para desespero meu, no entanto, por causa de Helena, uma de nossas colegas. E conto-lhe já por que o desespero.

Helena era uma menina triste. Tinha lá seus segredos, que ninguém conseguia saber quais eram. Eu, no entanto, por ser sempre considerada a irmã mais antiga, mesmo que não a mais velha, era, quase sempre, a confidente de minhas irmãzinhas de turma. A antiguidade no posto, o sentir-me em casa por já viver ali tantos anos talvez inspirasse essa função. Pois então... Helena, num de seus dias de tristeza e desencanto, revelou-me que descobrira que era filha adotiva e isso a fazia muito infeliz. Passei a dedicar-me mais a essa pequena amiguinha, compadecida com esse sofrimento. Queria fazer ver a ela o quanto seus pais adotivos eram verdadeiros de alma e coração e quanto a amavam. Ela achava que havia sido colocada no internato por rejeição dos pais e não porque, como eles diziam, estavam se separando e tinham resolvido deixá-la longe desse delicado período de separação. Para ela, isso era uma desculpa... ela se sentia abandonada. Para completar, tinha sido introduzida na turma no meio do ano para o final, o que mais complicava a sua integração, numa turma já composta pelo convívio de meses. Aos poucos, no entanto, eu estava conseguindo dissuadi-la dessa idéia. Não poderia contar o segredo a mim confiado às outras colegas, mas incitava a todas a ajudarem-na, dando-lhe mais atenção. Helena, aos poucos, começou a participar de nossos jogos e tudo parecia começar a caminhar para o normal, senão quando... a megera atacou. Até hoje acho que aquela freira precisava era de um tratamento psiquiátrico...

Tudo aconteceu numa tarde, na sala de estudos. Era comum recebermos visitas de pais que vinham conhecer o colégio e seu cotidiano, antes de decidirem colocar suas “princesas” lá. De setembro ou outubro em diante, muitas visitas eram feitas, tendo em vista o ano seguinte. Deveríamos estar por aí, no calendário escolar. O aviso para nós já era comum, vindo do interfone do corredor e chegando por alguma outra freira aos ouvidos da mestra de classe que nos anunciava:

- Meninas, estamos com visitas.

Continuávamos estudando, atentas, no entanto, ao ritual. Pouco depois, uma freira aparecia na porta da sala, guiando os visitantes. Neste momento, levantávamos juntas, num movimento único, acompanhado, em um só acorde de delicadeza “natural”, treinadíssimas:

- Boa tarde.

Esperávamos que a mestra de classe se levantasse e dissesse:

- Podem sentar-se.

Aí, era um requinte de vinte meninas se sentando como princesas, juntas, sem fazerem o menor ruído, em nossas confortáveis e espaçosas carteiras de madeira encerada. Um primor. Coisa de filme. A mestre de classe, também cumprindo o ritual, aproximava-se dos visitantes e dizia alguma coisa a respeito da turma de que era responsável. Sempre alguma referência que identificasse melhor a turma. Pois não é que a jóia da Irmã “Cruz Credo” me solta a seguinte prenda?

- Aqui temos alunas de vários lugares do Brasil e de várias proveniências. Aquela, ali, por exemplo, foi adotada.

Assim, de estalo. Eu tive um treco, imagine você, então, a Helena! Em um segundo, ferida aberta para o mundo. Pode imaginar o rombo psicológico que foi. Poucos dias depois, Helema foi tirada pelos pais do colégio. Ela simplesmente não podia olhar para ninguém, especialmente para aquela megera. Até eu não conseguia mais ter acesso a ela, embora quisesse confortá-la.

Reunimos o conselho secreto das alunas, já seu conhecido, no conto do evento das toalhas (que só ocorreu dois anos depois). Esse crime merecia castigo, sem dúvida. E dos bravos. A idéia inicial foi a de roubar a chave do armário da freira e sapecar suas roupas íntimas com pó de mico, abundante na floresta da Tijuca. Para quem não sabe, pó de mico irrita muito a pele e dá uma comichão dos infernos. Dos infernos! Nas roupas íntimas, então, você nem pode imaginar... Poucas vezes, no internato, me senti tão furiosa, mas fui contra. Não sei se pelo exagerado requinte da crueldade ou porque eu queria algo que a expusesse a um ridículo à altura.

Decidimos por uma empreitada perigosa. Éramos apenas três naquela época e as outras não poderiam saber. Há sempre os dedos-duros. Não podíamos nos arriscar. E foi feito.

As camas das religiosas ficam nos dormitórios com as alunas, mas separadas por um cortinado indevassável para resguardá-las de nossos olhos. Dormem sem a touca, cabelos soltos e, evidentemente, sem hábito, com camisolões. Planejamos desparafusar a cama da freira para que desarmasse quando fosse se deitar, o que ocorria mais ou menos uma hora depois das alunas. Faria algum barulho, mas não tanto, pois o piso era de madeira e não de mármore, como nos corredores. Mas não era pelo barulho. Era, principalmente, porque o barulho que fizesse assustaria a todas no dormitório, que se levantariam para ver o que havia acontecido, levaria a freira assistente a acender a luz, e a megera, de camisola, esparramada no chão, estaria exposta à visitação pública.

E foi exatamente o que aconteceu. Fez mais barulho do que imaginávamos, mas não chegou a ser um escândalo. Irmã “Cruz Credo” estatelou-se no chão e quando chegamos para ajudar a levantar-se não apenas seus cabelos estavam expostos, mas suas pernas e as curvas de sua imensa barriga. Um vexame que, com certeza, ela jamais esqueceu.

Dali até o final do ano, que faltava pouco, felizmente, fomos olhadas com olhos de fúria. Mas não havia nada a acusar. Para todos os efeitos, foi mesmo um acidente, que poderia ter acontecido a qualquer um. Por uns dias, o andar trôpego e dolorido de Irmã “Cruz Credo” combinava bem com o seu tom de voz, sempre esganiçado. O conjunto era sintônico, embora jamais atraente.

Hoje, apenas sinto pena de não poder ter dito a ela, naquele tempo, o que hoje diria. Quem sabe, tão ferida quanto Helena, ela só soubesse viver esparramando a sua volta toda a amargura de seu próprio viver. Pobre freira... sabe-se lá por que razões foi bater nos costados de um colégio de educadoras. Dentre várias das recalcadas que lá conhecemos, ela, sem dúvida, sempre se destacou com louvor.

Para compensar, sua assistente era a Irmã Vitória. Uma sulista cheia de dons domésticos, com quem aprendi as artes mais sutis dos bordados de mãos de fada. Irmã Vitória sempre nos tratou como quem trata princesas, cuidando para que fôssemos realmente personagens de contos de fadas. Lembro-me de seus minuciosos cuidados e, até hoje, sua voz, vez por outra ecoa em meu coração, como quando nos alertava, sempre carinhosamente, para que nossos vestidos ficassem impecáveis na inspeção:

- Menina, ajeite seu vestido, você não está parecendo uma dama...

Eu tenho a impressão de que, se fosse uma novela, irmã Vitória seria uma serviçal do palácio, dessas que estão sempre para lá e para cá, levando chazinhos, costurando roupas, cuidando dos quartos, feliz, gentil, satisfeita. Sempre pronta a “contrabandear” mais cinco minutinhos de recreio (que mal faz... essas meninas já estudaram muito hoje...), de arranjar às escondidas mais um biscoitinho daqueles que a gente adorava, mas não podia roubá-los na cozinha, tirar a mancha do uniforme, antes que alguém mais veja... e a que sempre nos dizia, para os pedidos quase impossíveis:

- Pode ir, mas não demore, esteja de volta em menos de dez minutinhos...

Nem tudo foram cinzas na terceira série...

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

NOTAUSGANG


Alemanha, de novo! Patrícia diz que, um dia, acabo morando lá. Acho pouco provável... mas... nunca se sabe. O importante é que as lembranças são boas, amorosas, delicadas e algumas, como você já pôde constatar, engraçadas.

Lembro-me de minhas visitas às lojas. Sim... eu também visitava as lojas, como qualquer mulher mortal. Não tanto quanto era de se esperar para o natural instinto feminino de consumo, mas visitava. E consumia. Principalmente artigos de papelaria, nos quais a Alemanha é pródiga em mimos e gracinhas. Me dei conta de que não tenho nenhuma foto de lojas alemãs por dentro... incrível. Mas são magníficas. A Ka De We, em Berlim (foto), chegava a ser uma covardia... será que ainda existe? Se existe, provavelmente, depois da queda do muro, deve ter mudado de nome ou virado simplesmente Kaufhof, como nas demais cidades do país (Ka De We era uma sigla carinhosa para "Kaufhof dos Ocidentais").

O problema, muitas vezes, era encontrar a saída. Algumas lojas são tão grandes, que você literalmente se perde por dentro. E olha que eu tenho um bom senso de direção - sei exatamente onde estaciono meu carro na garagem de um shopping imenso. Mas aqueles departamentos sem tamanho são mesmo um desafio a qualquer ser vivente.

Pois então... no começo, algumas (muitas) vezes, senti dificuldade de encontrar a saída. Tinha em minha mente as palavras-chave: eingang (entrada) e ausgang (saída). Para mim, era só procurar alguma referência em placas ou setas, antes de perguntar a qualquer vendedor disponível. E explico por quê: ocorre que os vendedores atendem a uma pessoa de cada vez. Inexoravelmente. São super atenciosos e exclusivos. Não cabe, como aqui, por exemplo, você pedir licença e apenas perguntar: “tem fita adesiva?”. Aqui você pode fazer isso e já tem meio caminho andado: o vendedor aponta onde é o local da sessão e continua tranquilamente a atender o seu cliente. Ninguém se incomoda, não atrapalha ninguém e se não tiver, você não fica esperando à toa. Muito prático.

Lá, não. Ou você procura por conta própria entre as inumeráveis prateleiras ou espera a sua vez. O bom é que, chegada a sua vez, o atendente será exclusivamente seu e... se tiver fita adesiva, ele mostrará quilômetros de prateleiras com os mais diversos tipos, disposto a descrever calmamente as façanhas que cada uma delas é capaz de fazer. E diretamente em inglês, língua que todo atendente diz que não sabe falar, se você perguntar (mania de perfeição), mas, fala muito bem, se você se dirigir a ele diretamente nessa língua. É claro que as sessões são pródigas em setas, placas, avisos informativos. Mas isso tudo está escrito no mais puro alemão, é lógico, e dispensa metade da espera. Mas... para uma viajante latina como eu... hum... como é mesmo fita adesiva em alemão???

Pois é... com esse tipo de cultura, interromper um atendimento, mesmo que seja só para perguntar como se sai da loja estava fora de questão. Era mesmo procurar pelos avisos, setas, placas e cartazes.

Foi aí que me enrolei, pois, com muita freqüência, fugi exatamente do caminho certo, por um vício de linguagem. É que encontrava a placa sinalizadora: “notausgang”.

Ora, se a língua é anglo-germânica e not em inglês é uma palavra negativa, a linguista aqui só poderia concluir que “notausgang” deveria significar, é claro, “não há saída por aqui”. Eu não entendia bem por que os alemães se preocupavam em avisar que não havia saída por ali, mas, como não se discute com a minuciosidade das descrições do temperamento alemão eu estava achando que era apenas uma informação a mais. Imediatamente, mudava o meu rumo em outra direção, em vez de seguir exatamente em frente, que era o que eu deveria fazer.

Levei cerca de uma semana enrolada por essa armadilha até que, um dia, resolvi seguir o “notausgang” para ver no que dava... e dei numa escada de serviço que me colocou bonitinha na calçada, ao lado do prédio.

Só então decidi procurar no dicionário pelo significado. Fiquei pasma e lembro-me que chorei de rir comigo mesma por algum tempo: notausgang – saída de emergência.

Daí por diante, cada vez que via “notausgang”, além de sorrir para mim mesma, passava por ela e continuava alguns passos na mesma direção e, indubitavelmente, encontrava a magnífica e tantas vezes perseguida placa de “ausgang”.

sábado, 29 de janeiro de 2011

MAIS UM TIQUINHO (Alemanha 3)


Não resisto a falar mais um pouquinho da Alemanha. É natural: foi o país que mais visitei na Europa, por conta das já citadas lojas de trens. Assim, os contos da Alemanha são contos de rua, de minhas perambulações por lá e sorrio a cada vez que me lembro de uma passagem...

Lembrei-me outro dia, de mais uma cortesia muniquenha, dessas que contam como a do funcionário do metrô, que me arranjou aquele mapa sem tamanho, a que já me referi no conto "Preconceito". Nesse outro dia, como sempre passeando pela cidade, buscava recantos não visitados, ruas e ruelas por ali, perto do hotel, pois já estava no final do dia. Havia umas lojinhas de souvenirs e, mais adiante, uma vitrine com um belíssimo enfeite. Na verdade, um jogo de xadrez: as pedras brancas com caricaturas de portugueses



e as negras, com caricaturas africanas.



Preconceitos descortinado à parte, tenho de confessar que estava muito engraçado. Coisa bem humorada. Evidente que não me interessava comprar. O motivo, em si, não me atraía, haja vista o preconceito refletido em cada peça, mas... gostaria de fotografar. Tirei uma ou duas fotos e ao levar a máquina ao rosto, novamente, tentando um ângulo melhor, um dos vendedores segurou a minha mão. Assustei-me como uma menina pega em flagrante. Pensei que me repreenderia, com aquela cara séria e compenetrada por não ser permitido fotografar. Mas não. Ele simplesmente abriu a vitrine, me dizendo para fotografar sem o vidro. Havia percebido que o reflexo estava atrapalhando a foto...

Em Colônia vivi uma tarde de encantamento sem tamanho. A peça de resistência da cidade é, evidentemente, a Catedral. Uma catedral tão imensa que não coube em minha máquina fotográfica, ao fitá-la da praça.



Apesar de sua grandiosidade, o que mais me chamou a atenção foi mesmo o clima da cidade. Que delícia! E perambular pelas ruas é que me trouxe a tal aventura sem par, inesquecível. No verão, é comum aos jovens fazerem apresentações nas ruas para arrecadarem o suficiente para poderem viajar de férias. Colocam o chapéu ou estendem um pano na calçada, tocam,



cantam, dançam, fazem mágicas, vale tudo.



As pessoas param e as assistem em silêncio(!!!). Se são bons, batem palmas e pagam pelo espetáculo... teatros ao ar livre. Típico de cidades européias, não apenas na Alemanha.

Pois bem... andando por aqui e ali, ouvi ao longe o ritmo bem nosso conhecido da bossa nova e fui me aproximando... som de violão. Mas o músico era chileno e cantava “Garota de Ipanema” em castelhano, aliás, com uma voz contestável e errando muito a letra. Quando jovem, eu fora do coral do colégio e, diga-se de passagem, tinha voz bem afinadinha. E... adorava cantar. Não resisti. Estava sozinha, felizmente, pois meu “ex” jamais agüentaria presenciar um “mico” desses. Estaria, naturalmente, enfurnado em suas lojas de trens.

Sentei-me ao lado do músico e comecei a cantar. Anonimamente, meu lema era me divertir. Ele calou-se e passou apenas a tocar. E ali estavam dois puríssimos amantes da música brasileira, sem dúvida. Ele tocou muito, eu cantei tudo que sabia de bossa nova, de música popular brasileira. Como se fossemos um par que ensaiara dias seguidos, emendamos várias músicas. Seguíamos o mesmo compasso. Eu estava tão feliz, que sequer me dei conta do público. Cantava a saudade repentina de meu delicioso Brasil. Ele concretizava, em seu violão, sua admiração pelo país irmão. Ficamos embevecidos e não sei quantas músicas apresentamos e por quanto tempo o fizemos. Estávamos mesmo nos divertindo! Quando paramos, fomos aplaudidos e seu chapéu estava abarrotado. Paramos de vez e as pessoas se dispersaram. Ele queria por tudo do mundo, dividir sua arrecadação comigo. Fiz ver que estava ali para me divertir e que ele tinha me dado momentos inesquecíveis para meu diário de vida, meu minuto anônimo de glória! Felicidade pura. Custou a convencer-se, mas acabamos por nos despedir como amigos de infância.

Acho que citaria, sem fim, aventuras por minhas numerosas viagens à Alemanha... uma Alemanha colorida e, como lhe disse em outro conto, tão diferente dos meus filmes de adolescência...

Mas... não vou me subtrair de contar também minha ida a Berlim Oriental. Um dia falo sobre isso, numa visita dos tempos em que o muro ainda existia. Argh!... Mas vale a pena, pela aventura que também vivi por lá...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

QUEM DIRIA (Alemanha 2)


Berlim: linda, magnífica, a cidade que não dorme. Bulício, festa, cores, luzes, vida. Passear perdida pela cidade até que as pernas andassem separadas do corpo, pois o cérebro deixa de pensar que existem, adormecidas, mas felizes. Prefiro saltar a parte de visita a Berlim Oriental, que deixo para um conto à parte. Voltemos nossos olhares para a festa. Enquanto meu “ex” passava praticamente os dias a cata de seus trenzinhos, eu me embebedava pelo colorido multifacetado da cidade, em suas ruas, museus e atrações as mais diversas. E foi no início de uma das manhãs que me vi numa pequenina agência de correio para despachar um dos pacotes de compras de cidadezinhas, casinhas e outras coisas do hobby de trenzinhos dele. Fazíamos isso, pois seria impossível carregar tudo em malas, pois precisam ser bem empacotados para que não quebrem, etc. Melhor despachar. Como eu não tinha compromissos, senão o de perambular pelas ruas, não me custava encarregar-me dos despachos, enquanto ele corria afoito para novas compras. Ele não queria perder um minuto do exame acurado das revistas com os números dos trens, vagões, casinhas e tudo mais que fazia seu hobby valer a pena. Eu, por meu lado, não tinha pressa. A cidade estava ali, para ser sorvida como um manjar dos deuses. Passar pelo correio, poderia fazer parte da festa. Nunca se sabe o que pode acontecer a cada passo. E, neste dia, foi surpreendente! Estar sem pressa é tudo nesta vida. Vivemos cada segundo intensamente, se soubermos que são segundos vitais... e eu sabia.

No que se refere ao aspecto financeiro, a vida me dava a oportunidade de poder entender e fazer isso. Passei por muitas experiências, desde o aperto financeiro mais agudo, na juventude, à possibilidade de viajar por aí, depois de recebida a herança de meu pai. Depois, novamente, novos grandes, intensos apertos, com o divórcio e, mais tarde, novas oportunidades de ardorosa e saudável subida. Talvez essa experiência multifacetada me tivesse dado sempre esse perfil de aproveitar as oportunidades pelo que posso trazer dentro de mim e não pelo que posso carregar nas malas e nos bolsos. Nada contra quem pense ou faça diferente, é claro. Se todos fossem iguais, a vida não teria mesmo graça... para mim, no entanto, naquela época, o que contava era a sede de conhecimento, não obrigatoriamente só acadêmico, mas de vida. Felizmente, aproveitei a oportunidade de poder fazê-lo da forma que me deu maior prazer. E, essencialmente, um conhecimento interior que só pude constatar, de fato, muitos anos depois.

Mas, voltemos aos correios: Entrei na agência como quem sabe tudo. Já havia feito tantas remessas, que sabia preencher os formulários de cor e salteado. Havia apenas dois funcionários atendendo (a agência era bem pequena!) e nenhum cliente. Preenchi os formulários (alemães adoram formulários!), etiquetei tudo com a meticulosidade germânica já minha conhecida e me aproximei do balcão. O atendente era um senhor bem forte (por que não dizer gordo?), bochechudo, olhos azuis escondidos pelas rugas da face, ligeiramente corado, barba branca bem tratada, cabelos idem. Muito simpático.

Pegou o pacote e me perguntou algo em alemão. Não entendi bulhufas. Ele repetiu. Nada. Perguntei se falava inglês, francês, espanhol, português. Nada. Então, ele olhou para mim, abriu os braços como asas flutuantes e perguntou:

- “By fly?”

E depois, juntando as mãos, como imitando um barco flutuando através do mar, perguntou:

- “ Or by ship?”

Entendi a pergunta: era para ir de avião ou de navio? Claro, de navio, é bem mais barato. Leva uns dois meses, mas quem tem pressa? O importante, no entanto, não foi isso. O que me chamara a atenção fora o jeito engraçado com que ele gesticulara. Tão engraçado, que não resisti: propositadamente, copiei seu gesto, tentando caricaturizá-lo ao extremo: juntei as mãos e as fiz flutuarem no ar escandalosamente, exatamente como ele fizera e repeti:

- “By shshiiippp!”

O senhor não resistiu. Soltou uma gargalhada tão gostosa e contagiante, que pensei que o mundo estaria todo feliz naquele momento. Comecei a rir também, contagiada e, logo, despregadamente. O funcionário ao lado, que a tudo assistira, caiu num riso solto, idem. E os três não conseguiam parar. Rimos de torcer, como quem pede para parar pelo amor aos deuses. Mas não conseguíamos. Era terrivelmente contagiante, como se fosse a piada do século, como se as crianças que habitavam em nós surgissem à tona, ao mesmo tempo.

Nesse momento, entrou um cliente, um desses alemães bem carrancudos. Olhou para nós três com olhar de quem não estava entendendo nada e também de reprovação. Éramos loucos ou coisa assim? Acenou com a cabeça e... retirou-se da agência. Pronto! Foi o suficiente para rirmos em dobro pelo ridículo que deveríamos ter passado ao carrancudo senhor...

Rimos muito muito muito. Rimos como amigos de infância que se encontram para uma tarde de aventuras e piadas. Rimos como seres humanos que se encontram felizes, independentes de raça, religião, cultura, língua ou crenças. Rimos cúmplices. Jamais me esquecerei. E por mais que tente, não consigo reproduzir a profundidade desse momento em palavras. Se puder, busque você imaginar o puro encantamento: “ by shshiiippp!”

Ah, Alemanha, cujo colorido e aventuras povoam meu coração...

Saí da agência levando na mente aquele rosto corado e simpático, a barba branca, a pança avantajada, os olhinhos azuis... e... principalmente, aquela gargalhada franca e contagiantemente gostosa.

E... de repente... tive a indescritível sensação de ter descoberto onde Papai Noel se esconde durante o ano: Quem diria!... Funcionário dos correios! Nada mais apropriado...

sábado, 11 de dezembro de 2010

PRECONCEITO (Alemanha 1)


Visitei a Alemanha, pela primeira vez, na década de oitenta, com um puríssimo preconceito pendurado a tiracolo, de quem ouviu a vida inteira que o povo alemão é rude, não sabe rir, não é gentil. Fui assim, esperando caras fechadas por todos os lados e preparada para enfrentar 20 dias de completa antipatia.

Entramos por Hamburgo, meu ex-marido e eu, vindos de Amsterdã, aquela cidade maravilhosa, super acolhedora, que já mereceu um conto à parte! Desci do hotel direto para um pequeno mercado para comprar frutas. Felizmente, ali, quase todos falam inglês. Foi aí que tive o primeiro e definitivo contato, com esse povo que saía, enfim, das telas de meus filmes de guerra da adolescência para a realidade. O mercado era bem pequeno, digamos, uma pequena venda, com apenas dois funcionários. Na verdade, pareciam ser o casal de donos. Estávamos no caixa, meu “ex” puxando o dinheiro para pagar as contas enquanto eu empacotava as frutas. O alemão do caixa era um senhor corado, gordo e de cara fechada. Pura rabugice, pensei eu. Mas... já que estava na chuva, continuei contrita minha tarefa de empacotamento, ansiosa por ir embora e me largar, ainda que tímida e titubeante, pelas ruas da cidade.

Foi, então, que aconteceu: antes de dar o troco a meu “ex”, o tal senhor olhou-me (sem sorrir) e me estendeu a mão com algo dentro. Instintivamente, estendi a minha, sem saber para quê. Ele, gentilmente, colocou uma pequenina moeda em minha mão e fechou-a delicadamente sem pronunciar palavra. Não sei se sorriu, mas pareceu sorrir. Olhei para ele e para moeda e traduzi, imediatamente, aquele pequeno brinde ao meu coração: bem-vinda a minha casa. Meus olhos se encheram de lágrimas, como boa latina que sou. Agradeci, comovida, entendida a gentileza de tão suave e sutil acolhida. Na rua, já estava com o rosto banhado em lágrimas, meu “ex” sem ter entendido nada, me perguntando o que significava aquilo tudo. Expliquei-lhe finalmente que tinha vindo àquele país com a maior má vontade (ele não sabia), apenas pelo amor de acompanhá-lo em seu capricho consumista (ele era ou é, colecionador de miniaturas de trens, hobby caro de pecinhas minúsculas, cujas fábricas são alemãs). De repente, tudo que eu pensara e construíra em minha mente a respeito do povo, tinha sido divina e poderosamente destruído pela singeleza do toque de alma daquele senhor gordo, corado e... tão gentil!!! Chorava de emoção, de culpa, de gratidão. Por muitos e muitos anos esta moeda me acompanhou, tomando o lugar de honra em meu porta-níqueis, até que, um dia, a perdi. Mas guardo aquele gesto até hoje, num cantinho especial de meu coração.

Daí por diante a Alemanha abriu meu coração para sempre. Não havia um lugar em que eu parasse, abrisse o mapa para me posicionar na cidade e não visse, imediatamente, algum alemão se aproximar: “may I help you?” Que povo maravilhoso! Minhas caminhadas por todas as cidades eram simplesmente magníficas. Fazia-as com sabor de festa, enquanto meu então companheiro passava os dias enfiado nas lojas a busca de seus trenzinhos de brinquedo. Vinte dias de liberdade de caminhadas, colhendo aqui e ali o que a alma deste povo esconde em seu interior. O país é pródigo em belezas naturais e estruturais, em museus, passeios, atrativos os mais variados. É possível andar para cima e para baixo, para todos os lados, no meio daquela língua belíssima, mas incompreensível, sem se perder. Tudo corre a tempo e a hora, numa organização ideal para o turismo com todas as facilidades de deslocamentos.

Nada de excursões. Grupos em que somos contados como carneiros não estavam em meus planos. Assim, a organização e a facilidade de achar-me e deslocar-me independente da língua tornava-se essencial. E a Alemanha é pródiga nesse item. Os trens saem absolutamente no horário, com exceção dos de Frankfurt que saiam com exatos cinco minutos de atraso, mas chegavam ao seu destino no horário estabelecido pelos folhetos. É claro que me refiro à década de 80. Agora não sei como são. O fato é que me senti completamente em casa em todas as vezes que fui lá e não foram poucas... e é o país de onde tenho mais aventuras para contar.

Lembro-me de uma passagem muito interessante no metrô de Munique. Eu estava encarregada, em todas as cidades, de conseguir um mapa miniatura do metrô para compor uma das inúmeras coleções do “ex”, cujo hobby compunha uma lista invejável de itens, entre relógios, mapas, latinhas de coca-cola, canhões de brinquedo, ferramentas, destacando os tais trenzinhos com suas cidadezinhas montáveis, itens aos quais ele dava maior vazão nas viagens.

A mim, não custava nada bambolear pela cidade a busca de mapinhas de metrô pequenos e bonitos (pois nem sempre eram oferecidos no metrô) para enfeitar o corredor de nosso apartamento. Eu não fazia lá muita questão desse tipo de enfeite, embora ficasse gracioso, confesso. Do que eu gostava mesmo era ter de serpentear pela cidade com o pretexto de encontrá-los. Perdia-me sem mapas (muitas vezes, abandonava os mapas e adorava me perder pelas ruas), justamente para buscar um mapa, imagine! Para mim, soava interessante. Pois bem, em Munique, não achava um mapinha que prestasse. Resolvi, enfim, ir direto ao metrô. Falaria com algum encarregado, perguntando onde poderia encontrar a minha prenda. Acabei por achá-lo, dias depois, numa banca de jornal escondida, mas, antes disso, teria de passar por uma pequena, mas deliciosa aventura:

Desci do hotel, num horário compatível com o pedido. Metrô sem muito movimento, tudo bem arquitetado em minha mente, pois, a essa altura, eu já estava entendendo um pouco como se fala com o povo alemão e em que situações a aproximação é mais promissora. É exatamente como os chiliques que também temos em nossa cultura e não nos damos conta que existem: tudo tem seu tempo e hora...

Me dirigi à bilheteria e foi onde eu entrei em contato, pela primeira vez, com o espírito de humor germânico. Fiquei ensaiando como falaria em inglês, já que o francês, língua de minha preferência, não é tão usada assim nos outros países europeus. Busquei meu sorriso mais significativo de socorro e perguntei ao jovem que estava atendendo: do you speak English? Aceno negativo. French? Não. Spanish? Não. Portuguese? Não. Caramba... então, ele sorriu (eu aprendera a ler o sorriso alemão!) e apenas me perguntou: Deutsch? Aí, sim, sorrimos os dois. São assim as piadas alemãs.

Eu não falava o único idioma que seria necessário falar naquele momento... tanta erudição jogada fora... Fora? Não: dentro! Ele deixou outro funcionário no lugar dele, deu a volta, saiu da “gaiola” e se dirigiu a mim gesticulando de modo a me fazer entender que eu me expressasse como desse. Isso é a rudeza alemã? É assim que eles tratam mal a gente? Valha-me um cartucho de sal! Francamente, eu não encontro isso em muitos lugares da terra...

Apontei para um out door com o mapa do metrô na parede. Vale o aparte: lá há mapas enormes, onde você pode ver todo o trânsito das incontáveis linhas de metrô – em alguns deles, você clica o botão com o nome da estação de destino num pequeno mostruário abaixo desse mapão e nele acende-se o roteiro, partindo da estação em que você se encontra até chegar à estação de destino. Assim, você pode acompanhar o trajeto, inclusive as baldeações, se necessário, sem precisar falar uma palavra de alemão.

Bem, voltemos ao conto: apontei para um desses mapões e fiz um gesto com as mãos, mostrando que gostaria daquilo em tamanho pequenininho. O jovem entendeu prontamente e fez aquela expressão de “lamento, mas não temos”. Fiz um gesto como quem pergunta onde poderia achar. Ele fez cara de quem não sabia, mas algo em seu olhar iluminou-se. Imaginei que ele tinha resolvido o meu problema. Fez sinal para que eu esperasse e sumiu entre as pessoas, entrando por uma porta restrita aos funcionários. Passei uns vinte minutos à espera. Se não estivesse na Alemanha juraria que ele tinha me deixado na mão. Mas não. Ele voltou com algo e me entregou. Imagine você: ele estava me dando um mapa daqueles enormes, um out door que caberia na parede de uma sala! Não posso pensar em como ele conseguiu aquilo, só para agradar a uma turista que ele nem conhecia. Mas fez. Olhei para ele estarrecida, com um olhar de admiração incontestável. Ele apenas sorriu singelamente, o melhor que um alemão convicto sabe fazer, acenou gentilmente a cabeça, como quem diz que “não foi nada, foi um prazer” e retirou-se para seu guichê. Sorri para ele, ainda, de longe, deixando bem claro o meu reconhecimento e minha gratidão. Eu não tinha a mínima idéia de para que aquele mapa me serviria, em casa, mas isso era o de menos. O que valera, ali, fora a boa vontade, a elegância, a delicadeza.

Ah, a Alemanha... de povo sério, de alma gentil. E de um humor que poucos sabem entender. Acho que ela vale mais um conto, um conto de natal, na semana que vem...