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sábado, 31 de março de 2012

O CAMINHO É MAIS IMPORTANTE


Março de 1970. Primeiro dia de aula. No mural do corredor do terceiro andar, o quadro com a carga horária do primeiro ano do Curso de Letras.

Segunda-feira, sete e meia da manhã: Professor Renato – Teoria Literária.

Um homem de olhar decidido entrou na sala logo depois que me sentei. Um homem de óculos e barba. Ou seria um bigode? Não me recordo se tinha barba, mas bigode, com certeza, tinha. Sei disso porque me lembro bem de uma das aulas, Renato recitando o poema das Sete Faces, de Drummond:

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.


Lembro-me de que, enquanto Renato nos falava a respeito de Drummond, eu divagava comparando a poesia de Drummond à sabedoria daquele professor... ambos escudados pelos óculos e pelo bigode. Lembro-me da sensação que senti, naquele momento: a poesia me reportando aos óculos e ao bigode daquele mestre que, com zelos de pai cuidadoso, mas disciplinador, nos inspirava, ao mesmo tempo, um tremendo respeito e um tremendo carinho.

O que mais me marcou no Renato, no entanto, foi a certeza que ele sentia do que estava fazendo conosco. No primeiro dia, sentado a nossa frente, sua primeira frase foi:

- Estou aqui para fazer vocês entenderem os estilos literários, a base para que possam estudar toda a literatura do curso. Preparem-se, pois não vou refrescar nem um minuto.

E não refrescou mesmo! E aprendemos! Nossa! Quanto!

Renato começou pelo estilo épico. Ele não soube (ou será que soube?), mas a primeira frase que disse, carimbou uma visão de vida fundamental em meu coração. E esta foi apenas uma das lições de vida que tive de Renato, a que destaco para apresentá-lo a você:

- No estilo épico, o caminho é mais importante do que a meta.

Lembro-me de sua voz solene, empunhando um livro que logo descobri qual era:

- Se vocês abrirem a Ilíada, lerão, logo nos primeiros versos: Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta que causou inumeráveis dores aos Aqueus...

Renato era envolvente, compenetrado:

- E logo ali, no começo, Homero já nos conta o motivo da cólera de Aquiles e suas consequências! Nos primeiros versos, já sabemos o final da história!!! Aquiles mata Heitor, príncipe de Troia, por ter este matado Pátroclo, seu melhor amigo! Então, não há suspense na trama. No épico, já sabemos o final logo no começo!

E continuava portentoso:

- Por que ler tudo então? Porque, no épico, o caminho é mais importante do que a meta!

Não sei por que as aulas de Renato eram estrondosas em meu coração. Não era amor pelo mestre, embora também existisse. Era fascínio pelo seu conhecimento. Para mim, suas aulas não eram, muitas vezes, apenas aulas de Teoria Literária. Eu lia entrelinhas do impacto que elas quase sempre me causavam. Naquele dia, especialmente, Renato me dava aulas de filosofia de vida!

O caminho é mais importante do que a meta... não resisti:

- Como a morte, professor, todos sabemos que vamos morrer.

Lembro-me de que Renato parou de súbito, olhou para mim, recém saída da adolescência, e não resistiu:

- Sim, menina, somos heróis épicos.

Naquele segundo, naquele olhar de pai para filha, uma nova visão de mundo se compôs para sempre em meu coração, desde então mais consciente e desperto ao ouvi-lo dizer:

- Vamos morrer, é a única certeza que temos. O importante é o que fazemos entre o “agora” e o “lá”.

Sorriu. Eu sorri. Ele voltou a falar da Ilíada. Mas nós dois sabíamos que, apesar de ter sido uma aluna aplicadíssima na disciplina por todo o resto do ano, o melhor de todos os ensinamentos ele me dava assim.

Muitas, muitas vezes, em momentos singelos ou decisivos de minha vida, aquela frase jogada como semente em meu coração, num segundinho de tempo entre mestre e discípula, despontou forte em minhas decisões: a maior consciência da força do herói épico moldou em mim a guerreira, a mãe, a filha, a mulher, a mestre e uma discípula de vida mais consciente dos próprios passos.

Reencontrei a imagem de Renato muitas vezes, através de minhas leituras, como em Gandhi, por exemplo, quando dizia: “não há um caminho para a paz, a paz é o caminho”...

Hoje, quando vejo pessoas sôfregas por resultados, pulando etapas, engolindo em seco, cortando caminhos de vida, cumprindo “metas”, lembro-me de Renato, lembro-me de Gandhi, lembro-me da menina embevecida pelos ensinamentos do mestre:

- Sim, menina, somos heróis épicos. O caminho é mais importante do que a meta.

Obrigada, Renato. Como gostaria de saber por onde você anda agora...

sábado, 4 de setembro de 2010

MENINICE


Aquela rampa era um desafio a minha meninice. Nunca me neguei ser criança, mas vamos combinar que uma doutora em lingüística, pós-doutora em educação, coordenadora de pós e com mais de quarenta anos de idade não iria combinar muito com estripulias infantis no meio do ambiente acadêmico.

Proibido não seria, mas faltaria nadica para me considerarem uma biruta, em pleno ambiente universitário. Mas aquela rampa era mesmo um desafio a minha meninice...

Cada vez que passava por ela, e eram muitas vezes por dia, não conseguia deixar de me lembrar de minha infância, no colégio. Infância nada... fiz isso até sair de lá, aos dezoito anos... tomando impulso, dando uma corrida e me deixando escorregar pelo piso daqueles corredores compridos, lisos e brilhantes. A sola dos sapatos escolares era de borracha, mas usávamos os chinelões de flanela para fazermos isso. Que delícia! E aquela rampa roia minhas entranhas desafiando meus sapatos de sola de couro, subindo e descendo por elas, sentindo seu chão liso e tentador. Ah, um dia, jurava que sim, iria tomar um bom impulso e me deixar levar por ela, escorregando rampa abaixo como uma surfista de solo.

Mas mantinha a linha, diante de alunos e colegas, sustentando a chamada “postura acadêmica”.

Um dia, fiquei até mais tarde, por conta de umas notas que queria passar para o diário de classe e já deixar na secretaria. Eu estava na sala do departamento e não vi a hora passar. Quando percebi, já eram 22.30, as aulas tinham terminado e a secretaria estava fechada. Não era muito seguro andar sozinha por aqueles corredores imensos e escuros da universidade, mas eu tinha mesmo me distraído. A melhor parte da história é que tinha conseguido terminar o trabalho e não precisaria voltar no dia seguinte só para entregar as notas.

Passei os diários de classe por baixo da porta da secretaria e me apressei, rumo aos elevadores, para sair rapidamente do prédio, evitando demorar-me mais do que o estritamente necessário. Poucas luzes, silêncio, mas, sobretudo falta de transeuntes aconselhavam cuidados com a minha segurança.

Foi, então, que passei pelas rampas. Estavam ali, tentadoras. E a criança não resistiu. Eu estava no décimo primeiro andar e se não aproveitasse a oportunidade, quem sabe, única, não poderia fazer isso de novo. Minha meninice sorriu e me imaginou escorregando por elas por onze andares, um atrás do outro... que festa!

Não resisti. Tomei impulso e não pensei duas vezes: surfei do décimo primeiro para o décimo e meio, já que as rampas são dispostas de meio piso a meio piso. Que delícia! É claro que já tinha decidido, por dentro, repetir a dose... e... se fosse até o primeiro andar assim, seriam 22 rampas! E num dia só!

Depois de esperar por tantos anos, nenhum premio me pareceria mais adequado. E lá fui eu, rampa por rampa, sentindo meus sapatos deslizarem, com aquele barulhinho característico de se arrastarem pelo solo liso. Estava radiante, feliz, solta, finalmente. Como diz o dito popular, tirando a barriga da miséria e tendo a minha infância como única platéia!

Entre o primeiro e o térreo, no entanto, ao me deparar com a rampa, antevi um vulto meio na sombra, meio na luz. Passava, mas ao me perceber, parou para ver quem era. Estava no térreo e eu me dirigiria a ele, se descesse.

Minha alegria interior era tanta que nem liguei. Não pensei em perigo. Como ele estava no térreo não me inspirava cuidados. Era o andar onde ficava a central dos seguranças noturnos, bem ali, à beira da rampa. Talvez até fosse um deles e nem saberia quem eu era e... se soubesse, bem... que se danasse... não iria deixar de aproveitar a raspinha do tacho. Tomei impulso e desci, surfando minha última rampa, radiante por dentro, compenetrada por fora. O vulto, parado, me aguardava. Se ele não saísse dali, minha escorregada iria acabar bem a sua frente. Foi o que aconteceu e eu me deparei nem mais nem menos com... um dos sub-reitores bem meu conhecido, o de pós-graduação. Logo comigo, uma das professoras-membro de seu seriíssimo Conselho, que se reunia mensalmente para analisar projetos de pesquisa. Ai meus deuses...

Mas minha meninice sorriu. Na verdade, tão forte quanto as evidências, minha alma ainda transpirava as alegrias da festa. E o homem também sorriu, sabendo que me pegava “no pulo”.

- Boa noite, professora.

Eu, por minha vez, não tive saída. Respondi, como se nada tivesse acontecido:

- Boa noite, professor.

Desejei-lhe um bom descanso e saí.

Para quem não queria ser vista pelos alunos, até que me saí muito bem e, no fundo, diante da falta de cerimônia da situação, quem sabe, não tenha despertado, nele também, um pouco de infância perdida. Espero que sim...

O fato é que a traquinagem me fez muito bem e, uma vez inaugurada a travessura e logo com o testemunho de “quem”, perdi a cerimônia. Não sei se foi por isso ou pela aventura em si mesma. A verdade é que, a partir daí, vez por outra, quando a rampa estava desocupada de transeuntes e, mesmo diante da possível presença de alunos, passei a dar minhas escorregadinhas sem compromisso, feliz da vida e mais despreocupada com a tal “postura acadêmica”. O máximo que consegui foi despertar um certo ar de riso de uns ou de outros, se me viam. Mas diante da “seriedade” com que saía da empreitada, nunca ouvi piadinha alguma.

Apenas num dia ouvi um aluno me dizer:

- Cuidado professora, a senhora pode cair.

- Tem perigo não, faço isso sempre. É meu surfe em terra firme.

- Ah, professora, só a senhora mesmo.


E ficou por isso mesmo. Se me consideraram doida, nunca soube. Mas que soltei os laços da alegria contida, soltei, sim, para o meu bem, para o bem de minhas aulas e para as lembranças que me fizeram escrever este conto hoje. Um brinde a isso!

domingo, 9 de maio de 2010

A MADRE



Tinha acabado de me formar, quando fui chamada pela titular da cadeira de Língua Grega e Cultura Clássica da Universidade. Queria que eu a assessorasse na disciplina, pelo período de um ano, já que estava preparando duas alunas, há quase quatro, para serem suas futuras assistentes.

De saída, disse que não. Aula de grego? Nem pensar! Como iria ensinar grego com meus míseros dois anos de estudo da língua em meu currículo de Português e Literatura? A titular, no entanto, não era pessoa de receber um não. Ah, isso não era não... e me armadilhou com a promessa de que a primeira vaga em língua portuguesa, seria minha, se eu aceitasse. E ela tinha influência suficiente para conseguir isso. Depois, sem me deixar muito tempo para responder, mandou meus 22 anos de juventude para casa, para pensar por uma semana. Garantiu-me que me prepararia o suficiente para pegar o primeiro período, em março, após um árduo treinamento de três meses.

Saí entontecida. Sabia que diria não. Comentei com Virgínia, minha grande companheira de turma, minha amiga do coração. Éramos tão inseparáveis que a turma nos chamava de Cosme e Damião. Pois bem, Virgínia é uma peça. Uma peça rara em todos os sentidos. Diz a coisa mais séria do mundo no meio de uma estrondosa gargalhada:

- Ué, quem sabe grego aqui? Só você e a titular mesmo. Aceita. Os alunos não vão nem notar.


Essa era a Virgínia, fazendo pouco dos meus desesperos, sabendo o quanto de cdf eu tinha para aprender grego em três meses, se fosse necessário. Ainda mais com uma titular daquelas!

Precisava trabalhar, mas não me venderia por uma promessa de um futuro, mesmo que promissor. Não aceitaria.

Uma semana depois, como tinha sido estabelecido, no lugar e hora determinados pela mestra, lá estava eu, com a resposta ensaiada, agradecendo o privilégio, mas recusando. Entrei na sala contrita, mas trêmula. Dizer não a ela exigiria um artesanato mental. Era a única freira que dava aula no Curso de Letras e, diga-se de passagem, uma das fundadoras da Ordem no Brasil, ou melhor, uma das fundadoras do ensino universitário da Ordem, no Brasil. Sotaque francês carregadíssimo, um tigre andando pelos corredores, bem à moda do início do século. Desnecessário dizer que nascera em 1899 e estávamos em 1973, mas ela mantinha a classe do início do século, chamando a todos os alunos de senhor e senhora, pura formalidade do século XIX. Precisa dizer mais? Pois então, era para ela que eu iria dizer não.

E não disse. Ela não me deu tempo. Parece que adivinhava a minha resposta e já me esperava sentada à mesa, com livros e gramáticas de grego (escritos por ela mesma e reconhecidos internacionalmente). O que ela queria comigo, afinal? Sempre fora boa aluna, tinha tirado 10 em todas as avaliações de grego, é certo, adorava a língua e a cultura clássica, mas... sequer fora sua aluna, já que quando fizera a disciplina ela estava na Grécia! Por que seus faróis apontaram na minha direção? Por que não dava a disciplina a quem tinha sido meu professor? Só os deuses me explicarão um dia. Mal entrei na sala e antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela disse:

- Temos muito o que fazer, teremos aulas de grego todas as manhãs, das 8 às 12 horas, durante esses três meses. À tarde, a senhora estudará em casa e me mostrará o resultado de seus exercícios na manhã seguinte. Pararemos aos domingos, para o descanso sagrado. Trouxe um caderno? Vejo que não. Poderá providenciar para a aula de amanhã.

Assim, de uma tacada só, ela falou apontando a cadeira a seu lado e eu, com a respiração em suspenso, me senti aquela menininha do colégio de freiras diante daquela beldade, respeitada e homenageada pelo governo grego, tendo recebido as chaves de Athenas, do próprio prefeito da cidade, em uma de suas visitas ao país sagrado. Tá bom ou quer mais? Aquilo tudo, ali, na minha frente, sem que eu conseguisse reagir. Só me restava eu mesma me convencer de que aquela era uma das grandes oportunidades da minha vida. E foi. Desnecessário dizer que suas alunas assistentes, por caminhos diversos que a vida traça, não puderam assumir a cadeira no ano seguinte. Uma delas acompanhou o marido em viagens profissionais e só voltaria dois anos depois, outra casou e não trabalhou. Sobrava para mim, com certeza. Mas ela mesma já havia se encarregado de que não me dispensaria de todo, pois, ao longo do ano, as relações tanto profissionais como de confiança mútua estavam se fortalecendo. Sem contar que eu já estava completamente apaixonada pelo grego...

Aos poucos percebi que o tigre era um tigre de fachada, ou melhor, um tigre de papel. Sua formalidade escondia um carinho imenso, um carinho disfarçado, mas suave e brando. E ela conservava uma criança interior incrível, escondida por trás de sua disciplinada forma de ser publicamente. Com o correr dos anos, nos transformamos em grandes amigas, para espanto de todos, que a tratavam com o respeito que se dá a uma rainha. Mal sabiam... Quantas vezes eu a pegava de carro e fugíamos Rio afora. Ela adorava ir à Barra da Tijuca, num posto de sorvete, na época intitulado “Sem nome”. Ali, não havia dia que repetisse o mesmo sabor de sorvete. Eu sempre pedia o de creme ou de ameixa, mas ela já teria provado quase todos. Dali, íamos ver os surfistas para que ela se deliciasse com as ondas, sentada na areia, com seus mais de 70 anos de idade, uma corcunda considerável que dificultava muito seu caminhar, mas que, incrivelmente, apenas lhe dava um toque a mais. Era ali que ela descansava sua saudade das praias bretãs.

Num desses dias, estávamos tomando sorvete e um grupo de surfistas, meninos e meninas, todos adolescentes, se aproximaram. As pranchas de surf a atraíram imediatamente e, em menos de cinco minutos, estávamos eu e o vendedor no balcão, enquanto ela, com um sorvete (provavelmente de manga misturado com alguma outra fruta exótica), já se misturara com os meninos, pedindo licença para passar as mãos nas pranchas, coletando mil informações. Aquela freira de hábito longo, no meio de meninas com biquínis minúsculos e meninos de sungas apertadas merecia um quadro modernista. Mas eu estava sem a máquina e, mesmo que tirasse a foto, talvez ninguém na Universidade acreditasse que era a mesma pessoa. Nesse dia, ela saiu com um monte de papeizinhos, com telefones que garantiriam também sua entrada na Pedra Bonita para ver de perto as asas delta, que estavam começando a fazer sucesso na época. Imagine! Era também uma de suas paixões ir à praia do Pepino para ver essas asas de Ícaro pousarem. No início, eu ficava surpresa com essas empreitadas, mas, com o tempo, fui me acostumando e, não raro, fugíamos literalmente para Grumari, Prainha ou Floresta da Tijuca, em passeios incansáveis, de papos amenos e muitas lições de vida.

Ela era mesmo incrível e nosso carinho mútuo, maternal-filial, não pode ser descrito. Tento, apenas, evocar o sentido. Um exemplo da suavidade e feminilidade de seu coração pode ser contado em um dia em que estava adoecida. Fui visitá-la e, geralmente, não se pode ver uma religiosa acamada. Ela não estava mesmo nada bem e eu queria apenas que ela soubesse que eu tinha ido lá, levando-lhe algumas frutas. Era como meu carinho poderia alcançá-la. Qual não foi a minha surpresa, quando a religiosa voltou me dizendo que a seguisse! Fui vê-la, em seu pequeno quarto, deitada com sua camisola, bastante pálida, mas me dizendo tranquilamente que não ficasse preocupada, pois estaria bem dentro de dias. Minha juventude perguntou o que ela queria que eu fizesse, que pedisse qualquer coisa!

- Qualquer coisa?

- Sim!

- Qualquer mesmo?


Minha juventude a postos:

- Sim, qualquer coisa.

Ela sorriu e disse:

- Todas as noites, aqui deitada, vejo a lua através da janela e a acho tão linda... você a traria para mim?

Sorri. Era assim que ela me ensinava as coisas sobre a vida...

Anos mais tarde, quando resolveu se aposentar, retirando-se para a casa de repouso da congregação, em Salvador, contava os 80 anos de idade e fez questão de se despedir de mim, por último, no aeroporto. Enquanto se despedia me convidando a visitá-la sempre que quisesse, pela primeira vez, explicitou diretamente seu carinho por mim. Não que eu não soubesse, mas jamais tinha ouvido:

- Deus lhe deu uma vida difícil, minha filha, mas... em compensação... presenteou-a com o carinho de uma segunda mãe.

Não respondi. Não conseguiria! Apenas abracei-a esforçando-me ao máximo para atender a seu desejo de véspera:

- Por favor, não chore amanhã. Também vou sentir saudades, mas aos 80 anos, preciso me retirar do Rio. Há muitas traduções de peças gregas e um dicionário etimológico que também quero escrever.

Aos oitenta anos, ela se retirava do trabalho de dar aulas, para poder trabalhar mais. Pode? Pode. Deixou a cadeira de língua grega em minhas mãos, atividade que levei até 1986, quando me retirei dessa Universidade. Visitei-a muitas vezes, até sua morte, dez anos depois. Saudades sempre. Até hoje. Mas agora se traduz como uma lembrança suave, amiga e gentil.

O fato é que este imenso amor à arte grega, que já estava entranhado em mim, desde minha infância, foi devidamente alimentado por tão espetacular criatura.

E passei a assumir a cadeira de grego, mais especificamente, língua grega, a partir de então, já que também dava aula de língua portuguesa, como ela havia prometido, desde o início. As aulas de literatura passaram para uma daquelas antigas alunas, que voltara do exterior com o marido.

Visitei-a, muitas vezes, para estarmos juntas por uma tarde, tomarmos um chá e para fazer-lhe companhia para rezar duas aves-marias, uma em francês e outra em grego, pois era a única pessoa disponível com quem ela podia contar para compartilhar a oração que mais amava recitar, nas suas duas línguas prediletas. Eu nem me considerava uma pessoa religiosa, mas, naquele momento isso não tinha a menor importância. Lembro-me que, em sua missa de sétimo dia, fui apanhada, de surpresa, com o celebrante me tirando da platéia para dizer algumas palavras sobre ela, já que eu era a pessoa mais chegada que todos conheciam. Não conseguia dizer palavra, mas tenho certeza de que foi ela que veio em meu socorro, ainda desta vez, e eu apenas disse:

- Não consigo dizer nada sobre ela hoje. Mas sei que podemos fazer algo de que ela gostaria muito. Rezemos a Ave-Maria, sua prece favorita.

Essa foi minha segunda mãe. Quando íamos ao consulado juntas, como as vestes de todos os convivas eram dos mais variados tipos, seu hábito não era interpretado como religioso e, como ambas tínhamos olhos claros, por muitas vezes perguntavam ao se aproximarem dela, após ela ser apresentada como a autoridade na área no Brasil:

- E esta é sua filha?

Ela sorria e apenas respondia:

- Posso dizer que sim.

- Seguindo os passos da mãe?

- Com certeza, sim.


Lembro-me de seu sotaque carregado, de um francês-bretão puríssimo. Lembro-me de suas peças traduzidas, linha a linha, pois eu fui revisora de todas, já que ela, sendo francesa, confiava em mim para a arte final. Tenho, até hoje, a tradução de sua última peça, cuja cópia tirei e cujos originais entreguei à Ordem Religiosa a que pertencia para que fosse devidamente publicada. Nunca aconteceu, pois isso jamais foi prioridade lá. Quando ela era viva, sua própria autoridade na Ordem lhe dava acesso direto à gráfica e às providências necessárias. Desta peça, eu fui a única privilegiada na leitura e sinto tê-la de guardar apenas comigo, pois os direitos autorais dependem da Ordem. Nada posso fazer.

Seu dicionário etimológico, segundo o que tinha me informado, em minha penúltima visita, já tinha chegado à letra R e estava esperando terminá-lo para colocar a revisão em minhas mãos. Adoeceu e faleceu em breve espaço de tempo. Quando a vi pela última vez, estava semi-consciente e dela apenas pude ouvir, a muito custo, que nosso próximo encontro seria na eternidade. Assim, nada pude fazer, pois não tive acesso a esses tesouros. Avisei à Ordem sobre a preciosidade que estava guardada entre seus pertences e que estava pronta a fazer as revisões necessárias. O original, no entanto, nunca chegou a minhas mãos. Eu já não trabalhava mais na Universidade, mas estava pronta a fazer o trabalho, sem custos, pelo tanto que ganharíamos, tendo esta preciosidade publicada. Seu dicionário não veio a público. E nunca mais soube de seus escritos.

Guardo com carinho as cópias dos originais de sua ultima peça traduzida, cuja tradução, aliás, não existe em português, até hoje. Sua letrinha tremida, fazendo comentários nas margens, segundo minha revisão.

Seu falecimento deu-se em 1990, justamente no seu aniversário de 90 anos. Dizem que é um privilégio morrer em seu próprio aniversário. Foi o que aconteceu.

Entre todas as memórias, guardo, sobretudo, a imagem fantástica daquela figura entre jovens com biquinis minúsculos e sungas justíssimas, ela, com quase oitenta anos, no final da década de 70, alisando as pranchas de surfe, chamando os jovens de senhores e senhoras e voltando com os olhos brilhantes, a mão cheia de pedacinhos de papel rasgados com vários números de telefones e me perguntando:

- Quando vamos à Pedra Bonita vê-los saírem em seus vôos?

Vez por outra, vou à Pedra Bonita, olhar a magnífica paisagem, dar asas a minha imaginação, descansar meus sonhos, carregar meus pulmões com o ar do Alto da Boa Vista e curtir esse pedaço de céu, em pleno Rio de Janeiro.

Entre meus pensamentos, ela sempre aparece e posso dizer com intensa felicidade interior:

- Agora você já pode voar de onde e para onde quiser, à vontade, com suas asas deltas naturais, entre a paisagem e os deuses.
Se tiver um tempinho, olhe um pouco por mim!

sábado, 10 de abril de 2010

MORAIS


Não fui aluna de latim do Morais. Infelizmente. Mas isso não quer dizer que não o considere um de meus maiores mestres. Fui sua aluna, de uma única aula, como você verá, a seguir.

Quando me formei e tive o privilégio de ser contratada pela própria universidade, ganhei de brinde o inestimável prazer de conviver com vários de meus mestres, na sala do cafezinho dos professores. Naquela época, existia.

No começo, sentia-me muito constrangida e pouco ia lá. Afinal, estaria tomando café com a maioria dos meus professores do ano anterior. Mas, aos poucos, fui me acostumando e lá aprendi muitas coisas do convívio acadêmico, chamado “informal”. Piadas como trocadilhos da língua portuguesa, entre conceituados gramáticos, alguns deles com renomadas gramáticas publicadas. Lembro-me do Morais conversando com um desses ilustres colegas que acabara de se mudar para a Barra da Tijuca. Na década de oitenta, isso significava muito luxo. E para um professor, então, só tendo mulher rica, no mínimo... mas isso não vem ao caso. O tal ilustre colega acabara de lhe dizer:

- Quando eu chegar à casa, avisarei.

Morais nunca perdia a oportunidade de um gracejo:

- Ah, claro, depois que você se mudou para a Barra só chega à casa. Eu, que moro em Botafogo, chego em casa mesmo.

É preciso dizer que Morais era queridíssimo dos alunos. Muitos madrugavam para se matricularem em seus cursos, quer por ser um mestre atencioso e sério em seus afazeres, quer por sua competência. A seriedade profissional, no entanto, não lhe tirava a graça, nem as piadas, sempre oportunas. Era competente e popular. Não fui sua aluna e lamento por isso, pois quando ele entrou para dar aula lá, eu já havia passado pelas disciplinas que ele ministrava.

Lembro-me de os alunos comentarem sobre suas aulas. Quando ele estava concentrado, com freqüência confundia o cigarro com o giz, tentando escrever com um e fumando o outro, pois sempre tinha os dois em suas mãos. Seria proposital, para manter a atenção? Como saber? E fazia da aula uma piada, o que ajudava a guardar o conteúdo. O que posso dizer é que não tinha nenhuma intimidade com ele e apenas o admirava à distância, restringindo-me a cumprimentá-lo gentilmente.

Não é apenas esse, no entanto, o Morais que trago no coração. Outro, muito mais grandioso se apresentou a mim, no momento mais adequado. O flash que tanto me marcou aconteceu numa manhã, depois de uma reunião do departamento.

Ocorre que a Chefe de Departamento tinha uma especial aversão por mim. E desde que subira ao posto, isso se tornava cada vez mais claro, não só a mim, mas a todos que me cercavam. Passou a ser uma coisa tão pública que não tinha como esconder. Aliás, ela não fazia nenhuma questão de esconder, verdade seja dita. Minha promoção que seria certa naquele ano deu adeus a meus sonhos. Meus artigos eram vetados, a revista que eu organizava com os trabalhos dos colegas simplesmente parou em sua mesa. Nada que eu fizesse ia para frente. Parecia que ela buscava pinçar ou adivinhar os meus passos para cortá-los antes que eu pudesse chegar lá. Só não conseguiu tirar minhas aulas de grego, mas até minha carga horária foi substancialmente diminuída.

Tudo corria às péssimas maravilhas e chegou ao ápice na tal reunião. A tal professora parecia meio neurótica. Marcava as reuniões sempre em uma sexta, às 7h30min da manhã e nunca terminava antes das 12horas. Quatro horas e meia de falação geral. Não havia tanto assunto assim, mas, uma vez por mês, ela nos reunia para seus infindáveis discursos sem muito objetivo e com implicâncias de todos os tipos. Uma chatice. Na verdade, era um suplício não só para mim, mas para todos os colegas. Naquela reunião, em especial, ela vetou três de meus projetos: o da revista, o de um congresso, o de uma pesquisa. Havia votação a favor, mas o argumento que ela apresentou, embora sabidamente não verdadeiro, era irrefutável: não havia verba para isso.

Então, eu estava lá, sentada, vencida, mas bem quieta, para não me arriscar a mais uma de suas pauladas. Num determinado momento, no entanto, senti necessidade de ir ao banheiro. Levantei-me, o mais discretamente que pude, e me dirigi para a porta. Como estava no fundo da sala, ir e voltar seria uma questão de momentos. Ademais, outros colegas já estavam fazendo isso, quer com o mesmo objetivo, quer para descansarem um pouco daquela lenga-lenga. Mas bastou que eu ameaçasse sair que fui logo abordada por ela:

- Eulalia, posso saber quem lhe deu licença para sair?

Pronto, ela achou, provavelmente, que era uma das freiras do meu antigo internato a quem uma aluna teria de pedir licença para fazer xixi. Meu sangue jovem subiu, mas cautelosa, desceu rápido também. Não iria entregar os pontos, depois de ter resistido quieta, até ali. Fosse outra pessoa, talvez eu brincasse, mas apenas respondi seriamente:

- Desculpe, mas, infelizmente, a sala não nos oferece toalete. Eu preciso me retirar para cumprir uma necessidade física.

Não soou como piada, pois não era essa intenção. O enfoque era mesmo de indignação. Virei as costas e saí, não antes de notar que muitos de meus colegas olharam diretamente para ela, igualmente indignados. A essa altura, a perseguição era tão aberta, que eu tinha conquistado, mesmo sem querer, a simpatia de todos, mesmo de meus antigos professores, que eram antigos colegas de trabalho dela. Alguns já até tinham falado comigo, pedindo paciência. E paciência era mesmo o que eu tinha, a duras penas, mas tinha. E a exercitava calando-me. Há tempo para tudo e eu estava consciente de que aquele... era tempo de silêncio. Dadas as circunstâncias, eu sabia que o contrário seria o mesmo que dar murro em ponta de faca.

Este dia, no entanto, foi a gota d’água. Decidi pedir demissão. Eu era jovem e não precisava me subjugar a tanta perseguição. Haveria outros empregos. Eu estava terminando o doutorado, não havia razões a temer. Aos meus trinta e poucos anos, o mundo se abria em oportunidades para mim. Deixaria para trás grandes amigos e uma universidade de que gostava muito. Tinha me formado ali, me sentia muito querida por alunos e colegas. Mas resolvi me demitir e deixar que a rainha seguisse com seus súditos em paz.

A universidade em que eu lecionava naquela época tinha uns janelões lindos que davam para um lugar privilegiado do Rio de Janeiro. Como aluna ou professora, quantas vezes eu me debrucei ali para olhar a paisagem, conversar com colegas ou simplesmente descansar meus olhos. Nessa ocasião, no entanto, o olhar era de despedida. Queria decorar a paisagem que jamais veria de novo. Sairia dali para escrever minha carta, entregá-la no mesmo dia e nunca mais voltar. Estava acabado, eu me rendia.

Absorta, assim, em meus pensamentos, não percebi a aproximação de ninguém até que uma mão suave pousou em meu ombro. Virei-me. Era o Morais. Havia estado na reunião, que assistira calado, sem intervenções. Sequer tinha dado por sua presença, já que éramos 40 professores. Mas ele estivera lá, agora eu percebia. O mestre me sorriu, como se fôssemos aluno e professor. Devolvi-lhe um sorriso triste, sem palavras. Nada diria a ele. De que adiantaria? Não tínhamos qualquer intimidade. Ademais, isto era um segredo interior, algo que só cabia a mim arquitetar, colocar em prática e me retirar. Sem mais conflitos. Mas ele estava ali e, na verdade, eu não sabia o que ele pretendia. Nunca viera falar diretamente comigo. Nossos encontros se davam, apenas, na sala dos professores. Mas ele estava ali, sorrindo docemente até que me perguntou:

- Você me permite que lhe diga uma coisa?

- Claro, respondi.

Olhou-me profundamente, seu sorriso era brando e doce:

- A inimigo, querida, não se pede nada. Nem demissão.

Alisou meu cabelo, virou-se e afastou-se devagar, sem olhar para trás. Ele percebera. De todos, ele percebera. E buscara a palavra certa para o meu coração.

Não pedi demissão. E tive, desse grande e silencioso amigo, uma das aulas mais importantes de minha vida. Uma única aula. Inesquecível.

Dois anos depois, mudamos de chefe de departamento e eu fiquei ali, ainda, por uns três ou quatro felizes e maravilhosos anos.

Doce amigo, obrigada. Sua frase foi repetida por mim, várias vezes, no decorrer de minha vida. Esteja certo de que você salvou não apenas a mim, mas a muitas outras pessoas, através de mim, boa aluna que fui, naquela manhã de sexta.