Contos verdadeiros, talvez enfeitados pelo meu amor pela vida. Agradeço a motivação insistente de amigos e amigas, sem a qual eles jamais teriam saído do meu computador.
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sábado, 7 de janeiro de 2012
LINGUISTA
Nasci lingüista, não teve jeito. Lembro-me que, aos quatro ou cinco anos, já sapecava minhas encucações com as palavras da nossa língua. Sei que tinha essa idade pelas lembranças que guardo das casas em que vivi na infância: até os cindo anos e meio, na Tijuca; daí até os sete, no Meier.
Assim, quando me lembro dos fatos da infância, marco minha idade mais ou menos pelas fotos na mente de onde eles ocorreram. E isso aconteceu na Tijuca, eu em torno da mesa quadrada da sala de jantar. Naquela época, meus irmãos estudavam na sala, em volta da mesa, com um abajurzinho cujo formato e cúpula estão gravados em minha mente até hoje. Eles eram muito mais velhos do que eu - o mais novo contava 8 anos a minha frente. Eu os olhava como três adultos, muito velhos. E respeitáveis, é claro. E fumavam, não me lembro se já todos os três... mas quem fumava, fumava muito. Assim, com a sala toda em neblina e uma concentração para colocar qualquer gênio em estado de completude, não me sobrava espaço senão para pensar... e pensar muito.
Isto porque, quando meus irmãos estavam estudando, a ordem era poder “ouvir uma mosca voar no ar.” E isso valia para todo mundo, mesmo para uma garota de cinco anos como eu. Lembro-me que o menor som que eu pudesse soltar era acompanhado pelo célebre:
- Seus irmãos estão estudando, não faça barulho.
Assim, eu não tinha outra saída a não ser acompanhar o estado de concentração de toda a casa, colocando minha cabeça para funcionar, já que não podia funcionar com o resto. E funcionava muito, diga-se de passagem. Eu não podia imaginar o que era “estudar”... eu nem sabia direito o que era escola! A única coisa que eu sabia é que o que eles estavam fazendo era algo muito muito importante. E fumavam como chaminés.
Um dia, me lembro bem, fiquei cismando com aquela fumaça. Estava sentada no chão, um pouco distante, olhando que desenhos a fumaça densa formava no ar. O abajurzinho, no centro da mesa, dava à fumaça um tom diferente, com sua luz oblíqua engendrando várias formas. Me fixei no abajur.
Não sei por que, comecei a repetir para mim mesma o nome das coisas: mesa, cadeira, teto, chão, janela... abajur? Não combina. Não, definitivamente, abajur não combina com o conjunto.
Todas as minhas dúvidas eram sempre tiradas com meu padrinho de batismo, vale dizer, meu irmão mais velho, para mim o responsável direto pela minha educação. Olhava-o como quem olha para o dono de todas as verdades. Por isso, me aproximei devagar, como quem tem medo de interromper. Mas era sempre assim que eu fazia e parece que ele já estava acostumado. Eu esperava a deixa, até que ele olhasse para mim, perguntando o que eu queria. Isso era mesmo um ritual.
Hoje, fico imaginando como deve ter sido pesado àquele jovem de 16 ou 17 anos, tomar para si o encargo de ser um “verdadeiro padrinho” durante todo o dia, já que meu pai só chegava tarde da noite em casa. Em sua ausência, o comandante era ele.
Ah... e como eu respeitava isso...
Assim, fui chegando, em silêncio, e fiquei na beirada da mesa, olhando para ele. Com certeza, uma hora dessas, ele iria perceber, se virar e perguntar o que eu queria.
- O que foi?
- Por que abajur se chama abajur?
- Ora, porque é esse o nome dele!
- Mas não combina!
- Como não combina? Tem de combinar?
- Tem. Teto combina, mesa combina, chão combina, janela combina... mas abajur não combina!
- É um nome francês. Todo mundo chama assim.
Eu não sabia o que era francês. A única coisa que eu sabia é que esse nome não se encaixava na lógica da minha cabeça.
- Mas não combina!
- Por que teto, mesa, cadeira, chão, janela você aceita e abajur não? Foram todos nomes dados à coisas!
- Pois é... mas esse não combina.
- Em português também chamam de quebra-luz, mas é um nome muito antipático.
- É, mas quebra-luz combina, abajur não combina.
- Então chame de quebra-luz e me deixe estudar.
Saí dali convicta de que o nome daquilo, mesmo feio, tinha de ser quebra-luz, pois isso, sim, combinava com mesa, janela, cadeira, teto e chão.
Eu não podia imaginar que o que estava em jogo era a lógica de construção morfológica dos nomes de nossa língua e, evidentemente, abajur não estava na lista da composição mórfica de uma menina de cinco anos, atenta aos nomes das coisas.
Quem pediu uma lapiseira ao Papai Noel e implicou com o nome “abajur”, só poderia mesmo fazer Letras e virar lingüista um dia...
sábado, 25 de junho de 2011
TONIQUINHO
Irmã Antonieta foi nossa mestra de classe no quarto ano fundamental, naquela época intitulado quarto ano primário.
Para fazer contraste com a Irmã “Cruz Credo”, eu tinha de contar, também, minha história com Irma Toniquinho. Pois é... Toniquinho ou Tonico foi como a minha turma apelidou essa religiosa nascida para ser mãe.
Claro que às vezes fazia sua cara amarrada, mas era até engraçado, pois não levava jeito para isso. O fato é que, com sua amorosidade, ela conseguia tudo da gente e não me lembro de uma disciplina consentida tão perfeita em outro ano de internato. Nós queríamos agradá-la, esta é a verdade, brindá-la com nosso amor, por tanto amor recebido.
Alda, uma de minhas colegas, foi quem colocou o apelido, que coincidia, perfeitamente, com o perfil da irmã: pequenina de porte, faceira, espertinha e descolada nas respostas às perguntas mais incríveis que inventávamos para lhe fazer. Não era jovem de corpo, mas era jovem e bem responsável de espírito. Sentíamos que estávamos seguras com ela, ao mesmo tempo sábia e brincalhona, o ideal para cuidar com amor e aconchego de uma turma de meninas que contavam entre 10 e 11 anos de idade.
Um dia, sem querer, Alda, em vez de chamá-la pelo nome, tascou o apelido:
- Irmã Toniquinho!
A freira se virou de pronto, a turma congelou. E agora? Ela descobrira! Acostumadas que estávamos às ranzizices das freiras das turmas anteriores, esperávamos que, mesmo sendo muito boazinha, Alda contaria com uma boa reprimenda, no mínimo!
Lembro-me que todas silenciamos, olhos fitos na freira. Ela primeiro ficou muito séria, depois soltou um pequeno sorriso e disse que precisava falar com todas, quando chegássemos à sala de estudos. Estávamos no recreio do jantar, isto é, misturadas com alunas de outras séries. E havia uma etiqueta bem protocolar no colégio: cada turma tinha lá os seus problemas e a mestre de classe jamais os expunha em público. Em outros termos, bem cedo aprendi que “roupa suja se lava em casa”.
Seguimos para a sala e fomos surpreendidas com o seguinte discurso:
- Meninas, eu já conhecia esse apelido que vocês me deram às escondidas. Fico agradecida pelo carinho e o acho muito bonito. Só que precisamos combinar uma coisa: ninguém pode saber disso em público. Não fica bem vocês chamarem sua mestra de classe de “Toniquinho” ou “Tonico”. Assim, vamos restringir esse tratamento aos momentos em que apenas nós estivermos presentes. E tomem muito cuidado, quando estiverem em público.
Não é preciso dizer que todas nos levantamos dos lugares e a rodeamos tão cheias de amor no coração quanto o amor que ela tinha para nos dar. Toniquinho aceitava o tratamento de você, não de senhora, como era de praxe entre alunos e mestres, sabendo de sobra que respeito se faz com o convívio e não com imposição. Mas tudo “só entre nós” segredo que nos aguçava, ainda meninas, a cumplicidade necessária para a conquista de nossos ainda tão ingênuos corações.
Tonico ou Toniquinho conseguia tudo que queria: desde filas impecáveis e silenciosas nos corredores, como o melhor comportamento à mesa do refeitório, postura impecável na Capela, pontualidade, assiduidade, e compromisso. Tudo feito com alegria, bom gosto, satisfação. No recreio, dessarte não ser tão jovem, Toniquinho jogava queimado com a gente e também participava do pique bandeira. Era mesmo muito diferente de tudo que vivi, entre todas as experiências de meus dez anos de internato.
Para melhorar a história, não sei como, embora fosse critério do colégio que as mestras permanecessem sempre como guardiães da mesma série e nós é que mudássemos de mestre de classe a cada ano letivo, Toniquinho foi nossa mestra por dois anos seguidos: quarta e quinta série fundamentais. Eu acho que ela mesma deve ter mexido lá os seus pauzinhos, pois, com toda certeza, nunca teve uma turma em que ela sentisse tanto amor transbordar. Uma pena não poder nos seguir por todo o percurso acadêmico. Eu teria sido brindada com a melhor “mãe” do colégio.
Mas, tudo bem... eu e toda a turma tivemos a oportunidade de viver dois anos da mais pura harmonia e encantamento. Toniquinho sempre esteve ao nosso lado de uma forma muito especial, ensinando, curtindo, disciplinando e incentivando nossas mentes e nossos corações para mostrar-nos as melhores qualidades do ser humano em si mesmo e em convívio com os demais.
Toniquinho, onde quer que você esteja - provavelmente sendo chamada de Toniquinho pelos anjos -, obrigada, querida, devo muito do que sou a você!
Tim-tim!
sábado, 2 de abril de 2011
A CORTINA
Considero-me privilegiada, morando em um canto tranquilo de Copacabana, a uma quadra de todo o bulício, sem que ele me perturbe. Mas quando me mudei para esta rua, em 1973, não foi direto para o apto que moro hoje. Foi, justamente, para o prédio em frente, sala e quarto, digamos, um “apertamento” ajeitadinho, bem ao estilo dos antigos apartamentos de Copa.
Minhas janelas davam para outro prédio, cheinho de janelas e, por trás, o morro da ladeira do Leme, do qual só via o topo, mesmo morando no décimo primeiro andar. De minha janela, no entanto, dava para ver um lindo e distante coqueiro, que namorava todos os dias, sem exceção, dando-lhe bom dia, boa tarde e boa noite, como acontece com os enamorados. Um coqueiro solitário, lá no alto que, não sei por que me hipnotizava e me encantava. Soberbo e humilde, altivo e flutuante, cheio de promessas benfazejas, símbolo misto de companheirismo e abandono. Refletia minha alma em seus dias ensolarados ou chuvosos, deixando-se levar pelos ventos e tempestades e brilhando aos raios do sol. De onde moro, agora, consigo ver a mesma montanha, mas em outro ângulo da rua e não vislumbro o meu coqueiro. Será que ainda existe? O fato é que, enamorada e jovem, muitas vezes me punha à janela do quarto para pensar com ele sobre tantas coisas que nem sei.
Um dia, ao me postar à janela do quarto, no entanto, meus olhos distraídos pousaram sem querer numa das janelas do outro lado da rua. Acho que o fiz por causa do movimento e do chamado constante, gritado, que vinha de lá. Era uma menina, bem pequena, que acenava para mim. Uns quatro anos, no máximo. Gritava por “tia” e me dava adeus. Por delicadeza, correspondi à pequena princesinha, achando a idéia generosa e gentil. Mal sabia eu o que isso poderia ter de significado para ela. No começo, na verdade, não dei muita atenção. Depois, no entanto, passei a perceber que a jovenzinha ficava esperando que eu aparecesse à janela, apenas para acenar para mim. No início, senti-me um pouco invadida em minha privacidade, na verdade, na privacidade que eu buscava com o meu coqueiro. Depois, por gentileza, passei a acenar para ela e percebia que era como se ela tivesse, enfim, encontrado alguém com quem brincar.
Lembrei-me de minha infância, no colégio, com tanto espaço para os recreios e jogos e passei a me simpatizar com a pequena jovem do outro lado da rua, talvez sempre presa em casa, não tendo distrações e esperando pela “tia”, apenas para dar-lhe um adeuzinho, de vez em quando. Meu coração passou a sentir uma grande empatia com a nova geração e, talvez, hoje eu entenda melhor a solidão dos pequenos jovens, frente à internet, buscando seus companheiros virtuais desde cedo. Há os saudáveis avanços da tecnologia, é claro, mas também há pais que trabalham o dia todo, muitas vezes deixando essas crianças órfãs de folguedos.
Quantas delas, hoje, saberão jogar queimado, pular amarelinha, brincar de roda, de pique-cola, pique-alto, pique-baixo, pique-esconde, bandeirinha, ping-pong e tantos outros jogos que nos davam um cotidiano onde podíamos nos tocar de verdade, com companheiros de carne e osso, com reações imprevisíveis, não mecanizadas, com as quais o cotidiano nos preparava para o convívio real? Sem contar que nos faziam acabar os recreios suadas e cheias de vida, neurônios em festa, num corpo cheio de boa circulação sanguínea...
Mas deixemos de saudosismos. Voltemos às recordações e a uma princesinha solitária.
O fato é que, na década de 70, os computadores não existiam e, em sua solidão, talvez eu fosse sua esperança de festa. Talvez, quem sabe, eu representasse para esta pequena flor da infância, o que o coqueiro representava para mim. Não me dava conta, no entanto, dessa possibilidade. Só descobri alguns anos depois.
Morei naquele prédio de 1973 a 1978. Digamos que minha princesa deve ter-me descoberto em torno de 1976 e daí por diante, ainda que minha vontade me levasse à janela em busca de encontrar-me a sós com meu coqueiro, dava vazão à alegria daquela pequena jovenzinha. Nunca deixei de acenar-lhe, vez por outra, todos os dias em que ela me buscava com seus bracinhos gentis e seu sorriso sedutor. Para mim, no entanto, não passava de uma gentileza.
Os anos passaram, mas isso sempre persistiu. Nunca tive vontade, no entanto, de conhecê-la de perto. Os acenos de boa vizinhança eram suficientes.
Em 1978, depois de muito procurar, achei o apartamento dos meus sonhos. Digamos que o apartamento me fisgou, pois foi justamente o que aconteceu: o porteiro do prédio em questão, sabendo de minha busca através da cunhada que era minha faxineira, fez a gentileza de tocar a minha campainha e dizer que havia um apartamento à venda no prédio que moro hoje. Apenas me custaria atravessar a rua e já estaria na portaria do tal prédio. Mas a fachada nunca me seduziu e, embora pudesse ver a parte do apto por dentro da janela do meu quarto, nunca me chamou a atenção. A felicidade precisou bater deliberadamente a minha porta, puxar-me pela mão para eu poder enxergá-la.
A compra do apto não foi fácil, visto que o dono era uma dessas pessoas que buscam tirar vantagem até do que não existe. Mas pulemos este pedaço. O bom da história é que vendemos o apartamento onde morávamos felizmente com a rapidez necessária para darmos entrada neste outro, fizemos o famoso financiamento e, seis meses depois, era apenas uma questão de atravessar a rua para transferir a mudança.
É preciso esclarecer que eu não estava indo morar no mesmo prédio da princesinha. O meu prédio era de esquina, o dela ficava em frente e eu estava atravessando a outra rua, para o outro lado.
Confesso que não estava dando importância para a mudança, em termos do que poderia significar para ela. Assim, ao tirar a cortina, apenas acenei gentilmente, numa despedida carinhosa. Não notei sua tristeza, sua angústia, seu desespero.
Esqueci, na verdade, bem rápido da pequena jovem e da mudança. O que mais se destacava eram as saudades do meu coqueiro. Eu realmente não sabia o que poderia estar significando minha mudança para ela.
Um mês depois, no entanto, ao sair do meu prédio, me deparei com um pai e sua filha de mãos dadas. Ao me ver, ele se dirigiu diretamente a mim, dizendo:
- Puxa vida, você nem imagina quem você é para a minha filha!
Olhei a menina, sem reconhecê-la. Encostava-se ao pai, envergonhada, como acontece frequentemente com crianças perto de adultos. Mas não tirava os olhos de mim. Ele continuou:
- Ela é a menina a quem você dava adeus da janela, no outro prédio. Quando ela viu que você estava se mudando, chegou a ficar com febre, ansiosa, pensando ter perdido você para sempre. Mas no dia seguinte, você colocou a cortina em sua nova casa e você precisava ver o escândalo que ela fez, quando reconheceu a cortina, dizendo que você tinha apenas mudado de prédio e não de rua e que não havia perdido a tia. Só que, lá, você não fica na janela e ela fica esperando à toa.
De fato, pela composição do minúsculo apartamento, volta e meia, eu estava a um passo da janela. Neste novo, não só pelo espaço, mas pela disposição do mesmo, raramente eu passava perto da janela da sala. E havia mais uma razão: no apartamento antigo, eu gostava de ir à janela para pensar olhando para o meu coqueiro e, não podendo mais vê-lo, a janela, dando apenas para uma rua tranqüila, perdeu o significado para mim. O prédio da menina passou a ficar num ângulo à esquerda, para mim despercebido.
Eu não podia imaginar o valor que teria o meu adeus para a pequena e solitária menina!!! Fosse hoje, mais madura, eu teria dado muito mais importância ao caso. A menina estava ali, olhando para a sua “tia fada” e eu apenas (apenas!) sorria para ela, sem mais festa do que a de um encontro de vida, uma gracinha, uma coincidência. Nunca tínhamos nos encontrado na rua e eu apenas conversando com o pai, enquanto, na verdade, eu deveria estar dando total atenção à jovenzinha. Só me dei conta disso depois! Posso imaginar a decepção que ela deve ter tido, mas, aí, talvez, já tivesse sido tarde demais. O fato é que, vez por outra, dirigia meu olhar em direção às inúmeras janelas do grande e suntuoso prédio da menininha. Mas, na verdade, não sabia exatamente qual dessas janelas lhe pertencia. E não a vi mais. Talvez a tivesse decepcionado cruelmente. O encontro não lhe deu a dimensão esperada da mesma carinhosa acolhida... ou, talvez, a "estrela", uma vez na terra, tenha perdido o seu brilho. É bem provável que tenha sido isso. Ou os dois.
Nunca mais a vi. Mas quando me lembro, sinto uma dor indecifrável por dentro. A dor de não ter correspondido aos seus sonhos, aos seus anseios, a sua dedicação. Há coisas que fazemos que não tem conserto. Espero que não tenha sido tão triste para ela quanto imagino. Gostaria de vê-la para saber. E dizer o quanto sinto não ter sido uma fada de verdade, uma tia digna de suas expectativas.
Não posso imaginar se ela ainda mora lá ou não. Não sei em qual janela seria, no meio de tantas que compõem o prédio que faz quina com o meu... e também há muito não ostento minha cortina azul. Mas gostaria de saber sobre seu paradeiro, se é feliz, que caminhos trilhou. Pelo tempo transcorrido, deve estar com mais de 30 anos...
Quem sabe, um dia, por acaso, ela me leia e queira acenar, uma vez mais da janela, para mim, ou colocar algum comentário, aqui mesmo. Será muito bem-vinda.
Mas se ela ler e preferir o silêncio, gostaria, apenas, que ela soubesse que, se fui o seu “coqueiro”, por algum tempo, quem sabe seja bom para ela também saber que não a esqueci.
sábado, 12 de março de 2011
O NOIVO (2)
Como prometi na semana passada, o resto do conto sobre meu amor de infância - a bifurcação do caminho:
Num belo (belo???) dia, soube que iríamos nos mudar da Tijuca para o Méier. Eu não sabia onde era, mas qualquer lugar que fosse maior do que a distância de um muro representava o outro lado de um mundo longínquo e desconhecido. Corri em prantos para ele. Eu seria levada embora! O que iríamos fazer? A dor era intensa; o susto, tamanho; a angústia, fatal. Pensei que não agüentaria a força do medo pulsando dentro de mim. O coração explodia, quase não conseguia respirar. Choramos os dois. Muito. Minhas mãos, coladas às dele, suavam. As dele também. Eu não via saída, só via o fim. E o silêncio dele, vê-lo pela primeira vez sem resposta, inaugurou em mim, o conhecimento das forças irrefutáveis dos rios da vida. Primeira sensação de morte. Eu não estava indo embora, estava sendo arrancada da felicidade.
Seus olhos azuis encontraram os meus, avermelhados pelo baque do abismo que a vida urdia contra nós. Sabia o que se passava em sua cabecinha masculina, impotente para me salvar. Sabia, sabia de cor e salteado, como sempre. Sabia de sua dor, no momento, tão profunda como a minha. Não se tratava de um dentinho a ser retirado. Que tipo de carinho poderia ser mantido, acolhido, que amor protegido e resguardado, diante do sacrilégio daquele momento?
Esta é a última lembrança nítida que tenho das palavras de meu doce companheiro:
- Não chore, não vamos chorar. Estamos com seis anos, um dia, vamos ter dezesseis. E quando tivermos dezesseis, vou achar você e já seremos grandes e vamos nos casar.
Não casamos, não nos encontramos. Mas não namorei ninguém, até os dezesseis anos de idade. Paquerei muito, brinquei muito, mas meu primeiro beijo só foi dado, quando, aos dezesseis, finalmente, consegui perceber que o verdadeiro significado de meu noivado era com esse perfil lindo de figura masculina, preservado, para sempre, graças ao convívio com aquele pequeno e doce príncipe de infância.
Vivi a vida, me casei, me separei, namorei muito. A imagem do masculino que ele perfilou, para mim, buscou moldar a visão de um homem companheiro e um parceiro de caminhada, o perfil que você, neste pequeno relato, pode vislumbrar.
Mas a história não acaba aí. Aos dezoito, a vida me fez encontrar a irmã mais velha dele. Coisas que não dá para explicar. Durante a conversa, nos reconhecemos, não me lembro como. Ela me deu o número do telefone deles. Eu não tinha um. O contato estaria, portanto, em minhas mãos, a não ser que a ele interessasse se mover, através da irmã, que sabia onde me achar, pelo endereço que lhe dei, um papel qualquer, talvez perdido em sua bolsa para sempre. Eu estava namorando. Ele, não sei. Não nos encontramos, não nos falamos. Cheguei a ligar uma vez, ninguém atendeu. Não liguei mais. Anos depois, talvez uns dez ou quinze, já casada, buscamos um dermatologista para resolver um problema de pele de meu ex-marido. Por coincidência da vida, era seu tio! Foi ele quem me reconheceu, perguntou se eu não era a menininha, filha do Sr. Joaquim, que havia morado na Rua Marechal Trompovsky, na Tijuca. Eu mesma. Me deu notícias de meu amiguinho, casado e com dois filhos. Perguntei se estava feliz. Ele disse que sim. Perguntei se era ortodontista, como o avô. Ele disse que sim, e dos bons. Sorri. Pedi que lhe dissesse que mandava um beijo e recomendações a toda a família. O avô tinha falecido, ele e o pai (também dentista) trabalhavam juntos no consultório que fora do avô. Era o fio de informação que seria vital para mim, muitos e muitos anos depois.
A vida passou. Me separei, tive outros relacionamentos. Fiz 50 anos. Me lembrei dele, no dia do meu aniversário. Bodas de ouro. Ele também fizera. Uma imensa gratidão brindou meu coração. Imensa. Imensa. Quis mandar um cartão de aniversário, acompanhado da manifestação dessa gratidão que transbordava pelos meus poros.
Busquei o catálogo telefônico. Achei o sobrenome do avô e o endereço do consultório (o tal fio de informação, dado pelo dermatologista, há mais de vinte anos atrás). Daí a achar o número de telefone atual foi um pulo, pois sabia o nome do novo dentista de cor, claro. Liguei. Ele não estava. Tinha outra clínica, também, em outro lugar. Mas eu só queria conferir o endereço. Não queria entrar em sua vida e, sinceramente, não estava pensando nele entrando na minha. Mas havia uma profunda paz, uma imensa gratidão que urgia em se manifestar. De repente, também quis conferir a sua voz. Liguei para a tal outra clínica. Chamei pelo nome:
- Dr. (...), está?
Mas eu já havia reconhecido a mesma voz pelo alô, só que adulta. Ele confirmou:
- Ele mesmo.
Inventei um nome: Maria de Fátima. Perguntei se atenderia o meu filho. Só queria encompridar o papo, conferir o som, no meu coração. A gentileza era a mesma. No fundo, era ele. Poderia mandar o meu cartão, sem problemas. Disse que ligaria para o outro consultório, pois seria mais perto para mim. Motivo encontrado para não marcar nada, para desligar, para não ter de dar um nome de um filho que eu não tinha.
Fiz o que havia me proposto: um agradecimento pela figura tão linda que tinha povoado a minha infância. Não havia mesmo outra intenção. Aos cinqüenta anos, revivendo os caminhos de minha vida, reconhecia nele, muitas de minhas escolhas. Não disse, mas sabia. Mandei o cartão e fiquei em paz. Não dei pistas, não deixei meu número de telefone, apenas o meu endereço de remetente. Lingüista, escrevi de tal forma que ele se sentisse apenas contemplado pela gratidão, carinhosa e delicadamente. Segui em paz. Para mim, havia completado o ciclo, fechado com chave de ouro, não deixando em aberto uma vivência tão linda e tão importante em minha vida. O personagem coadjuvante tinha o direito de saber o quanto fora importante para a formação do meu feminino. Os dias se passaram. Esqueci o fato.
Sinceramente, não pensei que os homens fossem tão curiosos quanto as mulheres ou, talvez, também tão preciosos em suas memórias. Não sei quanto tempo depois, talvez um mês, recebi um telefonema. Uma secretária:
- Um momento, Dr. (...) vai falar.
Dr. (...)? Eu não fui a médico algum... do outro lado da linha, a minha infância se manifesta:
- Você não tem idéia do trabalho que me deu achar você!
Eu ri, com a mesma cumplicidade de quarenta e cinco anos atrás.
- Foi mesmo?
O riso dele também era o mesmo:
- Claro, não sei nada de você, não sei se está casada, se podia ligar sem problemas, passei pela porta de seu prédio um monte de vezes, seu número não está na lista telefônica, consegui um telefone de um vizinho seu que me deu seu número (coincidência da vida mesmo, pois era o único vizinho, no prédio inteiro, que tinha o meu número de telefone...) e coloquei minha secretária para ligar para você direto, mas só caía na sua secretária eletrônica. Quero te ver.
Tudo isso assim, num fôlego só.
Nos vimos, ainda cheguei a ver seu pai vivo, numa das salas de seu imenso consultório. Velhinho, morreu pouco depois de minha visita, mas me reconheceu:
- Ah, sei, você era aquela amiguinha, vizinha da casa da minha mãe...
Sorriu para mim, me abraçou tão carinhosamente que me surpreendi com a emoção que senti. Naquele momento, me senti abraçando as emoções fiéis do passado, vendo nele, o que se tinha conservado de traços imutáveis. D. Mariazinha, a avó, estava viva, com perto de cem anos! Segundo ele, continuava a mesma... como eu gostaria de tê-la reencontrado!... Mas não cheguei a vê-la, morando fora do Rio. Meu amiguinho teve mais irmãos, depois que nos separamos. São cinco filhos, ao todo, quando eram apenas três naquela época. Cheguei a conhecer sua irmã mais nova. Uma gracinha! Também conheci seu filho mais velho. Um belo rapaz, seguindo os passos do pai.
Meu amigo mudou muito, é um homem de negócios, de vida particular muito conturbada, tem lá os seus problemas. Pelos meandros de nossos caminhos, seus princípios de vida se diferenciaram muito dos meus. Traçamos percursos tão diferentes que não consigo reconhecê-lo com os traços de infância. Tantas coisas devem ter acontecido...
Nos falamos por telefone vez por outra. Talvez tenha ido uma ou duas vezes a seu consultório, atualmente tão perto do meu, para um brevíssimo café. Ele também me visitou algumas vezes. Consigo ou tento reconhecer alguns traços, tão poucos, do que restou de meu querido amiguinho... prefiro imaginar que seja feliz, muito feliz, pois era assim que meu coração gostaria de encontrar quem me fez tanto bem.
Brinco ao dizer-lhe que nem ele mesmo conseguiria tirar de mim o que guardo de nossa infância. Mas a gratidão continua a mesma, tatuada em meu coração.
sábado, 5 de março de 2011
O NOIVO
Poucas mulheres puderam, como eu, ter tido um príncipe ao vivo e a cores, sondando seus passos de infância.
E esse não era um príncipe encantado. Era humano. Não saíra dos contos de fadas. Podia tocá-lo a qualquer instante. Talvez por isso, na minha adolescência, enquanto minhas colegas colecionavam retratos dos Beatles e respondiam àqueles questionários com nomes de artistas de filmes, cantores ou outros ídolos, nas questões que investigavam quem indicar como modelo de homem para elas, eu colecionava paisagens, escrevia poesias para um alguém indeterminado, mas bem delineado em meu coração e respondia àquela pergunta “quem você escolheria para se casar”, apenas dizendo: um homem que possa guardar com carinho meu rosto em suas mãos. Eu havia vivido isso... e com intensidade. Estava marcada, tatuada por uma vivência inesquecível.
Apenas um muro me separava da realidade desse encantamento. Sua avó morava ao lado e, já aos cinco anos, ele sabia muito bem com quem iria se casar quando crescesse. Descobri isso numa tarde despregada de domingo. Aos cinco anos, eu só conseguia identificar os domingos, por ver toda a família dele almoçando na casa da avó. Ah... o feijão de D. Mariazinha, de gosto e leveza inesquecíveis...
Meu príncipe estava encarregado de levar, lá de casa, o famoso pão-de-ló, obra prima de minha mãe, para a sobremesa da família. Unha e carne, como diziam, estávamos colados um ao outro quando ouvi sua voz límpida e firme entregando o doce a avó, na frente de todos que estavam sentados em torno da mesa:
- Aqui, vó, o bolo da sogra.
Estava firmado o noivado, com os pais, irmãos, tios e avós presentes.
Engraçado, num gesto espontâneo, não premeditado, por coincidência (?), ninguém da minha família. Desde cedo, refletiam-se os caminhos de minha identidade com o mundo. Mas isso é outra história... Voltemos aos fatos.
Senti o coração bater com força. Eu não sabia bem o que significava, mas sabia que, naquele momento, era para sempre. Minha alegria interior era tamanha que colei os pés no chão para não cair, sorriso por dentro, encabulamento por fora, diante do riso solto e descontraído que esta frase simples e ingênua roubou de todos, acompanhado da observação do avô:
- Ora veja só... escolheu a moça de olhos mais lindos que já vi e de alma irmã a sua, meu neto.
Ele era apaixonado pelo avô, então, qualquer coisa que dissesse, era lei. Estava, pois, firmado e confirmado o compromisso, perante o avô e o mundo. Mas ele era assim, ouvia as coisas com a maior simplicidade do mundo e, pelo menos por fora, agia como um homenzinho miniatura, gigante aos meus olhos, senhor das situações, sabendo muito bem o que fazia. O encantamento estava sempre espalhado por toda a parte, permeando a naturalidade com que ele encarava todos os nossos interesses comuns. O encabulamento ficou apenas por minha conta...
Não havia segredos entre nós, pois líamos os pensamentos um do outro, num relance de olhar. Às vezes, nem isso. Os adultos diziam que nossos corações deveriam bater no mesmo ritmo, tão evidente tudo se fazia.
Lembro-me que ele era ligeiramente mais baixo do que eu, mas o suficiente para incomodá-lo. E na única foto que guardei de nós dois, lembro-me que, sem combinarmos, ele levantou um tiquinho os calcanhares exatamente no mesmo momento em que me encolhi toda, o mesmo tiquinho... o suficiente para que a diferença não aparecesse tanto. Essa era a sincronia de nossas atitudes. Eu não me incomodava por ser mais alta, ele já era grande aos olhos da minha alma, mas não queria que ele se visse mais baixo na foto...
Ele não sabia andar até a pracinha sem ser de mãos dadas comigo. Se algum garoto tivesse a gracinha de me chamar de vesga (eu era estrábica), não importava a altura ou a idade do tipo, ele avançava, leão em sua pequenez, pronto mesmo para bater, dizendo:
- São os olhos mais lindos mundo e ela é muito bonita também!
Um pouco possessivo, confesso, pois eu só podia brincar com ele. Mas, àquela altura, estava ótimo para mim. Era o melhor amigo de folguedos que eu conhecia e ele cuidava para que tudo fosse seguro e confortável. Eu me sentia mesmo uma princesa, sem o saber.
Lembro-me de nossa inocência, de nossa naturalidade, de nossa cumplicidade. Foi com ele que me deparei, pela primeira vez, com a aparência do sexo oposto, no sentido literal da palavra. Apertado, num dia qualquer, ele encostou-se numa arvore e fez ali mesmo o que mais precisava fazer. Olhei encantada para o que jamais vira e apenas disse:
- Que aparelhinho prático! Quero ter um também!
Ele voltou-se sério:
- Você não pode ter um!
Perguntei por que, como se fosse o maior e mais burro impedimento do mundo. Lembro-me de sua solenidade:
- Se você tivesse um, seria um menino e não poderia se casar comigo, quando crescesse.
Pronto, ali mesmo, fazendo xixi, ele conseguiu, num só ato, resolver suas necessidades práticas e momentâneas, desfazer os complexos que algum adepto de Freud levaria anos para tirar de mim quando eu crescesse, me conceder o conhecimento saudável das diferenças e me dar a alegria inenarrável de tê-lo como parceiro. Ficou tudo certo, no mesmo segundo, e eu jamais iria querer ter aparelhinho prático algum.
Chegamos em casa (a casa da avó) e a primeira coisa que ele fez foi contar a aventura à velha senhora (adultos grisalhos são velhos para crianças de cinco anos ainda mais quando já são avós...), brincando ingenuamente com a minha ignorância. Ela sorriu e, sábia, confirmou as informações daquele menino tão esperto...
Não sei exatamente como aconteceu, mas deve ter sido no mesmo dia: tomamos banho juntos, em sua casa, dentro de uma banheira daquelas antigas, colocadas naqueles banheiros brancos e monstruosos, típicos das casas tijucanas da década de cinqüenta. A água era fria, embora a chuveirada fosse das boas. Mas ele parecia intuir minhas necessidades tão logo surgissem e mal nos ensaboamos e saímos da última chuveirada, a primeira coisa que fez foi saltar da banheira, molhando todo o chão para pegar uma toalha, me enrolar e me esfregar bastante as costas, dizendo a avó:
- Ela tá com frio, vó, arrepiada, vamos secar depressa.
Não me lembro de outro banho, mas a gentileza deste foi suficiente para guardar mais esta pérola em meu coração. Para a sábia e esperta avó, talvez para tirarmos qualquer dúvida sobre a sexualidade infantil; para nós dois, apenas mais uma oportunidade de estarmos juntos e felizes. Tal era a nossa inocência e, talvez, tal a certeza, entre nós, de que, provavelmente, tudo teria o seu tempo.
Eu ficava de castigo com freqüência. Meus crimes se resumiam a apenas um: não queria comer. Ficava, por conta disso, horas a fio (para mim, horas... e... infindáveis), num canto da sala de visitas, de cara para a parede. Mas de nada adiantava. Depois disso, a comida, com mais razão ainda, simplesmente não descia. Nos dias de castigo, meu pequeno amigo se negava a ir brincar na pracinha ou ia apenas para catar umas sementinhas dessas de estalinho que as crianças gostam de pisar (ou gostavam, quando infância nas praças ainda existia). Colocava tudo numa caixinha de fósforos e me esperava sair do castigo. Então, pulava o muro e espalhava pelo chão do meu quintal aquele tapete de sementes para que pudéssemos nos divertir juntos, pisando uma a uma...
Meu estômago era travado por razões advindas da família complicada que povoou a minha infância. Coisas já analisadas, que não puderam ser resolvidas com a mesma simplicidade de quando quis ter um pênis ao ver o de meu noivo, pela primeira vez. Afinal, os terapeutas precisam de nós para consumarem sua vocação... e nós, muitas vezes, precisamos deles para nos olharmos melhor no espelho. Agradeço sinceramente ao meu por isso.
Mas voltemos ao caso: meu estômago era travado. Não era birra nem teimosia. Era travado mesmo, fechado a sete chaves e eu, literalmente, diante de um irmão muito mais velho e prepotente olhando sério para mim dizendo que, naquele dia eu ia comer de qualquer jeito, ficava pensando por que não poderíamos nos alimentar de ar e brisa e não de comida. Minha teimosia era essa... e castigo sempre, o que não adiantava muito, pelo contrário.
Meu noivo, no entanto, era paciente e sempre me esperava sair do suplício. Estava a postos, do outro lado do muro, esperando para me ver. Quantas vezes (inumeráveis!), ao pular o muro e perguntar se já tinha almoçado, diante da minha negativa, dizia que não tinha almoçado também e que estava me esperando. Eu lhe dizia que não iria comer de jeito nenhum, mas, jeitosinho, ele me convidava apenas a ficar olhando, enquanto ele comia. Foi assim que conheci o gosto inesquecível do feijão de D. Mariazinha. Uma garfada para ele e, talvez, dez para mim, tiradas do mesmo prato. Hoje, penso que, talvez, ele já tivesse almoçado todas aquelas vezes e usava esse ardil para me fazer comer... e eu comia tudinho. É bem provável que fosse lá idéia da D. Mariazinha, experiente da vida e das crianças. Fosse o que fosse, ele cumpria seu papel, com a leveza de um pequeno anjo.
Conversávamos sobre tudo... eu não me lembro que tudo era esse, mas ouvia os adultos dizerem que esses dois vivem conversando o dia todo, não sei o que tanto eles têm para assuntar... Tínhamos nosso canto para conversar. Sempre o mesmo na casa da avó e também sempre o mesmo, quando era no meu quintal. Lembro-me, como se fosse em um filme, da avó que olhava da janela da cozinha e, de vez em quando, sorria para nós. Ninguém se aproximava, nossas conversas eram íntimas, por certo, e muito longas e respeitadas por todos. Afinal, éramos noivos. Como eu gostaria de saber, hoje, o que tanto tínhamos para falar, aos cinco ou seis anos de idade...
Aliás, o aniversário de seis anos dele foi inesquecível. Tantas e tantas crianças, correndo de um lado para outro... e, por incrível que pareça, só me lembro de um único e contundente detalhe: meu amigo, perdão, meu noivo, com aquela cara que eu bem conhecia nele, de quem vai aprontar alguma, se aproximou de mim, com dois alfinetes na mão:
- Vamos sair furando as bolas de todo mundo?
Coisas de menino... mas essa menina, aqui, muito séria redargüiu:
- Isso não se faz, é maldade, eles vão ficar tristes e chorar.
Ele não era menino de abrir mão de seus caprichos... mas também não era príncipe de desonrar os desejos de sua princesa. Eu acho mesmo que eu sempre o colocava em maus lençóis consigo mesmo por causa disso, mas só me lembro desse fato, em particular. Sumiu. Mais um pouco, ele voltou, com os dois alfinetes: estava resolvida a história: ele tinha falado com a mãe e conseguido tirar mais um bando de bolas de gás dos enfeites da festa e estava tudo certo: nós furávamos e, logo depois, oferecíamos outra. E assim foi feito para a alegria dele e minha. Danadinho...
No cotidiano, brincávamos de casinha e ele sempre ia fazer as compras, trazendo pedacinhos de folhas e flores para minhas panelinhas de brinquedo. Também nos divertíamos com corridas de carrinho e outras coisas de menino, dos brinquedos fantásticos que ele trazia da casa de sua mãe para nosso devaneio.
Meu homem já sabia o que seria quando crescesse: ortodontista, tão bom quanto o avô. Vivia namorando o boticão, as pinças, a maleta, o jaleco e tudo mais que faz do dentista um médico de grande parte de nossas amarguras da infância e da adultícia. Eu não tinha nenhuma dúvida de que ele seria o melhor dentista do mundo. E foi por isso que, quando meu primeiro dentinho amoleceu, foi para ele que corri. Este foi o único momento, em toda a nossa infância, que me lembro de nos termos enfiado atrás da porta, às escondidas. Ele, com as mãos impecavelmente lavadas, eu e o boticão do avô.
Para mim, foi o único momento em que me senti em risco, mas minha confiança nele era mesmo inabalável. E foi tecnicamente, com perícia inusitada que meu primeiro dente foi arrancado num desses domingos familiares, por esse profissional precoce. Só então - terminada a operação que, diga-se de passagem, não doeu nem um pingo - ele se aproximou do avô, sussurrou-lhe ao ouvido e o trouxe puxado pela mão para a saleta de visitas onde havia me deixado, olhando de longe, mão na boca, pressionando um algodão contra o orifício deixado pelo dente extraído. Mostrou o feito e perguntou se estava tudo bem, apresentando o dente retirado e pedindo que o avô fizesse o exame de minha boca. Extração perfeita, diploma-mirim concedido, diante de toda a família, sob a voz de comando do avô, orgulhoso da traquinagem perfeita de seu neto, incluindo o cuidado profissional da consultoria posterior. Perdi meu primeiro dentinho, mas não perdi a ventura do amor, da dedicação, do cuidado.
As aventuras se perderiam, em linhas incontáveis, mas o que foi posto é mais do que suficiente para mostrar o quanto esse pequeno menino, de grande estatura para mim, contribuiu para a imagem do masculino que trago em meu perfil psicológico. É suficiente, também, para que entenda o que foi nossa despedida, comandada pela tranqüilidade desse meu pequeno grande herói.
Mas está ficando muito longo e o melhor está por vir. Conto o restinho na semana que vem.
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