Mostrando postagens com marcador inocência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador inocência. Mostrar todas as postagens

sábado, 15 de fevereiro de 2014

NÃO É SABÃO NÃO!



1996. Passava por ali todas as quartas, em torno das 9h30min. Rua São João Batista, esquina de Mena Barreto, Botafogo. Morro Dona Marta ao fundo e muitos, muitos meninos esperando o sinal fechar para limparem os vidros dos carros. Eu nunca quis e já fazia o gesto com as mãos, tão logo eles ameaçassem a se aproximar. Isso porque não pediam licença, iam invadindo o espaço, com esponjas ensaboadas e sujas, que deixavam o para-brisas completamente embaçado e engordurado. Mas não era só por isso. É que esta invasão, exigindo um trocado, sem pedir licença, era uma agressão que eu não conseguia aguentar. Era um assalto disfarçado de serviço. E só me deixavam em paz porque viam que não iriam levar troco algum.Um dia desses, já pronta para meus gestos teatrais, vi um desses meninos se aproximar, sorridente e tranquilo, com o pequeno balde na mão e, sem ameaçar limpeza alguma. Chegou ao meu lado e peguntou:

- Posso lavar tia? Não é sabão não. É limpa-vidros mesmo!

Aquele profissionalzinho em miniatura me encantou. E todas as quartas, todos eles já sabiam. Meu carro era dele. Logo que eu ia chegando, ele já gritava: 

- A tia, a tia!

E vinha sorridente, feliz e orgulhoso da qualidade de seu serviço, que, aliás, era perfeito, sem deixar partes de vidro sem retoques, com ótimo acabamento. Merecia, sempre, por certo, um retorno financeiro à altura. Ficávamos satisfeitos, eu pela qualidade do serviço, ele, pela qualidade da recompensa e, ambos, pela camaradagem feita, uma amizade de esquina, nosso encontro de quartas-feiras. Se eu faltasse uma semana, na seguinte ele logo me perguntava:

- E aí tia, o que aconteceu?

 E assim, fomos criando um laço de mútuo respeito e sentimento. Quando sabia com antecedência, passei a avisá-lo:

- Semana que vem não poderei vir.

- Que pena, tia. Espero na outra!... Foi bom avisar. Assim, também não fico preocupado se eu faltar.
  
Um profissionalzinho mirim!

Um dia, com muito pesar, tive de revelar:

- Querido, não vou mais poder vir às quartas. Estarei trabalhando em outro lugar neste horário. Mas sempre estarei passando por aqui para ver você.

- Agora eu estou vindo só às quartas de manhã, tia. Estou mudando de trabalho.

Nossos olhos se encontraram. Os meus, emotiva que sou, rasos d'água. Os dele tristes, profundos, sentidos.

- Passarei por aqui, sempre que  puder, não se esqueça.

- Não vou esquecer. 

Alguns meses se passaram. Um dia estava a pé pelas redondezas, não me lembro fazendo o quê, já que não é percurso perto de minha casa. Era quarta-feira. Lembrei-me do menino. Estiquei a caminhada em direção à mesma esquina. Um grupo de garotos lá estava, sinal aberto, eles sentados em grupo, conversando alto, com gestos largos. Consegui reconhecê-lo. Me aproximei. Ele me olhou com olhos distraídos e não fez caso, continuou na animada conversação.

Meu primeiro impulso foi de temor. A gente não se aproxima assim, de alma aberta, de um grupo de meninos, ao sopé do Morro Dona Marta. Quem mora no Rio, sabe que, naquela época era pedir por assalto.

Meu coração, no entanto, não resistiu. Fui a seu encontro, ignorando o resto. Meu olhar fixo nele. Tão fixo, que ele parou.

- Só por que eu não estou de carro, não me reconhece mais?

 Ele crescera um pouco, estava com outro porte, mais confiante e portentoso. O que uns poucos meses podem fazer com um garoto! Mas sorriu, e o sorriso ainda era o mesmo.

- Tia!!! 

Destacou-se do grupo e veio falar comigo, ainda sorridente. Parecia muito feliz.

- Hoje é quarta, eu disse. Não me esqueci. Estava passando por aqui e não podia deixar de te visitar.

- Foi bom, porque não trabalho mais aqui. Só venho às quartas por causa dos garotos. Nem todos moram lá em cima.

 Referia-se ao Dona Marta.

- Mudou de trabalho? O que você faz agora?

-Ah, eu ganho muito dinheiro. Quer algum?

 Aquela inocência me comoveu. Vi-o tirar do bolso  um maço grosso de notas. 

- Você quer quanto? Real ou dólar? Tenho tudo aqui. 

Não precisou um segundo para que eu me desse conta do que estava acontecendo. Ele se tornara traficante. Um profissionalzinho traficante...

- É muito melhor o serviço, tia. Estou muito feliz, ganho muito dinheiro e estou rico!

- Você sabe mesmo o que você está fazendo?

- Sei sim. É muito melhor do que estar aqui. E tenho até mais tempo para ir à escola.

- Mas você está se metendo em algo muito perigoso e proibido. 

Ele percebeu, de imediato, que eu sabia onde ele tinha se metido.

- Tia, esse negócio de proibido todo mundo faz. E não tem jeito. Eu não vou trabalhar feito cachorro magro o dia todo, com esses donos de bar expulsando a gente e para ter apenas uns trocados no final do dia. Trabalhar, trabalhar mesmo, eu não posso. Sou de menor. E... quer saber? É muito bom poder tirar esse dinheiro todo do bolso. Vou ser muito rico. Mais do que você. É serviço fácil. Estou muito feliz. Eles me tratam bem, sabe, com respeito. Não é como aqui, com esses "bacanas" xingando a gente (percebi que se referia aos motoristas daquela esquina). Fora você, né tia. Você foi diferente. Me diz, tia, quanto quer? Eu dou. É presente!

Eu estava, naquele momento,  vivenciando uma passagem da inocência para a marginalidade. Não... marginal ele sempre fora, a sociedade o fizera assim... era a passagem entre a inocência e o resultado do descaso. Do descaso de todos: do governo, da sociedade, do inconsequente descaso de todos. Do meu descaso...

E, ali, vendo de perto a ferida aberta de nossa sociedade, eu não sabia o que fazer. Eu não sabia o que dizer! Meu primeiro impulso era poder salvar "aquele um"! Aquele que "não passava sabão não". Mas eu não sabia o que fazer. Não sabia o que dizer. Todas as alternativas pensadas me levavam a nada!

- E aí, tia, quanto quer?

- Não quero dinheiro, obrigada, se é presente, eu quero um beijo. Nunca ganhei um beijo de você.

Aproximou-se envergonhado, não sei se por ele mesmo ou por causa dos meninos que estavam por ali. E ganhei um beijo rápido, contraído, mas sincero, daquele menino descalço... que não era mais um menino.

- Te vejo por aí

- Tá tia, vai com Deus.

Até hoje, quando passo por aquela esquina me entristeço. Por ele e por mim, pelo peso inerte que trago no peito, pelo descaso de todos... pelo meu descaso...

sábado, 2 de abril de 2011

A CORTINA


Considero-me privilegiada, morando em um canto tranquilo de Copacabana, a uma quadra de todo o bulício, sem que ele me perturbe. Mas quando me mudei para esta rua, em 1973, não foi direto para o apto que moro hoje. Foi, justamente, para o prédio em frente, sala e quarto, digamos, um “apertamento” ajeitadinho, bem ao estilo dos antigos apartamentos de Copa.

Minhas janelas davam para outro prédio, cheinho de janelas e, por trás, o morro da ladeira do Leme, do qual só via o topo, mesmo morando no décimo primeiro andar. De minha janela, no entanto, dava para ver um lindo e distante coqueiro, que namorava todos os dias, sem exceção, dando-lhe bom dia, boa tarde e boa noite, como acontece com os enamorados. Um coqueiro solitário, lá no alto que, não sei por que me hipnotizava e me encantava. Soberbo e humilde, altivo e flutuante, cheio de promessas benfazejas, símbolo misto de companheirismo e abandono. Refletia minha alma em seus dias ensolarados ou chuvosos, deixando-se levar pelos ventos e tempestades e brilhando aos raios do sol. De onde moro, agora, consigo ver a mesma montanha, mas em outro ângulo da rua e não vislumbro o meu coqueiro. Será que ainda existe? O fato é que, enamorada e jovem, muitas vezes me punha à janela do quarto para pensar com ele sobre tantas coisas que nem sei.

Um dia, ao me postar à janela do quarto, no entanto, meus olhos distraídos pousaram sem querer numa das janelas do outro lado da rua. Acho que o fiz por causa do movimento e do chamado constante, gritado, que vinha de lá. Era uma menina, bem pequena, que acenava para mim. Uns quatro anos, no máximo. Gritava por “tia” e me dava adeus. Por delicadeza, correspondi à pequena princesinha, achando a idéia generosa e gentil. Mal sabia eu o que isso poderia ter de significado para ela. No começo, na verdade, não dei muita atenção. Depois, no entanto, passei a perceber que a jovenzinha ficava esperando que eu aparecesse à janela, apenas para acenar para mim. No início, senti-me um pouco invadida em minha privacidade, na verdade, na privacidade que eu buscava com o meu coqueiro. Depois, por gentileza, passei a acenar para ela e percebia que era como se ela tivesse, enfim, encontrado alguém com quem brincar.

Lembrei-me de minha infância, no colégio, com tanto espaço para os recreios e jogos e passei a me simpatizar com a pequena jovem do outro lado da rua, talvez sempre presa em casa, não tendo distrações e esperando pela “tia”, apenas para dar-lhe um adeuzinho, de vez em quando. Meu coração passou a sentir uma grande empatia com a nova geração e, talvez, hoje eu entenda melhor a solidão dos pequenos jovens, frente à internet, buscando seus companheiros virtuais desde cedo. Há os saudáveis avanços da tecnologia, é claro, mas também há pais que trabalham o dia todo, muitas vezes deixando essas crianças órfãs de folguedos.

Quantas delas, hoje, saberão jogar queimado, pular amarelinha, brincar de roda, de pique-cola, pique-alto, pique-baixo, pique-esconde, bandeirinha, ping-pong e tantos outros jogos que nos davam um cotidiano onde podíamos nos tocar de verdade, com companheiros de carne e osso, com reações imprevisíveis, não mecanizadas, com as quais o cotidiano nos preparava para o convívio real? Sem contar que nos faziam acabar os recreios suadas e cheias de vida, neurônios em festa, num corpo cheio de boa circulação sanguínea...

Mas deixemos de saudosismos. Voltemos às recordações e a uma princesinha solitária.

O fato é que, na década de 70, os computadores não existiam e, em sua solidão, talvez eu fosse sua esperança de festa. Talvez, quem sabe, eu representasse para esta pequena flor da infância, o que o coqueiro representava para mim. Não me dava conta, no entanto, dessa possibilidade. Só descobri alguns anos depois.

Morei naquele prédio de 1973 a 1978. Digamos que minha princesa deve ter-me descoberto em torno de 1976 e daí por diante, ainda que minha vontade me levasse à janela em busca de encontrar-me a sós com meu coqueiro, dava vazão à alegria daquela pequena jovenzinha. Nunca deixei de acenar-lhe, vez por outra, todos os dias em que ela me buscava com seus bracinhos gentis e seu sorriso sedutor. Para mim, no entanto, não passava de uma gentileza.

Os anos passaram, mas isso sempre persistiu. Nunca tive vontade, no entanto, de conhecê-la de perto. Os acenos de boa vizinhança eram suficientes.

Em 1978, depois de muito procurar, achei o apartamento dos meus sonhos. Digamos que o apartamento me fisgou, pois foi justamente o que aconteceu: o porteiro do prédio em questão, sabendo de minha busca através da cunhada que era minha faxineira, fez a gentileza de tocar a minha campainha e dizer que havia um apartamento à venda no prédio que moro hoje. Apenas me custaria atravessar a rua e já estaria na portaria do tal prédio. Mas a fachada nunca me seduziu e, embora pudesse ver a parte do apto por dentro da janela do meu quarto, nunca me chamou a atenção. A felicidade precisou bater deliberadamente a minha porta, puxar-me pela mão para eu poder enxergá-la.

A compra do apto não foi fácil, visto que o dono era uma dessas pessoas que buscam tirar vantagem até do que não existe. Mas pulemos este pedaço. O bom da história é que vendemos o apartamento onde morávamos felizmente com a rapidez necessária para darmos entrada neste outro, fizemos o famoso financiamento e, seis meses depois, era apenas uma questão de atravessar a rua para transferir a mudança.

É preciso esclarecer que eu não estava indo morar no mesmo prédio da princesinha. O meu prédio era de esquina, o dela ficava em frente e eu estava atravessando a outra rua, para o outro lado.

Confesso que não estava dando importância para a mudança, em termos do que poderia significar para ela. Assim, ao tirar a cortina, apenas acenei gentilmente, numa despedida carinhosa. Não notei sua tristeza, sua angústia, seu desespero.

Esqueci, na verdade, bem rápido da pequena jovem e da mudança. O que mais se destacava eram as saudades do meu coqueiro. Eu realmente não sabia o que poderia estar significando minha mudança para ela.

Um mês depois, no entanto, ao sair do meu prédio, me deparei com um pai e sua filha de mãos dadas. Ao me ver, ele se dirigiu diretamente a mim, dizendo:

- Puxa vida, você nem imagina quem você é para a minha filha!

Olhei a menina, sem reconhecê-la. Encostava-se ao pai, envergonhada, como acontece frequentemente com crianças perto de adultos. Mas não tirava os olhos de mim. Ele continuou:

- Ela é a menina a quem você dava adeus da janela, no outro prédio. Quando ela viu que você estava se mudando, chegou a ficar com febre, ansiosa, pensando ter perdido você para sempre. Mas no dia seguinte, você colocou a cortina em sua nova casa e você precisava ver o escândalo que ela fez, quando reconheceu a cortina, dizendo que você tinha apenas mudado de prédio e não de rua e que não havia perdido a tia. Só que, lá, você não fica na janela e ela fica esperando à toa.

De fato, pela composição do minúsculo apartamento, volta e meia, eu estava a um passo da janela. Neste novo, não só pelo espaço, mas pela disposição do mesmo, raramente eu passava perto da janela da sala. E havia mais uma razão: no apartamento antigo, eu gostava de ir à janela para pensar olhando para o meu coqueiro e, não podendo mais vê-lo, a janela, dando apenas para uma rua tranqüila, perdeu o significado para mim. O prédio da menina passou a ficar num ângulo à esquerda, para mim despercebido.

Eu não podia imaginar o valor que teria o meu adeus para a pequena e solitária menina!!! Fosse hoje, mais madura, eu teria dado muito mais importância ao caso. A menina estava ali, olhando para a sua “tia fada” e eu apenas (apenas!) sorria para ela, sem mais festa do que a de um encontro de vida, uma gracinha, uma coincidência. Nunca tínhamos nos encontrado na rua e eu apenas conversando com o pai, enquanto, na verdade, eu deveria estar dando total atenção à jovenzinha. Só me dei conta disso depois! Posso imaginar a decepção que ela deve ter tido, mas, aí, talvez, já tivesse sido tarde demais. O fato é que, vez por outra, dirigia meu olhar em direção às inúmeras janelas do grande e suntuoso prédio da menininha. Mas, na verdade, não sabia exatamente qual dessas janelas lhe pertencia. E não a vi mais. Talvez a tivesse decepcionado cruelmente. O encontro não lhe deu a dimensão esperada da mesma carinhosa acolhida... ou, talvez, a "estrela", uma vez na terra, tenha perdido o seu brilho. É bem provável que tenha sido isso. Ou os dois.

Nunca mais a vi. Mas quando me lembro, sinto uma dor indecifrável por dentro. A dor de não ter correspondido aos seus sonhos, aos seus anseios, a sua dedicação. Há coisas que fazemos que não tem conserto. Espero que não tenha sido tão triste para ela quanto imagino. Gostaria de vê-la para saber. E dizer o quanto sinto não ter sido uma fada de verdade, uma tia digna de suas expectativas.

Não posso imaginar se ela ainda mora lá ou não. Não sei em qual janela seria, no meio de tantas que compõem o prédio que faz quina com o meu... e também há muito não ostento minha cortina azul. Mas gostaria de saber sobre seu paradeiro, se é feliz, que caminhos trilhou. Pelo tempo transcorrido, deve estar com mais de 30 anos...

Quem sabe, um dia, por acaso, ela me leia e queira acenar, uma vez mais da janela, para mim, ou colocar algum comentário, aqui mesmo. Será muito bem-vinda.

Mas se ela ler e preferir o silêncio, gostaria, apenas, que ela soubesse que, se fui o seu “coqueiro”, por algum tempo, quem sabe seja bom para ela também saber que não a esqueci.