sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

NOTAUSGANG


Alemanha, de novo! Patrícia diz que, um dia, acabo morando lá. Acho pouco provável... mas... nunca se sabe. O importante é que as lembranças são boas, amorosas, delicadas e algumas, como você já pôde constatar, engraçadas.

Lembro-me de minhas visitas às lojas. Sim... eu também visitava as lojas, como qualquer mulher mortal. Não tanto quanto era de se esperar para o natural instinto feminino de consumo, mas visitava. E consumia. Principalmente artigos de papelaria, nos quais a Alemanha é pródiga em mimos e gracinhas. Me dei conta de que não tenho nenhuma foto de lojas alemãs por dentro... incrível. Mas são magníficas. A Ka De We, em Berlim (foto), chegava a ser uma covardia... será que ainda existe? Se existe, provavelmente, depois da queda do muro, deve ter mudado de nome ou virado simplesmente Kaufhof, como nas demais cidades do país (Ka De We era uma sigla carinhosa para "Kaufhof dos Ocidentais").

O problema, muitas vezes, era encontrar a saída. Algumas lojas são tão grandes, que você literalmente se perde por dentro. E olha que eu tenho um bom senso de direção - sei exatamente onde estaciono meu carro na garagem de um shopping imenso. Mas aqueles departamentos sem tamanho são mesmo um desafio a qualquer ser vivente.

Pois então... no começo, algumas (muitas) vezes, senti dificuldade de encontrar a saída. Tinha em minha mente as palavras-chave: eingang (entrada) e ausgang (saída). Para mim, era só procurar alguma referência em placas ou setas, antes de perguntar a qualquer vendedor disponível. E explico por quê: ocorre que os vendedores atendem a uma pessoa de cada vez. Inexoravelmente. São super atenciosos e exclusivos. Não cabe, como aqui, por exemplo, você pedir licença e apenas perguntar: “tem fita adesiva?”. Aqui você pode fazer isso e já tem meio caminho andado: o vendedor aponta onde é o local da sessão e continua tranquilamente a atender o seu cliente. Ninguém se incomoda, não atrapalha ninguém e se não tiver, você não fica esperando à toa. Muito prático.

Lá, não. Ou você procura por conta própria entre as inumeráveis prateleiras ou espera a sua vez. O bom é que, chegada a sua vez, o atendente será exclusivamente seu e... se tiver fita adesiva, ele mostrará quilômetros de prateleiras com os mais diversos tipos, disposto a descrever calmamente as façanhas que cada uma delas é capaz de fazer. E diretamente em inglês, língua que todo atendente diz que não sabe falar, se você perguntar (mania de perfeição), mas, fala muito bem, se você se dirigir a ele diretamente nessa língua. É claro que as sessões são pródigas em setas, placas, avisos informativos. Mas isso tudo está escrito no mais puro alemão, é lógico, e dispensa metade da espera. Mas... para uma viajante latina como eu... hum... como é mesmo fita adesiva em alemão???

Pois é... com esse tipo de cultura, interromper um atendimento, mesmo que seja só para perguntar como se sai da loja estava fora de questão. Era mesmo procurar pelos avisos, setas, placas e cartazes.

Foi aí que me enrolei, pois, com muita freqüência, fugi exatamente do caminho certo, por um vício de linguagem. É que encontrava a placa sinalizadora: “notausgang”.

Ora, se a língua é anglo-germânica e not em inglês é uma palavra negativa, a linguista aqui só poderia concluir que “notausgang” deveria significar, é claro, “não há saída por aqui”. Eu não entendia bem por que os alemães se preocupavam em avisar que não havia saída por ali, mas, como não se discute com a minuciosidade das descrições do temperamento alemão eu estava achando que era apenas uma informação a mais. Imediatamente, mudava o meu rumo em outra direção, em vez de seguir exatamente em frente, que era o que eu deveria fazer.

Levei cerca de uma semana enrolada por essa armadilha até que, um dia, resolvi seguir o “notausgang” para ver no que dava... e dei numa escada de serviço que me colocou bonitinha na calçada, ao lado do prédio.

Só então decidi procurar no dicionário pelo significado. Fiquei pasma e lembro-me que chorei de rir comigo mesma por algum tempo: notausgang – saída de emergência.

Daí por diante, cada vez que via “notausgang”, além de sorrir para mim mesma, passava por ela e continuava alguns passos na mesma direção e, indubitavelmente, encontrava a magnífica e tantas vezes perseguida placa de “ausgang”.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

DESCOMPASSO


Fevereiro com vinte e oito...
E tantos meses com trinta e um...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

CHINA


Imagine um nordestino, desses mesmo que ficam de cócoras para conversar com você. E quieto, de olhar macio e doce. E caprichoso, calmo, cuidadoso, dedicado. Que tem por defeito beber tudo que ganha, no final de semana, mas não chega ao trabalho atrasado (com exceção das segundas-feiras) e nem se sente um cheirinho de pinga sequer durante a semana.

Desses que você olha e gosta dele no mesmo segundo e só não adota porque tem a mesma idade que você. Quase não sabe escrever letras e números, mas sabe contar para você mil alfabetos da vida.

China. Não me lembro do nome dele... ah... é Inácio. Inácio. Só me lembrei porque, depois de trabalhar para nós durante quase um ano na obra da casa do Humaitá - aquela, do conto do galo -, descobri que não tinha carteira de identidade. China, para quem comprei uma camisa nova para tirar o retrato da carteira e que saiu todo prosa para a foto e digitais. China. Que saudade de você. Por onde andará nesse mundão dos meus deuses?...

China, que topou não receber o dinheiro total da semana para que eu o ajudasse a economizar. Queria comprar um terreno lá em Campina Grande, sua terra natal, se não me engano, mas bebia no sábado tudinho que recebia na sexta. China, que aceitou que eu fosse o seu “banco” por meses, até ter os tais 150 que precisava para a tal compra...

- “Pode ficar, D. Lali... senão eu vou beber tudo mesmo...”

A obra da casa do Humaitá foi uma tortura chinesa para mim, sem querer fazer trocadilho com o nome de meu amigo. Mas é que foi mesmo. De um ano, dez meses, vinte e um dias e nove horas que morei lá, acho que tive China como único verdadeiro companheiro de luta e sobrevivência, a maior parte do tempo. É que meu ex escafedia-se em viagens de trabalho por quase todo tempo, aproveitando da casa muito mais os finais de semana e feriados do que qualquer outra coisa. Para mim e para o China sobrava o pesado, a poeira, a atrapalhação e principalmente a minha falta de jeito para resolver os imprevistos.

Um dia – como posso me esquecer? – resolvemos acabar com a inundação do subsolo a cada chuva frouxa que aparecia. Chovia um tiquinho mais e pronto: o subsolo ficava uma graça de lago... e para escoar tudo aquilo, fora o estrago constante das coisas que ficavam lá é bom nem comentar. A obra seria grande, exigindo escavar três metros para baixo do solo em todo o frontal da casa. China dispôs-se a pegar o serviço e eu bem sabia que ele iria levar isso com muita competência. Competência e dedicação. Aconselhou-me a esperar a época da seca, pois uma chuva com todo o frontal da casa escavado até três metros abaixo do solo daria uma tragédia em dobro, com a mínima chuvinha que fosse. Enquanto isso, ele reformava o resto da casa, consertando aqui e ali.

Esperamos a época da seca e começamos o serviço. Não é preciso dizer que naquele ano choveu prá caramba na seca, o que nos deu um trabalho extra e uma obra que durou muito mais do que os 30 dias programados. Na verdade, ficamos 4 meses naquela tortura. De qualquer modo, o trabalho ficou impecável e, fora as inúmeras inundações, enquanto não ficava pronta, tudo saiu bem, com exceção de um dia. E jamais me esquecerei do China, também por causa disso. Minha gratidão para sempre.

Ocorre que, para cavar o corredor frontal da casa, ficaram expostos os canos que vinham de cima e dos vizinhos ao lado. O “de cima” deve ser lido como a casa dos empregados e os canos, diga-se, mais especificamente, referiam-se à saída do esgoto. Era imprescindível, portanto, tomar o maior cuidado para que não se quebrassem, pois seria água para todo lado e... pior... suja! Assim, cuidávamos desses canos expostos como quem cuida de porcelana chinesa, é claro. Num domingo à noite, no entanto, evidentemente que sem querer, meu ex deixou cair um vaso exatamente no cano de esgoto e toda aquela sujeira invadiu o subsolo. Você pode imaginar no que deu. Aliás, não pode. Não mesmo. Mas tente: um esgoto em seu subsolo, com aquelas prendas boiando e tudo. Sem falar no cheiro. Não havia o que fazer, senão solicitar ao síndico que fechasse o registro do esgoto da casa dos empregados, senão, a cada descarga, lá em cima, seríamos brindados com mais uma sujarada aqui embaixo. Isso mesmo. E... vindo do subsolo, o cheiro inundava toda a casa. Não dava para dormir, não dava para respirar...uns três palmos do chão de água infectada em todo o seu esplendor.

No dia seguinte, de manhã bem cedinho, meu ex partiu para Brasília e me deixou com a solução da m... tanto em seu sentido literal quanto metafórico. Que eu não me preocupasse, o China resolveria o problema. E se mandou. Pois é... o China ficou doente exatamente naquela segunda.

Sozinha, tive a brilhante idéia de chamar outra pessoa pelo menos para consertar o cano. Eu não conhecia ninguém que fizesse o serviço e não podia contar com alguém que me ajudasse, pois meu ex tinha mesmo se mandado. Sem experiência no assunto, rodei como barata tonta sem sucesso por ali. Não encontrei ninguém. E ninguém, evidentemente, se prontificou a me ajudar. Cada um com seus problemas e, claro, tive mesmo de esperar até a terça, rezando para o China ter ficado bom. De brinde, os empregados, vez por outra, abriam o registro, me presenteando com mais algumas prendas e cheiros. E precisava dizer que choveu naquele dia para aumentar o volume da tragédia?

Felizmente, eu dava aula na segunda final de tarde e noite. Só cheguei tarde em casa, aliás, de propósito, para evitar ao máximo o convívio com o desastre. Outra noite sem dormir, estourando de dor de cabeça. Não tinha o que fazer. Era mesmo esperar.

Na terça, quando o China chegou, só pela minha cara e pelo cheiro, ele percebeu a tragédia, mesmo antes de baixar os olhos para os canos. Desceu ao subsolo como um bólido e falou um palavrão que eu aprendi naquele momento. Tão logo falou, olhou para mim e me pediu desculpas, pois ele sempre fora muito cuidadoso comigo. Eu apenas lhe disse que, se conhecesse aquele palavrão, teria dito dez mil vezes durante todo o final de semana... que ele ficasse tranqüilo quanto a isso e apenas me socorresse.

- A senhora fique tranqüila. Hoje só saio daqui quando sua casa estiver em condições. Por favor, saia e me deixe aqui. A senhora não precisa ficar aguentando esse cheiro.

- E você? Vai entrar nessa sujeira sem botas, luvas e tudo que for necessário? Nada disso! Me faça uma lista e vou comprar o necessário.


China sorriu. Um sorriso doce, amigo, mas humilde e triste. Eu podia ler sua alma, tenho certeza disso.

- D. Lali, eu estou acostumado a limpar esgotos, faço isso para ganhar um extra. Entro naquelas caixas há anos, assim como estou. Já estou vacinado...

Sorriu e acrescentou:

- A pinga vacina.

Vacina, pensei, claro que vacina... ou melhor... não vacina: anestesia sua alma da dor. Da dor de viver assim, humilde, fazendo a casa dos outros mais bonita, sem você ter a sua, limpando a sujeira dos outros. Naquele momento, disfarçando eu mesma a minha dor de não poder consertar o mundo, pedi-lhe que eu pudesse comprar botas e luvas para aquele e para os serviços futuros. Mas ele respondeu:

- Não dá para usar, não. Nem adianta. As caixas em que eu entro, nem com capa me livraria da sujeira. Já estou mesmo vacinado. E isso aqui não é nada, perto das caixas de esgoto estreitas em que já estou acostumado a entrar.

Disse isso, já entrando naquela sujeira toda e listando os detergentes que eu teria de comprar. Saí dali o mais depressa que pude, pois não conseguia conviver com o que estava presenciando. O China, meu querido “filho” do coração, desvendava sem querer o tipo de vida que levava, muito pior do que eu podia imaginar que pudesse existir, contando tudo com a mesma resignação de tantos peões nordestinos que vieram buscar sustento no sul do país, do mesmo modo acostumado, acomodado, por necessidade de sobrevivência, com o pior que a vida pode oferecer a um trabalhador: falta de condições para seu trabalho, inumeráveis destratos e humilhações, pouco caso, desamor, salário abaixo da crítica.

Eu não sabia o que fazer. Não sabia como reagir. Sequer podia impedi-lo de entrar naquela sujeira, pois ele já tinha entrado, como quem entra em um lugar qualquer! Comprei as coisas às pressas, voltei mais rápido ainda. Não sabia o que dizer. Sumi dali, subi ao andar de cima. Lembro-me que chorei muitas vezes, durante aquele dia. Não pelo China, mas por todos nós: pelos que fazem, pelos que mandam fazer, pelos que não sabem (ou não sabiam, como eu) que isso era feito assim.

Agora mesmo, ao escrever este conto, quantos trabalhadores estarão entrando em caixas de esgoto para limpá-las como fazia o China... e o que fazemos para impedir isso?

Lembro-me até hoje do olhar doce do China que me conquistou como um filho, um filho da vida, posto a meus cuidados. Seus olhos puxados, seu sorriso macio. Quantos de nós temos o privilégio de toparmos com almas assim? A doçura, a dedicação, a lealdade desse amigo jamais deixarão minhas lembranças. Como me lembro, também, até hoje, do perfume de limpeza que ele deixou em minha casa à noite. Um cheiro de lavanda bem suave no lugar do cheiro insuportável da manhã. Ele deveria ter deixado o trabalho às 16 horas, como sempre combinamos, mas naquele dia, fez questão de deixar tudo limpo e arrumado. Não saiu antes das 22 horas, com certeza.

Na quarta, ele consertou o cano e tudo voltou ao normal. Tudo? Não. Algo havia mudado. E muito. Minha gratidão, uma gratidão que não podia ser paga com qualquer dinheiro do mundo. Não pelo fato propriamente dito, embora seja verdade que, por si só, já valeria o reconhecimento. Mas pela dedicação e pelo cuidado com que ele fez questão de realizá-lo.

E senti que, para ele, algo também havia mudado. Ele não se sentia mais tão funcionário, mas cúmplice. Um cúmplice fiel, cuidador, alguém que estava ali para dar conta do recado. Não havia intimidade até então, mas, a partir desse dia, contávamos piadas um ao outro e ele passou a sorrir. Um sorrisinho discreto, mas solto, de quem se sente mais em casa e sabe que tem a responsabilidade de resolver problemas. Algo como se sentir valorizado.

Foi depois disso que aceitou que o ajudasse a tirar a carteira de identidade. E também foi depois disso que aceitou que eu fosse seu banco para comprar a sua terrinha lá no nordeste.

Algo mágico aconteceu naquele dia. Algo que, até hoje, não sei exatamente identificar. Mas sinto que lhe deu dignidade e valor. Uma mágica da vida. Bendito cano arrebentado. Agradeço, hoje, a meu ex, por tê-lo feito, assim como agradeço por ter-me deixado sozinha, na segunda, para resolver o problema... e... agradeço também à vida por nenhum vizinho ter-se importado com o meu infortúnio ou tentado me ajudar a achar alguém que pudesse quebrar um galho momentâneo. Os meandros da vida são incríveis: selou uma amizade para sempre.

China voltou para o nordeste um ano depois disso. Soube que esteve no Rio uma vez ainda e veio me visitar aqui em casa, pois já havia voltado para o meu apto de Copacabana. De brinde, ainda fechou um buraco de ar condicionado que o inquilino tinha deixado. Doce China. Sempre cuidadoso. Não se conformou em deixar aquilo como estava...

China comprou o tal terreno, perto da casa de sua irmã. Liguei para ele, durante muitos anos, ou melhor, para a casa de sua irmã, todos os seus aniversários até que um ano, o número não conferiu e o perdi de vista. Mas quando ligava ele, todo emocionado, voz embargada no outro lado da linha, me dizia:

- Nossa... a senhora não se esqueceu.

Como poderia me esquecer do China, depois das aventuras que passamos juntos na casa do Humaitá? Impossível... China que dizia gostar de mim como gostou da mãe dele. Pobre China... rico China. Por onde andará nesse mundão de meus deuses? Que eles o protejam como tantas vezes ele me protegeu!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O MURO



Berlim Ocidental, lado de cá do muro, década de 80. Andei ao longo dele na véspera da visita ao lado Oriental. Todas as espécies de rabiscos e pichações eram observados por meus olhos atentos e entristecidos. Mensagens de solidariedade, de revolta, de estupefação e mil outras coisas, escritas em várias línguas. Tive vontade de desenhar uma flor, mas não tinha grafite ou tinta. Me chamou a atenção um desenho de rachadura no muro com um rosto entristecido desenhado nesta suposta fenda, como se estivesse olhando para nós, do lado de cá. Perdi o slide, mas me lembro bem do desenho. Lágrimas no muro, lágrimas nos meus olhos.



Caminhei por ali, sozinha, pensativa, quieta. O que haveria do outro lado? Havia muito espaço para a mente e o coração naquela tarde morna e tranqüila... e eu tinha muito tempo para caminhar solta por ali, sem pressa, perdida e achada em meus pensamentos.

Topei com o museu do muro. Nem sabia que existia. Entrei. Visitei as histórias escritas nos murais e uma infindável mostra de fotos e artefatos construídos pelos cidadãos que fugiram para o lado ocidental. Fugas das mais loucas e perigosas, desesperos de causa, busca de liberdade...



Meus olhos rabiscavam as paredes e os objetos do pequeno museu como quem olha para uma fantasia e não para algo palpável. Meu coração, por certo, se preparava para a visita do dia seguinte.



A princípio, não tinha nenhuma curiosidade de atravessar a fronteira para algo que, com certeza, não traria paz ao meu coração. Fui, no entanto, impulsionada pelos museus que esta parte quase inacessível de Berlim guardava como jóias do tesouro oriental: o Altar de Pérgamo



e o Portal de Ishtar, da Babilônia.





Eu estava, por certo, a apenas alguns poucos quilômetros desses dois tesouros. Era suficiente atravessar a fronteira, ir e voltar incólume.

Incólume... doce ilusão.

No dia seguinte, acordei cedo. O visto permitia uma visita de apenas um dia, das nove às dezessete horas. Por via das dúvidas, não queria perder a chance de ver o que queria com calma, quem sabe, subir na torre para ver a cidade de cima e também ver a célebre quadriga do Portal de Brandenburgo de frente



já que, do lado ocidental, só a podíamos admirar de costas, junto ao muro.



Por certo, o dia me traria uma longa caminhada, e muito pouco tempo para ver tudo com calma.

Havia dois únicos acessos ao outro lado da cidade: uma estação específica de ônibus, que deixaria o turista também num ponto específico do lado oriental e uma estação de metrô, nas mesmas condições. Preferi o metrô através da estação de acesso, Friedrichstrasse.



Após tantos anos, tenho vontade de voltar lá só para ter a alegria inominável de usar a mesma estação para atravessar de um lado para outro sem visto e em plena liberdade. Um dia, quem sabe...

Entre a estação de embarque e a de desembarque, havia duas estações pelas quais o metrô passava, devagar, mas sem parar. Estações desativadas, quase totalmente às escuras e... meu primeiro impacto: nas plataformas, soldados com cães pastores alemães. Sensação esquisita de perda... falta de ar.

O desembarque levava os passageiros por um corredor e um conjunto de cabines, como essas de migração. Senti que, realmente, estava entrando em outro “país”. O soldado de plantão virou meu passaporte pelo avesso, conferiu com muita atenção minha foto. Pude perceber que se mostrava insatisfeito. Minha foto me mostrava com cabelos compridos e eu estava com cabelos mais curtos. Enfim, consegui passar. Nova caminhada por um corredor interminável. Senti-me esquisita, caminhando em meio a uma massa de pessoas mais “levadas” do que “caminhantes”. Eu acabava de sair de uma cidade cheia de luzes e cores, alegre, buliçosa, em cuja véspera tinha tido meu inesquecível encontro com o velhinho dos correios, o famoso “Papai Noel” a que já me referi num conto anterior – “Quem diria”.

Aquela sensação não combinava em nada com o que tinha vivenciado até então. O corredor acabava numa porta enorme, de aço, que se abriu em dois e, finalmente, pude respirar o ar da cidade.

A primeira impressão foi a de que eu tinha saído de um filme colorido para um filme em preto e branco. Todos os prédios em cinza, com exceção dos públicos, que sustentavam paredes em vermelho. Os carros antiqüíssimos, uma cidade limpíssima, mas... triste.



Fiquei aborrecida, ao voltar para minha casa, por ter tirado tão poucas fotos. Mas estava tão impressionada com o que via e sentia, que não me arriscava a grandes feitos. Tudo ali transpirava disciplina, constrangimento, sisudez. Fiquei um pouco tonta e perdida por algum tempo, perambulando sem muita direção. Mas logo depois tomei o rumo do Portal de Brandenburgo. Não havia tempo a perder. Pelo caminho, observava a singeleza do povo, as vestes simples, o recato. Era muito fácil discernir entre moradores e turistas.

Passei por um soldado, provavelmente, em hora de descanso. Estava numa pequena ponte, à beira de um rio. Não tive coragem de tirar uma foto dele, mas tirei do rio, para guardar de lembrança.



O jovem me chamou a atenção por sua farda remendada, seu olhar longínquo. Em que estaria pensando? Em seu amor, talvez? Em sua vida? Em suas possibilidades? Como gostaria de saber o que escondia aquele rosto tão triste e sombrio... para mim, no entanto, aquele rosto não era apenas o rosto do soldado. Eu o sentia como o rosto da cidade. Por todos os lados que andei, a impressão era a mesma...

Passei por alguns lugares com lojas e foi aí que senti pena de não ter usado mais minha máquina de fotos: as vitrines ostentavam, faceiras, os livros de Max, coisa que não víamos com facilidade no Brasil, naquela época. Mas o que mais me chamou a atenção foi a falta de variedade de ofertas. Numa sociedade sem concorrência, as câmeras eram daqueles modelos bem antiquados, do tipo caixote, enquanto eu sustentava minha Fujika último tipo. Os carros antiqüíssimos... e muito poucos pelas ruas. Enfim, era mesmo como se eu tivesse retrocedido dezenas de anos, ao ultrapassar aquela porta de aço. Choque cultural profundo.

Cheguei ao Portal de Brandenburgo e foi aí que me surpreendi mais ainda: havia um policiamento ostensivo. Por que seria? Um carrão último tipo, estacionado, me chamou a atenção. Minhas antenas observadoras procuravam seus donos. Como teriam atravessado a fronteira??? Olhei para o Portal de Brandenburgo e em volta. Muitos soldados atentos a nós, turistas! Percebi que a visita ao Portal exigia distanciamento. Havia, no entanto, um pequeno grupo de pessoas que tinha tido o privilégio de atravessar a linha de segurança. Quem seriam? Do grupo se destacavam dois homens fardados impecavelmente, num contraste quase cruel com as vestimentas do triste soldado que eu vira ruas atrás. Olhei novamente para o carro. Bandeira soviética. Meu coração bateu mais forte. Lembrei-me imediatamente da leitura de “A revolução dos bichos”. Era isso. Exatamente a concretização da leitura que eu via se descortinar a minha frente. Eu precisava fotografar. Levei a máquina ao rosto e fui imediatamente interpelada por um soldado que estava perto de mim! Não era permitido fotografar o grupo de visitantes soviéticos! Incrível.

O soldado não falava nenhuma língua que eu pudesse entender. Me parecia russo, pois meus ouvidos não sentiram nenhuma familiaridade com o alemão que eu estava ouvindo por aqueles dias. Fiz que sim, com a cabeça e apontei para o Portal, como quem diz que está apenas interessada na atração turística. Naquela época, as câmeras eram mecânicas e as fotos eram tiradas em rolos. Fosse digital, eu não teria conseguido usar os maravilhosos recursos de abertura de ângulo, sem que ele percebesse ou pudesse pedir, depois, para conferir o que eu tinha fotografado. Assim, o recurso me permitiu tirar essa prenda. Pena que não deu para usar a zoom... daria na pinta demais:


Tirei a foto e, como boa carioca, sorri para o soldado, como quem tinha feito a coisa mais inocente do mundo. Não consegui, no entanto, tirar a foto do carrão. Depois, dei uma disfarçada e esperei para conferir mais de perto. Isso mesmo: chiquérrimos.

Tudo igual. Aqui, lá, em qualquer lugar. Dentro e fora do muro... por caminhos diretos ou tortos, a exploração do homem pelo homem parece justificar-se por si mesma. Lágrimas nos olhos, descrença já previamente concebida. Apenas a constatação pura e simples de que a alma humana caminha segundo suas próprias escolhas, independente de crença, religião, política, cultura. O que é bem, o que é mal... tudo misturado, num balaio de intenções as mais diversas. Tudo isso invadiu meus pensamentos por tempo que não pude perceber no relógio. Nada como visitar um lugar sem pressa, passo a passo, diante do canto e do desencanto. Viver por dentro e por fora, pelos olhos e pelo coração.

Impossível, mais uma vez, sair incólume da experiência.

Mas era preciso viver outras sensações. Dali, segui meus passos buscando o encantamento dos museus: o Altar de Pérgamo me esperava altaneiro e o Portal de Ishtar me fez sonhar com um passado de povos de muitas aventuras. Curti cada minuto, cada mosaico, cada degrau dos inúmeros e maravilhosos monumentos. Parte boa da visita. Privilégio.

A volta me brindou com outro soldado da migração que quase não acreditou que a minha foto combinava com o meu rosto. Enquanto esperava o sisudo companheiro conferir os dados, fiquei pensando que só me faltaria a aventura de quererem me prender por ali. Mas passei.

Não posso dizer que foi uma visita ao inferno, pois os museus enfeitaram minha visita. Mas com certeza, povoei de uma profunda tristeza o meu coração, que saiu muito oprimido com tudo que vi por lá.

No dia seguinte, pelo lado Ocidental, caminhei novamente pensativa, ao longo do muro. Queria saber o que eu me diria por dentro. Num determinado momento, sem que eu me desse conta, de tão rápido foi o impulso, chutei aquele concreto com força, com ímpeto, com raiva, com determinação. Fiquei dois dias com dor no pé, pela força do impacto. Entendi de pronto, por dentro, a indignação dos ocidentais diante daquela infâmia. Parentes separados, ruas cortadas, comunicação impedida, passagens proibidas. Voltei ao museu do muro e todo ele ganhou outro significado para mim.

Destaco para você a foto de uma pixação no muro, a pintura de uma mão que se insinua por uma "fenda", oferecendo uma flor a outra mão, do outro lado, que se estende para pega-la. Exatamente o que simbolizava, naquela época, a busca de retratar a profundidade do sofrimento da separação. Quantos parentes e amigos sofriam desse mal... A foto não está muito nítida, pois o slide é antigo e a própria pintura não era nova. O quadro faz parte do acervo do museu.



Anos depois, quando o muro foi derrubado, infelizmente, eu não pude participar in loco da festa. Mas não perdi nenhum noticiário sobre o acontecimento... e acompanhei de perto, tão perto quanto as notícias permitiam, como a Alemanha teve de se deparar e contornar a diferença cultural que se impôs, depois de tantos anos em que irmãos foram separados por quilômetros de desvario humano.

E me lembrei daquele soldado da ponte... por onde andaria? Estaria sorrindo?

sábado, 29 de janeiro de 2011

MAIS UM TIQUINHO (Alemanha 3)


Não resisto a falar mais um pouquinho da Alemanha. É natural: foi o país que mais visitei na Europa, por conta das já citadas lojas de trens. Assim, os contos da Alemanha são contos de rua, de minhas perambulações por lá e sorrio a cada vez que me lembro de uma passagem...

Lembrei-me outro dia, de mais uma cortesia muniquenha, dessas que contam como a do funcionário do metrô, que me arranjou aquele mapa sem tamanho, a que já me referi no conto "Preconceito". Nesse outro dia, como sempre passeando pela cidade, buscava recantos não visitados, ruas e ruelas por ali, perto do hotel, pois já estava no final do dia. Havia umas lojinhas de souvenirs e, mais adiante, uma vitrine com um belíssimo enfeite. Na verdade, um jogo de xadrez: as pedras brancas com caricaturas de portugueses



e as negras, com caricaturas africanas.



Preconceitos descortinado à parte, tenho de confessar que estava muito engraçado. Coisa bem humorada. Evidente que não me interessava comprar. O motivo, em si, não me atraía, haja vista o preconceito refletido em cada peça, mas... gostaria de fotografar. Tirei uma ou duas fotos e ao levar a máquina ao rosto, novamente, tentando um ângulo melhor, um dos vendedores segurou a minha mão. Assustei-me como uma menina pega em flagrante. Pensei que me repreenderia, com aquela cara séria e compenetrada por não ser permitido fotografar. Mas não. Ele simplesmente abriu a vitrine, me dizendo para fotografar sem o vidro. Havia percebido que o reflexo estava atrapalhando a foto...

Em Colônia vivi uma tarde de encantamento sem tamanho. A peça de resistência da cidade é, evidentemente, a Catedral. Uma catedral tão imensa que não coube em minha máquina fotográfica, ao fitá-la da praça.



Apesar de sua grandiosidade, o que mais me chamou a atenção foi mesmo o clima da cidade. Que delícia! E perambular pelas ruas é que me trouxe a tal aventura sem par, inesquecível. No verão, é comum aos jovens fazerem apresentações nas ruas para arrecadarem o suficiente para poderem viajar de férias. Colocam o chapéu ou estendem um pano na calçada, tocam,



cantam, dançam, fazem mágicas, vale tudo.



As pessoas param e as assistem em silêncio(!!!). Se são bons, batem palmas e pagam pelo espetáculo... teatros ao ar livre. Típico de cidades européias, não apenas na Alemanha.

Pois bem... andando por aqui e ali, ouvi ao longe o ritmo bem nosso conhecido da bossa nova e fui me aproximando... som de violão. Mas o músico era chileno e cantava “Garota de Ipanema” em castelhano, aliás, com uma voz contestável e errando muito a letra. Quando jovem, eu fora do coral do colégio e, diga-se de passagem, tinha voz bem afinadinha. E... adorava cantar. Não resisti. Estava sozinha, felizmente, pois meu “ex” jamais agüentaria presenciar um “mico” desses. Estaria, naturalmente, enfurnado em suas lojas de trens.

Sentei-me ao lado do músico e comecei a cantar. Anonimamente, meu lema era me divertir. Ele calou-se e passou apenas a tocar. E ali estavam dois puríssimos amantes da música brasileira, sem dúvida. Ele tocou muito, eu cantei tudo que sabia de bossa nova, de música popular brasileira. Como se fossemos um par que ensaiara dias seguidos, emendamos várias músicas. Seguíamos o mesmo compasso. Eu estava tão feliz, que sequer me dei conta do público. Cantava a saudade repentina de meu delicioso Brasil. Ele concretizava, em seu violão, sua admiração pelo país irmão. Ficamos embevecidos e não sei quantas músicas apresentamos e por quanto tempo o fizemos. Estávamos mesmo nos divertindo! Quando paramos, fomos aplaudidos e seu chapéu estava abarrotado. Paramos de vez e as pessoas se dispersaram. Ele queria por tudo do mundo, dividir sua arrecadação comigo. Fiz ver que estava ali para me divertir e que ele tinha me dado momentos inesquecíveis para meu diário de vida, meu minuto anônimo de glória! Felicidade pura. Custou a convencer-se, mas acabamos por nos despedir como amigos de infância.

Acho que citaria, sem fim, aventuras por minhas numerosas viagens à Alemanha... uma Alemanha colorida e, como lhe disse em outro conto, tão diferente dos meus filmes de adolescência...

Mas... não vou me subtrair de contar também minha ida a Berlim Oriental. Um dia falo sobre isso, numa visita dos tempos em que o muro ainda existia. Argh!... Mas vale a pena, pela aventura que também vivi por lá...

sábado, 22 de janeiro de 2011

SILVIO


Silvio apareceu no hall do hotel exatamente no horário combinado.

Eu fora a Salvador para apresentar um trabalho em um congresso. Tínhamos, então, combinado um encontro na véspera de meu retorno ao Rio.

Silvio enfeitava meus pensamentos há alguns meses. Mas é preciso explicar, primeiro, quem é Patricia, peça fundamental nessa história.

Ocorre que Patrícia é a irmã que a vida se esqueceu de fazer nascer da mesma mãe. Então, para remendar a falha de execução do projeto, a vida consertou o tecido dessa teia, fazendo com que Patricia aparecesse lindinha e jovem (cinco anos mais nova do que eu), como minha aluna de Letras, na década de 70, se não me engano. Ela, com certeza, me corrigirá se estiver errada. Mas acho que foi nos anos 70 mesmo, pois ela deveria ter em torno de 19 e eu 24, bem no início de minha carreira.

É preciso dizer que Patrícia pertencia a uma das minhas primeiras turmas, na primeira universidade em que dei aula. Por sinal, a mais querida e inesquecível. A tal de Português-Inglês, do conto "O Cresta". Outras turmas vieram, na universidade pública, muitos anos depois, mas, nessa universidade, este grupo de jovens teve, com certeza, um destaque especial.

Como Patricia, muitos de meus alunos se transformaram, com o tempo, em minha família. A vantagem da família social é que ela vai se compondo aos poucos, aos sabores e dissabores da vida. Quando você vê, estão todos ali, com o correr dos anos. São tão amados que seus sangues, com certeza, correm em minhas veias ou, pelo menos, seus corações pulsam no meu.

Patrícia, sem tirar nem por, é a irmã que se fez no decorrer desses últimos trinta e poucos anos, com a graça das flores campesinas, a vitalidade e a fortaleza do carvalho, a flexibilidade e a canção noturna dos bambuzais ao vento. Poesia e prosa visitam nossas conversas sobre a vida nas suas mais variadas facetas. E Patricia, com certeza, longe de ser minha ex-aluna, sabe olhar nos meus olhos e dizer: “amiga...” e descarregar as palavras mais certeiras e eficazes que meus ouvidos e coração precisam ouvir, nos momentos mais desesperados da minha vida. Tudo com a clareza objetiva da mente aguda e perspicaz que povoa essa tão indescritível criatura. Pura lógica, mas, também, puro coração.

Não posso falar sobre Patricia. Ela mesma sabe muito bem falar sobre si mesma, em seus contos e poesias. Gostaria de dizer o que ela é, de descrevê-la, de desfiar as contas de um rosário de luz cristalina e pura. Mas seria apenas pintá-la e você não poderia sentir o sangue que corre em nossos corações. Então, deixemos como está, frisando apenas que por muitos anos vivemos distantes, mas que isso não fez a mínima diferença. Onde quer que ela estivesse, se precisasse de mim, estaria lá. A terra é apenas um sonho. Os países são apenas distâncias transponíveis pelo amor. E nos encontrávamos sempre, pois Patricia não era gente de deixar de vir ao Brasil. Eu, tampouco, deixaria de ir vê-la às pressas, se preciso fosse, ou apenas para curtir sua companhia, como já fiz, sempre que a vida pode me brindar com esse presente.

Mas parece que deixamos Silvio lá, em pé, no hall do hotel, enquanto eu contava essa história toda. Voltemos a ele.

Contar como Silvio e Patricia se conheceram não me cabe. Mas cabe dizer que os dois formam um casal super interessante. Gosto de vê-los juntos, depois de tantos anos de revezes, que os contos de Patricia saberão descrever melhor do que qualquer narrativa da minha parte.

Por hora, cabia-me conhecê-lo, na época morando em Salvador, enquanto Patrícia morava no Rio. Eu queria ver quem era, conferir se a vida tinha pregado uma peça ou se ele valia mesmo a pena. Afinal, como irmã mais velha, eu estava de olho nos pretendentes de Patrícia... não que isso fizesse lá muita diferença e muito menos que eu fosse me meter em qualquer das histórias de minha irmã, a quem amo sem condições. Mas que eu estava atenta e curiosa, lá isso eu estava.

Soube, muito mais tarde, que Silvio fora me buscar cheio de recomendações. Para onde me levar, o que eu comia o que eu não comia, que gostava de dançar, enfim, a receita de ser um anfitrião à altura. Como bom geminiano, no entanto, Silvio parecia muito tranqüilo, ali, em pé, sorridente quando me viu. Parece que adivinhou quem eu era ou decorou o meu retrato para me reconhecer. O fato é que ele se dirigiu a mim, tão logo atravessei o hall em busca de alguém a minha espera. E olha que o hall estava cheio. Como bom engenheiro, no entanto, ele deveria ter calculado que era eu e veio logo me abraçar, salpicando um beijo gostoso no meu rosto. Não vou me esquecer dessa primeira impressão.

Palmilhamos alguns lugares noturnos da cidade, como o Pelourinho, por exemplo, naquela noite de verão suave e brando. Depois, ele resolveu me levar a um lugarzinho, cujo simpático nome me esqueço. Bode Beer ou coisa assim. Sei que não mais existe. Ali, serviam, segundo ele, uma deliciosa carne de bode. Isso mesmo, carne de bode, já ouviu falar? Estávamos em 1996 e eu ainda comia carne, naquela época. Mas, como sempre, enjoadíssima para comer. Eu acho que ele já tinha sido doutrinado para isso e me garantiu que tinha outras coisas lá, como saladas e que eu poderia apenas experimentar, se quisesse, só para saber como era. Até porque o ponto alto do lugarzinho era o fato de podermos dançar o tipo de música que ele sabia que eu gostava. Imagine, o moço era também dançarino. Hum... muito bom.

O fato é que eu comi a tal carne de bode, parece que a coxa, de cujo gosto não me lembro, mas que achei muito boa. Dançamos muito, conversamos sobre tudo. Ele havia me buscado às 20 horas e ficamos por ali até as 4 da manhã. Eu, jeitosamente, abri um inquérito para saber o que ele fazia, como era, como não era. Afinal, tratava-se de um possível futuro cunhado, mas, antes de tudo, de um possível co-responsável pela felicidade de uma irmã. Assunto não faltou e Silvio não deixou a peteca cair em nenhum instante. Decididamente, mesmo diante de minha lupa aguçada, ele parecia servir.

Por certo ele sabia o quanto Patricia e eu éramos próximas, mas suas atitudes demonstravam a segurança de um príncipe. Eu, por meu lado, não deixei barato. Não dava nenhuma dica do que estava achando, embora estivesse encantada. Afinal, era apenas a primeira impressão e eu não sou apressada em julgamentos, quer bons, quer maus. Ele estava ali, tranqüilo, sem mexer uma palha de suspeita de ansiedade. E isso lhe dava uma nota à parte.

Mas... ah, puro engano! Às quatro da manhã, como eu estava só de papo, ele não agüentou:

- Ok, tudo bem. Mas que nota você dá?

Foi aí que percebi o quanto, para ele, minha opinião era importante. Por dentro, sorri, mais seduzida ainda, mas não me fiz de rogada. Olhei para ele, sorri ligeiramente, pensei um pouco e respondi:

- Sete.

Se havia alguma coisa que faltasse em mim para que Silvio me conquistasse, esse pedaço se entregou por inteiro com a sua resposta:

- Ah, não! Peço revisão de prova!

Arrancou-me, com certeza, uma gostosa gargalhada e, então, eu respondi:

- Tá bom, nove.

- O que faltou para o dez? retrucou ele, fazendo uma espécie de bico. Segurei sua mão, encantada, mas me mantive firme, embora sorridente:

- Dez só dou para Patrícia.

- Tá certo, você ganhou. Mas... por enquanto.

Sempre dou nove para Silvio. É quase uma senha de nossa grande amizade, esse cunhado-irmão, essa gracinha de pessoa que Patrícia fez atravessar o meu caminho.

sábado, 15 de janeiro de 2011

ÁGUA DURA EM PEDRA MOLE...


O que dizer que possa fugir ao senso comum... que inaugure palavras que possam ser lidas ou ouvidas com som de esperança? O que dizer daquilo que todos nós já sabemos a respeito de todos os ditos e não-ditos, promessas e dívidas, promessas e dúvidas?

De 1957 a 1958, eu morei no Engenho de Dentro... e todas as vezes que chovia, eu me lembro que a rua já ficava completamente tomada pela lama que vinha do morro ao lado...

Que esperança poderei ter de escrever um conto, um dia, dizendo que fotos como essa, sejam apenas uma lembrança do passado?

O que dizer que possa ser muito mais do que apenas "virar um provérbio pelo avesso"?

Obs.: Foto de Marino Azevedo - Divulgação: notícias.terra.com.br

sábado, 8 de janeiro de 2011

O HOMEM DE TERNO


Eu acho que às vezes, meu anjo da guarda se concretiza. Não pode me ajudar lá do outro lado, então toma a forma humana, vem e me salva. Já contei a você, no conto "O policial", o episódio de Francisco, o policial louro em cujo carro bati, num dia de chuva fina, em frente à Central do Brasil, tarde da noite. Hoje fico pensando se ele era louro ao acaso ou se o anjo é que era louro, como nos quadros das igrejas barrocas e, na pressa de me proteger, se esqueceu de se vestir como um autêntico brasileiro de raça misturada e ginga carioca.

Pois então... toda vez que esse anjo me aparece, nunca se lembra de que estamos no Rio de Janeiro... e, desta vez, veio de terno, imagine, e, de novo, por conta de uma batida de carro. Um taxi me pegou de banda, ele avançando o sinal.

Aqui se faz, aqui se paga. No dia do policial, eu avancei, neste dia fui “avançada”...

Novamente, em torno das 23 horas, eu, outra vez, voltando da universidade e vindo pela Rio Branco, em busca do Aterro. Sempre gostei de voltar pelo Aterro. Não sei por que me sinto mais segura ali do que vindo por dentro, pelas ruas com tantos sinais, curvas e imprevisíveis transeuntes. Nem sei se é por isso ou pelo fato de eu adorar o Aterro, lindo a qualquer hora do dia ou da noite. Quem sabe... talvez os dois. Pois bem, eu estava bonitinha seguindo o sinal verde, em plena Cinelândia e o taxi me pegou desprevenida, de banda. Quando percebi que ele avançava, em vez de frear eu acelerei e foi a sorte. Me pegou de quina, na parte traseira. Mais um pouquinho e eu teria conseguido escapulir da trombada, mas não teve jeito, bateu mesmo.

O pior é que o taxista, erradíssimo, saiu do carro todo prosa, botando banca, dizendo que eu estava errada. Mas não adiantou. Tinha testemunha dizendo que ele tinha avançado. Sem saída, ele foi entrando no carro, afirmando, então, que essas coisas acontecem e que cada um ficasse com o seu prejuízo. Eu reagi, imediatamente (nem sei como!) dizendo que queria perícia. O homem emplumou-se. Avançou dizendo que iria chamar a polícia. Com isso, talvez quisesse me assustar. Redargui dizendo que polícia era mesmo o que eu queria àquela hora da noite. Só poderia me ajudar. As pessoas juntando e, claro, os que não tinham visto o acidente dizendo que mulher na direção dá mesmo problema. Outros diziam que o culpado tinha sido ele mesmo, desta vez. Uma fofocada à parte, de quem não quer ajudar nada, mas fica por ali, ciscando o conflito.

Foi então que ele apareceu. De terno, gravata e tudo, dirigiu-se em voz pausada para o motorista:

- Você disse que iria chamar a polícia? Faça-nos este favor, pois economizamos tempo. Aproveite e chame a perícia também.

- Quem é você?

- Estou com ela.


Colocou a mão no meu ombro:

- Querida, entre no carro, fique tranqüila. Deixe que eu resolvo.

Pensei logo em cantada, mas fiquei bem quieta. Que fosse. O importante é que estava me salvando daquele bando de homens que rodeavam o carro, em plena Cinelândia, que não é o melhor lugar para se arranjar um tumulto desses, ainda mais àquela hora.

Assim posta a coisa, as pessoas começaram a se dispersar e o motorista não teve outro jeito senão o de esperar pela perícia. O cavalheiro conversava comigo na maior intimidade, coisas do cotidiano, como se fôssemos mesmo um par. Vez por outra, me piscava um olho malandro de quem está se divertindo, em vez de só ajudando.

A perícia chegou, melhor, a polícia e logo após a perícia. Só depois de tudo resolvido e com o motorista dispensado é que nos apresentamos: ele estava numa daquelas boates, esticando o happy hour, quando ouviu dizer que uma moça (quanta gentileza!) tinha batido num motorista de taxi e estava sozinha, meio exposta à chacota das pessoas, tentando se defender, no meio da homarada (esqueceu de assinalar que faltava pouco para eu ter um treco de medo!). Saiu para ver e percebeu logo o meu aperto. Viu quem era quem e tomou o meu partido. Daí por diante, eu sabia da história.

Descobri ali mesmo que não era uma cantada. Era pai de dois lindos filhos e tinha uma linda mulher, pelo que vi em seus retratos na carteira. Mostrou-me vaidoso a covinha do filho mais velho, igual à covinha da mãe. As crianças e a mãe estavam de férias, na casa da sogra. Ele, então, curtia a noite e já estava bebendo uma saideira com os amigos, quando tudo aconteceu.

Esticou a mão para mim, despedindo-se gentilmente. Meu agradecimento estava no aperto de minhas mãos, no meu olhar, na minha voz. Ele tinha deixado seus amigos para vir se aborrecer por alguém que ele nunca vira e...

Ele apenas me respondeu:

- Que nada, foi um prazer... eu até me diverti. Lembra da cara que ele fez quando eu cheguei?

Eu não me lembrava. Aliás, sequer conseguia me lembrar da cara do motorista, tal o susto por que passara ao me sentir ali, sozinha, tentando enfrentar a situação. Mas, por delicadeza, concordei e sorri. Agradeci mais uma vez. Ele ainda gracejou comigo dizendo para eu ir para casa direitinho e esperou que entrasse no meu carro e ligasse o motor. Dirigiu-se para a calçada, enquanto eu me afastava desacreditada do que estava acontecendo. Ainda pude ver seu vulto afastando-se, pelo retrovisor.

Meu anjo de terno desapareceu na noite carioca, sem que eu tivesse tido a oportunidade ou a idéia de perguntar o seu nome. Mas jamais desapareceu dos espaços de gratidão que guardo em um lugar bem especial do meu coração.

domingo, 26 de dezembro de 2010

QUERO MEUS DIREITOS DE VOLTA (conto de ano novo)


Falamos tanto de direitos humanos, de direito civil, direito isso, direito aquilo, mas nos esquecemos do melhor dos direitos: o direito de podermos comandar nosso eu interior, nossos passos da alma, nossas emoções. O direito que podemos e devemos nos dar de vivermos o melhor de nossas escolhas.

Enquanto olhamos para fora, para a crítica da mídia, do sistema, do planeta, do isso e do aquilo, quem sabe, não estejamos, antes de tudo, mascarando os direitos mais profundos e internos de nossa própria vida, aquilo sobre o que podemos decidir sobre nós mesmos, antes de decidirmos sobre o que existe fora de nós.

Não sou contra a luta social, muito pelo contrário. Na juventude fiz passeatas, participei de greves, vesti camisas, me arrisquei a perder o emprego, mas não deixei por menos: fiz. Não me arrependo, era a hora de fazer e até me orgulho disso.

Mas há direitos que não podemos deixar de resgatar se os perdemos... e isso acontece com uma indescritível freqüência, um direito que nos foi dado, quando viemos ao mundo. Na maioria das vezes, o perdemos no bulício do cotidiano, da juventude, do trabalho, dos vieses da vida. Deixamos de lado a voz de nosso coração, somos racionais, práticos demais... ou somos excessivamente emocionais, apaixonados, impulsivos. Tudo certo. Tudo válido. Mas, muitas vezes, acabamos perdendo nosso rumo interior, na medida descompassada da mente e do coração.

Sempre tivemos os mais importantes dos direitos: os direitos que asseguram nosso livre arbítrio. Mas, quase sempre, nos esquecemos de que eles existem com a finalidade única e imprescindível de nos tornarmos aptos a lutar por nossa saudável felicidade.

O que me faz escrever isso hoje é uma soma incalculável de mostras de tanta infelicidade a minha volta, tanta dor, às vezes, tanto sofrimento interior. Também das minhas dores, não me excluo disso. Mas talvez esteja mais consciente agora do que antes.

E é por isso mesmo que faço um convite, por que não? Não há nada a perder, pelo contrário!

Se as coisas não andam como você deseja, que tal fazer uma passeata interior, entrar em greve de “vida” e gritar para você mesmo ou mesma:

QUERO MEUS DIREITOS DE VOLTA!

O melhor da história é que eles estão ao seu alcance, é só você se dar conta disso... e tomar as atitudes corretas. Quem sabe, sua vida dê uma reviravolta saudável a partir daí e, se você não está bem, é hora de começar a escrever o seu novo conto, seu verdadeiro conto de vida.

Muitas vezes, a mudança nem se dá no cotidiano exterior. O mais importante é o que vai na sua alma. Outras vezes, a mudança é mesmo total e muda tudo: o de fora para mudar o de dentro. Foi assim que aconteceu comigo. Mas não importa qual seja o seu caminho. Você veio com o direito de ser feliz. O problema é saber encontrar como... e... quem sabe, é bem mais fácil do que você imagina. Simplifique. A grande e maior sabedoria é tão simples que, muitas vezes, não conseguimos alcançá-la!... Não se iluda, ouça sua voz interior. Seja fiel a ela. É uma boa pista. Talvez a melhor.

Tente. Quem sabe a felicidade esteja a sua porta, na porta interior de sua alma. Ninguém usurpa os direitos de alma de ninguém. Se não os tem, ou melhor, se não os percebe vivos, faço este convite, de amiga, de mãe, de irmã, de alguém que te quer ver feliz porque também lutou por preservar a própria felicidade.

Lute por você: tenha seus direitos de volta!

Lutar por eles foi, um dia, o mais importante e verdadeiro conto da minha vida.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

PEDIDO DE NATAL


Ah, Papai Noelzinho,
Você, que é tão bonzinho,
Aponta sempre o meu caminho
Para o lado mais certinho.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

QUEM DIRIA (Alemanha 2)


Berlim: linda, magnífica, a cidade que não dorme. Bulício, festa, cores, luzes, vida. Passear perdida pela cidade até que as pernas andassem separadas do corpo, pois o cérebro deixa de pensar que existem, adormecidas, mas felizes. Prefiro saltar a parte de visita a Berlim Oriental, que deixo para um conto à parte. Voltemos nossos olhares para a festa. Enquanto meu “ex” passava praticamente os dias a cata de seus trenzinhos, eu me embebedava pelo colorido multifacetado da cidade, em suas ruas, museus e atrações as mais diversas. E foi no início de uma das manhãs que me vi numa pequenina agência de correio para despachar um dos pacotes de compras de cidadezinhas, casinhas e outras coisas do hobby de trenzinhos dele. Fazíamos isso, pois seria impossível carregar tudo em malas, pois precisam ser bem empacotados para que não quebrem, etc. Melhor despachar. Como eu não tinha compromissos, senão o de perambular pelas ruas, não me custava encarregar-me dos despachos, enquanto ele corria afoito para novas compras. Ele não queria perder um minuto do exame acurado das revistas com os números dos trens, vagões, casinhas e tudo mais que fazia seu hobby valer a pena. Eu, por meu lado, não tinha pressa. A cidade estava ali, para ser sorvida como um manjar dos deuses. Passar pelo correio, poderia fazer parte da festa. Nunca se sabe o que pode acontecer a cada passo. E, neste dia, foi surpreendente! Estar sem pressa é tudo nesta vida. Vivemos cada segundo intensamente, se soubermos que são segundos vitais... e eu sabia.

No que se refere ao aspecto financeiro, a vida me dava a oportunidade de poder entender e fazer isso. Passei por muitas experiências, desde o aperto financeiro mais agudo, na juventude, à possibilidade de viajar por aí, depois de recebida a herança de meu pai. Depois, novamente, novos grandes, intensos apertos, com o divórcio e, mais tarde, novas oportunidades de ardorosa e saudável subida. Talvez essa experiência multifacetada me tivesse dado sempre esse perfil de aproveitar as oportunidades pelo que posso trazer dentro de mim e não pelo que posso carregar nas malas e nos bolsos. Nada contra quem pense ou faça diferente, é claro. Se todos fossem iguais, a vida não teria mesmo graça... para mim, no entanto, naquela época, o que contava era a sede de conhecimento, não obrigatoriamente só acadêmico, mas de vida. Felizmente, aproveitei a oportunidade de poder fazê-lo da forma que me deu maior prazer. E, essencialmente, um conhecimento interior que só pude constatar, de fato, muitos anos depois.

Mas, voltemos aos correios: Entrei na agência como quem sabe tudo. Já havia feito tantas remessas, que sabia preencher os formulários de cor e salteado. Havia apenas dois funcionários atendendo (a agência era bem pequena!) e nenhum cliente. Preenchi os formulários (alemães adoram formulários!), etiquetei tudo com a meticulosidade germânica já minha conhecida e me aproximei do balcão. O atendente era um senhor bem forte (por que não dizer gordo?), bochechudo, olhos azuis escondidos pelas rugas da face, ligeiramente corado, barba branca bem tratada, cabelos idem. Muito simpático.

Pegou o pacote e me perguntou algo em alemão. Não entendi bulhufas. Ele repetiu. Nada. Perguntei se falava inglês, francês, espanhol, português. Nada. Então, ele olhou para mim, abriu os braços como asas flutuantes e perguntou:

- “By fly?”

E depois, juntando as mãos, como imitando um barco flutuando através do mar, perguntou:

- “ Or by ship?”

Entendi a pergunta: era para ir de avião ou de navio? Claro, de navio, é bem mais barato. Leva uns dois meses, mas quem tem pressa? O importante, no entanto, não foi isso. O que me chamara a atenção fora o jeito engraçado com que ele gesticulara. Tão engraçado, que não resisti: propositadamente, copiei seu gesto, tentando caricaturizá-lo ao extremo: juntei as mãos e as fiz flutuarem no ar escandalosamente, exatamente como ele fizera e repeti:

- “By shshiiippp!”

O senhor não resistiu. Soltou uma gargalhada tão gostosa e contagiante, que pensei que o mundo estaria todo feliz naquele momento. Comecei a rir também, contagiada e, logo, despregadamente. O funcionário ao lado, que a tudo assistira, caiu num riso solto, idem. E os três não conseguiam parar. Rimos de torcer, como quem pede para parar pelo amor aos deuses. Mas não conseguíamos. Era terrivelmente contagiante, como se fosse a piada do século, como se as crianças que habitavam em nós surgissem à tona, ao mesmo tempo.

Nesse momento, entrou um cliente, um desses alemães bem carrancudos. Olhou para nós três com olhar de quem não estava entendendo nada e também de reprovação. Éramos loucos ou coisa assim? Acenou com a cabeça e... retirou-se da agência. Pronto! Foi o suficiente para rirmos em dobro pelo ridículo que deveríamos ter passado ao carrancudo senhor...

Rimos muito muito muito. Rimos como amigos de infância que se encontram para uma tarde de aventuras e piadas. Rimos como seres humanos que se encontram felizes, independentes de raça, religião, cultura, língua ou crenças. Rimos cúmplices. Jamais me esquecerei. E por mais que tente, não consigo reproduzir a profundidade desse momento em palavras. Se puder, busque você imaginar o puro encantamento: “ by shshiiippp!”

Ah, Alemanha, cujo colorido e aventuras povoam meu coração...

Saí da agência levando na mente aquele rosto corado e simpático, a barba branca, a pança avantajada, os olhinhos azuis... e... principalmente, aquela gargalhada franca e contagiantemente gostosa.

E... de repente... tive a indescritível sensação de ter descoberto onde Papai Noel se esconde durante o ano: Quem diria!... Funcionário dos correios! Nada mais apropriado...

sábado, 11 de dezembro de 2010

PRECONCEITO (Alemanha 1)


Visitei a Alemanha, pela primeira vez, na década de oitenta, com um puríssimo preconceito pendurado a tiracolo, de quem ouviu a vida inteira que o povo alemão é rude, não sabe rir, não é gentil. Fui assim, esperando caras fechadas por todos os lados e preparada para enfrentar 20 dias de completa antipatia.

Entramos por Hamburgo, meu ex-marido e eu, vindos de Amsterdã, aquela cidade maravilhosa, super acolhedora, que já mereceu um conto à parte! Desci do hotel direto para um pequeno mercado para comprar frutas. Felizmente, ali, quase todos falam inglês. Foi aí que tive o primeiro e definitivo contato, com esse povo que saía, enfim, das telas de meus filmes de guerra da adolescência para a realidade. O mercado era bem pequeno, digamos, uma pequena venda, com apenas dois funcionários. Na verdade, pareciam ser o casal de donos. Estávamos no caixa, meu “ex” puxando o dinheiro para pagar as contas enquanto eu empacotava as frutas. O alemão do caixa era um senhor corado, gordo e de cara fechada. Pura rabugice, pensei eu. Mas... já que estava na chuva, continuei contrita minha tarefa de empacotamento, ansiosa por ir embora e me largar, ainda que tímida e titubeante, pelas ruas da cidade.

Foi, então, que aconteceu: antes de dar o troco a meu “ex”, o tal senhor olhou-me (sem sorrir) e me estendeu a mão com algo dentro. Instintivamente, estendi a minha, sem saber para quê. Ele, gentilmente, colocou uma pequenina moeda em minha mão e fechou-a delicadamente sem pronunciar palavra. Não sei se sorriu, mas pareceu sorrir. Olhei para ele e para moeda e traduzi, imediatamente, aquele pequeno brinde ao meu coração: bem-vinda a minha casa. Meus olhos se encheram de lágrimas, como boa latina que sou. Agradeci, comovida, entendida a gentileza de tão suave e sutil acolhida. Na rua, já estava com o rosto banhado em lágrimas, meu “ex” sem ter entendido nada, me perguntando o que significava aquilo tudo. Expliquei-lhe finalmente que tinha vindo àquele país com a maior má vontade (ele não sabia), apenas pelo amor de acompanhá-lo em seu capricho consumista (ele era ou é, colecionador de miniaturas de trens, hobby caro de pecinhas minúsculas, cujas fábricas são alemãs). De repente, tudo que eu pensara e construíra em minha mente a respeito do povo, tinha sido divina e poderosamente destruído pela singeleza do toque de alma daquele senhor gordo, corado e... tão gentil!!! Chorava de emoção, de culpa, de gratidão. Por muitos e muitos anos esta moeda me acompanhou, tomando o lugar de honra em meu porta-níqueis, até que, um dia, a perdi. Mas guardo aquele gesto até hoje, num cantinho especial de meu coração.

Daí por diante a Alemanha abriu meu coração para sempre. Não havia um lugar em que eu parasse, abrisse o mapa para me posicionar na cidade e não visse, imediatamente, algum alemão se aproximar: “may I help you?” Que povo maravilhoso! Minhas caminhadas por todas as cidades eram simplesmente magníficas. Fazia-as com sabor de festa, enquanto meu então companheiro passava os dias enfiado nas lojas a busca de seus trenzinhos de brinquedo. Vinte dias de liberdade de caminhadas, colhendo aqui e ali o que a alma deste povo esconde em seu interior. O país é pródigo em belezas naturais e estruturais, em museus, passeios, atrativos os mais variados. É possível andar para cima e para baixo, para todos os lados, no meio daquela língua belíssima, mas incompreensível, sem se perder. Tudo corre a tempo e a hora, numa organização ideal para o turismo com todas as facilidades de deslocamentos.

Nada de excursões. Grupos em que somos contados como carneiros não estavam em meus planos. Assim, a organização e a facilidade de achar-me e deslocar-me independente da língua tornava-se essencial. E a Alemanha é pródiga nesse item. Os trens saem absolutamente no horário, com exceção dos de Frankfurt que saiam com exatos cinco minutos de atraso, mas chegavam ao seu destino no horário estabelecido pelos folhetos. É claro que me refiro à década de 80. Agora não sei como são. O fato é que me senti completamente em casa em todas as vezes que fui lá e não foram poucas... e é o país de onde tenho mais aventuras para contar.

Lembro-me de uma passagem muito interessante no metrô de Munique. Eu estava encarregada, em todas as cidades, de conseguir um mapa miniatura do metrô para compor uma das inúmeras coleções do “ex”, cujo hobby compunha uma lista invejável de itens, entre relógios, mapas, latinhas de coca-cola, canhões de brinquedo, ferramentas, destacando os tais trenzinhos com suas cidadezinhas montáveis, itens aos quais ele dava maior vazão nas viagens.

A mim, não custava nada bambolear pela cidade a busca de mapinhas de metrô pequenos e bonitos (pois nem sempre eram oferecidos no metrô) para enfeitar o corredor de nosso apartamento. Eu não fazia lá muita questão desse tipo de enfeite, embora ficasse gracioso, confesso. Do que eu gostava mesmo era ter de serpentear pela cidade com o pretexto de encontrá-los. Perdia-me sem mapas (muitas vezes, abandonava os mapas e adorava me perder pelas ruas), justamente para buscar um mapa, imagine! Para mim, soava interessante. Pois bem, em Munique, não achava um mapinha que prestasse. Resolvi, enfim, ir direto ao metrô. Falaria com algum encarregado, perguntando onde poderia encontrar a minha prenda. Acabei por achá-lo, dias depois, numa banca de jornal escondida, mas, antes disso, teria de passar por uma pequena, mas deliciosa aventura:

Desci do hotel, num horário compatível com o pedido. Metrô sem muito movimento, tudo bem arquitetado em minha mente, pois, a essa altura, eu já estava entendendo um pouco como se fala com o povo alemão e em que situações a aproximação é mais promissora. É exatamente como os chiliques que também temos em nossa cultura e não nos damos conta que existem: tudo tem seu tempo e hora...

Me dirigi à bilheteria e foi onde eu entrei em contato, pela primeira vez, com o espírito de humor germânico. Fiquei ensaiando como falaria em inglês, já que o francês, língua de minha preferência, não é tão usada assim nos outros países europeus. Busquei meu sorriso mais significativo de socorro e perguntei ao jovem que estava atendendo: do you speak English? Aceno negativo. French? Não. Spanish? Não. Portuguese? Não. Caramba... então, ele sorriu (eu aprendera a ler o sorriso alemão!) e apenas me perguntou: Deutsch? Aí, sim, sorrimos os dois. São assim as piadas alemãs.

Eu não falava o único idioma que seria necessário falar naquele momento... tanta erudição jogada fora... Fora? Não: dentro! Ele deixou outro funcionário no lugar dele, deu a volta, saiu da “gaiola” e se dirigiu a mim gesticulando de modo a me fazer entender que eu me expressasse como desse. Isso é a rudeza alemã? É assim que eles tratam mal a gente? Valha-me um cartucho de sal! Francamente, eu não encontro isso em muitos lugares da terra...

Apontei para um out door com o mapa do metrô na parede. Vale o aparte: lá há mapas enormes, onde você pode ver todo o trânsito das incontáveis linhas de metrô – em alguns deles, você clica o botão com o nome da estação de destino num pequeno mostruário abaixo desse mapão e nele acende-se o roteiro, partindo da estação em que você se encontra até chegar à estação de destino. Assim, você pode acompanhar o trajeto, inclusive as baldeações, se necessário, sem precisar falar uma palavra de alemão.

Bem, voltemos ao conto: apontei para um desses mapões e fiz um gesto com as mãos, mostrando que gostaria daquilo em tamanho pequenininho. O jovem entendeu prontamente e fez aquela expressão de “lamento, mas não temos”. Fiz um gesto como quem pergunta onde poderia achar. Ele fez cara de quem não sabia, mas algo em seu olhar iluminou-se. Imaginei que ele tinha resolvido o meu problema. Fez sinal para que eu esperasse e sumiu entre as pessoas, entrando por uma porta restrita aos funcionários. Passei uns vinte minutos à espera. Se não estivesse na Alemanha juraria que ele tinha me deixado na mão. Mas não. Ele voltou com algo e me entregou. Imagine você: ele estava me dando um mapa daqueles enormes, um out door que caberia na parede de uma sala! Não posso pensar em como ele conseguiu aquilo, só para agradar a uma turista que ele nem conhecia. Mas fez. Olhei para ele estarrecida, com um olhar de admiração incontestável. Ele apenas sorriu singelamente, o melhor que um alemão convicto sabe fazer, acenou gentilmente a cabeça, como quem diz que “não foi nada, foi um prazer” e retirou-se para seu guichê. Sorri para ele, ainda, de longe, deixando bem claro o meu reconhecimento e minha gratidão. Eu não tinha a mínima idéia de para que aquele mapa me serviria, em casa, mas isso era o de menos. O que valera, ali, fora a boa vontade, a elegância, a delicadeza.

Ah, a Alemanha... de povo sério, de alma gentil. E de um humor que poucos sabem entender. Acho que ela vale mais um conto, um conto de natal, na semana que vem...

sábado, 4 de dezembro de 2010

O PASSAPORTE


Você conhece algo mais fácil do que tirar passaporte com antecedência? Não tem. Com antecedência, claro.

Meu primeiro passaporte demorou muito. Marinheira de primeira viagem e um sistema operacional manual, nos idos tempos da década de 70, me exigiu o fôlego e a paciência de tirar aquele retrato em estúdio de fotógrafo, segurando uma plaquinha com data aparente, no peito, e pano de fundo branco. Quem é da minha geração se lembra: típica foto de bandido em delegacia. Dali, providenciar uma lista inumerável de documentos, guia de banco (essa técnica já existia) e uma fila do caramba, na Polícia Federal da Praça Mauá. E esperar, claro. Ah, quase ia me esquecendo: acordar cedo, como quem entra em qualquer fila pública da época. E levar um lenço, pois lambuzavam todos os dez dedos para tomarem as impressões digitais pelo método de mil novecentos e vovô criança: uma tinta preta horrorosa espalhada em cada dedo, pegajosa, para que as nossas pegadas saíssem impressas na ficha da polícia. Aquela tinta que, uma vez lambuzada, colocava você diretamente em cheque com o desafio de não manchar sua roupa. Pode imaginar, não? Hoje, apesar de algumas exceções, as coisas melhoraram bastante nos órgãos públicos para darmos entrada em documentos. Pelo menos, você pega uma senha e senta. E se livra, também, de alguns desses desconfortos. Naquela época, além dessas técnicas do século passado, você ficava numa fila de dar voltas em quarteirão e era, literalmente, na rua mesmo, fizesse sol ou chuva. É verdade que tinha uma taxa de urgência. Com ela, você conseguia fazer em uns 15 dias, mas, nesse caso, era melhor contratar um tal de despachante. E saía bem caro. Além disso, tinha de enfrentar a fila, na mesma, no dia da impressão das digitais, etc.

Fora dessas circunstâncias, tirar passaporte com mais facilidade, só se fosse o consular ou, então, os chamados especiais, de empresas, etc. Nós, simples mortais, tínhamos de tirar com antecedência mesmo e com todos esses embaraços.

Mas as coisas melhoram com o tempo e foi graças aos primeiros avanços tecnológicos que vivi minha pequena, mas inesquecível aventura com a Polícia Federal, na saída do país, em 1998, às vésperas de um dos congressos mais importantes da minha vida.

Tudo começou com o tal “avanço tecnológico”: era possível tirar passaporte pelo correio! Que maravilha! Depois de duas décadas pelo método confuso, digo, antigo, poder ir ao correio e entregar tudo ali, no balcão, era um pedaço de céu. Com antecedência, é claro, pois demorava um mês para chegar. Indo na Praça Mauá, já se conseguia em 10 dias. Mas com todos aqueles embaraços já descritos.

Eu sempre faço as coisas com antecedência e, se puder ser com conforto, melhor ainda! Então, juntada a tal foto de presidiária com data e pano de fundo branco, a taxa do banco, o passaporte antigo e os documentos de praxe, me mandei para o correio, na esquina de casa, e dei entrada nos papéis. Protocolo em mãos e... esperar. Mas, é claro, não sou tão confiante assim. Eu já tinha minha nacionalidade portuguesa assegurada e, idem, passaporte europeu. Qualquer vacilo burocrático, estaria segura, não perderia a viagem. Já viu alguma taurina agir sem mil metros de segurança a sua volta?

Vinte e cinco dias depois (vinte e cinco dias e não trinta!!!), recebi a notificação de entrega e me mandei para o correio. Ele estava lá, lindinho, fofinho, me esperando. Assinei todos os recibos de entrega (um monte!) e trouxe minha jóia para casa. Abri para conferir com mais calma. Tudo certo, com exceção da... data de nascimento! O dia e o mês estavam certos, mas o ano, veja só, era 1995. Oficialmente, portanto, eu tinha apenas 3 anos de idade! Achei um absurdo sem nexo. Como teriam errado desse jeito? Como teriam achado um ano assim? Eu nasci em 1951. Não dava nem para imaginar a troca de 1955 por 1995. Mesmo fazendo um trabalho sem atenção ou automatizado, como o funcionário conseguira essa proeza? E não daria tempo para modificar, mesmo que eu fosse diretamente à Praça Mauá. Faltavam apenas dez dias para a viagem e eu tinha mil coisas a fazer. Estava em meados de junho, o congresso começaria no dia 25, no Porto, Portugal e eu tinha provas dos alunos para corrigir, notas para entregar, arrumar a mala, enfim, todas as atolações de viagem em final de semestre letivo. Sem contar com os últimos preparativos de minha apresentação no congresso, já que eu era uma das palestrantes! Nem pensar em tentar a trabalheira de consertar o passaporte. Mas eu queria sair com passaporte brasileiro, pois, quem viaja sabe como é bom sair com o brasileiro, entrar lá com o europeu e fazer o caminho de volta ao inverso. Significa, literalmente, livrar-se de quatro (quatro) grandes filas de engarrafamento nos setores de migração: quem é “de casa” passa mais depressa, quando não passa direto. O que fazer, então? Ora... tentar sair com aquele mesmo e “ver se cola”. Típico jeitinho brasileiro, que todos conhecemos. Afinal, o erro não tinha sido meu!

Resolvi, por via das dúvidas, levar minha certidão de casamento, anexada ao passaporte, minha identidade básica, mais genuína que minha carteira de identidade. Ao tirá-la da pasta de documentos para anexá-la ao passaporte, tive a curiosidade de relê-la. No final, a averbação de meu divórcio: 18 de dezembro de 1995. Ah... estava lá! O funcionário deveria estar bem distraído, quem sabe, conversando com a namorada ao telefone, quando fez uma miscelânea nos meus dados, misturando o ano do meu divórcio com a data de nascimento! Tinha sido isso. Explicada a confusão. Ok, vamos transformar isso num argumento, levar o documento original e ver no que dá.

E foi o que fiz: o funcionário, quer dizer, o agente federal abriu o passaporte em frente a uma viajante com cara de inocente, super calma e feliz. Mas não adiantou, ele viu a data e não deixou passar barato:

- Seu documento está errado. Aqui consta nascimento em 1995.

Tentei brincar:

- Está correto, é a data do meu divórcio. Nasci, de novo, nesse ano.

Ele não deu chance, embora esboçasse um leve sorriso:

- Mas está oficialmente errado, não posso deixar passar.

Continuei tentando brincar:

- Tem razão, faltam a fralda e a mamadeira. Só que não posso deixar de viajar de jeito nenhum. Tenho uma palestra em um congresso no dia 25, depois de amanhã. Nem pensar em não viajar hoje. Chegarei a Lisboa amanhã, dia 24, sigo direto para o Porto, durmo e apresento meu trabalho no dia seguinte! Tenho de viajar nem que seja no bagageiro (tentava mostrar bom humor para ver se ele não emplumava)

- Não posso deixá-la viajar com a documentação errada!

- Mas o erro não foi meu! Você está vendo! Estou levando minha certidão de casamento junto para mostrar, se for o caso. Não posso deixar de ir. Recebi assim do correio, às vésperas da viagem, não deu tempo nem de verificar! Se preciso, chame seu supervisor, faça qualquer coisa, estamos a três horas do vôo e vocês podem consertar ou verificar o que quiserem. Mas eu tenho de ir!


Eu estava tentando garantir minha volta sem grandes embaraços ao solo pátrio, com o passaporte nacional. Mas já estava pronta para puxar o outro, se fosse necessário. O supervisor chegou trazendo o passaporte, entre sério e solícito, pois sabia a bomba que tinha nas mãos. Falou delicadamente:

- Por mim, uma vez que o erro não lhe cabe, eu a deixaria passar, mas a senhora não conseguiria entrar em outro país com essa data errada!

Aliviada, então, mostrei o outro passaporte:

- Então, está tudo certo: o senhor me deixa sair com esse que eu entro com esse outro no outro país.

Com esse argumento, ele só pode ceder e me fez prometer que consertaria o passaporte tão logo voltasse ao Brasil.

Felizmente, tinha os dois passaportes, senão, talvez não tivesse viajado, curtido um dos melhores congressos de que participei, além de poder ter vivido uma das grandes aventuras amorosas de minha vida: meu encontro com um africano gabonês de sonhos. Mas isso eu conto em outro conto.

Voltando ao Brasil, corretinha como sou, fui super fiel a minha promessa: me apresentei à Polícia Federal para o acerto. A primeira coisa que o funcionário fez foi perguntar como eu tinha conseguido viajar com aquele documento. Quando soube de meu outro passaporte, apenas disse:

- Então, pode deixar como está! A senhora usa esse assim mesmo até a data de validade. E utiliza o outro para entrar nos outros países.

Pode acreditar? Foi isso mesmo. Ele deveria ser irmão daquele outro que carimbou a data errada. Só podia ser. Tão competente e sério quanto aquele... marca de família.

Eu deveria ter feito um escândalo, mas, sinceramente, iria dar tanto trabalho e eu estava em um momento tão atribulado de minha vida que acabei deixando passar. Afinal, não planejava viajar tão cedo e, na verdade, tirei outro passaporte dois anos depois por conta de uma outra viagem. Aleguei ter perdido o anterior. Na verdade, o que eu queria era guardar como lembrança o erro inconseqüente - ou, quem sabe, inconsciente? - de alguém que colocou o ano de meu nascimento para uma “nova vida” em um de meus documentos oficiais... presentes da vida...

Agora, para tirar um passaporte, você faz tudo por internet e vai lá, em algum lugar perto de casa, apenas para assinar, tirar uma foto digital e colocar seus dez dedos numa máquina também digital, sem necessidade de sujá-los com aquela tinta preta horrorosa. E faz isso com hora marcada, sem precisar esperar, pois, desde sua inscrição pela internet, você pode escolher posto, dia e hora para entregar os documentos, tirar foto e imagens das impressões digitais. Muito chique. Depois de uns 10 dias, passa por lá e pega sua jóia. O único problema é que, na inscrição pela internet para preencher o formulário e marcar a data de entrega dos documentos no posto, dependendo da época do ano, você só consegue vaga daí a um mês.

Mesmo assim, tirar passaporte, hoje em dia, é realmente muito simples: tudo computadorizado, automaticamente conferido, pois você é um número bem delineado nas máquinas do sistema... e não passa pela possibilidade de viver a aventura de ter de brincar com um oficial da migração para conseguir sair de seu país.

Mas tudo isso, é claro, se tomar essas providências com antecedência, pois, se quiser deixar para a última hora, ah... vai ter de viver tudo que eu vivi (com exceção da foto de presidiário e a tinta preta nos dedos), só que no aeroporto internacional, setor da polícia federal – migração -, enfrentando uma fila de mais de duzentas pessoas, todas igualmente apressadas e atrasadas como você. Soube disso, por uma amiga, dessas que deixa as coisas para o último minuto. Mas se você quiser arriscar essa forma ancestral, conhecerá um pedacinho das tormentas que vivíamos no século passado. E, quem sabe, de brinde, viva suas próprias aventuras...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

DIANTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS



Pensei em escrever mil coisas hoje. Algo fora do senso comum, algo fora do que todos já estamos acostumados a ler. Já sabemos que falta educação, que faltam os subsídios para a tranqüilidade da alma, do corpo, da mente, da cidadania, enfim, de nossos postos como seres humanos subjetivos e sociais. Já sabemos. Não é preciso a mídia insistir. Já sabemos.

Dizer o dito passou a ser sem sentido. Discurso vazio, cansativo, sem metas, sem soluções.

Hoje, sem palavras, diante do que estamos vivendo nesta cidade amada, só tenho o conto da minha tristeza, da minha impotência, da minha vontade de ser útil, mas não sei onde.

Rezar? Só se for assim:

Em nome do Pai,
do Filho
e do Espírito Pranto.
Amém?


Mas sei que não vou entregar os pontos. Pertenço a esta cidade, que escolhi para ser minha, para ser meu pouso, meu trabalho e meu repouso.

Prefiro escolher a esperança, jamais a perderei.

A esperança, entre vários sentimentos que povoam e povoaram meus contos, está presente hoje, mais do que nunca, torcendo por esta cidade amada, mais que amada, luz de meu coração!