Contos verdadeiros, talvez enfeitados pelo meu amor pela vida. Agradeço a motivação insistente de amigos e amigas, sem a qual eles jamais teriam saído do meu computador (sorriso).
sábado, 24 de setembro de 2011
COSME E DAMIÃO
1969. Virgínia apareceu na minha vida por conveniência. Estávamos, ambas, noivas de colegas de universidade e, por isso, fomos apresentadas numa dessas saídas de casais de namorados. O objetivo, no entanto, estava traçado. Eu estava em pleno vestibular para o curso de Letras, ela idem. Eu queria muito passar e fazer o curso, ela nem tanto. O pai e o noivo queriam vê-la formada em qualquer curso que intitulavam “decente”. O que ela queria fazer mesmo era Belas Artes, mas o pai não deixou: era considerado, por ele, curso de menos valia, que não faz o futuro de ninguém.
Assim, Virgínia parecia acomodar-se a qualquer curso e Português-Inglês pareceu ser uma boa opção. Já que não poderia fazer o que queria, qualquer coisa serviria. Mal sabia ela em que arapuca estava se metendo. Ocorre que o noivo me apresentou Virgínia, já sabendo de minha fama de cdf. Assim, quem sabe, garantindo a amizade, conseguiria prender sua namorada, digo, noiva ao curso, nem que fosse para me fazer companhia.
No primeiro encontro eu disse que não tinha a mínima vontade de fazer português-inglês. O que eu queria era literatura, cultura clássica. Ela queria a mesma universidade do noivo, eu queria outra instituição. Mas sua vontade era mesmo frouxa. Ali mesmo, tomando sorvete, ela decidiu mudar de curso e de universidade, desde que estudássemos para o vestibular juntas. Aceitei. Não sei por que, até hoje, mas aceitei. Prefiro estudar sozinha, rendo mais, mas... aceitei.
No fundo, pressentia que Virgínia mais me parecia estar querendo encontrar uma amiga para folguedos. O fato é que esse pequeno, mas fundamental deslize de ambos os lados, ela por mudar de curso e de universidade e eu, por aceitar estudarmos juntas, nos rendeu uma amizade que persiste até hoje.
Para você ter uma idéia, ambas nos casamos no mesmo ano e por pouco, não nos separamos no mesmo ano. Pura coincidência, mas aconteceu. Somos madrinhas uma da outra.
Nossos ex nunca mais se viram, eles que foram os responsáveis por nosso encontro. Nós, no entanto, continuamos amigas até hoje.
Eu passei no vestibular entre as primeiras, Virgínia, sorridente e sem muito esforço, também passou. Para ela, era coisa só de passar. Para mim, tinha de estar entre as primeiras, pois custaria uma bolsa de estudos, conquistada a ferro e fogo.
A foto é um flagrante em plena prova de vestibular, tirada por Anita, uma colega: Virgínia em pé, pronta para entregar a prova de inglês, enquanto eu, no centro da foto, ao fundo, cheia de livros, lutando por uma boa classificação. Naquela época, as provas eram descritivas e a prova de língua instrumental exigia uma tradução.
Fomos ficando juntas, apesar de nossas incríveis diferenças. Mas, talvez, justamente pelas diferenças, nos ajustávamos. Eu muito séria, ela muito brincalhona.
Chegávamos juntas. Ela passava pela minha casa para me buscar, eu sonolenta por ter estudado até altas horas da madrugada, após um trabalho estressante do dia anterior, muitas vezes chegando em casa às 22 horas, sem sequer ter jantado. Quantas vezes ela me tirou da cama, com piadas e brincadeiras, faltando apenas 15 minutos para o início da primeira aula! Me ajudava a colocar a roupa e eu acabava de acordar percorrendo a única quadra que, felizmente, nos separava da universidade.
- Você viu os olhos daquele moço, que lindos?
- Que moço?
Eu estava zonza, ela espertíssima, sempre!
Saíamos juntas. Ela para casa, eu para dar minhas aulas particulares, que, felizmente, eram muitas: meu sustento. Uma vez por semana, eu ia para sua casa, almoçávamos e fazíamos nossos trabalhos em grupo: Virgínia, Luzia e eu. Nesses dias, eu saboreava a deliciosíssima comida da vovó Laura. Doce criatura, que me dizia sempre:
- Faça essa menina estudar... só quero ver essa menina formada!
Como se precisasse. Para Virgínia, a universidade, a meu ver, já passara a ser um divertimento. Fazer sem obrigação e fazer sem gosto era visto por ela como um passatempo. Eu ralando, ela rindo, esperando o curso acabar para se casar.
Andávamos coladas para cima e para baixo, nas escadarias, na cantina, na sala, pelos corredores. Onde estava a corda, estava a caçamba. Bem depressa nos puseram os apelidos de Cosme e Damião. Nasceu assim, espontaneamente, por conta dos colegas que nos imaginavam, talvez, amigas de infância.
Virgínia colava como ninguém. Sentávamos juntas. Ela lia minhas respostas, fazia algumas observações e críticas, depois inventava lá o seu texto, com uma classe e estilo que jamais pareceria tirada de outra prova, mas de livros eruditos. Inteligentíssima. Risonha. Engraçada. Feliz. Nossas notas sempre emparelhadas. Eu gostava da idéia, pois Virgínia dava conta das pesquisas que eu não tinha tempo de fazer, por conta do excesso de trabalho.
Não posso me esquecer de Virgínia assistindo às aulas. Atenta, pois não queria estudar depois, não perdia uma anotação. Lembro-me, especialmente, das aulas de fonética, do professor Dinamérico. Sentávamos na primeira fileira e Virgínia prestava atenção redobrada. Conteúdo difícil. Por muitas vezes, minha companheira, sem cerimônia, interrompia:
- Desculpe, professor, não entendi.
Aliás, ela e toda a turma, pois ele era excelente professor, mas quando ficava enrolado, não havia quem desenrolasse. O professor repetia a explicação e Virgínia o interrompia, sempre, de novo, sem a menor cerimônia:
- Desculpe, professor, mas... sabe... meu problema não é de surdez. Se o senhor repetir do mesmo jeito, vou continuar não entendendo. Eu preciso que o senhor explique de outro jeito, de um jeito que eu entenda.
Isso, dito assim, com a simplicidade de uma anja. Não havia quem conseguisse se aborrecer com seus comentários. Nem o professor Dinamérico. E lá ia ele, mais paciente, repetindo a explicação de um jeito diferente para que ela, e, na verdade, todos nós pudéssemos entender.
Luzia era a terceira desse grupo. Chamara a atenção de Virgínia desde o primeiro dia. Era a única cega da turma e Virginia, com seu coração generoso, logo percebeu que precisaria de ajuda para as anotações e infra-estrutura do convívio universitário. Luzia foi assim, incorporada aos nossos trabalhos formando um dos grupos de estudos da turma. Você se lembrará dela, se leu o conto
"Luzia".
Para desespero de Marco, único varão da turma, Virgínia tratava Luzia com requintes de “igualdade”. Puxava-a de um lado para outro, subindo as escadas depressa:
- Vamos, Luzia, a aula já vai começar!
E Luzia lá, acompanhando o ritmo aos tropeços, no começo... mas... com a bengala dobrável já enfiada na bolsa e confiando totalmente nas chamadas loucuras de Virgínia, apenas se apoiando em seu braço e andando rápida para lá e para cá. Nunca vi uma mudança de comportamento tão rápida em uma pessoa com necessidades especiais.
Lembro-me, de modo especial, de um dia. Luzia entrou na sala rindo:
- Meninas, vocês não sabem o que me aconteceu hoje! O guarda de trânsito que fica aqui em frente me parou e me disse para eu tomar mais cuidado com quem eu ando, pois tem uma moça que atravessa a rua comigo que nem uma doida! Só pode ser a Virgínia...
- O que você respondeu, menina, arguí logo.
- Ah, eu disse para ele não ligar não que ela é meio doida, mas sabe o que faz.
De fato, Luzia estava mais desenvolta, mais feliz, mais confiante. Ninguém poderia ter feito algo melhor e mais adequado à inclusão dela na turma do que Virgínia, estou bem certa disso.
Assim era e é Virgínia até hoje, embora os embates da vida tenham traçado os veios de suas faces com marcas variadas entre os sabores e os dissabores da vida.
Lembro-me particularmente do dia de nossa formatura. Cerimônia simples, mas cheia de carinho e amizade pela turma especial que fomos na universidade. Tão logo acabou a cerimônia, Virgínia que, evidentemente, se sentava a meu lado, se levantou para receber de mim, seu primeiro abraço, como combinamos. Lembro-me de sua voz sussurrando em meu ouvido:
- Até que enfim. Acabo de me aposentar.
De fato... Virgínia aposentou-se do Curso de Letras tão logo recebeu o diploma. Hoje é artista plástica, como sempre quis, desde adolescente. Isso é que é ter conquistado um sonho do coração...
Apesar de tudo, se não fizesse o curso de Letras, talvez eu tivesse perdido a oportunidade de conhecer uma das pessoas mais interessantes da minha vida.
E, de quebra, uma amiga prá ninguém botar defeito!!!
domingo, 18 de setembro de 2011
A LAREIRA
Voltar desses cursos de Reiki é como voltar de um país longínquo, de outra cultura, de outras linguagens. Não, não é “como voltar de um país longínquo”... é mesmo “voltar de um país longínquo”, em todos os sentidos: encontrar-me com meus mestres e com seus ensinamentos traz um monte de duplos sentidos...
Os ensinamentos são baseados em uma cultura oriental, com mitos e costumes que desconhecemos. A forma de encarar processos de cura são diferentes dos nossos. A filosofia é outra. A língua de aprendizado é outra. Um banho de cultura para a alma e para o coração, para a mente e para as raízes da intuição, da percepção, do convívio com o humano, com nosso interior.
Voltar de três semanas como essas, uma em Buenos Aires e duas no Brasil é como voltar de um país distante. Três semanas que valeram por três meses. Uma semana com Arjava Sensei e duas com ele e Tadao Senseis, pela primeira vez no Brasil. Muitas línguas juntas, em tão pouco tempo. Ainda meio anestesiada, impossível transformar a experiência em conto.
É como se o mundo “paralelo” se transformasse em realidade e o cotidiano é que se transformasse em “mundo paralelo”. Difícil pescar um “peixe-conto”. Era o que eu pensava, numa das gélidas noites de Buenos Aires, sentada ao lado da lareira do hotel, com o mais recente livro de Arjava Sensei nas mãos.
A gentilíssima gerente do hotel passou por mim e comentou:
- Não acha que você está muito perto da lareira? Vai assar!
Resposta sorridente dessa carioca acostumada aos 40 graus:
- A intenção é essa!
Um frio do cão! De resto, Buenos Aires e Reiki são duas expressões que se casam para mim. Lá conheci meu atual mestre de Reiki, em 2004. Para lá voltei mais três vezes para estudar Reiki novamente e, claro, para desfrutar daquele paraíso de cidade, que também agasalha um casal de afilhados muito queridos.
Desta vez, no entanto, amedrontada pelo frio, fiz apenas um breve, digo, brevíssimo passeio às margens do Tigre aproveitando o horário mais quente do dia da chegada. Pelo resto da estadia guardei todo o calor interno possível apenas para ir da pousada ao curso e vice-versa.
Os dias estavam lindíssimos, mas traiçoeiros: era só colocar os pés na rua que o vento do Tigre tomava conta dos meus ossos, da minha alma. Para mim, acostumada com os trinta graus do Rio, nem pensar. Volto no verão.
Mas Buenos Aires, para mim, é puro encantamento e, só de pisar lá, me lembro de histórias sem fim. Lareira é lugar para o romance, o sonho, a recordação. E eu estava assim, ao lado da lareira, “assando”, lendo o livro e, volta e meia, descansando meu olhar nas chamas mágicas, divagando sobre as lembranças gentis que esta cidade me trazia.
Os que insistem em dizer que os argentinos são grosseiros e antipáticos precisam me mostrar onde e como. Você se senta num café, se acomoda e se esquecem de você. Uma vez, fiquei em um, na Rigoleta - um dos bairros impossíveis de não se visitar. Tinha andado tanto que as cadeiras me atraíram como ímãs. Entrar para um breve café para descansar as pernas era tudo o que eu queria. O garçom serviu o tal cafezinho como se estivesse servindo uma refeição e fiquei ali, esquecida do tempo, saboreando um café antecedido da tradicional água gelada e um biscoitinho delicioso de brinde. Faz parte da cultura você tomar um cafezinho de quarenta minutos ou mais quase pelo mesmo preço de nosso café em pé. O mesmo que nos cafés europeus...
As chamas do fogo buscavam por outras recordações...
Uma vez, comprei um casaco de couro num modelito diferenciado. Quando voltei para casa onde estava hospedada, minha afilhada me olhou admirada:
- Que lindo! Onde você achou?
- Não achei. A vendedora era tão simpática que desceu as prateleiras para me servir. Quando eu já estava até sem graça e lhe pedi mil desculpas por não ter achado o que queria e ter dado tanto trabalho, ela sorriu, pensou um pouco e me disse:
- "Tenho uma coisa lá em cima que acho que vai lhe agradar." Pedi-lhe que não trouxesse, pois se eu não gostasse, teria dado mais esse trabalho. Mas ela disse que esta era a sua função e ela a realizava com o maior prazer. Daí desceu com esta pérola. Olhei em torno, envergonhada pelos dez ou mais casacos que tinha experimentado, mas ela se adiantou:
- É uma questão de minutos colocar tudo no lugar, não se preocupe.
Essa foi a antipatia argentina que conheci. Não fosse outra língua, pensaria que estava no Rio...
Em outra vez, tomei um taxi para me levar do centro da cidade ao local do curso, San Isidro, bem distante. Naquela época não havia GPS e o taxista deu tratos às bolas para descobrir o local do curso. Não tivéssemos acertado o preço antes, acharia que era embromação. Mas fomos conversando como dois bons cariocas, ops... argentino e carioca, povos irmãos, inimigos só no futebol, como me dizia o sorridente taxista.
Volta e meia, no entanto, ele se remexia no banco. Acabei por perguntar-lhe se estava sentindo alguma dor. Disse que sim, sofria muito de dor nas costas. Chegamos cedo ao local e como era rua sem movimento, o encontro acabou com uma belíssima sessão de Reiki de 20 minutos, em suas costas, no próprio carro. Ele saiu dali já com um cartãozinho de uma colega reikiana argentina. Espero que tenha ficado cliente, pois saiu dali renovado.
Antipatia argentina? Pode ser, não duvido, mas, se for, sempre topei com as exceções... para confirmar a regra.
Meus olhos titubeavam entre as chamas que me traziam recordações e o livro aberto em minhas mãos. Sentia-me aquecida e confortável. Preguiça boa.
Notei que dois hóspedes que jantavam numa mesa um pouco mais distante (quem agüenta fritar ao lado da lareira?), de vez em quando, paravam de conversar e me olhavam. Falavam um alemão um pouco esquisito para meus ouvidos de linguista. Será que era alemão mesmo?
Continuei a leitura até que eles levantaram. Distraidamente, levantei os meus olhos. Um deles me olhou e me perguntou, num espanhol estranho, de onde eu era.
- Do Brasil, respondi.
Ambos sorriram e ele me respondeu num português com um sotaque muito meu conhecido:
- Somos de Blumenau!
Imediatamente identifiquei o alemão esquisito como o dialeto falado pela colônia alemã que vive no Brasil, língua materna de grande parte da população daquela região: Brasildeutsch. Sorri.
Um deles se aproximou disposto e tirar um dedo de prosa. Queria saber o que tanto eu lia, com tantas palavras japonesas. Sorri de novo. Ele se referia aos kanjis e outros símbolos de Reiki, abundantes no livro que eu tinha nas mãos. Falei um pouco sobre Reiki, e emendamos num papo sobre minhas aventuras por Blumenau. Que saudades! Ele me contou que estava trabalhando numa empresa alemã, e rodava o mundo. No momento, morava naquele hotel em Buenos Aires e, provavelmente, ficaria por mais um tempo. Conseguira o emprego graças ao alemão, sua língua materna.
Soube das novidades de Blumenau. O Hotel Garden fechou (nossa!!!), mas o Gloria Hauss continua fazendo as mesmas tortas deliciosas. Falamos de tudo e de nada, enquanto a noite seguia rápida em suas horas.
Lareira é um lugar para o romance, o sonho, a recordação... e ficamos assim, dois brasileiros, aconchegados pelo fogo da lareira, em uma pousada perdida na região do Tigre, neste final de inverno, nos falando sobre coisas do Brasil, da vida, de nós mesmos...
Voltar ao Brasil e emendar no curso daqui apenas prolongou o encantamento. Volto, aos poucos, das viagens marcadas pelas chamas do fogo da lareira e do meu coração.
Outro dia conto mais.
Marcadores:
Buenos Aires,
curso,
experiências de vida,
inverno,
lareira,
Reiki
sábado, 27 de agosto de 2011
HOJE NÃO TEM CONTO
Hoje não tem conto. Conto por quê: estou de saída para reciclar uma parte do meu mestrado de Reiki, com meu mestre alemão Frank Arjava Petter (Arjava Sensei* ). Assim, substituo o conto por outras anotações, explicando por que vou me ausentar por três semanas:
Fiz o mestrado com ele, em 2004, em Buenos Aires.
Sete anos depois, também em Buenos Aires, onde ele estará repetindo o curso, achei que era hora de rever alguns aprendizados. Bilhete “smiles” em punho, alegria no coração, estou indo e só volto a tempo de emendar com outro curso no Rio. Ainda bem que é pertinho.
No próximo dia 07, meu mestre japonês, Tadao Sensei, estará no Rio, para onde também virá Arjava Sensei, para juntos nos darem os cursos de Jikiden Reiki, do qual já sou Shihan (instrutora).
Isso significa, em bom português, digo, “em bom japonês”, que vou não apenas assistir às aulas, mas participar dos trabalhos. E como ajudante de japonês (e de alemão) já prevejo quanto trabalho será esse, também atravessando os finais de semana... Por isso, quanto menos desgaste, antes do curso aqui do Rio, melhor. Quase desisti da viagem por causa disso!
Em suma, estarei longe das telinhas e das lembranças dos contos por três semanas.
Dia 17 de setembro, tem mais. Quem sabe, com alguma aventura vivida nesses dias.
Inté!
* Originária do Japão, “sensei” é uma expressão carinhosa e, acima de tudo, respeitosa que os alunos dão aos mestres que consideram muito bons e sábios. Geralmente são mais velhos, mas este não é um pré-requisito.
sábado, 20 de agosto de 2011
OI, GATINHA!
Fui professora de Cultura Clássica num conceituadíssimo colégio do Rio de Janeiro. Tudo aconteceu porque tive, na universidade, um aluno de grego que era monge e, portanto, sabia muito mais grego do que eu, após sete anos de seminário numa das ordens monásticas mais conceituadas do Brasil. Pois então: após o semestre de aulas, o aluno me convidou a dar aulas no tal colégio, já que ele se licenciaria e não tinha nenhum outro monge que pudesse substitui-lo naquele momento. Eu nunca pensara em dar cultura clássica no curso fundamental. Aliás, não há essa disciplina em qualquer curso fundamental no Brasil. Não que eu saiba. Este colégio, no entanto, tinha esse privilégio e seus alunos tinham (ou ainda tem, não sei) disciplinas de conhecimentos gerais que primam pela ousadia do currículo.
O fato é que acabei aceitando, mais pela aventura da experiência e, simplesmente, adorei!
Os meninos eram ao que corresponderia, hoje, ao último ano do ensino fundamental. Para a minha geração, quarta série ginasial, para a geração um pouco mais nova, oitava série. Meninos entre 15 e 16 anos, no máximo.
Como falar sobre Cultura Clássica para essa garotada, eu, acostumada a dar aulas em ensino universitário? Foi, no entanto, uma experiência magnífica, que contou com o total apoio do Reitor do colégio, um monge à altura da função, homem de mente avançada nesses aspectos, embora muito conservador em outros. O fato é que nos tornamos grandes amigos e, não raro, me via envolvida em longos papos em sua sala particular, apesar do meu pouco tempo disponível. O monge era bom de conversa e cultíssimo. Papear com ele era um brinde dos deuses. Sem contar que me deu carta branca para a montagem do curso. Carta branca, claro, apresentada a ele no final de cada planejamento, pois em colégios de padres e freiras, a democracia é sempre conferida pelo prior da ordem, no mínimo. Mas tudo bem. O homem era bem avançado e aprovava tudo. Por outro lado, como eu tinha sido de colégio de freiras, sabia muito bem como dourar a minha pílula para apresentar o meu conteúdo de modo que soasse bem a seus olhos e ouvidos, isto é, argumentando o porquê de cada conteúdo que lhe parecia muito leigo para os fins desejados.
Embora eu mesma tivesse planejado, o programa, no final, a meu ver, ficou puxadíssimo. Será que os meninos agüentariam? Ele me garantiu que sim e sugeriu que eu fizesse uma experiência. Que nível! Aguentaram, ou melhor, agüentamos, eles e eu, um ano bem apertado de muito conteúdo e mútua aprendizagem. Eles, de conteúdo, eu de lidar com os jovens. Mas foi uma adaptação fabulosa. No meio do ano, lá estava eu dividindo a turma em dois e fazendo gincana, em plena sala de aula, sobre o conteúdo da Odisséia. Alguma coisa de língua grega acabou entrando, principalmente, etimologia para entender melhor o português. Eu inventava coisas para atrai-los e se sentirem diferentes. Eles gostavam. Quando eu entrava em sala, os cumprimentava: kairete = oi, literalmente, “alegrai-vos”, em grego clássico, mas registro informal, bem no estilo do século IV a. C.. Eles correspondiam, em coro: kaire = oi, literalmente, “alegra-te”.
Assim, eles se sentiam únicos, em todo o colégio e eu ia conquistando o meu espaço. E viva a adolescência! Enfim, era uma festa. Saía exausta, após três turmas, duas vezes por semana, mas saía feliz. Como eu tinha mais de mil slides para mostrar, as aulas eram enfeitadas com muitas informações e muitos mitos. Eu tinha de inventar coisas que ajudassem a outras disciplinas e passava uma boa parte das aulas falando sobre o século VI a.C., quando a Grécia contemplou o mundo com muitas descobertas que foram o berço da ciência moderna. Eles aprenderam, em primeiro lugar, sobre essas grandes descobertas, que poderiam render juros nas aulas de ciências, matemática e história, para regozijo do Reitor.
Estava dando certo. Atravessamos, juntos, os séculos, até a época de Alexandre, o Grande, quando aprenderam, por exemplo, quem era Hipásia, uma matemática, única mulher que fez parte do grupo de estudiosos da Biblioteca de Alexandria. Coisas desse tipo. Confesso que tive de estudar muito para conseguir tantas novas informações, para mantê-los entretidos e atentos a uma disciplina no meio de tantas outras consideradas fundamentais ao ensino básico, como matemática, português, etc. Era mesmo um desafio, mas eu acho que conseguia mantê-los ocupados. E parece que gostavam, pois fui agraciada, mais de uma vez, em suas festas de formatura.
Eu queria que eles se lembrassem da Grécia para toda vida e tentava atrai-los com minhas artimanhas, comparando a literatura grega com a literatura brasileira, passando pelas outras disciplinas, tentando fazê-los caírem nas armadilhas como Cilas ou Caribdes, tentando enfeitiçá-los como Circe e atraindo suas atenções para heróis ardilosos como Ulisses e corajosos ou impetuosos como Aquiles. Lembrava-lhes a beleza da louríssima e bela Helena de Troia, comparando-a historicamente com a luta pelo dourado trigo cobiçado pelos gregos e tentava, de leve, encorajá-los a compararem estes mitos com as lutas comerciais dos tempos modernos. Acho que, de certa forma, consegui.
Essa era a parte acadêmica. O problema maior, no entanto, era mesmo o da disciplina. Afinal, eram cerca de 20 jovens, todos meninos e todos a mil, numa idade que ninguém segura esses hormônios! Ufa... e metidos a homens, claro!
Mas um deles era o que mais se destacava, não só porque parecia mais amadurecido, como também queria mostrar-se mais homenzinho. Um belo rapaz, de porte principesco, muito inteligente, sagaz, perspicaz. Um perigo para as meninas, decerto. Houvesse alunas no colégio, seria um desastre às avessas. Mas havia só meninos (ou há até hoje, não sei). O fato é que ele se sentia mesmo o máximo. Não fosse tão simpático, seria uma chatice. Mas era simpático. Um pouquinho esnobe, talvez como marca desse período adolescente, mas muito simpático. Assim, comportava-se com, digamos, uma certa superioridade sobre os demais, não entrando em brincadeiras tão comuns em classes dessa idade. Mostrava-se superior, como quem quer ser homem feito antes da hora. Eu olhava tudo isso achando certa graça, mas, é claro, levando muito a sério. Afinal, para adolescentes, essa postura exige mesmo seriedade e respeito. Assim, fui aprendendo aqui e ali, tentando ser gentil, sedutora, tentando equilibrar a disciplina ao consentimento, o mais que podia. Embora divertido, confesso que não era fácil. E com eles aprendi a ter muito jogo de cintura. Eu não tive filhos, o que mais dificultava a tarefa. Por outro lado, me fazia mais atenta... não me deixava vacilar. Seria a minha perdição.
De modo geral, no entanto, estava me dando bem, até que, um dia, apareceu o meu grande desafio: o tal rapaz, louco para se mostrar mais do que um simples jovem, passa pelo corredor e, ao me ver, cumprimenta:
- Oi gatinha!
Chi... essa eu não podia deixar passar. Afinal, era sua professora! O que fazer? Ele passou incólume, mas apenas por segundos. Eu o chamei. Enquanto ele voltava, eu não sabia, ainda, o que fazer. Ele estava entre a postura de homem e menino, desafiando minha reação. Eu não queria estragar a camaradagem, pois ele era o líder da turma. E eu já aprendera, há quinze anos antes, que não se bobeia com aluno líder. Você sabe disso, se leu o conto “Reginaldo”...
Mas, voltemos ao corredor: ele me pegara de saia justa. Eu teria de achar um limite. E rápido. E sem precisar pedir a ajuda de inspetores ou autoridades supremas, pois este é o caminho mais curto para você perder autoridade numa turma. Não sei qual deus olímpico me salvou. Mas a saída funcionou:
- Vamos fazer uma coisa: enquanto você for meu aluno, infelizmente, não poderá brincar comigo desse jeito. Depois que você passar de ano, tudo bem, ok?
Deu certo! Ele sorriu, acedeu com a cabeça e simplesmente respondeu:
- Tudo bem, professora, é justo.
Estávamos no final do ano, o episódio passou e me esqueci, completamente. Fui convidada como homenageada na formatura dessa turma e os vi, todos lindos, de terno, passando para o que chamávamos, na época, segundo grau, atual ensino médio.
No ano seguinte, lá estava eu lecionando para a turma seguinte, quando, de repente, o tal jovem passa pelo corredor, pára na porta da minha sala, diante de toda a turma e me cumprimenta:
- Oi, gatinha!
Que safado! Ele esperara meses para me fazer cumprir o trato. E não tinha saída, pois a postura tinha sido consentida por mim! Na frente de toda a turma, que me olhava para ver o que eu faria. Apenas me veio à cabeça responder:
- Oi, gatão!
Ele sorriu, a turma riu, eu desabei de alívio e tudo ficou por isso mesmo. Mas, todos os dias em que eu estava no colégio, o jovem arranjava um jeito de me interpelar com o mesmo cumprimento. Era uma auto-afirmação consentida. Coisas de adolescente. Um dia, o fato se deu junto ao coordenador geral do colégio, que era também o meu coordenador e foi bater nos costados do tal Reitor, que me chamou para explicações. Colégio de padre é assim mesmo. Tive de contar toda a história para o meu amigo Reitor. Rimos juntos, no final, e ficou por isso mesmo.
Os anos passaram, eu saí do colégio, em 1987, em decorrência de um concurso para uma universidade pública. Saí do colégio e também da tal universidade particular, onde ficara de 1974 a 1987.
Deixei para trás as boas lembranças de como uma educação esmerada pode ser dada a qualquer um, desde que haja vontade política. Aqueles jovens de 15 anos sabiam mais sobre cultura clássica do que muita gente adulta que eu conheço. E um tipo de cultura que poderia levá-los a uma prática para a vida. Foi mesmo uma experiência, digamos, inebriante. Exaustiva, mas inebriante. Boas recordações.
Um dia, uns vinte anos depois, eu estava saindo de um consultório médico, mais especificamente de meu otorrino e entrei num elevador super lotado. Entre os vários passageiros, um homem de terno estava acompanhado de um garoto de uns 10 anos. Chamou-me a atenção a gracinha de menino. Sorri para ele e não resisti a piscar os olhos, amigável. O menino sorriu. Não cheguei a levantar os olhos para o alto homem, que deveria ser o seu pai, até que ouvi a frase:
- Oi gatinha!
Ato reflexo, já sorrindo, respondi:
- Oi gatão!
O menino estudava no mesmo colégio do pai, que me informou ainda existir a tal disciplina, na mesma série pela qual o menino passaria anos após. Disse-me que sentia muito em não poder ser eu professora também do filho dele.
Nos despedimos amigáveis, sorridentes, saudosos...
Ele estava lindo vestido de pai! E eu estava linda, vestida de ex-professora.
Marcadores:
adolescência,
cultura clássica,
ensino escolar,
experiências de vida
sábado, 13 de agosto de 2011
A ILHA
Dei aula em Campo Grande, zona rural, como você sabe, se leu o conto “Reginaldo”.
Para quem mora em Copacabana, é bem longe. E, com os recursos da década de 70, parecia bem mais longe ainda.
Duas vezes por semana, eu saía da universidade às 12 e tinha de andar – andar, não, correr! - duas quadras em direção ao Aterro, em Botafogo, para pegar um ônibus que passava às 12:10, 12:15, no máximo. Mas a rotina acabou por fazer o motorista já saber que eu estaria lá e, muitas vezes, eu avistava o ônibus ainda longe do ponto, eu ainda chegando. Mas sabia que ele pararia e abriria a porta para mim. Era uma reta só: da sala de aula para o assento do ônibus, sem parar. Dali abria um pacotinho de biscoito (quem se lembra do Mirabel de chocolate?) e era o meu almoço. Saía muito cedo de casa, não dava tempo para fazer uma “marmita”.
Uma hora e vinte minutos separavam a zona sul do Rio, com praias belíssimas e cheiros de conforto, da pobre zona rural onde ficava a escola. A distância física confirmava a diversidade cultural, inclusive lingüística, dos alunos. Eu ia pensando nisso, no “quentão”, que era como chamávamos este ônibus, porque era igualzinho aos que chamamos de frescões, só que sem ar condicionado. Mais uma marca da diversidade, do disparate de tratamento para quem vai para a zona rural. Preconceito, descaso social, embora o preço não fosse tão menor assim. Hoje, isso mudou e todos são frescões, ou melhor, vamos admitir: gelões! Não sei por que esse exagero de frio. Os preços se equipararam e é escolher mesmo entre eles e o serviço de trens, que todos nós conhecemos ou já ouvimos falar...
Mas voltemos à ação: o veículo ia ladeando as praias de Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, até pegar a estrada que levava a Campo Grande, pela Barra da Tijuca. O trajeto era bem agradável e inspirava a meditação sobre a transição entre a cidade rica e a cidade pobre. A chegada ao subúrbio se fazia mais brusca, depois de tanto requinte e beleza. E me preparava para a transição entre as aulas da universidade e uma turma de alunos do subúrbio, do ensino fundamental, mais velhos do que seria natural para aquele período escolar e... repetentes.
Pensava na diversidade lingüística, nas influências dos falares... o trajeto díspare ajudava minha postura nas aulas, minha passagem entre o grego clássico e a comunicação oral e escrita, que era como denominavam as aulas de português, no ensino fundamental da época.
Meu olhar perdido nesses pensamentos me acordava para os últimos vinte minutos do trajeto, quando passava pela placa “Ilha”. O que havia de lingüista em mim, despertava, sempre, neste ponto. A placa me sinalizava, automaticamente, duas coisas: a primeira, me despertava do devaneio, para me concentrar mais nas aulas que daria naquele dia. Nesses vinte minutos, refazia, em pensamento, o planejamento que havia preparado para as três turmas daquele dia. Mas havia outra coisa: no meio daquele mato todo, de zona rural, que ilha seria aquela? Onde encontrar água suficiente de rio, lago ou até, quem sabe, mar, para criar uma ilha no meio daquele matagal rural? Isso sempre me prendia o pensamento. Um dia planejava descer para conhecer que tal ilha seria essa...
Mas nem foi preciso. Num dos intervalos de aula, já mais ambientada na escola, acabei por perguntar a professores que moravam por ali:
- Que ilha é essa que tem lá embaixo, no trajeto do ônibus que vem para cá?
Uma gargalhada respondeu a minha pergunta. Fiquei com aquela cara de parede, entre curiosa e envergonhada. Eu teria dito alguma besteira? Revi minha pergunta. Era digna e justa de alguém que não conhece o lugar. Luisa, a mais doce entre as colegas, me respondeu finalmente:
- Não tem ilha nenhuma, é nome dado pelo povo, há mais de um século atrás, ainda no tempo dos escravos. Toda aquela região era uma fazenda de um inglês chamado William. Os escravos e o povo, não conhecedores da língua o chamavam de “Senhor Ilha”. Mais tarde, não sei bem por que - talvez o dono tenha morrido - a fazenda acabou virando terra de ninguém. O nome da região assumiu o nome do dono da terra e ficou.
Diversidade lingüística, falares...
A partir de então, todas as vezes que eu passava pela placa "Ilha", já não conseguia mais rever meus planos de aula... meu coração vibrava em sintonia com o povo e ficava dando voltas em meus aprendizados de vida...
sábado, 6 de agosto de 2011
TRÊS
Tive muitos amores. Não posso me queixar da vida por falta disso. Guardo-os nas lembranças do meu coração. Guardo, especialmente, um anel e uma flor...
Nenhum deles, no entanto, substituiu o outro, porque a vida, em suas etapas, guarda espaço para tudo. Ri e chorei. Mas como o número três sempre me marcou, separo três, não que sejam os mais significativos, mas entre os que conviveram comigo por mais tempo.
O primeiro jurou que me amava. Me chamava de “anjo”, de “flor”, de “mô”, de “vida”,
mas botava tanto defeito em tudo que eu fazia, bagunçava minha vida de tantas formas e jeitos, se esquecia das minhas delicadezas com tanto esmero e freqüência, que chegou uma hora que não consegui mais respirar e desisti;
O segundo dizia que me amava,
mas enrolou tanto o tempo em torno de si mesmo que acabei me exaurindo de tanto só “cuidar” e desisti;
O terceiro chegou manso, sem dizer nada e foi entrando tão devagar, tão disfarçado de “quem não quer nada querendo tudo” que nem percebi. Eu já estava vivida e satisfeita, plena, completa, inteira. E por isso mesmo, me pegou desprevenida. Quando disse que me amava, eu já estava enroscada em seus abraços, entregue, bebendo do doce veneno de uma convivência que não mais planejara.
Ele não me pediu nada, mas me deu tudo que eu queria: a paz do corpo e da alma e dizia que eu lhe dava tudo que ele mais precisava: meu sorriso calmo e doce. Inebriada pelo enlevo de querer e ser querida como ninguém, lhe dei minha mão, meus braços, meus olhos, meu coração. De brinde, levou todo o resto, entregue despercebidamente, no cotidiano de querer bem.
Foi-se. Não porque ele quis, não porque eu quis. Foi porque foi. Porque a vida fez assim. Mas sua lembrança singela e doce e meiga e branda marcou minha alma e meu coração.
sábado, 30 de julho de 2011
O OTORRINO
Aliás... “os otorrinos”...
Meu ex-marido sofria de uma otite crônica avassaladora. Avassaladora. Uma crise por mês, no mínimo, e procuramos o que eu poderia chamar de “o primeiro otorrino”.
Pois é... quando a gente tem algo avassalador procura logo um bam-bam-bam, esperando que a graça dos céus nos encaminhe, através desse “doutor” para o término de nosso desespero.
O tal bam-bam-bam diagnosticou um tímpano perfurado e optou por uma escariação, um tal de método que ele disse recompor o tímpano, depois de alguns meses. Para isso, seria preciso consultas constantes e freqüentes (e caras!), que foram feitas, rigorosamente, não por meses, mas por uns dois anos seguidos.
Depois desse período, ele finalmente declarou o tímpano fechado. Mas as otites continuaram... virou mesmo um tratamento crônico. Ele tinha a crise, ia lá, fazia o tratamento local, tomava um bando de remédios e ficava temperando até a próxima crise.
De brinde, o tal “doutor” passou a cuidar de minha faringite, também crônica, e acabei operando as amígdalas com ele, pela segunda vez em minha vida, já que a primeira cirurgia, aos 9 anos de idade, segundo ele, não tinha surtido efeito. Assim, fui contemplada com uma outra cirurgia, aos 32 anos de idade. Mas também não resolveu e passei a ser mais uma paciente crônica de sua lista. Volta e meia, virava o tempo e lá estava eu, também, na consulta, para pincelar a garganta e tomar alguns antibióticos.
Um belo (sim, belo!) dia, o tal otorrino viajou para um congresso no exterior e deixou com os pacientes o cartão de seu irmão, também otorrino, para o caso de alguma emergência. Emergência, diga-se de passagem, era o que mais ocorria aqui em casa, pois esse ouvido não dava tréguas. E não deu outra: meu ex entrou em crise e lá fomos nós, consultar o “segundo” otorrino.
Chegamos lá e, logo de saída, ao examinar o canal auditivo do paciente, ele me solta esta prenda:
- Mas o senhor tem aí um tímpano perfurado e muito bem perfurado! Só pode mesmo ter otites graves como esta!
Meu ex, que não deixava passar barato, respondeu de pronto:
- Estou cuidando dela há mais de três anos e seu irmão declarou que tinha fechado o meu tímpano. Aliás, já paguei uma fortuna a ele por conta disso e o senhor diz que ele mentiu para mim o tempo todo?
Se eu não sabia onde colocar a minha cara, imagine você o tal doutor que tinha a expressão mais honesta do mundo. Ele não podia imaginar o que tinha acontecido, mas, é claro, manteve a palavra.
- Bem, pode ter havido algum engano. Mas o senhor tem mesmo uma perfuração considerável em seu tímpano e eu o aconselho a pensar numa cirurgia de timpanoplastia com certa urgência, caso contrário, estará mesmo comprometendo sua audição que já deve ser mais baixa que o normal.
Isso assim, dito na maior delicadeza e com a cara mais sem graça do mundo. Você pode imaginar por quê...
Lamentamos não termos encontrado este irmão e não o outro, em primeiro lugar. Meu ex perguntou se ele faria a cirurgia. Eticamente, ele respondeu que não, pois não era seu cliente. Aconselhou-o a esperar o irmão voltar e que me ex conversasse com ele. Agradecemos e saímos. Fora de questão voltar ao primeiro otorrino!
Meu ex acho que soltaria fumaça pelas ventas, se pudesse. Não lhe tirei a razão, embora eu não seja explosiva. Ouvi, sem poder e nem querer retrucar o quanto teríamos comprado de combustível para o iate do “tal”, sem resultado. Esperei passar a crise, não tinha jeito. Era deixar desabafar. Depois disso, sugeri procurarmos um “terceiro” otorrino. Mas, dessa vez, algum que, comprovadamente já tivesse feito curas suficientes para nossa confiança e não um que, obrigatoriamente, portasse um belo nome em sua porta.
Por meu lado, eu também precisava de um novo otorrino. Estava tomando antibióticos há 4 meses seguidos, sem resultado. Você pode imaginar como estava o meu organismo, todo chumbado de remédios, sem conseguir o resultado desejado, com a garganta constantemente inflamada.
Foi aí que ele apareceu, na lista de convênio da empresa do meu ex, a antiga TELERJ. Fomos lá, ambos precisados de ajuda e cura.
Um japonês simpático, mas sério e compenetrado, nos atendeu. Para mim, retirou de pronto os antibióticos e começou um tratamento à base de aumentar a resistência imunológica. Disse que levaria muito tempo para restabelecer o equilíbrio e por muitos anos eu teria recaídas, mas que as crises iriam se espaçando, aos poucos, se eu fosse bem fiel ao tratamento. Senti firmeza, aceitei na hora.
O caso de meu ex era mais complicado. Exigia mesmo cirurgia. O japonês tinha cara de quem dava conta do recado. E foi com admiração que o ouvi o que se segue:
- Sim, eu posso fazer isso e o farei.
- Pelo convênio?
- Claro, o senhor não é do convênio? De que outro modo eu faria? Só que vou chamar meu professor para acompanhar a cirurgia, pois o senhor já tem 40 anos e é uma cirurgia que pode não ter o sucesso esperado. Mas meu professor é mesmo um expert neste procedimento e pedirei sua presença, por via das dúvidas. Estou certo de que sairá tudo bem se o senhor seguir à risca as recomendações. As chances de insucesso existem, mas são mínimas, se todos os cuidados forem tomados.
- Ele é do convênio?
- Não, mas não se preocupe. É de minha responsabilidade chamá-lo, o senhor não terá despesas extras por causa disso. Ele virá porque vou pedir. A única coisa que lhe peço é pagar uma consulta a ele, 15 dias depois do procedimento, para ele dar o sinal verde para que eu proceda o resto do tratamento. O senhor se incomodaria de fazer isso?
Fiquei boquiaberta! Isso existe! Claro que não nos “incomodaríamos”! Teríamos um expert de graça na sala de cirurgia, sem uma despesa a mais e ele ainda perguntava se nos incomodaríamos de conhecer um figurão e pagarmos por isso apenas uma consulta para ele dar aval a um tratamento tão complexo quanto esse!
Pois então... tudo foi feito, conheci o tal figurão. Na verdade, uma figurinha de outro japonês bem sério, mais para carrancudo, mas também simpático, bem com pinta de professor. Foi o quarto otorrino desta história, mas que apareceu só para brilhar no momento certo e nunca mais vi. Um mês depois da cirurgia, ouvi meu ex comentar.
- Puxa vida, estou “ouvindo em modo estéreo” outra vez
Em suma: sucesso total! A partir de então, passamos ambos a nos tratar com o “terceiro otorrino”. Meu ex ficou bom em cerca de um ano. Depois disso, não me lembro de ele ter tido outra dor de ouvido até o nosso divórcio, que se deu só uns cinco anos depois.
Eu, caso mais complicado, como ele mesmo disse, fui rareando nas crises, mas elas sempre apareciam.
Pois é... mas aí veio o divórcio. E com ele, é claro, o meu desligamento do plano de saúde da TELERJ. As consultas, eu sabia, custavam um preço que eu não podia pagar. Ainda mais porque eu arquei com as despesas do divórcio e outras coisas afins, que vem junto com uma radical mudança de vida.
Não tinha saída. Era dizer, com muito jeitinho, que eu abandonaria o tratamento. Fui à consulta escolhendo as palavras. Aquele anjo protetor merecia os melhores agradecimentos, o mais profundo respeito e toda minha admiração. Ele precisava saber, sem sombra de dúvida, que minha retirada nada tinha a ver com qualquer coisa a seu respeito, mas, única e exclusivamente com minha mudança de vida.
Acho que escolhi uma forma singela e fácil. Disse-lhe que estava me divorciando e, como saía do plano de saúde da empresa, estava apenas suspendendo o tratamento por uns tempos, mas que voltaria. Ficou implícito, de modo delicado, eu acho, a causa real, mas também ficou explícito que seria temporário. Tentei fazer do modo a que ele percebesse que não estava ali para me queixar e, sim, apenas, para me equilibrar. Eu voltaria. Que ele me esperasse, pois eu sabia que, finalmente, estava em boas mãos e aproveitei para lhe agradecer toda a cura que já havia conquistado.
Na verdade, eu não sabia se voltaria. As dívidas que me ficavam eram tantas que eu via um distante horizonte para meu equilíbrio novamente. Mas era o que eu tinha a dizer.
Mas ele não deixou por menos:
- E você acha que eu aceitaria a suspensão de seu tratamento depois de mais de cinco anos de sucesso nessa luta? De jeito nenhum! Se você não aparecer aqui na primeira próxima crise estará colocando o meu tratamento e todo o meu investimento em você no lixo. Nem pense nisso! Depois de tantos anos, somos amigos! Se você não vier, considerarei uma ofensa. E grave!
Me lembro, até hoje, que olhei para aquele homem com lágrimas nos olhos. Isso existe!
Continuei o tratamento. Hoje, muitas vezes, passo em seu consultório só para um abraço. É raro, mas também corro a ele por uma dorzinha ou outra, longe, muito longe das crises de antes. Agora, são alergias de uma pessoa normal!
No mais, é tão raro eu ter dor de garganta que seria uma ingratidão não passar lá de vez em quando, bem rapidinho, só para pedir que as bênçãos dos deuses caiam sobre seus dias.
É engraçado... quase tudo que me acontece tem o “três” a minha volta. É um número que me acompanha, desde pequenininha. Mas esse “terceiro” otorrino é mais do que um bom médico. É um anjo que os deuses colocaram perdido (ou bem achado) no meio dos homens. Seu modo sério de atender, sua ética incontestável, seu sorriso franco e amigo estarão sempre presentes em meu coração.
Espero poder visitá-lo por muitos e muitos anos, vendo-o saudável, feliz com sua amada e forte de espírito como sempre foi.
Que os deuses do Olimpo o abençoem e sua vida seja sempre muito iluminada!
sábado, 23 de julho de 2011
O CASAL
Lembra do China? Pois então. Fiquei sem o China e, por muitos anos, bati com a cabeça por aí a cada vez que precisava de algum conserto, alguma pintura, alguma emergência em minha casa.
Um dia, Gildo apareceu, como você viu, se leu o conto “A dívida”. Gildo entrou na minha vida, através de uma amiga comum, ex-aluna e decoradora de interiores. Por conta de reformar a minha casa e dar uma cara mais minha, depois do divórcio, tive dela algumas sugestões muito pontuais e interessantes. E minha casa ficou mesmo a minha cara. Mas quem faria a pintura e os pequenos ajustes necessários? Foi aí que o Gildo apareceu na história da minha vida, para nunca mais sair, lá vão uns... quinze anos, talvez.
Na reforma da sala, então, suas sugestões e detalhes deram ao ambiente o jeito que ele sabe ser meu. O banheiro, por exemplo, ficou assim graças a suas idéias. Uma vez, um aluno foi lavar as mãos e não resistiu. Soltou essa:
-“Vocês já viram o banheiro? Vale uma visita”!
Até o apoio para os pés para as pessoas mais baixinhas foram bolados por ele de um jeito que, quando não estão em uso, se transformam em uma pequena estante. Esse é o Gildo, de fala mansa, educação requintada e de uma simplicidade que faz gosto. Uma vez, fui trabalhar em Vitória, dando palestras e ele ficou morando em minha casa, fazendo uma reforma. Fui no domingo e só me lembrei de ligar para ele na quarta. Ele me inquiriu:
- Puxa, vida, você nem ligou para saber se estava tudo bem, se as coisas estavam indo do seu jeito!
- E precisa?Nem me lembrei que você estava morando aí, então, não ligava à noite. E durante o dia estou trabalhando... só me lembrei hoje.
Quando voltei, estava tudo certo. E mais: uma das coisas que estava por fazer não tinha sido feita porque, apesar de termos combinado, ele experimentou num pedacinho e achou que eu não iria gostar e me esperou para resolver. E, para variar, como me conhece bem, eu não gostei mesmo e fizemos de outro jeito.
Pare a cena. Guarde o Gildo. Desenrole um pouco para trás o carretel da minha vida e você encontrará... Jane!
Eu já disse que tenho um anjo que me aparece nas horas mais desacertadas. Pois eu estava numa hora desacertada mesmo, sem saber quem escolher para cuidar da minha casa com o mesmo capricho e cuidado com que sempre cuidei. Conheci Jane quando ela tinha cerca de quinze anos, filha de uma secretária que me servia às sextas-feiras. Mas era hora de ela tomar outro rumo, por circunstâncias da vida. Vez por outra, no entanto, Jane vinha dar um reforço à mãe e deixava minha casa um “primor”.
Mas Jane merece uma apresentação à parte: esforçada, desde cedo, cursara até o segundo grau e tinha, até, um curso técnico de saúde, algo como assistente de enfermagem, se não me engano. Menina prendada e estudiosa. Não seguiu carreira, também por circunstâncias da vida. Dali fez várias coisas antes de se casar, chegando a posar como gerente de uma importante loja de seu bairro. Mas casou, virou dona de casa e mãe de um filhote lindo que hoje tem vinte e um anos. Uma prenda de menino, em curso de engenharia, estagiando e com emprego acertado.
Mas pulei uma parte: Jane separou-se quando ele era ainda muito pequeno. Foi mais ou menos nessa época que, por falta de melhor opção, acabou substituindo a mãe, às sextas, na minha casa. De quebra, também é excelente manicure, o que fez de mim, uma abençoada, pois às sextas, a faxina passou a ser mesmo completa: casa, pés e mãos.
No começo, pensei em ser coisa provisória. Eu mesma torcia por uma boa colocação para essa moça tão esforçada. Mas qualquer coisa não chegava ao nível do que ela necessitava e nem nas condições. Afinal, o filho era bem pequeno e ela não abria mão de cuidar dele. Trabalhar em expediente integral largando o filho “a própria sorte”, como dizia, estava fora de questão. Então, pegou a minha casa e mais uma, se não me engano, e com isso deixou o filho crescer bem crescido e cuidado como todo mundo que o conhece pode constatar hoje.
O fato é que foi ficando aqui em casa e, um dia... apareceu com diabetes. Aí... dei uma prensa, mas acho que nem precisava. Passou a cuidar-se direitinho. Nessa época, eu já era reikiana, coisa que ela respeitava, mas via com muita reserva. Mas o Tai Chi Chuan que eu também fazia foi bem recebido e ela topou logo participar das aulas que a prefeitura de seu bairro oferecia (e ainda oferece!), duas vezes por semana. Tomou gosto e também jeito para a coisa e foi por aí que acabou se interessando pela terapia holística. Como sempre, santo de casa não faz milagre e não era por mim que ela iria entrar nessa. As energias da vida são assim mesmo. Eu, bem quieta no meu canto, sorria por dentro com a sua empolgação: temos uma hora sagrada para papos, todas as sextas, no horário de fazer as minhas unhas!
Mexe aqui, revira ali... Jane acabou se matriculando num curso, com um dos professores de Tai Chi Chuan, mas para fazer a formação holística. Encurtando a história, Jane é hoje uma instrutora de Tai Chi Chuan e quase terapeuta holística. Falta pouco. E como já vi sua performance em Tai Chi, posso garantir que merece o título que tem. Já ganhou medalhas em competição e tudo!
Aos poucos, Jane acabou por conhecer florais e Reiki e já fala sobre isso como gente grande. Só estou esperando que ela faça os cursos, que estão à disposição, quando quiser.
Fico descansada com isso. Não estarei aqui para sempre e gostando dela como a uma filhota, é claro que quero ve-la bem encaminhada.
Contada a história de cada um desses personagens, pare a cena novamente. Volte a fita.
Estamos em torno do ano 2000. Jane, com o filho em torno de 10 anos, separada. Gildo em fase de separação. Eu, amando os dois como filhos, tramando um encontro de meus dois amores. Que fazer?
A verdade é que meu apto estava mesmo precisando de uma ajeitada. Pintura, consertos... aproveitei a oportunidade e engrenei uma obra. Mas só poderia ser feita às quartas e sextas. Tudo ardil: pedi a Jane que viesse mais uma vez por semana, às quartas, claro, por conta da sujeira que se faria. Aceitou. Nem seria preciso, pois o Gildo, quando sai, a cada dia, deixa tudo um brinco. Mas tinha o almoço. Então, além de ajudar na sujeira, o almoço estaria resolvido.
Não foi preciso fazer mais nada. Quando dois amores de pessoas como eles se encontram, a vida faz o resto. Eu, discreta, só na torcida, sempre apressada para fazer minhas coisas em outro lugar, atolada com a Universidade, pois ainda não tinha me aposentado. O casal se fez naturalmente.
Hoje, os dois estão juntos. Gildo adora o filhote de Jane, que o conheceu com 10 anos e neste ano fez 21. Gildo continua sendo meu braço direito para toda e qualquer reforma, pintura, acerto, pia pingando. Jane é o primor de moça que já contei. Posso dizer que sou brindada, às sextas, com uma instrutora de Tai Chi Chuan, super energizada, cuidando de minha casa como eu cuidaria. Com certeza melhor, pois não tenho mais idade para isso. Sem contar com os pudins e doces de banana que me faz de vez em quando, as unhas, os papos, a amizade, o carinho cultivado entre nós.
Um dia, não estarei mais aqui. Mas de onde estiver, vou vê-la cuidando da terceira idade, como hoje cuida nos projetos de seu bairro, dando aula de Tai Chi Chuan, alongamentos, cuidando, incentivando os idosos e, também, garantindo seu futuro. Estarei descansada por isso. As pessoas esforçadas merecem ser recompensadas pela vida.
Enquanto isso não acontece, fico aqui, também cuidando da minha e tendo, às sextas, um encontro marcado por uma trama do passado bem urdida. Fico feliz por ter feito parte disso.
Se precisarem de uma professora de Tai Chi Chuan e, em breve, terapeuta holística, pois seu curso está acabando, ou de alguém que reforme a sua casa como se sua fosse, com os cuidados de um profissional de primeira classe, já sabem a quem recorrer. Dou os cartõezinhos.
Tim-tim para vocês, meus queridos. Vocês merecem!
sábado, 16 de julho de 2011
A DÍVIDA
Setembro de 2006. Ufa... no início do ano tinha comprado a sala que seria o meu consultório, depois de muito procurar e de ter ralado por muitos anos por essa conquista, como já lhe contei no conto “ A compra”.
Pois então: a sala estava lá, em reconstrução, contando com Gildo, meu substituto do China, aquele do conto da casa do Humaitá, que foi morar no nordeste.
Gildo agora é meu braço direito para tudo, no que se refere a obras... e tão cuidadoso, quanto amigo. Tão especial que dei um jeito de apresenta-lo a Jane, minha secretária das sextas-feiras. E não é que se casaram, já há uns 10 anos? Isso vale um conto à parte algum dia. Mas voltemos à sala.
Gildo, além da super confiança que inspira, tem também um super bom-gosto e, treinado como é em obras dos mais vários tipos, ia levando a obra, sozinho, reconstruindo e sugerindo. Ficou um primor! Quem já viu a sala pode confirmar.
Mas, como toda obra, a gente acaba gastando mais do que pensa... e a grana estava mesmo muito curta. Tudo vinha sendo feito aos poucos, mas, mesmo assim...
O fato é que, numa quinta-feira, me deparei com uma quantia acumulada para pagar na terça seguinte: material já comprado, prestação do ar condicionado, gesseiro, enfim, um total que eu não tinha. Para muitos, talvez, uma micharia, mas para mim... era o suficiente para entrar em pânico.
Apelei para a calma taurina, se é que conseguia ter alguma naquela hora. Se você sabe, a última coisa que um taurino faz é pedir empréstimo. Ai, pelos deuses... eu tinha de escapar dessa! Como?
Por incrível que pareça, como boa reikiana, investi em um dos princípios do Reiki: “Shinpai suna”, ou seja, “não se preocupe”. Mas é claro que não significa um “não se preocupe e não faça nada por isso”. Não. Significa tomar todas as providências necessárias, lutar por resolver o que deve ser resolvido e, só então... confiar. “Shinpai suna” significa, na verdade, fazer a sua parte... e... confiar. Eu não sei como isso funciona, mas funciona... só que, daquela vez, não me parecia mesmo haver saída.
Mas fiz como manda o figurino, como mestre de Reiki que sou. O exemplo começa aqui, não é mesmo? Então... vamos às providências: fui ao banco e falei com Cristina, uma gerente de sonhos, que já se aposentou. Pedi instruções de como faria um empréstimo, com o coração na mão, diga-se de passagem. Ela me informou tudinho, me passou um monte de formulários e me aconselhou a fazer o empréstimo no dia seguinte mesmo, ou seja, sexta, para o dinheiro estar na minha conta na segunda e eu saldar as dívidas na terça, com o dinheiro depositado. Eu não quis. Disse que só faria o empréstimo em cima da hora, na segunda. Ela poderia colocar o dinheiro na terça para mim? Poderia, mas achava uma bobagem sem tamanho, pois não faria diferença nenhuma em relação a juros, pois a quantia nem era tão significante, e tudo seria feito com calma. Não aceitei. Finquei pé na segunda, dizendo que levaria os formulários para casa e já traria tudo certinho na segunda, na hora da abertura do banco.
- Por quê?
- Sei lá... porque sim. Vou me sentir melhor assim.
- E se eu faltar na segunda?
- Não vai faltar, Cristina e... se faltar, paciência... consigo o empréstimo mesmo assim?
- Consegue, mas não garanto que o dinheiro caia na terça.
- Ok, sempre paguei tudo em dia. Darei os cheques na terça pedindo aos meus credores que depositem na quarta. Sei que me entenderão.
E foi assim que finquei mesmo o pé. Minha confiança estaria em jogo até o último minuto. Quem sabe eu poderia encontrar outra saída... teria o final de semana inteiro para pensar em outras possibilidades...
Na sexta, passei no banco para pagar uma conta pequena e, nem sei por que, olhei o saldo. Havia um dinheiro lá que, com certeza, não era meu. Corri para Cristina:
- Você depositou o empréstimo?
- Eu não, você nem assinou os formulários ainda! Não poderia faze-lo!
- Então, tem um dinheiro lá que não é meu. Veja qual foi o engano, por favor, antes que isso dê um problemão nas transações da minha conta! De quem será isso?
Cristina acessou a conta. Sim, não havia dúvida: o dinheiro estava lá... acessou outras telas do sistema... mais um minuto... e ela sorriu:
- Lali, devolução do seu Imposto de Renda!
Ai, pelos deuses! Não era possível!!!
Paguei tudo e lembro que me sobraram uns pouquíssimos trocados! Deu só para uma comprinha básica de uns chocolates da Kopenhagen, com que fiz questão de me presentear para comemorar a aventura, oferecendo uns bons pedaços, em pensamento, ao meu anjo desconhecido, aquele que me salva nas horas inesperadas.
Pois é... shinpai suna!
sábado, 9 de julho de 2011
A COMPRA
Nunca tinha pensando em ter um consultório em minha vida. Professora universitária convicta e feliz, pensei que iria levar essa profissão para além da aposentadoria, até que a vida ou a própria universidade me considerasse inapta para exercer minhas funções.
É... o mundo dá muitas voltas, e me vi envolvida com igual amor e dedicação pela a terapia holística, mais especificamente com técnicas orientais, especialmente o Reiki e acabei por me aposentar, em 2003, para me dedicar exclusivamente a esta nova profissão.
Mas jamais pensei em ter consultório.
Ele veio. Na verdade, tropeçou no meu caminho. Em princípio, estava procurando um lugar para alugar. Tinha de ser perto de casa, para onde eu pudesse ir a pé. Mas a região, embora pródiga em consultórios e salas, cobra um preço exorbitante para o meu orçamento. Tudo que investisse nele, considerando a baixa estação no consultório que, no Rio, dura quatro meses (dezembro a março) me pareceria sumir pelo ralo, ou seja, pelo exercício do próprio trabalho. Abandonei a idéia por uns meses e voltei a namorá-la no início de 2006. Eu queria qualquer prédio de Copacabana, menos um, por razões muito simples: não queria parecer fazer concorrência a um antigo mestre de Reiki de cujo Instituto tinha me desligado. Embora respeitasse suas posturas e diretrizes, passei a não concordar com elas e, eticamente, seria preferível me afastar. Aliás, acho que foi um processo mútuo. Menos mal. Mas por uma questão de excesso de zelo, talvez, queria evitar ter um consultório e sala de cursos no mesmo prédio.
A partir do início da procura até o ponto final, conheci praticamente todos os prédios comerciais e mistos de Copacabana. Mas... dava uma volta... volta e meia... e empacava no mesmo ponto: o tal prédio. O jornal, os amigos, os corretores, achavam sempre uma forma de embicar meu nariz para lá. Ufa! E eu ali, firme: esse não quero. Tinha tido o explícito cuidado de dizer aos meus corretores, amigos, benfeitores e todos os interessados em me ajudar que serviria qualquer prédio, menos aquele. Mas parecia atração à oposição explícita. Incrível...
Assim, passei meses procurando sem muita ânsia. Se aparecia algum imóvel, eu ia ver. Nada agradava e eu adiava a iniciativa. Um dia, Maurício, um dos corretores, me ligou, animado:
- Oi, lali, onde você está?
- Na rua, mas pode falar.
- Na rua, onde?
- Esquina de Nossa Senhora, com Siqueira Campos.
- Pois então você está em frente ao prédio de seu futuro consultório. Achei!
Fui gentil, mas firme:
- Maurício, eu já lhe disse: “todos os prédios, menos esse”.
- Eu sei, mas seria por uma gentileza, pelo menos. Não custa ver, né? A dona não nos dá a chave, o corretor está lá e você está em frente à portaria! Não é muita coincidência?
- Tá bom, Maurício, tá bom.
Subi. Desnecessário dizer que a sala era tudo que eu queria. Tudinho. Inclusive pelo fato de estar caindo aos pedaços, o que mexe consideravelmente no preço.
Se você se lembra do tal anjo da guarda que me empurra para aventuras, ele estava presente, ali, de novo. Eu tinha pensado numa sala com uma divisória para separar o espaço de atendimento do espaço de cursos. Tinha até isso, feita de madeira, com porta e tudo. O anjo tinha providenciado algo removível, só para me atrair. Assim, ela se apresentaria exatamente como eu tinha sonhado, apesar de ele saber de velho que uma divisória seria a primeira coisa que eu, depois de estudar o espaço, iria detestar. E foi mesmo: assim que comprei a sala e pensei na distribuição do espaço, a divisória foi a primeira a sair.
Mas voltemos aos fatos: a dona estava pedindo um preço absurdo por um pedaço de chão totalmente destruído. Não dava nem para entrar no banheiro. Tinha um tanque (imagine!), pia quebrada, azulejos caindo. Eu podia imaginar o encanamento podre por dentro! Era construir tudo de novo. Mas o prédio, além de ser super bem localizado, me ostentava uma sala no penúltimo andar, sem outros prédios perto para devassá-la e... de fundos, sem o barulho do trânsito local. E mais: sol da manhã, lua da noite, voltado para o mar. Não dava para vê-lo, por conta de prédios que embora fiquem distantes, são altos o suficiente para impedir a vista direto para a natureza, mas as energias vinham diretamente de lá. Perfeito para os objetivos do meu trabalho! Parecia coisa feita para mim! Balancei nas bases. Embora apegada a minha primeira convicção de não me estabelecer naquele lugar, ensaiei uma negociação com a dona, que permaneceu irredutível.
Me despedi e saí. Esqueci de dizer que estava acompanhada pelo porteiro, o Luiz, que fizera questão de me levar até lá. Ao descer pelo elevador, descobri que ele também era reikiano. Ao saber que eu estava procurando um lugar justamente para aplicar Reiki, me disse:
- Ah, você tem de vir para cá.
Sorri. Disse que não tinha pressa e que estava procurando outros lugares, mas agradecia a gentileza. Não quis dar o verdadeiro motivo de minha saída estratégica por uma questão de ética, pois, afinal, ele era porteiro dali. Mas, nessa hora, sem que eu soubesse, o tal anjo de minhas aventuras deve te-lo cutucado, pois o porteiro me disse:
- Você se incomoda que eu faça uma observação?
- Claro que não.
- Você não sabe fazer negócio. Posso comprar essa sala para você?
Antevi o tal anjo e, por via das dúvidas, respondi:
- Se você quiser, sim, claro. Se ela tiver de ser minha e você acha que pode ajudar, esteja à vontade.
Combinamos uma “taxa administrativa”, caso ele conseguisse fechar o negócio e saí, me esquecendo da história.
O tempo passou. Devo confessar que a sala, vez por outra, enfeitava meus pensamentos e passei a procurar algo parecido, já que estava mais bem delineada em minha mente. Mas nada, não havia nada que sequer se aproximasse dela.
Quase um mês depois, recebo uma ligação do Maurício, o tal corretor:
- Lali, onde você está?
- Na rua, mas pode falar.
- Vamos fechar negócio?
- Que negócio?
- Ué... daquela sala que você viu no prédio da Siqueira Campos.
- Como assim?
- Pois é, ela voltou atrás no preço. Vamos fechar hoje?
- Espera aí, vou falar com o meu advogado.
Não era para o advogado e sim para o porteiro que eu tinha de ligar. Afinal, eu tinha fechado um compromisso com ele e queria, pelo menos, avisá-lo do imprevisto. Ao ligar, no entanto, apenas o ouvi rir do outro lado e dizer:
- Pode fechar, faz parte do negócio. Depois a gente conversa.
Fiquei desconfiada:
- Mas está tudo certo? O que você fez?
- Nada desonesto, posso garantir. Fecha logo esse negócio e depois a gente conversa.
- Mas se eu fechar agora com ele, não vou poder pagar a sua “taxa administrativa” agora. Vou ficar a nenhum!
- Não se preocupe, quero você aqui conosco. Depois a gente acerta. Somos os dois reikianos, estamos em casa.
Só podia ser o tal anjo, não era possível. O fato é que fechei negócio e em menos de dez dias, era dona do imóvel. Negócio fechado, fui ter com o tal porteiro:
- O que você fez?
- Nada demais. Apenas disse à dona da sala que eu tinha uma pessoa que tinha visto o imóvel e que estava oferecendo X (a mesma quantia da minha oferta). Só não disse que era você. Não menti, menti? Afinal, ela não conseguiria nada melhor. Fiz ver a ela que só estava acumulando as dívidas com o condomínio já que tinha deixado de pagar há meses e que, se não vendesse logo e pelo preço da oferta, acabaria no prejuízo. Além disso, esta oferta coincide com o que se está oferecendo mesmo pelas outras unidades, por aqui... e a dela está bem caidinha... Ela é que está viajando na maionese. Desonesto não fui. Apenas não disse que a oferta que eu tinha era da mesma pessoa.
Em outros termos, sem que eu mesma o soubesse, estava fazendo uma oferta através da corretora e outra oferta, de mesmo valor, através do porteiro. Esta foi a jogada de gênio desse jovem, que hoje, passados quatro anos, seguiu seu dom inato de ser corretor de imóveis e tem uma sala de corretagem, aliás, no mesmo prédio.
Fechei o negócio com a administradora e, em seis meses, paguei a taxa combinada com o porteiro. E agradeço, até hoje, carinhosamente, a este anjo invisível que me aparece do nada, nas horas mais inesperadas.
Foi assim que cá estou, com um consultório para onde vou a pé, pela praia de Copacabana, agradecendo o sol de cada dia e também aos deuses pela recompensa por tantos anos de tanta luta, tanto esforço, tanta dedicação e tanta economia. E, é claro, ao meu anjo aventureiro, pela ajuda providencial que chegou na hora certa.
sábado, 2 de julho de 2011
OS JOGOS
Justiça seja feita: também trago recordações e ensinamentos do internato, significativos e imprescindíveis para minha vida.
Aprender a jogar respeitando o adversário foi de fundamental importância para a minha formação quando adolescente e imprescindível para minha postura profissional em toda a minha vida, nessa louca sociedade moderna de concorrências e desenganos.
A integridade do ato, em si, me deu a força necessária para estabelecer em minha vida metas de ideais bem norteados, sem esbarrões sobre as atitudes muitas vezes sórdidas do meio. Neste aspecto, agradeço a educação que recebi, pautada na solidariedade e na concorrência não avassaladora do meio. Vencer não era massacrar. Perder não era a morte, mas apenas um passo de experiência e aprendizado, uma ocorrência da vida.
Este presente eu trouxe do colégio, apesar de tantos outros desacertos.
Ah... um pouco dessas freiras nas nossas atuais torcidas de futebol... e, por que não... nas concorrências da vida...
Esses princípios aprendíamos principalmente nos campeonatos de vôlei. Lembro-me de um outro internato, também de freiras e também no Alto da Boa Vista. Funcionava como uma comunidade solidária, um país vizinho, com relações diplomáticas bem delineadas entre nós. Um grupo visitava o outro, quando em vez, em festas de quermesses ou retiros e, principalmente, em treinos de vôlei. O objetivo era o de treinarmos como adversárias, pois treinar com outras táticas aguçava as nossas. Fazíamos vários jogos amistosos, em treinos não só de jogadoras, mas, também, de torcidas. Éramos, na verdade, duas sociedades irmãs e ficávamos torcendo para que nunca tivéssemos de nos confrontar nas preliminares, cruzando os dedos nos sorteios que determinariam em que grupo cada colégio pertenceria. Ficar no mesmo grupo significaria que um colégio acabaria por eliminar o outro e queríamos, ambos, que chegássemos juntos à final. Aí, sim, quem ganhasse ficaria com a taça e, fosse qual fosse, a alegria seria a mesma.
Evidentemente, nos confrontamos oficialmente várias vezes e lutávamos para vencer. Mas era interessante o decorrer de todo o jogo. Quando uma cortada fazia cair a adversária, não era um grito de raiva que surgia da jogadora que tinha sido focada e não conseguira pegar a bola, mas um cumprimento pela estratégia da adversária: “boa bola!”ou “bolão!”. O ponto perdido era arduamente disputado novamente, a luta era para valer, mas não para sobrepujar o outro. Vencer significava outra coisa diferente do que esmagar, tripudiar, desmerecer. Vencer era honrar a arte da batalha, o resultado do esforço.
Era interessante o quanto nos sentíamos “irmãs”. Nas vésperas de nossos jogos com outro algum adversário ouvíamos, no recreio após o jantar (que, coincidentemente era no mesmo horário para ambos os colégios), o “grito de guerra” e de estímulo de nossas colegas do outro lado da mata: Esses cantos ainda ecoam em meus ouvidos, ao me lembrar das coisas da adolescência. Esperávamos que acabassem de cantar, juntávamo-nos nos janelões do terração do recreio noturno e repetíamos o mesmo refrão para as nossas queridas companheiras, para acusar o recebimento da mensagem. O grito guerreiro, atravessando a escuridão e o silêncio da mata da Tijuca, ecoava em nossos corações, no quase um quilômetro que separava os dois prédios.
Lição de vida...
Havia também um encantamento nas partidas com as outras adversárias. Sabíamos que nem todos os colégios tinham os nossos princípios ou a nossa postura que considerávamos “ética”. Mas não respondíamos no mesmo tom. Sequer lamentávamos. Era como se isso não contasse para nós, “princesas” que éramos. Apenas deixávamos que isso acontecesse e seguíamos o nosso curso, tanto jogadoras, quanto torcida, ignorando vaias e respondendo com uma diplomacia um tanto “superior”. Isso nos fora ensinado explicitamente pelas irmãs do colégio e, embora a intenção educacional fosse das melhores, acho que esse “tom” de superioridade custou-me um certo ar de arrogância aos ataques adversários e competitivos, postura que me acompanhou por alguns dos meus primeiros anos de adúlticia, felizmente contornados (ou, pelo menos, amenizados) pelas pauladas da vida.
Boa base, boas escolhas, embora tivesse de ter passado pelo árduo trabalho de aprender a temperar a educação chamada “esmerada” com o bom senso. Neste caso, o bom equilíbrio entre as freiras e as experiências de vida.
De qualquer modo, o que aprendemos na disputa através dos jogos foi fundamental para as alunas que souberam usufruir desse ensinamento.
Agradeço à vida por essa oportunidade, pois deu brilho a minhas vitórias, compreensão e aprendizagem nas minhas derrotas. E sensatez.
Marcadores:
convívio,
costumes,
experiência,
internato,
princípios éticos
sábado, 25 de junho de 2011
TONIQUINHO
Irmã Antonieta foi nossa mestra de classe no quarto ano fundamental, naquela época intitulado quarto ano primário.
Para fazer contraste com a Irmã “Cruz Credo”, eu tinha de contar, também, minha história com Irma Toniquinho. Pois é... Toniquinho ou Tonico foi como a minha turma apelidou essa religiosa nascida para ser mãe.
Claro que às vezes fazia sua cara amarrada, mas era até engraçado, pois não levava jeito para isso. O fato é que, com sua amorosidade, ela conseguia tudo da gente e não me lembro de uma disciplina consentida tão perfeita em outro ano de internato. Nós queríamos agradá-la, esta é a verdade, brindá-la com nosso amor, por tanto amor recebido.
Alda, uma de minhas colegas, foi quem colocou o apelido, que coincidia, perfeitamente, com o perfil da irmã: pequenina de porte, faceira, espertinha e descolada nas respostas às perguntas mais incríveis que inventávamos para lhe fazer. Não era jovem de corpo, mas era jovem e bem responsável de espírito. Sentíamos que estávamos seguras com ela, ao mesmo tempo sábia e brincalhona, o ideal para cuidar com amor e aconchego de uma turma de meninas que contavam entre 10 e 11 anos de idade.
Um dia, sem querer, Alda, em vez de chamá-la pelo nome, tascou o apelido:
- Irmã Toniquinho!
A freira se virou de pronto, a turma congelou. E agora? Ela descobrira! Acostumadas que estávamos às ranzizices das freiras das turmas anteriores, esperávamos que, mesmo sendo muito boazinha, Alda contaria com uma boa reprimenda, no mínimo!
Lembro-me que todas silenciamos, olhos fitos na freira. Ela primeiro ficou muito séria, depois soltou um pequeno sorriso e disse que precisava falar com todas, quando chegássemos à sala de estudos. Estávamos no recreio do jantar, isto é, misturadas com alunas de outras séries. E havia uma etiqueta bem protocolar no colégio: cada turma tinha lá os seus problemas e a mestre de classe jamais os expunha em público. Em outros termos, bem cedo aprendi que “roupa suja se lava em casa”.
Seguimos para a sala e fomos surpreendidas com o seguinte discurso:
- Meninas, eu já conhecia esse apelido que vocês me deram às escondidas. Fico agradecida pelo carinho e o acho muito bonito. Só que precisamos combinar uma coisa: ninguém pode saber disso em público. Não fica bem vocês chamarem sua mestra de classe de “Toniquinho” ou “Tonico”. Assim, vamos restringir esse tratamento aos momentos em que apenas nós estivermos presentes. E tomem muito cuidado, quando estiverem em público.
Não é preciso dizer que todas nos levantamos dos lugares e a rodeamos tão cheias de amor no coração quanto o amor que ela tinha para nos dar. Toniquinho aceitava o tratamento de você, não de senhora, como era de praxe entre alunos e mestres, sabendo de sobra que respeito se faz com o convívio e não com imposição. Mas tudo “só entre nós” segredo que nos aguçava, ainda meninas, a cumplicidade necessária para a conquista de nossos ainda tão ingênuos corações.
Tonico ou Toniquinho conseguia tudo que queria: desde filas impecáveis e silenciosas nos corredores, como o melhor comportamento à mesa do refeitório, postura impecável na Capela, pontualidade, assiduidade, e compromisso. Tudo feito com alegria, bom gosto, satisfação. No recreio, dessarte não ser tão jovem, Toniquinho jogava queimado com a gente e também participava do pique bandeira. Era mesmo muito diferente de tudo que vivi, entre todas as experiências de meus dez anos de internato.
Para melhorar a história, não sei como, embora fosse critério do colégio que as mestras permanecessem sempre como guardiães da mesma série e nós é que mudássemos de mestre de classe a cada ano letivo, Toniquinho foi nossa mestra por dois anos seguidos: quarta e quinta série fundamentais. Eu acho que ela mesma deve ter mexido lá os seus pauzinhos, pois, com toda certeza, nunca teve uma turma em que ela sentisse tanto amor transbordar. Uma pena não poder nos seguir por todo o percurso acadêmico. Eu teria sido brindada com a melhor “mãe” do colégio.
Mas, tudo bem... eu e toda a turma tivemos a oportunidade de viver dois anos da mais pura harmonia e encantamento. Toniquinho sempre esteve ao nosso lado de uma forma muito especial, ensinando, curtindo, disciplinando e incentivando nossas mentes e nossos corações para mostrar-nos as melhores qualidades do ser humano em si mesmo e em convívio com os demais.
Toniquinho, onde quer que você esteja - provavelmente sendo chamada de Toniquinho pelos anjos -, obrigada, querida, devo muito do que sou a você!
Tim-tim!
sábado, 18 de junho de 2011
IRMÃ CRUZ CREDO
Irmã “Cruz Credo” foi a única freira que, realmente, conseguiu angariar minha antipatia no colégio. Por uma questão de delicadeza, prefiro usar o apelido que tinha entre um pequeno grupo de alunas, felizmente jamais descoberto por outras alunas ou irmãs do colégio.
Era a mestra do terceiro ginasial (atual sétima série do ensino fundamental). Era dessas pessoas cheias de preconceitos, que gostava de fazer uma preleção por dia para a turma, olhando para cada um, como que pedindo aprovação de suas palavras.
Não gostava dela. Decididamente, não. Por várias razões: antipatia gratuita (isso acontece até nas mais nobres famílias) e por seu comportamento diante dos próprios preceitos que pregava a nós, suas alunas. Como lhe disse,em contos anteriores, ao escrever sobre o colégio, a cada ano, tínhamos uma mestra de classe diferente. Isso porque as freiras que eram as responsáveis pelas turmas ficavam sempre no mesmo nível. Nós é que passávamos de ano. Assim, Irmã “Cruz Credo” era a mestra daquele ano. Eu tinha treze para quatorze anos, estava em plena adolescência, acostumada há seis com o regime de internato. Quem ficava internada tanto tempo? Ninguém. Conhecia aqueles corredores como as palmas de minhas mãos. Era capaz de caminhar à noite, às escuras, ou melhor, no breu, sem topar nas portas ou móveis. E olha que breu no Alto da Boa Vista, dentro da mata, é breu mesmo. Assim como conhecia a concretude do edifício, conhecia a concretude dos santos ofícios, o regimento interno e tudo mais que alguém que é quase patrimônio do colégio poderia conhecer.
Pois bem, ninguém discutiria comigo as leis do colégio. Nem uma freira, ainda mais se tivesse entrado depois de mim, transferida de algum lugar. Digo isso para você ter uma idéia de como eu estava incorporada àquela vida e àquele cotidiano.
Irmã “Cruz Credo” vomitava as leis do colégio todos os dias, justamente na preleção, antes das aulas do dia. Já sabíamos: as aulas começavam às oito e dez. As internas chegavam à sala às sete e quarenta, esperando por suas colegas externas, que iam chegando pouco a pouco. A espera, todos os dias, era contemplada com os “sermões” de Irmã “Cruz Credo” Até hoje fico pensando onde ela arranjava tanto assunto. Uma chatice: como ser uma boa moça, como se sentar no refeitório, como manter o silêncio... tudo coisas que sabíamos de cor e salteado, melhor que as aulas de etiqueta, postura, culinária, bordado e tudo mais que faz o exemplar comportamento de uma moça prendada. Mas estávamos lá, pensando em ontem, enquanto a voz de fundo (nem a voz dela era agradável) daquela freira enchia o ar de nostálgico mal estar. Provavelmente ela própria necessitava de falar sem parar. Isso me irritava completamente. Eu queria ler, rever os assuntos das aulas daquele dia e aquela voz perturbadora atravessava o meu sossego.
Eu tinha de dar um jeito nisso para não pirar, até que um dia tive a idéia de prestar atenção, tim-tim por tim-tim. O plano passou a ser “pegá-la no pulo”. Quem sabe, assim, eu conseguiria fechar aquela matraca. Pois foi assim mesmo que consegui. Comecei a anotar os dias e assuntos pautados. Logo no começo, ela me chamou a atenção: estava escrevendo, enquanto ela falava e isso era desrespeitoso. Fiz ver a ela que estava anotando suas recomendações. Não havia como forçar-me, portanto, a ficar olhando para ela que nem peixe morto, como obrigava a todas as demais. Era uma bela justificativa e eu anotava assiduamente. Com que objetivo? Não esquecer, certamente. Era um argumento esquisito, mas irrefutável. Quando tive material suficiente, comecei minhas investidas.
Não era permitido falar no refeitório, durante as refeições, exceção feita a pedir para uma colega passar a cesta de pão ou a tigela de arroz, por exemplo. Apenas durante a sobremesa o silêncio era suspenso, até a hora das preces de ação de graças. Ocorre que Irmã “Cruz Credo”, não conseguia ficar quieta. Era mesmo uma matraca viciada. Falava baixinho com a aluna que sentava a seu lado (sempre uma puxa-saco, com certeza). Cabe explicar que, no refeitório, as alunas sentavam-se em mesas longas: dez alunas em cada mesa, encabeçada pela mestra de classe. Como cada turma de internas era grande o suficiente para ocupar duas mesas, a outra mesa era encabeçada pela assistente daquela mestra de classe. Assim, todas as mesas tinham uma freira à cabeceira e as mesas eram divididas por níveis escolares, o que, também, aguça o sentido de divisão por classes, o que nos lembra uma discriminação social. Não se misturam as classes...
Mas voltemos aos fatos: eu tinha meu assento à mesa da mestra, no caso, Irmã “Cruz Credo”, embora sentasse na outra ponta, para ficar o mais distante possível do meu desafeto. Quando percebi que ela não conseguia ficar quieta por tanto tempo, anotei a data de um de seus sermões sobre o silêncio e, na primeira oportunidade, sapequei minha lição. Olhei para ela como ela costumava nos olhar (olhos recriminadores) e levei o dedo indicador aos lábios, sussurrando: é hora de silêncio. A mulher quase morreu. Suas faces enrubesceram e não era de vergonha, era mesmo de raiva reprimida. Uma aluna a repreendia e, pior, com razão. Ela sequer poderia dizer que era falta de respeito, já que seus sermões eram todos pautados no respeito às regras. E assim foi: fui sapecando cada um de seus deslizes, que não eram poucos. E... como eu era considerada uma aluna exemplar, desde os anos anteriores, sempre apontada como modelo e todas aquelas baboseiras de cdfs que você deve conhecer, ficava mais difícil ainda.
Me transformei no pesadelo de Irmã “Cruz Credo” . Era visivelmente desagradável a minha presença. Mas eu não dava qualquer motivo para recriminação. Pelo contrário, cuidava cada vez mais de ser a perfeição personificada. Tenho certeza de que eu chegava a ser irritante, como consegue ser uma adolescente que resolve emperrar com alguém. As colegas me admiravam, pois eu passei a ser a representação da “moral”, diante da moralista. Pode imaginar um bando de adolescentes torcendo por mim, claro, já que ela era tão chata... Até eu me achava chata, mas não dei trégua.
Foi com essa freira que se passou o episódio do sacrário vivo, que já lhe contei e que deu panos para mangas entre as colegas de internato. Se você leu o conto ”dogmas e crenças”, talvez se lembre do episódio. E, naturalmente, foi com ela que armamos o único castigo já impetrado pelas alunas a uma freira...
Na verdade, eu estava mesmo esperando uma chance, mas não poderia ser de graça, é claro. E veio. Para desespero meu, no entanto, por causa de Helena, uma de nossas colegas. E conto-lhe já por que o desespero.
Helena era uma menina triste. Tinha lá seus segredos, que ninguém conseguia saber quais eram. Eu, no entanto, por ser sempre considerada a irmã mais antiga, mesmo que não a mais velha, era, quase sempre, a confidente de minhas irmãzinhas de turma. A antiguidade no posto, o sentir-me em casa por já viver ali tantos anos talvez inspirasse essa função. Pois então... Helena, num de seus dias de tristeza e desencanto, revelou-me que descobrira que era filha adotiva e isso a fazia muito infeliz. Passei a dedicar-me mais a essa pequena amiguinha, compadecida com esse sofrimento. Queria fazer ver a ela o quanto seus pais adotivos eram verdadeiros de alma e coração e quanto a amavam. Ela achava que havia sido colocada no internato por rejeição dos pais e não porque, como eles diziam, estavam se separando e tinham resolvido deixá-la longe desse delicado período de separação. Para ela, isso era uma desculpa... ela se sentia abandonada. Para completar, tinha sido introduzida na turma no meio do ano para o final, o que mais complicava a sua integração, numa turma já composta pelo convívio de meses. Aos poucos, no entanto, eu estava conseguindo dissuadi-la dessa idéia. Não poderia contar o segredo a mim confiado às outras colegas, mas incitava a todas a ajudarem-na, dando-lhe mais atenção. Helena, aos poucos, começou a participar de nossos jogos e tudo parecia começar a caminhar para o normal, senão quando... a megera atacou. Até hoje acho que aquela freira precisava era de um tratamento psiquiátrico...
Tudo aconteceu numa tarde, na sala de estudos. Era comum recebermos visitas de pais que vinham conhecer o colégio e seu cotidiano, antes de decidirem colocar suas “princesas” lá. De setembro ou outubro em diante, muitas visitas eram feitas, tendo em vista o ano seguinte. Deveríamos estar por aí, no calendário escolar. O aviso para nós já era comum, vindo do interfone do corredor e chegando por alguma outra freira aos ouvidos da mestra de classe que nos anunciava:
- Meninas, estamos com visitas.
Continuávamos estudando, atentas, no entanto, ao ritual. Pouco depois, uma freira aparecia na porta da sala, guiando os visitantes. Neste momento, levantávamos juntas, num movimento único, acompanhado, em um só acorde de delicadeza “natural”, treinadíssimas:
- Boa tarde.
Esperávamos que a mestra de classe se levantasse e dissesse:
- Podem sentar-se.
Aí, era um requinte de vinte meninas se sentando como princesas, juntas, sem fazerem o menor ruído, em nossas confortáveis e espaçosas carteiras de madeira encerada. Um primor. Coisa de filme. A mestre de classe, também cumprindo o ritual, aproximava-se dos visitantes e dizia alguma coisa a respeito da turma de que era responsável. Sempre alguma referência que identificasse melhor a turma. Pois não é que a jóia da Irmã “Cruz Credo” me solta a seguinte prenda?
- Aqui temos alunas de vários lugares do Brasil e de várias proveniências. Aquela, ali, por exemplo, foi adotada.
Assim, de estalo. Eu tive um treco, imagine você, então, a Helena! Em um segundo, ferida aberta para o mundo. Pode imaginar o rombo psicológico que foi. Poucos dias depois, Helema foi tirada pelos pais do colégio. Ela simplesmente não podia olhar para ninguém, especialmente para aquela megera. Até eu não conseguia mais ter acesso a ela, embora quisesse confortá-la.
Reunimos o conselho secreto das alunas, já seu conhecido, no conto do evento das toalhas (que só ocorreu dois anos depois). Esse crime merecia castigo, sem dúvida. E dos bravos. A idéia inicial foi a de roubar a chave do armário da freira e sapecar suas roupas íntimas com pó de mico, abundante na floresta da Tijuca. Para quem não sabe, pó de mico irrita muito a pele e dá uma comichão dos infernos. Dos infernos! Nas roupas íntimas, então, você nem pode imaginar... Poucas vezes, no internato, me senti tão furiosa, mas fui contra. Não sei se pelo exagerado requinte da crueldade ou porque eu queria algo que a expusesse a um ridículo à altura.
Decidimos por uma empreitada perigosa. Éramos apenas três naquela época e as outras não poderiam saber. Há sempre os dedos-duros. Não podíamos nos arriscar. E foi feito.
As camas das religiosas ficam nos dormitórios com as alunas, mas separadas por um cortinado indevassável para resguardá-las de nossos olhos. Dormem sem a touca, cabelos soltos e, evidentemente, sem hábito, com camisolões. Planejamos desparafusar a cama da freira para que desarmasse quando fosse se deitar, o que ocorria mais ou menos uma hora depois das alunas. Faria algum barulho, mas não tanto, pois o piso era de madeira e não de mármore, como nos corredores. Mas não era pelo barulho. Era, principalmente, porque o barulho que fizesse assustaria a todas no dormitório, que se levantariam para ver o que havia acontecido, levaria a freira assistente a acender a luz, e a megera, de camisola, esparramada no chão, estaria exposta à visitação pública.
E foi exatamente o que aconteceu. Fez mais barulho do que imaginávamos, mas não chegou a ser um escândalo. Irmã “Cruz Credo” estatelou-se no chão e quando chegamos para ajudar a levantar-se não apenas seus cabelos estavam expostos, mas suas pernas e as curvas de sua imensa barriga. Um vexame que, com certeza, ela jamais esqueceu.
Dali até o final do ano, que faltava pouco, felizmente, fomos olhadas com olhos de fúria. Mas não havia nada a acusar. Para todos os efeitos, foi mesmo um acidente, que poderia ter acontecido a qualquer um. Por uns dias, o andar trôpego e dolorido de Irmã “Cruz Credo” combinava bem com o seu tom de voz, sempre esganiçado. O conjunto era sintônico, embora jamais atraente.
Hoje, apenas sinto pena de não poder ter dito a ela, naquele tempo, o que hoje diria. Quem sabe, tão ferida quanto Helena, ela só soubesse viver esparramando a sua volta toda a amargura de seu próprio viver. Pobre freira... sabe-se lá por que razões foi bater nos costados de um colégio de educadoras. Dentre várias das recalcadas que lá conhecemos, ela, sem dúvida, sempre se destacou com louvor.
Para compensar, sua assistente era a Irmã Vitória. Uma sulista cheia de dons domésticos, com quem aprendi as artes mais sutis dos bordados de mãos de fada. Irmã Vitória sempre nos tratou como quem trata princesas, cuidando para que fôssemos realmente personagens de contos de fadas. Lembro-me de seus minuciosos cuidados e, até hoje, sua voz, vez por outra ecoa em meu coração, como quando nos alertava, sempre carinhosamente, para que nossos vestidos ficassem impecáveis na inspeção:
- Menina, ajeite seu vestido, você não está parecendo uma dama...
Eu tenho a impressão de que, se fosse uma novela, irmã Vitória seria uma serviçal do palácio, dessas que estão sempre para lá e para cá, levando chazinhos, costurando roupas, cuidando dos quartos, feliz, gentil, satisfeita. Sempre pronta a “contrabandear” mais cinco minutinhos de recreio (que mal faz... essas meninas já estudaram muito hoje...), de arranjar às escondidas mais um biscoitinho daqueles que a gente adorava, mas não podia roubá-los na cozinha, tirar a mancha do uniforme, antes que alguém mais veja... e a que sempre nos dizia, para os pedidos quase impossíveis:
- Pode ir, mas não demore, esteja de volta em menos de dez minutinhos...
Nem tudo foram cinzas na terceira série...
Assinar:
Postagens (Atom)
















