sábado, 28 de julho de 2012

NO MEIO



Ontem estava voltando de uma celestial sessão de acupuntura. Celestial é o termo mais do que adequado: saio de lá pisando nas nuvens.

Decidi ir a pé para o metrô, que fica, digamos... a uns 500 metros. A caminhada promete um passeio descontraído pelas ruas descompromissadas de Humaitá e Botafogo.

E eu estava atrás de uma palmilha em uma loja perto da Cobal, que Patrícia, amiga que já apareceu em outros contos – “Eu sabia”, “Sessenta”, “Silvio” - tinha me indicado. Eu já assuntara a região, sem muito sucesso. Mas estava com pressa naquele dia. Quem sabe, com mais calma, eu achasse a tal lojinha.

Não achei. Mas já que estava por ali, fiz olhos agudos em volta e vi uma loja de cuidados com os pés – podologia.

Atravessei a rua descansada. Afinal, depois de uma sessão de acupuntura celestial, não dava mesmo para quebrar o encanto com uma agitação desnecessária. Meu próximo compromisso seria dali a duas horas. Tinha tempo para vadiagem.

Entrei na loja olhando as vitrines e ouvi aquele chamado inconfundível:

- Eulalia?

Virei-me, pensando: “ex-aluna, aluna, cliente, amiga”?...

Era uma amiga antiga, que não via há vários anos. Estava tão diferente que teve de identificar-se para que eu a reconhecesse. Não sei se fiquei feliz em vê-la, confesso, pois há três anos, só falava com ela nos natais e aniversários. Infelizmente, ela se transformara num poço de lamentações. Dessas que, por mais que você tente ajudar, conversar, aconselhar como “irmã mais velha” não tem jeito. Lamenta até pela água que bebe. Mas o encontro pessoal podia ser diferente. Assim, apostei na vida e a abracei carinhosamente:

- Nossa, quanto tempo! Como vai? E aquelas crianças maravilhosas?

Ela tem dois filhos que, quando vi, da última vez, só poderiam ser comparados a dois príncipes saudáveis e deliciosos de se ver.

- Vão bem. Eu é que estou com uma alergia de doido. Imagine, minha casa está em obras há dois meses, uma poeirada só.

Pronto... Começou! Tentei desconversar:

- É assim mesmo, obra é fogo. E aqueles príncipes, como vão?

- Vão bem. Hoje vim ver meus calos, enquanto o (nome do marido) fica com eles em casa. Sabe, estou de férias, ou melhor, estamos em greve. As férias oficiais vão acabar e eu não faço greve de jeito nenhum, pois acho um absurdo...

Bem, eu vou poupar você de ouvir o resto, mas era uma lamentação só. Fechei meus ouvidos para pensar depressa em como sair dali sem ser indelicada:

- Não vamos falar em greves, querida, você sabe que fui professora por 30 anos, sei bem o que é isso. Os meninos, como vão?

-Vão bem. Mas eu não vou entrar nessa de greve não, porque...

Olhei o relógio. Na verdade, acho que estava olhando para o relógio do tempo psicológico. Para ela, ele havia parado. Os filhos crescendo, ela parada; os anos passando, ela parada.

No meio de tanta vida para viver, ela parada.

No meio de uma manhã de sonhos para mim, eu, ali, parada, vendo aquilo...

No meio de tanta piração, os meninos, como iriam? Não perguntei mais. Despedi-me, às pressas, dizendo das inconstâncias da vida e também de minhas urgências.

No meio de tanta loucura, eu precisava ir... e bem depressa. “O que não tem remédio, remediado está.”

No meio desse imprevisto, eu tinha perdido a sensação de céu e nuvens fofas abaixo dos meus pés! Cadê minha sessão de acupuntura!? Ela não tinha o direito de fazer isso comigo! Eu não tinha o direito de deixar que ela fizesse isso comigo...

Saí meio tonta. Uma sensação esquisita.

No meio de uma manhã promissora, uma nhaca, argh... atravessando meu corpo.

Um banho de sal grosso resolveria? Caramba... cruzes!!! Ninguém merece!

Tem gente que adora ser assim! Mas precisa arrastar os outros junto? Continuei incomodada pela rua, a caminho do metrô. O dia estava lindo, mas a sensação esquisita me acompanhava. A Voluntários da Pátria é uma rua comprida. Eu tinha entrado nela pela Humaitá e teria de andar até quase o fim, para alcançar o metrô. Melhor ir para casa, tomar um banho e ver no que dá... estava incomodada, de verdade. Essas coisas acontecem com todos nós, desprevenidamente. Mas sempre tem um jeito de sair. Contra o dissabor pela vida, só mesmo muito amor por ela. E é o que eu tenho. Mas estava incomodada. Pensava, sinceramente, num banho.

No meio de tanta sensação agoniada, foi que ouvi um som de água. Um chafariz.

Uma chafariz!!! Em plena Voluntários! Nas minhas pressas, nunca havia notado. Tenho uma câmera sempre engatilhada. Tirei da bolsa, não resisti.

Imediatamente, a Voluntários se desvendou para mim. Atrás desse encantamento repentino, outros recantos dessa rua movimentada se desvelaram para mim. Virou festa, como um chão para aquele céu azul anil. Que dia lindo, lindo, lindo!!!







No meio dessa rua movimentada, sob este maravilhoso céu invernal me pegando de surpresa, meus olhos me brindaram com meu banho de sal grosso!

Agradeci a minha amiga chata por ter sido, ainda que involuntariamente, o botão despertador da beleza descompromissada dessa rua de passagem, em pleno bairro pouco festejado do Rio de Janeiro. Talvez eu nem tivesse percebido, se não estivesse tão ansiosa por uma limpeza de alma. Tem males que vem para o bem. Quem diria...

Fui caminhando para o metrô, afofando novamente meus pés sobre as nuvens, felizinha, felizinha... nessa maravilhosa cidade do meu coração.

No meio do caminho tinha mesmo uma pedra... mas dela brotou a água que inundou e banhou essa alma carioca.

sábado, 21 de julho de 2012

QUATRO


Dei uma volta pelo meu passado profissional e fiquei pensando em minha trajetória universitária.


Trabalhei 13 anos um uma universidade particular, como professora de Língua Grega, Cultura Clássica e Língua Portuguesa (haja diversidade...). Desses anos, passei o primeiro também em uma escola do Município do Rio, como professora de português – Comunicação Oral e Escrita, como se denominava, na época. Nos dois últimos, dividi o tempo acadêmico com um conhecido colégio particular, dando aula de Cultura Clássica. Isso mesmo, Cultura Clássica no último ano do ensino fundamental. Só conheço um colégio que se prestou a esse requinte, investindo tão a fundo nas mentes de nossa juventude!

Adorei fazer tudo isso, embora me sentisse dispersa. Fizera doutorado em Linguística e estava doida para aquietar minha mente não horizontalmente, com essa diversidade toda, mas verticalmente em estudos de Psicolinguistica. Precisava de um concurso, pois só uma Universidade Pública me daria essa chance, com a profundidade desejada.

A oportunidade surgiu em 1986, mas, naquela época (seria tão diferente, hoje, em certas universidades?), meus amigos me diziam para não perder tempo com isso:

- As vagas estão marcadas, você está se desgastando à toa. Já sabemos até o nome dos dois que vão entrar.

- Vou fazer, não tenho nada a perder. O máximo que pode acontecer é eu ficar onde já estou.

E fiz. Lembro-me que de março a junho, fora comer, trabalhar e dormir o mínimo possível, minha mente, meus esforços, minha vida se resumiu aos livros. Engoli aquele programa de dez temas, contidos no edital, de todas as formas que eu conhecia. Tinha livros pela mesa, pelo chão, vivia no meio de anotações, leituras as mais diversas, tentando resumir em centímetros cerebrais toda a minha existência como pesquisadora.

Eu dava cerca de 30 horas de aula por semana, o que já era um bocado, entendendo-se que me dividia entre o ensino universitário e aqueles espertíssimos e irrequietos adolescentes do tal colégio particular. Sinceramente, não sei como sobrevivi.

O concurso seria em junho. Lembro-me que, em torno do meu aniversário, em meados de maio, houve um dia em que eu duvidei sobre minha saúde para chegar lá.

O tal colégio era (e ainda é) uma Instituição que pertence a um Mosteiro. Eu ia de carro e, ao subir a rampa de acesso ao setor do colégio, tinha de dar a volta, passando em frente à eminente igreja, magnificamente construída, de fachada portentosa dentro do monastério. Um dia, estacionei o carro, e resolvi descer e entrar. Gosto de lugares de oração, sejam eles quais forem. Não importa a religião, pois não me encaixo em uma ou outra exatamente. Mas casa de oração é casa de oração e meu coração, nas horas mais desavisadas, gosta de visitar uma, sem compromisso. Não precisa ser para pedir ou porque eu necessite. Pode ser simplesmente para entrar, ficar um pouco, sentir o ambiente de recolhimento e sair. Às vezes, entro apenas para agradecer. Não exatamente por uma coisa específica, mas para agradecer em geral. Somos, todos nós, de uma forma ou de outra, pessoas abençoadas, sob um ponto de vista qualquer.

Mas, naquele dia, eu queria pedir. Queria pedir forças para conseguir chegar lá. Não queria pedir para “passar no concurso”. Queria pedir forças para ter condições de lutar. Que o mérito fosse dado a quem fosse, mas queria estar em condições de conseguir lutar como uma boa guerreira.

A nave da igreja estava completamente vazia. Pelo restinho de cheiro de incenso, provavelmente teria havido alguma cerimônia há algum tempo atrás. Eram duas horas da tarde, minhas aulas começariam em torno de duas e meia. Teria sido uma missa ao meio-dia? Talvez... ou alguma cerimônia específica, pelo cheiro de incenso que pairava no ar. Havia, ainda, muitas luzes acesas e isso só me chamou a atenção por causa de um jovem monge que recolhia paramentos e começava a apaga-las.

Não sei por que, pedi por um sinal. Eu nem sabia que tipo de sinal eu queria. Mas é que me dá umas coisas dessas, de vez em quando. Queria um sinal que me orientasse. Orientasse o quê? Não importava muito o quê ou como, mas que me direcionasse para frente.

O monge foi apagando as luzes, quase todas, e retirou-se. A igreja, em penumbra, continuava portentosa.

Contei as luzes acesas: quatro. Olhei em torno de toda a nave. Apenas quatro luzes restavam acesas. Me veio à mente o número quatro. Da lista de dez temas do edital, o que constaria no número quatro? Levantei-me um pouco intrigada e fui dar minhas aulas que se estendiam até o final do dia.

Cheguei em casa e fui aviar as coisas cotidianas indispensáveis a uma dona de casa sem auxiliares. Estava casada, na época. Após o jantar, livros novamente. Faltava apenas um mês para o concurso. Depois, como eu dizia, recomeçaria a viver uma vida de mortal novamente.

Debrucei-me sobre a lista de pontos. Quatro - Gramática Transformacional: princípios e métodos.

Nem pensar! Cruz credo. Dos dez, poderiam cair sete dos quais eu saberia me safar com tranquilidade. Mas os três restantes - Gramática Transformacional, Fonética e Fonologia ou Linguística e Poética - não! Pelos deuses, não! Mas... afinal... eram só luzes dentro de uma igreja, num momento de cansaço e desalento. Que eu não me impressionasse...

De qualquer modo, prestei mais atenção ao ponto quatro naquela semana. Recolhi um material sobressalente, andei pesquisando mais um pouco, sobre um assunto que passara bem longe de minha academia. Nenhum dos cursos que fizera na graduação abordara a gramática transformacional. Idem no mestrado e doutorado. O que eu sabia era fruto de leitura isolada e como o tema nunca me atraíra, ficara com uma visão geral e apenas horizontal do tema, por si só um universo de estudos e pesquisas linguisticas. Ah, sim, também fizera um estágio, após o doutorado, com Miriam Lemle, da UFRJ, a pessoa que mais entendia do assunto no Brasil. Mas nada que me desse uma noção suficiente para enfrentar um concurso. Em outros termos, era um mar de conhecimento do qual eu dominava apenas um palmo em sua profundidade. Mas olhei melhor o tema, naquela semana, embora o fizesse com certa cautela, desconfiança e, por que não dizer... descrédito. Afinal, eu estava muito vulnerável e... eram apenas quatro luzes deixadas acesas a esmo por um monge ao cuidar de uma igreja.

O tempo passou e esqueci o evento. Saía para meu trabalho rememorando, pelos caminhos, o que estudara, buscando detalhes do que poderia cair sobre um assunto ou outro. Se apenas sorteassem o tema e nos deixassem fazer a prova, seria ótimo. Mas eu sabia que eram apenas temas e que, uma vez sorteado um deles, a banca apontaria uma ou várias questões sobre o assunto. E teríamos uma hora de consulta e três para fazermos a prova escrita.

Vencida esta etapa, viria a prova didática (prova de aula) e, finalmente, a prova de títulos. Por tudo que eu já tinha passado, lutado, conquistado, publicado, a prova de títulos era a única na qual eu nem pensava. Nota garantida. As outras duas é que eram as pedras do caminho, sendo que a escrita era a mais temida de todas.

Chegou o dia da prova. Lembro-me nitidamente que, ao sentar-me na cadeira esperando que a banca entrasse e sorteasse o ponto, a visão da igreja e das quatro luzes, de repente, concretizou-se em minha mente. Meu coração deu um salto. Não, não pode ser.

Enfim, a mão de um dos concorrentes tirou da caixa o número. Um: Fonética e Fonologia. Os professores da banca leram a questão que haviam preparado - Fonética e Fonologia: visão sincrônica e visão diacrônica.

Dois pensamentos vieram juntos a minha mente de uma só vez: “não foi o ponto quatro, viu? Que besteira!!!” E, logo após: “Fonética e Fonologia! E agora?” Um arrepio de frio me subiu pela espinha e, imediatamente, congelou meu cérebro. Depois, esquentou na mesma proporção. Adrenalina pura. O coração disparou: “Estou ferrada”. Olhei em torno. Todos os olhos esbugalhados como os meus. Eu não era a única apavorada. No meio do desespero, quando se está no mesmo barco, as pessoas se juntam. Todos sorriram amarelado juntos. Seis concorrentes levantaram-se e entregaram a prova em branco. De fato, o tema era muito específico e de pouco conhecimento na área. Era difícil achar alguém especializado no assunto. Talvez, quem sabe, alguém da banca... apenas! Poderíamos apontar a dedo os profissionais que entendiam de Fonética e Fonologia no Brasil... e acho que não encheríamos os dedos de uma das mãos. Daí a estupefação de todos. Mas era área de Linguistica. Não havia como embargar.

Esquecida do número quatro, pensei: “Bem, eu e todo mundo estamos apavorados. É colocar a cabeça para funcionar.” Tirei meus apontamentos. Felizmente, tentara estudar com mais afinco exatamente os pontos em que me sentia mais frágil, mas é que não havia mesmo muito o que se estudar do tema. O fato é que me lembrei, como uma luz vinda do céu, de um eminente professor que tivera no mestrado: Silvio Elia, de História da Linguistica. Eu simplesmente adorava aquela aula. O homem era um linguista filósofo. Ou seria um filósofo linguista? Aparentemente, sua aula era monótona. Mas só aparentemente. Logo nas primeiras semanas eu descobrira o segredo: era só fazer uma pergunta que o homem se levantava, se esquecia daquele caderninho (ele dava aula lendo um tal caderninho e filosofando sobre as frases que lia), ia para o quadro (quadro-negro na época) e dava um show. E eu me transformara em sua aluna favorita, tenho plena consciência disso, pois quando eu entrava em sala, às vezes, um pouco atrasada por conta dos compromissos profissionais, ele sorria com os olhos. Eu pedia desculpas, me sentava, na primeira fila, enquanto muitos de meus colegas, em seus cantos, disfarçadamente corrigiam provas ou liam outras coisas (que desperdício!). Eu abria meu caderno de anotações e ficava esperando a primeira chance de lhe fazer uma pergunta. E... descortinava-se a festa.

De modo geral, as pessoas não gostavam de História da Linguistica, então, ele praticamente ficava a minha disposição.

Pois então... naquele instante de pavor linguístico, em plena prova, me lembrei do caderno com as anotações de aula do Professor Silvio Elia. Claro, estava entre os livros que eu tinha levado para consulta, caso alguma coisa de história da Linguistica caísse na prova. Mal sabia que serviria para muito mais! Estava tudo ali, desde os Vedas, passando pelos primeiros eventos de Fonética na Gramática Comparativa, até os últimos disparos do Transformacionalismo. Na primeira hora, a hora de consulta, fiz um rapidíssimo esquema, com os autores principais que atravessavam os séculos e fixei os pontos principais. . Acho que desceu um santo. Não desceu o próprio Silvio Elia porque ele ainda estava vivo. Dos aspectos históricos ficou mais fácil puxar as teorias sincrônicas e diacrônicas e a redação começou a tomar forma. Silvio Eli serviu como a espinha dorsal da linha dos meus pensamentos.

Escrevi dez páginas de papel almaço (lembram do papel almaço?) e entreguei a prova no último minuto. Nem eu poderia acreditar. Tirei dois dez e um nove, dos três membros da banca (um deles não dava dez para ninguém).

Ufa. Primeira etapa vencida.

No dia seguinte, fui mais tranquila para o sorteio da prova didática. Teríamos 24 horas para preparar uma aula, então, mesmo que o ponto fosse ruim, eu teria tempo para me preparar.

Só de uma coisa eu não sabia. Pensei que seria o mesmo ponto para todos, o que nos deixaria mais ou menos nas mesmas condições de comparação para a nota. Claro que uns seriam, por sorte, beneficiados por saberem mais sobre o tema. Mesmo assim, seria um método melhor de comparação, segundo minha visão. Mas não foi assim. A banca resolveu ir sorteando a esmo para cada pessoa e disse que não faria uma questão sobre cada assunto. Poderíamos simplesmente sortear o ponto e prepararmos a aula em cima de uma parte do tema ou todo ele, como preferíssemos.

Quando fui retirar meu ponto, minha mão tremeu. “Seja o que os deuses quiserem”. Entreguei o papelzinho para os membros da banca. Ponto quatro. Senti uma ligeira exclamação por parte dos colegas (uns de alívio outros de solidariedade). O ponto seria péssimo para qualquer um. Quem, nesse mundo dos meus deuses entendia de Gramática Transformacional? Só mesmo a tal Miriam Lemle, da UFRJ, provavelmente. Todos nós outros apenas a olhavam com cara de que “tem doido para tudo, até para entender de Gramática Transformacional!”

Ai, meus deuses! E caiu para mim! Bem que eu tinha sido avisada... A banca sorriu. Eu não sabia se de pena ou por deixar em vantagem aqueles tais dois concorrentes que todos diziam serem os donos das vagas. Não importa. Guerreira é guerreira. Sorri de volta. Eles não me conheciam. Não lhes daria pistas sobre minhas competências ou incompetências...

Agradeci aos deuses e à vida por um estágio que havia feito com a Miriam Lemle após o meu doutorado. Eu não tinha aprendido o que era a Gramática Transformacional, mas, com certeza, pelo menos, pegara o “jeito” de como falar sobre ela.

Voltei para casa, agradecida às luzes, mesmo que não tenha dado tanta importância a elas quanto acho que deveria, quando as vi. Pelo menos, tinha-me detido mais no tema, por uma semana, por pura “superstição”.

E foi o que me salvou. Dei a aula, tirei oito e passei na vaga do concurso. Fui professora dessa universidade pelos dezoito anos seguintes e lá me realizei profissionalmente de modo pleno e entregue aos mais belos estudos de Psicolinguistica que poderia ter feito apenas lá. Sonho realizado.

Nunca mais desprezei “sinais” desde que pudesse me dar conta deles.

Na semana passada, uma amiga de São Paulo veio passar férias no Rio. Se você leu o conto “Cris”, sabe de quem se trata. Entre os pontos turísticos, é claro que estava esta magnífica igreja, visitada por quase todos os visitantes da cidade, por sua beleza interior, folheada a ouro e, também, por seus rituais gregorianos. Minha amiga é católica e, portanto, essa visita não poderia passar batido.

Foi então que, entrando novamente na nave, depois de tantos e tantos anos (vinte e seis para ser mais precisa), me lembrei daquela mocinha exaurida que ali entrara duas vezes: uma para pedir forças e outra para agradecer.

Nesta terceira vez, apenas agradeci. Agradeci pela vida, por estar ali, por coisas que sei e também por muitas que ainda não sei.

E, claro, para tirar uma foto e agradecer, mais uma vez, àquele momento místico.

Não apenas quatro, mas várias luzes estavam acesas, como que comemorando um belo instante de vida!

sábado, 14 de julho de 2012

QUEBRA-CABEÇA


Na saída do metrô, aquele pisca-pisca ritmado fazia as pessoas pararem, olharem e se decidirem por descer mais rápido ou mais devagar a escadaria do metrô da Kurfürstendamm, a principal avenida de Berlim. Acho que nem eles conseguem pronunciar esse nome com tranquilidade, pois, carinhosamente, é conhecida como Kudam.

Parei ali, pondo a mente para funcionar. Com certeza, aquilo deveria ser um aviso do tráfego metroviário. Só podia ser... mas... como funcionaria? Sentei-me num cantinho da calçada e fiquei matutando. Alguns cidadãos olhavam para ele, conferiam com o relógio de pulso e desciam às pressas.

E eu... olhando. Saí dali encafifada. Não tinha conseguido entender. No dia seguinte, passei por ali, novamente, olhei aquela gracinha de monumento, sem grande expectativa e... eureka! Aquilo era um relógio! Nossa! Como eu não tinha percebido antes? E melhor... como percebia agora? Mas estava claríssimo! Era um relógio super hiper original!!!

Era, definitivamente, um relógio! Aproximei-me para destrinchar o segredo, tentando ler uma placa que ficava abaixo dele, como mostra os dois homens da foto. Em vão: tudo em alemão. Tentei falar com eles para ver se conseguiam me explicar o que significavam as casinhas vermelhas, as casinhas amarelas... Não deu certo. Eles deveriam ser poloneses, suecos, holandeses ou qualquer outro povo de língua inexplicável para mim. Sorrimos os três. Notei que eles também haviam descoberto a “pólvora”, só não sabiam destrinchar como. Tudo indicava que não entendiam alemão também.

Meu ex era colecionador de relógios. Nada mais sedutor do que motiva-lo a deixar suas lojas de trenzinhos e ir visitar minha descoberta. E ficamos ali, matutando, colocando sua cabeça de engenheiro para funcionar. Finalmente conseguimos e tudo pareceu tão simples quanto um relógio comum. Só que muito mais charmoso.

Para completar a façanha, descobri, naquela tarde, que sua miniatura era vendida nas lojas. Trouxemos uma. Pena que foi uma, pois se foi com o divórcio. Mas tudo tem suas vantagens: um dia vou lá ver se ele ainda existe e acabo trazendo um pequeno sósia para me distrair. Para uma mente não consumista, é preciso algo muito especial. Mas a originalidade e a estética acabam com um taurino. Pelo menos com essa taurina.

E acabo, assim, arranjando um motivo a mais (como se precisasse!...) para voltar a lugares de lembranças tão queridas. Se você leu o conto “Quem diria” com certeza me dará razão.



OBS.: Para quem ficou curioso(a) como eu: O pisca-pisca superior, que é redondo, conta os segundos; a primeira linha, com quatro casas vermelhas, conta os minutos – cada casinha se acende a cada minuto transcorrido; a segunda linha conta 5 minutos, ou seja, quando a linha de cima está cheia, e a casa redonda superior completa mais 60 segundos, toda a primeira linha se apaga e se acende uma casinha da segunda linha (pois se referem a quatro minutos + os 60 segundos); a terceira linha conta as horas e a última linha conta 10 minutos em cada casinha. Deste modo, quando a segunda casa da segunda linha se completa (ou seja, marca 10 minutos), esta segunda linha se apaga e se acende uma casinha da última linha. Quando todas as casinhas da última linha se acenderam (4 x 10 = 40 minutos) e todas as casinhas da segunda linha também estiverem acesas (4 x 5 = 20 minutos), todas as luzes das primeira, segunda e quarta linha se apagam e se acende uma casinha da terceira linha, marcando mais uma hora. Assim, para se “ler” que horas são a estratégia é ir, em primeiro lugar, para a terceira linha (para saber as horas inteiras), depois para a quarta linha e ver quantas luzes de 10 minutos estão acesas, depois ir para a segunda linha e somar quantas luzes de 5 minutos estão acesas e, finalmente, ir para a primeira linha e somar os minutos finais. Na marcação do relógio acima, são 2 horas e 49 minutos. Com o tempo você se acostuma e consegue ler tão rápido quanto os apressados alemães que sobem e descem as escadarias do metrô de uma das extremidades da Kudam. Simples, não? (risos)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

BEM-TE-VI



Hoje acordei manhosa, ao som de pássaros e do bem-te-vi.
Há quanto tempo eu não ouvia um bem-te-vi!

Bem-te-vi, bem-te-vi...
Bem me veja mesmo, meu pássaro,
Antes que o mundo me consuma.

Obs.: Imagem de wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Bem-te-vi

domingo, 1 de julho de 2012

SHEIK


Sheik foi um cão que eu nunca tive... aliás, “não tive” para os olhos dos adultos, que nunca puderam vê-lo. Mas, na verdade, desde bem pequena, até os sete anos de idade, Sheik foi meu companheiro para tudo.

Um cão pastor alemão, manto negro, de focinho grande e protetor. Uma fera, que poderia proteger-me de todos os males do mundo.

Brincava com ele em meus sossegos de quintal, correndo para lá e para cá, com nossos folguedos prediletos: pique e bola.

De vez em quando, minha mãe ralhava comigo:

- Menina pára quieta, deixa de falar sozinha com o vento! Sai do quintal!

Nesses momentos, Sheik empertigava-se. Orelhas em pé. Eu entrava em casa com ele colado à minha perna, quase do meu tamanho de tão grande. Chegava a sentir-lhe o cheiro do pelo que eu tratava muito bem - tinha uma escova só para isso, que eu guardava cuidadosamente junto com minha roupas. Ouvia-lhe o arfar das narinas.

Só eu sabia, pois nunca contei a ninguém, mas ele não me largava para nada. Quando ia dormir, ele estava ali, deitado no chão, ao meu lado. Até para tomar banho ele me acompanhava, refestelando-se no canto do banheiro. Não gostava do meu banho quente, enchendo o ar de umidade e vapor. Espirrava. Eu ria baixinho para não chamar a atenção de minha mãe, quando ela estava por perto. Se havia vapor em excesso (sempre adorei banhos ferventes) e ele não resistia, saía meio irritado e me esperava no corredor.

Sheik me defendia dos meus medos. Minha mãe me mandava comprar pão na padaria da esquina, naquela rua escondida do Meier – Raul Barroso -, onde fomos morar, depois de quatro anos na Tijuca, na tranquilidade também escondida da Marechal Trompovsky.

A Raul Barroso ficava ao lado da saída da Unidos do Cabuçu. Aquelas pessoas grandes, falando grosso, sempre me colocavam em estado de alerta. Mas eu estava com Sheik e, se tinha medo, balbuciava:

- Avança, Sheik!

Ele avançava, abrindo caminho para mim... e eu ia e voltava confiante, com meu guarda de confiança.

Um dia, me levaram para o internato. Sheik ao meu lado. Mas o inesperado aconteceu. Ele não entrou. Postou-se no portão, aquele portão enorme, que se fechava atrás de nós. Chamei-o. Não veio. Chamei-o com todas as forças da minha mente. Mas, pela primeira vez, meu fiel amigo não me obedeceu. Quase entrei em pânico. Mas não havia o que fazer. Eu nem podia comentar com nenhum adulto, para que abrissem o portão e eu pudesse convencer meu amigo a me acompanhar. Ninguém acreditaria nas minhas verdades.

À noite, ouvia nitidamente os latidos familiares de meu doce amigo. Estava me chamando e eu não tinha como ir. Eu estava presa lá dentro. Ele estava preso lá fora.

Sofri não sei quanto tempo nessa angústia, ouvindo seus latidos me chamando, principalmente à noite, no silêncio da mata. Ele não podia entrar por quê? Sempre fora onde bem entendesse comigo. O que estava acontecendo? Nunca pude compreender.

Os dias se passaram e Sheik parou de latir.

Eu sabia que ele tinha ido embora... e sabia que era para sempre.

Meu luto silencioso me acompanhou por muito tempo. Não houve folguedo, amiga de colégio ou brinquedo que tivesse podido substituir meu amigo e me proporcionar toda a felicidade que, durante os primeiros anos de infância, esse grande amigo, terno companheiro e cúmplice fiel proporcionou ao meu coração infantil.

Guardo, até hoje, a lembrança de meu parceiro invisível, meu doce e querido Sheik.

E, em sua homenagem, todos os carros que eu tive (e também o atual), foram batizados com seu nome, para representar aquele que foi o grande companheiro de muitas de minhas vivências, nas direções de minha meninice.

sábado, 23 de junho de 2012

CULTURAS IRMÃS?


Não. Definitivamente, não. Portugueses e brasileiros são irmãos de sangue, de cuidados, de admiração.

Mas aspectos culturais diferentes vitais marcam nossas relações.

O modo de pensar, vez por outra, causa até risos de cá e de lá. Fora os malentendidos...

Já tive oportunidade de falar sobre alguns deles. Se você leu o conto Golpe de Mestre, por exemplo, soube de alguns de meus apertos, principalmente na hora de pedir orientação para chegar a algum lugar ou pedir informações diversas. Os brasileiros que lá estiveram contam casos sobre isso. E achamos graça. Culturas.

Hoje me lembrei de uma estada em Lisboa, um passeio descompromissado, em busca de rever lugares de minha predileção.

Eu queria ir à Torre de Belém, visitar aquele cantinho gostoso à beira do Tejo, com a vista majestosa do Mosteiro dos Jerônimos ao fundo. E, claro, comer um pastel de Belém, obrigação de quem a visita.

Estava bem no centro da cidade e queria pegar um transporte coletivo que me deixasse lá. Um pouco desorientada, como é de regra para uma visitante comum como eu, embora estivesse no ponto (paragem) de ônibus (autocarro), não sabia, ao certo, se o coletivo que eu queria passaria por ali. Aproximei-me de um cidadão.

- Queria saber se nesta paragem pára um autocarro para a Torre de Belém.

Tomei todos os cuidados de usar o vocabulário local. Usei até o termo "pára" em vez de "passa por aqui", comum ao falar brasileiro, tentando evitar desentendidos. Afinal, eu já estava mais ou menos escolada em enganos de comunicação. Mesmo assim, esperava por isso, se fosse o caso. Responde-me o cavalheiro:

- Não.

Quando ia fazer a pergunta seguinte (“onde posso achar a paragem correta”), avistei um ônibus vindo em direção ao ponto em que estávamos com um letreiro nítido e em caixa alta em seu frontal: “Torre de Belém”.

Apontei ao gentil cavalheiro o ônibus que se aproximava:

- E este, então, não vai para lá?

- Este pára a duzentos metros.

Até hoje, sinceramente, não sei se o distinto cavalheiro "estava a gozar" com a minha cara ou se acreditava mesmo que só me serviria um ônibus que parasse na porta...

sábado, 16 de junho de 2012

FOTOS QUE FALAM

Há fotos que contam sua própria história. Não se encadeiam. Falam por si. Visitei muitas delas, nesta semana, organizando álbuns, por causa dos contos. Resolvi  escolher dez, por puro capricho, para não postar um álbum inteiro. Não deu para ficar em dez. Consegui separar 40 e acabei elegendo  15. Escolhi essas, quase a esmo. Não resisti.















Obs.: Fotos 6 e 7 tiradas por Natalia Taddei, foto 9 por Silvio Wolters, 10 e 13 por Wilson F. Filho, 11 por fotógrafo profissional (vide assinatura), 12 por Carmen Heller Barros, 14 por Marcos Maia, 15 por Geraldo Cortes. As outras são de minha autoria. 


sábado, 9 de junho de 2012

BEL


Como um sol enviado d’além mar às costas brasileiras, Bel apareceu, um dia, no meu blog de contos, enviando-me um raio de luz em palavras sonoras e iluminadas. Sorriu-me do Minho (Portugal), sem saber que tocava o coração de uma carioca também lusa por parte de pai.

De lá para cá desde não sei quando - pois essas amizades gentis não contam data -, recebo, vez por outra, mails encantadores, em versos de prosa belíssima e colorida. Seu texto é sempre delicioso e belo, mas não há o que faça convencê-la a publicá-los num blog apropriado e à altura de tanto encantamento: tesouro escondido...

Mas Bel é assim, simples, na singeleza de seus traços, com sua tez minhota, de cidade que visitei com os olhos, em minha ida a Valença, sem saber que Bel existia, ainda bem criança. Quem diria...

Agora nos trocamos sentimentos e carinhos, amigas no mundo, unidas por esta maravilhosa máquina moderna.

Alguns meses atrás, enquanto recostava-se ao lume e calor da lareira, eu me derretia no tórrido verão carioca.

Por estes dias, com certeza, ri-se do meu inverno de 20 graus...

Nossas almas caminham juntas, muitas vezes. Tomamos chá com alguma frequência, geralmente, nos jardins de sua aldeia campesina. Aqui, quase não. Ambas preferimos, para nossos encontros, o cantar dos pássaros, longe da fumaça das ruas e ruídos da cidade grande, embora o Rio tenha, também, recantos favoritos de rara beleza. Mas gosto de passear com ela por sítios que vislumbrei quando mais moça, aproveitando o ar minhoto quanto possa, através de seus convites encantadores.

Trocamos receitas como comadres, ela descrevendo as minúcias dos pratos do norte português, tão caseiros aos meus ouvidos dos tempos em que lá estive. Dou-lhe minhas singelas receitas, como a do biscoito de maisena, por saber não ser tão boa cozinheira quanto ela. Qualquer dia desses, mando-lhe a do vinagre aromático (confiada a mim, dos segredos de minha avó). Por certo, gostará.

Ouço, daqui, o ranger de seu portão, quando sai a trabalhar. Acho que ela sente os cheiros de meu pipoqueiro da esquina...

Jogamos conversa fora, trocamos segredos ingênuos.

Um dia, passo lá, de verdade, para tomar um chá... quem sabe... nunca é tão impossível, nesse tão grande mundo pequeno.

Somos assim, de lá e d’aquém mar.

Com carinhos de irmã mais velha, ouço-lhe o coração e, ela, com certeza, toca o meu com seus cuidados.

sábado, 2 de junho de 2012

NÃO ABRO MÃO

Pois é... abro mão de tantas coisas...

Por exemplo, dou um boi para não entrar numa confusão e, ao contrário de muitos, dou uma boiada para SAIR dela, se me puserem dentro.

É... abro mão de tantas coisas que antes eram tão importantes para mim... acho que é a idade... ou, talvez, melhor ainda, experiências de vida.

Antes, eu acharia que era covardia... agora... acho que é sabedoria.

Mas... não abro mão de algo que, principalmente nessa semana, passo a passo se confirma:

Não abro mão de meus amigos.

Eles são ouro, são prata, são cobre, são a combinação de todos os metais nobres e de todas as almas boas juntas num grupo só.

Sou especialmente brindada pela vida por causa disso.

Não abro mão de um único só deles... e eles sabem muito bem identificar se pertencem a essas linhas (sorriso).

Não abro mão, não só porque aparecem quando mais preciso. É também por isso. Mas é, principalmente, porque eles enfeitam e enfeitaram minha vida sempre, qualquer que seja o momento.

São a minha verdadeira família, escolhida por mim ou presenteada pela vida a cada momento, aparecidos em desavisados caminhos.

Não abro mão, porque abriram, sempre, o meu coração para a vida, porque me ensinaram os melhores caminhos da amizade, quer eu me doando a eles, pois sabem que contam comigo sempre, quer recebendo deles as gotas do puro mel da mais preciosa das prendas do mundo: um verdadeiro e puro amor, nascido da escolha, da vida, da luz que banha nossas almas em convívio.

Agradeço a vocês e à vida, por ter o privilégio de tê-los comigo!

sábado, 26 de maio de 2012

AVE, DEUS


Morituri,
no transito desesperado
das ruas
e dos corações descompassados,
Te salutant.

(setembro de 1976)

sábado, 19 de maio de 2012

É BOM



Outro dia li um texto que citava Nelson Mandela: Não há nada como regressar para um lugar que está igual para descobrir o quanto a gente mudou.

Fiquei perambulando com essas palavras na cabeça, quando estava passeando pelo Jardim Japonês nessa breve viagem de descanso a Buenos Aires.

Eu estivera ali, pela primeira vez, em finalzinho de 2004, atrás de um mestre de Reiki que conhecera através de leitura de livros - Frank Arjava Petter, Arjava Sensei - que, aliás, foi o que escolhi para me orientar em minha atual vida profissional, depois de conhecer vários outros mestres.

Passeava pelo jardim e a frase passeava comigo. Ali estava, agora, no início de 2012, depois de pouco mais de 7 anos. O Jardim era o mesmo: bem tratado, silencioso, aconchegante. Tudo igual. Um belíssimo igual.

Senti-me sorrindo em meu passeio, parando aqui e ali, pelas mesmas veredas, tirando fotos parecidas... mas... em ângulos diferentes. O olhar é diferente. A forma de respirar o ar de translucidez e aconchego é diferente. A luz que brilha de fora para dentro, entra diferente.

Quantas pessoas dizem que já aprenderam tudo que tinham de aprender na vida, já viram tudo que tinham de ver e que já sabem de tudo que precisavam saber...

Ali, me senti gostosamente aprendiz. Sessenta e um anos e... aprendiz. Mudei muito nesses sete anos. E espero mudar mais.

Sentei-me na ponte, imitando o mesma posição de há sete anos atrás. Uma “mesma gentileza” fez com que houvesse “outro anjo” para tirar a “mesma foto”.



Mas eu sabia que aquele “invólucro físico” havia mudado muito por dentro. Penso que para melhor.

Por isso, a foto continua revelando um  sorriso "igual", só que, para mim, ao mesmo tempo, secreto e revelador.

Não há nada como regressar para um lugar que está igual para descobrir o quanto a gente mudou.

sábado, 12 de maio de 2012

O GARI E A ROSA


Outro dia, estava falando sobre uniformes e o que representam publicamente. Cumprimentamos a pessoa ou o uniforme? E quem nos responde é a pessoa ou o uniforme? Se você leu o conto “Uniforme” sabe a que me refiro.

Eu não sei o que dá na pessoa que usa o uniforme... talvez investida do sentido do que é o “público” e, colocando-se no lugar do “confiável”, responda ao cumprimento.

Ou será que não?

Lembrei-me, nesta semana, novamente do conto e ele me trouxe outra singela lembrança.

Dia desses, eu estava para atravessar a rua. Coincidiu com a passagem de um gari, a meio fio, varrendo o lixo e o colocando em seu carrinho. Eu, distraída e na expectativa do sinal verde da Barata Ribeiro, rua quase sempre muito movimentada, esqueci meu olhar em seu trabalho. Foi quando nossos olhares se cruzaram. Sorri-lhe. Ele me sorriu de volta. Fiz-lhe um ligeiro aceno com a cabeça, pois estávamos distantes para um cumprimento ao som da voz. Ele me sorriu, buscou algo guardado ao lado da lixeira. Era uma rosa vermelha. Aproximou-se de mim e me deu um delicioso bom-dia acompanhado da flor:

- Estava guardando para dar a alguém como a senhora. Bom dia.

Agradeci-lhe a gentileza, surpresa e sorridente. O sinal abriu e nos despedimos:

- Bom trabalho!

- Bom dia, que Deus a acompanhe.

Deus e a rosa, pensei... e também a lembrança do gentil cavalheiro. Atravessei. A rosa, provavelmente, tinha sido colhida em alguma esquina, um canto perdido nas ruas dessa cidade variadíssima em seus cultos à natureza, provavelmente, para algum "santo". Mas não importava. Um gesto como esse, tão puro e delicado, enfeitiça sempre meu coração, eternamente encantado com essa cidade e seu povo.

Mas outra faceta, indubitavelmente se impôs: não sou religiosa, mas cuidados e respeitos eu tenho. Não acredito em bruxas, mas...

Assim, ainda feliz com o ocorrido, mas respeitando as bruxas em quem “não acredito”, andei até o calçadão, escolhi uma árvore e depositei a rosa delicadamente a seus pés.

Depois, segui com a lembrança do gesto do delicado cavalheiro, satisfeita com as gentilezas que, inesperadamente, esta cidade pode nos oferecer e com a discreta sensação do perfume de uma rosa vermelha enfeitando meu coração.

domingo, 6 de maio de 2012

LOGO ALI



Dizem que "quem corre por gosto não cansa". Cansa. E muito! Talvez até canse mais porque a gente se dedica muito. E, como se dedica, não se dá conta de que precisa parar, até que o alarme toca.

O meu tem tocado desde o começo do ano incessantemente e, então, na primeira brechinha, fugi. Tinha de ser pouco, por enquanto, para um lugar “logo ali”, mas que eu gostasse muito.

Buenos Aires! Minha bússola apontou para lá quase sem que eu percebesse, para onde já fui quatro vezes, sempre em busca de cursos e pouco passeio. Lá conheci meu atual mestre de Reiki, Arjava Sensei, em 2004 e voltei, em 2005, por sua causa. A terceira foi para um curso abortado, que larguei pela metade, com outro mestre de Reiki que prefiro não nomear. Mas voltei no ano passado, outra vez, por Arjava Sensei. Curso tão bom que não deu nem para respirar um pouquinho da cidade. Fiquei devendo.

Então, meu “logo ali” foi para Buenos Aires, essa cidade encantadora para meus olhos e meus sentidos. O ar da cidade, a música, os espaços... a luz... o tango! Ah... o tango... que aguça o meu amor pela dança. Desta vez ainda não deu, mas volto para umas aulas, ah, volto.

Escondi-me lá, por cinco dias, caminhando pelo jardim japonês,



pelo Rosedal (Jardim das Rosas), florido em qualquer época do ano,





pelo Café Tortoni, tradicionalíssimo na cidade,


pelos museus,



pelas livrarias,




pela cidade.














Foi só um “logo ali”. Mas volto, querida cidade, para reverte-te em teus delicados meandros, a gentileza portenha tão contestada por alguns, mas ratificada por mim a cada contato, a cada cavalheirice encontrada em cada passo. Os homens, sabe, ainda estão acostumados a dar passagem às mulheres (!), dão-lhe o lugar, sorriem gentis... as pessoas, não só as que te atendem por turismo, mas os portenhos comuns mesmo, muitas vezes dão bons dias, em vez do habitual buenos dias (ou “buenas”), por pura gentileza de anfitrionato e não porque estejam nas lojas, que, aliás, como você sabe, frequento pouco.

Sentar-se sem pressa em um café, bem à moda europeia, para estender o olhar e esquecer-se da vida, sem que o garçom venha apressado lhe cobrar a mesa...

Caminhar pelas avenidas espaçosas, com seus monumentos portentosos, a cidade limpíssima, bem cuidada, com um metrô (o “Subte”) super competente e viável mesmo na hora do rush... 

Espaços livres para o sonho, o descanso, a contemplação.

Ah, Buenos Aires!

Si... te quiero, te quiero mucho.   Gracias!

sábado, 28 de abril de 2012

O PÓ


De vez em quando, me lembro dos tempos de professora universitária. Tive colegas incríveis, não só de departamento, como de projetos, nos mais variados setores da Universidade.

Em um deles, por conta de um projeto de assistência e prevenção em saúde que envolvia Língua de Sinais para a comunidade de surdos, me aproximei de colegas que trabalhavam nessa área.

E nem tudo é só ralação, embora trabalhássemos muito e, às vezes, até muito tarde. Era na hora do café, nos papos dos intervalos que ouvia histórias... e que histórias! No contexto, então, ficavam muito engraçadas.

Passo uma delas:

Tratava-se de um pesquisador do laboratório de química, ligado ao hospital universitário. O interessante é que ele, ao lado de ser um seriíssimo profissional, era uma pessoa que tinha uma capacidade especial de nos fazer rir de suas histórias.

E foi numa dessas horas de café que tive a oportunidade de ouvir uma de suas aventuras:

Ele precisava trazer, não me lembro de onde, um material de alguma periculosidade, pois era veneno. Para transporte desse material era necessário uma licença especial. Ele tinha tudo nos conformes, mas o detalhe é que o tal material era, para complicar, um pó branco. O problema, portanto, era trazer isso e convencer, caso ele fosse revistado no aeroporto, que aquilo era mesmo um pó limpo, ou seja, nada “cocainado” ou coisa do gênero, mesmo tendo toda aquela papelada de licença de transporte etc. e tal.

Não deu outra. Foi barrado. Ele e o tal pó. O problema é que o pó era mesmo veneno e ele tinha medo de que o policial, com mania de perfeição, quisesse experimentar o negócio!!! Aí, a coisa iria ficar mesmo muito séria! A saída em que ele pensou foi dramatizar a coisa:

- Por favor, não abra, é veneno, e você pode morrer se entrar em contato com isso.

Ao contrário do que esperava a sua santa inocência, esta foi a dica para o policial emperrar de vez e querer abrir o pacote ali mesmo, no peito. Meu colega, receoso de que o policial quisesse experimentar o pó, insistiu enfático:

- Cuidado, é veneno, você pode morrer com isso!.

O policial enfurecido, tomou o pacote e, desajeitado, ao abri-lo, esparramou grande parte do conteúdo, caindo muito em seu braço.

Nosso colega soltou uma exclamação inesperada. É claro que foi por causa do desperdício do tal pó que, se não me engano, era material muito caro e de difícil acesso. Mas a exclamação foi de tal forma surpreendente que o próprio policial assustou-se e perguntou meio apavorado, vendo o pó todo espalhado em seu braço:

- Vou morrer?

Nosso colega, que perde um amigo, mas não perde a piada, restabelecido do susto, respondeu:

- Vai.

E deu um tempo, o suficiente para o policial empalidecer. Só então, vingado do prejuízo que o homem tinha causado a todo o departamento de pesquisa pelo derrame do material, acrescentou, bem calmo:

- Vai, sim...um dia. Aliás, um dia, todos vamos. Mas... para não apressar a sua vez, aconselho que não coloque o pó na boca.

E terminou a história dizendo:

- Ora bolas, o cara tinha nos dado um senhor prejuízo... precisava, pelo menos, levar um sustinho, né não?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

BRASIS - ITAÚNA


Cheguei a Itaúna num calor de rachar. Fui à busca do curso de Florais de Minas, in loco, com direito à visita ao sítio a 10 km da cidade, onde está o laboratório e os jardins das flores. Se você leu o conto “A torre” já sabe um pouquinho da história.

Para chegar à cidade, vindo de avião até Belo Horizonte (num voo de 50 minutos), você precisa pegar um ônibus até a rodoviária (uma hora) e outro para Itaúna (1 hora e 50 minutos). Em suma, leva-se mais tempo a cavalo do que de carro, ops... de ônibus do que de avião.

Nosso país é mesmo maravilhoso e multifacetado. Cada região tem seu carimbo especial e como já andei por aí dando palestras aqui, ali e lá, nos meus idos tempos de academia universitária, sempre me pego colorindo esta aquarela brasileira, em seus vários tons.

Itaúna existe através de sua rua principal que termina (ou começa), é claro, como toda reminiscente cidade do interior, na praça da Igreja, com direito a coreto e cavaleiro.

O Grande Hotel fica na outra ponta, que dá na singela pracinha do mercado, desses com direito a guarda volumes como nossos mercados de antigamente, lembra? O hotel é, segundo me informaram, o mais indicado da cidade. Aliás, bem caro para o que pode oferecer. Mas tudo bem: tendo uma boa cama, um bom chuveiro e a agradabilíssima delicadeza do povo mineiro na gerência e atendimento, tudo fica ótimo.

Para quem saiu de casa às 9 horas da manhã e chegou ao hotel às 17, nada como um bom lanche. O hotel só fornece café da manhã e não tem serviço de quarto. Assim, o jeito era mesmo sair em busca de uma lanchonete. Não vi nenhuma, mas havia dois restaurantes em frente ao hotel, um com um belíssimo cartaz de pizzaria.

Mas... quem disse que os restaurantes estariam abertos às 17 horas? Claro que não! Para quê? Quem, em Itaúna, iria a um restaurante às 17 horas? Ninguenzinho! Não é como aqui, onde você encontra pessoas comendo a essa hora e não sabe definir se ainda estão almoçando ou apressando o jantar. Nada disso. Enganei o estômago com algumas frutas que levei para o quarto (santo mercadinho!) e saí para a aventura.

Subir a rua principal em direção à praça da Igreja é obrigação de qualquer visitante. Uma boa opção, aliás, a única, para esperar a horinha da pizza.

A Rua Silva Jardim é reta e inclinada como em várias cidades mineiras e se escorrega entre casas antigas,


lojas modernas,


meninos brincando em cima dos muros


e terrenos baldios(!).


Busquei uma lan house para um acesso emergencial. Cadê? Não vi nenhuma, pelo menos por ali. As pessoas solícitas e sorridentes (sempre!) me indicaram uma loja de fotos, beirando a praça principal. Achei a loja e entrei, pronta para me informar sobre tempo de uso e taxa. Depois que o taxista me cobrou um absurdo desdobrado para me levar por dois milimétricos quarteirões que compõem a distância entre a rodoviária e o hotel (lá os taxis não tem taxímetro), tudo se pode esperar. Ao entrar, notei que só havia dois computadores a serviço das atendentes e, para derrubar minha primeira má impressão e meu “pré-conceito”, o uso da máquina é uma gentileza que a loja oferece ao visitante.

O acesso é leeento, mas possível e consegui fazer o que precisava, não sem a ajuda das duas anfitriãs, super delicadas. Natasha e Camila foram tão gentis que não resisti a uma fotinha:


De lá para o mercado e do mercado para a pizza, pois o comércio fecha mesmo às 18, à exceção do mercado e da farmácia, que fecham às 21 horas. Então, não há nada mais a fazer. Só no dia seguinte, quando o ônibus da empresa dos Florais de Minas nos buscou no hotel e deu voltas pela cidade é que descobri que a parte nova e mais atualizada do comércio se esconde por trás da Igreja, nas ruas vizinhas. Meus olhos observadores, então, puderam vislumbrar lojas “estilosas”, um pequeno shopping e a parte nova se estendendo lá por trás. Tudo refletindo uma cidade que esconde suas ricas residências e seu status social discretamente, por trás da Igreja e por trás dos muros altos que velam por residências portentosas.

À noite, o ponto de encontro dos alunos do curso passou a ser uma pizzaria, considerada a melhor pizzaria de Itaúna, que fica numa outra rua da cidade. O interessante é que nunca estava lotada. Parece que é mais habitada por estudantes universitários, durante dois dos dias da semana, os dias de rodízio (quarta e quinta). Fomos no sábado, para a noite de despedida, e quase não havia ninguém: os mineiros são mesmo caseiros, gostam de se visitarem uns aos outros. Assim, a pizzaria fecha em torno das 23horas. Mas foi o cantinho de encerramento de nossas alegres jornadas cotidianas


Com o correr dos dias, fui, assim, descobrindo a cidade:

As ruas estão longe de ser planas e muitas são bem estreitas. Assim, quem não está motorizado não pode depender de ônibus, pois o acesso é restrito. Não há taxis dando sopa, então, se você é visitante, vai ter mesmo de fortalecer as pernas.

As pessoas se cumprimentam: dão-se bons-dias, boas-tardes e boas-noites, quer você as conheça ou não. E são todos muito gentis.

O galo canta exatamente às 5 da manhã. Pode-se acertar o relógio por ele. Aliás, os galos. E foram meus despertadores naturais todos os dias...

Fora o encantamento do curso, como você pode ver no conto “A torre”, a cidade, em si, não exibe “atrativos”.

Itaúna é assim. Basta a si mesma. Não precisa de turistas.

E nem do estresse das cidades grandes...

Informações: A população de Itaúna chega a 275 000 habitantes, com uma área total aproximada de 3 812,86 quilômetros quadrados. A economia destaca os setores de mineração, siderurgia, usinagem, têxtil. Itaúna recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, em 1975, o título de Cidade Educativa do Mundo, pela alta qualidade do ensino municipal e envolvimento da sociedade civil para a melhora dos índices de educação. Itaúna é a sede da Universidade de Itaúna com campi em Itaúna, Almenara e Lagoa da Prata. Aproximadamente 8 000 alunos estudam diversos cursos de graduação e de pós-graduação. (referência: Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Ita%C3%BAna)