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domingo, 11 de novembro de 2012

METÁFORAS (3)




Tac-tic, tac-tic, tac-tic,
tac-tic, tac-tic, tac-tic...
por que ninguém ouve assim?
Soa igualzinho...

           

sábado, 28 de julho de 2012

NO MEIO



Ontem estava voltando de uma celestial sessão de acupuntura. Celestial é o termo mais do que adequado: saio de lá pisando nas nuvens.

Decidi ir a pé para o metrô, que fica, digamos... a uns 500 metros. A caminhada promete um passeio descontraído pelas ruas descompromissadas de Humaitá e Botafogo.

E eu estava atrás de uma palmilha em uma loja perto da Cobal, que Patrícia, amiga que já apareceu em outros contos – “Eu sabia”, “Sessenta”, “Silvio” - tinha me indicado. Eu já assuntara a região, sem muito sucesso. Mas estava com pressa naquele dia. Quem sabe, com mais calma, eu achasse a tal lojinha.

Não achei. Mas já que estava por ali, fiz olhos agudos em volta e vi uma loja de cuidados com os pés – podologia.

Atravessei a rua descansada. Afinal, depois de uma sessão de acupuntura celestial, não dava mesmo para quebrar o encanto com uma agitação desnecessária. Meu próximo compromisso seria dali a duas horas. Tinha tempo para vadiagem.

Entrei na loja olhando as vitrines e ouvi aquele chamado inconfundível:

- Eulalia?

Virei-me, pensando: “ex-aluna, aluna, cliente, amiga”?...

Era uma amiga antiga, que não via há vários anos. Estava tão diferente que teve de identificar-se para que eu a reconhecesse. Não sei se fiquei feliz em vê-la, confesso, pois há três anos, só falava com ela nos natais e aniversários. Infelizmente, ela se transformara num poço de lamentações. Dessas que, por mais que você tente ajudar, conversar, aconselhar como “irmã mais velha” não tem jeito. Lamenta até pela água que bebe. Mas o encontro pessoal podia ser diferente. Assim, apostei na vida e a abracei carinhosamente:

- Nossa, quanto tempo! Como vai? E aquelas crianças maravilhosas?

Ela tem dois filhos que, quando vi, da última vez, só poderiam ser comparados a dois príncipes saudáveis e deliciosos de se ver.

- Vão bem. Eu é que estou com uma alergia de doido. Imagine, minha casa está em obras há dois meses, uma poeirada só.

Pronto... Começou! Tentei desconversar:

- É assim mesmo, obra é fogo. E aqueles príncipes, como vão?

- Vão bem. Hoje vim ver meus calos, enquanto o (nome do marido) fica com eles em casa. Sabe, estou de férias, ou melhor, estamos em greve. As férias oficiais vão acabar e eu não faço greve de jeito nenhum, pois acho um absurdo...

Bem, eu vou poupar você de ouvir o resto, mas era uma lamentação só. Fechei meus ouvidos para pensar depressa em como sair dali sem ser indelicada:

- Não vamos falar em greves, querida, você sabe que fui professora por 30 anos, sei bem o que é isso. Os meninos, como vão?

-Vão bem. Mas eu não vou entrar nessa de greve não, porque...

Olhei o relógio. Na verdade, acho que estava olhando para o relógio do tempo psicológico. Para ela, ele havia parado. Os filhos crescendo, ela parada; os anos passando, ela parada.

No meio de tanta vida para viver, ela parada.

No meio de uma manhã de sonhos para mim, eu, ali, parada, vendo aquilo...

No meio de tanta piração, os meninos, como iriam? Não perguntei mais. Despedi-me, às pressas, dizendo das inconstâncias da vida e também de minhas urgências.

No meio de tanta loucura, eu precisava ir... e bem depressa. “O que não tem remédio, remediado está.”

No meio desse imprevisto, eu tinha perdido a sensação de céu e nuvens fofas abaixo dos meus pés! Cadê minha sessão de acupuntura!? Ela não tinha o direito de fazer isso comigo! Eu não tinha o direito de deixar que ela fizesse isso comigo...

Saí meio tonta. Uma sensação esquisita.

No meio de uma manhã promissora, uma nhaca, argh... atravessando meu corpo.

Um banho de sal grosso resolveria? Caramba... cruzes!!! Ninguém merece!

Tem gente que adora ser assim! Mas precisa arrastar os outros junto? Continuei incomodada pela rua, a caminho do metrô. O dia estava lindo, mas a sensação esquisita me acompanhava. A Voluntários da Pátria é uma rua comprida. Eu tinha entrado nela pela Humaitá e teria de andar até quase o fim, para alcançar o metrô. Melhor ir para casa, tomar um banho e ver no que dá... estava incomodada, de verdade. Essas coisas acontecem com todos nós, desprevenidamente. Mas sempre tem um jeito de sair. Contra o dissabor pela vida, só mesmo muito amor por ela. E é o que eu tenho. Mas estava incomodada. Pensava, sinceramente, num banho.

No meio de tanta sensação agoniada, foi que ouvi um som de água. Um chafariz.

Uma chafariz!!! Em plena Voluntários! Nas minhas pressas, nunca havia notado. Tenho uma câmera sempre engatilhada. Tirei da bolsa, não resisti.

Imediatamente, a Voluntários se desvendou para mim. Atrás desse encantamento repentino, outros recantos dessa rua movimentada se desvelaram para mim. Virou festa, como um chão para aquele céu azul anil. Que dia lindo, lindo, lindo!!!







No meio dessa rua movimentada, sob este maravilhoso céu invernal me pegando de surpresa, meus olhos me brindaram com meu banho de sal grosso!

Agradeci a minha amiga chata por ter sido, ainda que involuntariamente, o botão despertador da beleza descompromissada dessa rua de passagem, em pleno bairro pouco festejado do Rio de Janeiro. Talvez eu nem tivesse percebido, se não estivesse tão ansiosa por uma limpeza de alma. Tem males que vem para o bem. Quem diria...

Fui caminhando para o metrô, afofando novamente meus pés sobre as nuvens, felizinha, felizinha... nessa maravilhosa cidade do meu coração.

No meio do caminho tinha mesmo uma pedra... mas dela brotou a água que inundou e banhou essa alma carioca.

sábado, 26 de maio de 2012

AVE, DEUS


Morituri,
no transito desesperado
das ruas
e dos corações descompassados,
Te salutant.

(setembro de 1976)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

FEITIÇO


É carnaval.

Mas, na verdade, no Rio, já é carnaval há muito tempo, tão logo acabou o Reveillon. Os tamborins precisam se aquecer, não precisam? Pois então...

No meu canto sossegado de Copacabana (isso existe? Sim, existe) dou asas ao amor que tenho por essa cidade.

Foi pensando assim que fiz minha caminhada na semana passada e, em duas horas e meia, consegui viver com a diversidade “clássica” de um breve passeio por essa cidade. Duas horas e meia, do Leme ao por-do-sol no Arpoador, uma distância de uns cinco quilômetros e o resumo da multifacetada festa de uma descompromissada tarde num domingo de verão carioca.

Basta ter uma câmera nas mãos - e foi o que fiz – para registrar alguns sons e imagens contrastantes, numa distância não maior do que a de breves passos aqui e ali... logo adiante...

O principal da festa já se anunciava tão logo cheguei à altura da praia de Copacabana. A Agremiação Alegria da Zona Sul já fazia seu público ensaio carnavalesco, dando água na boca aos turistas. Um breve prelúdio do que estaria por vir:

Os primeiros passos da porta-bandeira com seu mestre sala, o passista...


Japoneses aos montes tirando fotos e fazendo filmes. E americanos, franceses, brasileiros de várias regiões em seus sotaques tão distintos do norte ao sul... isso pude ver, num breve momento para registrar fotos para este conto. Pena que não consegui blogar os filmes para que o som pudesse também ser ouvido.

Uns passos adiante, o barulho do mar, o colorido das cangas... a música andina:


Mais dois passos, perto do final da praia, o silencioso apelo da conservação de nossas riquezas naturais.



Ao fundo, amantes da natureza curtiam o mar das mais variadas formas, enquanto barcos aguardavam, com suas redes, os pescadores da madrugada que se aproximava.


E os bicleteiros devolviam as bicicletas alugadas, uma iniciativa maravilhosa que nos permite não ter de guardar mais esse “móvel” dentro de apartamentos.


E enquanto o final de domingo seguia manso pelas ruas vizinhas...


...e a orquídea sustentava sua beleza singela numa árvore perdida,


a praia de Ipanema se preparava para mais um de seus grandiosos visuais do entardecer.


A praia e a pedra do Arpoador enfeitavam-se com a platéia que se acomodava para ver, mais uma vez, o maravilhoso espetáculo do astro-rei...


... que não se fez de rogado e se recolheu majestoso e preguiçoso, abençoando seus filhos daqui e de além, sem distinções, roubando os já tão conhecidos aplausos em seu último suspiro do dia.


Um olhar em volta foi suficiente para registrar a quantidade de expectadores desse encantado momento carioca. Por trás, a lua se mostrava para o raro, mas cotidiano encontro dos dois amantes – lua e sol - que apenas neste rápido momento sempre se vislumbram face a face: “Feitiço de Áquila”.


No mais, a promessa de uma belíssima e fresca noite de verão, sob o testemunho do Pão-de-Açúcar ao fundo.


Tão logo se desce das pedras, ouve-se o músico que vai ali para enfeitar o entardecer de Ipanema. É comum vê-lo principalmente às terças, sextas e finais de semana. Sua música suave e branda, doce e calma, contrasta com a tarde abusiva de bulício. As cores da noite enfeitam o céu e o som de seu doce instrumento enche o ar.


Depois é ir voltando para casa e encontrar, no colorido da noite, a calma do calçadão há duas horas freneticamente carnavalesco.


O pipoqueiro...


...a gari, cuidando da limpeza da praia para os banhistas do dia seguinte...


...quiosques ao som de música popular brasileira...


... artesanato nas calçadas...


... cariocas aproveitando os últimos suspiros do domingo.


Em duas horas e meia, vive-se um dia.

E voltei para casa com a visão multifacetada desse domingo. O coração amante dessa cidade ficou em festa, mais uma vez.

Mas, não sei por que, ao mesmo tempo que uma profunda gratidão pela vida me invadia como uma luz interior, uma imagem do dia se destacou das demais: a da lua e do sol, desejosos de se encontrarem no vislumbrante espetáculo do entardecer.

O sol, sob o olhar do Cristo, a lua, sob o olhar do Pão-de-Açúcar, em distâncias e momentos que não podem vencer, desfazer, eternizar. Ambos, ansiosos e impotentes, como a Paz, tão ardentemente desejada por nós, que não consegue aplacar a angústia das guerras.

Era isso. O desejo de um verdadeiro, definitivo e vitorioso encontro da verdadeira Paz com a guerra. A visão desses dois astros que jamais se encontram e jamais se tocam. Uma paz que buscamos para o cotidiano pessoal, para as nossas relações humanas, para nossas culturas, para nossos povos, para a humanidade.

Segui meus passos, lentamente, guardando, no entanto, a esperança de que, um dia, quem sabe, esse feitiço se desfaça.


Obs.: Feitiço de Áquila - É a história de um casal que é vitima da maldição de um Bispo de Áquila (uma cidade medieval famosa por sua prisão). Eles estão sempre juntos, mas não podem concretizar seu amor porque, durante o dia, ela se transforma em um falcão e, durante a noite, ele se transforma em um lobo. Os únicos momentos em que se vêem, sem conseguirem se tocar é durante poucos instantes no alvorecer ou no crepúsculo.