Contos verdadeiros, talvez enfeitados pelo meu amor pela vida. Agradeço a motivação insistente de amigos e amigas, sem a qual eles jamais teriam saído do meu computador.
sábado, 28 de janeiro de 2012
VARIG
Amo a VARIG. Hoje acordei pensando nela.
Me lembrei, também, da história de um famoso político. Diziam que ele tinha uma memória prodigiosa e conseguia se lembrar dos nomes de quase todo mundo que encontrava. Contam que, um dia, ele se encontrou com um eleitor:
- Oi Fulano, como vai? E a Senhora Dona X, sua mãe?
O eleitor muito sério:
- Ora, não se lembra? Eu lhe disse que ela morreu. E já tem mais de um ano!
O tal político não perdeu a pose:
- Morreu para você, filho ingrato. Para mim, estará sempre viva em meu coração!
Pois é. Amo a VARIG, em cada milímetro do meu cérebro e do meu coração. Quem a conheceu e conviveu com ela sabe: a VARIG não era apenas uma empresa aérea... ela estava encarnada em cada funcionário. Estar na VARIG era praticamente, voar em casa. O sorriso da VARIG era diferente, porque vinha de dentro para fora, da alma para o coração, do coração para o gesto.
Acho que ficaria umas semanas só contando histórias sobre a VARIG... e algumas delas pareceriam contos irreais. Mas é que, muitas vezes, a verdade parece fábula mesmo...
Acordei pensando em viajar novamente. Foi aí que me deu aquela saudade da VARIG. É que os comissários de bordo, por exemplo, embora gentis, solícitos e simpáticos não conseguem ter o jogo de cintura tão conhecido da companhia aérea do meu coração.
Lembro-me, por exemplo, de um de meus últimos vôos no ano passado: serviram uma refeição e, como não tenho o hábito de comer carne, não me encaixei na única opção de alimentação: massa com carne. Não tinha nem como separar uma coisa da outra - todo o molho era de carne. Agradeci e apenas perguntei:
- Há alguma opção possível para quem não come carne?
- Lamentamos, não.
Bem, eram algumas boas horas de vôo. Mas ninguém morre se não comer nada, mesmo sendo vôo internacional. Pedi apenas algo para beber e a sobremesa que, diga-se de passagem, não era lá essas coisas. Não encostei no prato e me preparei para uma leitura, melhor maneira de passar o tempo, em vôos diurnos, a meu ver.
Passados uns vinte minutos, uma outra comissária apareceu “do nada” com uma bandejinha improvisada e, sorrindo, me ofereceu:
- Foi o melhor que pude conseguir. Espero que esteja do seu agrado.
O “espero que esteja do seu agrado” era simplesmente um improviso muito bem arranjadinho: um pãozinho com queijo, embrulhadinho, ao centro; um saladinha de frutas, no canto esquerdo, manteiga e geléia, no cantinho direito. Melhor que isso, só se tivesse uma florzinha. Não resisti. Olhei-a bem no fundo dos olhos e sussurrei a pergunta:
- Você foi da VARIG não foi?
Ela sorriu, acenou com a cabeça. Não foi preciso dizer mais nada.
Nas minhas conjecturas, fico imaginando que, do mesmo modo que eu sinto falta do “sabor VARIG de viajar”, os antigos funcionários, quem sabe, também sintam falta do “sabor VARIG de trabalhar”. É claro que, infelizmente, pelo andar da carruagem, essas gentilezas, essa forma cúmplice de mútuo bem estar, se perdeu ou se perderá, diluído no tempo, pela forma objetiva, prática e impessoal que as outras companhias apresentam. Não que não sejam gentis, não que não sejam competentes, agradáveis, prestativos. Quase todas são, com o que se supõe ser o devido treinamento adequado. Mas sinto isso como treinamento, não como uma forma de fazer parte de uma família, o que faz, do trabalho, uma forma boa de viver.
Por que digo isso? Por que fui professora de muitos funcionários da VARIG. Aliás, mais do que eu poderia imaginar. Quantas e quantas vezes, via alunos e alunas entrando em minha sala de aula ainda uniformizados, muitas vezes atrasados:
- Desculpe, professora, acabei de chegar do vôo.
Uniforme, malinha de viagem e livros, tudo num volume humano só. Cansados, mas... felizes. Tive algumas oportunidades de conversar com eles:
- Escolheu Letras por quê? Quer mudar de profissão? A VARIG é um degrau até a sua graduação?
- Não, professora, estou cuidando de meu futuro. Quero subir na empresa. O objetivo final é conseguir as escalas dos vôos internacionais.
- Você gosta tanto assim de viajar?
- Gosto, mas, acima de tudo, trabalhar na VARIG é o que conta. Você não imagina o que é trabalhar lá.
- E como você faz para conseguir estudar com tantos vôos?
- Ué, você mesmo vê. A gente se vira!
Não ouvi isso de um ou dois alunos, mas de vários. E, vezes sem conta, ouvi o quanto eles gostavam da empresa, do que era ser de lá. Fora alunos, tenho duas amigas que foram funcionárias da VARIG. Uma saiu porque se aposentou, outra porque a VARIG acabou.
Deduzi que este amor pela empresa só poderia ter, como conseqüência, esse tratamento tão extraordinário aos clientes. Um funcionário excepcionalmente satisfeito, só poderia nos tratar tão bem quanto visitas em sua própria casa. Mas é que tinha mais: na verdade, eles sentiam como se a empresa fosse deles e não eles da empresa. Faz toda diferença...
Gostaria de contar uma passagem em especial, a da minha volta de Portugal, trazendo meu pai a tiracolo, para morar no Brasil. Se você leu o conto “Golpe de mestre” sabe a que aperto me refiro: meu pai, mal convalescente, precisando enfrentar uma viagem tão longa...
Na verdade, antes mesmo de embarcar para Portugal, eu já havia levantado a hipótese de traze-lo. Assim, desde aqui, já tinha me dirigido à VARIG para perguntar que tipo de apoio poderia ter deles. E já sabia: eles dariam todo o apoio, desde que ele estivesse em condições de viajar e com o aval escrito de um médico responsável.
Assim, uma vez em Portugal e tendo recebido todos os cuidados necessários durante dez dias, o médico disse que ele estaria, sim, pronto para enfrentar a viagem, desde que seguisse todas as recomendações tão logo chegasse aqui. Ok. Ao comprar as passagens e com a declaração do médico nas mãos, pedi a ajuda para o apoio necessário. O que ouvi, foi o seguinte:
- Estamos prontos para prestar toda a ajuda necessária, desde que ele atravesse a Polícia Federal em pé e sozinho, ou seja, sem a nossa ajuda. Não podemos interferir nesta etapa, não com apenas esta documentação.
Em outros termos, para ser considerado um passageiro doente, a burocracia do aeroporto e dos vôos era tamanha, que era mais fácil considera-lo um passageiro comum, isto é, desde que o médico assim achasse conveniente.
Meu pai era, antes de tudo, um osso duro de roer. Desses portugueses de antigamente, que estão doentíssimos agora e, de repente, não se sabe como, estão de pé. Pois é. Na véspera, ainda fui à VARIG. Me encaminharam para uma salinha para que eu explicasse as condições em que eu achava que meu pai se encontrava. Disse-lhes que estava bem, mas que seria custoso, por exemplo, movimentar-se muito, levantar-se, enfim, exigir esforços mais do que o mínimo necessário. Fui encaminhada para outra sala e uma jovem senhora me aconselhou, então, que alguns cuidados fossem tomados: enfaixar as pernas, para evitar que inchassem, se o médico achasse aconselhável. E, por via das dúvidas, quem sabe, que ele usasse fraldas, pois não precisaria levantar-se mais do que desejaria, se fosse o caso. Ainda me perguntou que tipo de alimentação poderia ingerir. Todos esses cuidados jamais seriam pensados por mim. Detalhes desse tipo me foram solicitados. E, diga-se de passagem: não estávamos voando pela primeira classe... era pela econômica mesmo...
Preparei-me, enfim, para a novela “aeroporto”. Pensei com meus botões: a gente passa pela Polícia Federal, eu procuro o balcão da VARIG e, lá na área internacional, a gente vê que tipo de conforto poderemos conseguir até o vôo.
Chegamos ao aeroporto e, no check in, a primeira identificação:
- Sr. Joaquim Pereira Vianna, seja bem-vindo ao nosso vôo. Temos anotado, aqui, um atendimento prioritário. Faremos tudo para que tenha uma boa viagem. Assim que passar pela Polícia Federal, estaremos atentos a suas necessidades.
E qual não foi a minha surpresa: tão logo passamos pela Polícia Federal, quase tropeçamos naquele tão conhecido uniforme, ostentando o crachá da VARIG. O jovem funcionário estava ali, a postos, com uma cadeira de rodas e aquele sorriso acolhedor:
- Daqui por diante, seu conforto está sob nossa responsabilidade.
Estávamos quase na hora do vôo, o que significou pouquíssima espera. Logo meu pai foi levado pelo gentil rapaz para que fosse acomodado antes de todos os outros passageiros, com calma, conforto e segurança e, principalmente, sem atropelos. Logo depois eu fui chamada, pois meu lugar era ao seu lado. Assim, fomos os primeiros a embarcar, meu pai à janela e eu ao seu lado. Antes do embarque dos demais, uma comissária de bordo se apresentou:
- Estarei atenta a este jovem senhor, disse sorridente. Chame-me sempre que achar necessário.
O “jovem senhor” tinha apenas oitenta e dois anos... delicadeza que não se consegue com treinamento. É natural mesmo...
O vôo era diurno e não preciso dizer que meu pai foi servido sempre em primeiro lugar e, volta e meia, a tal comissária sorridente e acolhedora estava ali, com alguma coisa, um pouquinho de água, uma toalhinha úmida para o rosto por causa do ar condicionado:
- Não vamos querer nenhum sinal de desidratação não é mesmo? É melhor beber sempre um pouquinho de cada vez, para o senhor não se sentir desconfortável, afinal como não vai se levantar, mesmo com fralda, vamos bebendo aos pouquinhos...
Enfim, cuidados aos detalhes e de tal forma que, a certa altura, meu pai comentou:
- Eu estou achando que esta moça está interessada em mim...
Enfim, chegamos, depois das longas horas de vôo, que separam o Porto do Rio de Janeiro. Assim que o avião pousou, a mesma comissária se aproximou:
- Vocês tem alguém esperando no aeroporto?
- Sim, meu marido.
Naquela época, eu ainda era casada.
- Ele está motorizado?
- Sim.
- Então, por favor, de-me o passaporte de seu pai, o nome de seu marido e pode desembarcar. Cuide das malas e de sua passagem pela migração. Nós cuidamos do resto.
Agradeci muito e só tinha como resposta, aquele olhar gentil, prestativo, cúmplice:
- Ele foi um amor, não deu trabalho nenhum. Fique tranqüila.
Saí do avião pensando em encontrar meu pai ao lado de meu ex. Mas não. Não sei o que a VARIG fez, mas, quando vi meu pai, ele já estava dentro do carro, sentado no banco do carona, que já estava devidamente forrado com plástico. Um jovem mantinha a porta aberta, ao lado de uma cadeira de rodas e conversava um pouco com ele, como se o estivesse distraindo.
Quando chegamos, ele se dirigiu a nós e disse:
- Bem, está entregue, espero que tenham feito uma boa viagem. A VARIG agradece a preferência!
Preferência? Agradecer a preferência? Eu é que deveria agradecer à VARIG o motivo de minha eterna adoração por ela...
E isso foi só um dos fatos...
A tal da comissária me encontrou quase um ano depois, com meu pai já falecido... e esse encontro vale mesmo outra história, que conto semana que vem.
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sábado, 21 de janeiro de 2012
O ELEVADOR
Uma vez fui salva brilhantemente de ser trucidada por duas mulheres, em pleno recinto público. Até hoje, sou grata a um outro homem de terno, dos muitos que já me apareceram de repente, para me tirarem de um aperto. Deve ser coisa daquele tal anjo que aparece de vez em quando para me salvar.
Este foi um caso de língua solta. É que, às vezes, a língua nos trai antes que possamos ter tempo para pensar. Não sei como acontece, mas parece que ela se adianta ao nosso cérebro!
Muitíssimo raramente isso acontece comigo, mas, naquele dia ou eu estava muito distraída, ou me traí mesmo, sem essa ou mais aquela.
Estava num desses elevadores comerciais em que cabem mil e trocentas pessoas de uma vez só. E estava razoavelmente cheio. Duas quase senhoras de aparência super tradicional traçavam comentários familiares e de repente, uma delas disse:
- É, você sabe, mãe, só tem uma!
Foi aí que a minha língua sobrou na minha boca e, antes que eu me desse conta, sussurei:
- Graças a Deus.
Falei baixinho, para mim mesma, lembrando, certamente, do trabalhão que a minha me dera, principalmente nos últimos anos de vida. Eu não agüentaria passar pelo mesmo aperto mais de uma vez, mesmo sendo mãe. Pensei que tinha falado bem baixinho e, na verdade, quase involuntariamente. Meu subconsciente, com certeza, era o responsável pela traição. Mas... num cubículo como o de um elevador comercial, não foi baixo o suficiente para evitar que todos ouvissem.
As duas mulheres queriam me matar. Felizmente, só com os olhos. Mesmo assim, eu me dei conta da gafe e não sabia o que fazer.
Foi quando ouvi, em alto e bom som, numa voz conciliadora e cúmplice, vinda do homem de terno a meu lado:
- Tem razão, dose dupla, ninguém agüenta.
Todos riram, menos as duas, evidentemente. Mas o constrangimento se desfez.
Não podemos andar com esparadrapo no inconsciente, mas, é claro, coisas desse tipo, tão pessoais, não devem acontecer em público. Mesmo assim, felizmente, tenho esse tal anjo protetor. Ele me salva de cada uma...
sábado, 14 de janeiro de 2012
SENTA, QUE LÁ VEM HISTÓRIA
Facebook. Facebook e aquele meu anjo que atende os meus pedidos aventureiros. Desta vez eu queria que me aparecesse um interlocutor inglês. Estou treinando meu péssimo inglês. Quero coloca-lo num nível de conforto. Assim, me decidi por aulas particulares com meu queridíssimo atual mestre, já que curso para mim não adianta. Patrícia, exímia professora da Cultura Inglesa e, mais tarde, diretora acadêmica da mesma, já tinha me desiludido:
- Curso para você não adianta, amiga. É inglês típico de acadêmico esse que você tem: leitura, certa compreensão e complexo de cdf para falar. Não tem curso para esse tipo de aprendiz aqui no Brasil.
Assim, decidi mesmo pelas aulas particulares. Mas faltava um “sal”. Aquele "sal" que estimula, que empurra, que aguça a curiosidade, o diálogo constante.
Nunca liguei para televisão a cabo. Quase não vejo TV... mas acabei contratando, só para grudar na BBC. Está funcionando, mas... e o “sal?”
Pois é aí que entra o anjo. O anjo e um inglês britânico que me achou não sei como, no Face. Me mandou uma gentil mensagem e começamos a trocar frases e expressões verbais. Sopa no mel.
O homem regulava com a minha idade, era o que me dizia. Só que começou a parecer apaixonado demais para o meu gosto e também para a idade dele. Romântico demais da conta, coisa assim, que não dá muito para acreditar. Mais para o lado do esquisito. Vai daqui, vai dali, ele pede para ouvir a minha voz.
Medo. Medo de dar o número do celular e medo de falar com alguém em inglês, só ouvindo a voz e tendo de me virar. Seria um exercício e tanto! Um desafio. Não tive idéia de comprar um chip só para isso. Hoje em dia é tão barato... Mas aprendi com a experiência. Da próxima vez eu faço isso. Enfim, depois de muito titubear, dei o número.
Ligou. Consegui falar! Consegui entender e responder, ele muito paciente, falando devagar. Depois daí, ele me ligou mais umas vezes. Muito gentil.
Fiquei na dúvida, peguei o número do telefone. Conferi o prefixo: Inglaterra. Mas o prefixo da cidade não conferia. Por via das dúvidas, mandei um mail para uma amiga muito querida que mora lá. Queria saber se aquilo era estranho ou eu é que estava pondo minhocas na cabeça. Ela disse para eu não me preocupar, pelo menos com o número. O número era inglês e os prefixos nem sempre coincidiam com os prefixos das cidades.
Tá.
Mas continuei com o pé atrás. Muito romântico demais. Desculpe o preconceito, mas homem pede, pelo menos, fotos. Quer saber se você tem filhos, quer saber mais da sua vida. Não cai de amores só pelo sorriso da foto do Face. Mas fui levando, afinal, o exercício de inglês estava ótimo... o “sal” pedido ao anjo!
Fim de ano. O gentil inglês pede meu endereço para mandar uma lembrancinha de virada do ano. Pode ser muito gentil, mas meu endereço não dou não. Fui delicada mas direta:
- Não te conheço senão por aqui. Não posso dar meu endereço. Podemos continuar conversando, aceito seus votos de feliz ano novo.
- Faço questão de enviar um presentinho.
Fui ao correio disposta a abrir uma caixa postal paralela. Nem pensar. Todas ocupadas, trinta pessoas na fila de espera. Custei a responder e ele, de lá, insistindo:
- Por favor, querida, estou indo a trabalho para o México, quero postar antes de partir.
Então, tá, vai... sapequei o endereço de minha caixa postal e seja o que o anjo quiser.
Ele agradeceu muitíssimo e a partir daí vivi setenta e duas horas de adrenalina para charlatão nenhum botar defeito. Se você leu meu conto “Golpe de Mestre”, se prepare, que foi parecido. Mas o anjo me põe, o anjo me tira...
A lembrancinha era composta de um pacote com 2 laptops da HP, 2 Iphones, 4 perfumes, um cordão e um anel de ouro, uma rosa e fotos pessoais. Ah, e uma soma de dinheiro escondido dentro de um dos laptops que daria para comprar um bom carrinho. Assim, de um soco só.
Para uma mulher burra, um senhor presente. Mas, desculpe a modéstia, não me encaixo. Ou o cara era totalmente maluco de pedra, o que seria o suficiente para eu cair fora, ou ali tinha... ah... tinha. Até porque nem maluco rasga assim dinheiro de graça. Meu pisca-alerta ligou. De qualquer forma, não era presente para se receber, mesmo que, em última hipótese, ainda houvesse algum maluco no mundo que fizesse isso. Respondi imediatamente:
- Não me mande isso. Pensei que seria um souvenir de Reveillon, alguma coisinha inglesa da virada de ano. Nem pensar.
- Já mandei querida, não se preocupe.
Não me preocupe? Claro que passei a ficar preocupada, na verdade, preocupadíssima. Alarme ligado. Luzes em vermelho.
Perguntei a um amigo o que ele achava. Bem, a vida dele tinha dado uma guinada por uma coisa dessas, inesperadas, e tinha dado certo. Nada mais normal do que ele achar que poderia ser uma aventura a ser vivida.
Mas meu pisca-alerta continuava ligado. Fiquei mesmo muito invocada. Conversei com outro amigo. Ele também achou a coisa esquisita. Bom... “dois” achando esquisito. Só podia caber na minha cabeça que alguém que estivesse tão interessado e tivesse essas supostas condições financeiras, iria preferir mil vezes pegar um avião e vir me conhecer do que mandar um pacote assim. É óbvio! Já havia acontecido isso comigo antes. Se você leu o conto “A ponte”, sabe do espanhol que se despencou de Barcelona para o Rio só para me conhecer. Essas coisas acontecem. Mas um homem não vai mandar um pacote desses para uma mulher com quem ele trocou palavras no Face por 20 dias. Não um homem sério ou, pelo menos, um “homem normal”.
Não deu outra. No dia seguinte, recebi um mail da Malasia. O emissor identificou-se como policia alfandegária, dizendo que o pacote tinha sido barrado lá e, pela descrição do conteúdo, se eu quisesse recebe-lo, teria de depositar imediatamente a “irrisória” soma de 850 dólares, caso contrário, o pacote seria confiscado. Nome da conta, etc, tudo direitinho. O depósito deveria ser feito via Western. Muito chique. E era para ser imediatamente.
-Ah! Era esse o golpe, concluí. E agora? Com que espécie de quadrilha eu estava envolvida? O que fazer?
O anjo me põe, o anjo me tira. O problema era como fazer para me sair. Isso o anjo nunca conta. É a parte onde ele me faz viver a aventura...
Havia algumas saídas:
- Simplesmente não responder e sumir;
- entrar no Face e perguntar se ele me considerava uma idiota. Pergunta desnecessária: é óbvio que ele me considerava uma perfeita idiota;
- bancar a burra, fingir que tinha caído no conto e arranjar uma saída de mulher “burra”. Uma mulher muito muito burra que aceita que um pacote que sai da Inglaterra precisa dar a volta ao mundo, passar pela Malásia, para chegar ao Brasil. Isso, fora todo o absurdo da história em si.
A primeira alternativa parecia mais simples: sumir. Mas não era: ele tinha meu número de celular e, também, o endereço de minha caixa postal. Eu não sabia - e não sei – com que espécie de quadrilha eu estava envolvida, nem suas condições de ataque para me arriscar. Era botar a cabeça para funcionar!!!
Não respondi ao mail, fiquei muda. Alguma coisa iria acontecer e fingi que não tinha lido mail nenhum, nem aberto o Face, naquele dia. Dar tempo para pensar, ver o que fazer.
O segundo amigo, aquele que também estava achando tudo muito esquisito, me deu um bom suporte. Felizmente, ele é bem relacionado e disse que, se eu precisasse, tinha um parente para ir à alfândega comigo, se o pacote chegasse. Tinha feito uma consulta e, quem o instruira, era ligado à polícia federal. Ok, não vai precisar. Pelo tipo de golpe, era só uma isca para eu depositar os tais 850 numa conta da Malasia. Pelo andar da carruagem, não havia pacote algum para chegar. Eu não estava envolvida com contrabandistas. Menos mal... menos mal.
Tracei um plano, o anjo que me ajudasse. Fingi que não tinha recebido o mail, mas já sabia do conteúdo. Horas depois, ligação internacional – não era de prefixo da Inglaterra. Atendi. Era diretamente da “alfândega da Malasia”. Imagine, um serviço alfandegário tão perfeito que liga para o receptor para avisa-lo que tem um pacote preso lá! Quanta gentileza! Fingi não estar entendendo o inglês do homem. Na verdade, não estava mesmo. Só que eu sabia previamente do que se tratava:
- Por favor, ligue para o emissor do pacote, não estou entendendo nada.
Mais uns minutos, liga o gentil inglês, voz parecendo muito aflita!
- Querida, eu recebi um mail da Malasia, você também recebeu?
- Sim, mas não entendi direito. Acho que é para pagar uma taxa ou coisa assim.
- Estou muito preocupado, eu...
Interrompi imediatamente:
- Desculpe, acho que você está nervoso, não estou entendendo nada. Estou em casa. Vamos trocar mensagens pelo Face?
Fazia parte do meu plano ter tudo por escrito. Por via das dúvidas, se desse algum problema, teria provas escritas para mostrar para a polícia daqui, se fosse o caso. Fomos para o Face. Ele fez o “papel de desesperado”. Queria a minha ajuda de qualquer jeito para o depósito, pois havia muitos bens no pacote! Inclusive dinheiro. E muito! Que eu pagasse a taxa e, quando o pacote chegasse ao Brasil, eu poderia resgatar a quantia tirando o dinheiro que estava incluído nele. Ele não estava na Inglaterra, não poderia tomar qualquer providência! Não poderia fazer nada do México. Retruquei:
- Não fique tão preocupado. Já estive no México. Também tem Western aí. Então, é só você ir lá e tudo está resolvido!
- Não posso, a instituição daqui não permite, Já expliquei tudo isso a eles, mas eles não querem me deixar ir. Estou em pleno mar trabalhando, não posso ir à terra, por favor, me ajude, você é minha única esperança.
- Ok, mas por favor, ligue para a Malásia e diga para eles fazerem o pacote voltar para a Inglaterra, pois terá um problema muito maior aqui! Não quero receber esse pacote! Dará mais problemas ainda na alfândega daqui!
Eu era tão “burra” que ainda o estava ajudando a me dar o golpe...
- Ok, querida, então eu deposito em sua conta tão logo eu volte para a Inglaterra, prometo.
- Ok, não se preocupe, a gente vê isso depois. Eu deposito amanhã.
- Você faz isso? Ah, que alívio, que Deus a abençoe.
Pronto. No dia seguinte, de manhã, ele me ligou preocupado:
- Querida, você já depositou?
- Não tenho o dinheiro comigo, pedi emprestado a um amigo e ele disse que vai trazer para mim.
Pronto, além de burra eu não conseguia nem ter 850 dólares.
- Estou muito preocupado. Eu...
- Não estou entendendo você direito, mas escreverei no Face depois. Não estou em casa.
Pouco depois, liga a alfândega da Malasia, muito preocupada com a segurança do meu pacote. Quanta gentileza! Digo para eles ligarem para o emissor.
À tarde, liga de novo o gentil inglês:
- Você depositou?
- Meu amigo ainda não veio com o dinheiro. Escrevo para você no Face, hoje à noite.
Nisso, me encontro com meu amigo de verdade e conto meu plano. Disse-lhe que preferia a versão da mulher burra, por via das dúvidas. Ele teceu considerações comigo, me ajudando na melhor interpretação do papel. O anjo não dá respostas, me deixa dar tratos às bolas para sair dos apertos, mas... sempre me envia aliados... é só eu estar atenta!
Saí e fui viver o resto do meu dia, com meus afazeres. Tinha de deixar o tempo passar. Fazia parte do papel de tentar arranjar o dinheiro. À noite, quando cheguei, escrevi uma mensagem “desesperada”:
- Meu amigo não me deu o dinheiro, disse que não acreditava na sua honestidade e ainda por cima, disse que tem um amigo da polícia federal e que vai contar tudo para ele. Eu estou desesperada, não quero me envolver com a polícia. Na verdade, estou com muito medo de tudo isso. Não posso ajuda-lo. Você é um homem muito esperto e com certeza, encontrará um amigo na Inglaterra ou algum membro de sua família que poderá fazer isso para você. Sinto muito não poder ajuda-lo, estou em pânico.
Na verdade, fora o fato de eu saber mais ou menos com quem eu estava tratando, estar com medo, era pura verdade. Um medo reativo, mas presente da cabeça aos pés.
Poucos minutos depois, a resposta, no Face:
- Oh, meu Deus, como fui acreditar em você! Estou perdido!
Não respondi. Deixei para o dia seguinte, como se tivesse escrito e desligado o computador. Ainda tinha um problema a resolver. É que este meu amigo, o tal que tinha mesmo um conhecido da polícia federal, tinha sido muito assertivo:
- Feche sua caixa postal e mude o número de seu celular.
O problema era esse. Eu não queria fechar minha caixa postal. Tenho a mesma, com várias correspondências do mundo todo, há 20 anos! E o meu celular é o ponto central do meu trabalho como terapeuta! Todos os meus clientes só falam comigo pelo celular. E tenho clientes desde 2001! Eu tinha de bolar um jeito de resolver isso também!
E essa era a minha cartada final, por isso não respondi logo. Precisava deixar o tempo passar, exercitar a minha paciência, saber dar os passos, deixa-lo na expectativa do que eu iria fazer.
Enquanto isso, uma hora depois dessa troca de mensagens, novo mail da Malasia, desta vez ameaçador. Com certeza, passaram a investir nas palavras medo e pânico que eu tinha usado ao dizer que não queria me envolver com a polícia.
O mail era bem explícito: dizia que tinham “escaneado” o pacote e detectado uma soma de dinheiro muito grande ali e que isso era ilegal e se a tal taxa de 850 dólares não fosse depositada imediatamente, as polícias dos dois países, Inglaterra e Brasil, seriam avisadas, para que tomassem as providências necessárias com os dois envolvidos.
Não respondi. Imediatamente, abri meu celular, tirei o chip e liguei do meu fixo para ele para ver o que acontecia. Não toca. Dá direto na mensagem:
- Sua ligação está sendo encaminhada para a caixa postal, deixe sua mensagem após o sinal.
Ok, eles não entendem português. O que eu queria é que não tocasse o sinal de chamada. Entrando direto na mensagem, pode ser qualquer coisa, inclusive dizendo que o número tinha sido desativado. Era a impressão que eu queria dar, o toque final que eu precisava.
Entrei no Face:
- Estou fechando minha caixa postal e também mudando o número de meu celular. Por favor, me esqueça.
Resposta, minutos depois:
- Oh, Deus, não acredito que você esteja fazendo isso comigo!
Não respondi. Abri o Face, no dia seguinte. Nenhuma mensagem. Também nenhum outro mail da Malásia. Ufa, que alívio. Eu era burra, pobre e medrosa demais para eles perderem tempo comigo.
Por via das dúvidas, fiquei três dias com o celular desativado. Quando liguei novamente, havia apenas uma chamada do exterior, com horário próximo ao da minha última postagem no Face. Nunca mais recebi nenhuma ligação internacional.
O anjo põe, o anjo tira. E fiquei sem meu “sal inglês” novamente. Entrei em chats. É uma “chat-ice". A conversa é sempre a mesma: de onde você é, etc... e a linguagem é essa da internet, não é boa para treinar.
Meu bom anjo protetor, obrigada por esta aventura. Mas, desse pão, já chega. Dá para me mandar outro alguém só que bonzinho? Já tive a minha cota de adrenalina para esta vez.
Obs.: o título foi tirado de um antigo programa infantil da Rede Brasil (antiga TVE); a foto da página inicial do Facebook.
sábado, 7 de janeiro de 2012
LINGUISTA
Nasci lingüista, não teve jeito. Lembro-me que, aos quatro ou cinco anos, já sapecava minhas encucações com as palavras da nossa língua. Sei que tinha essa idade pelas lembranças que guardo das casas em que vivi na infância: até os cindo anos e meio, na Tijuca; daí até os sete, no Meier.
Assim, quando me lembro dos fatos da infância, marco minha idade mais ou menos pelas fotos na mente de onde eles ocorreram. E isso aconteceu na Tijuca, eu em torno da mesa quadrada da sala de jantar. Naquela época, meus irmãos estudavam na sala, em volta da mesa, com um abajurzinho cujo formato e cúpula estão gravados em minha mente até hoje. Eles eram muito mais velhos do que eu - o mais novo contava 8 anos a minha frente. Eu os olhava como três adultos, muito velhos. E respeitáveis, é claro. E fumavam, não me lembro se já todos os três... mas quem fumava, fumava muito. Assim, com a sala toda em neblina e uma concentração para colocar qualquer gênio em estado de completude, não me sobrava espaço senão para pensar... e pensar muito.
Isto porque, quando meus irmãos estavam estudando, a ordem era poder “ouvir uma mosca voar no ar.” E isso valia para todo mundo, mesmo para uma garota de cinco anos como eu. Lembro-me que o menor som que eu pudesse soltar era acompanhado pelo célebre:
- Seus irmãos estão estudando, não faça barulho.
Assim, eu não tinha outra saída a não ser acompanhar o estado de concentração de toda a casa, colocando minha cabeça para funcionar, já que não podia funcionar com o resto. E funcionava muito, diga-se de passagem. Eu não podia imaginar o que era “estudar”... eu nem sabia direito o que era escola! A única coisa que eu sabia é que o que eles estavam fazendo era algo muito muito importante. E fumavam como chaminés.
Um dia, me lembro bem, fiquei cismando com aquela fumaça. Estava sentada no chão, um pouco distante, olhando que desenhos a fumaça densa formava no ar. O abajurzinho, no centro da mesa, dava à fumaça um tom diferente, com sua luz oblíqua engendrando várias formas. Me fixei no abajur.
Não sei por que, comecei a repetir para mim mesma o nome das coisas: mesa, cadeira, teto, chão, janela... abajur? Não combina. Não, definitivamente, abajur não combina com o conjunto.
Todas as minhas dúvidas eram sempre tiradas com meu padrinho de batismo, vale dizer, meu irmão mais velho, para mim o responsável direto pela minha educação. Olhava-o como quem olha para o dono de todas as verdades. Por isso, me aproximei devagar, como quem tem medo de interromper. Mas era sempre assim que eu fazia e parece que ele já estava acostumado. Eu esperava a deixa, até que ele olhasse para mim, perguntando o que eu queria. Isso era mesmo um ritual.
Hoje, fico imaginando como deve ter sido pesado àquele jovem de 16 ou 17 anos, tomar para si o encargo de ser um “verdadeiro padrinho” durante todo o dia, já que meu pai só chegava tarde da noite em casa. Em sua ausência, o comandante era ele.
Ah... e como eu respeitava isso...
Assim, fui chegando, em silêncio, e fiquei na beirada da mesa, olhando para ele. Com certeza, uma hora dessas, ele iria perceber, se virar e perguntar o que eu queria.
- O que foi?
- Por que abajur se chama abajur?
- Ora, porque é esse o nome dele!
- Mas não combina!
- Como não combina? Tem de combinar?
- Tem. Teto combina, mesa combina, chão combina, janela combina... mas abajur não combina!
- É um nome francês. Todo mundo chama assim.
Eu não sabia o que era francês. A única coisa que eu sabia é que esse nome não se encaixava na lógica da minha cabeça.
- Mas não combina!
- Por que teto, mesa, cadeira, chão, janela você aceita e abajur não? Foram todos nomes dados à coisas!
- Pois é... mas esse não combina.
- Em português também chamam de quebra-luz, mas é um nome muito antipático.
- É, mas quebra-luz combina, abajur não combina.
- Então chame de quebra-luz e me deixe estudar.
Saí dali convicta de que o nome daquilo, mesmo feio, tinha de ser quebra-luz, pois isso, sim, combinava com mesa, janela, cadeira, teto e chão.
Eu não podia imaginar que o que estava em jogo era a lógica de construção morfológica dos nomes de nossa língua e, evidentemente, abajur não estava na lista da composição mórfica de uma menina de cinco anos, atenta aos nomes das coisas.
Quem pediu uma lapiseira ao Papai Noel e implicou com o nome “abajur”, só poderia mesmo fazer Letras e virar lingüista um dia...
domingo, 1 de janeiro de 2012
MENSAGEM DE ANO NOVO - 2012
Queridos amigos,
2011, ano de muitas diferenças, de tantas mudanças para a maioria dos meus amigos...
Vejo em cada um a superfície de um lago e imagino suas profundezas. Sorrisos amigos à tona, mas almas tão diferentemente vivenciadas, em suas profundezas.
Que os ensinamentos deste ano tenham trazido a cada um de nós:
O viço da alma,
A luz do espírito,
O sorriso interior.
Que nos tenham ensinado a desprezar:
a superficialidade nos encontros,
o egocentrismo,
o cômodo desfazer-se dos compromissos da alma.
Que 2012 floresça com a convicção de que seremos melhores, mais inteiros, mais preparados e capazes de usufruirmos do convívio que nos cerca, mais intimamente comprometidos com os desígnios de nosso espírito.
Que nossos olhares se voltem para as verdadeiras razões de nossa existência.
Brindemos a ele!
Que chegue cheio de novas e indescritíveis vivências;
Brindemos a nós,
desejando que estejamos preparados para sermos dignos desses novos dias.
A todos, o meu carinho.
lali
sábado, 24 de dezembro de 2011
O PRESENTE DE NATAL
Acho que eu tinha 4 ou 5 anos, no máximo, quando vi Papai Noel ao vivo e a cores pela primeira vez. Para quem se lembra, nos anos 50, ele aparecia na Sears, a primeira loja de departamentos de nossa cidade, localizada onde hoje é o Botafogo Praia Shopping. E como era o único Papai Noel a aparecer na cidade, era mais fácil acreditar que era ele mesmo, de verdade verdadeira, vindo assuntar, ou melhor, conferir com certa antecedência, o que seus filhos natalinos iriam querer que ele trouxesse na noite mágica.
Rumo à Sears, então, eu, que morava na Tijuca. Viagem longa e ansiosa até Botafogo, zona sul, outro lado da cidade. A Sears era um encanto para os olhos infantis. Loja grande de teto alto demais para uma menina de 4 anos. Portentosa. Logo no primeiro andar, bem lá no fundo, enfim, Papai Noel. Estava ali, sentado, todo risonho e simpático, com suas barbas brancas de seda a festejar paciente e carinhosamente cada pequenino ou pequenina que viesse sussurrar, em seu colo, seus desejos ansiados, muitas vezes, durante todo o ano.
Eu nunca tinha visto Papai Noel e nunca mais o vi assim, tão de perto, de verdade, único na cidade, só para mim. Era tão real que me levou a ter coragem de me aproximar, um pouco envergonhada, mas convicta.
Eu tinha ensaiado por dias a frase escolhida para o momento especial, a pergunta esperada, a resposta pronta.
Aproximei-me devagar, como quem não quer nada, olhos fitos em sua bondade, seu sorriso doce, seu olhar acolhedor. Lembro-me do beijo acompanhado do roçar macio dos pelos sedosos de sua barba branquinha. Lembro-me de sua voz baixa, calma, tranqüila, suave:
- Que linda menina temos aqui. Qual o seu nome?
Fui surpreendida pela pergunta inesperada. Meu pedido entalado na garganta, decorado dias sem conta. Tinha medo de perder o fio de minha meada, ser enrolada por outros brinquedos. Eu queria por que queria realizar o meu desejo e estava concentrada nisso. Qualquer outra pergunta poderia desviar meu palpitante coração infantil da resposta trazida na ponta da língua. Engoli o fôlego e respondi rápido:
- Eulalia
- Que lindo nome!
Lindo nome. Eu gostava dele, desde que me entendia por gente e o bom velhinho o achava lindo, tão lindo quanto eu mesma achava. Embora tensa, lembro-me de que me senti mais segura e satisfeita. Sorri. Mas, na verdade, o que eu queria mesmo era destravar minha ansiedade e fazer meu pedido.
- Você se comportou bem o ano todo?
Ora bolas, ele era Papai Noel, aquele que vê tudo lá do Polo Norte... ele devia estar cansado de saber que eu era uma santa criatura! Por que tanta enrolação? Acenei rápida com a cabeça. Mas o bom velhinho, com sua falta total de pressa virou-se para minha mãe que espreitava um pouco afastada:
- Ela foi mesmo uma boa menina?
Minha cabeça parecia que ia dar um nó. O velhinho que de tudo sabia, ainda tinha de ter o testemunho da minha mãe? Estava fora de dúvida que eu merecia meu presente! Minha mãe acenou que sim. Pareceu, enfim, que estava convencido. Esperava ansiosa pelo clímax.
- Bem, então, o que você deseja ganhar na noite de Natal?
A tal dúvida sobre a onisciência ensaiou atrapalhar minha concentração, e lembro-me que tive vontade de dizer ao bom velhinho que tudo via e, portanto, que tudo devia saber sobre as crianças, que ele deveria ler, sem esforço, o desejo embutido na alma de cada uma em todo o mundo! Mas não era hora de colocar nada em discussão e, já que eu tinha idade suficiente para falar por mim mesma, não era ali que eu iria perder a oportunidade de externar meu desejo em sua presença e nem questionar nadinha. De jeito nenhum.
- Uma lapiseira.
- Uma lapiseira? Só uma lapiseira? Você não quer uma boneca? Algo mais?
- Não. Eu quero uma lapiseira. Uma... lapiseira... azul...
- Uma lapiseira azul... hum... você já sabe ler e escrever?
- Não, mas vou começar a aprender depressa!
- E o que você vai fazer com uma lapiseira azul?
- Vou escrever, vou escrever muito! Acho que vai ser a coisa que eu mais vou gostar de fazer na minha vida.
- Muito bem... então, se você for realmente uma boa menina até o Natal, terá sua lapiseira azul. Tem certeza de que não quer uma boneca também? Uma pequenina...
O velhinho, por mais doce que fosse, estava me deixando um pouco nervosa. Eu tinha um medaço que ele achasse uma boneca melhor do que uma lapiseira e acabasse me dando uma boneca em vez de minha tão cobiçada lapiseira. Eu queria uma lapiseira azul!
- Não, eu já tenho uma boneca... eu tenho até duas. O que eu quero mesmo é uma lapiseira azul!...
Ganhei a lapiseira azul. Guardo em algum lugar muito especial de minha mente o quanto essa lapiseira me acompanhou. Esteve em meus estojos escolares por muitos anos, mesmo quando já não mais escrevia, pois, naquela época, as lapiseiras enferrujavam, envelheciam e emperravam.
Foi com a minha lapiseira azul que me senti, pela primeira vez, dona do papel, solene, como quem alcança uma caneta tinteiro Parker antes da puberdade. Os que são da minha época e que chegaram a ganhar canetas tinteiro sabem o que significa...
Minha doce e querida lapiseira azul. Sim, querida, através de você eu já sabia, desde então, que escrever seria uma de minhas mais importantes responsabilidades acadêmicas e que seria, também, um de meus mais deliciosos e terapêuticos passatempos.
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sábado, 17 de dezembro de 2011
CRIS
Cristina apareceu na minha vida num momento delicado. Tínhamos nos esbarrado em congressos, mas eu sou mesmo um desastre no que se refere a guardar fisionomias. Para você ter idéia, já passei algumas vezes direto por conhecidos bem conhecidos, até por vizinhos. Parece descaso, mas não é mesmo. Já avisava aos meus alunos, no primeiro dia de aula. "Se eu passar sem cumprimentar, não se aborreçam, por favor. Sou cegueta de fisionomia". Além de muito distraída quando ando na rua, sou mesmo uma negação nesse item.
Colegas profissionais de congresso, jamais fizeram exceção. E foi assim que topei com Cris, em plena cidade do Porto, num congresso internacional de Linguistica. Passei direto por ela, claro, e se ela não me travasse o passo, ficaria por isso mesmo. Felizmente, isso não aconteceu, pois foi o início de nossa estreita amizade, que permanece até hoje.
Cris mora em São Paulo e eu no Rio. Mas o milagre da internet faz com que saibamos mais uma da vida da outra do que a maioria de nossos outros amigos que convivem conosco, em nossas cidades. É que nos escrevemos quase todos os dias!
Mas nossa amizade, na verdade, começou meio atropelada. É que coincidiu com meu encontro com um dos casos amorosos mais gostosos da minha vida, que você já conhece, se leu o conto “o gabonês”. Pois então: estar no congresso era ficar ali apenas para as palestras que interessavam. Fora isso, dávamos um jeito de sumirmos, os dois, para curtirmos o tempo livre juntos.
De vez em quando, esbarrava em Cris, que me convidava para almoçar, sairmos juntas. Evidentemente, não tinha com ela a mesma intimidade que tenho hoje e não me sentia à vontade de apenas dizer que meu tempo já estava todo ocupado com uma pessoa muito especial. Assim, resumi nosso contato ao mínimo, educada e formalmente, mas, na verdade, o que eu estava fazendo era fugir de encontra-la.
Não me lembro muito bem como (Cris, com certeza, com sua memória de elefante, saberia descrever passo a passo!), a vida fez com que nos encontrássemos, no Brasil, em outros congressos e nosso contato foi sempre muito ameno e cordial. Passei também a reconhece-la mais e, conseguia - embora raramente, confesso - falar com ela, antes que ela falasse comigo. Ela não sabia, mas reconhece-la, no meio de tanta gente, para mim, já era um fato de destaque para meu apreço pessoal, já que minha memória fisionômica é mesmo um desastre.
O fato é que, um dia, resolvemos almoçar juntas. Tínhamos, então, mais intimidade. Nossa forma de pensar sobre aspectos lingüísticos e educacionais é muito parecida e essa companheirice começou a fazer-se cada vez mais evidente nos encontros, simpósios e congresso. Nesse almoço, estávamos falando exatamente sobre isso, quando ela me sapecou uma pergunta bem em cheio. E Cris é Cris! E esta é uma das razões por que gosto dela, para citar apenas essa, é claro. Nesse almoço, ela foi direta e simples:
- Você se lembra de nosso encontro no Porto?
- Não muito bem.
- Tive a impressão de que você não ia com a minha cara. Me evitou o tempo todo. Tentava marcar uma coisa com você, mas você estava sempre desconversando. É engraçado como agora estamos sempre juntas.
Não pude me conter. Dei uma boa risada.
- Cris, você não vai acreditar. Mas é que eu estava de caso com um congressista francês, do Gabão. Fugia de tudo para conseguir ficar só com ele!
- Ora bolas, por que você não me disse logo? E eu achando que você não queria conversa comigo!
- Não queria mesmo, mas era por isso!
Um ano depois, mais ou menos, nos encontramos em Lisboa, para outro congresso. Desta vez, no entanto, sabíamos que nos encontraríamos lá. Mas, logo ao ver-me, Cris perguntou:
- Você está de caso com alguém?
Soltei outra bela risada.
- Não querida, acabei de chegar. Mas dessa vez, juro, se acontecer, você será a primeira a saber.
- Ok, assim eu sei por que você some.
Não conheci ninguém. Aliás, nunca estou deliberadamente a procura de alguém quando viajo. É que, às vezes, acontece...
O fato é que nós duas nos divertimos a valer. Cris tem um faro especial para descobrir lugares interessantes, restaurantes especiais que servem ao nosso delicado paladar. É também dessas companheiras de histórias infindáveis. Se não nos dermos conta, atravessamos a noite. Mas é que queremos aproveitar bem o dia seguinte e ficamos nos vigiando, para dormirmos razoavelmente cedo.
Aliás, o conto dessa semana é uma homenagem a Cris. Veio de São Paulo para passar quatro dias comigo aqui no Rio. Que delícia! Enquanto ela se prepara para dormir, meus dedos inquietos vieram escrever esse conto, para postar amanhã. Uma surpresa, para que ela leia, ainda aqui, ao acordar. Já que ela não perde nenhum dos meus contos, este a surpreenderá.
Haverá outras oportunidades, em que poderei contar algumas de nossas façanhas conjuntas. Por ora, queria apenas fazer-lhe este mimo, uma homenagem a sua visita, coisa rara, mas querida.
sábado, 10 de dezembro de 2011
TORTURA CHINESA
Decididamente, temos de tomar um cuidado redobrado com a escolha de médicos.
Foi-se o tempo, chi... foi-se há muito o tempo, o delicioso e insubstituível tempo do médico da família. Aquele que conhecia a todos e era chamado de tio pelas crianças da casa. Mas não dá para saudosismos... a saída é buscar e buscar, até achar a tal agulha no palheiro, o profissional cuidadoso e competente que entenda o nosso organismo. O problema é que de bons clínicos gerais estamos meio falidos... e, como a bola da vez é a “especialidade clínica”, o jeito é buscar essas agulhas nas tais especialidades.
Por falar em “agulhas”, gosto muito de acupuntura. Como terapeuta complementar, a observação parece óbvia. Mas é que essas agulhas, colocadas nos lugares certos, realmente nos colocam no prumo e, invisivelmente, nos deixam saudáveis a maior parte da vida. A questão é achar o profissional certo.
Se o nariz é bom, a gente acaba acertando, mas, antes disso, estamos expostos a cada armadilha!...
Por razões da vida, eu tinha perdido o meu e comecei a procurar outro, do jeito que todos conhecemos: por indicação e... por tentativa e erro.
Entre os que busquei, destaco um chinês legítimo. Médico e, segundo me disseram, muito conceituado. Quando cheguei lá, constatei que o homem quase não falava português, mas... se fosse dos bons, meus dotes lingüísticos acabariam por contornar a situação.
A anamnese foi rápida, acho até que pela dificuldade de comunicação. Na verdade, um bom acupunturista descobre o que você é pelo tato, pela leitura da energia nos pulsos. Acostumada a isso, já os tinha em cima da mesa. Disse-lhe que não tinha nenhuma queixa específica, mas que buscara a acupuntura como suporte para amenizar minha pressão alta dos olhos, aliás, um problema hereditário: meu pai tinha glaucoma.
Minha pressão era alta, mas não exigia maiores cuidados, apenas atenção. Ainda estava no limite de não precisar medicação. Mas a idade avançava e como já estava na minha década de 40, a tendência a subir começava a se fazer sentir. Vez por outra, o oculista me pegava com ela ligeiramente mais alta. Já estava passando do limite e ele já apontava para a possibilidade de entrar no colírio. Disse ao chinês, portanto, que, por causa dos efeitos colaterais da medicação, estava procurando um jeito de baixar a pressão, se fosse possível.
O médico tinha aquela aparência firme de quem sabe o que está fazendo e de quem não gosta de dar muitas explicações. Aliás, de não ouvir também muitas perguntas. Isso, por si só já me desagradou um pouco, mas, como ele era chinês...
Desde a primeira sessão, percebi o desastre: ele impôs um ar condicionado às alturas – melhor dizendo, às baixuras - e ao lhe pedir que aumentasse a temperatura ou me desse um abrigo, ele apenas retrucou que era indispensável deixar como estava e, sobretudo, manter os pés descobertos. Colocou um finíssimo lençol por cima de mim (com os pés descobertos!), sapecou minhas orelhas com um monte de agulhas e escafedeu-se. Eu literalmente congelei. Minhas orelhas doíam horrores! Eu nunca tinha tido uma sessão de acupuntura com tanta dor. Se resolvesse o problema dos olhos, com certeza, sairia com dor de garganta. Mas ele era chinês, da terra onde nasceu a acupuntura. Agüentei firme. Firme até o pré-congelamento, mas agüentei.
Meia hora depois, ele entrou na sala, eu provavelmente azul de frio e tremendo dos pés à cabeça. Disse-lhe isso e ouvi como única resposta que ele sabia o que estava fazendo e que, provavelmente, com o tratamento, dentro de um mês, mais ou menos, eu estaria com pressão 12 por 12, super normalizada, pois ele já tratara muitas pessoas assim, com excelentes resultados.
Voltei para casa com esta última frase gravada em minha mente e decidi ficar por um mês para ver se teria resultado. Valeria a pena suportar o que comecei a intitular de tortura chinesa, que era, literalmente, o que acontecia.
Um mês depois, corri para o oftalmologista e qual não foi a minha surpresa: a pressão que sempre estivera no limite de 20, tinha subido abruptamente para 25!
Saí com a receita do colírio e uma raiva incontida! Voltei ao chinês para lhe dar a notícia e apenas ouvi, numa voz de poucos amigos:
- É, acho que, no seu caso, será preciso usar colírio.
- Mas eu não precisava usar, até que cheguei aqui!
Ele apenas respondeu:
- É, se não precisava, passou a precisar.
Eu não tinha nem como retrucar, pois como e onde teria argumentos suficientes para processá-lo? Também não dava para avançar no seu pescoço: ele era bem mais alto e mais forte do que eu...
Foi assim que me meti com um colírio e seus efeitos colaterais. Passei assim muitos anos, até achar as pessoas certas, tanto em acupuntura, como em oftalmologia. Hoje, finalmente, tenho os dois, bons profissionais: um médico acupunturista, que aquece a sala, nos dias de inverno e me cobre com um cobertorzinho maneiro, para que eu me sinta num estado pré-celestial. Achei, também, uma oftalmologista que, de brinde, é médica homeopata das boas, que junta ao tratamento uns dois ou três tabletinhos, que tomo diariamente.
E tem o Reiki, florais e outras coisas que a maioria das pessoas chamaria de “místicas”. Na verdade, eu as considero terapias complementares.
O fato é que minha pressão baixou, depois de quase dez anos de escravidão: agora sustento 16 por 16, muito menos do que tinha, quando era jovem.
O que aprendi com tudo isso e o que me fez escrever este conto, foi, na verdade, o convívio com essa experiência e, também, com as incontáveis histórias de maus atendimentos clínicos que, muitas vezes, tenho ouvido, diariamente, de meus clientes de Reiki e florais. Só nesta semana, por exemplo, recebi dois casos exacerbados como este meu.
Não dispenso o atendimento clínico em quaisquer dos casos, pois sei que as terapias complementares (Reiki, etc.), como o próprio nome diz, são “complementares”. Mas as pessoas não precisam passar por torturas chinesas, por causa disso. E muito menos serem mal atendidas, como eu fui. Menos ainda, saírem pior do que entraram.
Aprendi que, ao primeiro sinal de descontentamento bem fundamentado, devemos mudar. Aprendi a desconfiar da frase “sei o que estou fazendo”, quando eu não sei se tenho certeza disso. Principalmente, aprendi que quem tem de saber o que está fazendo somos nós, não eles.
A tortura chinesa fez um mal quase irrecuperável aos meus olhos físicos, mas aguçou meu olhar interior. Passei a enxergar melhor, a buscar melhor, a escolher melhor.
Quem sabe, minha experiência possa inspirar você também...
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sábado, 3 de dezembro de 2011
O QUEIJO
Passei anos de minha vida esperando ir a Paris. Na verdade, acho que começou no dia em que me dei conta de que Paris existia. Sem saber explicar racionalmente por que, algo indescritível fala francês dentro de mim desde que me conheço por gente.
Em 1975 realizei meu sonho pela primeira vez. Digo primeira vez, pois o sonho se renova a cada vez que ponho os pés lá. A última foi em 2001 e, se demorar muito mais, quem sabe eu tenha um treco.
Mas voltemos a 1975. Quatro dias apenas, mas quatro dias vividos com quase volúpia. Respirava cada detalhe por dentro e por fora, meus olhos encharcados de luz e sonho.
A cidade, a todo momento, registrava o descompassado ritmo do meu coração. Paris, afinal, fala por si mesma. Não há como descrevê-la. Não há como dizer qual lugar é mais intenso do que outro. Tenho pensado nela por esses dias... quem sabe, hora de fazer uma loucura... uma saudável loucura... vou começar a tramar melhor isso.
Mas hoje vim para casa com um queijo tipo Camemberg nas mãos. Me deu saudades do gosto e, por extensão, da lembrança de queijos e vinhos... por associação... Torre Eiffel. A memória é fantástica e nos enreda por cheiros ou gostos já vividos. É como um raio de luz que abre um espaço em recordações escondidas. Mas desta vez, voltei para casa inquieta e só consegui me sentir acomodada quando meus dedos começaram a digitar essa lembrança.
Torre Eiffel, depois de uma manhã inteira de muita caminhada. Um percurso de muitos quilômetros de encantamento e as pernas pediam repouso. Uma fila imensa aguardava os visitantes. Entrei nela e inventei de esquecer que minhas pernas existiam. Por um bom tempo, meu corpo resumiu-se aos meus olhos que filmavam, centímetro por centímetro, aquela harmoniosa ferragem engendrada em forma de Torre.
Quantas e quantas vezes eu a tinha visto apenas corporificada pelo papel de fotos e postais. Mas estava ali, a minha frente, mais um precioso tesouro para os olhos do meu coração.
Subir ao seu topo significaria para mim conquistar a cidade, fincar minha bandeira no cume e dizer: “Paris, no teu topo, aqui estou eu!” E faria isso. Poucos passos me separavam dessa conquista.
Foi quando percebi que o avançado da hora exigia cuidados alimentares. Claro, não abri mão de almoçar lá em cima. A subida deu-se harmoniosa só no que tocava ao bondinho, que ganhava as alturas suave e firme.
Meu coração é que subia aos trancos, em trilhos internos desencontrados, talvez um pouco enferrujados por tantos anos de espera. Meus olhos precisavam de lubrificantes, pois negavam-se a piscar. Até hoje, sinto as sensações físicas esquisitas do momento, contrastando com minha alma em festa.
Chegamos ao segundo, dos três andares que compõem a estrutura. A vista maravilhosa era, para mim, o ponto central da festa, mas meu ex-marido me puxava impaciente para o restaurante. Entramos. Meu delicadíssimo estômago pediu o prato mais simples que existia. Meu ex, ao contrário, boa boca, pediu o que encontrou de mais sofisticado. Muito justo: em terra de franceses, seja francês.
Colesterol à parte, adoro queijo! Ao final da refeição, portanto, me animei a participar com ele do ritual do prato de queijos. O garçon, como todo francês que se preza, trouxe, vaidoso, o que havia de melhor em Paris. Cuidadosa, pedi o queijo mais simples que encontrei. Ele, ao contrário, para honrar a festa, solicitou que o garçon apontasse o que seria recomendado. Não me lembro que queijo era, mas a aparência era das mais “sofisticadas”, para não dizer, por puro respeito, das “mais esquisitas”. Mas foi esse mesmo que ele escolheu e eu tratei de fixar minha atenção apenas para a simplicidade atraente do meu prato.
O queijo era tão magnífico que me esqueci do que estava à volta. Por isso levei algum tempo para me dar conta do que acontecia ao meu companheiro de jornada. Quando o fiz, notei que ele estava congelado, como se fosse uma estátua. Apenas olhava para mim, sem mexer um músculo. Sua expressão era, no mínimo, muito engraçada. Notei que seu prato havia sido tocado, mas eu não podia imaginar o que ele sentia. Estava adorando o que tinha em sua boca ou detestando? Ele não se mexia.
- O que foi?
Ele, mudo, olhos fitos em mim, sem mexer um músculo.
- Bom demais?
Ele quieto.
- Ruim demais?
Ele acenou muito ligeiramente com a cabeça.
- Engole de uma vez!
Ele quieto, olhando para mim.
- Não pode ser tão ruim assim.
Ele acenava que sim.
- Vai ao banheiro e joga fora.
Ele não se movia. Olhei-o, incrédula:
- Não é possível.
Disse isso e, discretamente, avancei com meu garfo e peguei um tiquinho de nada do queijo dele, pois não queria me arriscar. Experimentei. Imediatamente senti o mesmo congelamento que percebera ao fitar meu companheiro. Não era ruim. Era tão insuportavelmente intragável que me senti a última das francesas. Os músculos de minha boca reagiram imediatamente, a possibilidade de engolir não existia. Minha garganta trancou. A agudeza do sabor agredia o meu íntimo. O impulso era o de descarta-lo imediatamente. Não consegui engolir, mas, no meu caso, não me apertei. Me levantei e fui ao toalete, joguei o tal tiquinho fora e lavei bem minha boca. E o pior: uma crise de riso me invadia. Explodia em mim, a cada segundo que me lembrava da expressão inusitada do semblante de meu comparsa. Queria sentir pena, mas não conseguia!
Mas precisava voltar. Afinal, eu tinha um queijo maravilhoso em meu prato para honrar a minha prudente covardia na escolha, uma escolha talvez considerada desastrosa para um gosto francês mais apurado. Para mim, no entanto, era o queijo mais simples e, ao mesmo tempo, o mais delicioso que jamais provara.
Ao voltar, para minha surpresa, não havia mais queijo nenhum no prato de meu ex.
- Você comeu?
- Não.
Ele conseguira colocar o queijo num pedaço de papel que tinha no bolso para descarta-lo quando saíssemos. É óbvio que sentiu uma vergonha inusitada de deixa-lo no prato, depois de ter sido tão elogiado pelo garçon, por sua escolha.
A parte ruim é que dividi meu maravilhoso queijo com ele. Mas, tudo bem... ninguém conseguiria sair com aquele gosto horrível na boca. Só um francês, talvez, desses que comem daqueles queijos desde pequenininho...
Depois dessa experiência, a tarde voltou-se para o puro encantamento de fazer com que minha alma alçasse vôo rumo ao terceiro andar e vislumbrasse a bela, magnífica, indescritível Paris.
Os dias seguintes também me brindaram à altura de todo o sonho esperado por tantos anos. Lembro-me, vez ou outra, a troco de tudo ou de nada, de tantos recantos, aventuras e deslumbramentos.
Mas toda vez que compro um queijo francês não posso deixar de me lembrar do restaurante da Torre.
Preciso voltar lá. Mas, com certeza, na hora do prato de queijos, meu pedido se repetirá certo, simples e fagueiro, sem cair na conversa de nenhum glamoroso garçon!...
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sábado, 26 de novembro de 2011
RADAR
Radar era um cão fila que mais parecia um filhote de leão sem juba. Feroz. Tão feroz que seus donos tiveram de aumentar a altura dos muros de sua casa para que ele não se incomodasse tanto com os transeuntes. Uma casa suntuosa que se espalhava, em seus jardins e seus dois andares, numa esquina despreocupada de Pendotiba.
Eu conhecera Radar bem filhote e já era bem grandinho para que eu conseguisse coloca-lo em meu colo. Depois de crescido, soube, por acaso, que apenas quatro pessoas conseguiam colocar as mãos nele despreocupadamente: os donos, o veterinário e eu. Não conseguia ter medo dele. Era mesmo uma amizade sem cuidados. Confiança mútua, eu diria. Os familiares o temiam e eu não conseguia entender por quê. Quando eu chegava, era uma festa só! Remexia-se todo de contentamento e não saia de perto de mim o tempo todo da visita. Aliás, só ele chegava perto de mim, pois rosnava para todos que se aproximavam. Eu não conseguia fazer festa nem na fêmea, uma fila linda, delicada e gentil. Ele se interpunha entre mim e ela e não tinha jeito de eu conseguir afaga-la sequer.
Às vezes, eu ficava pensando se não seria exagero das pessoas pinta-lo de forma tão feroz: diziam que o entregador de pizza já mostrava certo receio quando anotava o endereço: é da casa do Radar? Ele sequer vira o cão, mas só os latidos o faziam tremer. Posso imaginar o que diriam do carteiro...
Embora Radar não tivesse acesso aos transeuntes, pois até o portão de entrada era indevassável, diziam que seu instinto fazia com que viesse latindo furioso batendo-se contra o portão ao primeiro estalar da campainha. Eu nunca presenciara esses desacatos e para mim, Radar era um amigo querido e sempre bem acolhido.
Veio o divórcio e todas as conseqüências que isso traz à vida da gente. Até que tudo se estabilize, você fica mesmo um pouco distante de muitas coisas, mesmo das que gosta. O meu, especialmente, com tantas dívidas advindas depois, me fez ficar imersa em trabalhos e compromissos por longo tempo.
Quando a vida começou a estabilizar-se, comecei a freqüentar meus amigos novamente. A casa de Radar era distante e ir lá exigia uma disponibilidade que eu não tivera até então. Estava com saudades de todos, mas, confesso, Radar tomou meus pensamentos a maior parte do trajeto entre minha casa e Pendotiba.
Toquei a campainha. Seria uma bela oportunidade de testar a fúria de meu amigo, pois, afinal, já havia uns dois anos que eu não ia lá... um pouco pensativa, temia, na verdade, que já tivesse se esquecido de mim. Ao ouvir os latidos furiosos que vieram de longe, dos fundos da casa em direção ao portão, tão logo toquei a campainha, lembrei-me do entregador de pizzas e sorri. Naquele instante, passei a acreditar em todas as histórias. Nenhum entregador poderia se esquecer daquele rugido que de cão pouco parecia... mas usufruí desse episódio por muito pouco tempo: no meio do caminho, os latidos pararam abruptamente. Radar ganiu, baixinho a princípio, depois mais alto e desapareceu. Soube depois que fora como uma flecha buscar meus amigos, agoniado, acompanhando-os, empurrando-os para o portão. Ele havia sentido a minha presença.
Quando entrei nem pude cumprimenta-los. Meu olhar estarrecido, contemplou aquele animal enorme, indócil, nervoso, me empurrando contra a parede com o focinho. Ele não se esquecera! Pelo contrário, mostrava a falta que eu tinha feito durante todo aquele tempo. O ritual completava-se como antigamente: ele sabia que eu não poderia conter seu peso e nunca pulou sobre mim, quando eu chegava. Pelo contrário, empurrava-me para a parede e, como parte da brincadeira, eu sempre me fazia de difícil, até que ele conseguia me encurralar com o focinho. Uma vez encostada contra um muro ou parede da casa, ele levantava suas patas dianteiras e as colocava uma em cada lado do meu corpo. Significava que elas ficavam mais ou menos acima da minha cabeça, de modo que, ali presa, eu não tivesse outra opção senão coçar o seu peito, como carinho. Radar era muito inquieto e não permitia que ninguém o abraçasse, nem seus donos. Mas fazer carinho, coçar suas costas, cabeça ou peito, era tudo de bom. E o peito era a parte em que ele mais gostava de receber minhas coçadinhas. Ficava assim por um tempo e não havia meios de alguém o arredar de seu ensejo. Rosnava até para os donos, se fosse necessário. Confesso que me sentia uma princesa, ali, dona da situação. A fera domada pelo suave toque de minha mão.
Este ritual sempre impressionara muito as outras visitas da casa:
- Você não tem medo?
- Como posso ter medo diante de tanto carinho?
Eles não percebiam o cuidado de Radar de me empurrar para a parede por saber que eu não agüentaria que ele se apoiasse em meu ombro. Sequer percebiam o movimento de levantar a cabeça para que eu pudesse acariciar o seu peito. Eles só viam os dentes, não o pelo, as garras, não a atitude... coisas que só o amor pode compreender. E amor era o que ocorria ali. Um amor bem possessivo, mas que eu sabia contornar, embora, muitas vezes, um pouco exagerado. Radar não permitia que ninguém chegasse muito perto.
Lembro-me de uma vez em que fui com um namorado. Discretamente, ele logo entendeu que era mais conveniente se sentar um pouco mais distante de mim, melhor dizendo, do outro lado da mesa do jardim. Menos do que isso, não foi permitido pelo meu ilustre cão companheiro.
Eu tenho a impressão de que para Radar eu não era propriamente uma amiga, era uma posse. Ele era o meu dono, um dono sem espaço para meio termo. Ao me sentar, deitava-se ao meu lado o tempo quase todo. Sua cabeça repousava tranqüila em um dos meus pés. Quando não era a cabeça, era uma das patas. Não era para ter dúvidas: eu pertencia a ele, desde a hora da entrada, até a despedida. Leva-lo para o canil, quando eu estava lá, era quase uma injúria e ele reclamava disso a altos brados, quero dizer, a altos latidos e muitos ganidos. Melhor deixa-lo solto e ao meu lado. Aliás, no fundo, eu adorava o escândalo ele que fazia e solicitava “condescendente” (na verdade, suplicante), que ele ficasse por ali. Era mais confortável para todos e melhor para nós dois. Confesso que me agradava muito ter ao meu lado, como se fosse um gatinho, um “filhote de leão”.
Essas visitas, embora não freqüentes, povoam até hoje, com alegria, minhas lembranças. Até mesmo a última vez em que vi Radar foi gratificante, embora extremamente comovente.
Aconteceu que ele ficou gravemente doente. Câncer ósseo, sem cura. Cuidado com carinho e desvelo por seus donos, foi tratado para usufruir do melhor conforto durante a doença. Não me disseram nada, até bem perto do fim. Mas este, um dia, chegou, pois o veterinário aconselhou um término para a dor. Ele estava muito mal.
Eu estava sem ir lá há uns três meses e não sabia o que estava acontecendo, até que eles me ligaram e contaram, de uma vez só, toda a história. Senti uma facada no peito:
- Acho melhor você vir para se despedir, pois ele não consegue mais sequer se levantar e achamos que devemos dar um fim a esse sofrimento.
Fui no dia seguinte, não deixei para depois. Ao tocar a campainha, não fui saldada com os latidos de sempre. Ele deveria estar lá nos fundos. Ao abrir a porta me disseram que seria melhor eu me preparar, pois ele estava deitado e quieto, que eu me aproximasse devagar a falasse com ele.
Ao entrar na parte interna do jardim, vislumbrei seu vulto ao fundo. Sua cabeça levantou-se, ele, a custo, levantou-se e caminhou meio rastejante em minha direção. A cena, em si comovente, surpreendeu os donos e a mim. Corri para evitar que ele fizesse mais esforço. Meu ímpeto foi o de abraça-lo. Com certeza, não teria forças para reagir e evitar o movimento. Mas me contive. Quis respeitar seus princípios. Apenas afaguei-o e ele, imponente, empertigou-se. Magro, fraco, abatido, mas altaneiro. Foi assim que tiramos nossas fotos. Ele se sustentando em pé o mais que podia. E foi a última vez que se pôs em pé.
Enfim, deitou-se, colocou como sempre sua cabeça em um dos meus pés e não mais se levantou, mesmo na minha saída.
Ficamos ali, por muito tempo e conversamos muito. Eu lhe falei de todos os momentos incríveis que ele me proporcionou e ele me respondia, vez ou outra, com pequenos ganidos baixinhos, quase suspiros - doces, embora doloridos suspiros. Nós dois sabíamos que seria a última vez. Mas também sabíamos que seria eterno.
Lembro-me que se queixou quando me levantei para ir embora. Apoiou com mais força sua cabeça, tentando me reter ali. Ao mesmo tempo, sabíamos, ambos, que era esforço demasiado. E foi por isso que me despedi.
Afaguei-o com todo o carinho de uma vida a dois. Sua testa enorme na palma da minha mão. Seus olhos fechados internalizando o momento. Eu sabia. Ele sabia. Minhas lágrimas pingavam em sua face. Nós sabíamos.
Radar, meu querido, doce e meigo amigo, aquela estrela lá no céu, eu bem sei, te pertence. Sei reconhece-la onde quer que eu esteja...
domingo, 20 de novembro de 2011
FERNANDO DE NORONHA (2)
Como prometi, na semana passada, continuação do meu encantamento por Fernando de Noronha.
Entre os passeios que fiz, destaco o de barco. Este, fiz em excursão, pois seria a única forma de dar uma volta pela ilha pelo mar, com direito e um mergulhinho para ver peixes por ali. O barco tinha dois andares e o dono deixou bem claro que, em cima, só caberiam seis pessoas de cada vez e que poderíamos revezar. Éramos cerca de quinze pessoas e a vista, no segundo andar, era das melhores. Esperei que as pessoas resolvessem quem gostaria de ir, mas notei que todas, sem exceção, se esparramaram pelo piso de baixo, sem nenhuma intenção de subir. Conversavam, entre elas, animadamente, sobre suas aventuras de férias, sobre assuntos gerais e até sobre capítulos de novela, em alto e bom som. Notei que, na verdade, não estavam dando muita atenção à maravilhosa vista que se estendia por todos os lados. Não entendi nadinha o que eles estavam fazendo ali, mas não me fiz de rogada: me encarapitei no segundo piso e fiquei soberana da vista o tempo todo, desfrutando sozinha alguns dos recantos marítimos mais bonitos de nosso país.
Estava assim, embevecida com o lugar, quando o dono do barco, um marinheiro simpático, veio me fazer companhia. Brinquei com ele sobre minha soberania local e, ele, sorridente, disse que eu era uma exceção.
Geralmente, os turistas só pegavam o barco por causa do mergulho e para verem se tinham sorte de filmarem alguns golfinhos. Mas como ele notara que eu estava mesmo interessada pelo passeio, resolvera subir para me dar “umas lições sobre a ilha”.
Assim, de mão beijada, fui orientada a buscar os melhores recantos, onde ver o melhor por-do-sol e também a buscar um nativo para o tal passeio pelo mar, que já contei na semana passada.
Aproveitei e perguntei se valia a pena pegar a excursão para ver a entrada dos golfinhos na chamada enseada dos golfinhos, cuja propaganda, aliás, muito badalada, eu vira na portaria da pensão. A excursão saía às 4 horas da manhã e se dirigia para a enseada dos golfinhos, a 70 metros de altura sobre o mar, para esperar o cardume que deveria chegar às 5 horas. Não era permitido ir sem excursão, pois é zona protegida pelo IBAMA e cada dia conta com um número determinado de visitantes. A empresa responsável nos pegava nas pensões, já com o aval do IBAMA estabelecido para o dia e, depois, nos trazia de volta, às 7 da manhã. Os turistas tinham permissão para permanecerem no local das 5 às 6 horas. Após esse horário, o mirante era fechado para dar espaço aos pesquisadores. O preço era bem salgado e eu queria estar certa de que valeria a pena. Perguntei-lhe, portanto, se a 70 metros acima do mar, no mirante, poderíamos ter uma boa vista dos animais.
Nosso ilustre marinheiro, em sua simplicidade, apenas respondeu:
- Valer vale, se os golfinhos resolverem aparecer. Os pesquisadores dizem que eles entram entre cinco e seis da manhã, mas... a senhora sabe... os golfinhos não usam relógio nem para chegar, nem para ir embora...
Resolvi trocar, ali mesmo, meus planos de excursão ao mirante dos golfinhos pelo passeio pelo mar com um nativo, segundo as prescrições desse simpático marinheiro e não me arrependi, é claro... até porque uma grande e maravilhosa surpresa me esperava naquela tarde mesmo. Continuamos a conversar e perguntei se ele achava que este passeio nos brindaria com a vista de golfinhos. Ele disse que seria pouco provável, segundo os biólogos, pois já eram quase duas horas da tarde e eles dizem que os golfinhos voltavam para o mar alto lá pelas 13 horas... mas ele disse isso com um sorriso matreiro, logo acompanhado por mim.
E não deu outra... assim que o barco deu meia volta, meu novo amigo me alertou:
- Prepare sua máquina, vamos ter um belo espetáculo! Apontou para o horizonte. Eu, naturalmente, nada vi. Mas os olhos acostumados do pescador me sorriram e ele disse;
- Lá vem os golfinhos! Estão saindo agora.
Em seguida, alertou os demais turistas para que ficassem quietos. Seria a melhor maneira de manter os animais mais próximos do barco por mais tempo. O que se seguiu foi puro encantamento. Como ninguém subiu, continuei sozinha com o dono do barco que sussurrando em meu ouvido e apontando os lugares mais exatos com sua experiência, me permitiu antever onde os animais iriam aparecer e, portanto, tirar as melhores fotos. Cheguei a ter tempo de filmá-los, além das fotos e também de abandonar os apetrechos fotográficos para apenas admirar suas acrobacias. De brinde, como estava acima da linha direta do mar, pude ver, mais um pouco afastadas do barco, movimentos de tartarugas, aqui e ali, sempre sob a supervisão de tão gentil cavalheiro. Que presente!!!
Depois da visita de tão brilhantes e graciosas personagens marinhas, o barco parou e pudemos nos fartar com mergulhos com snorkel em pleno mar. Que coisa magnífica! Um mundo de encantamento e sedução. Eu já tinha visto, no dia anterior, um barco parado no mar com turistas nadando em volta. Mal sabia eu que seria uma dessas privilegiadas no dia seguinte.
Voltar desses passeios era garantir deliciosas visões em sonhos noturnos e o despertar visualizando peixes soltos no mar, como se fossem em um aquário gigantesco no interior da mente. Que maravilha! Depois de voltar ao Rio, acordei várias vezes com essa sensação pelo menos por uns 10 dias.
O sol tórrido era a única preocupação, mesmo para mim que adora o calor. Em dezembro é simplesmente escaldante e você não consegue transitar pela ilha sem muita proteção solar e tendo o corpo coberto por uma canga. Foi o que fiz, todo o tempo. Mesmo assim, voltei bem queimada, aliás, com uma cor belíssima.
Sair desse paraíso só mesmo com promessa de volta. E voltarei, estou bem certa, pois as sensações de descanso e paz nos marcam para sempre. Quem foi, sabe disso.
Ali, acompanhada de meu cicerone do mar, vi um belíssimo por-de-sol, de um recanto pouco conhecido pelos turistas, uma pedra a qual você chega, se embrenhando com cuidado pelas ruínas do forte. É preciso conhecer o caminho para chegar lá e ficar colada ao paredão para ver no ângulo certo.
Finalmente, na véspera de voltar, recebi meu último presente da natureza: estávamos em lua cheia. Eu queria ver a lua de uma das praias, já que a ilha não é iluminada a não ser em alguns pontos bem específicos, como o Bar do Cachorro, por exemplo. O pescador nativo prontificou-se a me levar e combinamos estar a postos logo depois da “escola”.
Assim que saí do centro cultural, lá estava ele a minha espera. Tomamos uma das vans e descemos no centro da cidade. De lá, fomos a pé. Achei estranho sermos os únicos. Pensei que seria óbvio que os visitantes quisessem ver a lua em praias, nos espaços magníficos da ilha, junto ao som natural do mar. Mas não: ou vão para o Bar do Cachorro ou talvez para a cama. O fato é que me vi completamente sozinha, na praia mais próxima do centro e, portanto, a mais accessível àquela hora da noite. Perguntei ao meu guia se as pessoas costumavam escolher outra praia. Ele apenas respondeu que não era hábito os turistas fazerem esse tipo de pedido. Ele mesmo não se lembrava de ter levado ninguém para esse tipo de passeio. Mas que eu ficasse tranqüila, a ilha era segura e ele estava comigo. Confesso que fiquei estarrecida. Como as pessoas, numa ilha paradisíaca como aquela, iriam preferir o Bar do Cachorro a curtir uma lua quase cheia enorme, refletida sobre a água, numa praia imensa, ao som do mar, sem luzes da cidade? Pois é... ninguém.
O guia postou-se no início da praia e me disse que eu poderia ficar quanto tempo quisesse. Ele estaria ali, a minha espera. Eu poderia caminhar sem susto pela areia, curtindo a lua como bem entendesse. Assim fiz e não me lembro de outro lugar ou outro momento em minha vida em que tivesse podido ficar entre o mar e a montanha, com o som das ondas calmas em meus ouvidos e a companhia daquela lua enorme, cheia de luz e de paz... esta foi a minha despedida dessa ilha colocada no meio do nada, nesse mundão dos meus deuses... uma ilha que fala por si mesma, por seu povo, por seu porte, por seu encantamento e aconchego.
Parti da ilha no dia seguinte. Na saída, ainda uma última delicadeza: ao acertar as contas com a dona da pensão, perguntei pela taxa extra por ter usado a cozinha do filho, incluindo o gás utilizado. A prestativa senhora apenas respondeu:
- Imagine, foi um prazer para nós. Eu nem sei como iria lhe cobrar isso! Que bobagem!
Não adiantou insistir. Notei que seria uma ofensa a sua hospitalidade. Agradeci, prometendo voltar. E, claro, como boa moça, não vou poder morrer sem cumprir a promessa...
sábado, 12 de novembro de 2011
FERNANDO DE NORONHA (1)
Andar pelas estradas da vida, sem eira nem beira, como quem não quer nada, querendo tudo. Foi o que me levou a Fernando de Noronha.
Tudo começou por causa de Dani, uma amiga que fora passar uma semana por lá com o marido. Veio literalmente enfeitiçada pela ilha. Não sabia descrevê-la, apenas dizia que eu teria de ir lá.
Fiquei com a informação na cabeça e marcar a passagem se deu sem que eu notasse. Caminhava para o consultório, algumas semanas depois e, quando me dei conta, estava dentro do loja da VARIG que existia perto do Copacabana Palace. Passava por lá no meu caminho e quando percebi, estava com a senha nas mãos. Ah, o inconsciente...
Já que estava ali, não me custava assuntar. Tinha milhas sobrando, a coisa era ver se havia voos para a época desejada, fazer a marcação e deixar a vida correr, se fosse o caso. Havia para quase oito meses depois, exatamente em pleno verão, consultório na baixa estação. Reservei as passagens e deixei os meses passarem tranquilamente. De vez em quando me lembrava das férias programadas.
Os meses passaram depressa, como acontece, principalmente, nas cidades grandes. Muito bulício, muitas coisas a fazer. Muito trabalho, felizmente. Mas dezembro chegou e com ele, o sol tórrido. Estávamos perto do Natal, época fantástica para sair da cidade e passar uns dias tranqüilos numa ilha qualquer.
Ilha qualquer? Eu não tinha a mínima idéia do encantamento que me esperava!!!
Naida, irmã da vida de anos e profunda conhecedora dos encantos da natureza brasileira, em suas viagens sem fim, me emprestou pés de pato, um snorkel e os óculos para mergulhos de superfície. Eu nunca tinha feito nenhum, mas ela me garantia que era só colocar o rosto na água que a natureza faria o resto, tal a sensação de encantamento que a vista sob a superfície me causaria. Enfiei os apetrechos na pequena mala, que só precisaria de roupas de banho, bermudas ou shorts, blusas de verão e, para conferir, um pequeno agasalho que só usei no avião.
Desembarquei na ilha, acolhida por uma espécie de “alfândega” para ingresso na natureza. O passaporte é uma taxa cobrada pelo governo federal para manutenção da ilha e também para limitar o número de turistas, com dia de chegada e partida, pois a ilha só suporta um número específico de visitantes por dia. Quanto mais tempo você fica, mais alta é a taxa, em progressão quase geométrica.
Uma boa medida é mesmo uma semana. Não é necessário mais do que isso para conhecer toda a ilha e curtir tudo o que se tem direito. Uma semana por vez, é claro, pois quem vai fica cativo do feitiço do lugar. Posso garantir isso aos amantes das belezas naturais, como eu.
Dani estava certíssima. Eu já estava encantada só no percurso da “alfândega” para a pensão. Quando fui, praticamente não havia hotéis ou eram mais do que caríssimos. Há um estímulo especial para que os visitantes fiquem em pousadas que são adaptações de antigas moradias do lugar. Assim, os nativos ganham seu sustento, diversificando atividades. As reservas tem de ser feitas antes da chegada e os donos das pensões nos vão buscar no aeroporto, assinando um termo de compromisso pela hospedagem. Se você não tem hospedagem previamente reservada, não entra.
Pois bem... lá estava eu, na Pensão da Tia Zete. Logo de saída a primeira delicadeza, tendo em vista minha dificuldade com a alimentação. A pensão oferecia o café da manhã e saí em busca de um lugar que me desse a alimentação adequada. Na época, não achei um lugar em que pudesse comer a meu modo por uma semana. Voltei para a pensão e a própria tia Zete me indicou supermercados e lugares onde poderia me alimentar com algo mais suave. Depois, imediatamente, mudou de idéia. Pediu que esperasse um minuto, embrenhou-se por dentro da pensão e voltou com uma chave. Colocou-a em minhas mãos e disse que pertencia à cozinha de seu filho, da casa quase ao lado. Eles estavam em Recife e eu poderia me servir da cozinha do casal para cozinhar minha própria comida, se quisesse. Melhor que isso, só se fosse igualzinho!
Nem sabia como agradecer, mas ela tratou o caso como a coisa mais natural do mundo. Então, eu mesma passei a fazer minha comidinha quentinha e gostosa a qualquer hora que chegasse, quando não quisesse comer na rua, tendo a chave da casa de seu filho nas mãos! Incrível.
Dali, me mandei para a aventura. E é aqui é que este conto empaca. Não dá para descrever. Não mesmo, sem as fotos que contem a história por si mesma. Na verdade, muitas vezes, elas são o texto, por cima e por dentro do mar:
Uma caminhada pela ilha de apenas 17 quilômetros foi feita, palmo a palmo, no decorrer da semana. Os dias foram exatamente iguais e totalmente diferentes, cada um. Descobri desde o primeiro momento que poderia fazer o que quisesse sozinha, entrando em uma ou duas excursões no máximo. O resto era só colocar o pé na estrada e andar. Os turistas começavam a aparecer nos passeios só depois das 9 horas. Se eu acordasse cedo, teria a ilha só para mim até essa hora, podendo caminhar sozinha pelas praias e recantos, aproveitando os sons da natureza sem o bulício das pessoas espantando os animais. Assim fiz, deixando que a paisagem, os animais e os sons naturais se misturassem comigo nas primeiras horas da manhã.
Depois, que aparecessem as pessoas, mas eu já tinha aproveitado boa parte do paraíso. Uma bolsa leve com o essencial e muita água me faziam voltar apenas ao entardecer.
O resto era curtição. Eu fui na época mais árida, sem flores e relva. E já achei linda!
De brinde, uma aula de ecologia, em plena medição rotineira de tartarugas por um cientista do IBAMA.
Na volta, um banho, uma boa comidinha e ir para o que comecei a chamar de “escola”, que começava exatamente às 20 horas, no centro cultural: um filme sobre a natureza da ilha e uma palestra de um dos pesquisadores do IBAMA. Naquele dia da foto da tartaruga, por coincidência, o palestrante era o mesmo das fotos acima.
Isso acabava às 22 horas. Depois disso, as vans nos levavam de volta à pensão ou... ao “Bar dos Cachorros” , assim chamado por estar perto da praia de mesmo nome, por conta dos inúmeros cachorros do lugar. Este bar era a única atividade noturna da cidade. Os turistas para lá se dirigiam para chopinhos, farrinhas e bagunças até a madrugada. Não tenho uma foto do bar, mas de um outro botequinho, onde se comia uma espécie de panqueca doce prá ninguém botar defeito. Só que todo mundo ia mesmo para o bar dos cachorros, que era a cara desse aí, só que na rua de baixo.
Para mim, o programa não estava combinando em nada com a proposta do lugar e, então, eu preferia mesmo me retirar, para acordar bem cedinho e recomeçar minhas excursões. Eu, que caminhara o dia todo, desde cedo, e disposta a aproveitar a ilha ao máximo, ia direto para a cama. Natural que já estivesse despertinha às 6 da manhã para mais uma aventura.
Esse desprendimento de excursões faz você viver melhor a cultura local. Você deixa de ser turista para entrar para a classe dos... “visitantes” . Aliás, fiz isso em todas as minhas viagens, quer no Brasil, quer no exterior. A vantagem é que você convive com as pessoas mais naturalmente e também com os lugares ficando mais ou menos de acordo com sua vontade, o que nem sempre é permitido a um simples turista que se coloca de passagem, geralmente, aos bandos. Nada contra quem prefere, mas esta minha opção me garantiu, sempre, umas vivências locais diferentes e interessantes.
No primeiro dia, por exemplo, andei tanto tanto tanto que, ao voltar para a pensão, na subida final e numa das inúmeras ladeiras, me senti completamente sem pernas. Esperei o primeiro ônibus e perguntei se passava perto da pensão. Foi quando descobri que havia só uma estrada, só uma linha, só dois ônibus: um indo e outro vindo. Não havia o que errar. Se você estiver na estrada, está no caminho certo, no decorrer dos únicos 17 quilômetros de extensão. Andei apenas dois pontos e, na hora de descer, ao pagar, ouvi a prenda:
- Por dois pontos? Como vou cobrar? Fica como carona! Bom descanso.
Coisas de cidade do interior!
Dali tive forças para atravessas a rua em busca de um dos únicos pontos de internet da cidade. Queria noticiar os amigos, dizendo que fizera boa viagem e estava tudo bem. Entrei e pedi uma ficha para conexão. Foi quando escutei uma deliciosa resposta:
- Chi, hoje o satélite está com preguiça, está tão lento que você vai gastar dinheiro à toa. Melhor voltar amanhã.
Pois é... que cidade grande faria isso?
Descobri bem depressa que o dinheiro local tinha uma peculiaridade. Quase tudo valia um “noronho”.
- Um “noronho”?
- É, dois reais... já notou que a nota traz a foto de nossa tartaruga marinha?
Não, eu não tinha notado, mas nunca mais me esqueci. E usei “noronhos” para cima e para baixo, durante toda a semana, completamente integrada ao jargão.
Numa das caminhadas, conheci um nativo. Um jovem pescador que logo se ofereceu para me levar para um bom mergulho no mar de dentro. Isso significa que você põe um snorkel, um pé de pato, óculos de proteção e praticamente caminha (a nado, naturalmente) por dentro do mar, com uma mão dada ao seu guia, olhando os peixes, com uma máquina à prova d’água na outra mão, completamente despreocupada de por onde está indo. Os nativos sabem muito bem os caminhos e levam você para ver as tartarugas, nadar atrás delas sem assustá-las,
ver pequenos filhotes de tubarões inofensivos e a mais variada fauna e flora marinha da região.
Quando ele me orientou com um gesto a olhar na superfície para ver onde estávamos, percebi que a praia estava a mais de um quilômetro de distância! Eu tinha nadado assim durante quase uma hora sem perceber! E mais: como voltar?
- Agora é fácil. Até aqui, eu tive de trazer você. Agora, a maré nos leva de volta!
Mas o que mais me chamou a atenção, neste passeio, foi que, ao sair da água, meu guia trazia, na mão supostamente livre, uma caixa vazia de suco, encontrada no mar. Eu tinha notado que, logo no início do passeio, ele a tinha colhido, mas não prestei mais atenção. A partir daí, no entanto, ele a levou por todo o percurso, uma das mãos ocupada comigo e a outra, levando o entulho até voltarmos para que ela fosse colocada numa cesta de lixo da praia. A conscientização dos moradores da ilha, no que se refere ao ecossistema é fantástica. Eles recolhem o lixo deixado pelos turistas onde quer que o encontrem e, sem uma palavra sequer, apenas o direcionam para as caixas de lixo locais. É mesmo incrível.
Mas está ficando longo demais. Conto o resto na semana que vem.
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