sábado, 30 de outubro de 2010

REGINALDO


Formada em 1973, emendei em um concurso público para professora do Município do Rio de Janeiro, ensino fundamental. Naquela época, passar em concurso, com raras exceções, significava ser mandada para depois de onde judas perdeu as botas. Será diferente hoje em dia? Não sei. O fato, em si, não me chateou. Apesar da distância, dar aula em uma área menos favorecida me atraía, alimentando minha vontade de estar mais próxima da realidade de nossa sociedade carente. O problema era chegar lá.

Como tinha sido convidada a dar aulas na Universidade onde acabara de me formar, ir para Campo Grande, zona rural, exigia uma estratégia em alto estilo, pois os horários praticamente se emendavam. E era uma viagem, sem dúvida. Na mocidade, no entanto, isso não conta e está sempre tudo bem.

Aos novatos estavam sempre reservadas as piores turmas. E uma delas era conhecida como a turma do Reginaldo. Soube o que isso significava ao pegar meu horário e os diários de classe na secretaria:

- Você vai pegar a turma do Reginaldo? Chi...

Como recém formada, sem experiência nenhuma, aquele “chi” esfriou cada vértebra de minha coluna. Mas não tinha jeito. Fingi que não tinha ouvido e segui para o desconhecido. Justamente a turma do Reginaldo estava com o horário cortado pelo recreio. Se a turma era difícil, dar duas aulas interrompidas por um recreio, seria pior ainda. E, no dia seguinte, a turma pegava os dois últimos horários, o que também era pesado, já que os alunos, geralmente, ficam agitados, ansiosos por irem embora. Mas eu procurava não pensar nisso.

Entrei na sala com atitude de quem sabia o que estava fazendo. A porta ao fundo da sala, me fez percorrer o caminho até a mesa, passando pelas mesas dos alunos. Literalmente, andar pelo meio da turma. Cumprimentei-os, ninguém respondeu. Logo na entrada, ouvi a observação de um dos meninos:

- É isso que vai dar aula pra gente?

E ele tinha razão. Aos 22 anos, concordo que eu tinha cara de uns 16, no máximo. Ainda tinha de mostrar minha carteira de identidade em filmes de 18! Fingi não ouvir e consegui alcançar a mesa viva.

Eu estava recém formada, com tudo fresquinho na cabeça e uma vontade imensa de ser uma boa professora. Mas era uma diferença gritante sair de uma universidade da zona sul, onde horas atrás eu tinha dado aula de grego e cultura clássica para enfrentar a turma do Reginaldo, mais da metade dos alunos trepetentes, isto é, cursando o mesmo nível pela terceira vez. Mas aí justamente talvez estivesse o sentido de estar ali, era o que contestava minha alma jovem e cheia de ideais.

Apresentei-me à turma e parece que aquele momento foi o único em que consegui ter a turma atenta nos dois próximos meses. Eu estava doida para saber quem era o Reginaldo, mas não dava o meu braço a torcer. Também não queria me arriscar a fazer a chamada da turma logo no começo, já que eles estavam atentos. Mas durou pouco, havia um bulício que me fazia sentir como se estivesse ali dando aula a ninguém. Foi um custo falar até que a campainha do recreio me salvou. Ufa, intervalo. Mas um negro de alto porte levantou-se, dirigiu-se à porta e fechou-a, dizendo:

- Hoje ninguém sai.

Reginaldo. Dispensado de melhor apresentação. Encostado à porta, olhava para mim. Me lembro que entrei em pânico e dizia para mim mesma ter calma. Tudo me passava pela cabeça, menos gritar por socorro. Não teria voz, eu sei. Aí, me lembrei da minha professora de Estrutura e Funcionamento de Ensino, que aliás, em termos de conteúdo nada teria a dizer para mim naquele instante. Mas aguçou minha memória uma observação que ela tinha feito num dos intervalos de aula: muitas crianças só iam à escola por causa da merenda. Santa professora, nem sabe como isso me salvou, nesta hora à beira do abismo. Olhei para a turma e disse:

- Eu estou com fome e vou lanchar. Quanto a vocês, não sei.

Me dirigi à janela, pulei, dei a volta pelo pátio e entrei na sala dos professores. Não sabia o que fazer. Olhando pela janela, vi a turma no pátio. Ele tinha liberado a turma. Falar com a diretora? Tinha medo de perder a autoridade de vez, não só perante a turma, mas também pela vergonha que sentiria diante dela, uma senhora, perto dos meus inexperientes 22 anos. A próxima aula era na mesma turma, o que fazer? Com certeza estariam esperando por alguma repreensão, alguma atitude, talvez eu fosse acompanhada da diretora ou coisa assim. Não fiz nada, talvez mais por medo do que por iniciativa. Voltei morrendo de medo por dentro, mas fingi que nada tinha acontecido. Passei uma redação, pois me sentia incapaz de dar aula. Meu medo era o de que simplesmente se negassem a fazer. Reginaldo me enfrentou novamente:

- E se eu não quiser fazer?

- Não faça. Não vai valer nota mesmo. É só para eu sentir como vocês estão escrevendo.


Não me lembro se ele escreveu. Lembro-me apenas que o nível da turma era baixíssimo. E a turma era completamente diversificada, tendo alunos de 12 a 17 anos. Reginaldo era o mais velho e também o mais forte. Segundo o conceito dos professores, também o mais marginal. Eu não sabia até onde corria o significado de “marginal” e era, na verdade, a última coisa que queria saber para tentar enfrentar melhor o meu medo, naquele dia.

O fato é que o horário escolar terminou e eu fui apresentada a outra intempérie: os professores deveriam sair juntos para atravessarem, com segurança, a Estrada Comari, rumo a Barão do Monte Alto. Se não fosse com o grupo, não daria para pegar o ônibus das 19:20. Ninguém se arriscaria a descer sozinho pela Comari, mato alto dos dois lados, naquela escuridão. Sair no horário passou a ser, portanto, uma questão de honra, todos reunidos na saída da escola às 19:05. Quem não estivesse ali, não dava para esperar. Significaria perder o ônibus.

Cheguei em casa meio aos prantos. Jurei nunca mais voltar lá. Telefonei a uma grande amiga, psicóloga, bem mais velha do que eu, que já tinha trabalhado em um presídio no Rio de Janeiro. Que sorte a minha! Deu-me todo colo profissional que eu precisava. E soube dá-lo como ninguém. Por uma questão de responsabilidade, voltei no dia seguinte. Dali, teria todo o resto da semana para saber o que eu faria e, com certeza, muitos e muitos papos com essa amiga caída dos céus. De pronto ela me fez ver que seria questão de honra conquistar Reginaldo. O resto seria fácil. Mas como conquistar aquela fera? Meu estômago dava um nó só de olhar para ele. Conversei também com a diretora. Por incrível que pareça, o que ela disse foi fundamental:

- Reginaldo não é má pessoa, querida. É um jovem muito sofrido, nem sabe quem é o pai. Outro dia o vi entregar roupa numa casa aqui perto. Sua mãe é lavadeira. É certo que tem um comportamento marginal, mas acho que é a forma que ele encontrou de ser respeitado nesse fim de mundo. A região aqui, como você vê, não é fácil. E ele é muito respeitado na rua por todos.

Que mulher! Ao contrário de todos, na escola, tinha o olhar de lince, o carinho, o cuidado, a seriedade que, logo percebi, eram os responsáveis por faze-la tão querida por professores, funcionários e alunos.

Mas voltemos aos fatos: conquistar Reginaldo, o menino que não era má pessoa. Sorri no meu desespero e parece que a vida estava começando a facilitar as coisas para o meu lado. Eu ia à escola às segundas e terças. Na segunda seguinte, ao entrar na sala, vi Reginaldo com dois profundos cortes no braço. Muito fundos. Não perguntei nada e segui em frente. Tinha um pacto com minha amiga de seguir a risca suas orientações e não queria dar mancada alguma. Por que eu continuava lá? Não me pergunte, pois até hoje eu não tenho essa resposta. Minha amiga, no entanto, era a tábua de salvação e à noite contei o que vira a ela. No mesmo momento ela soube identificar o ferimento: briga com navalha dupla.

- O que é isso?

- Briga com duas navalhas em uma só mão. Precisa ter muita destreza e parece que esse seu aluno tem. Mas levou um bom talho. Quando se luta com duas navalhas o objetivo é ferir o adversário cortando-o com as duas lâminas ao mesmo tempo. Assim, a cicatrização é muito lenta, pois a pele que puxa para cicatrizar um lado, abre a ferida do outro. Esse seu menino não é brinquedo não e, se ele só se feriu no braço, com certeza levou a melhor.

- O que eu faço?

- Nada muito direto. Compre tudo que você achar que seria bom para curativo, coloque num saquinho discreto e, quando passar pela carteira dele, amanhã, coloque em cima da mesa dele e diga baixo e discretamente: para o seu ferimento. Depois, siga em frente e finja que não fez nada. Vamos ver como ele reage. Se a diretora disse que ele é um bom menino e como me chamou a atenção que ele entrega a roupa para mãe, pode ser mesmo que talvez esse seja um bom começo. E não olhe para ele durante a aula, de jeito nenhum. Assim, ele não se sentirá focado no resto do tempo. Pode constrangê-lo ou mesmo irritá-lo.


Fiz exatamente o que ela mandou e procurei não olhar para ele durante toda a aula, como estava prescrito.

Na semana seguinte, consegui dar alguma aula na segunda, muito embora tivesse de enfrentar o período antes do recreio e depois do recreio. Na terça, a turma pegava os dois últimos tempos e eu caí na besteira de dar uma redação. Foi aí que aconteceu. Reginaldo e seu amigo mais chegado, Paulo César, esticaram o tempo e diziam não terem terminado a redação no final da aula. Eu não sabia o que fazer, já que teria de me encontrar com o tal grupo de professores para pegar o ônibus. Se perdesse o grupo, teria de esperar os professores do turno da noite saírem. Chegaria de madrugada em casa! Mas não tive coragem de reagir. Estava nervosa, sem saber como resolver o problema e percebia que eles estavam mesmo enrolando. Parecia de propósito. Me entregaram o trabalho depois das 19:05. Eu perdera a companhia dos colegas. Jurei que não voltaria mais ali. Não precisava me expor a tal ponto. Me encaminhei para a diretora para pedir orientação. Já tinha ido embora. A secretaria fez aquele “chi”, de novo. Acho que ela tinha esse “chi” na ponta da língua para tudo. Deveria ser vício de linguagem. Aconselhou-me, no entanto, a ficar no portão do colégio para tentar, quem sabe, alguma carona de alguém que tivesse ido de carro ou algum grupo que fosse descer a rua. Caso contrário, só mesmo esperando terminar o turno da noite. Telefonei para casa avisando que perdera o ônibus. Embiquei para o portão. Dois vultos na penumbra, do lado de fora. Nada mais nada menos do que Reginaldo e seu amigo. O que estariam fazendo ali? Ao me verem, se aproximaram e Reginaldo me disse:

- Professora, vamos acompanhar a senhora até a Barão.

Referia-se à Barão do Monte Alto, a tal rua do ônibus, lá embaixo, depois de atravessar sete longos minutos da tal Estrada Comari.

Senti meus ouvidos zunirem, fiquei um pouco tonta, meu estômago congelou. Eu não sabia se isso era bom ou mal. Mas todo o meu corpo se sentiu em perigo. Adrenalina pura. Eu tinha de resolver o que fazer. Negar? Estaria perdida nas aulas seguintes. Aceitar? O que poderia me acontecer? Acreditei nos anjos, acreditei nas palavras da diretora “Reginaldo é um bom menino”, mas estava muito claro para mim que aquilo era uma armação. Eles tinham se atrasado e estavam me esperando ali. O que fariam comigo? Até hoje, eu não sei por que aceitei. Se alguém estivesse me contando essa história eu diria com certeza que, se fosse eu, não tiraria os pés da escola nem que os deuses do olimpo viessem em bando tentar me convencer do contrário. Mas fui. E, aí, aconteceu o inusitado. Passamos por vários grupos esquisitos, uns jovens mal encarados, alguns com bebida nas mãos. A Estrada Comari não tinha qualquer iluminação e era rodeada, dos dois lados por terrenos baldios. Os bandos que encontramos estavam conversando em pé, todos eles. Não vi armas, não vi nada, mas eu tremia da cabeça aos pés. Reginaldo engrenou um papo cujo conteúdo não sei dizer qual foi. Ele via que eu estava apavorada. Na verdade, não sabia se ele estava falando comigo ou com o amigo. Eu andava meio ensurdecida, meio anestesiada, pronta para sucumbir ou ser sucumbida. Mas eles foram atravessando cada roda de marginais dizendo:

- Licença aí pra professora, licença aí pra professora.

Não cheguei a me acalmar, nem a sair do estado de alerta, mas algo me dizia que eu não corria perigo. Pelo menos, não iminente. Enfim, chegamos ao ponto do ônibus e Reginaldo apenas me disse:

- Agora ninguém deve nada a ninguém. Pode descer sozinha quando quiser, que ninguém vai mexer com a senhora.

Caiu a ficha. Ele estava me pagando o favor. Eu lhe dera curativos na véspera. Ele me dera proteção na rua. Vim para casa sem saber se isso era bom ou mal. Pela minha amiga, era bom. De alguma forma, eu tinha tocado em algum ponto importante do jovem. Talvez as coisas rumassem melhor a partir daí.

O fato é que, realmente, quando eu me atrasava, descia a Comari sozinha, encontrando os grupos que sempre me cumprimentavam: “boa noite professora”. E ninguém mexia comigo. Poderoso esse Reginaldo. Muitos anos depois, essa imagem também se desfez. De modo geral, os professores são respeitados e tive outras oportunidades de entrar em favelas ou bairros suspeitos, tendo sido apresentada antes como professora. Às vezes, penso como seria bom sermos assim tão respeitados também pelas autoridades em nossa profissão. De qualquer modo, a atitude de Reginaldo fora diferenciada e ele, com certeza, queria dizer algo para mim. Alguma coisa me dizia que eu tinha conseguido tocar um pedacinho de seu coração. Será?

Minha brilhante amiga me instruiu direitinho: eu precisava mostrar ao Reginaldo que sabia que a liderança era dele e que eu dependia dela para conseguir dar aula. Ao contrário do que aprendemos na academia, a questão, ali, não era mostrar que quem manda é o professor. A psicologia era outra. Ela me dirigia como quem dirige um barco no meio da tempestade, mas sua destreza com a experiência anterior no presídio tinha sido um presente dos céus para mim. Então, fazer tudo para que minhas aulas dependessem da liderança do Reginaldo. Assim, eu não estaria nem de longe querendo tocar em sua autoridade diante da turma. Diante da fragilidade da situação, me parecia mesmo o melhor seguir seus experientes conselhos.

Na semana seguinte, no meio da aula, se é que se poderia chamar aquela bagunça de aula, Reginaldo me chamou, levantando a mão. Me dirigi a sua carteira e ele me mostrou um saquinho. Pensei que ele iria devolver o apetrechos de curativo que eu tinha levado na semana anterior. Não era isso. Perguntou-me:

- Sabe o que é isso?

- Não.

- Tem um sapo aqui dentro e pretendo soltar ele na sala. Mas vou esperar sua aula acabar. Talvez eu solte na outra. Mas se a senhora dedurar vou considerar traição.


Que dilema! Estaria expondo meu colega que entraria depois. O que fazer? Fui totalmente covarde e sofri por isso por um longo tempo. Não disse nada. Pela primeira vez, e logo no início de minha carreira, me senti traindo um colega. Esse amargo na boca me custou muitas noites de sono. Noites sem conta. Na semana seguinte soube o que acontecera: o colega entrou, viu o sapo e simplesmente saiu da sala. Não deu aula naquele dia. Segundo ele, não “se esquentou” com a questão. Simplesmente foi embora mais cedo. Deveria ter-me aliviado, mas, na verdade, a marca de minha postura me tocou profundamente. Sei o quanto isso foi valioso nas minhas conquistas junto a Reginaldo, mas o amargor que este fato me custou marcou um aprendizado de ética que me custou bem caro em todas as outras oportunidades futuras, às quais fiquei duplamente atenta. Às vezes, é mesmo preciso errar para aprender. Se é que aquilo teria sido um erro. Mas eu o via como tal.

Depois do episódio do sapo, no entanto, só faltou mais um fato para a conquista definitiva de Reginaldo. Na semana seguinte, quando estava ainda no corredor, caminhando em direção à sala, um dos alunos veio me avisar que Reginaldo estava completamente bêbado. Meus deuses, e agora? Um marginal bêbado dentro de sala, como seria? O que eu estava fazendo ali! Entrei pronta para sair, caso a coisa estivesse feia. Que se danasse a psicologia, eu não ficaria com um marginal bêbado dentro de sala. Era coisa para a diretora resolver. Felizmente, no entanto, não sou precipitada. Entrei. Reginaldo estava completamente caído da cadeira, recostado na parede, não sei como. Paulo César me disse que ele tinha tido um confronto com o chefe de outro grupo. Disputaram quem conseguiria beber mais sem cair. Era, portanto, uma disputa de fortaleza e liderança. Reginaldo tinha vencido, pois conseguiu sair e andar até a escola sozinho. Mas, ali, ele estava imprestável. Senti, no ato, que ele estava completamente incapacitado a fazer qualquer algazarra, tal o estado de prostração. E eu estava ficando mais espertinha. Cheguei perto dele e falei:

- Ok, sei que você não está bem. Vamos fazer um acordo: eu não digo nada na diretoria e você não atrapalha minha aula.

Eu estava em vantagem. Ele sequer conseguia abrir o olho quanto mais me responder! Paulo César tomou a liderança da turma e mandou todo mundo calar a boca e ai de quem falasse qualquer coisa na secretaria. Foi o primeiro dia em que dei aula tranquilamente. A turma estava meio em choque. Realmente, eu estava em vantagem. Ademais, Paulo César mandava todo mundo ficar quieto, provavelmente, para não chamar a atenção do inspetor de alunos para a sala. Pegar Reginaldo naquele estado, com certeza, daria confusão.

Dali por diante, fui conquistando a turma aos poucos e não me lembro bem como, no mês de maio (lembro-me disso por causa do meu aniversário), era a turma em que eu conseguia dar as melhores aulas. Na entrada da sala eu já dizia:

- Reginaldo, cheguei.

Nunca foi verbalmente combinado, mas eu não olhava para a turma até ele me dizer:

- Pode começar professora.

Era como se eu não estivesse lá. O que ele fazia, eu não sei. Só sei que eu me virava de costas, apagando o quadro negro, enquanto ele punha ordem no caos. Às vezes eu ouvia o som de caderno voando ou coisa assim. Turma sentada, todos nos lugares e em silêncio:

- Pode começar professora.

Se, no meio da aula a bagunça começava a aparecer ou havia muito bulício e dispersão, eu apenas dizia:

- Reginaldo, dá um jeito na turma pra mim?

Quando aquele negro, alto, de porte altaneiro, de bigode, começava a se levantar, todo mundo sentava. Mas seus olhos, no fundo, eram muito doces. Daí para ficarmos amigos não demorou muito. E, se no primeiro mês ele teve conceito “E”, posso orgulhosamente dizer que em setembro, ele ostentava um belíssimo “B” na minha disciplina. E, posso garantir que foi às próprias custas, pois nunca dei refresco a ninguém.

Se há um aluno de quem sinto especial saudade é o Reginaldo. Chegamos a conversar algumas vezes, em alguns intervalos. Seu sonho era ser médico, mas, segundo ele dizia, era tarde demais.

- Eu não vou poder estudar pra medico. Eu sei disso. Não é pra mim. Estou velho, vou fazer 18 anos e aí, não poderei estudar mais. Vou servir o exercito no ano que vem. Acho que é o máximo que vou poder fazer da minha vida. Quem sabe, eu acabe um bom soldado.

Tenho lágrimas nos olhos ao escrever isso, ao me lembrar de seus olhos negros e profundos. Eu nem sei se ele iria querer mesmo ser médico, se foi um sonho de momento. Mas a dor de ver alguém tão precioso e de olhar tão doce, perdido num canto qualquer do mundo, se vendo sem chance, multiplicou em mim, a consciência de como vivemos tão longe da realidade social. Olhar de fora e de longe é muito diferente do que sentir, na pele, a vida dessas pessoas.

Nunca mais soube do Reginaldo. Na verdade o tremendo esforço de me despencar da universidade para Campo Grande, debaixo de sol ou chuva, colocando botas para subir a Estrada do Comari, tendo almoçado apenas um biscoito na viagem entre a zona sul e a rural, e ficando sem comer até as 22 horas, custou-me um preço muito alto e tive de abandonar o Município e ficar só com a universidade, após uma licença de três meses para cuidar da saúde.

Hoje Reginaldo estaria com 52 anos, provavelmente. Gostaria de reencontra-lo para saber de sua vida. É mais provável que eu tenha me apagado nos rastros de seu passado. Para mim, no entanto, ele foi um grande marco de amizade, de pacto, de aprendizado e de amor incondicional sincero. Amei-o como se ama a um “filho emprestado”, encontrado, sem querer, à beira da estrada da vida. E do mesmo modo que nos encontramos, de repente, seguimos, cada um, o seu caminho. Mas, para mim, ele estará guardado no meu coração para sempre.

sábado, 23 de outubro de 2010

O MICO


Cônsules são tão cuidadosamente formados e preparados para a função que não se espera um mico, principalmente em situações delicadas. Nós nos esquecemos de que são humanos. Não perdoamos a gafe. Mas essa é mesmo digna de nota.

Tudo começou quando fui visitar uns amigos em Manaus. Ele, militar da marinha, super conceituado, foi designado para uma missão na Amazônia, por dois longos e intermináveis anos. Digo isso, como amiga distante da família, presa no Rio pela saudade principalmente de sua esposa, minha ex-aluna e amiga, saudade dele mesmo, que considero um doce irmão, da mãe e das crianças, naquela época, bem pequenas.

A oportunidade de visitá-los surgiu, um ano depois de sua ida, nos feriados da independência. Meu “irmão” iria estar de folga e poderíamos curtir bem os feriados, conhecendo os cantos gostosos dos meandros amazonenses, dando descanso à saudade. E fui. Na mala, apenas roupas esportivas e, para não deixar uma mala feminina incompleta, um vestido para jantar. Nunca se sabe.

Graças aos deuses as mulheres pensam no “nunca se sabe”. Nesse caso, esse nunca se sabe aconteceu em todas as cinco noites ocorridas em Manaus. Todas. Ocorre que meu querido comandante foi, à última hora, convocado para fazer as honras às nações vizinhas que vieram em suas embarcações ao Brasil para oferecerem suas homenagens ao evento da independência. Mais especificamente, navios da Guiana Francesa, Paraguai e Uruguai. Nosso feriado foi para os ares, pois, fazer as honras significa ser responsável por todos os requisitos do anfitrionato, durante o dia, e aos jantares durante a noite, levando a família, naturalmente. Isso queria dizer um jantar na embarcação de cada um dos navios estrangeiros em cada noite, mais a noite no navio brasileiro e, para encerrar, um jantar na casa de um cônsul que não vou dizer qual é, pois a gafe veio mesmo dele. Tudo isso sem contar com um ataque simulado de guerra que teria de ser comandado pelo nosso ilustre chefe de família, fazendo parte do kit, o que significou que ele não podia estar conosco nas horas diurnas, enfurnado que ficou no comando das estratégias do exercício militar. Brincadeira de bandido e mocinho.

De qualquer modo, pelo menos, vi a família e passei por momentos muito interessantes. O comandante brasileiro, como disse, foi convidado a cada noite para jantar em um dos navios. Ele e sua família. Bom, eu não era da família e já estava me preparando para ficar em casa, lendo um bom livro, já que, às noites, não teria o que fazer sozinha pela cidade. Manaus, à noite, naquele tempo, só mesmo para quem conhecia. Agora não sei como está. Mas nem passou pela cabeça de nosso comandante me deixar em casa. Meu “irmão” não fez por menos. Colocou-me na lista familiar. É preciso, a esta altura, esclarecer que somos de raças diferentes. Bem diferentes. Ele é um negro de porte, ombros largos, alto, tipicamente filho da África. A esposa também da raça negra e eu, como você já viu nas fotos, porte delgado, branca, de olhos claros. Mas, tudo bem. Seu comandante ordenou, quem sou eu para discutir. Só que à entrada no primeiro navio, talvez mais por carinho do que por outro motivo, fui apresentada como sendo sua irmã. E assim ficou, como um epíteto carinhoso. E, depois da apresentação do primeiro dia, tendo sido tudo tratado com a maior naturalidade, me senti um pintinho no lixo, super à vontade, com o novo título.

O fato é que nos consideramos irmãos mesmo e isso, no fundo, era muito natural. E nos conhecíamos há tantos anos que eu mesma não me sentiria não irmã, em algum momento. Justiça seja feita: as coisas estavam no lugar. Só no dia do jantar do cônsul é que fomos perceber o quanto o fato tinha chamado a atenção de todos e como tinha sido levado a sério!

Depois de todos saírem da mesa e estarmos em grupos pela sala, o cônsul sorridente, me perguntou:

- Há quantos anos vocês se conhecem?

Levando a brincadeira adiante, apenas respondi:

- Desde que ele nasceu, já que sou mais velha.

Pelo olhar admiradíssimo do cônsul, percebemos, no entanto, num segundo, toda a história daqueles dias, os supostos comentários e a tremenda curiosidade em torno do fato. Mas aí já era tarde, fiquei firme. Meu irmão colocou a mão sobre o meu ombro e ficou firme idem, dando força ao pedaço. Acho que surgiu, de repente, em nosso espírito altaneiro, a luta contra a discriminação. Sua mão no meu ombro contou tudo e, ali, se concretizou a defesa de nossos princípios.

Mas o cônsul não percebera e capturado, talvez, menos pela singeleza da resposta do que pela estupefação insistiu:

- Mas vocês são irmãos mesmo, de mesmo pai e da mesma mãe?

Isso, com certeza, feria o protocolo. E muito. Não era pergunta que se fizesse em alto em bom som, em pleno território brasileiro (ou qualquer outro lugar do mundo!), em um jantar oficial, com os cerimoniais de praxe, vinda de uma pessoa com quem não tínhamos qualquer intimidade. A brincadeira ingênua dos primeiros dias, de repente, valia uma defesa de princípios! Num pacto de segundo, meu irmão e eu percebemos que a gafe agia por si só e merecia ausência de resposta para ficar mais contundente. Apenas olhamos para ele. Nós e todos os convivas. Silêncio geral, “daqueles” silêncios desconcertantes.

Eu não tinha a mínima intenção de ajudá-lo a consertar o mico. Teve de fazê-lo sozinho, convidando a todos para se deslocarem para a outra sala, para um café.

Um sem número de vezes, durante a vida, tive de optar pelas cidadanias da minha alma, todas, quase sempre, ligadas aos direitos de classes discriminadas socialmente. Em todas felizmente, tive a chance de colocar meus princípios a favor da minha liberdade de ser, acima de tudo, uma cidadã do mundo.

Fui para casa radiante por dentro, com a alma em festa por ter deixado tão mal uma eminente autoridade do “nada”. Agradeço a esse cônsul, portanto, mais uma noite de sonhos bem dormida. E também a meu irmão, por termos feito isso acontecer.

sábado, 16 de outubro de 2010

O PAPA


Fui a Roma e não vi o papa. Tinha tanta coisa a fazer na Itália, que, realmente, não deu. Em princípio, nada contra o papa. Era mesmo uma questão de tempo ou, quem sabe, um excesso de terços e ladainhas, já estressantemente vivenciados em meus dez anos de internato. Por conta de reza, portanto, com certeza não estaria eu em falta.

Mas fui ao Vaticano. Palmilhei a cidade atrás das artes, da biblioteca, da própria basílica que é estrondosamente interessante, embora eu não a tenha achado a mais bela do mundo. É difícil derrubar a beleza de Notre Dame, o encanto da Saint Chapelle, a monumental Catedral de Colônia, só para citar algumas, já me esquecendo da Catedral de Milão e da indescritível porta do sol do Batistério de Florença... de qualquer forma, me encantei com muitos dos inumeráveis detalhes da catedral mor da cristandade.

Só não agüentei visitar o tesouro do papa. A santa igreja que me desculpe, mas tudo que aprendi no internato a respeito dos votos de caridade e pobreza foi palmo a palmo desmentido no meio de tanta escandalosa riqueza.

Não tenho nada contra riquezas. Nadica. Cada um que tenha a sua com direito de posse e postura que mais desejar. Sejamos ricos ou pobres a nosso gosto ou desgosto, ninguém tem nada a ver com isso. Se você quer dividir o que tem com alguém que tem menos do que você, problema e gosto seu. Qualquer tipo de julgamento a esse respeito, para mim, está destituído de senso de valor.

Não tenho posições políticas a respeito. Não me considero capitalista, nem socialista. E também não jogo na coluna do meio. Sou nada. Que me considerem alienada, não me importo. Mas sei que sou uma pessoa de profundo bom senso. E não cabe no meu bom senso ter aprendido que os religiosos fazem votos de pobreza e cada papa, sob o argumento de conter a representação de um “Estado” ostente tanta riqueza sem tamanho.

Fui constatar isso ali, nos subterrâneos da Basílica de São Pedro. Cada papa, dos inúmeros que o mundo viu, teve seu próprio manto incrustado de riquezas sem fim, entre ouro, pedras preciosas e bordados transcendentais. Cada um teve seu bastão, seu ostensório, seu anel, seus paramentos, enfim, seu riquíssimo enxoval. Nada passou de um para outro. E pior, que eu saiba, não está em pauta a idéia de doação desses bens a necessitados. Tudo faz parte do patrimônio dessa cidade-estado.

Passar por esse museu, uma vez que se entra, não tem volta. Nos primeiros passos, antevi o que veria e quis voltar. Não era permitido. Uma vez no labirinto, tinha de trilhá-lo até o final. Depois de poucos passos, comecei a passar direto. Na verdade, comecei a passar mal. Meu estômago literalmente embrulhou. Queria ar, queria sair dali. Por que não poderia voltar? Não tinha jeito, tinha de seguir em frente, o que fiz o mais rápido que pude. Para completar, o museu desemboca numa lojinha de recordações, com réplicas de relíquias, coisas sagradas à venda, etc.

Repito: não tenho nada contra riquezas. E não teria nada contra as riquezas do Vaticano. Eles podem ser podres de ricos que para mim não faz diferença alguma. Só não agüento ter sido interna aprendendo votos de pobreza por parte dos religiosos. Não faz sentido. Nenhum. Sejam ricos! Sejam felizes! Só não me peçam para abrir os meus bolsos em dízimos, pois sou paupérrima perante o que vocês tem! Fiquei confusa, completamente confusa com esta visita.

Se algum apreço eu ainda guardava dos princípios de caridade e compaixão cristãs por parte da educação religiosa que tivera, estava literalmente “desconvertida”. E revoltada também. E traída. Não houve explicação que me convencesse. Os argumentos são vários a respeito do patrimônio de Estado. Nada feito. Eu não tenho nada contra riquezas, já disse. Podem estar carregados de ouro, já disse. Só não me venham com discursos de caridade!!! Para mim, isso passou a me parecer fazer favor com chapéu dos outros e, no caso, caridade com o meu chapéu!!! Nada disso.

Enquanto eles não entrarem materialmente na concretização da compaixão pelo outro, o assunto está encerrado para mim. Não tem doação em nome de igreja alguma que eles consigam me convencer a fazer. Minhas doações, a partir daí, passaram a ser diretas, do meu bolso ao consumidor, exceção feita aos Médicos sem Fronteiras e a uma creche sustentada por um amigo que você já conheceu, se leu o conto “a ponte”.

A santa madre igreja me desculpe, mas acho que está muito longe de me convencer que aquele tesouro tem razão de ser. E olha que aquilo é apenas uma amostra! Nem todos os pertences estão ali!

Saí do Vaticano com duas lacunas. Essa e o fato de que a biblioteca mostra apenas um pequeno filão do ouro em forma de conhecimento e documentos que os subterrâneos guardam em seus papiros e tudo que seus livros devem conter. Quanta sabedoria escondida continua guardada e trancada a sete chaves... e por quê? Será que um dia virá a luz?

Fora isso, adorei estar lá. A visita à basílica foi amenizada pelas pinturas da Capela Sistina. Ficaria horas esquecida, exercitando meu pescoço em busca de detalhes daquelas pinturas monumentais. Não fossem os dias contados, não teria saído dali tão cedo, meio puxada pela mão de meu ex que tinha um roteiro cheio de atrações, ainda para o mesmo dia.

Enfim, adorei ter ido. Até pela experiência, pelo dissabor, pela vivência. Não vi o papa. Depois da visita às riquezas, acho que ficaria muito triste em vê-lo. Pareceria uma hipocrisia, pelo menos para mim. Não poderia saudá-lo. Não conseguiria.

Paciência. Tenho minhas limitações de entendimento e compreensão. Não engoli a pílula. Quem sabe, um dia, eu consiga entender para que ela serve. Por enquanto, soaria como veneno e me faria muito mal engoli-la ou deixar de comentar sobre o assunto.

Que você me leia com a condescendência de quem é capaz de entender que não posso calar-me diante da pobreza que vejo diariamente a minha volta e de quem compreende que não consigo entender o discurso doce do dízimo. Não esse dízimo. Os deuses que me perdoem.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

PRETEXTO


Manhã de sábado. Um sol fosco anunciava chuva breve. Meninos jogavam bola no gramado e, nos bancos, as mães jogavam verde. E, enquanto a luz do sol se misturava com as sombras das árvores e dos cochichos, mais uma personagem que aparentava ser uma das imperatrizes das artes de maldizer, chegou com seus olhos novidadeiros. Todas se voltaram. A impressão que tive foi a de me sentir como alguém que nunca sabe se os “investimentos” da velha senhora eram garantidos, mas, à falta de melhor motivação, as mulheres em volta se entregaram às falações da “comadre”.

Nos bancos e no gramado o jogo continuava. O sujo do céu refletia-se nos joelhos infantis e também nos olhos nada ingênuos das que ali teriam ido para dar espaço à inocência.

Eu acabara de caminhar pela praia e de fazer meus exercícios de Tai Chi Chuan. Embora semi-nublada, a manhã estava linda naquela pontinha da praia do Leme e como nas pedras ventava muito, eu tinha declinado do meu hábito de me sentar nelas, para buscar o calçadão, mais especificamente um canto de gramado, fugindo do vento e buscando sossego. Foi nessa hora que o bulício atravessou o meu caminho, sob a forma do quadro descrito acima.

Nada ali combinava com a minha alma refeita pela caminhada no calçadão e pela luz suave e pura da natureza. Falações de novela e da vida alheia. Nada combinava com os lentos e harmoniosos movimentos de Tai Chi. Minto: tudo combinava com a inocência dos jogos infantis à minha volta. Aos poucos, portanto, as vozes das mulheres foram amortecidas pelo vento e meus sentidos apagaram os sons em meus ouvidos e aguçaram o sentido visual: as crianças, em volta, sorrindo, jogando, rindo, pulando, suando, felizes.

Alma seletiva. Voltei lenta para casa e o silêncio interior invadia meus pensamentos de calma e paz. Sentia-me completamente alienada, longe das novelas, dos babados, das fofocas, dos jornais, da internet, dos meus problemas, das doenças de meus clientes, do desespero, das angústias, dos jogos políticos, da vida.

Mas durou pouco. Véspera de eleições. Papéis eleitoreiros estavam espalhados pelo chão. Pisados, sujos... talvez como muitos de seus donos... mas isso já é um juízo pessoal, pensamentos soltos, que passavam pela minha cabeça.

Silenciosa e calma trilhava os passos rumo ao meu ninho. Mas a visão dos papéis turvou meus pensamentos. Pensei na falta de moradia de tantos meninos que eu já conhecia de rostinho pela rua. Pensei nos rostos dos candidatos pisoteados pelo chão. Deputados, senadores, governantes, presidenciáveis, todos ali, juntos, “sem pátria e sem mãe”, no lixo das ruas, como os meninos que se espalham pelo bairro e que fazem parte do meu cotidiano.

Luz e sombra se confundindo. Um conto real de puro abandono. O lixo eleitoreiro e o lixo do descaso. As mulheres absortas nas irrealidades construídas em suas “conversas” sem rumo e sem destino como os meninos de rua, ao lado dos “santinhos” dos candidatos apenas esperando a primeira chuvarada para entupirem nossos esgotos e encharcarem nossas ruas - havia uma competição constante entre eles e os anjos da COMLURB.

Sentimentos de véspera de pleito. Não deveria me incomodar, naquele momento de calma interior, o resultado das urnas. Mas alguma coisa, no meio do lixo, precisava salvar-me do sentimento de cidadão abandonado à própria sorte... e do cidadão-menino que me chamava de tia e para quem eu não tinha solução. Precisava amenizar a dor do meu peito, de minha completa impotência civil, a necessidade de um recreio, um oásis, um alento, uma esperança de vida, de vida real, de conforto social plausível, de patriotismo sem deslizes. Algumas gotas esparsas num oceano de necessidades sociais - era o máximo que eu conseguia fazer e era o máximo que eu, às vezes, conseguia ver.

Papéis sem sentido no chão, com fotos sorridentes. Rostinhos infantis sorridentes a minha volta, esperando um lanchinho da tia. Tudo igual. Não via diferença vital em nenhuma das fotos, de qualquer partido. O mesmo sorriso, as mesmas promessas e o mesmo entardecer que se faria em breve nessa véspera chuvosa. No entanto, uma esperança de que, por alguma razão, apesar de tudo, talvez impulsionado pelo próprio destino, dê certo.

Calma pessoal misturada à angústia da impotência. Novamente, em meu pensamento, voltei a perceber apenas o eco das vozes das mulheres da praça se misturando com o eco das vozes infantis.

Escolhi as vozes infantis: autenticidade, presença, esperança. Tudo por acontecer. Enfiei a chave na porta e vim escrever este conto.

sábado, 2 de outubro de 2010

A PONTE


Final da década de 90, não me lembro muito bem em que ano. Naquele tempo, o “msn” da moda era o “icq”. Quem é da época, lembra. Eu vivia com ele aberto, pois mantinha contatos profissionais e com amigos por ali, deixando bilhetinhos, recados, horários de orientação acadêmica, etc. Fácil e rápido. E aberto a eventuais visitantes, como é o msn hoje.

Um dia, uma telinha se abriu com o recado de “feliz dia de santa eulalia”. Eu sabia que existia uma tal de santa eulalia, mas daí a saber o dia da santa era outra história. No mais puro espanhol, o bilhetinho piscava em minha tela. Agradeci e, não resistindo, perguntei de onde ele era. Barcelona! Entramos num papo e, para encurtar essa parte da história, passamos a conversar um pouquinho todos os dias. Eu chegava da universidade, às vezes tarde da noite, e lá estava o espanhol, me esperando na telinha, ressaltando o fato de que, levando em consideração o fuso horário, isso era para ele completamente esdrúxulo, correspondendo a altas horas da madrugada, em Espanha. Mas o papo era ótimo e nos acostumamos um ao outro. Conversa vai, conversa vem (literalmente!), passaram-se os dias e meses e nos falávamos quase diariamente.

Depois de algum tempo, ele pediu para me telefonar. Ficamos de papo, um pouquinho e voltamos a teclar. Foi quando ele me convidou para conhecer Barcelona. Bem, aí era papo demais. Eu não iria me despencar do Brasil, em pleno ano letivo, para conhecer Barcelona, me encontrar “sei lá com quem”. Não. A distância era a mesma, eu disse, e... ficou por isso mesmo. Passaram-se uns dias e estávamos, enfim, no final do mês de abril, quando, ele, muito gentilmente, me perguntou o que eu iria fazer no dia 14 de maio às 17.30. Pensei logo que, vendo a descrição do meu perfil, desejava entrar on line, delicadamente antes do horário normal de festejos, para me desejar feliz aniversário. Com a mesma delicadeza, disse-lhe que, muito provavelmente, estaria livre.

- Comprei a passagem, dá para me buscar no aeroporto?

Fiquei olhando para a tela, estarrecida, por algum tempo. Como assim? Não sabia o que responder. Da tela para o aeroporto, do virtual para a realidade. Meu coração deu um nó. O que iria responder?! O homem vinha mesmo, com passagem comprada e tudo! Ele notou o silêncio da tela e se adiantou:

- Se for inconveniente, me diga.

Eu nem sabia se era conveniente ou não. Estava sem “fala”! Ele adiantou-se e escreveu que tinha vontade de me conhecer, conhecer o Brasil, passando uns dez dias por aqui. Não tinha saída. Respondi que, sim, que teria prazer em ir buscá-lo.

Daquele dia em diante, as horas se atropelaram. Para completar, minha universidade entrou e greve no dia 10 de maio, o que significava que coincidentemente, eu estaria completamente livre para recebê-lo no dia 14 e seguintes!

Três dias antes de sua chegada, o correio me trouxe um pacote: um gato de pelúcia, vindo da Espanha, acompanhado de um gentil cartão, antecedendo sua chegada. Muito simpático. Confesso que aumentou minha expectativa.

Finalmente, dia 14. O dia passou lento, com diversos telefonemas de amigos, como sempre. Todos bem recebidos, mas você deve concordar que minha mente, meus olhos relojoeiros e meus sentidos, estavam no aeroporto desde a véspera, ou melhor, há uma semana, no mínimo.

O avião chegou absolutamente no horário. E o espanhol foi um dos primeiros a sair, com uma rosa não natural nas mãos, no formato de um delicado brochinho, me pedindo desculpas antecipadas por não ter podido trazer uma de verdade. Ali estava ele, afinal. Uma gracinha, mas... não “bateu a tal química” se é que você entende o que quero dizer. Os sentidos e o coração são donos de nossa vontade, não tem jeito. Talvez, infelizmente. Vi, de saída e pelo beijo de chegada que este espanhol jamais seria mais do que uma pequena e simpática aventura. Mas como dizer isso a um homem que se dispusera a atravessar um mar para me conhecer? Eu não podia. Então, fiz dos 10 dias seguintes, dias de aventura e de turismo. Namoramos, brindamos a esta cidade maravilhosa, curtimos a realidade de termos transformado as teclas em olhares, sorrisos, piadas, passeios, papos, brincadeiras e namoro. Foram dez dias tranqüilos e buliçosos ao mesmo tempo. E passaram tão depressa como quaisquer outros dias de férias.

Volta para Barcelona e, muito diplomaticamente, encetei um distanciamento que se fez aos poucos. Meus horários começaram a ficar um pouco complicados, etc. Mas a minha gentileza sempre esteve presente, em respeito a essa aventura louca de alguém que se atira em busca de outro continente como uma flecha sagitariana, pois era justamente o que ele era.

Um ano depois, o espanhol cismou de embicar para o Brasil, novamente, desta vez para fazer um curso esotérico perto de Belo Horizonte. Decididamente, ele se apaixonara por essa terra magnífica. O curso duraria um mês e queria vir ao Rio para me encontrar de novo. Eu estava envolvida com outros cursos, e respondi que, infelizmente, estaria no sul do Brasil. Tudo divinamente arquitetado pelos meandros da vida, graças aos deuses olímpicos, para meu alívio e sorte dele, como você verá logo a seguir.

Pois então... o homem se encontra, no curso, com uma paulista e acaba se envolvendo com ela. Num mail, me conta a história e eu, rapidamente, dou a maior força, incentivando-o a ir adiante. Para resumir a história, os dois acabaram ficando juntos. Na volta à Espanha, ele lamentava não poder vê-la mais e todo aquele drama que incomoda a duas pessoas que, finalmente, encontraram o seu grande parceiro e sua grande parceira, mas não sabem como resolver a distância. Isso durou uns dois ou três meses, no máximo, pois a paulista resolveu se despencar para a Espanha, até que ele pudesse se aposentar e vir morar no Brasil.

Hoje são casados e vivem perto de Belo Horizonte, realizando um grande sonho comum: são coordenadores de uma instituição não governamental que cuida de crianças que receberam maus tratos ou foram abandonadas e aguardam serem adotadas. Um espaço de amor e paz, de carinho e dedicação que a vida oferece a essas crianças, cuidadas por esses pais prestimosos que se encontraram para concretizarem um sonho em comum.

Com a maior freqüência que posso, envio contribuições financeiras, já que sei das dificuldades que essas instituições enfrentam com a falta ou atraso em liberação de verbas. Sei, de sobra, onde são aplicadas as minhas ajudas de custo, e, também, com que dedicação e carinho isto ocorre.

A vida já fez tantas coisas comigo que só posso ser mesmo muito grata a ela. Imagine, você, desta vez, por conta de uma tal de santa eulalia, acabei servindo de ponte para uma das coisas mais lindas que a nossa sociedade pode presenciar: o amor verdadeiro entre duas pessoas, regado pelo amor maior, espontâneo e incondicional, que este casal sente por crianças abandonadas.

De Barcelona para o Brasil, indiretamente, apenas servi de ponte, instigando meu querido amigo a se apaixonar por nosso país, fazê-lo voltar para encontrar a felicidade real, concretizada no verdadeiro encontro de corações e de vida.
Um brinde especial a isso: Tim-tim!

sábado, 25 de setembro de 2010

LEGADO


Há muitos anos atrás (1986), uma amiga me pediu que eu escrevesse algo sobre a Grécia, pois ela desempenhava, naquela época, uma função importante em um dos grupos do Rotary. Não me lembro bem, mas parece que iriam receber em uma das reuniões alguém importante do país, provavelmente o cônsul ou algo assim.

Escrever alguma coisa sobre a Grécia... minha cabeça pirou. Não sabia nem como começar! Andei cozinhando a idéia por uns dias. Sentava, puxava um papel, rabiscava algo que eu pudesse achar que interessaria a um cônsul... mas... falar da Grécia a um grego! Ai, meus deuses... nem sob a proteção de Hermes eu conseguia achar algo que prestasse!

Qualquer coisa que eu escrevesse sobre história, mitos, literatura estaria fora de cogitação... me sentiria como ensinando o padre nosso ao vigário!

Elogiar? Como? Dizendo o quê? Eu não desempacava do lugar... estive prestes a telefonar a minha gentil amiga e dizer que sentia muito, mas o texto não saía!

Um dia, voltando do trabalho, tendo dado aula o dia todo e, naturalmente, me esquecido por completo, pelo menos por algumas horas, da questão, acho que fui atingida por uma seta enviada por Eros a mando de Afrodite, naturalmente. E fui capturada, ou melhor, lembrada do que, na verdade, mais representava minha ligação com a Grécia: meu amor por ela.

Então, que se danasse o cônsul (me desculpe, hoje, minha amiga)... eu iria escrever sobre o meu amor pela Grécia! Se ela não gostasse que jogasse fora... eu jamais saberia mesmo!

Cheguei em casa ávida por um papel e o texto saiu assim, de pronto, sem pestanejar, como se já estivesse impresso em meu coração.

E foi justamente esse o texto que eu achei, semanas atrás, numa daquelas arrumações malucas que resolvemos fazer em papéis antigos. Estava lá, amarelado pelo tempo. O texto, no original e, também, o folder representativo da tal reunião, onde ele foi generosamente impresso pelos organizadores do evento. E foi por causa do achado desse texto que acabei escrevendo os meus dois contos das duas semanas passadas.

Uma vez motivador de minhas lembranças, aí vai ele, confirmando o meu amor e, principalmente, minha admiração por este país, berço da civilização ocidental. Imagino que seria assim que a Grécia nos falaria hoje, como uma mãe, deixando o seu legado a seus descendentes:

LEGADO

Minhas pedras publicam
a silenciosa angústia
da poluição que as corrói,
mas sobre essas pedras,
teus primeiros passos de terra ocidental:

de Atenas te dei
a Arte Maior,
remodelada por ti,
e o eco das vozes
de Ésquilo, Sófocles
e Eurípides;

de Creta te dei
um exemplo de paz,
de sabedoria e de silêncio:
a gloriosa paz minóica
de um povo misterioso e são;

da Jônia te dei
as ciências primeiras
do mundo ocidental,
suportes de ouro,
o teu pedestal;

de Epidauro te dei
meu teatro ilustre
de arquitetura sem deslizes
e o templo-hospital
da avançada técnica ancestral;

de Delfos te dei
o coração do mundo
no templo de Apolo:
oráculo da Antiguidade,
exemplo de fé;

de Elêusis, de Micenas,
de Corinto e de Esparta,
de Tirinto, de ítaca
e de cada ilha,
das três mil, eu te dei
o meu espírito,
os meus princípios,
a minha fé em ti.

Minhas pedras publicam
a silenciosa angústia
da poluição que as corrói.

Mas sobre elas deixei os frutos
de filosofia, arte e ciência,
berço que te dei,
legado de mãe
para o teu mundo
de modernidade e técnica.

sábado, 18 de setembro de 2010

COMO O FUTEBOL ME SALVOU


A Grécia é, sem dúvida, a cada passo, um poço de surpresas, as mais diversas. Se você não foi, não deixe de ir. De preferência, conhecendo um pouco de sua cultura ancestral, suas lendas, referências sobre os lugares. Sentirá suas raízes, com certeza e, por que não, sentirá detalhes desse povo que jamais esquecerá. O povo grego é surpreendente. Em todos os sentidos. Um deles, o de saber ser bom anfitrião, como constatei em Creta, ilha do Palácio de Knossos que fiz questão absoluta de conhecer.

Tudo começou com o único voo diário para a ilha, às cinco da madrugada. Os planos eram de visitarmos as ruínas de manhã e o museu à tarde. Como só haveria um voo de volta à noite, poderíamos fazer tudo com muita calma, já que não teria mais nada a fazer por ali.

Os sítios arqueológicos só abrem às sete horas. Chegamos a Heraclion, centro da cidade, perto das seis horas e aí foi a nossa primeira surpresa. Ninguém por ali falava língua alguma que não fosse grego. Ninguém, portanto, para dar informações. Estávamos em 1977 e logo descobri que ninguém provavelmente se arriscava a ir a Knossos sem ser em excursão. Felizmente, no entanto, a cidade era mínima e, embora eu não falasse uma palavra de grego moderno, pelo menos, sabia ler placas, entender, e escrever nomes. Isso foi o suficiente para eu escrever o nome Knossos em alfabeto grego num papel, mostrar a um transeunte e ele me apontar um ponto de ônibus que descobrimos ser um ponto de ônibus só porque ele apontou. O ônibus, de fato, chegou logo e fomos sacolejantes, mas felizes, rumo às ruínas de meus sonhos. Era um dos pontos altos da ida a Grécia para mim, já que a civilização de Knossos é considerada como uma das mais importantes civilizações da antiguidade.

A chegada ao palácio deu-se logo. Não haviam chegado outros visitantes. Provavelmente, viriam em excursões, a partir das nove horas. Ótimo, teria o palácio só para mim. Meu ex, como bom engenheiro, sentou-se para abrir o mapa e entender a lógica das ruínas. Eu já estava dentro delas, dizendo a ele que sabia perfeitamente onde era cada lugar, cada cômodo, cada escada, cada detalhe. E, enquanto ele, titubeante, se aprontava para me seguir, eu já estava escadas acima e abaixo apontando em êxtase a sala do trono, o que restou da cozinha, os aposentos reais, contando as lendas, mostrando os labirintos que inspiraram a lenda do minotauro. Eu estava radiante como um pintinho no lixo, andando para lá e para cá com a intimidade de quem morara ali por muitas e muitas vidas, cidadã livre e feliz. Mostrei-lhe o teatro, os caminhos, o trono, os corredores, a sala dos escudos, os aposentos da rainha, os banheiros, os resquícios dos encanamentos de água, fazendo questão de lembrar a ele que ali havia banheiros, em pleno século XV antes de Cristo, enquanto que, em Versailles, século XVII depois de Cristo, os reis faziam suas necessidades em pinicos e nem pensavam em ter água corrente, apesar de todo luxo francês.

Inebriei-me fitando a sala do trono, singela e simbólica, com um mural de afrescos que lembram algo entre a matéria e o espírito. Contei-lhe a lenda do minotauro e logo depois a versão histórica. Descrevi, enfim, a ascensão e queda da dinastia da chamada paz minóica e dos dias gloriosos que a Grécia vivera por conta do domínio dessa paz por toda a extensão do Mediterrâneo.

Depois dessa manhã de luzes, é claro, urgia almoçar. Caminhadas em pleno sol, idas e vindas, exigiam a volta ao centro da cidade, um almoço, um bom descanso, para enfrentarmos um museu com novas surpresas. Meu ex não é lá chegado a museus, mas diante daquela civilização tão cheia de luzes, estava curioso por conhecer os artefatos e tudo mais que envolvia essa civilização de sonhos.

Hora do almoço, centro da cidade. O que escolher? Tudo parecia muito singelo e o lugar mais aprazível passava por pouco da estrutura de um bar, com cadeirinhas e mesas do lado de fora. Parecia limpo, resolvemos tentar. Foi aí que começou o problema para mim. O cardápio veio, mas... para minha surpresa: em grego de um lado e... em alemão de outro! Claro! Quem se despencaria para uma ilha dessas que não tinha nada na época, sem ser em excursão, com o intuito de visitar ruínas? Só mesmo uma professora de cultura clássica, logo se vê... e, pelas características do cardápio, arqueólogos alemães...

Meu ex, que não deixava passar nada, apenas comentou:

- Ué, você não é professora de greto? Me traduz, aqui, o que está escrito.

Saber ler eu sabia, pois basta conhecer as letras do alfabeto grego que qualquer analfabeto sai lendo grego sem pestanejar. Mas dizer o que significava eram outros quinhentos! O grego moderno é mesmo uma língua tão diferente do grego clássico como o latim é do português! Ademais, meu vocabulário de grego, mesmo o clássico, não se especializara em cardápios e comidas e, sim, em artes literárias e clássicas.

Meu ex, no entanto, não se apertou. Apontou um prato qualquer. Para quem come pedra sem passar mal, como era o caso dele, qualquer prato seria uma aventura. Eu, no entanto, de estômago tão delicado, estava mesmo em apuros.

O garçon, solícito, tentava ajudar sem sucesso. Pedi com gestos, que ele tentasse falar bem devagar. Quem sabe, atentando para a raiz das palavras, eu conseguisse adivinhar alguma coisa. Felizmente, achei que tinha entendido que ele estava perguntando de onde éramos.

- Brasil, arrisquei, achando que seria a resposta.

Era. Seu rosto iluminou-se:

- Pilí, Jirzin, Tuston.

Traduzi para meu ex, imediatamente:

- Pelé, Jairzinho, Tostão.

O homem, iluminado, me puxou da cadeira, me abraçou efusivamente. Pelo que entendi, eu acho que ele pensou que o Brasil deveria ser do tamanho da ilha de Creta e, provavelmente, eu deveria topar com Pelé, Jairzinho e Tostão a cada esquina, tomar cafezinho com eles ou coisa assim. O fato é que o futebol nos salvou, além, é claro de sermos brasileiros. Ele me levou pela mão para a cozinha, gesticulando e falando alto com todos, todo alegre e feliz. Sorrisos por todos os lados, meu ex-marido atrás de mim, sem entender muito o que estava acontecendo.

Oportunidade de vermos a cozinha por dentro, com tudo limpinho e organizado. Pelo menos, estávamos em boas mãos. As bandejas com os pratos de todo o cardápio, já cozidos e prontos, em prateleiras refrigeradas, a nossa disposição. Foi então que entendi: era para eu apontar o que queria comer!

Vi uma espécie de lasanha e apontei interrogativa. Ele logo respondeu:

- Moussaka.

Ok, prato típico, instruí meu ex, dizendo que era uma espécie de lasanha que levava carne moída.

- Se é prato típico quero provar, adiantou-se ele. Como se eu não soubesse a resposta de antemão...

Para mim, era mais complicado. Além da carne, eu não sabia o que teria e me parecia um pouco gordurosa. Vi, então, uma espécie de carne cozida. Mas... do que seria? Eu queria me arriscar a pedir, mas não tinha como perguntar de que tipo de animal se tratava. Foi então que tive a idéia de perguntar:

- Múúúúúúú´???

E o garçon acenando "não" com a cabeça, respondeu:

- Mééééééé!!!

Rimos muito! Mas estávamos nos entendendo. Pedimos, então, uma moussaka, um "méééé" e apontamos para as bebidas. Fomos servidos como reis, com todas as gentilezas e aparatos de parentes próximos de astros do futebol brasileiro.

Dali para o museu, tão espetacular que qualquer descrição deixaria a desejar. Até meu ex ficou deslumbrado com os apetrechos usados por uma civilização de XV séculos antes de Cristo, apontando alfinetes de fralda, utensílios domésticos que usamos hoje em dia, carimbos os mais diversos, jóias bordadas por ourives do mais alto gabarito.

Quase ao anoitecer, de volta ao mesmo restaurante, fomos imediatamente reconhecidos e o mesmo garçon veio lá de dentro perguntando sorridente:

- Moussaka kai mé?

Pedi duas moussakas, pois já tinha experimentado a do almoço e achei adequada. Nem precisei pedir ou apontar para os refrigerantes. Ele tinha guardado nossas preferências.

Ficamos por alí até próximo a hora do voo. Encostei-me, quieta, em uma das amuradas da praça, enquanto meu ex cochilava. Fiquei pensando como podem os povos unir-se em linguagens de amizade, amor e boa vontade. Perdi-me em pensamentos, olhos nas embarcações do Mediterrâneo, enquanto os últimos raios de sol iluminavam aquele mar translúcido e puro.

Pensei nas guerras de todos os tempos, pensei na paz. Pensei nos diversos períodos e civilizações que povoaram este país de tantas histórias e tantos ancestrais. Encostada ali, naquele entardecer, no último dia de uma visita de sonhos, buscava o resumo de anos de estudo nas emoções vividas em apenas dez dias, sobre esse povo cuja cultura enfeitiçou meu coração.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O DRACMA


Ter sido professora de Cultura Clássica, de Grego e não ter pisado na Grécia, teria sido como ser carioca e nunca ter ido à praia.

Meus olhos pareciam duas câmeras que filmavam sem parar ou duas contas de luz iluminadas pelo êxtase do encontro com o divino. É a forma mais próxima do que consigo conceber para descrever o que foram aqueles dez dias em contato com a terra dos deuses, arquétipos fundadores de nossa cultura ocidental.

Calor de 45 graus, mas quem se importa? Subi sedenta ao Parthenon, tão logo cheguei, tendo tido apenas tempo de trocar a roupa de viagem por sandálias e bermudas. Respirava cada pedra, cada som, cada vestígio do que fora e é a base de tantos fundamentos de meu conhecimento.

Eu não entendia nada do que diziam, pois o grego moderno é incompreensível aos meus ouvidos, mas estar ali, ouvir, ver, respirar e sentir aquela terra que povoara os meus sonhos, me fazia sadia e feliz de corpo e de espírito.

Minha alma voou pela Agora (Praça Central da antiga Atenas), buscando as pegadas de Sócrates com seus discípulos. Por ali teriam passado, também, não sei quantas vezes, Aristóteles, Platão, Heráclito, Pitágoras, Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes, Péricles, tantos, tantos!... Eu conhecia cada história, cada detalhe dos montes de livros que havia lido e buscava, in loco, a constatação de minhas leituras. Tudo ali, ao meu sonhado alcance.
Mas não é objetivo deste conto, um passeio puro e simples ao eruditismo. Longe disso. Busco a recordação do carimbo humano, em duas dentre as várias passagens interessantes e inesquecíveis para mim. Uma delas foi marcada pela visita à única ilha que visitei, com tão poucos dias a minha disposição: Creta - o berço do Palácio de Cnossos, da indescritível civilização minóica, aquela do mito do Minotauro; a outra foi marcada pela visita ao teatro de Epidauro para a qual eu guardava um dracma, moeda grega, para um teste inesquecível. Vamos a elas.

Em 1977, saindo de Atenas, a única língua que você encontrava disponível para contato era mesmo só o grego. Eu não entendia nada, como lhe disse, mas, felizmente, conseguia ler. E, ao ler alto o nome dos lugares, os reconhecia nos mapas. Acresce que os lugares mais conhecidos tinham placas em grego e em inglês, o que facilitava um pouco. Eu não queria excursões. Seria quase um sacrilégio render-me a elas, com guias turísticos tocando as pessoas como gado, rapidamente em busca da hora do almoço e das compras. Eu tivera uma amostra, logo no segundo dia, único em que pegamos, meu ex-marido e eu, uma excursão a Delfos, o oráculo sagrado da antiguidade, sob a proteção de Apolo. Queríamos ver a qualidade das estradas para nos decidirmos pelo aluguel de um carro. A viagem de ônibus foi ótima, estando Delfos a 150 quilômetros de Atenas. Mas mal chegamos lá, atestamos que a visita se resumiria a meia hora para vermos o templo e as ruínas, mais meia hora para o museu. Depois disso, seríamos deslocados para outra cidadezinha para o almoço e compras, sendo destinadas a isso, três horas. Ora, eu teria atravessado 150 quilômetros para comer e fazer compras, tendo como brinde uma olhada nas ruínas... e não o contrário!

Desisti imediatamente do almoço e acompanhamentos e desfrutei cinco horas inteiras, desde o banho na fonte Castália, a quinhentos metros dali, até a passagem pela via sagrada, por onde o mito de Édipo atesta sua viagem sagrada. Seguimos então à visita ao templo. Merecia uma parada para um sanduíche e ida ao museu. Mesmo assim, o tempo passou voando, comigo contando a cada passo, ao meu ex, as lendas, mitos e histórias que enfeitam esses lugares sagrados. Foi o suficiente para eu ver como eram os caminhos e me sentir segura para ser a guia turística do casal, nas próximas aventuras. As estradas são belíssimas e, com minha leitura correta das placas, o aluguel de um carro foi totalmente suficiente para todas as outras aventuras que, na verdade, foram muitas. Destaco, no entanto, duas. Vamos a elas:

A volta ao Peloponeso deu-se no dia seguinte à ida a Delfos, com um fusca alugado para visitar os sítios arqueológicos: Corinto, Micenas, Tirinto, parada para o almoço em Daphni com direito a uma ida a Tolon para ver o mar de pertinho e, finalmente, Epidauro - para visitar o imenso teatro e o templo de Esculápio - pai da medicina - e o museu de mil apetrechos que deixaria de queixo caído os mais modernos cirurgiões: agulhas e pinças cirúrgicas em pleno século IV antes de Cristo. Mas o ponto alto foi mesmo o teatro de Epidauro, onde eu testaria o meu dracma.

Eu tinha lido em livros e dito em minhas aulas que o tal teatro era imenso, com capacidade para 15 mil pessoas e de uma acústica perfeita. Tão perfeita que, sem nenhum aparelho amplificador ou qualquer outro recurso, era possível ouvir o farfalhar de um papel celofane ou o tilintar de uma moeda caindo no meio da arena, mesmo que a pessoa estivesse no lugar mais alto e mais distante do centro. Eu dizia isso, é claro, com a maior convicção de mestre, mas sempre tomando o cuidado de citar que tinha lido em livros. Estando lá, minha ansiedade era poder dizer que acreditava piamente nisso, como na lenda de Juca Pirama, quando falava aos seus curumins:

- Meninos, eu vi!

Pois é... chegando a Epidauro e vendo aquele monumento de teatro, imenso, alto, encravado na montanha, senti minha respiração mudar. O teatro, por si só, fora os comentários, já seria o suficiente para sentir todo o encanto. E funciona até hoje, no verão, reproduzindo peças gregas dos tempos de então. Infelizmente, não assisti a nenhuma, mas, naquele momento, só queria conferir. Tirei da bolsa o meu dracma, que desde o Brasil estava reservado para este fim. Coloquei-o na mão de meu ex-marido e saí desabalada arquibancada acima. Queria que ele fizesse o teste comigo. Havia muitos visitantes andando para lá e para cá, em diversas línguas, uns falando mais alto que os outros. Conforme eu subia, sentia que podia separar cada voz, inclusive a de meu ex, preocupado com meu atropelo. Ele ficara no centro da arena, esperando que eu subisse e, a cada passo, ouvia sua voz com nitidez:

- Devagar, não tem pressa, calma.

Nítida e alta, clara e límpida, separada das outras, sem confundir-se com as dos outros visitantes, sem ecos, sua voz acompanhou a minha subida. Quando cheguei ao último piso da arquibancada, virei-me. Vi-o lá embaixo. Estava tão alto que apenas o distinguia como uma miniatura no centro da arena.


Fiquei emocionada, imaginando os atores da peças gregas em seus coturnos para ficarem mais altos, com máscaras, encenando as peças de Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes... mas a curiosidade sobrepujou o sonho e logo falei, sem gritar:

- Deixa o dracma cair!

O gesto da mão obedeceu, mas eu nada ouvi. Embora achasse a afirmação meio lendária, confesso que fiquei um pouco decepcionada. E minha voz, mais tímida, reclamou lá de cima:

- Que pena, eu não ouvi.

Mas meu ex (como se eu não o conhecesse!), respondeu:

- Não joguei.

Na verdade, ele estava testando o meu ouvido, mas juro que tive ímpetos de esganá-lo!

- Joga então, ora essa !

Foi então que ele soltou a moeda. Eu não podia vê-la a tal distância, mas ouvi, sim, seu tilintar. Para ser mais precisa, caiu e quicou.

- Caiu e quicou, falei eufórica lá de cima.

Ele abaixou-se, pegou a moeda, olhou para mim e, engenheiro como era, gritou estupefato:

- Essa não! Essa eu quero ouvir...

E se destrambelhou numa corrida lá para cima, mandando que eu descesse e fizesse o mesmo.

Dali, ficamos de camarote para observar os guias turísticos que começaram a chegar, amassando pedaços de papel celofane e fazendo gracinhas as mais diversas para provar o milagre da acústica construída por esse majestoso povo grego, pai da cultura ocidental. Quem olha por qualquer ângulo, fica mesmo perplexo com tal perfeição.

Mas estou me estendendo demais. Conto a história de Creta na próxima semana.

sábado, 4 de setembro de 2010

MENINICE


Aquela rampa era um desafio a minha meninice. Nunca me neguei ser criança, mas vamos combinar que uma doutora em lingüística, pós-doutora em educação, coordenadora de pós e com mais de quarenta anos de idade não iria combinar muito com estripulias infantis no meio do ambiente acadêmico.

Proibido não seria, mas faltaria nadica para me considerarem uma biruta, em pleno ambiente universitário. Mas aquela rampa era mesmo um desafio a minha meninice...

Cada vez que passava por ela, e eram muitas vezes por dia, não conseguia deixar de me lembrar de minha infância, no colégio. Infância nada... fiz isso até sair de lá, aos dezoito anos... tomando impulso, dando uma corrida e me deixando escorregar pelo piso daqueles corredores compridos, lisos e brilhantes. A sola dos sapatos escolares era de borracha, mas usávamos os chinelões de flanela para fazermos isso. Que delícia! E aquela rampa roia minhas entranhas desafiando meus sapatos de sola de couro, subindo e descendo por elas, sentindo seu chão liso e tentador. Ah, um dia, jurava que sim, iria tomar um bom impulso e me deixar levar por ela, escorregando rampa abaixo como uma surfista de solo.

Mas mantinha a linha, diante de alunos e colegas, sustentando a chamada “postura acadêmica”.

Um dia, fiquei até mais tarde, por conta de umas notas que queria passar para o diário de classe e já deixar na secretaria. Eu estava na sala do departamento e não vi a hora passar. Quando percebi, já eram 22.30, as aulas tinham terminado e a secretaria estava fechada. Não era muito seguro andar sozinha por aqueles corredores imensos e escuros da universidade, mas eu tinha mesmo me distraído. A melhor parte da história é que tinha conseguido terminar o trabalho e não precisaria voltar no dia seguinte só para entregar as notas.

Passei os diários de classe por baixo da porta da secretaria e me apressei, rumo aos elevadores, para sair rapidamente do prédio, evitando demorar-me mais do que o estritamente necessário. Poucas luzes, silêncio, mas, sobretudo falta de transeuntes aconselhavam cuidados com a minha segurança.

Foi, então, que passei pelas rampas. Estavam ali, tentadoras. E a criança não resistiu. Eu estava no décimo primeiro andar e se não aproveitasse a oportunidade, quem sabe, única, não poderia fazer isso de novo. Minha meninice sorriu e me imaginou escorregando por elas por onze andares, um atrás do outro... que festa!

Não resisti. Tomei impulso e não pensei duas vezes: surfei do décimo primeiro para o décimo e meio, já que as rampas são dispostas de meio piso a meio piso. Que delícia! É claro que já tinha decidido, por dentro, repetir a dose... e... se fosse até o primeiro andar assim, seriam 22 rampas! E num dia só!

Depois de esperar por tantos anos, nenhum premio me pareceria mais adequado. E lá fui eu, rampa por rampa, sentindo meus sapatos deslizarem, com aquele barulhinho característico de se arrastarem pelo solo liso. Estava radiante, feliz, solta, finalmente. Como diz o dito popular, tirando a barriga da miséria e tendo a minha infância como única platéia!

Entre o primeiro e o térreo, no entanto, ao me deparar com a rampa, antevi um vulto meio na sombra, meio na luz. Passava, mas ao me perceber, parou para ver quem era. Estava no térreo e eu me dirigiria a ele, se descesse.

Minha alegria interior era tanta que nem liguei. Não pensei em perigo. Como ele estava no térreo não me inspirava cuidados. Era o andar onde ficava a central dos seguranças noturnos, bem ali, à beira da rampa. Talvez até fosse um deles e nem saberia quem eu era e... se soubesse, bem... que se danasse... não iria deixar de aproveitar a raspinha do tacho. Tomei impulso e desci, surfando minha última rampa, radiante por dentro, compenetrada por fora. O vulto, parado, me aguardava. Se ele não saísse dali, minha escorregada iria acabar bem a sua frente. Foi o que aconteceu e eu me deparei nem mais nem menos com... um dos sub-reitores bem meu conhecido, o de pós-graduação. Logo comigo, uma das professoras-membro de seu seriíssimo Conselho, que se reunia mensalmente para analisar projetos de pesquisa. Ai meus deuses...

Mas minha meninice sorriu. Na verdade, tão forte quanto as evidências, minha alma ainda transpirava as alegrias da festa. E o homem também sorriu, sabendo que me pegava “no pulo”.

- Boa noite, professora.

Eu, por minha vez, não tive saída. Respondi, como se nada tivesse acontecido:

- Boa noite, professor.

Desejei-lhe um bom descanso e saí.

Para quem não queria ser vista pelos alunos, até que me saí muito bem e, no fundo, diante da falta de cerimônia da situação, quem sabe, não tenha despertado, nele também, um pouco de infância perdida. Espero que sim...

O fato é que a traquinagem me fez muito bem e, uma vez inaugurada a travessura e logo com o testemunho de “quem”, perdi a cerimônia. Não sei se foi por isso ou pela aventura em si mesma. A verdade é que, a partir daí, vez por outra, quando a rampa estava desocupada de transeuntes e, mesmo diante da possível presença de alunos, passei a dar minhas escorregadinhas sem compromisso, feliz da vida e mais despreocupada com a tal “postura acadêmica”. O máximo que consegui foi despertar um certo ar de riso de uns ou de outros, se me viam. Mas diante da “seriedade” com que saía da empreitada, nunca ouvi piadinha alguma.

Apenas num dia ouvi um aluno me dizer:

- Cuidado professora, a senhora pode cair.

- Tem perigo não, faço isso sempre. É meu surfe em terra firme.

- Ah, professora, só a senhora mesmo.


E ficou por isso mesmo. Se me consideraram doida, nunca soube. Mas que soltei os laços da alegria contida, soltei, sim, para o meu bem, para o bem de minhas aulas e para as lembranças que me fizeram escrever este conto hoje. Um brinde a isso!

sábado, 28 de agosto de 2010

O GALO



Você já foi à Bahia? Não? Então vá.

De preferência, buscando ajuda no Senhor do Bonfim. Guardo a experiência como se tivesse acontecido hoje. Foram quinze dias particularmente interessantes em minha vida, no que se refere ao contato com energias desconhecidas.

Tudo porque eu precisava vender uma casa que havia comprado, no Humaitá, por sonho de meu ex-marido, em conseqüência de uma herança do meu pai. Uma casa em condomínio, na qual vivi por um ano, dez meses, vinte e um dias e nove horas. Pelo contar do tempo, você pode imaginar a alegria intensa que senti ao voltar para meu querido apartamento de Copacabana. É que o condomínio era do tipo “ame-o ou deixe-o”. E eu deixaria meu ex-marido na época, se dependesse disso para sair de lá. Sério.

Para quem conhece o IBAM, no Humaitá, o condomínio fica por trás, trepado morro acima, cinco casas por andar, umas grudadas nas outras. Sem nenhuma privacidade. Nenhuma!!! Eu ouvia tocar a campainha do telefone do meu vizinho e, naturalmente, todo o barulho e o som escandalosamente alto dos aparelhos de som de seus filhos adolescentes, mesmo no decorrer da noite. É preciso acrescentar que tinha de dar exatamente para o meu quarto de dormir. A varanda deles dava para este mesmo quarto, suportando as festas de todos os sábados, até as altas da madrugada, ou melhor, por que não dizer... manhã? E reclamar era completamente inócuo. Não fazia efeito algum. O jeito seria esperar que crescessem, mas pela idade deles, na época, levaria séculos de minha felicidade e ânsia por sossego. Não tinha como me concentrar para estudar, base de minha vida acadêmica. Mas isso nem era o pior! Tinha aquele cheiro de churrasco e cerveja invadindo minhas narinas todos os domingos... e um elevador, em plano inclinado, que funcionava vez por outra. E eu morava no último andar e como as casas tinham dois andares, décimo primeiro andar significava o dobro para quem sobe pelas escadas. Havia quem adorasse. Não eu, com certeza, pois não tinha a opção de ficar em casa: eu trabalhava e tinha de enfrentar as escadas, quer chovesse, quer fizesse sol...

Também não havia muita intimidade. Os vizinhos me visitavam, melhor, me invadiam, por mais reservada que eu “tentasse” ser - lá isso não funcionava, a não ser que eu resolvesse ser, literalmente, grosseira, o que não faz parte do meu temperamento. Não conseguiam se perguntar se eram bem-vindos, ao simples cheiro de um café gostoso que, modéstia à parte, sei fazer muito bem.

Meu ex-marido adorava o lugar. Como viajava muito, curtia os poucos dias que esta casa de suposto veraneio poderia lhe proporcionar. Eu, que ficava ali direto e só saía para trabalhar, fiquei com a parte pesada: a obra da casa, que durou um ano e quase meio e o resto do convívio. Não consegui acabar de escrever um dos meus livros acadêmicos, embora faltasse apenas o último capítulo e a conclusão. Não tinha como, no meio de um bulício e uma agitação constante, da invasão de minha privacidade, nas horas mais impróprias, e, principalmente, do barulho infernal dos vizinhos de baixo.

Também não conseguia ver meus amigos, em minha casa, com a mesma privacidade de sempre. Minhas visitas, desnecessário dizer, combinam com o meu perfil e não achavam muita graça em virem me visitar e não poderem usufruir da minha companhia, senão com o compartilhamento desnecessário de convivas que não eram convidados por mim. Apenas passavam pelo jardim e entravam, convidando-se eles mesmos a serem apresentados e a participarem de conversas que deixavam de ser privadas, naturalmente. Com isso, deixei de receber minhas visitas queridas, como acontecia no meu apto de Copacabana. Pediam desculpas, eram sinceros ao dizerem os motivos de seu afastamento e, simplesmente, desapareciam. Não os condeno. Eu teria feito o mesmo. Caramba, onde fora atracar o meu belo e tranquilo barco...

De veraneio, aquela casa só tinha a aparência para mim. E também não podia chover. O subsolo inundava por uma infiltração vinda direta do morro, por dentro do solo, o que dava a impressão de que a casa poderia despencar morro abaixo, a qualquer instante, problema que só resolvi com uma obra monumental nos oito últimos meses.

Comprar um jornal era uma excursão. Descer pelo plano inclinado (como chamavam aquela “espécie de elevador”), andar três quadras em busca da primeira banca. A padaria? Que padaria? Naquela época, por ali, nenhuma. Farmácia idem. Supermercado, só de carro. Sem contar com subir com as sacolas, em dia de greve de elevador. Mais comentários?

Havia as orquídeas enfeitando o quintal, que eram cultivadas com muito carinho. Tinham vindo do apto de Copacabana onde a coleção chegara a vinte vasos, com floradas todos os anos. Adoraram o quintal ensolarado. Essa era a parte boa. Também havia os pássaros, com seu canto sonoro e sempre primaveril, fosse qual fosse a estação do ano. Eu podia tomar sol como num campo naturalista, quando conseguia fazer minha presença despercebida de meus vizinhos, o que exigia uma estratégia particular ardilosamente arquitetada, é claro. Também resolvi um problema de dor no joelho direito, conseqüência dos tempos em que jogava vôlei no time do colégio. De tanto subir aquelas escadas de inumeráveis degraus, consegui musculatura suficiente para mantê-lo saudável. Gostava de respirar o ar da montanha que ficava logo atrás de mim. A vista das árvores lembrariam repouso, não fosse o constante barulho dos já citados vizinhos de baixo...

Desfiadas as principais razões, voltei radiante para o apartamento de Copacabana, que felizmente não tinha vendido. As orquídeas vieram também e acho que também muito contentes, diante das alegrias de sua dona. Morara naquela rua desde 1973 e é onde estou até hoje, fora esse intervalo de pesadelos. A vida em Copacabana só me inspira boas lembranças. O apartamento é uma graça, com sol pela manhã, lua à noite, sossego de rua meio afastada, com beija-flores na janela (imagine!!!) e tudo à mão, bastando andar uma quadra: farmácia 24 horas, padarias e mercados à disposição.

Dizem que quem compra um barco tem duas alegrias: uma quando compra e outra quando vende. Era o mesmo, com aquela casa. Só que eu não conseguia vendê-la de jeito nenhum!

Mas tudo tem seu tempo e agradeço por isso! Ficou empacada, dando despesas de impostos e manutenção de 1989 a 1993.

Em 1993 precisávamos vendê-la de qualquer jeito, pois o divórcio veio à tona e tínhamos de dividir os bens. Aí é que dou graças à vida. Se não tivesse ficado empacada, talvez o dinheiro tivesse ido embora e eu não teria, então, como negociar os bens. Como disse, tudo tem seu tempo. Só que... continuava lá, grudada, sem sair do meu pé... sem compradores.

Foi então que uma amiga me recomendou ir ao Bonfim. Olhei-a meio crédula, meio incrédula, mas o desespero me convenceu. Segui à risca a receita dada: saia do Rio direto para Salvador, numa sexta-feira, passe pelo mercado modelo, compre flores brancas, vá direto ao Bonfim, acenda uma vela, procure uma das senhoras que cuidam da igreja, peça um vaso, arrume as flores, peça que ela as coloque no altar. Vá a um dos bancos, faça seu pedido e volte direto para o Rio. Nada de passear.

Saí daqui bem cedo na manhã de uma sexta, como mandava o figurino, cheguei ao aeroporto de Salvador, peguei um taxi que me esperou comprar as flores e fui direto para a igreja. Acendi as velas, e busquei uma das tais senhoras. Encontrei imediatamente uma e fiz o meu pedido. Ela gentilmente me trouxe um vaso, no qual arrumei as flores e, como dizia a receita, pedi que ela o colocasse no altar.

É aí que começa a história do galo. A senhora me olhou com um sorriso acolhedor e me perguntou se eu mesma não gostaria de colocar as flores no altar.

- Claro, se me for permitido.

Ela me conduziu ao altar, indicou o lugar onde deveria colocar o vaso e me perguntou:

- Gostaria de ver o sacrário por dentro?

Eu não tinha nenhum interesse em ver sacrário algum por dentro, mas, para retribuir tanta delicadeza, não pude recusar. Ele me instruiu a esperar ali no altar mesmo, enquanto iria buscar a chave. Demorou um pouco e voltou com uma daquelas chaves antiqüíssimas, do tempo do império, enrolada numa corrente meio fina. Entregou-me a chave enrolada e disse:

- Enquanto desenrola a chave, faça o seu pedido.

Será que a mulher lia pensamentos? Pois não é que era justamente da chave de uma casa que eu queria me livrar? Não discuti. Sem fazer nenhum comentário, desenrolei a chave devagar, contrita em meus pensamentos. Finalmente, entreguei a chave à senhora que, sorrindo, me disse.

- Bem, já que estamos aqui, vamos ver o sacrário.


Com esta frase, ficou claro para mim que a visita ao sacrário era apenas uma formalidade. O importante ela já tinha feito, que era me oferecer a oportunidade de “desenrolar a chave”!

Vimos o sacrário e depois de agradecer-lhe, estava pronta para me despedir. Foi quando ela, sempre muito simpática e acolhedora, me disse:

- Uma parte foi feita. Mas é preciso completá-la. Há alguém que trabalha com você que sabe o que deve ser feito a seguir. Pergunte a ela e terá a orientação necessária. Ela também poderá ajudá-la a completar o que falta.

Pelos deuses! Eu não havia dito nada àquela mulher! Como saberia de meus desesperos? Olhei aquele sorriso franco, acolhedor e, sobretudo, sábio. Agradeci sinceramente e voltei direto para o Rio, como mandava a receita. Alguém que trabalha comigo? Que alguém? Onde? Caramba, como achá-la? Na Universidade onde dava aula? Passaram-se os dias. Numa sexta (numa sexta de novo!) dia de minha faxineira, me lembrei que ela era chegada a esses cultos. Resolvi, ainda que discretamente, comentar sobre o assunto. Ela sorriu como quem sabia o que estava acontecendo (ou teria sido só impressão?) e me disse que perguntaria a seu conselheiro espiritual. Na outra sexta, veio com a resposta: ele disse que sabia, sim, o que deveria ser feito e já tinha trazido uma lista com as coisas para comprar: uma casa de cera em miniatura, chave idem e mais um monte de coisas como velas e outros apetrechos dos quais tenho pouca lembrança, mas que me pareceram bem cerimoniais.

- Ok, e o que faremos com isso?

- Vamos fazer uma oferenda num lugar que indicarei à senhora. Já que a senhora mora na zona sul e o lugar tem de ser tranqüilo, podemos ir à Barra da Tijuca. Chegando lá, saberei achar o lugar.


Não sei por que, minha intuição perguntou:

- E, depois de vendida a casa, o que terei de fazer?

Mostrou-me outra lista, para agradecimento, incluindo um galo vivo. Intui que seria sacrificado. Nada feito. Matar bichos não. Definitivamente, agradecia muito, mas dava o caso por encerrado. Pedi que agradecesse sincera e fervorosamente ao seu consultor espiritual, mas que não poderia fazê-lo. Ela disse que voltaria a falar com ele. Uma semana depois, voltou com o recado:

- Ele disse que não tem importância. O galo não precisa morrer, podemos entregá-lo vivo.

- Tem certeza?

- Pode confiar.

- Então tá. Já que estou no barco e não tem bicho morto, vamos em frente.


Comprei a lista inicial e, na outra semana embicamos para a Barra. Em 1993, não tão povoada quanto hoje. Achar uma rua tranqüila, vulgo encruzilhada, foi fácil. Ali ela depositou as oferendas, tomando o cuidado de colocar tudo num arranjo bem interessante, inclusive as comidas. Minha função era apenas estar presente. Eu não precisava pedir nada, segundo ela. “Ele” já sabia de tudo.

Estava eu, ali, peça do sincretismo brasileiro. Respeitosa, disciplinada, confesso que um pouco perplexa, mas contrita.

Desnecessário dizer que vendi a casa em torno de quinze dias. Sem problemas, à vista, pelo preço pedido, sem pechinchas. Num relâmpago. A família mora lá até hoje e simplesmente adora o lugar. Incrível.

Hora de agradecer e comprei toda a lista necessária. Menos o galo. Tinha de ser um galo especial que só minha faxineira sabia onde vendia. Trouxe na véspera do dia da oferenda para que ficasse aqui em casa. Que animal. Lindo! Porte de rei, empinado, garboso. Se eu fosse galinha...

Servi sua majestade com grãos que vieram junto e ele ficou em minha área de serviço até o dia seguinte, sem dar trabalho algum. Também não precisei dar muitas explicações ao meu então marido, pois sua mãe também era chegada a essas coisas (nunca me aprofundei muito em até que ponto) e ele não comentou nada.

Manhã cedo, acomodei as oferendas e o galo, este cuidadosamente embrulhado em jornal para não se debater no carro e seguimos em direção à Barra da Tijuca.

- Ok, perguntei, para onde vamos?

- Para o mesmo lugar, disse a faxineira.

- Mesmo lugar? Como assim? Você não disse que teria de ser o mesmo lugar!!! Eu não sei voltar lá!!!

- Ah, patroa... tem de ser no mesmo lugar!


E agora??? Desespero interno, meu coração aos pulos. Não sei por que sussurrei:

- Só se o galo nos ensinar, ora essa...

Do banco de trás, o galo, que estivera mudíssimo até então soltou um “coc”. Achei estranho e segui em frente. Vou tentar lembrar mais ou menos onde foi e o resto é contar com a memória, nem que a gente fique aqui o dia todo, pensei. Dei a volta por baixo de uma ponte (disso eu me lembrava) e peguei uma das pequenas ruas vicinais. Quando me aproximei de uma esquina, o galo, de novo: “coc”. Um só, como o primeiro. Instintivamente, virei. Dirigi passando por um ou duas quadras e, de novo: “coc”. Virei. Para resumir, os “cocs” me guiaram exatamente ao ponto das oferendas da primeira vez. Sozinha, tenho certeza, eu não o teria encontrado com tanta facilidade, enfiado que era, no meio daquele fim de mundo dos meus deuses! Minha faxineira achando tudo natural. Eu, divina e silenciosamente perplexa!

Descemos, peguei o galo com carinho. Suas penas (plumas?), suaves ao toque, enfeitavam a sua altivez. Deveria segurá-lo, enquanto ela preparava as oferendas, muito ou mais bonitas do que da primeira vez. E o galo? Seria o último. Finalmente, com tudo pronto, deveria depositar o galo ali. E, como mandava o ritual (tinha sido assim, também da primeira vez), sairmos sem olhar para trás, pegarmos o carro e irmos embora. Minha faxineira o fez, sem a menor hesitação. Eu, no entanto, à medida que me afastava, tinha ímpetos de olhar para trás, como a mulher de Ló, no episódio bíblico de Sodoma e Gomorra. Mas não o fiz. Obedeci à ordem do misterioso e do místico. Afastei-me do local deixando para trás o farfalhar forte, garboso e incessante das asas de sua majestade.

Sem saber como, envolvida que fui desde minha ida ao Bonfim, vivi a certeza de que mistérios como esses existem... e desafiam a nossa razão.

sábado, 21 de agosto de 2010

SAPO


Não havia segredo no internato que eu não conhecesse, regra que eu não soubesse, travessuras que não tivesse feito, recanto da casa que eu não dominasse. No fundo, acho que as freiras acalentavam a idéia de que um dia, eu seria uma delas. Doce ilusão, pois não conheciam o espírito que vivia dentro de mim. E este espírito é a alma das minhas aventuras no internato: instalada assim, como se estivesse em casa (e, na verdade, estava...), é claro que me sentia à vontade para as mil traquinagens, tão comuns na infância e na adolescência.

Das travessuras da infância, destaco uma, da qual participei, mas não fui autora. Algo tão ingênuo quanto o gosto infantil pelas coisas simples, ao mesmo tempo que indica que o ser humano, desde pequeno, não se isenta de espertezas e oportunismos.

Era o trote nas mais novas. Não conhecíamos isso pelo nome. Na teoria, nunca tínhamos ouvido falar, mas liguei o fato à minha entrada na universidade, muitos anos depois. O trote. Um trote bem maldoso, por sinal, se pensarmos na suposta simplicidade da alma infantil.

Às refeições, era-nos permitido repetir elementos do prato salgado, mas jamais a sobremesa. Na melhor das hipóteses você pode estar pensando que as freiras tinham o honrado compromisso de nos ensinar a preferência pelas proteínas e a distância dos açúcares. Nada disso, pois eu fiz questão de perguntar. A resposta foi a de que devemos comer o prato salgado porque nos alimenta e o doce, como é prêmio, deve ser comedido. Conclui-se, assim, que devíamos nos habituar ao sacrifício, pois o sacrifício é muito bem recebido por deus nosso senhor. Em outras palavras, o dever pode ser cumprido até em excesso, mas o prazer e a alegria devem ser comedidos.

De onde será que elas tiravam essas pérolas de sabedoria?

Era permitido a uma aluna, portanto, ceder sua sobremesa a outra, quer por sacrifício, quer por não apreciá-la. Tínhamos de comer de tudo que fosse o prato principal, gostássemos ou não gostássemos. Mas, a respeito da sobremesa, era permitido até ceder, não apenas recusar.

Em outros termos, você pode ceder no prêmio ou no prazer, jamais na obrigação.

Custei a me desvencilhar dessa prática ardilosa e subterraneamente plantada em minhas atitudes de vida adulta, principalmente no que se referia à prioridade ao aspecto profissional, mesmo em se tratando, muitas vezes, de domingos e feriados.

Mas voltemos às refeições: havia uma sobremesa de especial paladar, cobiçada por todas internas. Até hoje não conheço a receita, guardada a sete chaves em algum lugar não accessível a nossa sedenta curiosidade, segredo jamais revelado, nem às vésperas de eu sair do colégio. Posso adiantar, no entanto, que pelo paladar sentíamos o sabor de banana, açúcar e canela. Acho também que era frita, mas sequíssima, posso garantir! Para completar a delícia, não era muito doce e nada enjoativa mesmo para mim que sou chatíssima para cheiros e paladares. Um manjarzinho divino e raro. Aparecia uma vez por mês. Talvez fosse o sacrifício consagrado das freiras da cozinha prepararem cerca de duzentos desses manjares de uma só vez (éramos cerca de 100 internas e 100 semi-internas). Devia mesmo dar um trabalhão. Mas eram simplesmente deliciosos. Só de me lembrar deles, sinto o cheiro, o gosto, o apetitoso prazer. Mas tinha uma forma estranha. Por saber cozinhar, imagino que fosse desses doces de tachos em que você mete um colherão, pega uma porção e joga no óleo quente ou coisa assim. Ficava um doce meio deformado e, por incrível que pareça, com um jeito parecido com a de um sapo esparramado. Essa era a analogia que fazíamos, crianças habituadas a fazerem o recreio em espaços cercados pela frondosa, pura e plena floresta da Tijuca. Assim, todas nós nos habituamos a denominar “sapo” a esse deliciosíssimo quitute dos deuses.

A primeira aluna que percebia o movimento da cozinha e via a sobremesa nos bandejões passava adiante a senha da sobremesa do dia. Assim, tão logo essas alunas sentadas mais próximas à cozinha descortinavam qual seria a sobremesa, era questão de segundos a notícia se espalhar por todo o refeitório. Um telefone sem fio perfeito, apenas com movimentos dos lábios, já que nosso silêncio só poderia ser quebrado depois que o último prato salgado fosse recolhido da mesa. Dia de sapo era um bulício. Nem precisávamos da leitura labial. O mexer dos ombros, os sorrisos já denunciavam que “era dia de sapo”.

No primeiro dia do ano em que éramos brindadas pelo sapo, o trote acontecia. Tudo na maior linha, na maior ética, no maior requinte. Coitadas das alunas novas...

Uma veterana começava o teatro tão logo o silêncio era suspenso e poderíamos começar a falar:

- Oba, hoje a sobremesa é sapo!

A aluna nova ou as novas faziam uma cara de espanto:

- Sapo?

- É, a sobremesa mais gostosa do colégio, você vai ver!

- Mas é sapo mesmo?

- Ué, claro que é sapo, você vai ver. É uma delícia.

- Como é feito?

- Não sabemos, mas tem um gosto parecido com banana, leva açúcar, canela e a receita é secreta, as freiras não contam, não tem jeito.


Era muito convincente, já que na mata, com certeza, haveria milhares de sapos à disposição para qualquer tipo de empreitada culinária, se quisessem. Mas tínhamos o requinte:

- Naturalmente, as freiras devem levar muito tempo para juntarem a quantidade de sapos suficiente, pois só temos dessa sobremesa uma vez por mês, portanto, aproveite a oportunidade, coma saboreando bem, pois já sabe que só terá outra chance no mês que vem.

As carinhas de espanto se transformavam rapidamente em carinhas de nojo, tanto da sobremesa como das comensais. Como tínhamos coragem de comer sapo e, ainda, por cima, dizermos que era a sobremesa mais gostosa do colégio? As nossas expressões eram angelicais, dessas de filme. Depois de colocarmos o manjar dos deuses em seu devido lugar e incentivarmos ardorosamente nossas novas colegas a experimentarem o batráquio, dizíamos:

- Bem, se vocês não vão querer mesmo, se importam de nos dar?

Assim, todos os anos, no primeiro mês, as veteranas tinham a sobremesa repetida ou dividida irmamente nos pratinhos de sobremesa. Quanto mais novatas houvesse em nossa mesa, melhor: mais sapos a serem divididos.

O ardil só seria descoberto mais tarde e, como único consolo, no ano seguinte, elas poderiam passar o trote nas novatas.