quinta-feira, 25 de novembro de 2010

DIANTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS



Pensei em escrever mil coisas hoje. Algo fora do senso comum, algo fora do que todos já estamos acostumados a ler. Já sabemos que falta educação, que faltam os subsídios para a tranqüilidade da alma, do corpo, da mente, da cidadania, enfim, de nossos postos como seres humanos subjetivos e sociais. Já sabemos. Não é preciso a mídia insistir. Já sabemos.

Dizer o dito passou a ser sem sentido. Discurso vazio, cansativo, sem metas, sem soluções.

Hoje, sem palavras, diante do que estamos vivendo nesta cidade amada, só tenho o conto da minha tristeza, da minha impotência, da minha vontade de ser útil, mas não sei onde.

Rezar? Só se for assim:

Em nome do Pai,
do Filho
e do Espírito Pranto.
Amém?


Mas sei que não vou entregar os pontos. Pertenço a esta cidade, que escolhi para ser minha, para ser meu pouso, meu trabalho e meu repouso.

Prefiro escolher a esperança, jamais a perderei.

A esperança, entre vários sentimentos que povoam e povoaram meus contos, está presente hoje, mais do que nunca, torcendo por esta cidade amada, mais que amada, luz de meu coração!

sábado, 20 de novembro de 2010

LUZIA


Dei um pulinho na universidade para pegar documentos antigos, contracheques, etc. Revi amigos e aproveitei para tirar algumas fotos para o blog. Foi aí que me deparei com uma parte da vista do estacionamento. Notei um carro estacionado em frente a uma vaga reservada para cadeirantes. Ver isso da altura do décimo primeiro andar me dava mais a impressão de ser coisa de filme ou de casa de brinquedos do que realidade. Mas era verdade. Em plena universidade, onde sei que há inúmeros projetos extensionistas e um vasto folhetim sobre cotas, direitos sociais e necessidades especiais - que é o que mais caracteriza o lugar em que trabalhei -, a vista disso me parecia coisa fora do lugar. Mas estava lá, o carro azul, em frente à vaga, enfrentando meus princípios.

Para não “entrar nela” desobedecendo ao aviso ostensivo de proibição, ele ou ela simplesmente optou por estacionar em frente! Dava na mesma. Não pude deixar de fotografar. De quebra, fiquei imaginando se os carros estacionados nas vagas reservadas seriam, realmente, de cadeirantes. É certo que os seguranças são logo chamados nesses casos, pois há um número considerável de cadeirantes lá. Não desci para ver. Lembro-me de que fazia isso quando era membro efetivo do Conselho Estadual para Política de Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Naquela época eu tinha mais poder de fogo, me apresentando como membro e mobilizando as autoridades locais. Bons tempos! Ou... maus tempos, como sempre? Para que precisar de carteira, afinal... não deveria ser um direito / dever de cidadania de todos?

O fato é que fiquei com o vicio já meio natural de estar atenta a esses absurdos. Aliás, guardei um arquivo que me mandaram, um dia, pela internet. A piada é boa, embora esconda outro preconceito, que também deveria ser combatido. Falaremos disso, provavelmente, em outro conto. Por ora, lá vai, pela criatividade do autor, para mim, desconhecido:


Outro dia, saindo do carro e andando pelo estacionamento do aeroporto do Galeão, rumo ao elevador, vi um cidadão (cidadão?) estacionando numa vaga dessas. Não resisti, mesmo sabendo que, de vez em quando, a gente se meter numa coisa dessas é furada. Me aproximei e perguntei o mais delicadamente que pude, se ele não tinha visto a placa, já que não via na chapa do carro a marca obrigatória que os cadeirantes tem de ter. Ele simplesmente retrucou:

- Alguém está vendo?

Não agüentei:

- Sua consciência não está?

- Você vai me multar?


- Não, mas deveria, já que sou do Conselho Estadual (já não sou mais, mas dei a cartada). Invisto apenas no seu senso de cidadania. Eu mesma tinha essa vaga à disposição quando passei por aqui, mas estou estacionada há quase cinqüenta metros, bem mais longe dos elevadores. E suas pernas são bem mais jovens que as minhas.

Não quis discutir mais, dei as costas, mas saí dali indignada. Não achei um segurança perto, queria pedir providências. Não vi ninguém.

Fiz o que tinha de fazer no aeroporto e voltei rapidamente. Como era o meu caminho, passei outra vez pela mesma vaga e... estava vazia. Por medo ou por consciência - gostaria mais de acreditar na segunda opção -, o jovem escolhera outro lugar. Resolvi voltar e procurei um segurança que, enfim, colocou um daqueles “cones” de plástico amarelo na vaga. Aquilo não evita a desobediência, mas é mais um empecilho. O problema é que também atrapalha o verdadeiro cadeirante que, vindo sozinho, quer estacionar ali.

Ando muito pela cidade e, volta e meia, me deparo com uma coisa dessas. Nossa educação básica de convívio está mesmo depauperada. Já sabemos disso de sobra. Mas como criticar a violência, se ela começa dentro de nossos corações?

Saí do estacionamento cabisbaixa, pensando nessas coisas, e me parece que aquele era mesmo um dia de me encontrar com a representação de pessoas muito especiais, que já trilharam a minha vida, me ensinando coisas da mente e do coração. Estava chegando em casa quando vi Luzia, uma antiga colega de faculdade. Ocorre que Luzia é cega. Andava devagar, com sua bengala. Me deu vontade de fazer uma meninice, como nos antigos tempos. Me aproximei sem falar uma palavra e lhe dei meu braço. Luzia parou e estranhou. É muito difícil um vidente dar o próprio braço para um cego na rua, para ajudá-lo. Geralmente, pegamos o seu braço, seu ombro, pois não fomos preparados para isso. A maioria das pessoas não sabe, mas essa atitude provoca uma total insegurança, pois a pessoa se sente monitorada e não guiada, como deveria. Se alguém se aproxima e, de saída, sem essa ou mais aquela, oferece o próprio braço, a pessoa cega já desconfia de que há noventa e nove por cento de chance de que o tal sujeito ou sujeita já andou aprendendo isso com cegos por aí.

- Quem é?

Minha meninice, dando o braço e caminhando, conservou silêncio.

- É Rita?

- Não.

- Fala mais um pouco. Você já andou com muitos cegos, não?

- Muitos.
Sorri.

- Ora, Eulalia! Você por aqui!

- Essa não vale Luzia, como você descobriu?


Ela me respondeu, com aquela cara de marota, bem minha conhecida:

-Se você já andou com cego, querida, está marcada para sempre... depois, é só aguçar para as características: pelo riso (e eu que pensei que apenas tinha sorrido!) e, logo depois, pela maneira de andar e pelo braço. Pela voz, fiquei um pouco na dúvida, porque você está um pouco resfriada, isso mascarou pouco, mas eu já tinha quase certeza. Então, chutei.

- Luzia, faz cerca de 30 anos que não nos vemos!

- Ver nunca te vi, mesmo, zombou ela,
lembrando-me de pronto de seu irrefutável bom humor. Mas o jeito, depois de termos convivido tão proximamente durante quatro anos... ah...não dá para esquecer.

Pois é... quem de nós, sem ver outra pessoa e praticamente sem falar com ela – e, ainda por cima, com resfriado -, poderia reconhecer um amigo, na rua, depois de trinta anos? Os cegos, quase sempre, podem.

Perguntei para onde ela queria ir.

- A um ponto de ônibus da Princesa Isabel.

Andamos conversando animadas, ela já habituada com o tipo de guia que eu sou, descendo e subindo as calçadas sem prévio aviso. É tão fácil guiar um cego com segurança... basta dar o braço e se conservar um passo adiante. Ele nota que você vai descer e subir, desviar de buraco... nem precisa falar. É incrível o senso de percepção que eles tem!

Fomos assim conversando rumo à Princesa Isabel. Soube que era seu caminho quase diário. Incrível, ela trabalhava numa escola ao lado do meu edifício, há dez anos, e nunca nos vimos. E justamente agora que nos tínhamos encontrado ela estava sendo transferida. Seguindo, assim, de papo, atravessamos a avenida e, como há vários pontos de ônibus, apenas fui caminhado, pois eu já sabia que ela iria reconhecer quando chegássemos ao dela. Não deu outra: num determinado momento, ela deu aquela “travadinha básica” bem minha conhecida. Era ali. Não resisti:

- Qual é o sinal, Luzia? Estava me referindo a como ela reconhecia o ponto.

- O cheiro da farmácia.


É preciso ressaltar que a farmácia não fica em frente ao tal ponto, fica duas lojas à frente. Significa que não tínhamos passado por ela. Pois é... nós temos um olfato tão aguçado? Uma percepção de contato tão aguçada? O que fazemos com nossos sentidos? Não dá para chamar uma pessoa assim de deficiente... é mesmo mais para pessoa especial...

E, talvez, quem sabe, foi com esse espírito de perceber o quanto são especiais que, muito mais tarde, por caminhos da vida, acabei trabalhando com surdos, aprendendo sua língua, lutando academicamente por uma educação especial melhor.

Só tenho a agradecer, por esses presentes da vida, me preparando, com antecedência programada para vários dos embates de minhas futuras escolhas.

Um dia, quem sabe, eu fale mais de Luzia e de surdos em outro conto. Vale a pena.

sábado, 13 de novembro de 2010

O CÂMBIO


Londres. Mas minha segunda língua era o francês e bem sabia que não seria bem-vinda à cidade falando uma língua tão adversa à deles. Já tinha ouvido horrores sobre a richa entre os londrinos e parisienses que fingiam não entender um a língua do outro ao menor apelo turístico. A saída, então, era mesmo arranhar meu inglês e ver no que dava.

A primeira chance deu-se logo na entrada, quando me deparei com a necessidade de trocar meus dólares por libras. Perguntei logo ao sair do hotel onde havia o câmbio mais próximo. A resposta, com sotaque inglês impecável, naturalmente, foi a de que me dirigisse à estação de trens, ali perto. Bem, eu tinha conseguido falar... e também...entender. Menos mal. Fiquei um pouquinho mais animada.

Fui arranhando uma tentativa de encontro, mas não achava a estação. Tinha mesmo de perguntar a um outro transeunte. Ensaiei a pergunta, com cautela, em pensamento: “Please, where is the station?” Achei que assim estaria bom.

Ao primeiro transeunte, então, lancei a frase ensaiada, mas só ouvi em resposta:

- What?

Bem, eu deveria ter pronunciado alguma coisa mal e tentei caprichar mais, invertendo a ordem na frase:

- Where is the station, please?

- What?


Não era possível. Eu tinha a frase decorada de meus bancos de colégio. Não poderia estar errada... será que seria minha pronúncia? Resumi:

- The... station... please.

- What?


Não era possível. Será que estaria pronunciando errado a palavra /steition/? Resumi mais ainda:

- Station.

- Wou, station.
O cara estava falando com o “a” aberto: /station/!!!

Isso mesmo... como um brasileiro falaria, com o “a” bem aberto, caso não soubesse a verdadeira pronúncia! Ora, aí já era esculhambação. Se era para falar assim com “a” aberto eu não precisaria ter ensaiado tanto!!! Mas fiquei ali firme e acenei que sim com a cabeça. Num péssimo inglês para o que eu supunha ser inglês, o senhor me apontou a estação, que estava pouco adiante. Muito mais tarde eu soube, por uma amiga que era professora de inglês – a Patrícia, da qual já falei em contos anteriores – que ele deveria ser de uma região da Inglaterra (não me lembro qual) que tinha mesmo o que ela chamou de “inglês terrível”. E eu tinha de cair, logo na estréia com a língua, nas mãos de alguém assim!

O fato é que achei a estação de trem rapidinho e também o guichê de câmbio. Esparramei uns dólares e nada falei, pois era óbvio o que eu queria. Apenas sorri o sorriso dos turistas que mal falam a língua. O senhor me deu notas de libras, sem trocados. Como eu iria me virar com notas tão elevadas? Seria mais do que natural receber uns trocados, não? Que nada... só nota de valor alto.

Minha mente me traia mais uma vez. Como se pede trocado em inglês? A palavra “change” simplesmente sumiu da minha cabeça. Não tinha jeito... ou eu saía dali com aquelas notas ou me virava de outro jeito ali mesmo, com gestos, fala engasgada... o que fosse. Decidi, embora sabendo ser super inconveniente, pronunciar a frase que supunha proibida naquela cidade:

- Do you speak French?

- Mais oui, je suis parisien!!!


Pelos deuses! Essa não!!! Um francês no guichê de câmbio! E, ainda por cima, parisiense! Só se fosse mesmo aquele meu anjo aventureiro encarnado que sempre me acompanha. Era mesmo um francês! E francês, você sabe, quando vê um estrangeiro falando a sua língua em terra estrangeira se desmancha todo. Aliás, ele já se derrama todo quando vê um estrangeiro falando francês em Paris. E eu estava falando francês em Londres, mostrando minha incompetência logo em que país! Estava feita!

O homem só faltou estender um tapete vermelho para eu passar. Levantou-se, sorriu, me cumprimentou através do buraquinho do guichê. Perguntou o que eu desejava e mais parecia um amigo gentil do que um funcionário. Despencou a me perguntar se eu conhecia Paris, se tinha ido à França. Quando disse que sim, passou a discorrer sobre a cidade amada, com mil sorrisos e mesuras, perguntando onde eu tinha ido, se ia voltar, me dando dicas turísticas.

E a fila crescendo atrás de mim.

Com gentileza, disse que não queria atrapalhá-lo, que já havia tomado muito o seu tempo. Na verdade, estava com medo de ser linchada pelos turistas na fila. Mas ele não estava nem aí. Simplesmente me dizia que não falava francês há dias e que estava muito feliz em me servir. Era uma fila, os outros que esperassem.

Fiz o que pude para sair de mansinho, envergonhada. Na carteira todo o trocado, minuciosamente oferecido, exatamente como eu queria. De brinde, uma lição para lidar com a moeda inglesa que, cá para nós, tem uns macetes que só gringo nativo entende. Mas a lição foi boa e eu entendi tudinho... ainda mais em francês...

Saí rindo dali, com a recepção inesperada e também pela dupla aventura: a de um péssimo inglês me levando a um maravilhoso francês.

sábado, 6 de novembro de 2010

O AEROPORTO


Morei em aeroporto por três dias, seis horas e incontáveis minutos, quando tive a oportunidade de conviver com a casta da antipatia, da petulância e da prepotência americanas.

Voltava de uma viagem a Jacksonville, em visita a Katia, uma grande amiga que estava em Paradise Point, acompanhando o marido. Passei dois dias em Chicago para visitar um amigo e parti direto para a base militar, por cerca de uma semana, apenas para conferir a amizade, já que o trabalho aqui é muito e não pode esperar.

A ida fora sem problemas, apesar dos inúmeros interrogatórios na entrada do país. Não tivesse eu um passaporte da União Européia, então, não saberia por quantos outros questionamentos passaria.

Eu tenho a impressão que os americanos se acham mesmo donos do mundo. Nada contra isso, cada um acha de si o que quiser, o sistema político-administrativo tem todo o direito a todos os cuidados que deve ter e não coloco nada disso em questão. Mas sistema é sistema e gente é gente. O funcionário, seja lá do que for, tem o dever de cumprir o seu dever. Mas não precisa ser tão antipático, tão arrogante e tão petulante quanto a lei. Parece, no entanto, que eles não estão falando com outra pessoa igualzinha a eles, com cabeça, tronco e membros iguais, sem contar com alma e espírito. Não. Acho que isso não passa pela cabeça da maioria de cada ser americano, pelo menos daqueles com quem convivi, nesses trânsitos administrativos. Ali, pelo que parece, eles não são gente ou acham lindo imitarem maquinas a serviço de uma máquina. Uma pena eu ter tido essa impressão de um país que poderia ter um pouco de açúcar. Ou será que eles gastam todo o açúcar que têm em comidas e guloseimas e não sobra nada para a alma?

Estou sendo rigorosa demais? Logo veremos.

Por uma semana, apenas convivi com as delícias de uma família brasileira em país estrangeiro. Uma espécie de consulado brasileiro no meio de uma cidade sem calçadas e sem ônibus. Sem calçadas. Significa que o sonho americano se concretiza ali: cabeça, tronco e rodas. Literalmente. Não fosse a gentileza de meus anfitriões, eu estaria simplesmente presa em casa, a não ser que alugasse um veículo. E ir para onde? Para os shoppings, naturalmente. Desconfio que, se tirarmos os shoppings dos americanos, eles perdem a identidade. Para quem não se sente atraída por montes de compras, eu estava mesmo perdida. Mas havia o espaço da base militar e os passeios a outras cidades com que meus amigos muito gentilmente me brindaram. Na base, eu podia andar a pé, quanto quisesse. Não se vai a lugar algum, mas era lindo caminhar entre as filas de casas para famílias dos mais variados países, jardins sem muros e muito espaço. E esquilos soltos por toda parte... e pássaros beliscando aqui e ali pelos jardins.


Seres humanos, enfurnados em suas casas. Lembro-me que eu andava todos os dias por cerca de um quilômetro para ver o lindíssimo pôr-do-sol. E não encontrava ninguém no caminho. Até hoje não consegui entender o que essas pessoas faziam enfiadas em suas casas, com um espaço tão lindo a seu dispor.



Eu caminhava em direção ao vastíssimo lago onde o sol se punha. Um lago rodeado de um gramado aconchegante, árvores encantadoras e muitos bancos voltados para ele. Todos sempre impecavelmente vazios.



Eu era a única transeunte, exceção feita a um ou outro morador que fazia sua caminhada apressada com algum cachorro. Mas isso era muito raro e eles sequer se davam ao trabalho de responderem ao meu cumprimento.

A semana passou rápido e lá estava eu, me despedindo de meus amigos, no aeroporto. Um bom livro, passagem pela polícia federal e os bancos de espera para o voo intermediário entre Jacksonville e Chicago, de onde viria para o Brasil. Vinte minutos para o embarque e... nada. Nem sinal de chamada. Em suma, o avião doméstico atrasou e isso significava que eu perderia a conexão.

Falo pouco inglês. Com os americanos, então, complica. Em Londres me viro muito melhor. Entender eu entendia e sabia que estava correndo o risco de ter uma boa encrenca nas mãos. Não deu outra. Eles não queriam se responsabilizar de jeito nenhum pelo meu voo internacional. E eu, com meu péssimo inglês, exigindo meus direitos. Era quase meia-noite e nada resolvido. Dormi no chão, pois os responsáveis por qualquer providência não estavam mais no aeroporto. Se estavam, não apareceram.

Você deve imaginar que um país de primeiro mundo só tem aeroportos super fantásticos. Engano seu. Se você se lembra de como era o aeroporto Santos Dummond antes da reforma, diria que ele seria um paraíso perto daquele. Para comer? Só uma birosca que abria das 8 às 18 horas vendendo biscoitos esquisitos que só os americanos conseguem engolir. Tinha pão, mas era para ser comido puro, pois eu nem conseguia olhar para aqueles recheios gordurentos. Máquina de refrigerantes e água. Mas fechados, dentro da loja, depois das seis da tarde. Assim, sem nada para comer ou beber, com um ar condicionado de polo norte e sem nada para me cobrir, eu e mais umas duas pessoas que falavam uma língua indecifrável perambulamos por ali até o amanhecer. Telefonei para meus amigos para que avisassem a quem iria me buscar no aeroporto no Brasil. Acalmei-os, dizendo que estava tudo bem e que voaria na manhã seguinte.

No dia seguinte, a companhia aérea responsável pela minha passagem, a United Airlines (nunca mais viajo nela, se os deuses me permitirem!), me enrolou o dia todo, dizendo procurar alguma vaga em outro voo. Parece que conseguiram, mas a outra companhia, American Airlines, não quis fazer o check in. Voltei para a companhia de origem e me fiz acompanhar por um funcionário ao check in da companhia a que me estavam transferindo. Mas quando a funcionária da United apresentou a passagem no check in da American, o funcionário do balcão olhou a passagem e simplesmente a rasgou, sem a mínima cerimônia. Fiquei perplexa: a falta de respeito se estendia ao colega de trabalho, assim, numa boa, sem explicações!

Estávamos no início de agosto e até entendo que arranjar uma vaga em qualquer voo para o Brasil era uma tarefa hercúlea. Mas a responsabilidade era deles e eu estava lá, morrendo de cansaço, sem banho e comendo pessimamente. Os tickets para alimentação que me ofereciam davam direito às bombas americanas da tal birosca das quais meu estômago não conseguia chegar nem perto. Assim me enrolaram por todo o dia e não saí de lá. Banho? Nada. Reclamava pelos meus direitos e eles apenas diziam que estavam tentando um hotel. Uma droga de língua na qual eu não sabia xingar me atrapalhava a comunicação à altura do que eles mereciam. Não conseguiram acomodações, pois a cidade, que dista quase dez quilômetros do aeroporto, era pequena e estava atolada com uma convenção internacional sem tamanho. Isso era o que eles diziam. Sempre frios e secos, diante desta latina sul americana. E me enrolando o dia todo, passei mais um dia ali, sem saber o que fazer, mas achando que voaria no final da tarde, como me haviam assegurado. Era pura embromação.

Meus amigos iriam para Disney, dois dias depois, com as crianças e eu não queria mobilizá-los. Afinal, o aeroporto ficava quatro horas distante de sua casa e seria uma viagem enorme de ida e volta. E para quê? Ligava para eles duas vezes por dia, dizendo que estava esperando e que estava tudo bem.

Evidentemente, não estava nada bem. Mas fiz o melhor que pude. Naquele saguão sem recursos, dei uma de barraqueira. Juntei minha mala grande, coloquei a de mão em cima, puxei uma mesa deles para perto do telefone publico, que passei a considerar meu centro de informação com meus amigos, e usei uma daquelas cadeiras presas ao chão. Nem sei como não me impediram. Talvez a determinação das atitudes. Os seguranças apenas me olharam. Tentaram se aproximar, mas não dei pelota. Estava montando meu escritório provisório. Mesa, telefone, cadeira, malas como estante. Livro aberto e leitura. Não havia mais nada a fazer. Felizmente, eu tinha mais de um livro na mala e tudo que não tinha lido durante a semana foi engolido ali mesmo.

Quando soube que não voaria naquele dia, perdi, finalmente, as estribeiras. Perguntei indignada se alguém ali falava francês, espanhol ou português. Ninguém. Eu falava três línguas e todos ali só sabiam falar uma droga de única língua. Exigi uma intérprete. A comissária, com cara de máquina, solicitou meu passaporte, disse para esperar e sumiu! Sumiu com meu passaporte por longos quarenta minutos! Eu queria ser presa, eu queria qualquer coisa, algum treco tinha de acontecer! Enfim, ela voltou e solicitou (eles não pedem, eles mandam ou solicitam, com uma falta de gentileza espantosa!) que a acompanhasse. Lá estava a minha intérprete. Ao telefone, lógico. Peguei o aparelho e, do outro lado, uma brasileira, com sotaque carioca. Contei tudo que estava acontecendo, exigi um hotel, um banho, uma cama e, principalmente, providências imediatas para que eu voltasse ao meu país. Foi tudo ouvido, anotado e providências seriam tomadas imediatamente. Que eu me acalmasse e que, em breve tudo estaria bem. Depois disso, me levaram para o saguão de novo e pediram que aguardasse. Eles estariam tomando providências.

O imediatamente deles simplesmente não existe e nada foi providenciado, a não ser um prato de comida que não consegui tocar. Banho? Não havia acomodações no aeroporto, sentiam muito. Não conseguiam hotel. O voo sairia na manhã seguinte e qualquer distancia maior do que a tal cidadezinha me faria perder a hora.

Quando contei que achava que ainda dormiria mais uma noite no aeroporto, meus amigos não aguentaram e se despencaram para lá. Não havia outra coisa a fazer senão concordar. Aceitei e aguardei, sentada em meu escritório, embutida nos meus livros, para passar o tempo da melhor forma possível. Felizmente, livros ótimos. Tão bons que meus amigos chegaram e nem me dei conta deles.

Katia tinha sido minha aluna e, ao me ver ali, daquele jeito, não resistiu ao flagrante. Hoje, ao rever a foto que coloquei lá no título desse conto é que acredito que aquilo realmente me aconteceu.

O bom da história é que eles conseguiram um hotel, às 22 horas da noite. O suficiente para eu poder tomar um banho, trocar de roupa, comer um sanduíche saudável e me atirar na cama por umas duas horas. Nem sei se dormi. Meu voo saia, finalmente, às seis horas da manhã, rumo ao aeroporto de Chicago, onde passaria o dia até que o voo internacional me trouxesse de volta ao lar, partindo às 23 horas.

Agradeço a cada mimo com que este casal me brindou naquela noite. Fico imaginando o esforço de ir e vir, numa viagem de quatro horas para cá, quatro de volta, às vésperas de uma longa viagem para as férias das crianças, só para me oferecerem um banho e um pouco de conforto. Foi mesmo um esforço a mais, inesperado e acolhedor. A vida me brindou com amigos assim e jamais deixarei de dar o devido valor a cada vez que ela me mostra esses requintes...

Voltei ao aeroporto para o susto final: uma fila incomensurável para a passagem pela polícia federal. Como chegamos bem cedo, no início, não dei muita importância. Mas eu não tinha me lembrado de como a revista era rigorosa, passageiro a passageiro. Faltando vinte minutos para a saída do meu voo, falamos com seguranças do aeroporto. Completamente insensíveis, apenas disseram que deveríamos ter chegado mais cedo e que eu me conservasse na fila. Aí é que veio o jeito carioca. Não havia saída. Fomos falando com cada pessoa na fila pedindo para passar a frente e, muitas vezes, quase sem ouvirmos a resposta de sim ou não, já estávamos falando com o passageiro da frente. Nem sei como consegui me adiantar cerca de cinquenta pessoas para me colocar diante da passagem pela segurança. Contando, assim, você não pode imaginar o desespero!

O longo caminho entre a ala de segurança e a entrada no avião foi percorrido correndo, com o fôlego na boca. Se eu perdesse o voo, desta vez, a responsabilidade seria minha. E... do jeito que eu tinha sido tratada, tinha medo de que nada me garantisse que eles esperariam um último passageiro. Me passou pela cabeça que haveria outros na mesma situação, mas eu não via ninguém. Soube, muito depois, por um dos passageiros, que o avião pousara ali em escala, que muitos haviam descido, mas apenas uns dois ou três tinham entrado. Talvez, conexão interna, eu é que vinha de fora. O fato é que consegui entrar e, logo atrás de mim, a porta do avião se fechou.

Eu estava simplesmente exausta, de corpo e de espírito. Jurava a mim mesma nunca mais colocar os pés naquele país. Que os deuses me livrassem de tal castigo! Cheguei a Chicago, naquele aeroporto de sonhos, onde me alimentei à altura e adormeci naqueles magníficos sofás. Dormi quase o dia todo e fui uma das primeiras a entrar no avião com destino certo: Rio de Janeiro. Colocando os pés em solo pátrio, tive ímpetos de beijá-lo. Mas senti-lo sob meus pés, o cheiro do Rio, o sol do Rio, a delicadeza e o sorriso das pessoas do Rio foram suficientes para me sentir em casa, aconchegada e feliz.

Quem sabe, um dia, o destino me faça voltar aos Estados Unidos, só para eu perder a péssima impressão que esse povo me causou. Na verdade, lá no fundo, gostaria de acreditar nisso.

sábado, 30 de outubro de 2010

REGINALDO


Formada em 1973, emendei em um concurso público para professora do Município do Rio de Janeiro, ensino fundamental. Naquela época, passar em concurso, com raras exceções, significava ser mandada para depois de onde judas perdeu as botas. Será diferente hoje em dia? Não sei. O fato, em si, não me chateou. Apesar da distância, dar aula em uma área menos favorecida me atraía, alimentando minha vontade de estar mais próxima da realidade de nossa sociedade carente. O problema era chegar lá.

Como tinha sido convidada a dar aulas na Universidade onde acabara de me formar, ir para Campo Grande, zona rural, exigia uma estratégia em alto estilo, pois os horários praticamente se emendavam. E era uma viagem, sem dúvida. Na mocidade, no entanto, isso não conta e está sempre tudo bem.

Aos novatos estavam sempre reservadas as piores turmas. E uma delas era conhecida como a turma do Reginaldo. Soube o que isso significava ao pegar meu horário e os diários de classe na secretaria:

- Você vai pegar a turma do Reginaldo? Chi...

Como recém formada, sem experiência nenhuma, aquele “chi” esfriou cada vértebra de minha coluna. Mas não tinha jeito. Fingi que não tinha ouvido e segui para o desconhecido. Justamente a turma do Reginaldo estava com o horário cortado pelo recreio. Se a turma era difícil, dar duas aulas interrompidas por um recreio, seria pior ainda. E, no dia seguinte, a turma pegava os dois últimos horários, o que também era pesado, já que os alunos, geralmente, ficam agitados, ansiosos por irem embora. Mas eu procurava não pensar nisso.

Entrei na sala com atitude de quem sabia o que estava fazendo. A porta ao fundo da sala, me fez percorrer o caminho até a mesa, passando pelas mesas dos alunos. Literalmente, andar pelo meio da turma. Cumprimentei-os, ninguém respondeu. Logo na entrada, ouvi a observação de um dos meninos:

- É isso que vai dar aula pra gente?

E ele tinha razão. Aos 22 anos, concordo que eu tinha cara de uns 16, no máximo. Ainda tinha de mostrar minha carteira de identidade em filmes de 18! Fingi não ouvir e consegui alcançar a mesa viva.

Eu estava recém formada, com tudo fresquinho na cabeça e uma vontade imensa de ser uma boa professora. Mas era uma diferença gritante sair de uma universidade da zona sul, onde horas atrás eu tinha dado aula de grego e cultura clássica para enfrentar a turma do Reginaldo, mais da metade dos alunos trepetentes, isto é, cursando o mesmo nível pela terceira vez. Mas aí justamente talvez estivesse o sentido de estar ali, era o que contestava minha alma jovem e cheia de ideais.

Apresentei-me à turma e parece que aquele momento foi o único em que consegui ter a turma atenta nos dois próximos meses. Eu estava doida para saber quem era o Reginaldo, mas não dava o meu braço a torcer. Também não queria me arriscar a fazer a chamada da turma logo no começo, já que eles estavam atentos. Mas durou pouco, havia um bulício que me fazia sentir como se estivesse ali dando aula a ninguém. Foi um custo falar até que a campainha do recreio me salvou. Ufa, intervalo. Mas um negro de alto porte levantou-se, dirigiu-se à porta e fechou-a, dizendo:

- Hoje ninguém sai.

Reginaldo. Dispensado de melhor apresentação. Encostado à porta, olhava para mim. Me lembro que entrei em pânico e dizia para mim mesma ter calma. Tudo me passava pela cabeça, menos gritar por socorro. Não teria voz, eu sei. Aí, me lembrei da minha professora de Estrutura e Funcionamento de Ensino, que aliás, em termos de conteúdo nada teria a dizer para mim naquele instante. Mas aguçou minha memória uma observação que ela tinha feito num dos intervalos de aula: muitas crianças só iam à escola por causa da merenda. Santa professora, nem sabe como isso me salvou, nesta hora à beira do abismo. Olhei para a turma e disse:

- Eu estou com fome e vou lanchar. Quanto a vocês, não sei.

Me dirigi à janela, pulei, dei a volta pelo pátio e entrei na sala dos professores. Não sabia o que fazer. Olhando pela janela, vi a turma no pátio. Ele tinha liberado a turma. Falar com a diretora? Tinha medo de perder a autoridade de vez, não só perante a turma, mas também pela vergonha que sentiria diante dela, uma senhora, perto dos meus inexperientes 22 anos. A próxima aula era na mesma turma, o que fazer? Com certeza estariam esperando por alguma repreensão, alguma atitude, talvez eu fosse acompanhada da diretora ou coisa assim. Não fiz nada, talvez mais por medo do que por iniciativa. Voltei morrendo de medo por dentro, mas fingi que nada tinha acontecido. Passei uma redação, pois me sentia incapaz de dar aula. Meu medo era o de que simplesmente se negassem a fazer. Reginaldo me enfrentou novamente:

- E se eu não quiser fazer?

- Não faça. Não vai valer nota mesmo. É só para eu sentir como vocês estão escrevendo.


Não me lembro se ele escreveu. Lembro-me apenas que o nível da turma era baixíssimo. E a turma era completamente diversificada, tendo alunos de 12 a 17 anos. Reginaldo era o mais velho e também o mais forte. Segundo o conceito dos professores, também o mais marginal. Eu não sabia até onde corria o significado de “marginal” e era, na verdade, a última coisa que queria saber para tentar enfrentar melhor o meu medo, naquele dia.

O fato é que o horário escolar terminou e eu fui apresentada a outra intempérie: os professores deveriam sair juntos para atravessarem, com segurança, a Estrada Comari, rumo a Barão do Monte Alto. Se não fosse com o grupo, não daria para pegar o ônibus das 19:20. Ninguém se arriscaria a descer sozinho pela Comari, mato alto dos dois lados, naquela escuridão. Sair no horário passou a ser, portanto, uma questão de honra, todos reunidos na saída da escola às 19:05. Quem não estivesse ali, não dava para esperar. Significaria perder o ônibus.

Cheguei em casa meio aos prantos. Jurei nunca mais voltar lá. Telefonei a uma grande amiga, psicóloga, bem mais velha do que eu, que já tinha trabalhado em um presídio no Rio de Janeiro. Que sorte a minha! Deu-me todo colo profissional que eu precisava. E soube dá-lo como ninguém. Por uma questão de responsabilidade, voltei no dia seguinte. Dali, teria todo o resto da semana para saber o que eu faria e, com certeza, muitos e muitos papos com essa amiga caída dos céus. De pronto ela me fez ver que seria questão de honra conquistar Reginaldo. O resto seria fácil. Mas como conquistar aquela fera? Meu estômago dava um nó só de olhar para ele. Conversei também com a diretora. Por incrível que pareça, o que ela disse foi fundamental:

- Reginaldo não é má pessoa, querida. É um jovem muito sofrido, nem sabe quem é o pai. Outro dia o vi entregar roupa numa casa aqui perto. Sua mãe é lavadeira. É certo que tem um comportamento marginal, mas acho que é a forma que ele encontrou de ser respeitado nesse fim de mundo. A região aqui, como você vê, não é fácil. E ele é muito respeitado na rua por todos.

Que mulher! Ao contrário de todos, na escola, tinha o olhar de lince, o carinho, o cuidado, a seriedade que, logo percebi, eram os responsáveis por faze-la tão querida por professores, funcionários e alunos.

Mas voltemos aos fatos: conquistar Reginaldo, o menino que não era má pessoa. Sorri no meu desespero e parece que a vida estava começando a facilitar as coisas para o meu lado. Eu ia à escola às segundas e terças. Na segunda seguinte, ao entrar na sala, vi Reginaldo com dois profundos cortes no braço. Muito fundos. Não perguntei nada e segui em frente. Tinha um pacto com minha amiga de seguir a risca suas orientações e não queria dar mancada alguma. Por que eu continuava lá? Não me pergunte, pois até hoje eu não tenho essa resposta. Minha amiga, no entanto, era a tábua de salvação e à noite contei o que vira a ela. No mesmo momento ela soube identificar o ferimento: briga com navalha dupla.

- O que é isso?

- Briga com duas navalhas em uma só mão. Precisa ter muita destreza e parece que esse seu aluno tem. Mas levou um bom talho. Quando se luta com duas navalhas o objetivo é ferir o adversário cortando-o com as duas lâminas ao mesmo tempo. Assim, a cicatrização é muito lenta, pois a pele que puxa para cicatrizar um lado, abre a ferida do outro. Esse seu menino não é brinquedo não e, se ele só se feriu no braço, com certeza levou a melhor.

- O que eu faço?

- Nada muito direto. Compre tudo que você achar que seria bom para curativo, coloque num saquinho discreto e, quando passar pela carteira dele, amanhã, coloque em cima da mesa dele e diga baixo e discretamente: para o seu ferimento. Depois, siga em frente e finja que não fez nada. Vamos ver como ele reage. Se a diretora disse que ele é um bom menino e como me chamou a atenção que ele entrega a roupa para mãe, pode ser mesmo que talvez esse seja um bom começo. E não olhe para ele durante a aula, de jeito nenhum. Assim, ele não se sentirá focado no resto do tempo. Pode constrangê-lo ou mesmo irritá-lo.


Fiz exatamente o que ela mandou e procurei não olhar para ele durante toda a aula, como estava prescrito.

Na semana seguinte, consegui dar alguma aula na segunda, muito embora tivesse de enfrentar o período antes do recreio e depois do recreio. Na terça, a turma pegava os dois últimos tempos e eu caí na besteira de dar uma redação. Foi aí que aconteceu. Reginaldo e seu amigo mais chegado, Paulo César, esticaram o tempo e diziam não terem terminado a redação no final da aula. Eu não sabia o que fazer, já que teria de me encontrar com o tal grupo de professores para pegar o ônibus. Se perdesse o grupo, teria de esperar os professores do turno da noite saírem. Chegaria de madrugada em casa! Mas não tive coragem de reagir. Estava nervosa, sem saber como resolver o problema e percebia que eles estavam mesmo enrolando. Parecia de propósito. Me entregaram o trabalho depois das 19:05. Eu perdera a companhia dos colegas. Jurei que não voltaria mais ali. Não precisava me expor a tal ponto. Me encaminhei para a diretora para pedir orientação. Já tinha ido embora. A secretaria fez aquele “chi”, de novo. Acho que ela tinha esse “chi” na ponta da língua para tudo. Deveria ser vício de linguagem. Aconselhou-me, no entanto, a ficar no portão do colégio para tentar, quem sabe, alguma carona de alguém que tivesse ido de carro ou algum grupo que fosse descer a rua. Caso contrário, só mesmo esperando terminar o turno da noite. Telefonei para casa avisando que perdera o ônibus. Embiquei para o portão. Dois vultos na penumbra, do lado de fora. Nada mais nada menos do que Reginaldo e seu amigo. O que estariam fazendo ali? Ao me verem, se aproximaram e Reginaldo me disse:

- Professora, vamos acompanhar a senhora até a Barão.

Referia-se à Barão do Monte Alto, a tal rua do ônibus, lá embaixo, depois de atravessar sete longos minutos da tal Estrada Comari.

Senti meus ouvidos zunirem, fiquei um pouco tonta, meu estômago congelou. Eu não sabia se isso era bom ou mal. Mas todo o meu corpo se sentiu em perigo. Adrenalina pura. Eu tinha de resolver o que fazer. Negar? Estaria perdida nas aulas seguintes. Aceitar? O que poderia me acontecer? Acreditei nos anjos, acreditei nas palavras da diretora “Reginaldo é um bom menino”, mas estava muito claro para mim que aquilo era uma armação. Eles tinham se atrasado e estavam me esperando ali. O que fariam comigo? Até hoje, eu não sei por que aceitei. Se alguém estivesse me contando essa história eu diria com certeza que, se fosse eu, não tiraria os pés da escola nem que os deuses do olimpo viessem em bando tentar me convencer do contrário. Mas fui. E, aí, aconteceu o inusitado. Passamos por vários grupos esquisitos, uns jovens mal encarados, alguns com bebida nas mãos. A Estrada Comari não tinha qualquer iluminação e era rodeada, dos dois lados por terrenos baldios. Os bandos que encontramos estavam conversando em pé, todos eles. Não vi armas, não vi nada, mas eu tremia da cabeça aos pés. Reginaldo engrenou um papo cujo conteúdo não sei dizer qual foi. Ele via que eu estava apavorada. Na verdade, não sabia se ele estava falando comigo ou com o amigo. Eu andava meio ensurdecida, meio anestesiada, pronta para sucumbir ou ser sucumbida. Mas eles foram atravessando cada roda de marginais dizendo:

- Licença aí pra professora, licença aí pra professora.

Não cheguei a me acalmar, nem a sair do estado de alerta, mas algo me dizia que eu não corria perigo. Pelo menos, não iminente. Enfim, chegamos ao ponto do ônibus e Reginaldo apenas me disse:

- Agora ninguém deve nada a ninguém. Pode descer sozinha quando quiser, que ninguém vai mexer com a senhora.

Caiu a ficha. Ele estava me pagando o favor. Eu lhe dera curativos na véspera. Ele me dera proteção na rua. Vim para casa sem saber se isso era bom ou mal. Pela minha amiga, era bom. De alguma forma, eu tinha tocado em algum ponto importante do jovem. Talvez as coisas rumassem melhor a partir daí.

O fato é que, realmente, quando eu me atrasava, descia a Comari sozinha, encontrando os grupos que sempre me cumprimentavam: “boa noite professora”. E ninguém mexia comigo. Poderoso esse Reginaldo. Muitos anos depois, essa imagem também se desfez. De modo geral, os professores são respeitados e tive outras oportunidades de entrar em favelas ou bairros suspeitos, tendo sido apresentada antes como professora. Às vezes, penso como seria bom sermos assim tão respeitados também pelas autoridades em nossa profissão. De qualquer modo, a atitude de Reginaldo fora diferenciada e ele, com certeza, queria dizer algo para mim. Alguma coisa me dizia que eu tinha conseguido tocar um pedacinho de seu coração. Será?

Minha brilhante amiga me instruiu direitinho: eu precisava mostrar ao Reginaldo que sabia que a liderança era dele e que eu dependia dela para conseguir dar aula. Ao contrário do que aprendemos na academia, a questão, ali, não era mostrar que quem manda é o professor. A psicologia era outra. Ela me dirigia como quem dirige um barco no meio da tempestade, mas sua destreza com a experiência anterior no presídio tinha sido um presente dos céus para mim. Então, fazer tudo para que minhas aulas dependessem da liderança do Reginaldo. Assim, eu não estaria nem de longe querendo tocar em sua autoridade diante da turma. Diante da fragilidade da situação, me parecia mesmo o melhor seguir seus experientes conselhos.

Na semana seguinte, no meio da aula, se é que se poderia chamar aquela bagunça de aula, Reginaldo me chamou, levantando a mão. Me dirigi a sua carteira e ele me mostrou um saquinho. Pensei que ele iria devolver o apetrechos de curativo que eu tinha levado na semana anterior. Não era isso. Perguntou-me:

- Sabe o que é isso?

- Não.

- Tem um sapo aqui dentro e pretendo soltar ele na sala. Mas vou esperar sua aula acabar. Talvez eu solte na outra. Mas se a senhora dedurar vou considerar traição.


Que dilema! Estaria expondo meu colega que entraria depois. O que fazer? Fui totalmente covarde e sofri por isso por um longo tempo. Não disse nada. Pela primeira vez, e logo no início de minha carreira, me senti traindo um colega. Esse amargo na boca me custou muitas noites de sono. Noites sem conta. Na semana seguinte soube o que acontecera: o colega entrou, viu o sapo e simplesmente saiu da sala. Não deu aula naquele dia. Segundo ele, não “se esquentou” com a questão. Simplesmente foi embora mais cedo. Deveria ter-me aliviado, mas, na verdade, a marca de minha postura me tocou profundamente. Sei o quanto isso foi valioso nas minhas conquistas junto a Reginaldo, mas o amargor que este fato me custou marcou um aprendizado de ética que me custou bem caro em todas as outras oportunidades futuras, às quais fiquei duplamente atenta. Às vezes, é mesmo preciso errar para aprender. Se é que aquilo teria sido um erro. Mas eu o via como tal.

Depois do episódio do sapo, no entanto, só faltou mais um fato para a conquista definitiva de Reginaldo. Na semana seguinte, quando estava ainda no corredor, caminhando em direção à sala, um dos alunos veio me avisar que Reginaldo estava completamente bêbado. Meus deuses, e agora? Um marginal bêbado dentro de sala, como seria? O que eu estava fazendo ali! Entrei pronta para sair, caso a coisa estivesse feia. Que se danasse a psicologia, eu não ficaria com um marginal bêbado dentro de sala. Era coisa para a diretora resolver. Felizmente, no entanto, não sou precipitada. Entrei. Reginaldo estava completamente caído da cadeira, recostado na parede, não sei como. Paulo César me disse que ele tinha tido um confronto com o chefe de outro grupo. Disputaram quem conseguiria beber mais sem cair. Era, portanto, uma disputa de fortaleza e liderança. Reginaldo tinha vencido, pois conseguiu sair e andar até a escola sozinho. Mas, ali, ele estava imprestável. Senti, no ato, que ele estava completamente incapacitado a fazer qualquer algazarra, tal o estado de prostração. E eu estava ficando mais espertinha. Cheguei perto dele e falei:

- Ok, sei que você não está bem. Vamos fazer um acordo: eu não digo nada na diretoria e você não atrapalha minha aula.

Eu estava em vantagem. Ele sequer conseguia abrir o olho quanto mais me responder! Paulo César tomou a liderança da turma e mandou todo mundo calar a boca e ai de quem falasse qualquer coisa na secretaria. Foi o primeiro dia em que dei aula tranquilamente. A turma estava meio em choque. Realmente, eu estava em vantagem. Ademais, Paulo César mandava todo mundo ficar quieto, provavelmente, para não chamar a atenção do inspetor de alunos para a sala. Pegar Reginaldo naquele estado, com certeza, daria confusão.

Dali por diante, fui conquistando a turma aos poucos e não me lembro bem como, no mês de maio (lembro-me disso por causa do meu aniversário), era a turma em que eu conseguia dar as melhores aulas. Na entrada da sala eu já dizia:

- Reginaldo, cheguei.

Nunca foi verbalmente combinado, mas eu não olhava para a turma até ele me dizer:

- Pode começar professora.

Era como se eu não estivesse lá. O que ele fazia, eu não sei. Só sei que eu me virava de costas, apagando o quadro negro, enquanto ele punha ordem no caos. Às vezes eu ouvia o som de caderno voando ou coisa assim. Turma sentada, todos nos lugares e em silêncio:

- Pode começar professora.

Se, no meio da aula a bagunça começava a aparecer ou havia muito bulício e dispersão, eu apenas dizia:

- Reginaldo, dá um jeito na turma pra mim?

Quando aquele negro, alto, de porte altaneiro, de bigode, começava a se levantar, todo mundo sentava. Mas seus olhos, no fundo, eram muito doces. Daí para ficarmos amigos não demorou muito. E, se no primeiro mês ele teve conceito “E”, posso orgulhosamente dizer que em setembro, ele ostentava um belíssimo “B” na minha disciplina. E, posso garantir que foi às próprias custas, pois nunca dei refresco a ninguém.

Se há um aluno de quem sinto especial saudade é o Reginaldo. Chegamos a conversar algumas vezes, em alguns intervalos. Seu sonho era ser médico, mas, segundo ele dizia, era tarde demais.

- Eu não vou poder estudar pra medico. Eu sei disso. Não é pra mim. Estou velho, vou fazer 18 anos e aí, não poderei estudar mais. Vou servir o exercito no ano que vem. Acho que é o máximo que vou poder fazer da minha vida. Quem sabe, eu acabe um bom soldado.

Tenho lágrimas nos olhos ao escrever isso, ao me lembrar de seus olhos negros e profundos. Eu nem sei se ele iria querer mesmo ser médico, se foi um sonho de momento. Mas a dor de ver alguém tão precioso e de olhar tão doce, perdido num canto qualquer do mundo, se vendo sem chance, multiplicou em mim, a consciência de como vivemos tão longe da realidade social. Olhar de fora e de longe é muito diferente do que sentir, na pele, a vida dessas pessoas.

Nunca mais soube do Reginaldo. Na verdade o tremendo esforço de me despencar da universidade para Campo Grande, debaixo de sol ou chuva, colocando botas para subir a Estrada do Comari, tendo almoçado apenas um biscoito na viagem entre a zona sul e a rural, e ficando sem comer até as 22 horas, custou-me um preço muito alto e tive de abandonar o Município e ficar só com a universidade, após uma licença de três meses para cuidar da saúde.

Hoje Reginaldo estaria com 52 anos, provavelmente. Gostaria de reencontra-lo para saber de sua vida. É mais provável que eu tenha me apagado nos rastros de seu passado. Para mim, no entanto, ele foi um grande marco de amizade, de pacto, de aprendizado e de amor incondicional sincero. Amei-o como se ama a um “filho emprestado”, encontrado, sem querer, à beira da estrada da vida. E do mesmo modo que nos encontramos, de repente, seguimos, cada um, o seu caminho. Mas, para mim, ele estará guardado no meu coração para sempre.

sábado, 23 de outubro de 2010

O MICO


Cônsules são tão cuidadosamente formados e preparados para a função que não se espera um mico, principalmente em situações delicadas. Nós nos esquecemos de que são humanos. Não perdoamos a gafe. Mas essa é mesmo digna de nota.

Tudo começou quando fui visitar uns amigos em Manaus. Ele, militar da marinha, super conceituado, foi designado para uma missão na Amazônia, por dois longos e intermináveis anos. Digo isso, como amiga distante da família, presa no Rio pela saudade principalmente de sua esposa, minha ex-aluna e amiga, saudade dele mesmo, que considero um doce irmão, da mãe e das crianças, naquela época, bem pequenas.

A oportunidade de visitá-los surgiu, um ano depois de sua ida, nos feriados da independência. Meu “irmão” iria estar de folga e poderíamos curtir bem os feriados, conhecendo os cantos gostosos dos meandros amazonenses, dando descanso à saudade. E fui. Na mala, apenas roupas esportivas e, para não deixar uma mala feminina incompleta, um vestido para jantar. Nunca se sabe.

Graças aos deuses as mulheres pensam no “nunca se sabe”. Nesse caso, esse nunca se sabe aconteceu em todas as cinco noites ocorridas em Manaus. Todas. Ocorre que meu querido comandante foi, à última hora, convocado para fazer as honras às nações vizinhas que vieram em suas embarcações ao Brasil para oferecerem suas homenagens ao evento da independência. Mais especificamente, navios da Guiana Francesa, Paraguai e Uruguai. Nosso feriado foi para os ares, pois, fazer as honras significa ser responsável por todos os requisitos do anfitrionato, durante o dia, e aos jantares durante a noite, levando a família, naturalmente. Isso queria dizer um jantar na embarcação de cada um dos navios estrangeiros em cada noite, mais a noite no navio brasileiro e, para encerrar, um jantar na casa de um cônsul que não vou dizer qual é, pois a gafe veio mesmo dele. Tudo isso sem contar com um ataque simulado de guerra que teria de ser comandado pelo nosso ilustre chefe de família, fazendo parte do kit, o que significou que ele não podia estar conosco nas horas diurnas, enfurnado que ficou no comando das estratégias do exercício militar. Brincadeira de bandido e mocinho.

De qualquer modo, pelo menos, vi a família e passei por momentos muito interessantes. O comandante brasileiro, como disse, foi convidado a cada noite para jantar em um dos navios. Ele e sua família. Bom, eu não era da família e já estava me preparando para ficar em casa, lendo um bom livro, já que, às noites, não teria o que fazer sozinha pela cidade. Manaus, à noite, naquele tempo, só mesmo para quem conhecia. Agora não sei como está. Mas nem passou pela cabeça de nosso comandante me deixar em casa. Meu “irmão” não fez por menos. Colocou-me na lista familiar. É preciso, a esta altura, esclarecer que somos de raças diferentes. Bem diferentes. Ele é um negro de porte, ombros largos, alto, tipicamente filho da África. A esposa também da raça negra e eu, como você já viu nas fotos, porte delgado, branca, de olhos claros. Mas, tudo bem. Seu comandante ordenou, quem sou eu para discutir. Só que à entrada no primeiro navio, talvez mais por carinho do que por outro motivo, fui apresentada como sendo sua irmã. E assim ficou, como um epíteto carinhoso. E, depois da apresentação do primeiro dia, tendo sido tudo tratado com a maior naturalidade, me senti um pintinho no lixo, super à vontade, com o novo título.

O fato é que nos consideramos irmãos mesmo e isso, no fundo, era muito natural. E nos conhecíamos há tantos anos que eu mesma não me sentiria não irmã, em algum momento. Justiça seja feita: as coisas estavam no lugar. Só no dia do jantar do cônsul é que fomos perceber o quanto o fato tinha chamado a atenção de todos e como tinha sido levado a sério!

Depois de todos saírem da mesa e estarmos em grupos pela sala, o cônsul sorridente, me perguntou:

- Há quantos anos vocês se conhecem?

Levando a brincadeira adiante, apenas respondi:

- Desde que ele nasceu, já que sou mais velha.

Pelo olhar admiradíssimo do cônsul, percebemos, no entanto, num segundo, toda a história daqueles dias, os supostos comentários e a tremenda curiosidade em torno do fato. Mas aí já era tarde, fiquei firme. Meu irmão colocou a mão sobre o meu ombro e ficou firme idem, dando força ao pedaço. Acho que surgiu, de repente, em nosso espírito altaneiro, a luta contra a discriminação. Sua mão no meu ombro contou tudo e, ali, se concretizou a defesa de nossos princípios.

Mas o cônsul não percebera e capturado, talvez, menos pela singeleza da resposta do que pela estupefação insistiu:

- Mas vocês são irmãos mesmo, de mesmo pai e da mesma mãe?

Isso, com certeza, feria o protocolo. E muito. Não era pergunta que se fizesse em alto em bom som, em pleno território brasileiro (ou qualquer outro lugar do mundo!), em um jantar oficial, com os cerimoniais de praxe, vinda de uma pessoa com quem não tínhamos qualquer intimidade. A brincadeira ingênua dos primeiros dias, de repente, valia uma defesa de princípios! Num pacto de segundo, meu irmão e eu percebemos que a gafe agia por si só e merecia ausência de resposta para ficar mais contundente. Apenas olhamos para ele. Nós e todos os convivas. Silêncio geral, “daqueles” silêncios desconcertantes.

Eu não tinha a mínima intenção de ajudá-lo a consertar o mico. Teve de fazê-lo sozinho, convidando a todos para se deslocarem para a outra sala, para um café.

Um sem número de vezes, durante a vida, tive de optar pelas cidadanias da minha alma, todas, quase sempre, ligadas aos direitos de classes discriminadas socialmente. Em todas felizmente, tive a chance de colocar meus princípios a favor da minha liberdade de ser, acima de tudo, uma cidadã do mundo.

Fui para casa radiante por dentro, com a alma em festa por ter deixado tão mal uma eminente autoridade do “nada”. Agradeço a esse cônsul, portanto, mais uma noite de sonhos bem dormida. E também a meu irmão, por termos feito isso acontecer.

sábado, 16 de outubro de 2010

O PAPA


Fui a Roma e não vi o papa. Tinha tanta coisa a fazer na Itália, que, realmente, não deu. Em princípio, nada contra o papa. Era mesmo uma questão de tempo ou, quem sabe, um excesso de terços e ladainhas, já estressantemente vivenciados em meus dez anos de internato. Por conta de reza, portanto, com certeza não estaria eu em falta.

Mas fui ao Vaticano. Palmilhei a cidade atrás das artes, da biblioteca, da própria basílica que é estrondosamente interessante, embora eu não a tenha achado a mais bela do mundo. É difícil derrubar a beleza de Notre Dame, o encanto da Saint Chapelle, a monumental Catedral de Colônia, só para citar algumas, já me esquecendo da Catedral de Milão e da indescritível porta do sol do Batistério de Florença... de qualquer forma, me encantei com muitos dos inumeráveis detalhes da catedral mor da cristandade.

Só não agüentei visitar o tesouro do papa. A santa igreja que me desculpe, mas tudo que aprendi no internato a respeito dos votos de caridade e pobreza foi palmo a palmo desmentido no meio de tanta escandalosa riqueza.

Não tenho nada contra riquezas. Nadica. Cada um que tenha a sua com direito de posse e postura que mais desejar. Sejamos ricos ou pobres a nosso gosto ou desgosto, ninguém tem nada a ver com isso. Se você quer dividir o que tem com alguém que tem menos do que você, problema e gosto seu. Qualquer tipo de julgamento a esse respeito, para mim, está destituído de senso de valor.

Não tenho posições políticas a respeito. Não me considero capitalista, nem socialista. E também não jogo na coluna do meio. Sou nada. Que me considerem alienada, não me importo. Mas sei que sou uma pessoa de profundo bom senso. E não cabe no meu bom senso ter aprendido que os religiosos fazem votos de pobreza e cada papa, sob o argumento de conter a representação de um “Estado” ostente tanta riqueza sem tamanho.

Fui constatar isso ali, nos subterrâneos da Basílica de São Pedro. Cada papa, dos inúmeros que o mundo viu, teve seu próprio manto incrustado de riquezas sem fim, entre ouro, pedras preciosas e bordados transcendentais. Cada um teve seu bastão, seu ostensório, seu anel, seus paramentos, enfim, seu riquíssimo enxoval. Nada passou de um para outro. E pior, que eu saiba, não está em pauta a idéia de doação desses bens a necessitados. Tudo faz parte do patrimônio dessa cidade-estado.

Passar por esse museu, uma vez que se entra, não tem volta. Nos primeiros passos, antevi o que veria e quis voltar. Não era permitido. Uma vez no labirinto, tinha de trilhá-lo até o final. Depois de poucos passos, comecei a passar direto. Na verdade, comecei a passar mal. Meu estômago literalmente embrulhou. Queria ar, queria sair dali. Por que não poderia voltar? Não tinha jeito, tinha de seguir em frente, o que fiz o mais rápido que pude. Para completar, o museu desemboca numa lojinha de recordações, com réplicas de relíquias, coisas sagradas à venda, etc.

Repito: não tenho nada contra riquezas. E não teria nada contra as riquezas do Vaticano. Eles podem ser podres de ricos que para mim não faz diferença alguma. Só não agüento ter sido interna aprendendo votos de pobreza por parte dos religiosos. Não faz sentido. Nenhum. Sejam ricos! Sejam felizes! Só não me peçam para abrir os meus bolsos em dízimos, pois sou paupérrima perante o que vocês tem! Fiquei confusa, completamente confusa com esta visita.

Se algum apreço eu ainda guardava dos princípios de caridade e compaixão cristãs por parte da educação religiosa que tivera, estava literalmente “desconvertida”. E revoltada também. E traída. Não houve explicação que me convencesse. Os argumentos são vários a respeito do patrimônio de Estado. Nada feito. Eu não tenho nada contra riquezas, já disse. Podem estar carregados de ouro, já disse. Só não me venham com discursos de caridade!!! Para mim, isso passou a me parecer fazer favor com chapéu dos outros e, no caso, caridade com o meu chapéu!!! Nada disso.

Enquanto eles não entrarem materialmente na concretização da compaixão pelo outro, o assunto está encerrado para mim. Não tem doação em nome de igreja alguma que eles consigam me convencer a fazer. Minhas doações, a partir daí, passaram a ser diretas, do meu bolso ao consumidor, exceção feita aos Médicos sem Fronteiras e a uma creche sustentada por um amigo que você já conheceu, se leu o conto “a ponte”.

A santa madre igreja me desculpe, mas acho que está muito longe de me convencer que aquele tesouro tem razão de ser. E olha que aquilo é apenas uma amostra! Nem todos os pertences estão ali!

Saí do Vaticano com duas lacunas. Essa e o fato de que a biblioteca mostra apenas um pequeno filão do ouro em forma de conhecimento e documentos que os subterrâneos guardam em seus papiros e tudo que seus livros devem conter. Quanta sabedoria escondida continua guardada e trancada a sete chaves... e por quê? Será que um dia virá a luz?

Fora isso, adorei estar lá. A visita à basílica foi amenizada pelas pinturas da Capela Sistina. Ficaria horas esquecida, exercitando meu pescoço em busca de detalhes daquelas pinturas monumentais. Não fossem os dias contados, não teria saído dali tão cedo, meio puxada pela mão de meu ex que tinha um roteiro cheio de atrações, ainda para o mesmo dia.

Enfim, adorei ter ido. Até pela experiência, pelo dissabor, pela vivência. Não vi o papa. Depois da visita às riquezas, acho que ficaria muito triste em vê-lo. Pareceria uma hipocrisia, pelo menos para mim. Não poderia saudá-lo. Não conseguiria.

Paciência. Tenho minhas limitações de entendimento e compreensão. Não engoli a pílula. Quem sabe, um dia, eu consiga entender para que ela serve. Por enquanto, soaria como veneno e me faria muito mal engoli-la ou deixar de comentar sobre o assunto.

Que você me leia com a condescendência de quem é capaz de entender que não posso calar-me diante da pobreza que vejo diariamente a minha volta e de quem compreende que não consigo entender o discurso doce do dízimo. Não esse dízimo. Os deuses que me perdoem.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

PRETEXTO


Manhã de sábado. Um sol fosco anunciava chuva breve. Meninos jogavam bola no gramado e, nos bancos, as mães jogavam verde. E, enquanto a luz do sol se misturava com as sombras das árvores e dos cochichos, mais uma personagem que aparentava ser uma das imperatrizes das artes de maldizer, chegou com seus olhos novidadeiros. Todas se voltaram. A impressão que tive foi a de me sentir como alguém que nunca sabe se os “investimentos” da velha senhora eram garantidos, mas, à falta de melhor motivação, as mulheres em volta se entregaram às falações da “comadre”.

Nos bancos e no gramado o jogo continuava. O sujo do céu refletia-se nos joelhos infantis e também nos olhos nada ingênuos das que ali teriam ido para dar espaço à inocência.

Eu acabara de caminhar pela praia e de fazer meus exercícios de Tai Chi Chuan. Embora semi-nublada, a manhã estava linda naquela pontinha da praia do Leme e como nas pedras ventava muito, eu tinha declinado do meu hábito de me sentar nelas, para buscar o calçadão, mais especificamente um canto de gramado, fugindo do vento e buscando sossego. Foi nessa hora que o bulício atravessou o meu caminho, sob a forma do quadro descrito acima.

Nada ali combinava com a minha alma refeita pela caminhada no calçadão e pela luz suave e pura da natureza. Falações de novela e da vida alheia. Nada combinava com os lentos e harmoniosos movimentos de Tai Chi. Minto: tudo combinava com a inocência dos jogos infantis à minha volta. Aos poucos, portanto, as vozes das mulheres foram amortecidas pelo vento e meus sentidos apagaram os sons em meus ouvidos e aguçaram o sentido visual: as crianças, em volta, sorrindo, jogando, rindo, pulando, suando, felizes.

Alma seletiva. Voltei lenta para casa e o silêncio interior invadia meus pensamentos de calma e paz. Sentia-me completamente alienada, longe das novelas, dos babados, das fofocas, dos jornais, da internet, dos meus problemas, das doenças de meus clientes, do desespero, das angústias, dos jogos políticos, da vida.

Mas durou pouco. Véspera de eleições. Papéis eleitoreiros estavam espalhados pelo chão. Pisados, sujos... talvez como muitos de seus donos... mas isso já é um juízo pessoal, pensamentos soltos, que passavam pela minha cabeça.

Silenciosa e calma trilhava os passos rumo ao meu ninho. Mas a visão dos papéis turvou meus pensamentos. Pensei na falta de moradia de tantos meninos que eu já conhecia de rostinho pela rua. Pensei nos rostos dos candidatos pisoteados pelo chão. Deputados, senadores, governantes, presidenciáveis, todos ali, juntos, “sem pátria e sem mãe”, no lixo das ruas, como os meninos que se espalham pelo bairro e que fazem parte do meu cotidiano.

Luz e sombra se confundindo. Um conto real de puro abandono. O lixo eleitoreiro e o lixo do descaso. As mulheres absortas nas irrealidades construídas em suas “conversas” sem rumo e sem destino como os meninos de rua, ao lado dos “santinhos” dos candidatos apenas esperando a primeira chuvarada para entupirem nossos esgotos e encharcarem nossas ruas - havia uma competição constante entre eles e os anjos da COMLURB.

Sentimentos de véspera de pleito. Não deveria me incomodar, naquele momento de calma interior, o resultado das urnas. Mas alguma coisa, no meio do lixo, precisava salvar-me do sentimento de cidadão abandonado à própria sorte... e do cidadão-menino que me chamava de tia e para quem eu não tinha solução. Precisava amenizar a dor do meu peito, de minha completa impotência civil, a necessidade de um recreio, um oásis, um alento, uma esperança de vida, de vida real, de conforto social plausível, de patriotismo sem deslizes. Algumas gotas esparsas num oceano de necessidades sociais - era o máximo que eu conseguia fazer e era o máximo que eu, às vezes, conseguia ver.

Papéis sem sentido no chão, com fotos sorridentes. Rostinhos infantis sorridentes a minha volta, esperando um lanchinho da tia. Tudo igual. Não via diferença vital em nenhuma das fotos, de qualquer partido. O mesmo sorriso, as mesmas promessas e o mesmo entardecer que se faria em breve nessa véspera chuvosa. No entanto, uma esperança de que, por alguma razão, apesar de tudo, talvez impulsionado pelo próprio destino, dê certo.

Calma pessoal misturada à angústia da impotência. Novamente, em meu pensamento, voltei a perceber apenas o eco das vozes das mulheres da praça se misturando com o eco das vozes infantis.

Escolhi as vozes infantis: autenticidade, presença, esperança. Tudo por acontecer. Enfiei a chave na porta e vim escrever este conto.

sábado, 2 de outubro de 2010

A PONTE


Final da década de 90, não me lembro muito bem em que ano. Naquele tempo, o “msn” da moda era o “icq”. Quem é da época, lembra. Eu vivia com ele aberto, pois mantinha contatos profissionais e com amigos por ali, deixando bilhetinhos, recados, horários de orientação acadêmica, etc. Fácil e rápido. E aberto a eventuais visitantes, como é o msn hoje.

Um dia, uma telinha se abriu com o recado de “feliz dia de santa eulalia”. Eu sabia que existia uma tal de santa eulalia, mas daí a saber o dia da santa era outra história. No mais puro espanhol, o bilhetinho piscava em minha tela. Agradeci e, não resistindo, perguntei de onde ele era. Barcelona! Entramos num papo e, para encurtar essa parte da história, passamos a conversar um pouquinho todos os dias. Eu chegava da universidade, às vezes tarde da noite, e lá estava o espanhol, me esperando na telinha, ressaltando o fato de que, levando em consideração o fuso horário, isso era para ele completamente esdrúxulo, correspondendo a altas horas da madrugada, em Espanha. Mas o papo era ótimo e nos acostumamos um ao outro. Conversa vai, conversa vem (literalmente!), passaram-se os dias e meses e nos falávamos quase diariamente.

Depois de algum tempo, ele pediu para me telefonar. Ficamos de papo, um pouquinho e voltamos a teclar. Foi quando ele me convidou para conhecer Barcelona. Bem, aí era papo demais. Eu não iria me despencar do Brasil, em pleno ano letivo, para conhecer Barcelona, me encontrar “sei lá com quem”. Não. A distância era a mesma, eu disse, e... ficou por isso mesmo. Passaram-se uns dias e estávamos, enfim, no final do mês de abril, quando, ele, muito gentilmente, me perguntou o que eu iria fazer no dia 14 de maio às 17.30. Pensei logo que, vendo a descrição do meu perfil, desejava entrar on line, delicadamente antes do horário normal de festejos, para me desejar feliz aniversário. Com a mesma delicadeza, disse-lhe que, muito provavelmente, estaria livre.

- Comprei a passagem, dá para me buscar no aeroporto?

Fiquei olhando para a tela, estarrecida, por algum tempo. Como assim? Não sabia o que responder. Da tela para o aeroporto, do virtual para a realidade. Meu coração deu um nó. O que iria responder?! O homem vinha mesmo, com passagem comprada e tudo! Ele notou o silêncio da tela e se adiantou:

- Se for inconveniente, me diga.

Eu nem sabia se era conveniente ou não. Estava sem “fala”! Ele adiantou-se e escreveu que tinha vontade de me conhecer, conhecer o Brasil, passando uns dez dias por aqui. Não tinha saída. Respondi que, sim, que teria prazer em ir buscá-lo.

Daquele dia em diante, as horas se atropelaram. Para completar, minha universidade entrou e greve no dia 10 de maio, o que significava que coincidentemente, eu estaria completamente livre para recebê-lo no dia 14 e seguintes!

Três dias antes de sua chegada, o correio me trouxe um pacote: um gato de pelúcia, vindo da Espanha, acompanhado de um gentil cartão, antecedendo sua chegada. Muito simpático. Confesso que aumentou minha expectativa.

Finalmente, dia 14. O dia passou lento, com diversos telefonemas de amigos, como sempre. Todos bem recebidos, mas você deve concordar que minha mente, meus olhos relojoeiros e meus sentidos, estavam no aeroporto desde a véspera, ou melhor, há uma semana, no mínimo.

O avião chegou absolutamente no horário. E o espanhol foi um dos primeiros a sair, com uma rosa não natural nas mãos, no formato de um delicado brochinho, me pedindo desculpas antecipadas por não ter podido trazer uma de verdade. Ali estava ele, afinal. Uma gracinha, mas... não “bateu a tal química” se é que você entende o que quero dizer. Os sentidos e o coração são donos de nossa vontade, não tem jeito. Talvez, infelizmente. Vi, de saída e pelo beijo de chegada que este espanhol jamais seria mais do que uma pequena e simpática aventura. Mas como dizer isso a um homem que se dispusera a atravessar um mar para me conhecer? Eu não podia. Então, fiz dos 10 dias seguintes, dias de aventura e de turismo. Namoramos, brindamos a esta cidade maravilhosa, curtimos a realidade de termos transformado as teclas em olhares, sorrisos, piadas, passeios, papos, brincadeiras e namoro. Foram dez dias tranqüilos e buliçosos ao mesmo tempo. E passaram tão depressa como quaisquer outros dias de férias.

Volta para Barcelona e, muito diplomaticamente, encetei um distanciamento que se fez aos poucos. Meus horários começaram a ficar um pouco complicados, etc. Mas a minha gentileza sempre esteve presente, em respeito a essa aventura louca de alguém que se atira em busca de outro continente como uma flecha sagitariana, pois era justamente o que ele era.

Um ano depois, o espanhol cismou de embicar para o Brasil, novamente, desta vez para fazer um curso esotérico perto de Belo Horizonte. Decididamente, ele se apaixonara por essa terra magnífica. O curso duraria um mês e queria vir ao Rio para me encontrar de novo. Eu estava envolvida com outros cursos, e respondi que, infelizmente, estaria no sul do Brasil. Tudo divinamente arquitetado pelos meandros da vida, graças aos deuses olímpicos, para meu alívio e sorte dele, como você verá logo a seguir.

Pois então... o homem se encontra, no curso, com uma paulista e acaba se envolvendo com ela. Num mail, me conta a história e eu, rapidamente, dou a maior força, incentivando-o a ir adiante. Para resumir a história, os dois acabaram ficando juntos. Na volta à Espanha, ele lamentava não poder vê-la mais e todo aquele drama que incomoda a duas pessoas que, finalmente, encontraram o seu grande parceiro e sua grande parceira, mas não sabem como resolver a distância. Isso durou uns dois ou três meses, no máximo, pois a paulista resolveu se despencar para a Espanha, até que ele pudesse se aposentar e vir morar no Brasil.

Hoje são casados e vivem perto de Belo Horizonte, realizando um grande sonho comum: são coordenadores de uma instituição não governamental que cuida de crianças que receberam maus tratos ou foram abandonadas e aguardam serem adotadas. Um espaço de amor e paz, de carinho e dedicação que a vida oferece a essas crianças, cuidadas por esses pais prestimosos que se encontraram para concretizarem um sonho em comum.

Com a maior freqüência que posso, envio contribuições financeiras, já que sei das dificuldades que essas instituições enfrentam com a falta ou atraso em liberação de verbas. Sei, de sobra, onde são aplicadas as minhas ajudas de custo, e, também, com que dedicação e carinho isto ocorre.

A vida já fez tantas coisas comigo que só posso ser mesmo muito grata a ela. Imagine, você, desta vez, por conta de uma tal de santa eulalia, acabei servindo de ponte para uma das coisas mais lindas que a nossa sociedade pode presenciar: o amor verdadeiro entre duas pessoas, regado pelo amor maior, espontâneo e incondicional, que este casal sente por crianças abandonadas.

De Barcelona para o Brasil, indiretamente, apenas servi de ponte, instigando meu querido amigo a se apaixonar por nosso país, fazê-lo voltar para encontrar a felicidade real, concretizada no verdadeiro encontro de corações e de vida.
Um brinde especial a isso: Tim-tim!

sábado, 25 de setembro de 2010

LEGADO


Há muitos anos atrás (1986), uma amiga me pediu que eu escrevesse algo sobre a Grécia, pois ela desempenhava, naquela época, uma função importante em um dos grupos do Rotary. Não me lembro bem, mas parece que iriam receber em uma das reuniões alguém importante do país, provavelmente o cônsul ou algo assim.

Escrever alguma coisa sobre a Grécia... minha cabeça pirou. Não sabia nem como começar! Andei cozinhando a idéia por uns dias. Sentava, puxava um papel, rabiscava algo que eu pudesse achar que interessaria a um cônsul... mas... falar da Grécia a um grego! Ai, meus deuses... nem sob a proteção de Hermes eu conseguia achar algo que prestasse!

Qualquer coisa que eu escrevesse sobre história, mitos, literatura estaria fora de cogitação... me sentiria como ensinando o padre nosso ao vigário!

Elogiar? Como? Dizendo o quê? Eu não desempacava do lugar... estive prestes a telefonar a minha gentil amiga e dizer que sentia muito, mas o texto não saía!

Um dia, voltando do trabalho, tendo dado aula o dia todo e, naturalmente, me esquecido por completo, pelo menos por algumas horas, da questão, acho que fui atingida por uma seta enviada por Eros a mando de Afrodite, naturalmente. E fui capturada, ou melhor, lembrada do que, na verdade, mais representava minha ligação com a Grécia: meu amor por ela.

Então, que se danasse o cônsul (me desculpe, hoje, minha amiga)... eu iria escrever sobre o meu amor pela Grécia! Se ela não gostasse que jogasse fora... eu jamais saberia mesmo!

Cheguei em casa ávida por um papel e o texto saiu assim, de pronto, sem pestanejar, como se já estivesse impresso em meu coração.

E foi justamente esse o texto que eu achei, semanas atrás, numa daquelas arrumações malucas que resolvemos fazer em papéis antigos. Estava lá, amarelado pelo tempo. O texto, no original e, também, o folder representativo da tal reunião, onde ele foi generosamente impresso pelos organizadores do evento. E foi por causa do achado desse texto que acabei escrevendo os meus dois contos das duas semanas passadas.

Uma vez motivador de minhas lembranças, aí vai ele, confirmando o meu amor e, principalmente, minha admiração por este país, berço da civilização ocidental. Imagino que seria assim que a Grécia nos falaria hoje, como uma mãe, deixando o seu legado a seus descendentes:

LEGADO

Minhas pedras publicam
a silenciosa angústia
da poluição que as corrói,
mas sobre essas pedras,
teus primeiros passos de terra ocidental:

de Atenas te dei
a Arte Maior,
remodelada por ti,
e o eco das vozes
de Ésquilo, Sófocles
e Eurípides;

de Creta te dei
um exemplo de paz,
de sabedoria e de silêncio:
a gloriosa paz minóica
de um povo misterioso e são;

da Jônia te dei
as ciências primeiras
do mundo ocidental,
suportes de ouro,
o teu pedestal;

de Epidauro te dei
meu teatro ilustre
de arquitetura sem deslizes
e o templo-hospital
da avançada técnica ancestral;

de Delfos te dei
o coração do mundo
no templo de Apolo:
oráculo da Antiguidade,
exemplo de fé;

de Elêusis, de Micenas,
de Corinto e de Esparta,
de Tirinto, de ítaca
e de cada ilha,
das três mil, eu te dei
o meu espírito,
os meus princípios,
a minha fé em ti.

Minhas pedras publicam
a silenciosa angústia
da poluição que as corrói.

Mas sobre elas deixei os frutos
de filosofia, arte e ciência,
berço que te dei,
legado de mãe
para o teu mundo
de modernidade e técnica.

sábado, 18 de setembro de 2010

COMO O FUTEBOL ME SALVOU


A Grécia é, sem dúvida, a cada passo, um poço de surpresas, as mais diversas. Se você não foi, não deixe de ir. De preferência, conhecendo um pouco de sua cultura ancestral, suas lendas, referências sobre os lugares. Sentirá suas raízes, com certeza e, por que não, sentirá detalhes desse povo que jamais esquecerá. O povo grego é surpreendente. Em todos os sentidos. Um deles, o de saber ser bom anfitrião, como constatei em Creta, ilha do Palácio de Knossos que fiz questão absoluta de conhecer.

Tudo começou com o único voo diário para a ilha, às cinco da madrugada. Os planos eram de visitarmos as ruínas de manhã e o museu à tarde. Como só haveria um voo de volta à noite, poderíamos fazer tudo com muita calma, já que não teria mais nada a fazer por ali.

Os sítios arqueológicos só abrem às sete horas. Chegamos a Heraclion, centro da cidade, perto das seis horas e aí foi a nossa primeira surpresa. Ninguém por ali falava língua alguma que não fosse grego. Ninguém, portanto, para dar informações. Estávamos em 1977 e logo descobri que ninguém provavelmente se arriscava a ir a Knossos sem ser em excursão. Felizmente, no entanto, a cidade era mínima e, embora eu não falasse uma palavra de grego moderno, pelo menos, sabia ler placas, entender, e escrever nomes. Isso foi o suficiente para eu escrever o nome Knossos em alfabeto grego num papel, mostrar a um transeunte e ele me apontar um ponto de ônibus que descobrimos ser um ponto de ônibus só porque ele apontou. O ônibus, de fato, chegou logo e fomos sacolejantes, mas felizes, rumo às ruínas de meus sonhos. Era um dos pontos altos da ida a Grécia para mim, já que a civilização de Knossos é considerada como uma das mais importantes civilizações da antiguidade.

A chegada ao palácio deu-se logo. Não haviam chegado outros visitantes. Provavelmente, viriam em excursões, a partir das nove horas. Ótimo, teria o palácio só para mim. Meu ex, como bom engenheiro, sentou-se para abrir o mapa e entender a lógica das ruínas. Eu já estava dentro delas, dizendo a ele que sabia perfeitamente onde era cada lugar, cada cômodo, cada escada, cada detalhe. E, enquanto ele, titubeante, se aprontava para me seguir, eu já estava escadas acima e abaixo apontando em êxtase a sala do trono, o que restou da cozinha, os aposentos reais, contando as lendas, mostrando os labirintos que inspiraram a lenda do minotauro. Eu estava radiante como um pintinho no lixo, andando para lá e para cá com a intimidade de quem morara ali por muitas e muitas vidas, cidadã livre e feliz. Mostrei-lhe o teatro, os caminhos, o trono, os corredores, a sala dos escudos, os aposentos da rainha, os banheiros, os resquícios dos encanamentos de água, fazendo questão de lembrar a ele que ali havia banheiros, em pleno século XV antes de Cristo, enquanto que, em Versailles, século XVII depois de Cristo, os reis faziam suas necessidades em pinicos e nem pensavam em ter água corrente, apesar de todo luxo francês.

Inebriei-me fitando a sala do trono, singela e simbólica, com um mural de afrescos que lembram algo entre a matéria e o espírito. Contei-lhe a lenda do minotauro e logo depois a versão histórica. Descrevi, enfim, a ascensão e queda da dinastia da chamada paz minóica e dos dias gloriosos que a Grécia vivera por conta do domínio dessa paz por toda a extensão do Mediterrâneo.

Depois dessa manhã de luzes, é claro, urgia almoçar. Caminhadas em pleno sol, idas e vindas, exigiam a volta ao centro da cidade, um almoço, um bom descanso, para enfrentarmos um museu com novas surpresas. Meu ex não é lá chegado a museus, mas diante daquela civilização tão cheia de luzes, estava curioso por conhecer os artefatos e tudo mais que envolvia essa civilização de sonhos.

Hora do almoço, centro da cidade. O que escolher? Tudo parecia muito singelo e o lugar mais aprazível passava por pouco da estrutura de um bar, com cadeirinhas e mesas do lado de fora. Parecia limpo, resolvemos tentar. Foi aí que começou o problema para mim. O cardápio veio, mas... para minha surpresa: em grego de um lado e... em alemão de outro! Claro! Quem se despencaria para uma ilha dessas que não tinha nada na época, sem ser em excursão, com o intuito de visitar ruínas? Só mesmo uma professora de cultura clássica, logo se vê... e, pelas características do cardápio, arqueólogos alemães...

Meu ex, que não deixava passar nada, apenas comentou:

- Ué, você não é professora de greto? Me traduz, aqui, o que está escrito.

Saber ler eu sabia, pois basta conhecer as letras do alfabeto grego que qualquer analfabeto sai lendo grego sem pestanejar. Mas dizer o que significava eram outros quinhentos! O grego moderno é mesmo uma língua tão diferente do grego clássico como o latim é do português! Ademais, meu vocabulário de grego, mesmo o clássico, não se especializara em cardápios e comidas e, sim, em artes literárias e clássicas.

Meu ex, no entanto, não se apertou. Apontou um prato qualquer. Para quem come pedra sem passar mal, como era o caso dele, qualquer prato seria uma aventura. Eu, no entanto, de estômago tão delicado, estava mesmo em apuros.

O garçon, solícito, tentava ajudar sem sucesso. Pedi com gestos, que ele tentasse falar bem devagar. Quem sabe, atentando para a raiz das palavras, eu conseguisse adivinhar alguma coisa. Felizmente, achei que tinha entendido que ele estava perguntando de onde éramos.

- Brasil, arrisquei, achando que seria a resposta.

Era. Seu rosto iluminou-se:

- Pilí, Jirzin, Tuston.

Traduzi para meu ex, imediatamente:

- Pelé, Jairzinho, Tostão.

O homem, iluminado, me puxou da cadeira, me abraçou efusivamente. Pelo que entendi, eu acho que ele pensou que o Brasil deveria ser do tamanho da ilha de Creta e, provavelmente, eu deveria topar com Pelé, Jairzinho e Tostão a cada esquina, tomar cafezinho com eles ou coisa assim. O fato é que o futebol nos salvou, além, é claro de sermos brasileiros. Ele me levou pela mão para a cozinha, gesticulando e falando alto com todos, todo alegre e feliz. Sorrisos por todos os lados, meu ex-marido atrás de mim, sem entender muito o que estava acontecendo.

Oportunidade de vermos a cozinha por dentro, com tudo limpinho e organizado. Pelo menos, estávamos em boas mãos. As bandejas com os pratos de todo o cardápio, já cozidos e prontos, em prateleiras refrigeradas, a nossa disposição. Foi então que entendi: era para eu apontar o que queria comer!

Vi uma espécie de lasanha e apontei interrogativa. Ele logo respondeu:

- Moussaka.

Ok, prato típico, instruí meu ex, dizendo que era uma espécie de lasanha que levava carne moída.

- Se é prato típico quero provar, adiantou-se ele. Como se eu não soubesse a resposta de antemão...

Para mim, era mais complicado. Além da carne, eu não sabia o que teria e me parecia um pouco gordurosa. Vi, então, uma espécie de carne cozida. Mas... do que seria? Eu queria me arriscar a pedir, mas não tinha como perguntar de que tipo de animal se tratava. Foi então que tive a idéia de perguntar:

- Múúúúúúú´???

E o garçon acenando "não" com a cabeça, respondeu:

- Mééééééé!!!

Rimos muito! Mas estávamos nos entendendo. Pedimos, então, uma moussaka, um "méééé" e apontamos para as bebidas. Fomos servidos como reis, com todas as gentilezas e aparatos de parentes próximos de astros do futebol brasileiro.

Dali para o museu, tão espetacular que qualquer descrição deixaria a desejar. Até meu ex ficou deslumbrado com os apetrechos usados por uma civilização de XV séculos antes de Cristo, apontando alfinetes de fralda, utensílios domésticos que usamos hoje em dia, carimbos os mais diversos, jóias bordadas por ourives do mais alto gabarito.

Quase ao anoitecer, de volta ao mesmo restaurante, fomos imediatamente reconhecidos e o mesmo garçon veio lá de dentro perguntando sorridente:

- Moussaka kai mé?

Pedi duas moussakas, pois já tinha experimentado a do almoço e achei adequada. Nem precisei pedir ou apontar para os refrigerantes. Ele tinha guardado nossas preferências.

Ficamos por alí até próximo a hora do voo. Encostei-me, quieta, em uma das amuradas da praça, enquanto meu ex cochilava. Fiquei pensando como podem os povos unir-se em linguagens de amizade, amor e boa vontade. Perdi-me em pensamentos, olhos nas embarcações do Mediterrâneo, enquanto os últimos raios de sol iluminavam aquele mar translúcido e puro.

Pensei nas guerras de todos os tempos, pensei na paz. Pensei nos diversos períodos e civilizações que povoaram este país de tantas histórias e tantos ancestrais. Encostada ali, naquele entardecer, no último dia de uma visita de sonhos, buscava o resumo de anos de estudo nas emoções vividas em apenas dez dias, sobre esse povo cuja cultura enfeitiçou meu coração.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O DRACMA


Ter sido professora de Cultura Clássica, de Grego e não ter pisado na Grécia, teria sido como ser carioca e nunca ter ido à praia.

Meus olhos pareciam duas câmeras que filmavam sem parar ou duas contas de luz iluminadas pelo êxtase do encontro com o divino. É a forma mais próxima do que consigo conceber para descrever o que foram aqueles dez dias em contato com a terra dos deuses, arquétipos fundadores de nossa cultura ocidental.

Calor de 45 graus, mas quem se importa? Subi sedenta ao Parthenon, tão logo cheguei, tendo tido apenas tempo de trocar a roupa de viagem por sandálias e bermudas. Respirava cada pedra, cada som, cada vestígio do que fora e é a base de tantos fundamentos de meu conhecimento.

Eu não entendia nada do que diziam, pois o grego moderno é incompreensível aos meus ouvidos, mas estar ali, ouvir, ver, respirar e sentir aquela terra que povoara os meus sonhos, me fazia sadia e feliz de corpo e de espírito.

Minha alma voou pela Agora (Praça Central da antiga Atenas), buscando as pegadas de Sócrates com seus discípulos. Por ali teriam passado, também, não sei quantas vezes, Aristóteles, Platão, Heráclito, Pitágoras, Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes, Péricles, tantos, tantos!... Eu conhecia cada história, cada detalhe dos montes de livros que havia lido e buscava, in loco, a constatação de minhas leituras. Tudo ali, ao meu sonhado alcance.
Mas não é objetivo deste conto, um passeio puro e simples ao eruditismo. Longe disso. Busco a recordação do carimbo humano, em duas dentre as várias passagens interessantes e inesquecíveis para mim. Uma delas foi marcada pela visita à única ilha que visitei, com tão poucos dias a minha disposição: Creta - o berço do Palácio de Cnossos, da indescritível civilização minóica, aquela do mito do Minotauro; a outra foi marcada pela visita ao teatro de Epidauro para a qual eu guardava um dracma, moeda grega, para um teste inesquecível. Vamos a elas.

Em 1977, saindo de Atenas, a única língua que você encontrava disponível para contato era mesmo só o grego. Eu não entendia nada, como lhe disse, mas, felizmente, conseguia ler. E, ao ler alto o nome dos lugares, os reconhecia nos mapas. Acresce que os lugares mais conhecidos tinham placas em grego e em inglês, o que facilitava um pouco. Eu não queria excursões. Seria quase um sacrilégio render-me a elas, com guias turísticos tocando as pessoas como gado, rapidamente em busca da hora do almoço e das compras. Eu tivera uma amostra, logo no segundo dia, único em que pegamos, meu ex-marido e eu, uma excursão a Delfos, o oráculo sagrado da antiguidade, sob a proteção de Apolo. Queríamos ver a qualidade das estradas para nos decidirmos pelo aluguel de um carro. A viagem de ônibus foi ótima, estando Delfos a 150 quilômetros de Atenas. Mas mal chegamos lá, atestamos que a visita se resumiria a meia hora para vermos o templo e as ruínas, mais meia hora para o museu. Depois disso, seríamos deslocados para outra cidadezinha para o almoço e compras, sendo destinadas a isso, três horas. Ora, eu teria atravessado 150 quilômetros para comer e fazer compras, tendo como brinde uma olhada nas ruínas... e não o contrário!

Desisti imediatamente do almoço e acompanhamentos e desfrutei cinco horas inteiras, desde o banho na fonte Castália, a quinhentos metros dali, até a passagem pela via sagrada, por onde o mito de Édipo atesta sua viagem sagrada. Seguimos então à visita ao templo. Merecia uma parada para um sanduíche e ida ao museu. Mesmo assim, o tempo passou voando, comigo contando a cada passo, ao meu ex, as lendas, mitos e histórias que enfeitam esses lugares sagrados. Foi o suficiente para eu ver como eram os caminhos e me sentir segura para ser a guia turística do casal, nas próximas aventuras. As estradas são belíssimas e, com minha leitura correta das placas, o aluguel de um carro foi totalmente suficiente para todas as outras aventuras que, na verdade, foram muitas. Destaco, no entanto, duas. Vamos a elas:

A volta ao Peloponeso deu-se no dia seguinte à ida a Delfos, com um fusca alugado para visitar os sítios arqueológicos: Corinto, Micenas, Tirinto, parada para o almoço em Daphni com direito a uma ida a Tolon para ver o mar de pertinho e, finalmente, Epidauro - para visitar o imenso teatro e o templo de Esculápio - pai da medicina - e o museu de mil apetrechos que deixaria de queixo caído os mais modernos cirurgiões: agulhas e pinças cirúrgicas em pleno século IV antes de Cristo. Mas o ponto alto foi mesmo o teatro de Epidauro, onde eu testaria o meu dracma.

Eu tinha lido em livros e dito em minhas aulas que o tal teatro era imenso, com capacidade para 15 mil pessoas e de uma acústica perfeita. Tão perfeita que, sem nenhum aparelho amplificador ou qualquer outro recurso, era possível ouvir o farfalhar de um papel celofane ou o tilintar de uma moeda caindo no meio da arena, mesmo que a pessoa estivesse no lugar mais alto e mais distante do centro. Eu dizia isso, é claro, com a maior convicção de mestre, mas sempre tomando o cuidado de citar que tinha lido em livros. Estando lá, minha ansiedade era poder dizer que acreditava piamente nisso, como na lenda de Juca Pirama, quando falava aos seus curumins:

- Meninos, eu vi!

Pois é... chegando a Epidauro e vendo aquele monumento de teatro, imenso, alto, encravado na montanha, senti minha respiração mudar. O teatro, por si só, fora os comentários, já seria o suficiente para sentir todo o encanto. E funciona até hoje, no verão, reproduzindo peças gregas dos tempos de então. Infelizmente, não assisti a nenhuma, mas, naquele momento, só queria conferir. Tirei da bolsa o meu dracma, que desde o Brasil estava reservado para este fim. Coloquei-o na mão de meu ex-marido e saí desabalada arquibancada acima. Queria que ele fizesse o teste comigo. Havia muitos visitantes andando para lá e para cá, em diversas línguas, uns falando mais alto que os outros. Conforme eu subia, sentia que podia separar cada voz, inclusive a de meu ex, preocupado com meu atropelo. Ele ficara no centro da arena, esperando que eu subisse e, a cada passo, ouvia sua voz com nitidez:

- Devagar, não tem pressa, calma.

Nítida e alta, clara e límpida, separada das outras, sem confundir-se com as dos outros visitantes, sem ecos, sua voz acompanhou a minha subida. Quando cheguei ao último piso da arquibancada, virei-me. Vi-o lá embaixo. Estava tão alto que apenas o distinguia como uma miniatura no centro da arena.


Fiquei emocionada, imaginando os atores da peças gregas em seus coturnos para ficarem mais altos, com máscaras, encenando as peças de Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes... mas a curiosidade sobrepujou o sonho e logo falei, sem gritar:

- Deixa o dracma cair!

O gesto da mão obedeceu, mas eu nada ouvi. Embora achasse a afirmação meio lendária, confesso que fiquei um pouco decepcionada. E minha voz, mais tímida, reclamou lá de cima:

- Que pena, eu não ouvi.

Mas meu ex (como se eu não o conhecesse!), respondeu:

- Não joguei.

Na verdade, ele estava testando o meu ouvido, mas juro que tive ímpetos de esganá-lo!

- Joga então, ora essa !

Foi então que ele soltou a moeda. Eu não podia vê-la a tal distância, mas ouvi, sim, seu tilintar. Para ser mais precisa, caiu e quicou.

- Caiu e quicou, falei eufórica lá de cima.

Ele abaixou-se, pegou a moeda, olhou para mim e, engenheiro como era, gritou estupefato:

- Essa não! Essa eu quero ouvir...

E se destrambelhou numa corrida lá para cima, mandando que eu descesse e fizesse o mesmo.

Dali, ficamos de camarote para observar os guias turísticos que começaram a chegar, amassando pedaços de papel celofane e fazendo gracinhas as mais diversas para provar o milagre da acústica construída por esse majestoso povo grego, pai da cultura ocidental. Quem olha por qualquer ângulo, fica mesmo perplexo com tal perfeição.

Mas estou me estendendo demais. Conto a história de Creta na próxima semana.