sábado, 25 de setembro de 2010

LEGADO


Há muitos anos atrás (1986), uma amiga me pediu que eu escrevesse algo sobre a Grécia, pois ela desempenhava, naquela época, uma função importante em um dos grupos do Rotary. Não me lembro bem, mas parece que iriam receber em uma das reuniões alguém importante do país, provavelmente o cônsul ou algo assim.

Escrever alguma coisa sobre a Grécia... minha cabeça pirou. Não sabia nem como começar! Andei cozinhando a idéia por uns dias. Sentava, puxava um papel, rabiscava algo que eu pudesse achar que interessaria a um cônsul... mas... falar da Grécia a um grego! Ai, meus deuses... nem sob a proteção de Hermes eu conseguia achar algo que prestasse!

Qualquer coisa que eu escrevesse sobre história, mitos, literatura estaria fora de cogitação... me sentiria como ensinando o padre nosso ao vigário!

Elogiar? Como? Dizendo o quê? Eu não desempacava do lugar... estive prestes a telefonar a minha gentil amiga e dizer que sentia muito, mas o texto não saía!

Um dia, voltando do trabalho, tendo dado aula o dia todo e, naturalmente, me esquecido por completo, pelo menos por algumas horas, da questão, acho que fui atingida por uma seta enviada por Eros a mando de Afrodite, naturalmente. E fui capturada, ou melhor, lembrada do que, na verdade, mais representava minha ligação com a Grécia: meu amor por ela.

Então, que se danasse o cônsul (me desculpe, hoje, minha amiga)... eu iria escrever sobre o meu amor pela Grécia! Se ela não gostasse que jogasse fora... eu jamais saberia mesmo!

Cheguei em casa ávida por um papel e o texto saiu assim, de pronto, sem pestanejar, como se já estivesse impresso em meu coração.

E foi justamente esse o texto que eu achei, semanas atrás, numa daquelas arrumações malucas que resolvemos fazer em papéis antigos. Estava lá, amarelado pelo tempo. O texto, no original e, também, o folder representativo da tal reunião, onde ele foi generosamente impresso pelos organizadores do evento. E foi por causa do achado desse texto que acabei escrevendo os meus dois contos das duas semanas passadas.

Uma vez motivador de minhas lembranças, aí vai ele, confirmando o meu amor e, principalmente, minha admiração por este país, berço da civilização ocidental. Imagino que seria assim que a Grécia nos falaria hoje, como uma mãe, deixando o seu legado a seus descendentes:

LEGADO

Minhas pedras publicam
a silenciosa angústia
da poluição que as corrói,
mas sobre essas pedras,
teus primeiros passos de terra ocidental:

de Atenas te dei
a Arte Maior,
remodelada por ti,
e o eco das vozes
de Ésquilo, Sófocles
e Eurípides;

de Creta te dei
um exemplo de paz,
de sabedoria e de silêncio:
a gloriosa paz minóica
de um povo misterioso e são;

da Jônia te dei
as ciências primeiras
do mundo ocidental,
suportes de ouro,
o teu pedestal;

de Epidauro te dei
meu teatro ilustre
de arquitetura sem deslizes
e o templo-hospital
da avançada técnica ancestral;

de Delfos te dei
o coração do mundo
no templo de Apolo:
oráculo da Antiguidade,
exemplo de fé;

de Elêusis, de Micenas,
de Corinto e de Esparta,
de Tirinto, de ítaca
e de cada ilha,
das três mil, eu te dei
o meu espírito,
os meus princípios,
a minha fé em ti.

Minhas pedras publicam
a silenciosa angústia
da poluição que as corrói.

Mas sobre elas deixei os frutos
de filosofia, arte e ciência,
berço que te dei,
legado de mãe
para o teu mundo
de modernidade e técnica.

sábado, 18 de setembro de 2010

COMO O FUTEBOL ME SALVOU


A Grécia é, sem dúvida, a cada passo, um poço de surpresas, as mais diversas. Se você não foi, não deixe de ir. De preferência, conhecendo um pouco de sua cultura ancestral, suas lendas, referências sobre os lugares. Sentirá suas raízes, com certeza e, por que não, sentirá detalhes desse povo que jamais esquecerá. O povo grego é surpreendente. Em todos os sentidos. Um deles, o de saber ser bom anfitrião, como constatei em Creta, ilha do Palácio de Knossos que fiz questão absoluta de conhecer.

Tudo começou com o único voo diário para a ilha, às cinco da madrugada. Os planos eram de visitarmos as ruínas de manhã e o museu à tarde. Como só haveria um voo de volta à noite, poderíamos fazer tudo com muita calma, já que não teria mais nada a fazer por ali.

Os sítios arqueológicos só abrem às sete horas. Chegamos a Heraclion, centro da cidade, perto das seis horas e aí foi a nossa primeira surpresa. Ninguém por ali falava língua alguma que não fosse grego. Ninguém, portanto, para dar informações. Estávamos em 1977 e logo descobri que ninguém provavelmente se arriscava a ir a Knossos sem ser em excursão. Felizmente, no entanto, a cidade era mínima e, embora eu não falasse uma palavra de grego moderno, pelo menos, sabia ler placas, entender, e escrever nomes. Isso foi o suficiente para eu escrever o nome Knossos em alfabeto grego num papel, mostrar a um transeunte e ele me apontar um ponto de ônibus que descobrimos ser um ponto de ônibus só porque ele apontou. O ônibus, de fato, chegou logo e fomos sacolejantes, mas felizes, rumo às ruínas de meus sonhos. Era um dos pontos altos da ida a Grécia para mim, já que a civilização de Knossos é considerada como uma das mais importantes civilizações da antiguidade.

A chegada ao palácio deu-se logo. Não haviam chegado outros visitantes. Provavelmente, viriam em excursões, a partir das nove horas. Ótimo, teria o palácio só para mim. Meu ex, como bom engenheiro, sentou-se para abrir o mapa e entender a lógica das ruínas. Eu já estava dentro delas, dizendo a ele que sabia perfeitamente onde era cada lugar, cada cômodo, cada escada, cada detalhe. E, enquanto ele, titubeante, se aprontava para me seguir, eu já estava escadas acima e abaixo apontando em êxtase a sala do trono, o que restou da cozinha, os aposentos reais, contando as lendas, mostrando os labirintos que inspiraram a lenda do minotauro. Eu estava radiante como um pintinho no lixo, andando para lá e para cá com a intimidade de quem morara ali por muitas e muitas vidas, cidadã livre e feliz. Mostrei-lhe o teatro, os caminhos, o trono, os corredores, a sala dos escudos, os aposentos da rainha, os banheiros, os resquícios dos encanamentos de água, fazendo questão de lembrar a ele que ali havia banheiros, em pleno século XV antes de Cristo, enquanto que, em Versailles, século XVII depois de Cristo, os reis faziam suas necessidades em pinicos e nem pensavam em ter água corrente, apesar de todo luxo francês.

Inebriei-me fitando a sala do trono, singela e simbólica, com um mural de afrescos que lembram algo entre a matéria e o espírito. Contei-lhe a lenda do minotauro e logo depois a versão histórica. Descrevi, enfim, a ascensão e queda da dinastia da chamada paz minóica e dos dias gloriosos que a Grécia vivera por conta do domínio dessa paz por toda a extensão do Mediterrâneo.

Depois dessa manhã de luzes, é claro, urgia almoçar. Caminhadas em pleno sol, idas e vindas, exigiam a volta ao centro da cidade, um almoço, um bom descanso, para enfrentarmos um museu com novas surpresas. Meu ex não é lá chegado a museus, mas diante daquela civilização tão cheia de luzes, estava curioso por conhecer os artefatos e tudo mais que envolvia essa civilização de sonhos.

Hora do almoço, centro da cidade. O que escolher? Tudo parecia muito singelo e o lugar mais aprazível passava por pouco da estrutura de um bar, com cadeirinhas e mesas do lado de fora. Parecia limpo, resolvemos tentar. Foi aí que começou o problema para mim. O cardápio veio, mas... para minha surpresa: em grego de um lado e... em alemão de outro! Claro! Quem se despencaria para uma ilha dessas que não tinha nada na época, sem ser em excursão, com o intuito de visitar ruínas? Só mesmo uma professora de cultura clássica, logo se vê... e, pelas características do cardápio, arqueólogos alemães...

Meu ex, que não deixava passar nada, apenas comentou:

- Ué, você não é professora de greto? Me traduz, aqui, o que está escrito.

Saber ler eu sabia, pois basta conhecer as letras do alfabeto grego que qualquer analfabeto sai lendo grego sem pestanejar. Mas dizer o que significava eram outros quinhentos! O grego moderno é mesmo uma língua tão diferente do grego clássico como o latim é do português! Ademais, meu vocabulário de grego, mesmo o clássico, não se especializara em cardápios e comidas e, sim, em artes literárias e clássicas.

Meu ex, no entanto, não se apertou. Apontou um prato qualquer. Para quem come pedra sem passar mal, como era o caso dele, qualquer prato seria uma aventura. Eu, no entanto, de estômago tão delicado, estava mesmo em apuros.

O garçon, solícito, tentava ajudar sem sucesso. Pedi com gestos, que ele tentasse falar bem devagar. Quem sabe, atentando para a raiz das palavras, eu conseguisse adivinhar alguma coisa. Felizmente, achei que tinha entendido que ele estava perguntando de onde éramos.

- Brasil, arrisquei, achando que seria a resposta.

Era. Seu rosto iluminou-se:

- Pilí, Jirzin, Tuston.

Traduzi para meu ex, imediatamente:

- Pelé, Jairzinho, Tostão.

O homem, iluminado, me puxou da cadeira, me abraçou efusivamente. Pelo que entendi, eu acho que ele pensou que o Brasil deveria ser do tamanho da ilha de Creta e, provavelmente, eu deveria topar com Pelé, Jairzinho e Tostão a cada esquina, tomar cafezinho com eles ou coisa assim. O fato é que o futebol nos salvou, além, é claro de sermos brasileiros. Ele me levou pela mão para a cozinha, gesticulando e falando alto com todos, todo alegre e feliz. Sorrisos por todos os lados, meu ex-marido atrás de mim, sem entender muito o que estava acontecendo.

Oportunidade de vermos a cozinha por dentro, com tudo limpinho e organizado. Pelo menos, estávamos em boas mãos. As bandejas com os pratos de todo o cardápio, já cozidos e prontos, em prateleiras refrigeradas, a nossa disposição. Foi então que entendi: era para eu apontar o que queria comer!

Vi uma espécie de lasanha e apontei interrogativa. Ele logo respondeu:

- Moussaka.

Ok, prato típico, instruí meu ex, dizendo que era uma espécie de lasanha que levava carne moída.

- Se é prato típico quero provar, adiantou-se ele. Como se eu não soubesse a resposta de antemão...

Para mim, era mais complicado. Além da carne, eu não sabia o que teria e me parecia um pouco gordurosa. Vi, então, uma espécie de carne cozida. Mas... do que seria? Eu queria me arriscar a pedir, mas não tinha como perguntar de que tipo de animal se tratava. Foi então que tive a idéia de perguntar:

- Múúúúúúú´???

E o garçon acenando "não" com a cabeça, respondeu:

- Mééééééé!!!

Rimos muito! Mas estávamos nos entendendo. Pedimos, então, uma moussaka, um "méééé" e apontamos para as bebidas. Fomos servidos como reis, com todas as gentilezas e aparatos de parentes próximos de astros do futebol brasileiro.

Dali para o museu, tão espetacular que qualquer descrição deixaria a desejar. Até meu ex ficou deslumbrado com os apetrechos usados por uma civilização de XV séculos antes de Cristo, apontando alfinetes de fralda, utensílios domésticos que usamos hoje em dia, carimbos os mais diversos, jóias bordadas por ourives do mais alto gabarito.

Quase ao anoitecer, de volta ao mesmo restaurante, fomos imediatamente reconhecidos e o mesmo garçon veio lá de dentro perguntando sorridente:

- Moussaka kai mé?

Pedi duas moussakas, pois já tinha experimentado a do almoço e achei adequada. Nem precisei pedir ou apontar para os refrigerantes. Ele tinha guardado nossas preferências.

Ficamos por alí até próximo a hora do voo. Encostei-me, quieta, em uma das amuradas da praça, enquanto meu ex cochilava. Fiquei pensando como podem os povos unir-se em linguagens de amizade, amor e boa vontade. Perdi-me em pensamentos, olhos nas embarcações do Mediterrâneo, enquanto os últimos raios de sol iluminavam aquele mar translúcido e puro.

Pensei nas guerras de todos os tempos, pensei na paz. Pensei nos diversos períodos e civilizações que povoaram este país de tantas histórias e tantos ancestrais. Encostada ali, naquele entardecer, no último dia de uma visita de sonhos, buscava o resumo de anos de estudo nas emoções vividas em apenas dez dias, sobre esse povo cuja cultura enfeitiçou meu coração.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O DRACMA


Ter sido professora de Cultura Clássica, de Grego e não ter pisado na Grécia, teria sido como ser carioca e nunca ter ido à praia.

Meus olhos pareciam duas câmeras que filmavam sem parar ou duas contas de luz iluminadas pelo êxtase do encontro com o divino. É a forma mais próxima do que consigo conceber para descrever o que foram aqueles dez dias em contato com a terra dos deuses, arquétipos fundadores de nossa cultura ocidental.

Calor de 45 graus, mas quem se importa? Subi sedenta ao Parthenon, tão logo cheguei, tendo tido apenas tempo de trocar a roupa de viagem por sandálias e bermudas. Respirava cada pedra, cada som, cada vestígio do que fora e é a base de tantos fundamentos de meu conhecimento.

Eu não entendia nada do que diziam, pois o grego moderno é incompreensível aos meus ouvidos, mas estar ali, ouvir, ver, respirar e sentir aquela terra que povoara os meus sonhos, me fazia sadia e feliz de corpo e de espírito.

Minha alma voou pela Agora (Praça Central da antiga Atenas), buscando as pegadas de Sócrates com seus discípulos. Por ali teriam passado, também, não sei quantas vezes, Aristóteles, Platão, Heráclito, Pitágoras, Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes, Péricles, tantos, tantos!... Eu conhecia cada história, cada detalhe dos montes de livros que havia lido e buscava, in loco, a constatação de minhas leituras. Tudo ali, ao meu sonhado alcance.
Mas não é objetivo deste conto, um passeio puro e simples ao eruditismo. Longe disso. Busco a recordação do carimbo humano, em duas dentre as várias passagens interessantes e inesquecíveis para mim. Uma delas foi marcada pela visita à única ilha que visitei, com tão poucos dias a minha disposição: Creta - o berço do Palácio de Cnossos, da indescritível civilização minóica, aquela do mito do Minotauro; a outra foi marcada pela visita ao teatro de Epidauro para a qual eu guardava um dracma, moeda grega, para um teste inesquecível. Vamos a elas.

Em 1977, saindo de Atenas, a única língua que você encontrava disponível para contato era mesmo só o grego. Eu não entendia nada, como lhe disse, mas, felizmente, conseguia ler. E, ao ler alto o nome dos lugares, os reconhecia nos mapas. Acresce que os lugares mais conhecidos tinham placas em grego e em inglês, o que facilitava um pouco. Eu não queria excursões. Seria quase um sacrilégio render-me a elas, com guias turísticos tocando as pessoas como gado, rapidamente em busca da hora do almoço e das compras. Eu tivera uma amostra, logo no segundo dia, único em que pegamos, meu ex-marido e eu, uma excursão a Delfos, o oráculo sagrado da antiguidade, sob a proteção de Apolo. Queríamos ver a qualidade das estradas para nos decidirmos pelo aluguel de um carro. A viagem de ônibus foi ótima, estando Delfos a 150 quilômetros de Atenas. Mas mal chegamos lá, atestamos que a visita se resumiria a meia hora para vermos o templo e as ruínas, mais meia hora para o museu. Depois disso, seríamos deslocados para outra cidadezinha para o almoço e compras, sendo destinadas a isso, três horas. Ora, eu teria atravessado 150 quilômetros para comer e fazer compras, tendo como brinde uma olhada nas ruínas... e não o contrário!

Desisti imediatamente do almoço e acompanhamentos e desfrutei cinco horas inteiras, desde o banho na fonte Castália, a quinhentos metros dali, até a passagem pela via sagrada, por onde o mito de Édipo atesta sua viagem sagrada. Seguimos então à visita ao templo. Merecia uma parada para um sanduíche e ida ao museu. Mesmo assim, o tempo passou voando, comigo contando a cada passo, ao meu ex, as lendas, mitos e histórias que enfeitam esses lugares sagrados. Foi o suficiente para eu ver como eram os caminhos e me sentir segura para ser a guia turística do casal, nas próximas aventuras. As estradas são belíssimas e, com minha leitura correta das placas, o aluguel de um carro foi totalmente suficiente para todas as outras aventuras que, na verdade, foram muitas. Destaco, no entanto, duas. Vamos a elas:

A volta ao Peloponeso deu-se no dia seguinte à ida a Delfos, com um fusca alugado para visitar os sítios arqueológicos: Corinto, Micenas, Tirinto, parada para o almoço em Daphni com direito a uma ida a Tolon para ver o mar de pertinho e, finalmente, Epidauro - para visitar o imenso teatro e o templo de Esculápio - pai da medicina - e o museu de mil apetrechos que deixaria de queixo caído os mais modernos cirurgiões: agulhas e pinças cirúrgicas em pleno século IV antes de Cristo. Mas o ponto alto foi mesmo o teatro de Epidauro, onde eu testaria o meu dracma.

Eu tinha lido em livros e dito em minhas aulas que o tal teatro era imenso, com capacidade para 15 mil pessoas e de uma acústica perfeita. Tão perfeita que, sem nenhum aparelho amplificador ou qualquer outro recurso, era possível ouvir o farfalhar de um papel celofane ou o tilintar de uma moeda caindo no meio da arena, mesmo que a pessoa estivesse no lugar mais alto e mais distante do centro. Eu dizia isso, é claro, com a maior convicção de mestre, mas sempre tomando o cuidado de citar que tinha lido em livros. Estando lá, minha ansiedade era poder dizer que acreditava piamente nisso, como na lenda de Juca Pirama, quando falava aos seus curumins:

- Meninos, eu vi!

Pois é... chegando a Epidauro e vendo aquele monumento de teatro, imenso, alto, encravado na montanha, senti minha respiração mudar. O teatro, por si só, fora os comentários, já seria o suficiente para sentir todo o encanto. E funciona até hoje, no verão, reproduzindo peças gregas dos tempos de então. Infelizmente, não assisti a nenhuma, mas, naquele momento, só queria conferir. Tirei da bolsa o meu dracma, que desde o Brasil estava reservado para este fim. Coloquei-o na mão de meu ex-marido e saí desabalada arquibancada acima. Queria que ele fizesse o teste comigo. Havia muitos visitantes andando para lá e para cá, em diversas línguas, uns falando mais alto que os outros. Conforme eu subia, sentia que podia separar cada voz, inclusive a de meu ex, preocupado com meu atropelo. Ele ficara no centro da arena, esperando que eu subisse e, a cada passo, ouvia sua voz com nitidez:

- Devagar, não tem pressa, calma.

Nítida e alta, clara e límpida, separada das outras, sem confundir-se com as dos outros visitantes, sem ecos, sua voz acompanhou a minha subida. Quando cheguei ao último piso da arquibancada, virei-me. Vi-o lá embaixo. Estava tão alto que apenas o distinguia como uma miniatura no centro da arena.


Fiquei emocionada, imaginando os atores da peças gregas em seus coturnos para ficarem mais altos, com máscaras, encenando as peças de Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes... mas a curiosidade sobrepujou o sonho e logo falei, sem gritar:

- Deixa o dracma cair!

O gesto da mão obedeceu, mas eu nada ouvi. Embora achasse a afirmação meio lendária, confesso que fiquei um pouco decepcionada. E minha voz, mais tímida, reclamou lá de cima:

- Que pena, eu não ouvi.

Mas meu ex (como se eu não o conhecesse!), respondeu:

- Não joguei.

Na verdade, ele estava testando o meu ouvido, mas juro que tive ímpetos de esganá-lo!

- Joga então, ora essa !

Foi então que ele soltou a moeda. Eu não podia vê-la a tal distância, mas ouvi, sim, seu tilintar. Para ser mais precisa, caiu e quicou.

- Caiu e quicou, falei eufórica lá de cima.

Ele abaixou-se, pegou a moeda, olhou para mim e, engenheiro como era, gritou estupefato:

- Essa não! Essa eu quero ouvir...

E se destrambelhou numa corrida lá para cima, mandando que eu descesse e fizesse o mesmo.

Dali, ficamos de camarote para observar os guias turísticos que começaram a chegar, amassando pedaços de papel celofane e fazendo gracinhas as mais diversas para provar o milagre da acústica construída por esse majestoso povo grego, pai da cultura ocidental. Quem olha por qualquer ângulo, fica mesmo perplexo com tal perfeição.

Mas estou me estendendo demais. Conto a história de Creta na próxima semana.

sábado, 4 de setembro de 2010

MENINICE


Aquela rampa era um desafio a minha meninice. Nunca me neguei ser criança, mas vamos combinar que uma doutora em lingüística, pós-doutora em educação, coordenadora de pós e com mais de quarenta anos de idade não iria combinar muito com estripulias infantis no meio do ambiente acadêmico.

Proibido não seria, mas faltaria nadica para me considerarem uma biruta, em pleno ambiente universitário. Mas aquela rampa era mesmo um desafio a minha meninice...

Cada vez que passava por ela, e eram muitas vezes por dia, não conseguia deixar de me lembrar de minha infância, no colégio. Infância nada... fiz isso até sair de lá, aos dezoito anos... tomando impulso, dando uma corrida e me deixando escorregar pelo piso daqueles corredores compridos, lisos e brilhantes. A sola dos sapatos escolares era de borracha, mas usávamos os chinelões de flanela para fazermos isso. Que delícia! E aquela rampa roia minhas entranhas desafiando meus sapatos de sola de couro, subindo e descendo por elas, sentindo seu chão liso e tentador. Ah, um dia, jurava que sim, iria tomar um bom impulso e me deixar levar por ela, escorregando rampa abaixo como uma surfista de solo.

Mas mantinha a linha, diante de alunos e colegas, sustentando a chamada “postura acadêmica”.

Um dia, fiquei até mais tarde, por conta de umas notas que queria passar para o diário de classe e já deixar na secretaria. Eu estava na sala do departamento e não vi a hora passar. Quando percebi, já eram 22.30, as aulas tinham terminado e a secretaria estava fechada. Não era muito seguro andar sozinha por aqueles corredores imensos e escuros da universidade, mas eu tinha mesmo me distraído. A melhor parte da história é que tinha conseguido terminar o trabalho e não precisaria voltar no dia seguinte só para entregar as notas.

Passei os diários de classe por baixo da porta da secretaria e me apressei, rumo aos elevadores, para sair rapidamente do prédio, evitando demorar-me mais do que o estritamente necessário. Poucas luzes, silêncio, mas, sobretudo falta de transeuntes aconselhavam cuidados com a minha segurança.

Foi, então, que passei pelas rampas. Estavam ali, tentadoras. E a criança não resistiu. Eu estava no décimo primeiro andar e se não aproveitasse a oportunidade, quem sabe, única, não poderia fazer isso de novo. Minha meninice sorriu e me imaginou escorregando por elas por onze andares, um atrás do outro... que festa!

Não resisti. Tomei impulso e não pensei duas vezes: surfei do décimo primeiro para o décimo e meio, já que as rampas são dispostas de meio piso a meio piso. Que delícia! É claro que já tinha decidido, por dentro, repetir a dose... e... se fosse até o primeiro andar assim, seriam 22 rampas! E num dia só!

Depois de esperar por tantos anos, nenhum premio me pareceria mais adequado. E lá fui eu, rampa por rampa, sentindo meus sapatos deslizarem, com aquele barulhinho característico de se arrastarem pelo solo liso. Estava radiante, feliz, solta, finalmente. Como diz o dito popular, tirando a barriga da miséria e tendo a minha infância como única platéia!

Entre o primeiro e o térreo, no entanto, ao me deparar com a rampa, antevi um vulto meio na sombra, meio na luz. Passava, mas ao me perceber, parou para ver quem era. Estava no térreo e eu me dirigiria a ele, se descesse.

Minha alegria interior era tanta que nem liguei. Não pensei em perigo. Como ele estava no térreo não me inspirava cuidados. Era o andar onde ficava a central dos seguranças noturnos, bem ali, à beira da rampa. Talvez até fosse um deles e nem saberia quem eu era e... se soubesse, bem... que se danasse... não iria deixar de aproveitar a raspinha do tacho. Tomei impulso e desci, surfando minha última rampa, radiante por dentro, compenetrada por fora. O vulto, parado, me aguardava. Se ele não saísse dali, minha escorregada iria acabar bem a sua frente. Foi o que aconteceu e eu me deparei nem mais nem menos com... um dos sub-reitores bem meu conhecido, o de pós-graduação. Logo comigo, uma das professoras-membro de seu seriíssimo Conselho, que se reunia mensalmente para analisar projetos de pesquisa. Ai meus deuses...

Mas minha meninice sorriu. Na verdade, tão forte quanto as evidências, minha alma ainda transpirava as alegrias da festa. E o homem também sorriu, sabendo que me pegava “no pulo”.

- Boa noite, professora.

Eu, por minha vez, não tive saída. Respondi, como se nada tivesse acontecido:

- Boa noite, professor.

Desejei-lhe um bom descanso e saí.

Para quem não queria ser vista pelos alunos, até que me saí muito bem e, no fundo, diante da falta de cerimônia da situação, quem sabe, não tenha despertado, nele também, um pouco de infância perdida. Espero que sim...

O fato é que a traquinagem me fez muito bem e, uma vez inaugurada a travessura e logo com o testemunho de “quem”, perdi a cerimônia. Não sei se foi por isso ou pela aventura em si mesma. A verdade é que, a partir daí, vez por outra, quando a rampa estava desocupada de transeuntes e, mesmo diante da possível presença de alunos, passei a dar minhas escorregadinhas sem compromisso, feliz da vida e mais despreocupada com a tal “postura acadêmica”. O máximo que consegui foi despertar um certo ar de riso de uns ou de outros, se me viam. Mas diante da “seriedade” com que saía da empreitada, nunca ouvi piadinha alguma.

Apenas num dia ouvi um aluno me dizer:

- Cuidado professora, a senhora pode cair.

- Tem perigo não, faço isso sempre. É meu surfe em terra firme.

- Ah, professora, só a senhora mesmo.


E ficou por isso mesmo. Se me consideraram doida, nunca soube. Mas que soltei os laços da alegria contida, soltei, sim, para o meu bem, para o bem de minhas aulas e para as lembranças que me fizeram escrever este conto hoje. Um brinde a isso!

sábado, 28 de agosto de 2010

O GALO



Você já foi à Bahia? Não? Então vá.

De preferência, buscando ajuda no Senhor do Bonfim. Guardo a experiência como se tivesse acontecido hoje. Foram quinze dias particularmente interessantes em minha vida, no que se refere ao contato com energias desconhecidas.

Tudo porque eu precisava vender uma casa que havia comprado, no Humaitá, por sonho de meu ex-marido, em conseqüência de uma herança do meu pai. Uma casa em condomínio, na qual vivi por um ano, dez meses, vinte e um dias e nove horas. Pelo contar do tempo, você pode imaginar a alegria intensa que senti ao voltar para meu querido apartamento de Copacabana. É que o condomínio era do tipo “ame-o ou deixe-o”. E eu deixaria meu ex-marido na época, se dependesse disso para sair de lá. Sério.

Para quem conhece o IBAM, no Humaitá, o condomínio fica por trás, trepado morro acima, cinco casas por andar, umas grudadas nas outras. Sem nenhuma privacidade. Nenhuma!!! Eu ouvia tocar a campainha do telefone do meu vizinho e, naturalmente, todo o barulho e o som escandalosamente alto dos aparelhos de som de seus filhos adolescentes, mesmo no decorrer da noite. É preciso acrescentar que tinha de dar exatamente para o meu quarto de dormir. A varanda deles dava para este mesmo quarto, suportando as festas de todos os sábados, até as altas da madrugada, ou melhor, por que não dizer... manhã? E reclamar era completamente inócuo. Não fazia efeito algum. O jeito seria esperar que crescessem, mas pela idade deles, na época, levaria séculos de minha felicidade e ânsia por sossego. Não tinha como me concentrar para estudar, base de minha vida acadêmica. Mas isso nem era o pior! Tinha aquele cheiro de churrasco e cerveja invadindo minhas narinas todos os domingos... e um elevador, em plano inclinado, que funcionava vez por outra. E eu morava no último andar e como as casas tinham dois andares, décimo primeiro andar significava o dobro para quem sobe pelas escadas. Havia quem adorasse. Não eu, com certeza, pois não tinha a opção de ficar em casa: eu trabalhava e tinha de enfrentar as escadas, quer chovesse, quer fizesse sol...

Também não havia muita intimidade. Os vizinhos me visitavam, melhor, me invadiam, por mais reservada que eu “tentasse” ser - lá isso não funcionava, a não ser que eu resolvesse ser, literalmente, grosseira, o que não faz parte do meu temperamento. Não conseguiam se perguntar se eram bem-vindos, ao simples cheiro de um café gostoso que, modéstia à parte, sei fazer muito bem.

Meu ex-marido adorava o lugar. Como viajava muito, curtia os poucos dias que esta casa de suposto veraneio poderia lhe proporcionar. Eu, que ficava ali direto e só saía para trabalhar, fiquei com a parte pesada: a obra da casa, que durou um ano e quase meio e o resto do convívio. Não consegui acabar de escrever um dos meus livros acadêmicos, embora faltasse apenas o último capítulo e a conclusão. Não tinha como, no meio de um bulício e uma agitação constante, da invasão de minha privacidade, nas horas mais impróprias, e, principalmente, do barulho infernal dos vizinhos de baixo.

Também não conseguia ver meus amigos, em minha casa, com a mesma privacidade de sempre. Minhas visitas, desnecessário dizer, combinam com o meu perfil e não achavam muita graça em virem me visitar e não poderem usufruir da minha companhia, senão com o compartilhamento desnecessário de convivas que não eram convidados por mim. Apenas passavam pelo jardim e entravam, convidando-se eles mesmos a serem apresentados e a participarem de conversas que deixavam de ser privadas, naturalmente. Com isso, deixei de receber minhas visitas queridas, como acontecia no meu apto de Copacabana. Pediam desculpas, eram sinceros ao dizerem os motivos de seu afastamento e, simplesmente, desapareciam. Não os condeno. Eu teria feito o mesmo. Caramba, onde fora atracar o meu belo e tranquilo barco...

De veraneio, aquela casa só tinha a aparência para mim. E também não podia chover. O subsolo inundava por uma infiltração vinda direta do morro, por dentro do solo, o que dava a impressão de que a casa poderia despencar morro abaixo, a qualquer instante, problema que só resolvi com uma obra monumental nos oito últimos meses.

Comprar um jornal era uma excursão. Descer pelo plano inclinado (como chamavam aquela “espécie de elevador”), andar três quadras em busca da primeira banca. A padaria? Que padaria? Naquela época, por ali, nenhuma. Farmácia idem. Supermercado, só de carro. Sem contar com subir com as sacolas, em dia de greve de elevador. Mais comentários?

Havia as orquídeas enfeitando o quintal, que eram cultivadas com muito carinho. Tinham vindo do apto de Copacabana onde a coleção chegara a vinte vasos, com floradas todos os anos. Adoraram o quintal ensolarado. Essa era a parte boa. Também havia os pássaros, com seu canto sonoro e sempre primaveril, fosse qual fosse a estação do ano. Eu podia tomar sol como num campo naturalista, quando conseguia fazer minha presença despercebida de meus vizinhos, o que exigia uma estratégia particular ardilosamente arquitetada, é claro. Também resolvi um problema de dor no joelho direito, conseqüência dos tempos em que jogava vôlei no time do colégio. De tanto subir aquelas escadas de inumeráveis degraus, consegui musculatura suficiente para mantê-lo saudável. Gostava de respirar o ar da montanha que ficava logo atrás de mim. A vista das árvores lembrariam repouso, não fosse o constante barulho dos já citados vizinhos de baixo...

Desfiadas as principais razões, voltei radiante para o apartamento de Copacabana, que felizmente não tinha vendido. As orquídeas vieram também e acho que também muito contentes, diante das alegrias de sua dona. Morara naquela rua desde 1973 e é onde estou até hoje, fora esse intervalo de pesadelos. A vida em Copacabana só me inspira boas lembranças. O apartamento é uma graça, com sol pela manhã, lua à noite, sossego de rua meio afastada, com beija-flores na janela (imagine!!!) e tudo à mão, bastando andar uma quadra: farmácia 24 horas, padarias e mercados à disposição.

Dizem que quem compra um barco tem duas alegrias: uma quando compra e outra quando vende. Era o mesmo, com aquela casa. Só que eu não conseguia vendê-la de jeito nenhum!

Mas tudo tem seu tempo e agradeço por isso! Ficou empacada, dando despesas de impostos e manutenção de 1989 a 1993.

Em 1993 precisávamos vendê-la de qualquer jeito, pois o divórcio veio à tona e tínhamos de dividir os bens. Aí é que dou graças à vida. Se não tivesse ficado empacada, talvez o dinheiro tivesse ido embora e eu não teria, então, como negociar os bens. Como disse, tudo tem seu tempo. Só que... continuava lá, grudada, sem sair do meu pé... sem compradores.

Foi então que uma amiga me recomendou ir ao Bonfim. Olhei-a meio crédula, meio incrédula, mas o desespero me convenceu. Segui à risca a receita dada: saia do Rio direto para Salvador, numa sexta-feira, passe pelo mercado modelo, compre flores brancas, vá direto ao Bonfim, acenda uma vela, procure uma das senhoras que cuidam da igreja, peça um vaso, arrume as flores, peça que ela as coloque no altar. Vá a um dos bancos, faça seu pedido e volte direto para o Rio. Nada de passear.

Saí daqui bem cedo na manhã de uma sexta, como mandava o figurino, cheguei ao aeroporto de Salvador, peguei um taxi que me esperou comprar as flores e fui direto para a igreja. Acendi as velas, e busquei uma das tais senhoras. Encontrei imediatamente uma e fiz o meu pedido. Ela gentilmente me trouxe um vaso, no qual arrumei as flores e, como dizia a receita, pedi que ela o colocasse no altar.

É aí que começa a história do galo. A senhora me olhou com um sorriso acolhedor e me perguntou se eu mesma não gostaria de colocar as flores no altar.

- Claro, se me for permitido.

Ela me conduziu ao altar, indicou o lugar onde deveria colocar o vaso e me perguntou:

- Gostaria de ver o sacrário por dentro?

Eu não tinha nenhum interesse em ver sacrário algum por dentro, mas, para retribuir tanta delicadeza, não pude recusar. Ele me instruiu a esperar ali no altar mesmo, enquanto iria buscar a chave. Demorou um pouco e voltou com uma daquelas chaves antiqüíssimas, do tempo do império, enrolada numa corrente meio fina. Entregou-me a chave enrolada e disse:

- Enquanto desenrola a chave, faça o seu pedido.

Será que a mulher lia pensamentos? Pois não é que era justamente da chave de uma casa que eu queria me livrar? Não discuti. Sem fazer nenhum comentário, desenrolei a chave devagar, contrita em meus pensamentos. Finalmente, entreguei a chave à senhora que, sorrindo, me disse.

- Bem, já que estamos aqui, vamos ver o sacrário.


Com esta frase, ficou claro para mim que a visita ao sacrário era apenas uma formalidade. O importante ela já tinha feito, que era me oferecer a oportunidade de “desenrolar a chave”!

Vimos o sacrário e depois de agradecer-lhe, estava pronta para me despedir. Foi quando ela, sempre muito simpática e acolhedora, me disse:

- Uma parte foi feita. Mas é preciso completá-la. Há alguém que trabalha com você que sabe o que deve ser feito a seguir. Pergunte a ela e terá a orientação necessária. Ela também poderá ajudá-la a completar o que falta.

Pelos deuses! Eu não havia dito nada àquela mulher! Como saberia de meus desesperos? Olhei aquele sorriso franco, acolhedor e, sobretudo, sábio. Agradeci sinceramente e voltei direto para o Rio, como mandava a receita. Alguém que trabalha comigo? Que alguém? Onde? Caramba, como achá-la? Na Universidade onde dava aula? Passaram-se os dias. Numa sexta (numa sexta de novo!) dia de minha faxineira, me lembrei que ela era chegada a esses cultos. Resolvi, ainda que discretamente, comentar sobre o assunto. Ela sorriu como quem sabia o que estava acontecendo (ou teria sido só impressão?) e me disse que perguntaria a seu conselheiro espiritual. Na outra sexta, veio com a resposta: ele disse que sabia, sim, o que deveria ser feito e já tinha trazido uma lista com as coisas para comprar: uma casa de cera em miniatura, chave idem e mais um monte de coisas como velas e outros apetrechos dos quais tenho pouca lembrança, mas que me pareceram bem cerimoniais.

- Ok, e o que faremos com isso?

- Vamos fazer uma oferenda num lugar que indicarei à senhora. Já que a senhora mora na zona sul e o lugar tem de ser tranqüilo, podemos ir à Barra da Tijuca. Chegando lá, saberei achar o lugar.


Não sei por que, minha intuição perguntou:

- E, depois de vendida a casa, o que terei de fazer?

Mostrou-me outra lista, para agradecimento, incluindo um galo vivo. Intui que seria sacrificado. Nada feito. Matar bichos não. Definitivamente, agradecia muito, mas dava o caso por encerrado. Pedi que agradecesse sincera e fervorosamente ao seu consultor espiritual, mas que não poderia fazê-lo. Ela disse que voltaria a falar com ele. Uma semana depois, voltou com o recado:

- Ele disse que não tem importância. O galo não precisa morrer, podemos entregá-lo vivo.

- Tem certeza?

- Pode confiar.

- Então tá. Já que estou no barco e não tem bicho morto, vamos em frente.


Comprei a lista inicial e, na outra semana embicamos para a Barra. Em 1993, não tão povoada quanto hoje. Achar uma rua tranqüila, vulgo encruzilhada, foi fácil. Ali ela depositou as oferendas, tomando o cuidado de colocar tudo num arranjo bem interessante, inclusive as comidas. Minha função era apenas estar presente. Eu não precisava pedir nada, segundo ela. “Ele” já sabia de tudo.

Estava eu, ali, peça do sincretismo brasileiro. Respeitosa, disciplinada, confesso que um pouco perplexa, mas contrita.

Desnecessário dizer que vendi a casa em torno de quinze dias. Sem problemas, à vista, pelo preço pedido, sem pechinchas. Num relâmpago. A família mora lá até hoje e simplesmente adora o lugar. Incrível.

Hora de agradecer e comprei toda a lista necessária. Menos o galo. Tinha de ser um galo especial que só minha faxineira sabia onde vendia. Trouxe na véspera do dia da oferenda para que ficasse aqui em casa. Que animal. Lindo! Porte de rei, empinado, garboso. Se eu fosse galinha...

Servi sua majestade com grãos que vieram junto e ele ficou em minha área de serviço até o dia seguinte, sem dar trabalho algum. Também não precisei dar muitas explicações ao meu então marido, pois sua mãe também era chegada a essas coisas (nunca me aprofundei muito em até que ponto) e ele não comentou nada.

Manhã cedo, acomodei as oferendas e o galo, este cuidadosamente embrulhado em jornal para não se debater no carro e seguimos em direção à Barra da Tijuca.

- Ok, perguntei, para onde vamos?

- Para o mesmo lugar, disse a faxineira.

- Mesmo lugar? Como assim? Você não disse que teria de ser o mesmo lugar!!! Eu não sei voltar lá!!!

- Ah, patroa... tem de ser no mesmo lugar!


E agora??? Desespero interno, meu coração aos pulos. Não sei por que sussurrei:

- Só se o galo nos ensinar, ora essa...

Do banco de trás, o galo, que estivera mudíssimo até então soltou um “coc”. Achei estranho e segui em frente. Vou tentar lembrar mais ou menos onde foi e o resto é contar com a memória, nem que a gente fique aqui o dia todo, pensei. Dei a volta por baixo de uma ponte (disso eu me lembrava) e peguei uma das pequenas ruas vicinais. Quando me aproximei de uma esquina, o galo, de novo: “coc”. Um só, como o primeiro. Instintivamente, virei. Dirigi passando por um ou duas quadras e, de novo: “coc”. Virei. Para resumir, os “cocs” me guiaram exatamente ao ponto das oferendas da primeira vez. Sozinha, tenho certeza, eu não o teria encontrado com tanta facilidade, enfiado que era, no meio daquele fim de mundo dos meus deuses! Minha faxineira achando tudo natural. Eu, divina e silenciosamente perplexa!

Descemos, peguei o galo com carinho. Suas penas (plumas?), suaves ao toque, enfeitavam a sua altivez. Deveria segurá-lo, enquanto ela preparava as oferendas, muito ou mais bonitas do que da primeira vez. E o galo? Seria o último. Finalmente, com tudo pronto, deveria depositar o galo ali. E, como mandava o ritual (tinha sido assim, também da primeira vez), sairmos sem olhar para trás, pegarmos o carro e irmos embora. Minha faxineira o fez, sem a menor hesitação. Eu, no entanto, à medida que me afastava, tinha ímpetos de olhar para trás, como a mulher de Ló, no episódio bíblico de Sodoma e Gomorra. Mas não o fiz. Obedeci à ordem do misterioso e do místico. Afastei-me do local deixando para trás o farfalhar forte, garboso e incessante das asas de sua majestade.

Sem saber como, envolvida que fui desde minha ida ao Bonfim, vivi a certeza de que mistérios como esses existem... e desafiam a nossa razão.

sábado, 21 de agosto de 2010

SAPO


Não havia segredo no internato que eu não conhecesse, regra que eu não soubesse, travessuras que não tivesse feito, recanto da casa que eu não dominasse. No fundo, acho que as freiras acalentavam a idéia de que um dia, eu seria uma delas. Doce ilusão, pois não conheciam o espírito que vivia dentro de mim. E este espírito é a alma das minhas aventuras no internato: instalada assim, como se estivesse em casa (e, na verdade, estava...), é claro que me sentia à vontade para as mil traquinagens, tão comuns na infância e na adolescência.

Das travessuras da infância, destaco uma, da qual participei, mas não fui autora. Algo tão ingênuo quanto o gosto infantil pelas coisas simples, ao mesmo tempo que indica que o ser humano, desde pequeno, não se isenta de espertezas e oportunismos.

Era o trote nas mais novas. Não conhecíamos isso pelo nome. Na teoria, nunca tínhamos ouvido falar, mas liguei o fato à minha entrada na universidade, muitos anos depois. O trote. Um trote bem maldoso, por sinal, se pensarmos na suposta simplicidade da alma infantil.

Às refeições, era-nos permitido repetir elementos do prato salgado, mas jamais a sobremesa. Na melhor das hipóteses você pode estar pensando que as freiras tinham o honrado compromisso de nos ensinar a preferência pelas proteínas e a distância dos açúcares. Nada disso, pois eu fiz questão de perguntar. A resposta foi a de que devemos comer o prato salgado porque nos alimenta e o doce, como é prêmio, deve ser comedido. Conclui-se, assim, que devíamos nos habituar ao sacrifício, pois o sacrifício é muito bem recebido por deus nosso senhor. Em outras palavras, o dever pode ser cumprido até em excesso, mas o prazer e a alegria devem ser comedidos.

De onde será que elas tiravam essas pérolas de sabedoria?

Era permitido a uma aluna, portanto, ceder sua sobremesa a outra, quer por sacrifício, quer por não apreciá-la. Tínhamos de comer de tudo que fosse o prato principal, gostássemos ou não gostássemos. Mas, a respeito da sobremesa, era permitido até ceder, não apenas recusar.

Em outros termos, você pode ceder no prêmio ou no prazer, jamais na obrigação.

Custei a me desvencilhar dessa prática ardilosa e subterraneamente plantada em minhas atitudes de vida adulta, principalmente no que se referia à prioridade ao aspecto profissional, mesmo em se tratando, muitas vezes, de domingos e feriados.

Mas voltemos às refeições: havia uma sobremesa de especial paladar, cobiçada por todas internas. Até hoje não conheço a receita, guardada a sete chaves em algum lugar não accessível a nossa sedenta curiosidade, segredo jamais revelado, nem às vésperas de eu sair do colégio. Posso adiantar, no entanto, que pelo paladar sentíamos o sabor de banana, açúcar e canela. Acho também que era frita, mas sequíssima, posso garantir! Para completar a delícia, não era muito doce e nada enjoativa mesmo para mim que sou chatíssima para cheiros e paladares. Um manjarzinho divino e raro. Aparecia uma vez por mês. Talvez fosse o sacrifício consagrado das freiras da cozinha prepararem cerca de duzentos desses manjares de uma só vez (éramos cerca de 100 internas e 100 semi-internas). Devia mesmo dar um trabalhão. Mas eram simplesmente deliciosos. Só de me lembrar deles, sinto o cheiro, o gosto, o apetitoso prazer. Mas tinha uma forma estranha. Por saber cozinhar, imagino que fosse desses doces de tachos em que você mete um colherão, pega uma porção e joga no óleo quente ou coisa assim. Ficava um doce meio deformado e, por incrível que pareça, com um jeito parecido com a de um sapo esparramado. Essa era a analogia que fazíamos, crianças habituadas a fazerem o recreio em espaços cercados pela frondosa, pura e plena floresta da Tijuca. Assim, todas nós nos habituamos a denominar “sapo” a esse deliciosíssimo quitute dos deuses.

A primeira aluna que percebia o movimento da cozinha e via a sobremesa nos bandejões passava adiante a senha da sobremesa do dia. Assim, tão logo essas alunas sentadas mais próximas à cozinha descortinavam qual seria a sobremesa, era questão de segundos a notícia se espalhar por todo o refeitório. Um telefone sem fio perfeito, apenas com movimentos dos lábios, já que nosso silêncio só poderia ser quebrado depois que o último prato salgado fosse recolhido da mesa. Dia de sapo era um bulício. Nem precisávamos da leitura labial. O mexer dos ombros, os sorrisos já denunciavam que “era dia de sapo”.

No primeiro dia do ano em que éramos brindadas pelo sapo, o trote acontecia. Tudo na maior linha, na maior ética, no maior requinte. Coitadas das alunas novas...

Uma veterana começava o teatro tão logo o silêncio era suspenso e poderíamos começar a falar:

- Oba, hoje a sobremesa é sapo!

A aluna nova ou as novas faziam uma cara de espanto:

- Sapo?

- É, a sobremesa mais gostosa do colégio, você vai ver!

- Mas é sapo mesmo?

- Ué, claro que é sapo, você vai ver. É uma delícia.

- Como é feito?

- Não sabemos, mas tem um gosto parecido com banana, leva açúcar, canela e a receita é secreta, as freiras não contam, não tem jeito.


Era muito convincente, já que na mata, com certeza, haveria milhares de sapos à disposição para qualquer tipo de empreitada culinária, se quisessem. Mas tínhamos o requinte:

- Naturalmente, as freiras devem levar muito tempo para juntarem a quantidade de sapos suficiente, pois só temos dessa sobremesa uma vez por mês, portanto, aproveite a oportunidade, coma saboreando bem, pois já sabe que só terá outra chance no mês que vem.

As carinhas de espanto se transformavam rapidamente em carinhas de nojo, tanto da sobremesa como das comensais. Como tínhamos coragem de comer sapo e, ainda, por cima, dizermos que era a sobremesa mais gostosa do colégio? As nossas expressões eram angelicais, dessas de filme. Depois de colocarmos o manjar dos deuses em seu devido lugar e incentivarmos ardorosamente nossas novas colegas a experimentarem o batráquio, dizíamos:

- Bem, se vocês não vão querer mesmo, se importam de nos dar?

Assim, todos os anos, no primeiro mês, as veteranas tinham a sobremesa repetida ou dividida irmamente nos pratinhos de sobremesa. Quanto mais novatas houvesse em nossa mesa, melhor: mais sapos a serem divididos.

O ardil só seria descoberto mais tarde e, como único consolo, no ano seguinte, elas poderiam passar o trote nas novatas.

sábado, 14 de agosto de 2010

O MARIDO QUE NÃO ERA


Pouco depois de divorciada, em 1996, tive um namorado sociólogo e antropólogo. Conversa vai, beijinhos vêm, acabou sabendo das minhas aventuras de internato. Acredito que ficou curioso por conhecer o testemunho de tantas aventuras, assuntar sobre o ambiente, curtir as sensações. Não sei ao certo as motivações. O fato é que gostaria de conhecer o colégio por dentro, depois de eu contar que era um prédio magnífico, digno de ser conhecido por sua altivez, espaço, acolhimento. Talvez sua formação acadêmica tivesse aguçado sua curiosidade. Acabei providenciando a visita, num lindo domingo ensolarado.

Era preciso telefonar, cumprir a receita protocolar: marcar dia, hora, enfim, todos os requisitos já tão meus conhecidos, mesmo trinta anos depois de ter passado por lá. Tudo na mesma: “quem quer visitar, porque, quem vem, quem não vem”. Tempos e mentes supostamente congelados ou era só preconceito meu? Marcados dia e hora, lá fomos nós. Adverti-o dos possíveis desconfortos: não sabia se, depois de tantos anos, haveria alguma freira que me reconhecesse e, se assim fosse, que não se incomodasse com o preconceito, já que elas teriam conhecido meu ex-marido e poderiam olhá-lo meio de viés. Além disso, havia o fato de ele ser quinze anos mais novo do que eu o que, por si só, mesmo na possibilidade remota de acharem que eu ficara viúva, já chamaria a atenção. Alertado cuidadosamente para isso, tocamos a campainha. O mesmo som, de há tantos anos passados.

Uma freira veio à janela e me apresentei, como sendo a tal ex-aluna visitante. Aguardamos na portaria, à espera de alguma outra religiosa que nos acompanhasse durante a visita. Muito esquisito para mim, que andara por aqueles corredores como quem anda por sua própria casa. Se você leu “o segredo”, logo verá que a superiora mudou. Em 2010 andei sozinha por todos os cantos, a fim de tirar fotos para o blog. A superiora mudou e, provavelmente, os tempos também. Mas, naquela tarde de 1996, tive de esperar que viesse uma religiosa que me tratasse como visita e não como a ex-aluna de tantos anos. Coisas da vida. Para minha surpresa, veio uma freira conhecida, a irmã da enfermaria. Quantas e quantas vezes eu inventara uma dorzinha de barriga só para subir ao quinto andar, refrescando um pouco a cabeça da sala do estudo da tarde. Não me reconheceu, mas, boa anfitriã, honrou a educação que eu mesma recebera, delicadamente nos levando por todos os cantos do prédio, o enorme colégio que precisa mesmo de um guia turístico para traçar todos os seus aposentos e corredores.

Não havia mais internato, o que modificou toda a estrutura dos antigos dormitórios. As salas de estudo, no entanto, continuavam as mesmas, chão impecavelmente lustroso e limpo, ambiente de quietude e discreto luxo. Mesmo cheiro, mesmos recantos que me contavam mil histórias. Meu companheiro era tratado com o maior cuidado e respeito, um tal de senhor para cá, senhor para lá. Ele me olhava com olhares de quem queria desdizer tantas de minhas recomendações anteriores. Nenhum preconceito. De minha parte, nenhuma saudade. Encontrei uma ou outra freira, na verdade, apenas duas, do meu tempo de escola: a professora de matemática (inesquecível) e a professora de pintura em porcelana, doce criatura. Todas bem, como se tivessem tomado formol importado por todos aqueles anos. Soube que muitas de minhas antigas mestras já haviam falecido, outras estavam aposentadas em casas da irmandade, em outros Estados, em algumas das muitas filiais dessas religiosas, espalhadas por todo nosso país.

Para meu companheiro, a visita foi de puro encantamento. O prédio, magnífico por fora e por dentro, recendia a aventura, bom gosto e, por que não dizer, nobreza. Na hora do lanche, fomos brindados com os quitutes da casa. Não resisti e perguntei se tinha “sapo”. O nome foi reconhecido pela irmã da enfermaria. Sorriu. Talvez eu tivesse tocado em algum momento feliz de seu passado. Olhou-me buscando em sua memória o que ou quem eu poderia ter sido. Mas, trinta e poucos anos não passam assim à toa, mesmo eu tendo sido quase filha da casa. Ademais, minha aparência tinha mudado muito, agora com mais de quarenta anos de idade e sem nenhum resquício da disciplinada aluna que eu fora. Senti que não ela conseguia alçar-me em sua memória, mas o “sapo” tinha sido um código de passagem, uma senha de um passado, talvez nostálgico, irrecuperável. Os tempos, com certeza, tinham mudado e, com ele, a juventude não só minha, mas da velha anfitriã. Disse-me que a sobremesa não era mais reconhecida por aquele nome e que, infelizmente, naquele dia não havia nenhum para servir-me. Mas tinha o bolinho de milho, que fazia questão de nos oferecer. Santos deuses, o bolinho de milho que eu tanto detestava... O que dizer, no entanto, diante de tão boa vontade? Rumamos para o refeitório, para meu sacrifício. O cheiro do chá, meu conhecido, mostrava que deveriam ser por volta das 15 horas, horário que reunia a comunidade para o lanche da tarde. Tínhamos chegado um pouco depois e o refeitório já estava vazio. O chá nos foi servido, com os tais bolinhos de milho. Fingi comer um deles, esperando um deslize da freira para passá-lo para o prato de meu companheiro. Boa boca, ele já estava se deliciando com o segundo deles. A freira foi buscar qualquer coisa e me aproveitei da oportunidade para passar-lhe o meu. Quando voltou, vendo meu prato vazio, me ofereceu generosamente mais um. Tentei recusar, dizendo-me satisfeita. Meu companheiro prendia o riso diante de meu constrangimento. Mas, diante da insistência, impossível negar. Ainda mais porque o bolinho era considerado sobremesa e sobremesa, para elas, significava prêmio. Acabei por comer um, com muito sacrifício, em nome dos passeios pelos corredores que esta freira, há trinta anos atrás, em seu antigo ofício, me proporcionara, deixando-me tomar um comprimidinho qualquer antes de voltar vagarosamente para minha sala de estudos, não sem antes passear um pouco pelo terraço.

A tarde, enfim, terminara e fomos gentilmente, levados até os portões do magnífico edifício incrustado no esplendor da Floresta da Tijuca. Na volta, ouvi comentários sociais e antropológicos a respeito de meu preconceito quanto à intolerância das freiras que, ao contrário do que eu preconizara, tinham acompanhado o desenvolvimento de nossa sociedade, tal a generosa forma com que ele fora tratado. Os tempos tinham mudado e eu, no entanto, é quem continuara com uma visão retrógrada em relação àquelas gentis e avançadas religiosas. Engoli o sermão bem quietinha e também perplexa por tão inesperada acolhida.

A vida é muito interessante. Eu nunca tinha me encontrado com aquelas religiosas na rua, durante tantos e tantos anos. Um mês depois, no entanto, passando pela Rua da Assembléia em pleno centro carioca, por incrível que pareça, eis que me deparo nem mais nem menos, com a mesma irmã anfitriã, devidamente acompanhada de uma outra da comunidade. Tinham vindo ao oculista, se não me engano. É preciso esclarecer que, por princípios religiosos, elas nunca saem sozinhas. Estão sempre em dupla ou em tripla. Abordei-a por causa da coincidência, achando interessante nos encontrarmos novamente, um mês depois, após tantos anos sem nunca ter visto nenhuma delas pelas ruas. Ela sorriu e me perguntou:

- E o marido, como está?

- Marido?


Caiu a ficha. Em ambas. Eu, por recuperar, de pronto, toda a minha ciência sobre um preconceito supostamente não existente; ela por sentir-se enganada, traída em sua confiança. Afinal, tratara tão bem a quem?

- Aquele senhor não era seu marido?

- Não, eu me separei há mais de um ano...


A freira que a acompanhava arregalou os olhos:

- Você se separou, minha filha? Por quê? Ele batia em você?

Olhei-a, incrédula! Juro pelos deuses que foi o que ouvi. Apesar de ter sido educada por elas, a pergunta não conseguia fazer sentido para mim!

- Não, ele não me batia.

- Então, por que se separou?

- Ué, não deu certo.

- Minha filha, você está vivendo em pecado diante de deus nosso senhor! Os casamentos são para sempre, até que a morte os separe!

- Irmã, não me sinto vivendo em pecado. Pecado seria submeter-me à infelicidade!

- Mas você está vivendo em duplo pecado agora,
disse a irmã anfitriã, lembrando-me de meu acompanhante.

- Irmã, Deus sabe de minhas intenções.

- Como você consegue dormir à noite? Isso é inconcebível diante das leis de deus!


Não quis lembrá-la do antigo testamento e do monte de “poligamias lícitas” nele contidos. Não valia a pena. Apenas respondi:

- Durmo com meu travesseiro e na santa paz do senhor, que tudo sabe. Poupei-a de acrescentar “e com o meu namorado”. Seria demais.

A outra irmã indagou, como que querendo salvar-me de um naufrágio iminente:

- Você teve filhos?

- Não.

- Ah, minha filha, então ainda há salvação: peça anulação do casamento.

- Anulação do casamento? Depois de 22 anos de casada e divorciada?

- Sim,isso é possível, pois o casamento não foi abençoado! Você pode entrar com um processo no Vaticano.

- Para quê?

- Para redimir-se diante de deus.

- E preciso de um papel dos homens para redimir-me diante de Deus?

- É a única forma de salvar a sua alma. Só então poderá casar-se novamente e viver em paz na fé da santa amada igreja.

- E quem disse que eu quero me casar com o meu namorado?


Foi o suficiente. Quase me arrependi de ter dito isso. As freiras estavam horrorizadas. Pensei que poderiam ter um ataque ali mesmo. Tentei consertar:

- Irmãs, fiquem tranqüilas. Eu me sinto em paz com Deus. Ele sabe de todas as coisas e também da minha retidão.

As freiras pareciam petrificadas. Tive pena, mas não havia mais jeito. Elas estavam perplexas e eu condenada às chamas do inferno para sempre! Destino selado, depois de tantos anos de uma educação religiosa perfeita. Eu tinha posto tudo a perder. Elas pareciam inconsoláveis. A irmã anfitriã baixou os olhos, senti seus dedos buscarem o rosário que eu sei que elas sempre trazem no bolso, um pouco à mostra. Queria assegurar-se de que deus estaria por perto. A outra segurou o crucifixo que trazia ao peito. Foi um momento de constrangimento entre o céu e a terra. Não havia como sossegá-las. Talvez, quem sabe, só na próxima encadernação. Nesta, já estavam mesmo comprometidas demais com seus dogmas. Paciência. Ensaiei uma despedida cortês, logo recebida por elas. Afastaram-se às pressas, querendo distância do convívio com as tentações terrenas e com as infestações desta alma perdida para a fé da igreja para sempre.

Cheguei em casa ávida para contar as novidades ao meu companheiro. Ele apenas sussurrou:

- Quem diria... e eu estava tão crente... Sorriu. Eu me senti em casa. Aconcheguei-me a ele e por minha mente passaram muitas e muitas recordações de hábitos e costumes, felizmente não arraigados em meu coração.

Ficamos, assim, em silêncio, ele tendo percebido meu recolhimento, minha satisfação interna de não estar impregnada por repressões sem sentido. E, como prêmio, condescendente, enlaçou carinhosamente sua ilustre pecadora.

sábado, 7 de agosto de 2010

O SEGREDO - A REVANCHE



A revanche prometida no conto da semana passada:

As alunas tinham um conselho. Chamávamos de “conselho das alunas”. Isso mesmo, coisa de filme, de livros romanescos. As freiras não sabiam que existia, aliás, muitas alunas também não. Era uma espécie de irmandade secreta, que entrava em vigor quando alguma coisa era considerada errada e deveria se submeter a julgamento, segundo nosso critério. Um julgamento necessário, de alguma coisa que teria “escapado” à ética estabelecida pelo poder da ordem local, no caso, as freiras. Aprendi muito com o conselho das alunas, do qual, aliás, eu era uma das líderes, dada a minha posição de aluna antiqüíssima. Geralmente, as moças ficavam internadas apenas de um a três anos, no máximo, só para tomarem um banho de loja “princesesca”. Eu era a anfitriã de todas elas, mesmo das mais velhas. Quando alguém chorava com saudades de casa, se sentia só, triste, mal nos estudos, eu era a “aluna irmã” que estava ali, para uma palavra amiga, para ajudar nos estudos, para dar uma solução. Eu me sentia em casa e, portanto, conseguia ver isso tudo com mais naturalidade e segurança. O colégio me ensinou a ver as pessoas que me cercam como irmãos, pois o que contava ali não era o sangue, era o convívio. Outro presente da vida, para as intempéries do futuro, em meu percurso pelo mundo.

E foi porque conseguia entender essas angústias, e por ser também uma aluna e não uma freira que, espontaneamente, o conselho das alunas começou a ser criado, pois me procuravam para ajudar a resolver casos insolúveis pela “lei local”. Instintivamente, fui achando o peso grande demais para minha responsabilidade e acabamos por formar uma espécie conselho, pois, assim, poderíamos ponderar, ouvindo mais vozes, a cada vez que fosse necessária uma intervenção dessa lei marginal, mas, convenhamos, a nosso ver, de uma ética interna impecável. Tudo, é claro, aos nossos olhos adolescentes. Contarei, em outra oportunidade, histórias interessantes advindas do conselho das alunas, o mais democrático que conheci. Por ora, voltemos à história.

Nos reunimos no recreio, fazendo pequenas rodinhas, fingindo brincar de alguma coisa como “escravos de Jó”, ”conte-me seu segredo” ou coisa assim. Era para disfarçar, pois não tínhamos privacidade suficiente, no contexto social, para segredos que freiras não pudessem ouvir. No caso, como já éramos maiores, até que tínhamos um pouco mais de privacidade. Mesmo assim, nesses casos, dávamos um jeito de disfarçar. Escolher que tipo de castigo nossas colegas estraga-prazeres teriam não foi fácil. Tinha de ser algo tão grandioso que ficasse na história. E ficou.

Aproveitamos um privilégio que a tal turma que sofreria a revanche tinha conquistado a duríssimas penas, pois ninguém no colégio tinha conseguido algo igual. Deveria ter sido por muita influência da mestre de classe (a tal irmã coordenadora) somado a um comportamento impecável da turma, durante muito tempo: elas podiam tomar banho antes de se deitarem. Todas as turmas tinham horário para o banho, dependendo da série, mas ninguém antes de deitar. Motivo: poderia fazer muito barulho e as pequenas acordariam. As pequenas (7 e 8 anos) deitavam-se às 19.30. Pois bem, a tal turma tinha conseguido o privilégio de tomar banho às 20 horas, para dormirem bem quentinhas. Isso, no frio do Alto da Boa Vista é de um privilégio sem tamanho. E o que elas teriam de fazer em troca? Serem absolutamente silenciosas, andando pé ante pé pelos corredores da ala dos dormitórios para não acordarem os anjinhos do colégio. E faziam. Com muita classe, diga-se de passagem. Eu tinha sido uma delas, quando fui da turma do quarto ginasial (assim denominado na época). O pé ante pé, incluía o ritual de tirar as toalhas dos cavaletes de madeira, super frágeis. As toalhas ficavam penduradas ali e os cavaletes ficavam apenas apoiados no chão. Qualquer deslize faria barulho e qualquer barulho naquele casarão principesco no silêncio noturno do Alto da Boa Vista ecoava por toda a mata. Pois bem, nós faríamos algo que provocasse um barulhaço. Como? Dando nós em algumas toalhas. Quando puxadas, trariam consigo os cavaletes e as madeiras, caindo no piso marmóreo, fariam o maior barulho da história do colégio.

Ok, aprovado por unanimidade. E agora, quem vai dar os nós nas toalhas? Muito difícil, pois as alas do colégio não podem ser assim visitadas a qualquer hora. Você só podia ir à zona dos dormitórios por motivos heróicos: deitar porque está doente, trocar de peças íntimas nos dias femininos e coisas assim. De qualquer forma, nunca mais de uma aluna de cada vez e, com licença expressa de uma mestra de classe para se afastar do grupo da turma. Isso quer dizer que tínhamos a obrigação expressa de só andarmos sozinhas ou em bando. Mas isso é outra história, que trouxe vantagens e desvantagens para minha vida futura. Deixemos estes detalhes para outro momento.

Quem faz? Eu, que tive a idéia, claro, me incluí. Carmen Lucia, minha grande amiga de quarto fez eco. Ninguém mais se atreveu, embora a idéia tenha sido aprovada com louvor. Fizemos. Desnecessário dizer que foi durante o recreio após o jantar (das 19.10 às 19.30), tendo eu pedido licença para ir ao banheiro e Carmen para trocar de peças íntimas. De propósito, pedimos para freiras diferentes para que desse certo as duas poderem sair ao mesmo tempo. Já tínhamos essa estratégia, quando necessário. O recreio do jantar era no salão de cima, um salão enorme que ocupava metade de todo o andar do colégio, chamado por nós de “terraço”. Este recreio juntava, apenas nesta hora do dia, quase todas as alunas do colégio. Era, então, mais fácil de escapulir, cada aluna pedindo para uma freira diferente. Elas não tinham notado isso. Toda a segurança tem lá seus furos.

Entrar na ala dos dormitórios completamente às escuras, encontrar os cavaletes certos e fazer o combinado só poderia ser conseguido por alguém que conhecia muito bem o colégio como eu, driblando a vigilância pela escada de serviço, etc. Como você vê, se já passou pelo capítulo de minha história em Braga – “golpe de mestre” - minha juventude já ensaiava amar a vida temperada com suspense, um bater de coração mais rápido. Mas eu mal sabia o que me esperava!...

Cumprida a tarefa, voltamos para o recreio a tempo de nos juntarmos às colegas para o estudo da noite, na outra ala do prédio. Inusitadamente, as maiores quiseram se deitar mais cedo naquele dia. Claro, queríamos ouvir, no camarote da cama, o resultado da façanha.

Não posso descrever o que foi. O barulho foi tão intenso, que me arrependi. Parecia que o colégio estava vindo abaixo, que algum andar estava despencando, que estruturas estavam desmoronando. Choro desesperado, angústia das pequeninas, luzes se acendendo rapidamente, freiras correndo e acudindo de todos os lados. O que foi o que não foi, etc. Nós lá, deitadas, quietas. Eu, com pena das pequeninas, nem conseguia curtir a vingança. Não tinha me lembrado do horror que poderia causar-lhes. Alunas que arriscaram se levantar tinham comandos imediatos de suas mestras: voltem para a cama meninas, quietas, aguardem, está tudo bem, durmam. Durmam?

Vozes das duas mestras de classe – da nossa e da tal turma da quarta série - despencadas no ar, a alto e bom som:

- Foram suas meninas!

- Por que as acusa? Como pode provar?


Chega a Senhora Superiora. O que houve, o que não houve, quem foi, quem não foi. Nossa mestra empacada na palavra:

- Minhas meninas não foram.

–Veremos. Vamos perguntar a elas.


Nossa mestra começou pelo primeiro quarto do outro lado do corredor. Nessa ordem, o nosso seria o último. Ouvíamos o som do interruptor da luz e o fio de claridade, na penumbra do corredor, se aproximando de nosso quarto, a cada vez. Acende a luz:

- Foi você, Beth?

- Não senhora.

- Foi você, Lucia?

- Não senhora.

- Foi você Laura?

- Não senhora.


Apaga a luz, outro quarto, acende a luz...

- Foi você Fernanda?

- Não senhora.


Comecei a suar frio. Carmen Lucia queria vomitar. Não sabíamos que daria nisso. A coisa era séria, tão séria quanto a aventura da terceira série, dois anos antes, que conto outro dia. Só que lá, não houve “culpadas” e a coisa ficou por isso mesmo. Aqui, não. Era pessoal e daria expulsão do colégio, na certa! Carmen Lucia tremia, eu queria morrer. O que vamos fazer? Ela disse que mentiria. Eu disse que não iria conseguir, mas achava que não estaria viva para responder. Isso mesmo, deu uma compressão tal no peito, meus ouvidos zuniam de tal forma, eu suava tanto que pensei mesmo que teria um ataque iminente. Um ataque qualquer, fatal. A voz de nossa mestra se aproximava, quarto a quarto. Pensei rápido. Eu não poderia ser expulsa, pois estava lá por determinação do juiz. Pelo menos, assim achava. Carmen Lucia queria terminar o curso normal para se casar depois. Disse que seus pais jamais a perdoariam. Eu disse para mentir e que eu pensaria até lá. Não estava disposta a mentir. Acho que não me perdoaria. Eu não inventei a vingança? Quem mandou? Acho que nunca me arrependi tanto. Sério. A voz de nossa mestra estava muito próxima.

– Foi você Cristina?

- Não senhora.
Quarto ao lado!!!

Pensei que fosse desmaiar, na verdade, acho que estava bem próxima disso. Sabia que seria incapaz de me levantar, sentia tudo zonzo, minha honra comprometida, pois sempre fora uma aluna exemplar. Das traquinagens, nunca descoberta. Era vez de me enfrentar, talvez pela primeira vez. Testar-me na minha sempre tão defendida correção. Pensei em morrer com honra. Quem tem dezesseis anos é assim mesmo. A luz do quarto ao lado se apagou. Eu ainda não tinha decidido o que fazer, mas sabia que seria a próxima. Ouvi a voz de nossa mestra dizer:

- Foram todas interrogadas.

Ouvi a Superiora perguntar:

- E este?

Deveria se referir ao nosso quarto.

- Este é o meu quarto, respondeu a irmã.

Não acreditei. A voz compenetrada de nossa mestra escondia que conhecia bem o seu “rebanho” e simplesmente nos acobertava, feliz pelo enfrentamento a sua arqui-inimiga, a mestra da quarta série.

Inacreditável. Num segundo percebi tudo. Ela sabia... talvez tivesse, até, o conhecimento do conselho de alunas, quem sabe? Meu colchão estava encharcado de suor. Eu estava num mundo que não era esse. Até hoje não sei se a Superiora também se sentiu cúmplice, pois eu era muito conhecida em todo o colégio e seria estranho não ter se lembrado que o interrogatório não tinha passado por mim. Achei estranho. Mas estava profundamente aliviada. E foi assim, no susto, que fui apresentada a um protótipo de mundo político, não muito diferente do que vivemos aqui fora.

Até hoje, na hora H, não sei o que diria. Gosto de pensar que defenderia minha honra me responsabilizando por tudo. Jamais saberei, pois ninguém se conhece tão profundamente quanto gostaria. Mas serviu de estágio para o futuro, ao assumir melhor a responsabilidade pelos meus atos, pelas minhas atitudes diante da vida.

Isto eu devo ao internato, à necessidade cotidiana premente de estar sempre atenta. Melhor a lição que o castigo. Será que minha mestra, boa psicóloga que era, sabia disso?

Dois anos depois, saí do internato. Voltei a visitá-lo algumas vezes, pois, como você já sabe, fora a minha casa por dez anos. Deixei raízes, embora tenha levado pouco tempo para me livrar delas, tão díspare é o mundo real, aqui fora. No início, no entanto, busquei, algumas vezes, os corredores, os ecos, a mata para meu aconchego, como quem volta à casa materna, em busca de abrigo.

Na primeira visita, ao me ver, minha mestra me puxou para um canto e apenas perguntou:

- Foi você?

Nossos olhares se esbarraram. Respondi com um leve aceno de cabeça.

E juro que vi um sorriso discreto, de secreta cumplicidade, jamais revelada.

sábado, 31 de julho de 2010

O SEGREDO


Entender a lógica de um internato, só vivendo. Não tem outro jeito. É mesmo como nos filmes, cheio de artimanhas, travessuras e segredos. Não tem a fantasia dos filmes, mas guarda um encantamento próprio. Quem soube ser “interno” sabe disso. Mas é preciso “ter sabido” ser interno. Senão, era mesmo um suplício sem fim. Digo isso em nome de muitas de minhas colegas.

Percebi bem cedo que saber adaptar-se é uma arte e uma imperdível opção de aprendizagem. Sou grata à vida também por isso.

Pois então: fui interna. Interna por exatos dez anos, segundo consta na regulamentação da separação de meus pais, declarada e consumada sob o martelo de um juiz. A menina será internada, como deseja o pai, num colégio à escolha do casal, para que tenha uma educação européia esmerada. Não tenho isso registrado, tim-tim por tim-tim, mas era mais ou menos esse o rumo da prosa, segundo soube muitos anos depois. Ter educação européia esmerada, mas num colégio brasileiro, entenda-se, de passagem, já que minha mãe não admitiria minha saída do Brasil. Então foi assim mesmo, um colégio de freiras italianas do mais alto gabarito, na época. Agora não sei como está, mas sei que saí de lá, pronta para ser uma princesa, aos dezoito anos de idade. Uma princesa dessas de contos de fadas: esmeradíssima na etiqueta, bordadeira, pianista, esportista, prendadíssima. Com todos esses superlativos. Dona de casa, com curso de preparação para o casamento, neste caso, PhD completa.

Não saiu como o planejado, mas bem que tentaram... e tentaram assiduamente, honra seja feita. Aqui cabe um sorriso. De graça, de condescendência e de espírito indomável, mas cabe. Um sorriso também benevolente, pela crença que elas tinham de que poderia ser feito. E até foi, sob muitos aspectos. Prendas da vida.

Falar sobre aquele internato dá panos para mangas... e muitas mangas... talvez vestidos inteiros... mil memórias rendem a possibilidade de muitos contos que, com certeza, nascerão. Lembranças de internato, de dez anos em que aquela casa foi, literalmente, a minha casa.

Escolho apresentá-lo, desta vez, em uma de suas facetas mais interessantes – a criação de artimanhas e suspenses. Aqui, é preciso uma pausa para incluir você no clima do que é, ou melhor, do que era um internato, sob os aspectos indispensáveis para entender a trama dessa aventura.

Na época a que quero me referir, década de sessenta, eu pertencia à classe das maiores que era como se intitulava o grupo que pertencia ao atual nível da escola média, antes denominado clássico ou científico. Os grupos eram sempre divididos em classes, de acordo com o ano escolar, cada uma tendo uma mestre e uma assistente, todas freiras, naturalmente.

Conforme a gente ia crescendo, recebia os chamados “privilégios”. Pode imaginar, então, que as maiores tinham os mais altos privilégios do colégio. E há, também, privilégios que vão sendo adquiridos, de acordo com muito esforço e conquistas. Só isso daria uma novela a ser contada, cheia de detalhes, alguns rústicos, outros interessantes. O que vale dizer, aqui, é que as maiores tinham muitos privilégios, em relação às demais.

Esse “muitos” que, ao conhecer, você vai até achar graça, significavam tesouros para nós: mudar o estabelecido, numa sociedade fechadíssima, é muito difícil. Assim, o que parecerá uma brincadeira para você, corresponde a honrarias de deuses para quem vivia lá dentro. Por exemplo: as maiores podiam deitar-se às 21 horas enquanto o resto do colégio dormia entre 19.30 e 20.30, dependendo da idade. Não precisavam andar em fila - visualize um colégio enorme, que mais parece um mosteiro, com mais de cem alunas internas, todas se deslocando em filas por todos os cantos: da sala de estudos para a capela, da capela para o refeitório, do refeitório para o recreio... tudo em fila, o tempo todo, por ordem de tamanho, no mais absoluto silêncio. Pois então: as maiores podiam se deslocar sem fazer fila! Em grupo, em silêncio, mas sem fila! Você não pode imaginar o privilégio que isso significava. Engraçado? Só vivendo.

Ah... um dos melhores: as maiores não precisavam descer para a capela todos os dias, às 17.30 para rezarem o terço e as ladainhas. Isso era considerado um quitute dos deuses. Como a aula de trabalhos manuais tinha de caber em algum horário do dia e as maiores tinham muitas atividades a mais, a aula de bordados e tapeçarias era das 17 às 17.50 e podíamos rezar o terço e as ladainhas dentro da sala de aula, com nossos enxovais se estendendo pelos joelhos, olhos e mãos trabalhando no linho, enquanto nossos lábios moviam-se automaticamente no refrão das preces. Parece engraçado para você? É porque você nunca precisou ter a obrigação de ficar de joelhos na primeira dezena do terço e nem nas ladainhas. Podíamos fazer tudo isso bordando, sem deixar os joelhos empelotados, cheios de cabelos encravados, que é como ficam, com essa postura todos os dias. Bem, é só para dar uns exemplos clássicos. Para você, talvez até grotescos... para nós, vitais.

Mas há um detalhe importante e fundamental para a nossa história: as maiores tinham dormitórios especiais. Todas as turmas tinham dormitórios que mais pareciam enfermarias: dez a vinte camas, dependendo do número de internas por turma, já que éramos divididas por etapa escolar. As maiores dormiam em quartos de três camas, o que dava ares de algo muito especial. Não precisávamos ter a impressão de que dormíamos em bando. No meu quarto, especificamente, éramos apenas duas, pois a terceira cama era da mestre de classe. Ninguém queria dormir ali, claro, junto com a freira. Mas quem era antiga no colégio sabia que era o melhor quarto: a freira só chegava em torno das 22 horas para dormir (nós nos recolhíamos às 21 horas) e saía às 5 horas para a reza matinal. Em outros termos, quem ficasse no quarto da freira tinha apenas uma companheira de quarto, o que era mais que um privilégio, coisa de hotel cinco estrelas. Mas é claro que ninguém sabia disso e, no começo do ano, duas espertinhas, (durante dois anos seguidos, eu e Carmen Lucia) nos “sacrificávamos” e escolhíamos o quarto da irmã que era a mestre de classe.

É bom que você saiba o que era uma mestre de classe. Era a freira que se responsabilizava pela turma perante a superiora do colégio. Como as maiores davam menos trabalho, havia uma única mestre de classe para todo o ensino médio (clássico, científico e normalistas, no vocabulário da época), enquanto que todas as outras turmas, das médias e menores, tinham uma mestra de classe por turma. Vale um detalhe: usávamos o termo “freira”, apenas entre nós, pois era considerado desrespeitoso nos dirigirmos a elas com esse jargão. Deveriam ser chamadas pelo título de “irmãs”. O termo freira era usado em momentos descontraídos entre nós ou, também, não amistosos: a “freira” vem aí, como alerta, por exemplo, ou a “freira” me deu nota baixa. Colocando você a par desses detalhes, vamos aos fatos.

Imagine você uma adolescente, namorando, interna. Pode imaginar o que é namorar sendo interna? Um namoro de finais de semana, sem chance para telefonemas no decorrer dos dias, com aquela vida de reclusão em que se vive no internato. Isto é o que era. Mas não éramos o único casal vivendo aos pedaços. Eu e mais umas tantas colegas, inclusive minha colega de quarto. Na ocasião, tínhamos como diretora uma freira italiana, dessas avançadinhas para a época.

Podemos considerar avançadinha uma superiora que, nos finais da década de 60, dá ordem às freiras para que não mais nos acordem aos gritos da Ave Maria, como era o costume, até então, mas com música clássica de fundo, que vai aumentando o volume aos poucos, até que uma freira entre no quarto, dê bom dia em tom compatível com um ouvido que acaba de despertar e, só então, entoe as preces. É só um exemplo, entre outros que poderão ser contados em outras oportunidades. Para nós, ela era um avanço. Parecia que o quartel tinha tomado outro rumo. Para os anais de hoje, continuaria sendo uma clausura, mas, pelo que eu já tinha passado em anos anteriores, era o paraíso.

No início de junho, as maiores procuraram a diretora para pedirem uma saída especial na tarde do dia dos namorados, desde que a família estivesse de acordo. Concedido! Inédito! Esta freira era mesmo um avanço. Se tinham de se casar, que formassem um santo lar, sob a proteção e conselhos perenes dessa ilustre guardiã no futuro. Muito esperta aquela italiana...

Bem, no dia 10 de junho a diretora viajou para São Paulo e se esqueceu de avisar isso à sub-diretora. Se esqueceu ou a sub-diretora disse que esqueceu. Ocorre que ela acabou dizendo que, se nós saíssemos, as meninas do último ano do fundamental (as médias) teriam o mesmo direito e ela suspendeu a saída de todo mundo. Aí tinha coisa... e, é claro, logo descobrimos. As meninas do último ano do fundamental (quarta série ginasial da época) descobriram e queriam o mesmo privilégio. Ora bolas, por que não tiveram a mesma idéia e não pediram isso à diretora antes de sua viagem? Não era problema nosso e queríamos a palavra mantida.

E era mais do que uma palavra a ser mantida para nós e explico por quê: ocorre que sempre houve uma disputa entre as maiores e o último ano do ensino fundamental. Eu tinha passado por isso e também tinha participado da indignação adolescente do “por que elas podem e nós não”. Afinal, eu tinha a experiência de ter percorrido todos os anos do colégio, com todas as características dos dez anos de reclusão e sabia muito bem o que estava acontecendo. E essa disputa era, na verdade, alimentada, e muito, pelas mestras de classe correspondentes, cujos nomes não publico por simples delicadeza: estas duas mestras de classe estavam longe de um convívio amoroso. Quanto mais desentendimentos houvesse entre as adolescentes dos dois grupos, mais cada uma tomava as dores de suas “filhas”. As duas alimentavam esse mútuo rancor através de suas alunas e nós, que bem intuíamos isso, nos protegeríamos por trás dessa disputa constante para resolvermos a questão, se fosse preciso. E foi o que aconteceu: nossa mestra tomou as nossas dores.

Encaramos o desafio como uma questão de honra. Na tarde do dia seguinte, tínhamos um encontro marcado com nossos namorados e eles sabiam disso. Os pais também. Mas não houve jeito. A diretora só voltaria na manhã do dia 12 e seria preciso esperar. Ninguém dormiu direito, é claro, tanto nós quanto as meninas do ano anterior, que exigiam os mesmos direitos que nós, as maiores, havíamos conquistado! E, com certeza, as mestras tampouco pegaram no sono.

A diretora voltou, na manhã do dia seguinte, e encontrou o circo armado. Muito complicado, pois a mestra das meninas da quarta série, além de mestre das adolescentes da última série (do atual ensino fundamental), era também coordenadora geral do colégio. Com certeza colocou todos os seus galardões na arena. Enfim, ninguém saiu. Briga de cachorro grande. A diretora, para consertar a história que tinha virado uma briga política interna entre as “irmãs” da comunidade e, sem saber o que fazer com a palavra empenhada a nós, alunas maiores, nossos namorados e pais, se saiu com uma de mestre: convidou todos os nossos namorados para irem ao colégio, armou um lanche regado a vinho e nos brindou com uma sala toda enfeitada com corações, flores, etc. Levou apenas algumas horas para organizar toda a festa, só para as maiores, naturalmente, pois as turmas não se misturam.

Cabe observar que, sob este aspecto, se eu não tivesse meus próprios princípios naturais internos, teria incorporado a filosofia da divisão por castas. Vivi dentro dela, moldada pela divisão de “classes” imposta pela organização do colégio, mas, felizmente, não as incorporei, em minhas escolhas futuras, na vida real. Sim, vida real, pois aquela não poderia ser considerada nesse nível. O internato é um mundo à parte e só quando saímos dele é que nos deparamos com as cores vivas do bulício da existência humana.

Mas voltemos à história: as outras alunas ficaram chupando o dedo, pois nem que quisessem daria tempo para avisarem namorados, pedirem licença para as famílias e toda a demais burocracia com que também aprendi a conviver desde cedo. Uma lição à parte, um estágio para os futuros enfrentamentos com as burocracias do poder público. Algo mais ou menos no mesmo estilo. Enfim, passamos uma tarde festiva e agradável, só com nossos namorados, sem os olhos espionantes das freiras, em explícito procedimento de confiança em “suas meninas” e, por isso mesmo, não nos arriscamos a nenhum beijinho. Embora soubéssemos o quanto éramos postas à prova no que se refere a princípios de confiança e lealdade, lá no fundo, como desconfiadas adolescentes, não sabíamos se a porta poderia ser aberta a qualquer momento. Assim, mesmo o que considerávamos natural poderia virar um escândalo disciplinar... melhor não arriscar.

Vimos nossos amores, mas, é claro, não foi como planejávamos. Saimos vitoriosas naquela tarde, mas não foi uma vitória completa. Ademais, as nossas colegas, por pura inveja, segundo nossa maneira de ver, tinham estragado nosso privilégio, o que merecia uma revanche.

Mas estou me alongando demais. Conto a revanche na próxima semana e, com ela, o segredo.

sábado, 24 de julho de 2010

BRINDES À CIDADE AMADA

SOB QUALQUER ÂNGULO,


MESMO OS MENOS CONHECIDOS,


O RIO É UMA CIDADE


ONDE O TRABALHO MORA NOS JARDINS,


NO CALOR DA PRAIA,


SOB O AZUL DO CÉU,


OU NAS UNIVERSIDADES,


NOS PRÉDIOS DE ESCRITÓRIOS,


ENFEITADOS PELO ANOITECER,


ESPERANDO A DESCONTRAÇÃO DO FINAL DO DIA.


UMA CIDADE DE DOMINGOS INFESTADOS DE TURISTAS


ONDE QUALQUER BRINCAR


É PERMITIDO,


NA PRAIA,


NO CALÇADÃO,



NA MONTANHA,


POR DENTRO DA FLORESTA,


NO AR,


NOS BARES OU BALADAS NOTURNAS.


UMA CIDADE CHEIA DE SURPRESAS


ONDE A ARTE PODE SER MOLDADA POR UM ARTESÃO


OU PELO VENTO SUAVE NA AREIA.


UMA CIDADE DE RECANTOS COLONIAIS,


QUE AGASALHOU, DESDE ENTÃO, TRABALHADORES DE DIVERSAS ETNIAS,


NAS MAIS DIVERSAS PROFISSÕES.


ONDE ATÉ A SOLIDÃO É BRINDADA


PELO OLHAR DO POETA.


UMA CIDADE DESPIDA DE CUIDADOS,


NOS EXCESSOS DE SUAS BELEZAS NATURAIS.







ESTES SÃO ALGUNS BRINDES DE UM CORAÇÃO CARIOCA. TIM-TIM!!!

FOTOS TIRADAS EM PASSEIOS OU COTIDIANOS DE ENCANTAMENTO: Pão de Açucar(1,2), Aterro do Flamengo(3,4), Copacabana(5,6), UERJ(7), Copacabana(8), Ipanema(9), Copacabana(10 a 15), Pedra da Gávea(16), Floresta da Tijuca(17), Pedra Bonita(18), Confeitaria Colombo,Posto 6(19), Copacabana(20 a 22), Outeiro da Gloria(23), Trabalhadores em horário de almoço(24), Colonia dos pescadores, posto 6(25), Recanto no Aterro do Flamengo(26), Copacabana(27,28), Pão de Açucar e Urca(29), Cristo(30), Floresta da Tijuca(31,32), Copacabana vista do Forte do Leme(33), Urca(34).