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sábado, 8 de dezembro de 2012

O DETETIVE




Houve um tempo em que eu viajava muito para dar consultorias acadêmicas pelo Brasil. Era uma delícia conhecer novos lugares, novas pessoas, formas de educação diferentes,  por esses brasis afora. Isso se deu em finais da década de 90 e início do novo século.

De quebra, os anfitriões faziam questão absoluta de mostrar os “brincos” de suas cidades. Assim, conheci muitas delas pelas mãos de seus moradores e não como uma turista envolvida com panfletos e pressas descabidas de quem tem de descobrir o melhor em pouco tempo.

Algumas vezes, não dava tempo de passear. Tinha de voltar às pressas, para outros compromissos. Fui a Recife cinco vezes, por exemplo, e só consegui conhecer o aeroporto, o centro educacional e os trajetos que os envolvem. Foi preciso ir como turista, uma vez, para conhecer a Praia de Boa Viagem...

Mas, de modo geral, dava tempo para um bom convívio com os cidadãos. Belém, por exemplo foi uma ida muito proveitosa em todos os sentidos. E foi lá que conheci o primeiro porto transformado em área de lazer no Brasil... tomara que o do Rio fique tão bonito...

Mas voltemos à história que me fez escrever esse conto:

Fui a Florianópolis umas duas ou três vezes, para consultoria a professores e outros profissionais envolvidos com minha área de atuação. Como em todos os lugares em que estive, os contatos ficavam mais ou menos permanentes, com muitas orientações à distância. Naquele tempo, os mails não eram tão frequentes, mas os profissionais tinham permissão para se comunicarem por telefone ou eles mesmos tomavam essa iniciativa, quando necessitavam. Quase sempre ligavam para minha universidade, mas um ou outro profissional que eu percebia ser mais interessado, tinha o número de minha casa.

E foi assim que aconteceu.

Uma noite calma de verão carioca, lembro-me que voltava de um longo e delicioso passeio pela orla... cabeça tranquila de quem acaba de entrar em férias, após um semestre de muito trabalho e... de muitas consultorias.

O telefone tocou. Do outro lado da linha, uma voz tropeçada e engasgada começou a conversar comigo. No início, pensei que era trote, mas logo depois identifiquei uma das excelentes professoras da consultoria recém dada, em Florianópolis.

- Calma, fale mais devagar, o que você tem?

A voz, do outro lado, enrolada e esquisita, insistia numa comunicação impossível. Fiquei apreensiva, achei que ela estava passando mal e estava sozinha em casa. Pedi calma, mas a voz enrolada continuava a mesma até que... ouvi um som surdo e falta de comunicação total.

O telefone teria caído no chão ou a própria professora? E eu aqui, a quilômetros incontáveis de distância, sem saber o que fazer, sem outro número telefônico em mãos para ligar para alguma conhecida em comum!

Liguei para uma de minhas assistentes de projeto. Talvez ela tivesse o número de alguém. Negativo.  Liguei para o Centro Educacional. Atendeu o vigia da noite. Não sabia informar o número de ninguém! Liguei de novo para minha assistente, pois o marido é militar. Quem sabe, ele poderia me ajudar a fazer algum contato com alguém “oficial” de lá!

Na minha cabeça rodavam mil ideias! A professora estaria tendo um enfarto? Estaria desmaiada? Estaria precisando de algum socorro urgente? Apenas para a última pergunta eu tinha uma resposta: sim, com certeza, estaria!

O que fazer? O marido militar me aconselhou a ligar para a Polícia Militar de Florianópolis. Invoco o auxílio à telefonista e completo a ligação.  Do outro lado da linha, uma voz de poucos amigos pede o endereço do lugar para onde eu desejaria o socorro. Eu não tinha, só tinha o número do telefone (por sorte eu tinha!).

- A senhora é parente da vítima?

A professora já tinha virado vítima...

- Não. Apenas a conheço por ter ido lá a uma consultoria. Ela me ligou e algo caiu, não sei se o telefone ou ela mesma. Liguei de novo para lá e dá ocupado. Tenho certeza de que algo está muito errado e que ela precisa de ajuda urgente.

- Aconselho-a a telefonar para alguém que a conheça e que esta pessoa vá lá ver o que houve.

- Eu já teria feito isso se soubesse! Por favor, qualquer auxílio é imprescindível agora! Pode ser uma questão de vida ou de morte!

- Lamento, mas esse número de telefone não faz parte de nossa área de atuação. Não podemos fazer nada. Além disso, não tenho como saber o endereço.

- O senhor vai deixar por isso mesmo?

Minha voz, com certeza, pareceria esganiçada ou algo assim, pois eu estava simplesmente perplexa e me sentindo completamente impotente!

- Calma, minha senhora, a senhora já fez o que podia. E não há nada possível a fazer daqui.

Desliguei desesperada. Auxílio da telefonista de novo. Queria a Defesa Civil. Achei que seria a indicação certa, desta vez.

- Número do Corpo de Bombeiros de Florianópolis, por favor.

- Há vários, qual a senhora quer?

- Tem algum com um código que comece com esse número?

E dei o código de área do número que eu tinha.

- Não temos não senhora.

- Então, dê qualquer um!!!

Ela me deu um e liguei você pode imaginar como!!! Antes, já ligara de novo para a casa da professora e continuava dando ocupado. Com certeza, a mesma situação permanecia. Estaria viva? Eu já nem sabia o que pensar...

- Emergência do Corpo de Bombeiros, em que posso ajudar?

Contei a novela.

- Não tendo o endereço nada podemos fazer.

- Eu não acredito que vocês podem estar deixando uma pessoa morrer falando com essa calma! Alguma coisa tem de ser feita! Não posso eu mesma pegar um avião agora e ir achar o endereço dela aí para fazer alguma coisa. Por favor, só posso contar com vocês!

- Mas não podemos fazer nada, senhora. Nem sei se é da nossa área de atuação!

Queria xingar a mãe dele, mas o desespero nem deixou. Será que se fosse a mãe dele ele ficaria tão calmo e indiferente?

Desliguei o telefone. Liguei de novo para a professora. Nada... ocupado... andei pela casa como barata tonta... e... lembrei-me da Polícia Civil.

Se você leu o conto “O policial” sabe do que estou falando. Aliás, eu já tinha tido mais duas experiências positivas com a Polícia Civil – talvez conte um dia – e isso me inspirou.

Auxílio telefonista. Número da Polícia Civil de Florianópolis.

- Temos vários, senhora, qual a senhora quer?

Dei o  número que eu tinha, pedindo o mesmo código de área.

- Não temos nenhum.

E o tempo passando...

- Me dê qualquer um!

Ligo para a casa da professora. Ocupado. Você pode imaginar meu nível de estresse? Ligo para a Polícia Civil.

- Detetive (não me lembro do nome), em que posso ajudar?

Contei a novela.

- A senhora tem o endereço?

- Não, só tenho o número do telefone!

- Tem como conseguir o endereço com urgência?

- Não! Não tenho!

- Senhora, acalme-se um pouco, desligue o telefone, vá tomar um copo de água com açúcar, que vou tomar as providências necessárias e muito em breve lhe darei retorno.

Desliguei estupefata. O homem me mandou tomar um copo de água com açúcar e esperar! Estou pirando?

Fui à cozinha, não sabia o que fazer. Tomei o tal copo de água com açúcar. Ele estaria me enrolando e ficaria por isso mesmo?

Liguei para minha assistente. Falei com o marido.

- O que vamos fazer?

- Eulalia, daqui do Rio não há mais nada a fazer. Ele disse para esperar! Dê uns vinte minutos, ele disse que iria retornar!

Contei um dos “vinte minutos” mais longos de que posso me lembrar. Houve outros, em outras situações de vida, mas esses também me marcaram profundamente. Eu mal conhecia a tal professora, mas a situação era totalmente crítica e escapava ao meu controle. Eu nada mais podia fazer! Se o chão da minha sala fosse de terra, teria gasto, com certeza. Não conseguia parar de andar, não conseguia sentar.

Uns vinte minutos depois, o telefone toca.

- Sra Eulalia?

- Sim!

- Detetive (não lembro do nome). Estou ao lado da professora. Ela já está sendo socorrida, está bem.

- Como você conseguiu acha-la? Como conseguiu entrar? Como posso agradecer? O que ela tem?

Todas as perguntas amontoadas de uma vez só. Ouvi uma voz risonha do outro lado:

- Sou detetive, não sou? Ela está sendo socorrida, não se preocupe, logo estará bem.

- O que ela tem?

A gentileza e delicadeza do outro lado, me poupou da resposta:

- Não se preocupe, houve um pequeno desmaio, mas ela já está bem. Estou com uma vizinha, aqui ao lado, que tinha a chave da porta. Amanhã ela estará novamente em forma, foi mesmo só um mal estar.

Aproveitei a ressaca de toda a tensão e desabafei:

- Não é a primeira vez que a Polícia Civil me salva de um aperto. E você só me comprovou isso, mesmo sendo de outro Estado.

E desfiei todo o rosário de angústias que passei até chegar a ele. Em seguida, pedi:

- Quero seu nome todo, nome de seus superiores, endereço para enviar uma carta contando toda essa minha história.

- Não fiz mais do que meu dever, senhora.

- Eu sei, mas os outros também tinham um dever a cumprir e não o fizeram. Sei que, provavelmente, pode ter sido um desleixo de quem atendeu a ligação, comprometendo o bom nome da corporação em si, mas o fato é que não me ajudaram e nem a quem estava precisando de socorro!

Ele me passou os nomes solicitados, endereços e todos os dados necessários. No dia seguinte, fiz a melhor carta de elogios que já escrevia na vida e mandei.

Não me lembro do nome do detetive... até andei buscando a tal carta por aqui, antes de escrever o conto para resgatar o nome desse meu herói. Acho que não a tenho mais.

Onde ele estiver, no entanto, espero que esteja sempre protegido pela sorte e pelo merecimento de ter sido o anjo da guarda que me salvou num momento de desespero. Um anjo e um cavalheiro, pois, na hora H, me poupou de saber o real motivo do desfalecimento.

Não era coração, não era doença... nada disso. Motivo da voz enrolada e discurso desconexo: ela tinha tomado o maior porre da vida e caíra no sono, no meio da ligação.

E cismou de ligar logo para mim para desafogar suas mágoas. Me pegou no contrapé a quilômetros de distância, nesse imenso Brasil.

Mas o detetive, além de bom profissional, era um perfeito cavalheiro e me poupou dessa. Só fui saber dias depois, por outra professora, bem íntima dessa tal. E soube, também, da vergonha que ela mesma tinha ficado quando lhe contaram como o detetive chegou até ela.

E, evidentemente, nunca mais me ligou.

A gente passa por cada uma...



sábado, 7 de agosto de 2010

O SEGREDO - A REVANCHE



A revanche prometida no conto da semana passada:

As alunas tinham um conselho. Chamávamos de “conselho das alunas”. Isso mesmo, coisa de filme, de livros romanescos. As freiras não sabiam que existia, aliás, muitas alunas também não. Era uma espécie de irmandade secreta, que entrava em vigor quando alguma coisa era considerada errada e deveria se submeter a julgamento, segundo nosso critério. Um julgamento necessário, de alguma coisa que teria “escapado” à ética estabelecida pelo poder da ordem local, no caso, as freiras. Aprendi muito com o conselho das alunas, do qual, aliás, eu era uma das líderes, dada a minha posição de aluna antiqüíssima. Geralmente, as moças ficavam internadas apenas de um a três anos, no máximo, só para tomarem um banho de loja “princesesca”. Eu era a anfitriã de todas elas, mesmo das mais velhas. Quando alguém chorava com saudades de casa, se sentia só, triste, mal nos estudos, eu era a “aluna irmã” que estava ali, para uma palavra amiga, para ajudar nos estudos, para dar uma solução. Eu me sentia em casa e, portanto, conseguia ver isso tudo com mais naturalidade e segurança. O colégio me ensinou a ver as pessoas que me cercam como irmãos, pois o que contava ali não era o sangue, era o convívio. Outro presente da vida, para as intempéries do futuro, em meu percurso pelo mundo.

E foi porque conseguia entender essas angústias, e por ser também uma aluna e não uma freira que, espontaneamente, o conselho das alunas começou a ser criado, pois me procuravam para ajudar a resolver casos insolúveis pela “lei local”. Instintivamente, fui achando o peso grande demais para minha responsabilidade e acabamos por formar uma espécie conselho, pois, assim, poderíamos ponderar, ouvindo mais vozes, a cada vez que fosse necessária uma intervenção dessa lei marginal, mas, convenhamos, a nosso ver, de uma ética interna impecável. Tudo, é claro, aos nossos olhos adolescentes. Contarei, em outra oportunidade, histórias interessantes advindas do conselho das alunas, o mais democrático que conheci. Por ora, voltemos à história.

Nos reunimos no recreio, fazendo pequenas rodinhas, fingindo brincar de alguma coisa como “escravos de Jó”, ”conte-me seu segredo” ou coisa assim. Era para disfarçar, pois não tínhamos privacidade suficiente, no contexto social, para segredos que freiras não pudessem ouvir. No caso, como já éramos maiores, até que tínhamos um pouco mais de privacidade. Mesmo assim, nesses casos, dávamos um jeito de disfarçar. Escolher que tipo de castigo nossas colegas estraga-prazeres teriam não foi fácil. Tinha de ser algo tão grandioso que ficasse na história. E ficou.

Aproveitamos um privilégio que a tal turma que sofreria a revanche tinha conquistado a duríssimas penas, pois ninguém no colégio tinha conseguido algo igual. Deveria ter sido por muita influência da mestre de classe (a tal irmã coordenadora) somado a um comportamento impecável da turma, durante muito tempo: elas podiam tomar banho antes de se deitarem. Todas as turmas tinham horário para o banho, dependendo da série, mas ninguém antes de deitar. Motivo: poderia fazer muito barulho e as pequenas acordariam. As pequenas (7 e 8 anos) deitavam-se às 19.30. Pois bem, a tal turma tinha conseguido o privilégio de tomar banho às 20 horas, para dormirem bem quentinhas. Isso, no frio do Alto da Boa Vista é de um privilégio sem tamanho. E o que elas teriam de fazer em troca? Serem absolutamente silenciosas, andando pé ante pé pelos corredores da ala dos dormitórios para não acordarem os anjinhos do colégio. E faziam. Com muita classe, diga-se de passagem. Eu tinha sido uma delas, quando fui da turma do quarto ginasial (assim denominado na época). O pé ante pé, incluía o ritual de tirar as toalhas dos cavaletes de madeira, super frágeis. As toalhas ficavam penduradas ali e os cavaletes ficavam apenas apoiados no chão. Qualquer deslize faria barulho e qualquer barulho naquele casarão principesco no silêncio noturno do Alto da Boa Vista ecoava por toda a mata. Pois bem, nós faríamos algo que provocasse um barulhaço. Como? Dando nós em algumas toalhas. Quando puxadas, trariam consigo os cavaletes e as madeiras, caindo no piso marmóreo, fariam o maior barulho da história do colégio.

Ok, aprovado por unanimidade. E agora, quem vai dar os nós nas toalhas? Muito difícil, pois as alas do colégio não podem ser assim visitadas a qualquer hora. Você só podia ir à zona dos dormitórios por motivos heróicos: deitar porque está doente, trocar de peças íntimas nos dias femininos e coisas assim. De qualquer forma, nunca mais de uma aluna de cada vez e, com licença expressa de uma mestra de classe para se afastar do grupo da turma. Isso quer dizer que tínhamos a obrigação expressa de só andarmos sozinhas ou em bando. Mas isso é outra história, que trouxe vantagens e desvantagens para minha vida futura. Deixemos estes detalhes para outro momento.

Quem faz? Eu, que tive a idéia, claro, me incluí. Carmen Lucia, minha grande amiga de quarto fez eco. Ninguém mais se atreveu, embora a idéia tenha sido aprovada com louvor. Fizemos. Desnecessário dizer que foi durante o recreio após o jantar (das 19.10 às 19.30), tendo eu pedido licença para ir ao banheiro e Carmen para trocar de peças íntimas. De propósito, pedimos para freiras diferentes para que desse certo as duas poderem sair ao mesmo tempo. Já tínhamos essa estratégia, quando necessário. O recreio do jantar era no salão de cima, um salão enorme que ocupava metade de todo o andar do colégio, chamado por nós de “terraço”. Este recreio juntava, apenas nesta hora do dia, quase todas as alunas do colégio. Era, então, mais fácil de escapulir, cada aluna pedindo para uma freira diferente. Elas não tinham notado isso. Toda a segurança tem lá seus furos.

Entrar na ala dos dormitórios completamente às escuras, encontrar os cavaletes certos e fazer o combinado só poderia ser conseguido por alguém que conhecia muito bem o colégio como eu, driblando a vigilância pela escada de serviço, etc. Como você vê, se já passou pelo capítulo de minha história em Braga – “golpe de mestre” - minha juventude já ensaiava amar a vida temperada com suspense, um bater de coração mais rápido. Mas eu mal sabia o que me esperava!...

Cumprida a tarefa, voltamos para o recreio a tempo de nos juntarmos às colegas para o estudo da noite, na outra ala do prédio. Inusitadamente, as maiores quiseram se deitar mais cedo naquele dia. Claro, queríamos ouvir, no camarote da cama, o resultado da façanha.

Não posso descrever o que foi. O barulho foi tão intenso, que me arrependi. Parecia que o colégio estava vindo abaixo, que algum andar estava despencando, que estruturas estavam desmoronando. Choro desesperado, angústia das pequeninas, luzes se acendendo rapidamente, freiras correndo e acudindo de todos os lados. O que foi o que não foi, etc. Nós lá, deitadas, quietas. Eu, com pena das pequeninas, nem conseguia curtir a vingança. Não tinha me lembrado do horror que poderia causar-lhes. Alunas que arriscaram se levantar tinham comandos imediatos de suas mestras: voltem para a cama meninas, quietas, aguardem, está tudo bem, durmam. Durmam?

Vozes das duas mestras de classe – da nossa e da tal turma da quarta série - despencadas no ar, a alto e bom som:

- Foram suas meninas!

- Por que as acusa? Como pode provar?


Chega a Senhora Superiora. O que houve, o que não houve, quem foi, quem não foi. Nossa mestra empacada na palavra:

- Minhas meninas não foram.

–Veremos. Vamos perguntar a elas.


Nossa mestra começou pelo primeiro quarto do outro lado do corredor. Nessa ordem, o nosso seria o último. Ouvíamos o som do interruptor da luz e o fio de claridade, na penumbra do corredor, se aproximando de nosso quarto, a cada vez. Acende a luz:

- Foi você, Beth?

- Não senhora.

- Foi você, Lucia?

- Não senhora.

- Foi você Laura?

- Não senhora.


Apaga a luz, outro quarto, acende a luz...

- Foi você Fernanda?

- Não senhora.


Comecei a suar frio. Carmen Lucia queria vomitar. Não sabíamos que daria nisso. A coisa era séria, tão séria quanto a aventura da terceira série, dois anos antes, que conto outro dia. Só que lá, não houve “culpadas” e a coisa ficou por isso mesmo. Aqui, não. Era pessoal e daria expulsão do colégio, na certa! Carmen Lucia tremia, eu queria morrer. O que vamos fazer? Ela disse que mentiria. Eu disse que não iria conseguir, mas achava que não estaria viva para responder. Isso mesmo, deu uma compressão tal no peito, meus ouvidos zuniam de tal forma, eu suava tanto que pensei mesmo que teria um ataque iminente. Um ataque qualquer, fatal. A voz de nossa mestra se aproximava, quarto a quarto. Pensei rápido. Eu não poderia ser expulsa, pois estava lá por determinação do juiz. Pelo menos, assim achava. Carmen Lucia queria terminar o curso normal para se casar depois. Disse que seus pais jamais a perdoariam. Eu disse para mentir e que eu pensaria até lá. Não estava disposta a mentir. Acho que não me perdoaria. Eu não inventei a vingança? Quem mandou? Acho que nunca me arrependi tanto. Sério. A voz de nossa mestra estava muito próxima.

– Foi você Cristina?

- Não senhora.
Quarto ao lado!!!

Pensei que fosse desmaiar, na verdade, acho que estava bem próxima disso. Sabia que seria incapaz de me levantar, sentia tudo zonzo, minha honra comprometida, pois sempre fora uma aluna exemplar. Das traquinagens, nunca descoberta. Era vez de me enfrentar, talvez pela primeira vez. Testar-me na minha sempre tão defendida correção. Pensei em morrer com honra. Quem tem dezesseis anos é assim mesmo. A luz do quarto ao lado se apagou. Eu ainda não tinha decidido o que fazer, mas sabia que seria a próxima. Ouvi a voz de nossa mestra dizer:

- Foram todas interrogadas.

Ouvi a Superiora perguntar:

- E este?

Deveria se referir ao nosso quarto.

- Este é o meu quarto, respondeu a irmã.

Não acreditei. A voz compenetrada de nossa mestra escondia que conhecia bem o seu “rebanho” e simplesmente nos acobertava, feliz pelo enfrentamento a sua arqui-inimiga, a mestra da quarta série.

Inacreditável. Num segundo percebi tudo. Ela sabia... talvez tivesse, até, o conhecimento do conselho de alunas, quem sabe? Meu colchão estava encharcado de suor. Eu estava num mundo que não era esse. Até hoje não sei se a Superiora também se sentiu cúmplice, pois eu era muito conhecida em todo o colégio e seria estranho não ter se lembrado que o interrogatório não tinha passado por mim. Achei estranho. Mas estava profundamente aliviada. E foi assim, no susto, que fui apresentada a um protótipo de mundo político, não muito diferente do que vivemos aqui fora.

Até hoje, na hora H, não sei o que diria. Gosto de pensar que defenderia minha honra me responsabilizando por tudo. Jamais saberei, pois ninguém se conhece tão profundamente quanto gostaria. Mas serviu de estágio para o futuro, ao assumir melhor a responsabilidade pelos meus atos, pelas minhas atitudes diante da vida.

Isto eu devo ao internato, à necessidade cotidiana premente de estar sempre atenta. Melhor a lição que o castigo. Será que minha mestra, boa psicóloga que era, sabia disso?

Dois anos depois, saí do internato. Voltei a visitá-lo algumas vezes, pois, como você já sabe, fora a minha casa por dez anos. Deixei raízes, embora tenha levado pouco tempo para me livrar delas, tão díspare é o mundo real, aqui fora. No início, no entanto, busquei, algumas vezes, os corredores, os ecos, a mata para meu aconchego, como quem volta à casa materna, em busca de abrigo.

Na primeira visita, ao me ver, minha mestra me puxou para um canto e apenas perguntou:

- Foi você?

Nossos olhares se esbarraram. Respondi com um leve aceno de cabeça.

E juro que vi um sorriso discreto, de secreta cumplicidade, jamais revelada.

domingo, 18 de abril de 2010

NO DAR PAPAYA


“No se puede dar papaya”. Foi com esta frase que o taxista colombiano me alertou, tão logo cheguei a Bogotá, referindo-se à necessidade de não andar pela cidade com jóias, máquina fotográfica à mostra, etc. Sorri: queria ensinar os cuidados de como andar por uma cidade grande. Logo a quem!... a uma carioca não da gema, mas de coração. Por extensão, a expressão significa ao que, por aqui, designamos “não dar mole”.

Pois bem, obedecendo aos costumes, não dei “papaya”, buscando estar atenta a possíveis perigos ou tipos estranhos que pudessem se aproximar. Mas nada vi em Bogotá, diga-se, durante o dia, que me pusesse em risco como turista. Muito pelo contrário!!! Me senti muito mais em risco pelos dezoito mil pesos que o motorista me cobrou para chegar ao centro cultural da cidade do que pelos nove mil pesos que outro taxista me cobrou para voltar. Eu é que dei “mole”... ops... “papaya” pagando, sem o saber, pelo requintado “cuidado” daquele senhor. Acho que acrescentou os nove mil para ensinar-me a tal expressão popular. Muito caro. Mesmo para uma lingüista.

Tão logo cheguei ao hotel, no entanto, mesmo antes dessa pequena aventura, já havia passado por outra, tomando a minha primeira providência na cidade, obedecendo confiantemente a uma recomendação de um grande amigo que já tinha estado na cidade:

- Tão logo chegue, informe-se sobre o chá de coca, pois a cidade fica a mais de dois mil e quinhentos metros de altitude e você corre o risco de sentir muita diferença atmosférica. Tonturas, dor de cabeça, falta de ar poderão atrapalhar você nos primeiros dias. Tome um logo que chegar e poderá se sentir a postos para estar bem desde o início.

Claro, obediente como sou a estas recomendações, fui direto ao assunto. Mas, não, não havia chá de coca no hotel. Tampouco por ali. Um supermercado não soube me informar nada a respeito, nem outras “tiendas” (lojas) , pelas cercanias. Eu sentia um leve torpor e, cuidadosa, andei devagar sempre, principalmente no primeiro dia. Mas, na verdade, felizmente, não passou disso. Como tinha chegado na sexta à tarde, queria logo me desvencilhar dos cuidados com a saúde. Começaria um curso no domingo e queria estar bem para andar à solta, no dia seguinte, aproveitando a oportunidade para conhecer um pouco a cidade. Mas nada achei. Ao invés disso, as pessoas me olhavam com uma cara meio prá lá de esquisita. Lembrei-me de meu amigo e de sua maneira brincalhona de ser. Acho que me pregou uma peça, pensei, me fazendo andar por ali, pagando o mico de pedir um chá de coca!!! E eu caí!!! Voltei para casa, digo, hotel, com a piada na cabeça. “Dei papaia” logo para quem! Para um brasileiro!

Esqueci o chá de coca e tratei de comprar umas frutas e outros pequenos alimentos para ter no quarto. Com minha sensibilidade alimentar, sempre faço isso em minhas viagens e queria preparar-me para uma excelente estadia durante a semana que se seguiria. Foi só o que fiz. Não iria me aventurar a passeios mais longos, naquele dia. Tinha chegado às 16 horas e não estava em Bogotá a passeio. Conhecer alguma coisa da cidade seria um brinde. Deixaria para o dia seguinte. Minha meta era participar de um grande seminário de Reiki com Tadao Sensei e Arjava Sensei, na minha concepção, os melhores mestres de Reiki do mundo. Frank Arjava Petter é meu mestre desde 2004 e Tadao Sensei o mestre de meu mestre. Você pode imaginar, portanto, o que estava a minha espera: um curso dado pelos dois, sendo que Tadao vinha pela primeira vez à América Latina. Imperdível. E foi mesmo imperdível: a vida me “regalou” com o melhor curso de Reiki que já fiz em minha vida!

Assim, cuidadosa para estar bem desde o início, cheguei com uma de minhas melhores amigas brasileiras, Carmen, uma irmã de alma, que mora em Porto Alegre e que se dispôs, como eu, a esta grande empreitada de vida. Minha querida irmã se fechou em seu quarto e de lá não saiu na sexta. A altitude a pegou muito mais que a mim e seria bom que repousasse. Aliás, ela também tinha recebido a tal recomendação sobre o chá de coca... Pelo resto do dia, fiz o mesmo, depois de minha tímida saída pelos arredores, em busca de suprimentos. Me sentia um pouco mareada, mas era só. Por via das dúvidas, melhor desarrumar a mala, organizar as coisas no quarto, sentir-me em casa e sonhar com o curso. Veria o que fazer no dia seguinte. Quem sabe, cautelosa, dependendo de como me sentisse, conseguiria ver, em alguma loja mais alternativa no centro da cidade, se o tal chá de coca era ou não uma “broma” (piada) desse meu querido, mas travesso amigo brasileiro. Se bem o conheço...

No sábado, me sentia bem e me arrisquei para o que diziam ser o melhor de Bogotá: o tour a pé tinha de começar pela parte velha da cidade. Era a indicação de meu amigo brasileiro (o tal do chá de coca), confirmada pelo centro de informações do hotel e também pelos folhetos turísticos. Ótimo! Não sou de fazer compras, não me interessavam os shoppings. Eu queria ver a cidade, levar suas impressões em minhas retinas, sentir os seus sons, sorver o ar em meus pulmões – rarefeito pela altitude, mas cheio de novas impressões para esta alma brasileira. Me soltei, assim, desde cedo, em busca de aventura. Bairro da Candelaria, centro histórico da cidade, local onde teria sido fundada. Impossível não começar pela praça de Simon Bolivar, este homem que tomou como missão de vida fazer a independência das colônias espanholas, por onde quer que passasse por esse mundo dos meus deuses. Há de se encher a boca para falar desse herói, quer você esteja na Venezuela, Colômbia, Peru, Equador e sei lá mais em que países da América do Sul. Minha amiga Patrícia, que mora em Caracas e conhece toda sua extensa biografia, teria muito a nos contar sobre ele... mas do que eu já sabia das lições que ela já havia me dado foi o suficiente para começar meu tour fazendo as honras a este desbravador das terras antes espanholas.

Chegada ao centro, uma visão surpreendente: uma praça enorme, bem ao estilo espanhol, como não poderia deixar de ser. De um lado, a velha catedral, de outro, o atual prédio do Congresso da República. Mas... o que estaria incrustado nas paredes desse prédio? Seriam formigas? Sim, um monte de formigas gigantescas, grudadas em suas paredes. O que significariam? Por ali, não tive como tomar informações. À noite, corri à internet, esta maravilhosa varinha mágica para respostas desse tipo e descobri ter sido obra do artista Rafael Gomezbarros. O nome da obra é “Casa Tomada”. Então, lendo a descrição e críticas sobre a obra, descobri que são mil e trezentas formigas em fibra de vidro, cada uma de 95 cm de comprimento. Suas cabeças e corpo tiveram como molde um crânio humano e tem essa cor de terra escura, pois o artista as cobriu com a terra de Chocó, de El Cerrejón, que foi uma conhecida mina de carvão da região de La Guajira. Assim, a idéia é remeter à representação especial que, segundo o artista, seria uma metáfora ao “desplazamiento forzado” (são chamados “desplazadas”, as pessoas que, sob violência, foram expulsas de suas terras nos campos, por grupos não controlados). Representava, também, tudo de bom que são os colombianos, como trabalhadores que buscam uma forma de viver melhor. As formigas se espalham pelas paredes do Congresso como se o estivessem invadindo e dão um impressionante impacto a quem chega à praça. Assim, pelo que pude ler, a obra pretende levar a uma consciência social, a uma reflexão sobre o cotidiano do povo, chamando nossa atenção para os fenômenos sociais ante os quais não devemos ficar impassíveis. O projeto, reconhecido como um “liberador de consciências” viajará para a Argentina, México, Chile, Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Espanha. Segundo as críticas, um espetáculo “provocador, embora inofensivo”.

Esta foi, portanto, minha primeira impressão sobre a cidade. Antevi uma forma especial de ser apresentada a ela, uma forma impressionante, que, no entanto, longe de tirar o encantamento pelo resto da manhã, me fez pensar, naquele momento, em muitos de nossos também iguais problemas sociais. Países irmãos.

Mas voltemos ao passeio, que se tornou suave e pleno a partir de então. Seguiu-se uma maravilhosa visita ao Museu Del Oro, onde se concentram obras interessantes de xamãs colombianos de outras épocas, povos originários de regiões antes desconhecidas, enfim, das origens do país. O museu, muito bem montado, exibe obras de artesanato em ouro realmente magníficas.

Não pude deixar de visitar, também, o Museu de Fernando Botero, logo adiante, embora não esteja entre meus pintores prediletos. Mas como ir a Bogotá e não prestar honras a seu mais renomado pintor? A visita, embora rápida, me brindou com um ambiente magnífico de seus jardins internos, acolhedores e aprazíveis.

Passeei, enfim, pelas ruas em torno que apresentaram uma Bogotá primitiva, com suas casas coloniais. Buscava, sem o saber, alguma aventura. Deparei-me, então, com uma farmácia homeopática. Sorri. Pensei comigo que, se existisse o tal chá de coca, seria uma chance de meu amigo brasileiro não receber uma boa bronca em minha volta, pelo vexame que passara até então. Entrei e pedi o tal chá. A farmacêutica também sorriu. Pela primeira vez, me senti em casa. Foi quando me explicou que o governo atual havia proibido a distribuição desse chá, antes liberado para que uma colônia de indígenas o fornecessem à cidade, visando aos turistas. Perguntei por que e ela me disse que teria sido apenas por uma questão de falta de licença de fabricação. Dificilmente eu o encontraria agora, em alguma “tienda” da cidade. Ofereceu-me, então, uma medicação homeopática que comprei imediatamente, pensando em minha amiga brasileira que não conseguia afastar-se do hotel por conta de seu mal-estar com a altitude. E voltei, toda feliz, com um vidrinho de “Soroche”, uma planta da região, manipulada homeopaticamente. Mais do que isso, reconheci a boa vontade de meu querido amigo brasileiro, desculpado desde então. Felizmente, Carmen já estava melhor e preferiu não se arriscar com o medicamento. Fiquei mais tranquila e guardei o medicamento para uma possível emergência.

Falar sobre os dias seguintes, seria descrever o melhor curso de Reiki que já fiz em minha vida. O curso me trouxe um conhecimento mais profundo das raízes do Reiki, arte terapêutica a que venho me dedicando desde 1997 e que chegou ao clímax agora, depois de ter-me aposentado desde 2003, para dedicar-me inteiramente a ela. No final do curso, recebi um certificado especial, sob a forma de pergaminho (em seda e papel de arroz, com quase dois metros de comprimento) que deverá fazer parte de meu consultório de hoje em diante. Foi uma opção minha encomendá-lo desde agora, já que apenas no próximo nível de curso ele se tornará obrigatório aos alunos. Ansiosa por ter esta jóia, no entanto, eu o encomendara desde já e o receberia no último dia.
Você pode imaginar, portanto, a emoção desta viagem e dos dias que se sucederam. Mas trazer este documento para o Brasil, foi um espetáculo à parte, com um sério problema alfandegário, que me custou momentos dramáticos, que contarei mais adiante.

Por ora, quero dizer o quanto Bogotá representou como cidade, com seus cidadãos tão gentis que me lembravam a todo instante o jeito e o sorriso cariocas nesse povo irmão. Onde quer que fosse, a gentileza e a delicadeza brindaram este coração em festa, nessa semana maravilhosa. Saí de lá, levando a amizade do vendedor de frutas, do padeiro, dos funcionários do hotel, de meus colegas de curso, enfim, da alma colombiana tão parecida com a nossa!

Destaco, no entanto, que receber, no último dia, o tal pergaminho, me deixou totalmente emocionada, já que estou estudando por estes caminhos há tantos anos. E logo no dia seguinte à noite, começamos nosso árduo caminho de volta, minha amiga brasileira e eu. Por esta vez, apenas eu trazia o pergaminho, esperando que ela o queira receber da próxima vez, quer por opção, quer por trilhar os caminhos do grau superior.

Após tantas aventuras, com tantas novidades, passei a pensar na publicação desse conto, incentivada mais ainda pelas passagens que marcaram nosso retorno, a partir mesmo do aeroporto. Aí, então, começa o capítulo dos sustos. Como já lhe disse em contos anteriores, tenho um anjo que me oferece certos tipos de aventuras, cheias de sensações fortes e experiências especiais. Você que leu meu “Golpe de Mestre” já se familiarizou com isso. E, certamente, ele se fez presente, mais uma vez.

Chegamos ao aeroporto em cima da hora, graças a uma colombiana que, embora muito gentil e nos tenha levado para almoçar neste último dia, parecia nunca ter viajado. Perto das 17 horas, só conseguíamos pensar em nos dirigirmos ao aeroporto. Estávamos bem longe, era sexta-feira e queríamos evitar “el trancon” (o engarrafamento) próprio do final do dia, principalmente, numa sexta-feira. Mas prefiro pular o desespero que se seguiu para conseguirmos chegar ao aeroporto às dezenove e quinze.

Feitos os procedimentos necessários, nos dirigimos à sala de embarque. Eu estava cansadíssima e não queria outra coisa senão sentar-me para a pequena espera do vôo iminente. Eu e o pergaminho que trazia agarrado ao meu colo. Claro que estava fora de questão despachá-lo. Ele viria comigo, após tantos anos de espera por recebê-lo. Para o tipo de curso que fiz e repeti tantas vezes, recebê-lo, finalmente, neste ano, foi uma honra e o trazia ao colo como a um bebê.

Ao ouvir meu nome, meu coração pulsou. O que seria? Algum problema com a documentação? Minha amiga brasileira também assustou-se um pouco. Tentei tranqüilizá-la (e a mim mesma) com meu sorriso e me apresentei no balcão da sala de embarque. A comissária, com semblante sério me informou:

- A polícia federal quer revistar sua bagagem.

- Qual delas, perguntei, já que tinha despachado a mala e tinha, além da mala de mão, apenas o tal pergaminho, super cuidadosamente embalado.

- Sua mala despachada.

Pensei rápido e concluí aliviada:

- Ah, tudo bem, já sei do que se trata.

O que se tratava era, com certeza, de uma panela de metal, elétrica, com que sempre viajo para emergências nos hotéis. Com ela faço meus chás noturnos ou alguma sopinha extra para meu delicado aparelho digestivo. Estava resolvido o problema e, pela minha expressão de segurança e tranqüilidade, vi que a comissária não conseguiu manter sua rudeza inicial. Voltei à cadeira, expliquei o problema a minha companheira de viagem. Ofereceu-se para ficar com minha bagagem de mão e meu pergaminho, enquanto eu me dirigia à vistoria. Tentei brincar com ela e apenas disse:

- Fique despreocupada. Se eu for presa, levarei o pergaminho comigo. Não sei se foi impressão, mas ela me pareceu um pouco preocupada, mas acho que meu sorriso de confiança, já que estava certa do que se tratava, acabou por tranqüilizá-la. E, ali, tramado, talvez, pelo meu anjo aventureiro, estava delineado o início de minha aventura da volta.

Fui levada, corredor afora, sob os olhares curiosos dos demais passageiros, que não sabiam o que estava acontecendo com aquela passageira acompanhada pela representante portuária. Seria eu uma terrorista? Com essa cara inofensiva? Nunca se sabe. Fantasiei assim minha mente com essa conjectura. Sei que aventuras percorrem os dias de minha vida e lá estava eu, mais uma vez.

A polícia colombiana é extremamente formal, mas respeitosa. Ou terão sido meus cabelos grisalhos, meu semblante calmo e risonho de quem não deveria matar uma formiga? Nunca saberei.

O oficial me esperava numa espécie de corredor, que fica entre a sala de espera ao avião e o setor de embarque das bagagens. Me deparei com ele apenas acompanhada pela tal representante portuária. Estávamos, então, os quatro: ele, eu, a representante feminina e a mala suspeita. Não pude conter o sorriso diante do cerimonial. Eu poderia ser liberada ou presa e parece que apenas eu sabia que seria, incontestavelmente, liberada, pois nada havia ali de suspeito, com certeza. O problema seria me sair da situação da melhor forma possível, sem muito constrangimento. E a melhor forma que encontrei foi estar solícita, destrancar o cadeado e eu mesma colocar tudo que fora cuidadosamente arrumado de manhã, mala afora, pelo chão do recinto, já que não havia mesa ali. Foi o que fiz, dizendo a ele, antes, que eu suspeitava do que se tratava. Tão logo abri a mala, mostrei-lhe a tal panela. Sim, não era outra coisa. Mas ele continuava sério demais para o meu gosto e eu queria me livrar da situação de tensão. Continuei tirando as coisas da mala e as espalhando, convidando-o a perceber que eu estava completamente aberta à vistoria que, realmente, foi totalmente minuciosa. Vi cada ponto da mala ser revistado, inclusive remédios pessoais que estavam cuidadosamente embalados. Não sabia o que dizer, nesse ambiente de formalidade e semi-cordialidade, até que tive a idéia de agradecer-lhe pelo cuidado da vistoria. Foi então que ele parou e me perguntou por quê. Felizmente, tenho espanhol suficiente para ser entendida nestes momentos e respondi-lhe:

- Ora, se o senhor está tão cuidadoso com uma mala como a minha, posso viajar muito tranqüila, pois vejo que a segurança colombiana mostra-se muito atenta a qualquer possibilidade de colocar-nos em risco. Longe de estar aborrecida, só poderia agradecer-lhe.


Senti que o desarmara. Pela primeira vez, ele sorriu e retrucou:

- É a primeira vez que vejo um passageiro agradecer-nos por ser importunado.

Senti que o conquistara. Estava ganha a situação:

- Pois todos deveriam se mostrar agradecidos por esse tipo de iniciativa.

Dali por diante, mudou-se o rumo da prosa e, embora a vistoria continuasse, ele começou a perguntar sobre o material que estava encontrando em minha bagagem, ou seja, CDs e livros sobre Reiki e outros materiais sobre o curso. Acabamos nosso papo com informações sobre esta técnica maravilhosa de cura e ele acabou por mostrar-se interessado por conhecê-la melhor, já que estava se sentindo muito estressado. No final, estávamos íntimos e ainda brinquei com ele:

- Você pode me fazer um favor?

- Sim, claro!

- Tome conta para que esta mala não se extravie e chegue ao meu país em paz.

- Pode ficar tranqüila,
me respondeu ele, eu cuidarei disso pessoalmente.

Sorrimos e nos despedimos. E mais: com este final feliz, acabei por ter o privilégio de vê-lo me ajudando a refazer a minha mala e, o melhor, a me conduzir diretamente para o avião. Assim, quando minha amiga entrou no avião, eu já estava confortavelmente alocada, como primeira passageira a ter tomado meu lugar, antes de o vôo ser liberado para os demais.

A primeira fase do susto, tinha sido, então, ultrapassada. Mal sabia eu que o pior ainda estava por acontecer!

A viagem de volta foi cansativa, num vôo noturno de cinco horas e meia, com duas interrupções para o lanche noturno e o café da manhã. Quem conseguiria dormir com um barulho desses? A chegada a São Paulo ainda me aguardava com uma conexão para o Rio. E, ufa, uma conexão rápida que não me deixava intervalo sequer para muito espaço de tempo. Seria pegar a bagagem, correr para o novo check in e me dirigir, às pressas, ao salão do novo embarque. Para mim, no entanto, seria apenas a última etapa e nada mais poderia ocorrer.

Me despedi satisfeita, mas já um pouco saudosa de minha querida amiga, que mora em Porto Alegre. Mal consegui despachar a mala, fui correndo para a sala de embarque. Foi aí que vivi o verdadeiro susto da viagem. Ao passar minha bagagem de mão pela esteira de inspeção, eles cismaram com o meu Gokai (o tal embrulho do pergaminho), porque ele vem embalado numa caixa de madeira e, segundo eles, madeira não pode acompanhar o passageiro. Não poderia passar de jeito nenhum. Que eu voltasse ao salão de embarque e o despachasse como bagagem. Para evitar maiores confusões, apenas comecei explicando que se tratava de uma espécie de certificado, que era japonês, feito em seda e papel de arroz, muito delicado e que teria de levá-lo comigo. A madeira era balsa e quebraria ao mínimo choque. Tinha vindo com ele em meu colo desde Bogotá e não tinha havido problema algum de embarque naquele país. De nada adiantou. Dali não passaria, teria de ir no bagageiro. Comecei a ter um treco por dentro. O que faria? O documento é super frágil e delicado, não poderia ser despachado e ademais de ter-me custado caríssimo, como ocorre com qualquer arte japonesa feita totalmente à mão, qualquer pequeno tranco colocaria em perigo sua integridade. Teria de defendê-lo a ferro e fogo. Aquilo não iria para o bagageiro nem que tivesse de dar uma de doida naquele momento. Mas parecia não ter jeito. Chamaram outro fiscal que me exigiu o mesmo. Então, tive mesmo de apelar. Meu coração estava em estado de alerta. Parecia que eu tinha mesmo de ter um treco explícito ali e respondi:

- Despachar isso? Nem pensar, isso vai comigo ou eu não vou. Estou disposta a ser revistada ou seja o que for, mas isso não vai no bagageiro de jeito nenhum!

- Mas madeira não passa minha senhora.

- Esta madeira é balsa e quebra ao mínimo toque. Ela apenas está protegendo um certificado dado pelo meu mestre japonês Tadao Sensei, após quatro anos de espera por sua primeira vinda à América Latina. Eu sinto muito, mas não posso me separar dele. Isto vai no meu colo ou teremos de arranjar uma alternativa parecida. Não vou me separar dele. No bagageiro ele não vai.


Na minha cabeça, não haveria mesmo outra alternativa. Eu estava disposta a desistir do vôo para vir de ônibus, pois colocá-lo no bagageiro significaria correr o risco quase certo de vê-lo danificado. Imagine você! Uma espécie de “pergaminho” escrito em papel de arroz, protegido por uma tela de seda, escrito em kanji japonês, guardado em uma caixa delicadíssima de madeira tipo balsa, por sua vez guardada em uma outra caixa de presente, em material delicadíssimo e de finíssima estrutura, bem ao estilo japonês. E eles queriam que eu colocasse essa jóia no bagageiro! Nem pensar! Voltaria de ônibus, se não tivesse outra alternativa. Mas, antes, iria criar uma confusão ali mesmo, é claro, tentando defender meus direitos.

Quiseram abrir a caixa. Estava disposta a fazê-lo, mas exigi uma sala especial, explicando que o documento media quase dois metros de comprimento por sessenta de largura e, efetivamente, não iria espalhá-lo pelo chão nem por um decreto. Além de perigoso, seria um desrespeito ao que significava para mim. Eu acho que parecia bem disposta a enfrentar qualquer autoridade. E parecia, pelo menos por fora, demonstrar uma confiança que, por dentro, estava longe de sentir. A única coisa que pensei no momento foi que, por uma coisa dessas, não poderiam me prender, mas que eu estava bem enrascada, isso eu senti que estava sim!

O impasse estava criado. Por via das dúvidas, eu segurava meu Gokai como quem segura um tesouro, enquanto lhes dirigia a palavra, mostrando a intenção de que não me arrancariam a prenda das mãos, digo, braços. Todos se entreolhavam, impondo autoridade. Eu tentava ignorar a importância que queriam dar a essa autoridade, exigindo um oficial superior. Dali não arredaria pé. Mas por dentro já estava disposta a desistir do vôo que, por sinal, piscava o embarque imediato no telão em frente, incluindo minha mala já no bagageiro. Que boa enrascada!

Não teve jeito. Chamaram o oficial superior. Pedi proteção a todos os deuses olímpicos. Não me esqueci, é claro, do meu anjo aventureiro. Seria minha última chance. Surgiu uma mulher. Uma oficial superior e, embora séria e compenetrada, segura de seu posto, estava mais accessível e aberta a diálogo. Expliquei novamente que viera de Bogotá com o certificado no colo e desfiei a ladainha do que significava.

- É... mas madeira não pode passar. Posso ver o material?

- Não deve, mas pode,
expliquei novamente, semi tendo o tal treco explícito.

Ela insistiu que deveria ser levado no bagageiro.

- Nem pensar,
insisti. Levei quatro anos para consegui-lo. Se ele não vai passar, vou ter de desistir da viagem e ir de ônibus para o Rio, pois ele tem de ir comigo. No bagageiro ele não vai.

Ela notou que eu falava mesmo para valer e parece que percebeu a seriedade da coisa. De repente, por dentro, fiquei tranqüila. Já tinha feito o pior trecho da viagem e depois de tudo que já tinha passado, não iria deixar barato, não podia “dar mole”. Eles que decidissem. Eu não me separaria do meu Gokai. Danem-se, viajo de ônibus. Por dentro, com a decisão tomada, consegui mostrar-me mais calma e decidida. E pode ser que isso tenha sido definitivo para a decisão final.

- Pesa? perguntou-me a fiscal. Não sei exatamente o que significava a pergunta... talvez uma madeira que pudesse ser um arma, durante o vôo.

- Não, pode pegar. Não deveria abrir, mas o farei, se for necessário. Mas pegar o pacote, você pode.

- Foi dado por quem mesmo?


- Por meu mestre japonês Tadao Sensei. Esperei por recebê-lo por quatro longos anos. Falei tentando emitir o tom solene que a situação exigia. Não sei se consegui. Também tentei sorrir. Acho que não consegui. De qualquer forma, foi uma frase de impacto. Até porque eles viram que eu não iria mesmo arredar pé da decisão. E o vôo estava de saída, pelo menos na tela que mostra os embarques.

Ela pegou o embrulho e avaliou o peso. Olhou para seus companheiros e finalmente decidiu:

- Pode embarcar.

Toda a cerimônia não deve ter levado mais de dez minutos, mas para mim, dez longuíssimos e intermináveis minutos...

Não me lembro se agradeci. Acho que sim. Saí correndo pelos corredores de Guarulhos, rumo ao portão 26 que, como alguns sabem, é o último, no final daquele infindável corredor. Depois de uma viagem de noite inteira e depois de duas inspeções federais, tinha passado por uma overdose de emoções. Meu coração deve estar muito bom mesmo. Em excelente forma!

Cheguei ao portão 26 com a língua de fora. Olhei em volta. O avião já estava estacionando para o vôo de conexão. Tanta correria, mas, felizmente, o embarque não tinha começado. Mas para quem estava viajando desde a véspera, esta última espera, depois de tantas intempéries, virou um recreio.

Depois de tanta correria, esperei por quarenta minutos pela hora de embarque, tempo suficiente para eu me sentar e fazer uma rápida retrospectiva de tudo que tinha passado, desde minha chegada a Bogotá até a volta ao Brasil.

Sorri. Numa conclusão simples pensei no que diria a um amigo ou a amiga que tivesse de passar pelas mesmas situações:

- Para a altitude, tome vinte gotas de Soroche, três vezes ao dia, nos primeiros dois dias; para as intempéries que possam acontecer durante a viagem, seja forte, “no puedes dar papaya!”