domingo, 29 de setembro de 2013

MAKTUB




24 de setembro. O dia amanheceu com cheirinho de festa. Na verdade, com cheirinho de aniversário. Há 39 anos atrás, eu defendia minha tese de doutorado.

Embora eu esteja aposentada, sempre me lembro desta data com uma especial alegria interior. Não pelo sucesso da conquista. É mais do que isso. A tese definiu minha carreira profissional, uma carreira que atropelou meu caminho, literalmente. Coisas da vida.

Eu era professora de Cultura Clássica e Linguística e, como tudo que fiz profissionalmente, adorava o que fazia. Resolvi cursar o doutorado, por conta de conseguir uma promoção para professor adjunto e, depois, a ascensão natural para titular, na universidade particular, onde eu trabalhava.

Uma vez no doutorado, busquei disciplinas que me aproximassem da área médica, estudos que sempre me chamaram a atenção. Escolhi, entre a lista complexa de disciplinas - para quem está entrando, tudo parece muito complexo, depois, simplifica... - uma que parecia muito especial: "Linguística e Patologias da Fala", ministrada pelo  professor Jürgen Heye, um alemão recém domiciliado no Brasil, falando ainda com um pouco de sotaque e, às vezes, confundindo "ele fez" com "ele fiz". Mas a disciplina era boa e me convenci de que começava o doutorado com o pé direito.

Todas as disciplinas exigiam uma monografia final, que deveria ser entregue em um mês. Estávamos no final do ano e como eu era amiga de uma fonoaudióloga que tinha feito o curso de Letras comigo, foi a ela que recorri, para conseguir fazer meu levantamento de dados.

- Cacilda, você teria algum paciente com alguma patologia que eu pudesse pesquisar, assistindo a algumas sessões de atendimento?

- Claro que tenho. Um afásico. É um caso muito interessante! Podemos combinar.

- Ótimo! Caiu como uma luva, adorei estudar afasia. Quando posso ir? Só tenho um mês para dar conta de duas monografias! Preciso assistir a três sessões pelo menos!

- Semana que vem. Você vem, assiste, sem problemas. Vou ligar para a mãe dele e dou retorno.

Enquanto esperava resposta, passei dois dias enfiada em livros sobre afasias. Mas o retorno foi desalentador:

- Eulalia, a mãe do jovem vai entrar de férias e vai viajar com ele. Sem chance.

- O que eu faço? O que você tem como alternativa?

- Estive pensando... por que você não faz sobre surdez?

- Mas surdez não é patologia!

- Não tenho outra sugestão. Fale com seu orientador.

Me despenquei para a Universidade. Começo de dezembro, Heye já tinha viajado para visitar a família na Alemanha. Falar com ele, só em março!

Entrei em parafuso. Eu tinha de encontrar uma patologia para estudar e um profissional que me permitisse assistir a atendimentos, o que é algo muito fora do comum. Acho que "vou de surdo" mesmo e seja o que os deuses quiserem.

A proposta era visitar uma escola de surdos em Niterói, onde havia uma professora que Cacilda conhecia.

E foi assim, observando o atendimento dado na escola que, felizmente, só entraria em férias no meio de dezembro, que fiz meu primeiro trabalho sobre educação de surdos. Estávamos em 1979. Estes estudos eram completamente desconhecidos do meio acadêmico, ou melhor, dos profissionais de estudos linguísticos, nas universidades do Estado do Rio de Janeiro.

Entreguei o trabalho na universidade, com o coração meio apertado, pois eu sabia muito bem que, embora tivesse o peso de uma originalidade e a descoberta sobre uma inumerável lista de falhas educacionais que poderiam servir de base para muitos estudos, o trabalho não tinha nada  a ver com o título da disciplina. Eu era a única caloura da turma e, como agravante,  todos  os outros, já veteranos, tinham lá os seus contatos e entregaram objetos de estudos já conhecidos. A desvantagem era evidente. Seja o que os deuses quiserem.

Eles quiseram.

Em março, quando fui olhar minhas notas no quadro de avisos, fiquei aliviada com o conceito A da outra disciplina, mas... não havia nota à frente do meu nome em "Patologias Verbais". Apenas uma anotação: "procurar o professor da disciplina".

Pronto, estava ferrada. Ele não aceitou meu trabalho!

Procurei o Heye. Estava, como sempre, calmamente sentado em sua sala, rodeado de livros, fumando tranquilamente seu cachimbo.

Entrei com o coração aos pulos. Ele me olhou por cima dos óculos:

- Senta aqui, não se preocupe, quero falar com você.

Sentei-me em cócegas. O que havia de errado no meu trabalho? No fundo, eu sabia: não era um trabalho sobre patologias! Mas eu tinha de defender minha nota até o fim. Afinal, eu não estava estudando com bolsa, pois continuava a trabalhar na universidade e cada disciplina era cursada com um sacrifício inexplicável. Dar aulas, trabalhar e ser dona de casa era uma tarefa tripla difícil de cumprir. E, se eu parasse de trabalhar para ter direito à bolsa de estudos, com certeza, uma universidade particular não iria guardar minha vaga por quatro anos... não tinha jeito. Era levar assim, sem chance de dizer que "não dá". E dispensar uma tarde para uma disciplina, estudar prá caramba e perder o crédito era algo fora das minhas cogitações.

Foi com esse pensamento que eu dava tratos às bolas para defender meus créditos. Talvez estivesse um pouco pálida, não sei. Nervosa, era óbvio de se notar.

Mas o Heye sorriu. Abriu uma gaveta, puxou meu trabalho e o dirigiu a mim:

- Estou no Brasil há pouco tempo, mas conheço sua língua o suficiente para entender o jogo de palavras que você vai ouvir: "Isto dá um tesão". Vá para casa, releia com calma e depois venha conversar comigo.

Fiquei olhando para aquele homem grande, meio louro, meio viking, com pouco sotaque, sorrindo para mim. Me senti completamente afogada em um monte de argumentos desnecessários e evidentemente, sem palavras. Estava bem claro que eu tinha tirado conceito A, que fora aprovada... e que ainda estava com uma proposta de tese nas mãos!

Dali, após uma leitura atenta do que eu tinha feito, me convenci de que era um bom tema para minha tese: original, inédito, tudo por fazer. Mas não achei, em todo o Rio de Janeiro, alguém que pudesse me orientar. Ninguém, dentre os professores daqui tinha sequer lido qualquer coisa sobre surdez! Voltei ao Heye:

- Pois é... você me cutucou e agora não acho orientador. Tem de ser você!

- Mas eu não sei nada sobre surdez! Sequer vi um surdo em toda a minha vida!

Nessas idas e vindas, já nos tínhamos encontrado várias vezes e tínhamos desenvolvido uma relação mais próxima. Heye não era apenas um professor atento... era um ser humano incrível. Eu vinha percebendo isso em cada encontro, o suficiente para poder brincar:

- É... quem mandou  plantar a semente? Agora, rega!

Do jeito que pôde, ele regou. Só me ajudou com a metodologia da pesquisa, como combinamos. O resto, ficou por minha conta.

O fato é que, o que seria apenas para me dar um certificado que me garantisse uma promoção acadêmica na tal universidade onde eu trabalhava, transformou-se em um projeto de vida. 

Acabei desprezando o título de titular da cadeira, que consegui, após dois anos. Minha cabeça já estava em outro mundo e me impulsionou a fazer um concurso para uma universidade pública, em busca de melhores condições de trabalho para desenvolver meu novo projeto de vida acadêmica: saí da tal universidade, entrei para uma universidade pública e pude construir um programa de projetos e pesquisas e de atendimento à comunidade Surda que se estendeu a nível nacional - o "Programa Surdez: Educação, Saúde e Trabalho".

Passei os 20 anos seguintes de minha vida acadêmica, complementando os estudos que vinha fazendo, desde 1979. Desenvolvi projetos com especial atenção à alfabetização de crianças surdas, a convênios de atendimento da comunidade no hospital universitário e dedicação à inserção de surdos no mercado de trabalho. 

Entre as principais atividades, juntei meus esforços à luta de vários segmentos da sociedade no sentido de conseguir que a Língua de Sinais fosse uma língua reconhecida em âmbito nacional. Este último projeto foi um dos mais árduos e marcou minha carreira de modo especial, por escrever o parecer técnico que serviu de respaldo para a aprovação da Lei 10.436, de 24 de abril de 2002, com o reconhecimento da Línguas de Sinais como a Língua Oficial da Pessoa Surda, no Brasil.

Feito isso, me aposentei, em 2003, completamente recompensada por uma vida acadêmica cheia de muito trabalho, lutas, esforços, realizações em artigos, livros e trabalhos compensadores. Não foi fácil, mas foi muito bom!

É por isso que cada dia 24 de setembro, soa como aniversário para mim.E me lembro com muita gratidão e carinho, um carinho muito especial mesmo, de Jürgen Heye, que já está tomando seus vinhos com os deuses (que Baco o contemple com os melhores!).

Tudo porque a mãe de um jovem afásico, resolveu suspender as sessões de fonoaudiologia para viajar de férias para o norte do país...

sábado, 21 de setembro de 2013

DESEJOS



Duas semanas em Paris. Sonho acalentado, planejado, realizado... duas semanas inteirinhas, como quem mora lá, sem atropelos, sem a correria de quem vai por "dias curtos" e haver um monte de passeios a fazer. Nada disso.

Morar em um lugar por duas semanas faz toda diferença. Com todo respeito a quem pensa diferente, para mim, é muito melhor do que sair correndo para visitar cinco países em vinte dias, no frenesi de que você tem de engolir o mundo, como se ele fosse acabar depois de suas férias.

Nada de hotel. Alugar um pequeno apto, o suficiente para se sentir em casa. Não é apenas mais econômico, é algo como ter uma chave da cidade, representada pela chave nova em seu chaveiro antigo. Faz toda diferença! É um lugar "seu" para se voltar todos os dias.

Sem hora para acordar, sem ter de sair como um(a) doido(a) atrás do tempo. Sem hora para dormir, porque não existe um passeio no dia seguinte que começa às 8. Nada de dizer que "descanso na volta", pois é como assassinar a cidade com olhos que não têm tempo para "ver".

Duas semanas. Fazer de cada dia de sonho, o descanso da alma e do coração. Deixar que o físico diga quando você deve se levantar e ele que diga quando você deve voltar para casa... as noites custam a chegar e dá para caminhar quanto quiser. Voltar de madrugada, com a alma sorrindo em festa. Sair sem olhar para o relógio.

O que fazer amanhã? Amanhã eu vejo, depois de acordar...

Nada de atropelos e, sobretudo, dar lugar a antigos desejos.

Estive em Paris, ou melhor, estivemos em Paris, pela primeira vez, em 1975. Três dias. Não sei por que, ao passar pelo Café de la Paix (talvez por causa do livro de francês do colégio?), tive ímpetos de entrar. Sentar lá, pedir um chá, em frente ao Opera de Paris e sonhar por quantos séculos aquela cidade é um dos centros do mundo.

- Não temos tempo para isso, deixa para outra vez.

Voltamos a Paris em 1977. Três dias.

- Não temos tempo para isso, deixa para outra vez.

E foi assim, nas décadas de setenta, oitenta, noventa, sempre por dois ou três dias. 

Estive lá, novamente, em 2001, por conta de um congresso, mas uma greve da companhia aérea me privou de chegar uma semana antes e tive de voltar logo depois. Seria a primeira vez que eu poderia fazer o que quisesse, sem ninguém a interferir nos meus passos. Mas ainda não deu para me sentir em Paris, pois o congresso foi em Caen, o que me valeu uma visita a outro sonho: o Mont de Saint Michel. Mas isso é outra história, talvez outro conto. Passei, na volta, por Paris e fiquei só dois dias na cidade. Dois dias. Não deu nem para sentir seu aroma...

Agora, 38 anos depois da primeira vez, eu tinha a liberdade de não escolher fazer a volta à Europa em vinte dias. Afinal, eu não estava querendo competir com "A volta ao mundo em oitenta dias", pois, finalmente, não havia nenhuma competição com o tempo.

Passar pelo Café de la Paix, entrar e pedir um chá. Sem pressa, sem contornos, sem acompanhamentos desnecessários. Eu não queria bolo, biscoitos, saladas, crepes. Eu queria um chá. Uma chá de menta, aquecido como estava o meu coração.

No bulício da cidade grande, sentada em frente ao Opera, na antevéspera de voltar para o Brasil, eu me sentia plena e pronta para brindar duas semanas gloriosas, revivendo passo a passo, algumas de tantas aventuras de livros, que fazem de Paris uma das cidades de meu coração. 

Eu estava ali, 38 anos depois, saudável, feliz, sem pressa, olhar perdido no Opera... na verdade... olhar perdido para dentro de mim, para dentro de meu desejo enfim realizado.

Teve mais do que sabor de festa. Teve o sabor sensual de pertencer a Paris.

Após duas semanas de tantas aventuras - de me deitar na grama e olhar a Torre Eiffel, esperando anoitecer...  de brincar horas sem fim com o GPS do Louvre, procurando obras, detalhes...  de  assistir a um concerto na Sainte Chapelle, com os vitrais à meia luz, nesse ambiente que enfeitiça olhos e ouvidos...  de visitar museus que encantam como o olhar hipnótico de uma sábia serpente...  de andar por castelos e jardins ensolarados...  de fazer Tai Chi Chuan no Jardin des Tuileries (!!!)...  de voltar à Notre Dame e buscar, no "ponto zero" de Paris, a referência do mundo...  de esperar o por-do-sol nas Pirâmides do Louvre...   de banhar minha alma com esse verão glorioso e gentil, que me carregou, muitas vezes sem rumo, por essa cidade de sonhos.

Desejos... pequenos grandes desejos, carinhosa e cuidadosamente enfim realizados, num brinde à vida, mostrando que as escolhas são muito pessoais, divinas, incontestáveis... e fantasticamente inesquecíveis.

Café de la Paix. 

O chá mais caro e mais feliz que tomei em toda a minha vida!

sábado, 31 de agosto de 2013

VIAJAR


NA VOLTA EU CONTO!
DIA 21, SEM FALTA!


sábado, 24 de agosto de 2013

SE MEU CASACO FALASSE


 

Julho de 1977. Preparada para realizar um dos maiores sonhos de minha vida, arrumei as malas para visitar a Grécia. Por puro desencargo de consciência, joguei na mala um casaquinho comprado às pressas. Evidentemente que não foi necessário usá-lo para sustentar os 40 graus que enfeitam a Grécia nessa época do ano. Naquele ano, então, muito especialmente, foi um verão de rachar até para os gregos.

Dez dias depois, com meu coração morrendo de vontade de ficar muito mais, embarcamos, meu ex e eu, para Londres. No aeroporto, apressei-me o mais que pude para sair: que ar condicionado forte!!!

Mas... não era ar condicionado. Era aquilo mesmo a proposta de veraneio em Londres.  Santo casaquinho. Quando comentava com algum inglês sobre a cidade, só tive elogios a dar, mas com uma ressalva:

- O seu verão é muito inverno para mim.

Felizmente, a resposta que ouvia, me incitava a voltar em outra época:

- Está um pouco fresco para nós também.

De fato, quando fui a Londres, também no verão, em outra oportunidade, além do meu casaquinho, levei roupa um pouco mais pesada. O casaquinho, no entanto, foi mais do que suficiente.

Como voltei à Europa em alguns verões, entre as décadas de setenta e noventa, o tal casaquinho passou a fazer parte integrante da minha mala. Usei-o muito, evidentemente, dependendo da hora ou lugar.

Depois disso, a partir de 1990, quase o aposentei. Saiu de moda e passei a usá-lo só em casa.

O casaco, no entanto, parecia ter vida própria. Era só eu arrumar uma malinha e, pronto, quando me dava conta, ele estava lá dentro.

E acabou revivendo para o mundo, através de minha viagens. É engraçado como quase não o uso no cotidiano. Uso mais em casa e... em minhas viagens.

E quantas viagens ele viveu entre fugidas para descanso ou para trabalho (em palestras pelo Brasil e congressos no exterior, principalmente depois de 1995)!

Pensei nisso ontem, ao arrumar minha mala para minhas próximas férias de duas semanas, que começam amanhã. Quando me dei conta, pronto! Lá estava ele, bem dentro da mala, num canto que ele reservou, como cadeira cativa, para o teatro da vida!

Sem dúvida, ele nasceu aventureiro e pula para dentro da mala, ao menor sinal de viagem.

Ah... se meu casaco falasse... quantos contos ele teria para contar... E como está sempre em forma, nem aparenta a idade que tem! Eventualmente, quando o uso, alguém comenta:

- Que casaquinho lindo, como cai bem em você!

Aos 36 anos (mais da metade da minha idade!), permanecendo inteiro e cheio de vida, só posso concluir que é a aventura que lhe mantém o viço, a vontade singela de saber viver.

Vamos ver o que o aguarda, desta vez!

Quem sabe, se eu tiver um tempinho, ainda conto um pouco de lá mesmo. Caso contrário, me aguardem na volta com as novidades.


Obs.: Foto - eu e meu casaquinho entrando no Museu Britânico (1977 - foto de W. Fernandes).

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ÁRVORES E GOLFINHOS


Estamos em pleno inverno carioca. Um inverno típico de nossa terra, que oscila entre os 18 e os 28 graus. Neste ano, chegou aos 15 e quase viramos picolé. Mas, dia ou outro, por exemplo, temos inesperados e bem-vindos 30 graus. Praia e sol.

Andando pelo calçadão, em minhas caminhadas diárias, tenho a meu dispor e encanto uma paisagem de sonhos: mar, uma areia sem fim, árvores... no meio do bulício da cidade grande. Foi quando notei que as amendoeiras começam a dourar.

É certo que estamos próximos da linha do Equador e, por isso, nosso clima semi-tórrido não ostenta, com limites nítidos, a mudança das estações do ano, como na Europa, por exemplo.

Assim é que a natureza que nos cerca toma suas licenciosidades e, no nosso quase final de inverno, elas resolveram ostentar sua folhagem outonal.

Umas mais apressadas, outras não (como os seres humanos), suas folhas começam a dourar e a cair, enfeitando, ainda que timidamente, nossas ruas.

Somos mesmo um país imenso e cheio de identidades, que se alonga através das linhas equatoriais e meridionais: enquanto neva na região sul, o norte sofre a seca do verão nordestino. Menos de zero graus no sul, quase 40 ao norte, tudo num dia só.

E aqui no Rio, onde o inverno toma conta pedindo tímidas licenças, nossas amendoeiras cismaram que estão no outono. E acolho, enternecida, o compassado ritmo de seus corações.

Não creio que elas estejam atrasadas. Elas são as únicas donas de suas horas.

Na verdade não sei se antigamente as estações eram melhor definidas ou se isso acontecia apenas no continente europeu. Não tenho conhecimentos profundos sobre o assunto, mas sei que, neste ano, todos comentaram que a primavera europeia se atrasou. Nevava em pleno abril e as tulipas holandesas não floresceram no mês esperado. Pelo contrário, acordaram quase um mês depois, mostrando que não são os homens que, reservando hotéis e distribuindo panfletos turísticos, determinam quando Keukenhof tem de ser visitada. As tulipas, se eles querem saber, é que comandam o espetáculo.

Sinais dos tempos? Não sei. Acho que a natureza também está um pouco cansada dos relógios humanos. Está estabelecido que abril (no hemisfério norte) é mês em que as flores tem de aparecer. E... se não aparecem, os seres humanos dizem que a primavera está atrasada. Acho muita graça nisso pois é a natureza que está atrasada em relação ao tempo que é determinado pelo homem e nunca o homem é que se dá conta de que ele é que deveria ser o observador do que a natureza lhe diz e... acertar o "seu" relógio por ela.

Quando fui a Fernando de Noronha, anos atrás, havia uma excursão para ver a chegada dos golfinhos à baía. O folheto instruía os turistas, dizendo que o ônibus passava nos hotéis e pensões às 4 horas da manhã, pois os visitantes tinham o direito de ficar no mirante apenas das 5 às 6, hora determinada pelos biólogos para que a área de preservação geológica pudesse ser visitada. Todo o resto do dia era de entrada exclusiva dos pesquisadores. Alertavam, no entanto, que esta era a hora aproximada de entrada, mas não podiam garantir o sucesso do espetáculo.

Perguntei a um nativo da ilha se o passeio valia a pena.

- Não sei lhe dizer... os "estudiosos" dizem que eles entram na baía entre as 5 e 6 da manhã, mas... os golfinhos não usam relógio...

Não fiz o passeio.

Quando busquei o passeio de barco, já mais espertinha, fui direto ao cais, em busca dos pescadores, porque tinha ouvido falar que quando os golfinhos voltavam para o mar alto, com um pouco de sorte, os barcos poderiam vê-los e era um espetáculo muito interessante admirá-los circundando as embarcações:

-  A que horas, mais ou menos, os golfinhos saem da baía para o mar alto?

- Os "estudiosos" dizem que entre meio dia e uma hora.

- Mas o que você diz?

- Eu digo que, hoje, se você pegar o barco das 13, terá alguma chance.

- Por quê?

- Porque eles entraram mais tarde.

Fui atrás do pescador e  peguei o barco das 13horas. Na volta do passeio, já em torno das 14horas, tive um incrível e inesquecível espetáculo de golfinhos a minha volta, tão perto e tão emocionante como só uma visitante apaixonada pela natureza, como eu, pode ter.


Ao admirar a beleza da amendoeira enrubescida, meus pensamentos vagavam entre árvores e golfinhos, entre homens e seus relógios cronometricamente acertados de acordo com os critérios dos observatórios nacionais do mundo todo.

Textos científicos, análises biológicas, movimentos verdes...

Mas... onde está aquele olhar de filho (o olhar daquele pescador), observando o que, do fundo do coração (e não do fundo da análise química de suas entranhas) esta gloriosa e inefável mãe natureza tem a nos dizer e a receber de nós?

Talvez nossa grande mãe esteja muito cansada do andar das horas científicas, dos acertos cronométricos de suas atitudes, dos movimentos de massa, mesmo que a seu favor.

Mãe gosta de ouvir a voz de cada filho, em particular. Gosta de sentir o beijo de cada um, de cada um de nós, em nossos cuidados.

Acho que está faltando ouvirmos o ritmo descompassado e exausto de seu coração, de cuidarmos dela de fato (!)), com verdadeiro carinho e com os festejos de quem está atendo e observa seus passos, com os olhos da alma, como ainda o faz aquele sábio pescador.

domingo, 11 de agosto de 2013

PAI


Dia dos pais. Quantas coisas podem evocar o significado dessa palavra para a cultura em que vivemos.

Pai.

A figura do pai, tão essencial à formação psicológica do ser. Não me refiro ao pai biológico, embora ele possa encarnar (e deve!) o que quero dizer. Refiro-me à referência masculina, ao símbolo forte que representa em nossa personalidade.

Que modelos de pai buscamos no decorrer de nossas vidas, através de imagens, vivências, circunstâncias...

Posso dizer que tive muitas, entre os meandros de minha vida, que me fizeram mais forte, mais centrada, mais guerreira (por que não dizer viril, no sentido psicológico do termo?), mais inteira e mais segura.

Mas... nada como o reconhecimento da paternidade, da conscientização primeira, do confronto com a própria existência que faz de um homem sentir-se pai.

Em tempos antigos, os reis, os patriarcas precisavam acolher o recém nascido no colo para que este simbólico gesto pudesse representar o reconhecimento da paternidade. E, só então, todo o reino entrava em júbilo pela vinda de mais um herdeiro.

Hoje, quando vejo um pai embevecido em seu primeiro contato com seu filho ou sua filha, percebo a imensidade psicológica do momento e vejo que a situação se inverte: não é mais o homem que reconhece sua herança, mas o homem que se conscientiza de seu posto de pai, posto que lhe é legado por um pequenino ser frágil, que lhe chega aos braços.

É o filho ou filha que o faz pai. Ao contrário de uma visão mais antiga, quem recebe a coroa é o pai e não vice-versa. É a vinda do filho ou filha que o faz sentir-se, enfim, rei em toda a dimensão terrena de ter completado o ciclo familiar a que veio.

E faço uma homenagem especial a esta foto, que tive a sorte de captar, no momento do primeiro contato embevecido de um pai, contemplando, pela primeira vez, sua filha.

E a foto revela, por si mesma, quem coroa quem aqui...

Aos pais que são verdadeiros pais, meu espaço de hoje.

domingo, 4 de agosto de 2013

DIAGNÓSTICO



Ok. Concordo. Virou nossa vida de cabeça para baixo. Bagunçou tudo por aqui. 

Quem mora ou trabalha em Copacabana sentiu na pele todo o desconforto que foi conviver, na semana passada, com o evento da JMJ. Um bairro apertado, com mais de um milhão de habitantes em seus 4 quilômetros de comprimento. Se todos os moradores resolvessem sair às ruas ao mesmo tempo, já teríamos um quadro de deslocamento inviável. Com tantos visitantes então...

Recebemos milhares de convidados jovens, num trânsito frequente, durante uma semana. E nem me refiro aos três milhões dos dois últimos dias. Refiro-me apenas às centenas de milhares que povoaram o bairro, andando o dia todo de cá pra lá e de lá pra cá. 

Sou moradora e também trabalho no bairro. Vivi o transtorno... mas... quer saber? Gostaria de ter uma JML por ano!...

Explico por quê: nosso bairro nunca esteve tão alegre e... também.... nunca esteve tão limpo! Não deveria ser o contrário? Pois não foi. 

No quesito limpeza, foram os dias mais limpos desde os primeiros anos que me mudei para cá. E fiquei intrigada com essa situação, até porque nas conversas que ouvia por aqui, moradores rabugentos (outros nem tanto...) comentavam:

- Isto vai ficar uma sujeira! Imagine! Cinco dias em ritmo de reveillon!

Acho que foi por causa disso que a limpeza me chamou a atenção. E como ia e vinha de casa para o consultório quatro vezes por dia, entre muitas coisas, o quesito limpeza acabou fazendo parte importante na observação retratada em minhas fotos.

Onde quer que eu fosse, de dia ou à noite, antes de os garis fazerem a sua ronda, ao contrário das expectativas da população local, o que eu percebia eram ruas e calçadas limpas!



 






Ao voltar do consultório, à noite, notava que o chão dava muito pouco trabalho aos garis



Embora o lixo fosse resultado do uso de milhares de pessoas por dia, eles se acumulavam nos lugares certos


 Dizem que havia lixo na areia, principalmente no último dia. Bem... no último dia, com três milhões de pessoas entulhadas na praia de Copacabana, duvido que alguém conseguisse andar pela areia atrás de alguma lixeira. Na verdade, eu nem sei onde eles arranjavam espaço para balançarem seus braços quanto mais para caminharem.


De qualquer modo, o resultado da coleta do lixo foi a de que se recolheu, em toda a semana, um terço de lixo que se recolhe no dia 01 de janeiro, depois da noite do Reveillon! Uma semana inteirinha, imagine!...

De onde vem, então, tanto lixo diário, já que nosso bairro está longe de ser um exemplo de chão limpo? Dos jovens da JML não é já que deram um banho de civilidade, aliás, não só no quesito limpeza; dos moradores não pode ser, já que estávamos aqui o tempo todo, durante a semana, e as ruas, calçadas, esquinas e recantos permaneceram limpos... 

Quem, afinal, então, polui nosso bairro?

Com essa pergunta na cabeça, saí os primeiros dias depois do evento, com minha máquina em punho. E parece que fiz umas descobertas interessantes... 

O evento acabou no domingo. Comecei a tirar fotos na quarta-feira. Que tipo de lixo temos? Fiquei supreendida com a resposta: nosso lixo vem, predominantemente de restos de lanches - copos, canudinhos, papéis de balas, biscoitos - além de panfletos rejeitados pelos transeuntes, depois de recebe-los dos inumeráveis panfleteiros de nosso comércio.





Detalhe:

Os canteiros onde moram nossas árvores, voltaram a servir, essencialmente, de cinzeiros ao ar livre, tantas guimbas de cigarro foram encontradas por ali, sem contar com o lixo, de modo geral.


Mas esse lixo não estava ali na semana passada e, com certeza, a limpeza desses lugares não se deu por conta de rondas extraordinárias de garis. Eu estava por aqui o tempo todo e notei que eles só apareciam mesmo no final do dia.

Fora os panfletos (os panfleteiros não trabalharam na semana do evento), todo o resto do lixo, durante aquela semana, poderia ter sido depositado por moradores e pelos visitantes da JML... e não foi, visto que o bairro apresentou uma limpeza exemplar.

Então, minha hipótese repousa nos visitantes - trabalhadores de outros bairros da cidade que para aqui vem em busca de seu ganha-pão, e as pessoas que vem usufruir do nosso comércio e nossos serviços que são muitos (consultórios médicos, academias, escolas, cursos, lojas...). Esta hipótese coincide com o tipo de lixo: restos de lanches. Os moradores dificilmente fariam "lanches" nas ruas, já que moramos aqui... 

E os jovens que teriam tudo para se espalharem numa expectativa esperada de "má educação, tumulto e bagunça" deram a todos uma aula de alegria, postura e bons princípios. Fossem eles de fora ou daqui, comportaram-se com "gente grande", como afirmaria o dito popular.

Posso concluir, portanto, que muita "gente grande" está precisando de uma boa aula de "boas maneiras" dessa juventude que enfeitou nosso bairro na semana passada. 

É por essas e outras que, salvados os transtornos, pela alegria que compartilhei, pela limpeza e pela energia de vida e de luz com que convivi nesse dias, posso afirmar, independente de qualquer credo ou religião:

- Quero minha JMJ de volta!!!...