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sábado, 13 de setembro de 2014

A FLOR



Orquídeas são belas, delicadas, melindrosas. Mas não as menospreze em sua resistência: são guerreiras.

Mais do que isso: tem personalidade própria e ai de você se tenta tirá-las de seu canto favorito. A não ser que ela decida que gosta da sua sala ou de seu quarto, desista. Ela vai morar onde quiser, senão reclama, cria rugas nas folhas, literalmente envelhece, fica ranzinza... e, se você bobear, morre.

É preciso estabelecer um convívio de mútua confiança e respeito. Ela fica onde gosta e você vai visitá-la com frequência. Aliás, nem precisa ser com tanta frequência. Na verdade, ela se basta. Não precisa de muita água, pelo contrário, gosta mesmo que a deixem em paz com suas folhas, suas raízes soltas, seus autocuidados.

Se se sente respeitada à altura, não vai lhe negar seu presente anual: flores belíssimas e duradouras. Um mês de encantamento diário, no mínimo.

Esta é minha orquídea. Escolheu viver na área de serviço. Fica lá, bem no cantinho do peitoril, resguardada por uma grade de proteção. Quanto mais no cantinho, melhor, pegando uma nesguinha de nada de sol, que passa tão rápido que nem chega a esquentar. 

Não é para ser mexida, mas me dá excelentes bons-dias, posso garantir. É quase um bom dia de reconhecimento pelo respeito a sua quietude. Ela até aceita ficar uma tarde descontraída de domingo em minha sala. É como se ela fosse me fazer uma visita. E volta no início da noite para seu cantinho na área, para seu repouso merecido. Imagino-a sentando-se confortavelmente em suas folhas, espreguiçando-se manhosamente para dormir, depois de uma tarde fora de casa.

Assim respeitada, brinda-me com suas flores, anual e pontualmente.

Estou em obras. A área está repleta de bagunças, muito lixo de entulho, poeiras de todos os tipos. Achei que ela fosse se ressentir. Pensei em trazê-la para a sala. Fiz. Em poucos dias, ela já se mostrou amuada.

Seja o que os deuses quiserem: levei-a de volta para a área de serviço.

Até acho que ela está gostando do pó gerado pela obra. Um pó ácido, com certeza. Lembrei-me de que um pH um pouco ácido não é lá um desconforto para este tipo de planta. Deve estar até gostando.

Mas é um contraste estonteante mirar a beleza e pureza de seu branco incomparável com o ambiente em que se encontra.


Uma flor, no lixo, poder-se-ia dizer (aliás, como diz S..., um amigo). 

Como uma flor-de-lotus, nascida na lama, esta nasce fagueira e singela no meio dessa confusão toda, com  sua beleza inenarrável.

Poderia imaginar que ela, neste momento, com todas essas flores de um branco imaculado, está morando ali?

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

SINGELEZAS


Quando vou a Buenos Aires, a ida ao Rosedal é obrigatória. E vou a Buenos Aires muitas vezes, principalmente por conta dos cursos de Reiki. Geralmente, passo uma manhã ou uma tarde inteira passeando entre os mais diversos tipos de rosas, nesse jardim tranquilo e sempre encantador.

Ao fundo, o barulho dos carros que atravessam as avenidas de Palermo é a única lembrança de que estamos em pleno bulício de uma cidade grande. O que conta mesmo é o canto dos pássaros e o farfalhar do vento fresco, em plena primavera ou verão.

É bom voltar ao jardim, no meio das rosas, como quem não deixa de visitar um amigo, quando passa por sua cidade. Sento-me aqui e ali, desfruto os perfumes, as cores...






Da última vez, no entanto, uma coisa me chamou a atenção. Era um dia belíssimo e fiquei imaginando que, se eu fosse uma abelha, aquele seria o paraíso que a natureza teria criado para mim: tantas e tantas roseiras floridas a minha disposição. Comecei a procurar por elas e, incrivelmente, não consegui achar uma sequer voejando em torno de tão galantes princesas.


Havia ido tantas vezes ao Rosedal e nunca tinha me dado conta da ausência das abelhas. E é justamente nestes momentos, que a vida nos revela seus mais discretos segredos: baixando os olhos para umas florezinhas amarelas que brotavam sem cuidados pela relva, descobri minhas trabalhadeiras.


Ali, naquelas singelas florezinhas, despidas das honras que levam os turistas a esse portentoso jardim, é que se esconde a mais rica fonte de doçura e prazer para as pequenas abelhas. E voejavam insistentes e até afoitas, nas primeiras horas daquela manhã luminosa e gentil.

Não nas mais belas, perfumadas, vistosas e premiadas por concursos... não... justamente naquelas que ninguém vê, disfarçadas na grama, como que pedindo licença, nas beiradas dos espaços da nobreza.


Estava ali, onde quase não se nota, a mais pura e verdadeira riqueza desse jardim. 

Pequenos frascos... poderosas poções...


Obs.: para quem gosta de exposição de flores: a rosa lilás, foto exposta no texto, chama-se Meibrelon, de Michele Richardier, França. Recebeu o  primeiro prêmio, em 2005, como a rosa mais perfeita do jardim. O concurso ocorre uma vez por ano, na primavera.