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sexta-feira, 11 de julho de 2014

CAPITALISMO IGNORANTE


 Quando vejo algo muito errado, muitas vezes, minha curiosidade científica fica aguçada, mesmo que seja um evento cotidiano e, principalmente, se causa espanto ou consternação.

É o caso do trânsito de nossos ônibus.

Com muita frequência, vejo meus amigos reclamando - e com muita razão - do comportamento de nossos motoristas que, simplesmente, não param nos pontos. Passam por fora, ignorando os acenos tantas vezes desesperados de candidatos a passageiros que já os esperavam "faz tempo"! Sim, candidatos, pois, uma vez no ponto, você se torna um suposto candidato a conseguir chegar ou não ao seu destino no tempo previsto.

Por que isto está acontecendo? Pura impaciência do motorista, intolerância, insensibilidade ao próximo, vontade de correr, aproveitar a pista vazia?

Após alguma investigação, em papos informais com os próprios motoristas - afinal, minha vida acadêmica foi recheada de levantamento de dados em pesquisa de campo - acabei por chegar a uma conclusão estarrecedora.

Por incrível que pareça, muitas empresas de ônibus exigem e pressionam os motoristas a realizarem um mínimo de viagens por dia. E não são poucas.

Como assim, um mínimo de viagens por dia? 

Alguns desses empresários já se deram ao trabalho de saírem de seus confortáveis carros caríssimos, cheios de recursos confortabilíssimos e com todas as chances de mudarem de roteiro, escolhendo os melhores caminhos para chegarem aos seus objetivos? Será que já se sentaram na cadeira do motorista de seus ônibus, em pleno verão carioca, suando em bicas para levar a bom termo seu dia de trabalho, com toda essa pressão?

Claro que não!

Todos nós reclamamos do trânsito, nessa cidade que cresceu desproporcionalmente. Venho a pé do consultório para casa todos os dias. Seja às 20 horas, seja mais tarde, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana está entupida de carros. Muitas vezes, andam quase passo a passo comigo!

Entendo, portanto, por que muitos motoristas passam ao largo, sem pararem nos pontos, todas as vezes que veem uma pista mais vazia, uma brecha no trânsito, uma forma de chegarem mais rápido. Deixaram de ser motoristas de transporte público para serem cidadãos ameaçados que precisam alcançar metas para garantirem seus empregos.

Resultado: mau atendimento ao passageiro, objeto direto do serviço; desgaste desnecessário do motorista que se empenha (tantas vezes inutilmente) para alcançar sua meta quase impossível; prejuízo dos donos das empresas, pois, além de perderem inúmeros passageiros com esta manobra de seus funcionários, veem seus ônibus muitas vezes depredados pela população indignada - perda muito maior do que deixar que seus motoristas trabalhem naturalmente.

Explica, mas não justifica. Tem sentido? Claro que não.

Perdem todos, inclusive, o capitalista sedento de lucros e muito longe de saber, sequer, gerir com sabedoria o seu negócio. E não é só por sua sedenta ignorância,  mas, principalmente, pela perda da verdadeira maneira humana de ser.